quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Preservação e conservação da natureza, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Preservação e conservação da natureza, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“É triste pensar que a natureza fala e que a humanidade não a ouve”
Victor Hugo (1802-1885)

ego x eco

[EcoDebate] Preservar e conservar o meio ambiente são tarefas essenciais, pois a humanidade depende da natureza e não o contrário. As atividades econômicas necessárias para a sobrevivência do ser humano e a expansão do bem-estar das pessoas dependem da saúde dos ecossistemas. Sem ECOlogia não há ECOnomia.


Preservação e conservação são termos diferentes, mas que podem ser equacionados em uma visão holística de sustentabilidade ecocêntrica. Preservação quer dizer proteção integral, ou seja, manter um determinado ecossistema intacto e sem interferência da ação humana (áreas anecúmenas). Conservação significa exploração das riquezas naturais, com avaliação de custos e benefícios, garantindo a sustentabilidade para as atuais e futuras gerações (áreas ecúmenas).


O grande problema do mundo atual não é a diferença entre preservação e conservação, mas sim a predominância generalizada da degradação ambiental. O crescimento das atividades antrópicas aumentou muito desde o início do capitalismo industrial, energizado pelos combustíveis fósseis. Segundo o site Our World in Data, em 1820, cerca de 94% da população mundial vivia abaixo da linha da extrema pobreza, contra menos de 10% atualmente.


Mas o crescimento exponencial ganhou momento depois da “grande aceleração” que aconteceu após a 2ª Guerra Mundial. A população mundial passou de 2,5 bilhões de habitantes em 1950 para 7,5 bilhões em 2017. Enquanto a população mundial triplicou de tamanho, a economia internacional foi multiplicada por 12 vezes. A renda per capita subiu 4 vezes. Ou seja, em 2016 havia 3 vezes mais gente no mundo, do que em 1950, e cada pessoa ganhava e consumia, em média, 4 vezes mais bens e serviços. Isto significa mais exploração e extração de recursos da natureza e mais poluição e descarte de resíduos tóxicos, sólidos e líquidos.


A humanidade ultrapassou a capacidade de carga do Planeta. A Global Footprint Network mostra que em 1961 havia superávit ambiental no mundo e as atividades antrópicas ocupavam apenas 73% da biocapacidade da Terra. Mas, com a “grande aceleração” do Antropoceno, a reserva ecológica foi sendo reduzida e, a partir de 1970, o superávit se transformou em déficit ambiental. Em 2013, a pegada ecológica per capita do mundo subiu para 2,87 gha e a biocapacidade caiu para 1,71 gha. As atividades antrópicas passaram a utilizar 168% da biocapacidade, ou seja, o déficit ambiental chegou a 68%, em 2013, e continua crescendo.


Segundo o Stockholm Resilience Centre a humanidade já ultrapassou 4 das nove fronteiras planetárias. Duas delas, a Mudança climática e a Integridade da biosfera, são o que os cientistas chamam de “limites fundamentais” e tem o potencial para conduzir o equilíbrio homeostático do Sistema Terra ao colapso.


Assim, o rumo atual da economia internacional é insustentável, pois o progresso humano ocorre às custas do retrocesso ambiental e sem os serviços ecossistêmicos e as contribuições da biodiversidade é impossível manter o alto padrão de vida humana. Portanto, é preciso preservar as áreas anecúmenas e conservar as áreas ecúmenas. Além disto, é preciso ampliar as áreas anecúmenas (aumentar as áreas preservadas e sem a presença humana) e decrescer as áreas ecúmenas (conservando da melhor maneira possível o meio ambiente nas áreas com exploração antrópica sobre o meio ambiente).


Por exemplo, não faz sentido, do ponto de vista da sustentabilidade, liberar a exploração de minério e de petróleo no Ártico, na Antártica e nos parques nacionais. Assim como não faz sentido aumentar a presença humana em territórios selvagens, quando o mundo caminha para a 6ª extinção em massa das espécies.


