sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

8 temas de desenvolvimento sustentável para acompanhar na década do "tudo ou nada"

 

8 temas de desenvolvimento sustentável para acompanhar na década do "tudo ou nada"

Este blog foi publicado originalmente no Insights.


O mundo não foi gentil com o meio ambiente na última década, a mais quente da história desde que há registros. A tempestade Sandy causou estragos de mais de US$ 70 bilhões nos Estados Unidos. Cidades como Cape Town, na África do Sul, quase ficaram sem água. Inundações recordes mataram 1,3 mil pessoas na Índia e no Paquistão. Incêndios queimaram mais de 9 milhões de hectares na Califórnia, na Amazônia e, mais recentemente, na Austrália, destruindo florestas, casas e vidas humanas.

Novas metas globais – incluindo o Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ambos adotados em 2015 – foram momentos brilhantes da década que passou, mas não está claro se o mundo será capaz de cumprir essas ambições nos próximos anos.

O ano de 2020 reserva momentos e decisões fundamentais para colocar o mundo em uma trajetória mais sustentável. "A história mais impactante para acompanhar não é se 2020 será o ano da virada", explicou o presidente e CEO do WRI, Dr. Andrew Steer. "Na verdade, é se 2020 será o ano da virada para melhor ou para pior".

Steer apresentou destaques e perspectivas no evento anual Stories to Watch do WRI, em Washington. O pano de fundo deste ano é sobre desafios e atores que, em 2020, podem influenciar a década que se inicia com clima de “tudo ou nada”. Veja o que acompanhar neste ano.

No vídeo abaixo, assista a apresentação de Andrew Steer na sede do WRI em Washington:

Três assuntos para acompanhar

Três áreas serão especialmente importantes em 2020: o oceano, a biodiversidade e as mudanças climáticas. Essas questões são significativas por si só, mas também na maneira como elas se relacionam – a contenção da mudança climática melhora o oceano e a vida selvagem; ações baseadas no oceano são essenciais para controlar as emissões, etc. "Todas estão relacionadas e as três juntas são muito importantes", disse Steer.

1. Um novo caminho para o oceano

O oceano já enfrenta poluição, superaquecimento e sobrepesca. Um recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) constatou que, se as emissões de gases de efeito estufa continuarem inabaláveis, os impactos climáticos no oceano custarão ao mundo US$ 428 bilhões até 2050. Melhor gestão dos mares é importante não apenas para a segurança alimentar, os meios de subsistência e as economias, mas para mitigar as mudanças climáticas. Pesquisa do Painel de Alto Nível para uma Economia do Mar Sustentável mostrou que as ações baseadas no oceano poderiam responder por 20% das reduções de emissões necessárias até 2050.

Momentos-chave em 2020 nos mostrarão se as lideranças seguirão os negócios como de costume ou se adotarão uma nova narrativa – mais focada em proteger a "economia azul", combater as mudanças climáticas e proteger os meios de subsistência. Acompanhe as decisões da segunda conferência da ONU sobre o oceano em Portugal em junho, se a Organização Mundial do Comércio vai concordar em cortar subsídios prejudiciais à pesca em sua reunião de junho no Cazaquistão, se o mundo avançará na proteção de mais áreas marinhas e se os países incluirão ações para os oceanos nos seus novos planos climáticos nacionais (conhecidos como contribuições nacionalmente determinadas, ou NDCs).

2. Novas metas de biodiversidade

Há dez anos, os países estabeleceram as Metas de Aichi, 20 objetivos globais de biodiversidade a serem alcançados até 2020, como, por exemplo, reduzir pela metade a perda de habitat natural. Já estamos em 2020 e falhamos largamente nesses objetivos. A perda de habitat natural dobrou nos últimos 10 anos. Aproximadamente um milhão de espécies estão ameaçadas de extinção.

Os países se reunirão em outubro na conferência de biodiversidade da ONU em Kunming, na China, um encontro que ocorre apenas uma vez por década, para estabelecer a próxima rodada de metas. Observe se as metas são confiáveis, alcançáveis e responsabilizarão os países por seus compromissos. Um compromisso global para conservar 30% da terra e do mar do mundo seria o ideal. Como anfitriã do evento e país megaconsumidor, a China tem um papel fundamental a desempenhar. Será que vai estabelecer metas ambiciosas e que possam inspirar os outros a proteger os recursos naturais?

3. Reação global pela ação climática na COP26

Está claro que as tendências climáticas estão indo na direção errada. Os cientistas dizem que as emissões precisarão cair pela metade até 2030 e chegar a valores líquidos zero até 2050 para evitar os piores impactos climáticos. Em vez disso, as emissões de dióxido de carbono dos combustíveis fósseis atingiram um nível recorde em 2019.

A COP26, a conferência do clima da ONU que ocorrerá neste ano em Glasgow, na Escócia, pode ser um momento fundamental para estimular uma reação. No período que antecede o encontro, observe se os países assumirão compromissos de longo prazo para atingir emissões líquidas zero até 2050 e compromissos de curto prazo para aprimorar suas NDCs neste ano. As NDCs atuais colocam o mundo em um caminho para aquecer de 3°C a 4°C até 2050, sendo que precisamos reduzir as emissões o suficiente para limitar o aumento da temperatura para bem abaixo de 2°C.

