sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Povo Pataxó restaura áreas degradadas em corredor ecológico, no sul da BA, com espécies que cobriam o solo antes de 1500

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Povo Pataxó restaura áreas degradadas em corredor ecológico, no sul da BA, com espécies que cobriam o solo antes de 1500

Povo Pataxó restaura áreas degradadas em corredor ecológico, no sul da BA, com espécies que cobriam o solo antes de 1500

por Sibélia Zanon*

“A nossa Mata Atlântica tem vários seres vivos de muita importância, espécies que já estão em extinção e que a gente precisa trazer de volta”, diz o indígena da etnia PataxóMatias Santana, presidente da Cooperativa de Trabalho de Florestadores e Reflorestadores da Aldeia Indígena Pataxó Boca da Mata (Cooplanjé), no sul da Bahia. “A cooperativa de trabalho nós criamos pra trazer emprego pra comunidade, pros familiares”.

De 2018 até este ano, a Cooplanjé trabalhou na restauração de 210 hectares de áreas degradadas de Mata Atlântica para aumentar a conectividade florestal entre o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal – primeiro pedaço de terra avistado pelos colonizadores portugueses – e o Parque Nacional do Pau Brasil, integrando também a Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, da etnia Pataxó.

“Foi a primeira vez que o BNDES financiou um projeto de SAF [sistema agroflorestal] no bioma Mata Atlântica”, conta Marcos Lemos, do Grupo Ambiental Natureza Bela, parceiro dos Pataxó no projeto. Dos 210 hectares, 50 foram restaurados dentro da aldeia Boca da Mata em Sistemas Agroflorestais. “Esse SAF nós usamos como estratégia de restauração do Monte Pascoal”.

Povo Pataxó restaura áreas degradadas em corredor ecológico, no sul da BA, com espécies que cobriam o solo antes de 1500
Trabalho de manutenção de área restaurada no entorno do Parque Nacional do Pau Brasil, no sul da Bahia. Foto: Grupo Ambiental Natureza Bela/divulgação

Além de o SAF produtivo formar uma espécie de cinturão verde, evitando a entrada de focos de incêndio no interior do Parque Nacional, ele é um meio para fortalecer a sobrevivência das comunidades indígenas. “A unidade de conservação tem uma sobreposição com as comunidades da TI Barra Velha do Monte Pascoal, que compreende 16 aldeias no entorno do parque”, explica Marcos.

Antes de 1500

“Hoje, eu imagino que a gente tenha cerca de 2 mil hectares ou mais em processo de restauração no Corredor Ecológico Monte Pascoal-Pau Brasil, boa parte deles concentrados nas bordas dos parques”, conta o pesquisador Paulo Dimas Rocha de Menezes da Universidade Federal do Sul da Bahia.

Desde 2005, projetos de restauração têm colaborado para a formação do Corredor Ecológico, que objetiva conectar a floresta, contribuindo para o fluxo gênico de animais e espécies vegetais e também implementar atividades econômicas que favoreçam os povos da região.

“Nós temos uma pressão e histórico de desmatamento e de ocupação dessa região que foi exclusivamente madeireira, retirando primeiro a Mata Atlântica e entrando depois com pastos”, diz Marcos.

“A gente vem com todo um conjunto de ações e instituições para manter o que existe e avançar na preservação, tendo em vista que nós estamos numa região com três Parques Nacionais e temos ainda o Parque Marinho de Abrolhos, que sofre influência dessas áreas de recarga”.

Nesta região de relevância hídrica e rica em biodiversidade sobrevive um dos maiores remanescentes de árvores pau-brasil (Paubrasilia echinata). Próximo ao Parque Nacional do Monte Pascoal, num assentamento do Movimento Sem Terra (MST), foi encontrado em 2020 o maior exemplar de pau-brasil do país, com idade estimada de 600 anos e mais de 7 metros de circunferência.

Povo Pataxó restaura áreas degradadas em corredor ecológico, no sul da BA, com espécies que cobriam o solo antes de 1500
Entrega de ferramentas para cultivo de sistemas agroflorestais e equipamentos de combate a incêndios em comunidade Pataxó no entorno do Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal, no sul da Bahia / Foto: Grupo Ambiental Natureza Bela/divulgação

A restauração da região denominada Costa do Descobrimento usa espécies nativas, que já cobriam o solo baiano antes da chegada dos colonizadores portugueses. “Nós trabalhamos com 132 espécies endêmicas e tentamos recompor o que era a nossa flora. E aí eu poderia citar pau-brasil, ipê, conduru, jacarandá. Espécies que a gente não encontra mais”, conta Marcos.