As correntes que defendem a conservação ambiental são aquelas acreditam ser possível conciliar o desenvolvimento econômico com a sustentabilidade ambiental. Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) se encaixam nesta perspectiva. Porém, está cada vez mais difícil conciliar desenvolvimento com sustentabilidade, pois:


– A concentração de CO2 já ultrapassou 400 ppm em 2014 e ultrapassou 410 ppm em abril de 2017. O nível seguro é 350 ppm;
– A temperatura média global do Planeta já ultrapassou 1,1 graus em relação ao período pré-industrial e o mundo caminha para a maior temperatura dos últimos 5 milhões de anos;
– A última vez que a temperatura ultrapassou 2 graus o nível do mar subiu 6 metros. Existem 2 bilhões de pessoas que vivem em áreas até 2 metros do nível do mar;
– O degelo conjunto do Ártico e da Antártica bateu todos os recordes de baixa em março de 2017;
– A acidificação dos oceanos está matando a vida marinha e um exemplo é a Grande Barreira de Corais da Austrália. Há sobrepesca e depleção dos estoques de peixe;
– Os oceanos terão mais plásticos do que peixes em 2050;
– Houve queda de 58% na população de animais selvagens no mundo entre 1970 e 2012. Até 2020, a perda pode alcançar a impressionante cifra de dois terços. Ou seja, 2 em cada 3 animais estarão extintos num período de 50 anos;
– A degradação do permafrost pode liberar metano e CO2 capaz de gerar uma situação apocalíptica.


Diante deste quatro de degradação ambiental fica difícil acreditar na possibilidade de manter o rumo do desenvolvimento com a conservação ambiental. O atual impasse que o mundo passa hoje poderia ter sido evitado se tivesse os autores do século XIX que alertaram para os perigos da racionalidade instrumental que via a natureza apenas como meio de enriquecimento humano, sem se importar com os direitos intrínsecos da natureza. O enriquecimento humano não pode se dar em função do empobrecimento ecológico.


O ser humano não tem uma relação simbiótica com a natureza. As abelhas, por exemplo, sugam a seiva das flores, mas não as destroem. Ao contrário, elas são polinizadoras. Quanto mais abelhas sugarem o néctar das flores, mais flores nascerão do processo de polinização. Mas o ser humano tem uma relação parasitária com a natureza, pois para se multiplicar causa prejuízo a outras espécies e aos ecossistemas hospedeiros. A espécie humana é do gênero ectoparasita. Um ectoparasita que está matando o seu próprio hospedeiro. A humanidade vive do parasitismo ecológico e está provocando um holocausto biológico.


Autores como Alexander von Humboldt (1769-1859), Henry David Thoreau (1817-1862) e John Muir (1838-1914) foram grandes defensores da natureza, da preservação ambiental e de uma relação mais simbiótica entre todos os seres vivos da Terra. Estes autores também foram inspiradores da Ecologia Profunda (Deep Ecology), que é uma corrente preservacionista.


A Ecologia Profunda é um conceito filosófico que considera que todos os elementos vivos da natureza devem ser respeitados, assim como deve ser garantido o equilíbrio da biosfera. O termo surgiu quando, em 1972, foi publicado o artigo “The shallow and the deep, long range ecology movement. A summary”, do filósofo e ambientalista norueguês Arne Naess (1912-2009). Ele distinguiu as correntes ambientais entre movimentos superficiais ou rasos (com tendência antropocêntrica e egocêntrica) e movimentos profundos (não antropocêntricos, mas ecocêntricos). Os movimentos rasos (ou maquiagem verde) limitam-se a tentar minimizar os problemas ambientais e garantir o enriquecimento das sucessivas gerações humanas (a despeito do empobrecimento da natureza), enquanto a Ecologia Profunda vai na raiz dos problemas ambientais e defende os direitos de toda a comunidade biótica.


Na definição do físico, ambientalista e escritor Fritjof Capra (nascido em 1939): “A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ela vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de ‘uso’, à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo, não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida”.


Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento. O biólogo da Universidade de Harvard, Edward Osborne Wilson acredita que o ser humano está provocando um “holocausto biológico” e para evitar a “extinção em massa de espécies”, ele propõe uma estratégia para destinar METADE DO PLANETA exclusivamente para a proteção dos animais. Isto significa preservar metade da área do planeta e conservar a outra metade. É preciso reselvagerizar o mundo.


Desta forma, preservação ambiental não é “mito moderno da natureza intocada”, mas sim uma postura ética de respeito à natureza e a favor da sustentabilidade ecocêntrica. A conservação é importante na perspectiva de diminuição das áreas ecúmenas, por meio do decrescimento demoeconômico.