5 atores essenciais para a ação coletiva

“Os problemas que enfrentamos não podem ser resolvidos por nenhum país ou liderança isolada”, explicou Steer. “Eles demandam ação coletiva”.

Trabalhando juntos, cinco atores podem nos fazer avançar nos desafios de sustentabilidade.

1. Governos

Apesar de 108 países já terem se comprometido a fortalecer seus planos nacionais para o clima antes da COP26, eles representam apenas 15,1% das emissões globais. Precisamos de grandes emissores para avançar da mesma forma – principalmente China, Estados Unidos, União Europeia (UE) e Índia, que coletivamente produzem 50% das emissões.

A China pode ser mais ousada, chegando ao pico de emissões antes de 2030 e esverdeando sua iniciativa Belt and Road. A Índia estabeleceu metas ambiciosas de energia renovável, mas pode superar as expectativas, reduzindo o uso de carvão e ampliando o uso de veículos elétricos. O Green Deal da UE é promissor, mas precisará ganhar força e incentivar outros a segui-lo. Estados, cidades e empresas dos EUA estão reduzindo as emissões, apesar de retrocessos ambientais do governo Trump, mas a ação federal é fundamental. O resultado da eleição presidencial dos EUA em novembro será significativo, tanto para a ação climática nacional quanto para a permanência do país no Acordo de Paris.

2. Mercados financeiros

Os riscos financeiros das mudanças climáticas ficaram explícitos na última década, com os desastres climáticos custando US$ 650 bilhões nos últimos três anos. Apesar de alguns sinais encorajadores, como o aumento de investimentos sustentáveis e algumas instituições financeiras que deixaram de trabalhar com combustíveis fósseis, os mercados ainda não estão totalmente alinhados com uma economia de baixo carbono.

As principais decisões a serem acompanhadas neste ano incluem se os reguladores financeiros vão pressionar por investimentos mais sustentáveis em termos ambientais e se os bancos de desenvolvimento irão alinhar seus portfólios às metas do Acordo de Paris. Os ministros de Finanças e Economia podem e devem ajudar a fortalecer as NDCs, seja pela precificação do carbono ou por outras políticas fiscais verdes. O governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, pode ser uma figura influente como o novo enviado especial da ONU para ações e finanças climáticas.

3. Negócios

Como nos mercados financeiros, o setor de negócios avançou rumo à sustentabilidade, mas não o suficiente. Os consumidores estão exigindo produtos mais sustentáveis, mas o consumismo ainda está drenando os recursos naturais 1,75 vezes mais rápido do que o planeta pode reabastecê-los. Mais e mais empresas estão se comprometendo a eliminar o desmatamento de suas cadeias de suprimentos. No entanto, 5 milhões de hectares de floresta – uma área do tamanho da Dinamarca – são destruídos todos os anos para dar lugar a commodities.

Um ponto de virada importante seria se mil empresas se comprometessem a estabelecer metas de redução de emissões baseadas na ciência até a COP26. Até agora, 750 se comprometeram a reduzir suas emissões o suficiente para manter o aumento da temperatura abaixo de 2°C. Preste atenção em compromissos semelhantes baseados na ciência para biodiversidade, solo, uso da água e outros desafios de sustentabilidade. Observe também se as associações comerciais mudam sua abordagem para se alinhar às metas climáticas.

4. Tecnologia

A expansão de tecnologias testadas e comprovadas pode ajudar a reduzir as emissões mais rapidamente e em uma escala maior. Por exemplo, expandir a frota de veículos elétricos e o suprimento de energia renovável pode acelerar o abandono dos combustíveis fósseis. Cidades chinesas já aumentaram suas frotas de veículos elétricos. Preste atenção aos 1,1 mil novos ônibus elétricos no Chile e em Bogotá, na Colômbia, o início de uma frota de 100 mil veículos elétricos da Amazon e as novas caminhonetes elétricas da Ford. Ao mesmo tempo, espera-se que a capacidade de armazenamento em baterias para energias renováveis cresça 3 gigawatts nos Estados Unidos.

Também são esperados avanços animadores de tecnologias inovadoras. Estão em andamento planos para a maior planta de captura direta de ar do mundo, projetada para remover o dióxido de carbono da atmosfera. A remoção de carbono é essencial para alcançar emissões líquidas zero até 2050. Esta planta pode ajudar a estabelecer melhor a tecnologia necessária para isso. Aeronaves elétricas estão sendo testadas. E a primeira usina de gás com emissão zero está a caminho da implantação.

O desenvolvimento tecnológico é muito importante e mais fácil do que se imagina de aplicar em setores difíceis de reduzir emissões, como combustíveis fósseis, aço e cimento. Pesquisas mostram que a descarbonização desses setores custará apenas 0,5% do PIB global até 2050. Observe se as indústrias investem na inovação necessária para diminuir seu impacto.

5. Pessoas

Houve uma explosão de ativismo climático nos últimos anos, incluindo movimentos como Extinction Rebellion, Fridays for the Future e mais de 7 milhões de pessoas marchando em 185 países em apenas uma semana de setembro de 2019. “Agora estamos vendo o poder de influência das pessoas como nunca tínhamos visto desde a década de 1970 ”, disse Steer.