Histórico da destruição

Além de Unidades de Conservação e aldeias indígenas, a região também conhecida como Mosaico de Áreas Protegidas do Extremo Sul da Bahia (Mapes) inclui terras privadas e sofre a pressão forte do uso de madeiras nativas da Mata Atlântica, normalmente adquiridas de forma ilegal.

“A devastação no extremo sul da Bahia é muito recente”, conta Paulo Dimas. “O primeiro trecho que os europeus ocuparam no litoral foi o último a ser colonizado porque a colonização foi proibida aqui quando descobriram as Minas Gerais”.

Para proteger o ouro descoberto no século 17 no interior do Brasil, foi proibida a instalação de colonos do norte do Espírito Santo até o sul da Bahia. Os povos indígenas que ali estavam serviam como escudo, impedindo a entrada de não-portugueses na região das minas.

Já na década de 1880, a construção da Estrada de Ferro Bahia-Minas impulsionou o desmatamento, que, seguido pelas frentes agropecuárias, se intensificou com o asfaltamento da BR-101 na década de 1970.

“Com o incentivo da Ditadura Militar, se instalaram aqui mais de 200 serrarias e acabaram com a mata em 20 anos”, conta Dimas. “Na década de 1990 já quase não tinha floresta a não ser o que depois foi transformado em Parques Nacionais”.

Se alguns acusam os indígenas de desmatar a área, especialistas afirmam que o uso que eles fazem da madeira para o artesanato é irrelevante comparado ao histórico de devastação da região.

Cooperativa indígena Pataxó reflorestou 210 hectares de Mata Atlântica no Corredor Ecológico Monte Pascoal-Pau Brasil com espécies que cobriam o solo baiano antes do "descobrimento". O projeto, coordenado pelo Grupo Ambiental Natureza Bela e financiado pelo BNDES, contempla 50 hectares de plantio em sistemas agroflorestais na Aldeia Boca da Mata, fortalecendo a comunidade
Foto: Grupo Ambiental Natureza Bela/divulgação

“O nosso histórico comprova que não são eles. Eles são os que mais sofrem e que são explorados até hoje nessa questão da retirada de madeira”, diz Marcos Lemos. “Já não é tão frequente, mas ainda existe uma exploração desumana para o homem que corta essa madeira, porque ela é feita de maneira artesanal e vendida a preços muito baixos, o que chega a ser uma degradação da condição humana”.

Conflitos com fazendeiros

Nos últimos anos, a Cooplanjé e os sistemas agroflorestais produtivos surgiram como alternativa ao uso da madeira no território Pataxó.

“Várias famílias saíram da atividade de extração e beneficiamento de madeira para a atividade de restauração e implantação agroflorestal”, conta Paulo Dimas. “Se a gente tivesse mais recursos, o ideal seria tirar todas as famílias dessa atividade e transformá-las em famílias que vivem de floresta”.

Apesar do avanço, o povo Pataxó vive situação de constante conflito com fazendeiros. “Aqui no território de Barra Velha, próximo ao Parque Monte Pascoal, essa área em que a comunidade [indígena] entrou é área de demarcação que já foi homologada, mas hoje está ocupada pelos fazendeiros”, conta o Pataxó Matias.

“A gente já teve um questionamento com o governo e com a Funai para pagar os bens que os fazendeiros têm na terra e liberar o nosso território, mas nunca foi pago. Então a comunidade faz a reivindicação dessa forma, retomando a área”.

Segundo Paulo Dimas, a quantidade de terra em poder dos Pataxó na TI Barra Velha do Monte Pascoal é muito restrita. “Eles têm direito aqui a mais de 50 mil hectares de terras já demarcadas e eles estão em posse de 9 mil hectares. Com isso, eles não conseguem manter as atividades tradicionais e têm que viver de turismo, comércio ou artesanato”.

Matias queria manter as 80 famílias que trabalharam no projeto de restauração financiado pelo BNDES dentro da Cooplanjé, mas não foi possível por falta de novos projetos. No momento, apenas cinco famílias permanecem trabalhando na cooperativa.

“Nosso plano é buscar parceiros e financiadores diretamente, para a gente ter uma organização indígena independente. Buscar outros parceiros para que a gente possa trazer emprego para dentro da comunidade”, conta Matias.

“Agora estamos felizes porque estamos construindo uma parceria para entrega de sementes e estamos fazendo também uma parceria com um viveiro de São Paulo para a produção de mudas”.