Preservar a natureza e conter a expansão humana sobre os ecossistemas visa não só evitar o ecocídio, mas também evitar o suicídio, pois a humanidade não pode viver sem a natureza e sem respeitar o equilíbrio homeostático do clima.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/12/2017
"Preservação e conservação da natureza, artigo de José Eustáquio Diniz Alves," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/12/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/12/20/preservacao-e-conservacao-da-natureza-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

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Firmado acordo internacional para criar mais 3 milhões de hectares em unidades de conservação na Amazônia





floresta amazônica

O Ministério do Meio Ambiente assinou ontem (19) uma parceira com o Banco Mundial, o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FunBio) e a Conservação Internacional (CI) com o objetivo de transformar mais 3 milhões de hectares na Amazônia em unidades de conservação, no prazo de cinco anos. Ao todo, serão investidos US$ 60 milhões, oriundos do Fundo Mundial pelo Meio Ambiente (GEF, sigla em inglês).


Denominado Projeto Paisagens Sustentáveis da Amazônia, a parceria prevê ainda melhorar o gerenciamento de unidades de conservação e aumentar a área sob restauração e manejo sustentável na Amazônia brasileira. Segundo o ministério, que coordenará e definirá as ações do projeto, a parceira apoiará o Programa de Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), criado há 15 anos, e que já transformou mais de 60 milhões de hectares em unidades de conservação na região.


“Considero o ato de hoje de grande importância. Tenho dito que a gente não pode continuar eternamente no comando e controle como maneira de manter a Floresta Amazônica prestando seus serviços ambientais. É preciso que a gente valorize o bem ambiental. Esses recursos vão ao encontro dessa ideia. Temos que agir, de todas as maneiras possíveis, para dar à vertente da sustentabilidade um fortalecimento adequado”, disse o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, durante a solenidade de assinatura.

O projeto prevê ainda a cooperação internacional entre Brasil, Colômbia e Peru na área de criação de área protegidas. Referência internacional no tema, o Brasil irá repassar aos vizinhos a sua experiência.

“Tenho o prazer de ver como esse projeto foi desenvolvido, no sentido de melhorar as condições de vida das pessoas que vivem na região amazônica e de iniciar a segunda geração de projetos de área protegidas”, disse Martin Raiser, diretor do Banco Mundial para o Brasil.

“De um lado, a sustentabilidade econômica, cada vez mais recursos do Brasil se juntando aos demais doadores; e também o aspecto regional. É o primeiro projeto na região amazônica que tem ligações muito próximas com a Colômbia, o Peru, países que querem se beneficiar das experiências do Brasil e aprender para repetir”, acrescentou Raiser.

Além do Ministério do Meio Ambiente, o projeto será coordenado também pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A definição das ações terão a participação dos estados do Acre, Amazonas, Rondônia e Pará.

A parte operacional do projeto ficará sob responsabilidade do Banco Mundial, Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e Conservação Internacional (CI).


Por Ivan Richard Esposito, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/12/2017

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A trágica história de Jumbo, o elefante mais famoso do mundo, que inspirou Disney e apelidou avião



A trágica história de Jumbo, o elefante mais famoso do mundo, que inspirou Disney e apelidou avião

Equipe de cientistas analisou os restos mortais do elefante para um documentário da BBC e desvendou mistérios de uma vida marcada por sofrimento.




Por BBC
20/12/2017 15h41 Atualizado 20/12/2017 15h41 

Jumbo passeia com visitantes do zoológico de Londres; peso provocou lesões nos quadris e joelhos do elefante

Ele se tornou uma celebridade assim que chegou a Londres, onde multidões se aglomeravam para ver o "maior elefante do mundo". 

Jumbo, como era conhecido, desembarcou na capital britânica em 1865, vindo da África, onde foi capturado quando era filhote. 

O elefante era tão popular na época que até os filhos da rainha Victoria eram seus fãs. 

Ele inspirou um dos filmes mais famosos ​​da Disney: Dumbo, que conta as aventuras de um elefante voador. E foi também a origem do apelido dado ao Boeing 747, devido ao tamanho da aeronave. 

Um documentário da BBC, apresentado pelo renomado naturalista britânico David Attenborough, reuniu especialistas de diferentes áreas para examinar o esqueleto de Jumbo, que está no Museu de História Natural de Nova York. 