Muitos desses ativistas não estão apenas exigindo ação climática; eles estão lutando por justiça. A mudança climática é também uma questão de desigualdade: os 10% mais ricos do mundo produzem metade de todas as emissões de gases de efeito estufa, enquanto os mais pobres sentem os impactos com mais intensidade. E as políticas climáticas podem ter dois lados: quando projetadas corretamente, podem tirar as pessoas da pobreza e promover a igualdade. Quando mal concebidas, sobrecarregam indevidamente as pessoas, especialmente os grupos marginalizados. Vimos essas consequências não intencionais nos últimos anos na França e no Chile, que enfrentaram protestos em parte ocasionados pelo aumento nas tarifas de combustível e transporte.

Quinze países, incluindo o Reino Unido, declararam estado de "emergência climática", em grande parte devido a levantes de cidadãos. Precisamos ver se esse ativismo leva a mudanças políticas concretas. Observe se os países abordam o conceito de “transição justa” em seus planos nacionais para o clima e na COP26.

2020: um ano crítico

Os desafios de sustentabilidade a serem enfrentados nesta década são grandes, de longo alcance e inter-relacionados. Nenhum ator individual será capaz de resolvê-los sozinho. A ação coletiva – com todos os cinco atores trabalhando juntos, apoiando uns aos outros e inspirando maior ambição – é essencial para qualquer tipo de progresso.

“A década de 2020 é a década do tudo ou nada” definiu Steer. “Nós dizemos isso em todas as décadas, mas desta vez realmente é verdade.”

Estaremos acompanhando como essas histórias se desenrolam ao longo do próximo ano. Em 2030, esperamos que seja possível olhar para 2020 como o ponto de virada para a sustentabilidade, não como o ano que nos deixou presos a níveis perigosos de aquecimento do planeta.

7 temas de desenvolvimento sustentável para acompanhar no mundo em 2021

 

7 temas de desenvolvimento sustentável para acompanhar no mundo em 2021

Em 2020, a vida como a conhecemos acabou.

O coronavírus matou quase 2 milhões de pessoas até o momento e colocou cerca de 100 milhões em situação de extrema pobreza. O mundo entrou em sua pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial. Profundas injustiças raciais e econômicas foram expostas, enquanto os impactos da pandemia afetaram pessoas não brancas de modo desproporcional. E essas crises se desenrolaram em meio à ameaça sempre presente das mudanças climáticas, incluindo recordes de incêndios florestaisnuvens de gafanhotos, tempestades e outros eventos climáticos extremos.

A forma como o mundo irá recomeçar após essa turbulência sem precedentes vai definir o ano que se inicia e moldar o curso da história por anos – até mesmo décadas. Como o escritor e ativista indiano Arundhati Roy disse sobre a pandemia, “é um portal, uma passagem entre um mundo e o outro”.

A pergunta para 2021 é: em que tipo de mundo estamos entrando?

O presidente e CEO do WRI, Andrew Steer, abordou essa questão no Stories to Watch, o principal evento anual do WRI, onde ele descreveu os momentos, tendências e pessoas que afetarão o meio ambiente e o desenvolvimento internacional no próximo ano. Parece que nunca houve tanto em jogo quanto em 2021.

“Ao final deste ano, saberemos que tipo de civilização nós realmente somos”, disse Steer.

Depois da pandemia de coronavirus: como o mundo vai recomeçar?

De fato, o “Grande Recomeço” após a Covid-19 é o pano de fundo sobre o qual todos os momentos ocorrerão neste ano. Os sinais em 2021 mostrarão se estamos caminhando em direção a um mundo mais limpo, justo e forte, ou rumando na direção oposta.

Veja seis indicadores que merecem ser observados ao longo de 2021, para entender melhor a direção de nossa jornada à medida que o mundo começa a se recuperar da Covid-19 e do colapso econômico:

Os maiores estímulos econômicos da história

Países já alocaram US$ 13 bilhões (cerca de R$ 69 milhões) para recuperar suas economias, e é provável que gastem outros trilhões neste ano. Esses recursos vão apoiar projetos limpos e de baixo carbono ou infraestruturas sujas, baseadas em combustíveis fósseis? Promoverão mais equidade ou continuarão a exacerbar a cisão social?

Pesquisas mostram que um estímulo verde faz sentido para a economia. Investir na eficiência das construções, por exemplo, cria de 3 a 4 vezes mais trabalhos a cada US$ 1 trilhão investido do que investir em carvão e gás. Mesmo assim, desde o início da pandemia, os países do G20 se comprometeram a destinar US$ 240 bilhões (R$ 1,27 trilhão) para combustíveis fósseis e somente US$ 184 bilhões (R$ 976 milhões) para energia limpa.

A União Europeia emergiu como líder global com seu histórico green deal (“acordo verde”), investindo em iniciativas favoráveis ao clima e em uma transição justa. O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, prometeu apoio semelhante a um desenvolvimento verde e justo quando assumir o cargo.

Acompanhe se outros países, tanto grandes economias quanto aquelas em desenvolvimento, bem como outras instituições internacionais de desenvolvimento, seguirão essa abordagem para garantir que o mundo se torne mais resiliente após a Covid-19.

Ação climática nos Estados Unidos sob a administração Biden-Harris

O presidente Donald Trump moveu o segundo maior emissor de carbono do mundo na direção errada, inclusive revertendo regulações sobre usinas, veículos e outros setores. O presidente-eleito Joe Biden e a vice Kamala Harris prometeram corrigir esses erros investindo US$ 2 trilhões em infraestrutura e energia limpas, com a meta de atingir 100% de eletricidade limpa até 2035 e direcionando 40% do financiamento de energia limpa para comunidades desfavorecidas.