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*Este texto foi publicado no site da Mongabay Brasil em 10/11/2022 e adaptado por Mônica Nunes para reprodução aqui, no Conexão Planeta.

Desmatamento na Amazônia cai 11% em 2022

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Desmatamento na Amazônia cai 11% em 2022

Foram 11,6 mil km2 de floresta derrubados, o segundo maior número dos últimos 13 anos. Monitoramento identifica dinâmica de aumento dos grandes polígonos de desmate, que têm mais de 100 hectares.

O desmatamento medido por satélite pelo Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica (Prodes) foi de 11.568 km2 em 2022. O número, divulgado nesta quarta-feira (30/11), é 11% menor que o do período anterior.

O dado, monitorado há três décadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), estimou a área de floresta destruída de 1º de agosto de 2021 a 31 de julho de 2022.

Para pesquisadores e ambientalistas ouvidos pela DW, a explicação para a queda ainda precisa ser investigada. “Não houve qualquer ação do governo federal ou do governo dos estados que pudesse explicar essa redução. Os órgãos de fiscalização continuam sucateados”, diz Márcio Astrini, do Observatório do Clima.

Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam), pontua que meses mais chuvosos em alguns estados no período analisado podem ter freado os desmatadores.

“O dado de 2022 é ainda o segundo maior dos últimos 13 anos e só perde para o recorde do próprio governo Bolsonaro”, diz Astrini. “Não dá para comemorar, infelizmente. Mas um aumento, certamente, seria muito pior. Vale lembrar que Bolsonaro entrega o governo com o desmatamento 50% maior do que pegou em 2018.”

Mariana Napolitano, gerente de ciências do WWF-Brasil, também é cautelosa. “A gente sabe o impacto desse desmatamento: conflito com comunidades locais, aumento de crime e ilegalidades, aproximando, cada vez mais, a floresta, suas populações, sua biodiversidade, de um estado degradado de não retorno, em que a floresta perde sua capacidade de se restabelecer naturalmente”, afirma.

Amazonas foi único estado que registrou alta

Claudio Almeida, coordenador do Prodes no Inpe, afirma que as condições do trabalho de monitoramento em 2022 são semelhantes às de 2021. “Olhando para o mapa de nuvens sobre os estados, não tem muita diferença entre os anos. Além do mais, as imagens que analisamos são sempre as do período seco, as nuvens interferem pouco neste processo”, diz.

Dentre os nove estados que compreendem a Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins), o Amazonas é o único que registrou aumento de desmatamento, com alta de 13%. O Amapá teve o maior percentual de redução, de 65%.

Embora tenha apresentado queda na devastação (21%), o Pará segue líder em 2022 em área devastada, com 4.141 km2, seguido por Amazonas (2.607 km2) e Mato Grosso (1.906 km2).

As taxas foram calculadas com base em imagens geradas pelo satélite Landsat, que cobre a Amazônia. Segundo o Inpe, três critérios técnicos são usados na escolha das imagens para a análise: cenas que cobrem a região onde foram registrados pelo menos 90% do desmatamento do período anterior, locais de onde partiram pelo menos 90% dos alertas do Deter (Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real) e imagens que cobrem os 52 municípios prioritários para a fiscalização.

Polígonos desmatados cada vez maiores 

A análise mostrou que o tamanho dos polígonos desmatados, como é chamada cada área analisada, está crescendo.

“Isso tem um impacto muito grande na taxa total do desmatamento. Os polígonos grandes, de 100 a 500 hectares, estão se sobressaindo. Ou seja, os grandes desmatamentos estão de volta”, diz Almeida.

Os dados de 2022 mostram que 3% dos polígonos analisados respondem por mais de 42% da área desmatada: as áreas maiores de 500 hectares corresponderam a 16% do total, e aquelas entre 100 e 500 hectares são 26%.

“Isso quer dizer que se os esforços de fiscalização fossem centrados nos maiores desmatamentos haveria maior impacto na queda dos números”, afirma Almeida. “E também mostra que não faz sentido dizer que é preciso imagens de altíssima resolução para combater o desmatamento. Os dados mostram que as áreas desmatadas estão maiores e são elas que trazem mais impactos.”

Para o próximo ano, a expectativa é de que os dados não sejam tão diferentes. Ane Alencar, do Ipam, lembra que os elevados índices de alerta de desmatamento medidos no segundo semestre de 2022 só vão aparecer no Prodes de 2023. “Agosto, setembro e outubro deste ano tiveram dados alarmantes, teve também a influência da eleição. Então a herança para o próximo governo será muito desastrosa.”

Fonte: Deutsche Welle