O naturalista David Attenborough e um grupo de cientistas examinaram o esqueleto de Jumbo para um documentário da BBC

A ideia era desvendar alguns mistérios que rondam o célebre elefante. Como ele morreu exatamente? Por que sofria ataques de fúria? Será que ele foi realmente o "maior elefante do mundo"?
Os resultados da investigação causaram tanto surpresa quanto tristeza nos especialistas.

Jumbo era muito popular entre as crianças, incluindo os filhos da rainha Victoria  (Foto: Wiki Commons)
Uísque como calmante

Fotografias e gravuras da época mostram Jumbo no zoológico de Londres, carregando diversos visitantes - de crianças a adultos - nas "costas". 
Ter a oportunidade de "andar de Jumbo" era certamente uma das aventuras mais emocionantes para as crianças londrinas. 

Mas o elefante que era manso durante o dia sofria "ataques de fúria" à noite - os acessos de raiva chegaram a danificar, em diversas ocasiões, as cercas de madeira que ficavam ao seu redor.
Alguns relatos sugerem que Matthew Scott, o fiel cuidador de Jumbo, costumava dar uísque ao animal para acalmá-lo. 

O zoológico concluiu então que Jumbo poderia se tornar uma ameaça para o público e decidiu vendê-lo, em 1882, para o circo norte-americano PT Barnum. 

O animal se recusou, no entanto, a entrar em um curral de madeira para ser levado para o navio, quebrando várias vezes as correntes que tentavam contê-lo. 

E só "concordou" em embarcar quando os donos do circo aceitaram que Scott viajasse com ele - o cuidador conseguiu acalmá-lo. 

Centenas de pessoas foram até o porto se despedir de Jumbo, que duas semanas depois desembarcaria na costa leste dos Estados Unidos. 

Em terras norte-americanas, o elefante continuou super popular - percorreu todo o país com o circo, chegando até o Canadá. Mas morreu ainda jovem, com apenas 24 anos, quando foi atropelado por um trem, em um incidente rodeado de mistério. 

Dores fortes

Attenborough e um grupo de cientistas começaram então a examinar o esqueleto de Jumbo.
Jumbo, 'o maior elefante do mundo', foi uma grande atração nos dois lados do Atlântico (Foto: Wiki Commons) 

Richard Thomas, arqueólogo da Universidade de Leicester, no Reino Unido, observou que Jumbo tinha uma sobreposição incomum de camadas de ossos novos e velhos nos quadris.
"São sinais de lesões que seu organismo estava tentando reparar", disse Thomas no documentário da BBC. 

"Essas lesões devem ter sido incrivelmente dolorosas e foram resultado do peso que Jumbo teve que transportar, carregando grupos de visitantes". 

De acordo com Thomas, o excesso de peso também causou lesões no joelho do animal.
"Quando olhamos seus joelhos, vemos todos os tipos de modificações que você não esperaria encontrar em um elefante daquela idade. Não esqueçam que Jumbo tinha apenas 24 anos e ainda estava crescendo." 

"Os ossos dele parecem mais com os (ossos) de um elefante de 40 ou 50 anos", completa. 

Fúria noturna
Os ataques da fúria noturnos eram tão violentos que o animal desesperado chegou a quebrar, em algumas ocasiões, suas presas. 

Jumbo era muito popular entre as crianças, incluindo os filhos da rainha Victoria (Foto: Wiki Commons) 

E quando a presas começavam a crescer, o elefante as desgastava, esfregando-as contra as cercas.
Uma das autoridades do zoológico, Abraham Bartlett, atribui o comportamento noturno de Jumbo a um fenômeno conhecido como must - período em que elefantes do sexo masculino apresentam comportamento agressivo, acompanhado de um forte aumento nos níveis hormonais. 

Mas Vicki Fishlock, pesquisadora de elefantes baseada no Quênia, discorda. 

Segundo ela, se os hormônios tivessem sido a causa da ira de Jumbo, o elefante teria sido violento até mesmo com seus cuidadores, o que não aconteceu. 