A pergunta que fica é: Biden e Kamala serão capazes de cumprir essas promessas? E quais ferramentas utilizarão?

“Os Estados Unidos têm muito a recuperar, francamente, e simplesmente dizer as coisas certas não será o bastante”, disse Steer. “E é por isso que os primeiros 100 dias são tão importantes.”

Os primeiros sinais de progresso podem incluir a volta dos EUA ao Acordo do Clima de Paris, o restabelecimento de regulamentações ambientais que a administração de Trump descartou, a permissão à Califórnia para definir os mais rígidos padrões de carros limpos da nação, emissão uma ordem executiva de justiça ambiental e a suspensão de novos licenciamentos para combustíveis fósseis em terras federais.

No longo prazo, os Estados Unidos precisarão aumentar a ambição de seu plano nacional do clima. O WRI recomenda reduzir a emissão de gases de efeito estufa para 45% a 50% abaixo dos níveis de 2005 até 2030, assim como fortalecer as medidas de adaptação. Fomentar a diplomacia climática internacionalmente ؘ– por exemplo, estabelecendo um acordo climático com a Índia, cooperando com a China e restaurando laços com Canadá e México – também é importante para garantir a liderança climática global.

A administração também manifestou comprometimento claro com as questões de justiça climática e racial. Cumprir essa promessa será crítico para garantir que a administração seja bem-sucedida em fomentar a equidade e a inclusão.

As prioridades da China no ano que se inicia

A China é o único país do G20 a apresentar crescimento econômico em 2020 e deve aumentar seu PIB em 8,2% em 2021. O país tirou 100 milhões de pessoas da pobreza entre 2012 e 2020. No final de 2020, a China anunciou novas metas climáticas importantes, incluindo o objetivo de se tornar neutra em carbono até 2060.

Porém, no outro lado da balança, a China ainda é o maior emissor mundial de gases de efeito estufa e o maior investidor global em carvão. O país precisará agir no curto prazo para entrar em uma trajetória de carbono-zero. Há várias oportunidades em 2021:

  • O 14º Plano Quinquenal da China, que começará a ser implementado em março, bem como seu novo plano nacional para o clima (conhecido como “contribuição nacionalmente determinada”, ou NDC) oferecerão sinais importantes sobre a direção que o país está indo. Será que a China anunciará um novo prazo para atingir o pico de emissões antes de 2030? E colocará um limite no carvão? Ampliará suas promessas de emissões para gases além do CO₂?

  • O novo mercado de carbono chinês iniciará as transações em fevereiro de 2021, com foco no setor de energia. Quão fortes serão os limites para o carbono? E o país expandirá o mercado para além do setor de energia?

  • A cidade chinesa de Kunming sediará a maior cúpula da ONU sobre biodiversidade (COP15) ainda este ano. O país usará a oportunidade para tornar suas cadeias de suprimentos mais verdes? (A China é atualmente o principal importador de carne bovina, soja, celulose e papel, commodities que impulsionam o desmatamento e a degradação da terra.)

  • E, finalmente, irá o país estabelecer padrões ambientais mais fortes para sua iniciativa Cinturão e Rota, uma grande iniciativa de investimento no exterior espalhada por 138 países?

Pesquisas do WRI mostram que é do interesse da China aumentar a ambição de sua ação climática: avançar em energia, indústria, transportes e captura de carbono poderia salvar 1,9 milhão de vidas e gerar US$ 1 trilhão (R$ 5,3 trilhões) em benefícios econômicos e sociais líquidos em 2050.

2021 será o ano decisivo para a natureza?

Há um crescente reconhecimento de que paisagens naturais são essenciais para reduzir emissões, preservar a biodiversidade, alimentar uma população que está aumentando e assegurar o desenvolvimento econômico. Pesquisa recente do Fórum Econômico Mundial mostra que soluções benéficas para a Natureza poderiam criar 395 mil empregos e gerar US$ 10 trilhões em oportunidades de negócios até 2030.

No entanto, estamos indo para a direção contrária. A perda de floresta tropical aumentou 41% anualmente desde 2014.

Este ano oferece grandes momentos em que é possível ter progresso, como a Cúpula de Sistemas Alimentares da ONU em setembro, a reunião do G20 em outubro e a COP 26, em Glasgow, em novembro. Resultados alinhados com uma estratégia em quatro frentes são essenciais para mostrar o valor da natureza:

  • Produzir: A União Europeia implementará uma nova Farm to Fork Strategy (Estratégia da Fazenda para o Garfo, em tradução livre) este ano que pode inspirar outras nações. Devemos observar como a administração Joe Biden nos EUA vai incorporar a natureza em seu plano agrícola, assim como observar de que maneira outros países incluirão questões agrícolas em suas NDCs.

  • Proteger: na Conferência da ONU para biodiversidade, os países deverão tomar decisões-chave sobre a proteção de 30% da terra e dos oceanos do planeta até 2030.

  • Reduzir: A Dinamarca e a Noruega já estão na metade do caminho para cumprir suas metas de redução de desperdício de alimentos em até 50%. Se bem-sucedida, a nova campanha da China economizará comida o suficiente para alimentar 60 milhões de pessoas. Será que outros países, cidades e corporações lançarão iniciativas semelhantes?

  • Restaurar: Países estão comprometidos com o Desafio de Bonn para restaurar mais de 200 milhões de hectares de áreas degradadas, com 14 milhões de hectares já em andamento. Será que novos avanços em tecnologia do monitoramento – como o futuro Restoration Watch, do WRI – podem incentivar mais ação e novos investimentos?

Transporte coletivo na esteira da Covid-19

O número de passageiros do transporte coletivo despencou durante a pandemia de coronavírus. Muitos sistemas de transporte estão à beira do colapso.

A União Europeia enfrenta um déficit de US$ 50 bilhões (R$ 266 bilhões) no financiamento do transporte público devido à queda no número de passageiros em 2020, enquanto o sistema de ônibus da Índia perdeu US$ 7 bilhões em receita.

Ao mesmo tempo, é essencial expandir os sistemas de transporte coletivo para enfrentar as mudanças climáticas e promover a equidade. Por exemplo, nos Estados Unidos, em domicílios de pessoas negras, a probabilidade de dispor de veículo próprio é três vezes menor do que a de domicílios de pessoas brancas. Modelos mostram que cortes no transporte coletivo na África Subsaariana em 2020 são parte da razão para um aumento de 9% da população em pobreza extrema.

À medida que cidades se recuperam da crise da Covid-19, será que elas priorizarão o transporte coletivo em vez dos carros?

Nigéria e as cidades de Austin, nos EUA, e Londres, no Reino Unido, para citar apenas três exemplos, já anunciaram iniciativas encorajadoras para o transporte coletivo em 2021. Mais de 200 cidades investiram em ciclovias e infraestrutura para pedestres desde o início da pandemia. A China tem 95% dos ônibus elétricos do mundo. Outras Cidades e países colocarão empenho similar na transição para transportes verdes?

Ação climática internacional e a rota para Glasgow

Os últimos anos trouxeram um esforço louvável de ação climática: 61 países anunciaram compromissos para atingir emissões líquidas zero, mais de mil empresas definiram metas de redução de emissões baseadas na ciência e mais de 10 mil cidades entraram para Global Covenant of Mayors for Climate & Energy.

O problema é que toda essa ação ainda não está sendo o suficiente. Pesquisa recente do WRI mostra que o mundo precisa adotar energias renováveis numa velocidade 6 vezes maior, desligar usinas a carvão 5 vezes mais rapidamente, e eletrificar a frota de veículos 22 vezes mais rápido até 2030 – entre outras ações – para prevenir os piores efeitos das mudanças climáticas.

Este ano pode ser um ponto de inflexão para a ação climática global, permitindo que o mundo aproveite as oportunidades em quatro áreas-chave.

  1. A primeira é que todos os países deveriam lançar novas NDCs até a COP 26 em Glasgow. Até o momento, países apresentaram 71 novas NDCs, mas apenas 43 são mais ambiciosas do que os planos de 2015. A União Europeia, Reino Unido e Colômbia, assim como muitos países em desenvolvimento e nações insulares, estão liderando. Observe se mais países – especialmente Estados Unidos e China – apresentarão metas mais ambiciosas.

  2. As negociações climáticas na COP 26 precisam concluir importantes regras do Acordo de Paris, incluindo as relacionadas ao mercado de carbono (Artigo 6), o reporte de cronogramas das NDCs, o estoque global de carbono e o financiamento climático.

  3. Importante observar se o setor financeiro vai se alinhar com a meta global de limitar o aumento de temperatura a 1,5°C, a meta que os cientistas dizem ser necessária para evitar os piores impactos das mudanças climáticas. Isso inclui países desenvolvidos se comprometerem com US$ 100 bilhões em financiamento climático, assim como comprometimentos adicionais, incluindo dar escala para o financiamento de ações de adaptação.

  4. Finalmente, será que o mundo verá uma “Corrida para o Zero”, onde setores específicos buscam implementar avanços para descarbonizar rapidamente suas economias? Planos para eliminar motores a combustão interna, criar navios e edifícios de zero emissões seriam especialmente significativos.


Quer ver a apresentação completa do Stories to Watch? Confira a gravação do evento (em inglês) e outros materiais clicando aqui.

Este blog foi publicado originalmente no Insights.

De olho em 2021: temas de Clima, Cidades e Florestas para acompanhar no Brasil

 https://wribrasil.org.br/pt

De olho em 2021: temas de Clima, Cidades e Florestas para acompanhar no Brasil

Quem poderia prever 2020? Mesmo no início do ano, quando já se sabia da existência de um novo coronavírus, era difícil imaginar que o mundo passaria por tantas mudanças. Os impactos não se limitaram à saúde e espalharam-se pelo comportamento, a economia e muitos outros aspectos da vida no planeta, incluindo o meio ambiente.

Neste momento, não é possível prever como as vacinas contra o vírus podem mudar o destino da humanidade no próximo ano, nem como será a trajetória do Brasil na recuperação da crise causada pela Covid-19. O ano de 2021 começa com essa mistura de incertezas e expectativas – e um forte senso de urgência. Janeiro também marca o início de uma nova década cheia de grandes desafios como a emergência climática, a necessidade de tornar as economias mais limpas, de mudar a nossa relação com as florestas, o uso da terra, os espaços urbanos, reduzir as desigualdades, o racismo e muitos outros.