Dentes deformados

Os cientistas encontraram no crânio do animal uma pista que também pode explicar o comportamento violento - malformações muito pronunciadas nos dentes.
O cuidador de Jumbo, Matthew Scott, foi a única pessoa que conseguiu acalmar o elefante para embarcar no navio rumo aos Estados Unidos (Foto: Wiki Commons)
"Os elefantes têm seis dentes, mas apenas um de cada lado se desgasta em determinado momento. Quando o dente cai, outro dente nasce para substituí-lo, mas se o dente velho não se desgasta o suficiente, não cai, fazendo com que o novo dente fique deformado", explica Thomas.
A dieta de Jumbo no zoológico e no circo era bem diferente da de um elefante em seu habitat natural, onde os animais comem uma variedade de vegetação que permite a eles desgastar os dentes.
A conclusão de Thomas é que Jumbo "sofria com uma dor de dente terrível", que ficava mais latente durante a noite, quando não havia distrações. E provocava os ataques. 

Tamanho
Mas Jumbo era realmente o maior elefante do mundo?
Talvez sim, dizem os pesquisadores do documentário da BBC.
Jumbo ganhou estátua em St. Thomas, em Ontário, no Canadá, onde o célebre elefante morreu (Foto: Wiki Commons)
Uma fenda na cabeça do fêmur de Jumbo indica que o elefante ainda estava crescendo quando morreu.
Ao analisar os ossos, os cientistas determinaram que ele tinha uma altura de 3,45 metros - do ombro até o chão.
Um elefante africano selvagem da mesma idade tem, em média, 2,84 metros.
E Jumbo ainda estava em fase de crescimento, então poderia ter se tornado o maior elefante africano do mundo, de acordo com Thomas. 

Pelos da cauda
Após a morte, o corpo de Jumbo foi embalsamado e preservado pela Universidade Tufts, em Massachusetts, nos Estados Unidos.
Um incêndio destruiu os restos mortais do animal, com exceção do rabo, ​​que a pesquisadora Holly Miller, da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, analisou para descobrir sua dieta.
A cauda embalsamada de Jumbo foi salva de um incêndio e se encontra nos arquivos da Universidade Tufts, em Massachussetts (Foto: Wiki Commons)
Miller encontrou grandes níveis de nitrogênio nos pelos da cauda de Jumbo, o que indica que ele não era saudável.
Segundo ela, o corpo do animal não recebia os nutrientes necessários - e seu organismo extraía níveis anormais de nitrogênio dos alimentos na tentativa de cicatrizar as frequentes lesões.

Morte misteriosa


A vida de Jumbo chegou ao fim quando ele e outro elefante menor embarcaram em um trem na cidade de St. Thomas, em Ontário, no Canadá.
Jumbo ganhou uma estátua na cidade - e o museu local é quase um memorial do elefante.
Matthew Scott, o cuidador de Jumbo, aparece junto às orelhas do elefante em foto tirada após a morte do animal (Foto: Wiki Commons)
Entre as muitas fotografias e gravuras do acervo, uma chamou a atenção de Attenborough.
A imagem mostra Jumbo morto após a colisão com o trem - e é possível observar marcas profundas em seu quadril.
O dono do circo disse inicialmente que ele teria se jogado na frente do trem para proteger heroicamente o elefante menor.
Mas as marcas indicam que, na realidade, o trem atropelou Jumbo por trás, quando o elefante estava sendo embarcado em um vagão.
 
O esqueleto que está no Museu de História Natural de Nova York não apresenta fraturas, o que fez os cientistas concluírem que Jumbo morreu de hemorragia interna. 

Elefantes 'aposentados'

A história de Jumbo tem contornos muito atuais. 

Attenborough visitou um santuário no Tennessee, nos Estados Unidos, para elefantes de circo "aposentados" - e muitos animais que estão ali apresentam sintomas semelhantes aos de Jumbo. 

Os elefantes do santuário têm as presas desgastadas, esfregando-as constantemente em sinal de agitação e estresse. 

Segundo Vicki Fishlock, zoológicos e circos não podem ser o lar de elefantes como Jumbo.
Eles devem viver em seu habitat natural - são animais sociais, que precisam de contato com seus pares, de acordo com a pesquisadora. 

Na foto tirada após a morte de Jumbo, Matthew Scott, seu fiel cuidador, aparece ao lado do corpo. Segundo contam, ele chorou inconsolavelmente diante da partida do amigo inseparável. 


A empatia de Scott foi certamente o grande incentivo de Jumbo ao longo de sua breve existência - tão célebre quanto trágica.