A proposta deste artigo não é apostar no que pode acontecer, mas reunir temas e momentos importantes para acompanhar ao longo de 2021 em Cidades, Clima e Florestas – os programas do WRI Brasil. Eles ajudarão a apontar como o Brasil e o mundo vão responder aos desafios da década que se inicia e que vão muito além da pandemia.

Florestas e agro sustentável como trunfos da retomada econômica

Início da Década de Restauração dos Ecossistemas da ONU: a Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou, em resolução aprovada em 2019, que a partir do ano de 2021 será instaurada a Década de Restauração dos Ecossistemas. Longe de ser apenas uma medida simbólica, a Década encoraja estados-membros a adotarem políticas reais para mobilizar recursos, capacidade técnica e cooperação para conservar e restaurar florestas. O objetivo é estimular iniciativas de restauração que já estão em curso, desenvolver políticas públicas para evitar a degradação e recuperar áreas degradadas e, assim, acelerar e dar escala à restauração no mundo todo. Dessa forma, a ONU espera incentivar que cidades, estados e países restaurem ecossistemas para combater a pobreza, mitigar as mudanças climáticas, conservar os recursos naturais e melhorar a qualidade de vida das pessoas. O Brasil é peça fundamental nesta engrenagem e tem a oportunidade de liderar essa agenda no mundo, com benefícios ambientais, sociais e econômicos.

<p>mãos humanas seguram um cacho de açaí</p>

Brasil pode ser um dos líderes da agenda da restauração de ecossistemas no mundo. Na foto, viveiro de produção de mudas nativas no Parque Estadual do Rio Doce, em Minas Gerais (foto: Evandro Rodney/IEF)


Monitoramento da restauração florestal: no campo já se pode ver que a restauração das florestas está acontecendo em todos as regiões no Brasil, gerando benefícios ambientais e econômicos para os brasileiros. A websérie As Caras da Restauração ajudou a revelar o trabalho de alguns desses milhares de pioneiros. Em 2021, o desafio é acelerar, dar escala aos projetos e monitorar a transformação na paisagem. Uma das tendências previstas para o ano está no avanço das tecnologias de monitoramento do uso da terra para a restauração. O Brasil tem hoje alguns dos mais avançados sistemas de monitoramento por satélite para identificar desmatamentos e degradação, como o Prodes e o MapBiomas. O próximo passo é desenvolver um sistema para identificar quem está restaurando florestas, ajudando a dar o devido crédito para os produtores rurais que estão recuperando nossos ecossistemas. Um importante passo nesse sentido será dado ainda no começo de 2021, com o lançamento de um observatório da restauração e reflorestamento coordenado pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura com apoio do WRI Brasil.

Sustentabilidade no campo em resposta à crise econômica: recuperação de pastagens degradadas, restauração florestal, sistemas agroflorestais, Integração Lavoura, Pecuária e Floresta e agricultura regenerativa são algumas das opções disponíveis para estimular uma economia de baixo carbono sem agravar a crise ambiental. Uma retomada verde para a agricultura pode gerar ao menos R$ 19 bilhões em produtividade para o país. A restauração florestal é também uma ferramenta para gerar empregos no meio rural. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), política pública brasileira que definiu a meta de restauração de 12 milhões de hectares até 2030, estima que o esforço de recuperação em larga escala da vegetação nativa brasileira pode gerar entre 112 mil e 191 mil empregos rurais diretos por ano.

<p>mãos humanas seguram um cacho de açaí</p>

Açaí tem grande potencial para uma bioeconomia não-exaustiva na Amazônia (foto: Paula Vieira/Idam)


Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação: como qualquer atividade de uso do solo, o sucesso da restauração florestal depende de investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D). Para isso, o WRI Brasil e parceiros têm apoiado a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura no desenvolvimento de um programa de P&D para silvicultura de espécies nativas no Brasil. Para cada R$ 1,00 investido no programa, espera-se um retorno de R$ 2,39. O programa inclui oito temas de pesquisa e 30 espécies nativas e será lançado em janeiro de 2021.

Em ano chave para o clima, Estados Unidos e Amazônia sob os holofotes

Um ano decisivo para a ação climática: o ano de 2021 abre uma década estratégica para o mundo mitigar os impactos da crise climáticas em nossas vidas. A reunião do Clima que acontecerá em novembro, em Glasgow, Escócia, definirá os detalhes do plano de ação, mas cabe a cada país declarar seus próprios compromissos e metas diante desse desafio coletivo. Infelizmente o Brasil anunciou uma nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) pouco ambiciosa, que pode inclusive prejudicar uma retomada econômica mais verde e sustentável para o país. Um dos temas a serem tratados em Glasgow e de grande interesse para o Brasil será o mercado de carbono.

Estados Unidos darão prioridade à diplomacia do clima: As primeiras escolhas do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, para compor a sua equipe indicam que as questões climáticas serão de fato um ponto central do novo governo americano. O experiente John Kerry será o enviado especial para o clima e terá assento no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca – a primeira vez que o órgão terá um cargo dedicado à questão climática. Com ele estarão nomes como Jake Sullivan, reconhecido pela atuação na área de clima, no papel de conselheiro de Segurança Nacional, e Antony Blinken, que será secretário de Estado e responsável por tornar as mudanças climáticas um dos pilares da diplomacia do país. A partir de janeiro, a questão climática será fundamental nas decisões sobre segurança nacional, economia, direitos humanos e outros aspectos vitais para a política externa dos Estados Unidos. O retorno oficial ao Acordo de Paris, esperado para ocorrer nos primeiros dias de mandato, será apenas o primeiro passo.

<p>imagem mostra Joe Biden ajustando paletó de John Kerry</p>

John Kerry e Joe Biden no Salão Oval da Casa Branca, em 2014, durante o governo Obama (foto: Pete Souza/Obama White House/Flickr)


Amazônia sob os olhares do mundo: as decisões do governo e a relação do Brasil com a Amazônia continuarão ganhando atenção dentro e fora do país. O ano de 2020 foi marcado por um movimento crescente da sociedade civilempresáriosbancos privadossetor financeiro e outros atores buscando um caminho sustentável para o desenvolvimento da região. O aumento de 9,5% no desmatamento durante o último ano, segundo os dados mais recentes do Prodes compilados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), acende um sinal de alerta. Assim como o levantamento do Mapbiomas de que 99% do desmatamento foi ilegal. Pesquisas mostram que 90% da população apoia a preservação. Vale a pena observar como esse movimento ganhará forças em 2021 e se haverá uma união de esforços entre as diversas iniciativas para impulsionar um futuro melhor para a região.

Novas metas de preservação da biodiversidade: a Conferência de Biodiversidade das Nações Unidas (COP 15), que ocorreria em 2020, na China, foi transferida para maio de 2021. Espera-se que este evento seja um marco para a proteção da biodiversidade do planeta como foi a conferência do clima de Paris, em 2015, para as mudanças climáticas. A rapidez com que o mundo vem perdendo biodiversidade é alarmante e exige mudanças sistêmicas. Espera-se que durante o encontro sejam definidos novos compromissos e metas para reverter a perda de espécies até 2030 e 2050. Ainda não há uma visão clara sobre quais posições o Brasil – país que abriga a maior biodiversidade do planeta, com mais de 20% do total de espécies – levará à China (se o encontro for presencial) ou às reuniões virtuais de negociação.

Investimentos verdes devem ganhar ainda mais tração: os investimentos ESG (do termo em inglês Environmental, Social and Governance) vêm ganhando força nos últimos anos pelo mundo, e aos poucos a agenda avança no Brasil. O tema ganhou destaque no Fórum Econômico Mundial, em janeiro de 2020, com importantes anúncios, como o da BlackRock. A pandemia da Covid-19 ajudou a impulsionar esse tipo de investimento pela urgência cada vez maior de enfrentar questões sociais e ambientais. A qualidade das informações divulgadas pelas empresas ainda é um desafio, mas cada vez mais bancos e corretoras estão incorporando os critérios ESG no Brasil, em um claro sinal de que este é um movimento em ascensão.

Qualidade do ar precisa ganhar atenção dos governos: problema “invisível” que pode tornar as pessoas mais vulneráveis à Covid-19, a poluição do ar é um problema crônico brasileiro e um desafio ambiental que traz consequências diretas para a saúde, a economia e o clima. A legislação atual é insuficiente e poucos estados realizam o monitoramento dos níveis de poluentes no ar, comprometendo a gestão do problema. Além disso, o país adota padrões mais permissivos do que os recomendados pela Organização Mundial da Saúde. Em janeiro, o WRI Brasil apresentará um panorama da situação no Brasil com a participação de especialistas reconhecidos na área.

Cidades têm de se reinventar para superar desafios novos e antigos

Novos prefeitos, novos ciclos: o ano marca o começo de novos mandatos nos municípios brasileiros, que estão na linha de frente dos impactos da Covid-19. A luz no fim do túnel da pandemia ainda está distante, e os prefeitos terão papel importante na resposta à crise sanitária e econômica. Em muitos casos, a situação fiscal é preocupante, o transporte coletivo beira o colapso e será preciso continuar respondendo a situações emergenciais causadas pela pandemia, especialmente nas regiões em que ela agravou desigualdades crônicas.

Soluções inovadoras para enfrentar a crise do transporte coletivo: a queda de demanda no sistema ônibus já era uma tendência, mas a pandemia tornou o desafio ainda mais complexo. Soluções e modelos do passado não serão capazes de responder a uma mudança tão brusca no padrão de transporte coletivo nas cidades. Contratos vigentes precisarão ser repactuados. Criar mecanismos para captar recursos extra-tarifários, especialmente a cobrança das externalidades causadas pelo transporte individual, e ajudar a cobrir os custos do transporte coletivo se tornaram necessidades inadiáveis. O veto presidencial ao pacote de auxílio ao transporte público deixa o cenário ainda mais incerto. Os prefeitos precisarão de coragem para desenvolver e aprovar propostas inovadoras que garantam sistemas de transporte coletivo de qualidade para toda a população – especialmente para as pessoas que dependem deles para acessar as oportunidades.

<p>pessoa com equipamentos de segurança faz limpeza contra o coronavirus em terminal de ônibus</p>

Pandemia afetou diretamente a demanda do transporte coletivo e exigiu cuidados adicionais. Na foto, processo de limpeza realizado nos terminais de ônibus em Curitiba (foto: Luiz Costa/SMCS)


Estimular a caminhada e o uso de bicicletas ainda é uma boa resposta à Covid-19: muitos países escolheram a bicicleta como foco de suas ações de resposta à crise sanitária, em alguns casos até financiando consertos ou a compra de bicicletas pela população. No Brasil, a oportunidade de aumentar a infraestrutura para ciclistas e pedestres, seja tirando do papel obras já previstas ou adotando soluções emergenciais e temporárias, foi adotada de maneira pontual por algumas cidades. Se a Covid-19 fez muitas pessoas abandonarem o transporte coletivo, as cidades ainda podem passar uma mensagem mais forte de que essa transição deveria se dar para modos ativos de transporte.

A mobilidade elétrica pode ganhar tração: com histórico de inovação nos sistemas de transporte coletivo por ônibus e uma matriz energética menos dependente de combustíveis fósseis quando comparada à de muitos países desenvolvidos, o Brasil pode se beneficiar muito da eletrificação dos transportes. O mercado indica que está pronto para a transição de frota. Pesquisa publicada em dezembro pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) mostra que 92% dos entrevistados gostariam de mais ônibus elétricos em suas cidades e 72% concordam que o uso de combustíveis fósseis é a principal causa das mudanças climáticas. O lançamento da Plataforma Nacional de Mobilidade Elétrica, uma articulação entre governo, mercado, sociedade civil e Institutos de Ciência e Tecnologia, mostra um esforço para agregar e estimular projetos em andamento. A iniciativa também coordena a elaboração de um Plano Nacional de Mobilidade Elétrica para alavancar ações micro e macro que vão mobilizar recursos, pessoas e força política.

<p>ônibus elétrico nas ruas de são paulo</p>

Novos modelos de contrato podem impulsionar transição para frotas elétricas no transporte coletivo (foto: BYD/Divulgação)


Uma política nacional para o desenvolvimento urbano: a pandemia trouxe novas reflexões sobre o uso dos espaços públicos e privados nas cidades. A tendência é um aumento do teletrabalho, que pode resultar em novos usos para prédios até então destinados unicamente a escritórios. Os espaços públicos – em especial os verdes – se tornaram ainda mais valorizados pela população. Essas transformações chegam justamente no ano em que o Ministério do Desenvolvimento Regional deve elaborar a Política Nacional de Desenvolvimento Urbano, que adota como premissas a diversidade e a singularidade do território nacional. O objetivo é reduzir essas desigualdades, apoiando os municípios na elaboração de políticas municipais e na revisão dos instrumentos de desenvolvimento urbano. Grandes capitais como Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo já estão trabalhando na atualização dos seus planos diretores ou vão começar o processo, e podem usar essa oportunidade para repactuar visões de futuro e definir estratégias claras para tirá-las do papel.

Soluções Baseadas na Natureza para o Desenvolvimento Humano no Antropoceno: O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento lançou recentemente o Relatório de Desenvolvimento Humano 2020. Além de apresentar o ranking dos países em relação ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o documento traz um novo índice, que considera também a pressão dos países sobre o planeta. O argumento é que o desenvolvimento humano e a redução das desigualdades não serão possíveis sem o combate às mudanças do clima, à poluição e à perda da biodiversidade. Um dos mecanismos para a mudança no padrão de desenvolvimento destacados no relatório é a adoção sistemática das Soluções Baseadas na Natureza, que oferecem múltiplos benefícios ambientais, sociais e econômicos. Considerando a importância da integração das agendas urbana e ambiental, a iniciativa Cities4Forests promove a implementação desse tipo de solução nas cidades brasileiras, através da troca de experiências entre cidades, disseminação de boas práticas e apoio técnico.

Estudo revela estado da qualidade do ar e mostra como o tema é negligenciado no Brasil

 https://wribrasil.org.br/pt

Estudo revela estado da qualidade do ar e mostra como o tema é negligenciado no Brasil

Uma epidemia silenciosa que mata cerca de 51 mil brasileiros todos os anos e para a qual a vacina são políticas públicas bem desenvolvidas e implementadas. A poluição do ar não pode continuar como um problema silencioso, com uma política nacional que não tem metas de redução das emissões de poluentes, não é implementada, além de ter fragilidades jurídicas. Hoje, o Brasil não monitora o ar de maneira aceitável, os padrões de base são mais permissíveis do que os recomendados pelo Organização Mundial da Saúde e não há penalidades caso sejam descumpridos. Para piorar, estudo feito nos Estados Unidos indica que a taxa de mortalidade por Covid-19 pode aumentar em até 15% em cidades onde as pessoas estão expostas por muitos anos a altas concentrações de poluentes.

A ciência traz evidências para que o assunto seja tratado com a devida seriedade, além de possíveis caminhos para solucionar a questão. Um grupo de 14 especialistas realizou a sistematização mais abrangente de estudos sobre qualidade do ar no país, reunindo as melhores evidências disponíveis. O estudo O Estado da Qualidade do Ar no Brasil, coordenado pelo WRI Brasil, mostra o quanto esse tema negligenciado torna os brasileiros vulneráveis.

Além disso, revela como os impactos da poluição vão muito além da questão ambiental e de saúde, afetando também a economia, a agricultura, a mudança do clima, entre outros. Embora o ar seja aparentemente o mesmo para todos, assim como no caso da Covid-19, os efeitos são desiguais: em geral, a exposição de crianças, idosos e dos mais pobres à poluição é maior.

Veja 6 motivos para tornar a qualidade do ar uma prioridade em 2021 e quais caminhos os especialistas indicam para chegar lá.

Ameaça à saúde em meio a uma crise de saúde

Vivemos uma crise de saúde sem precedentes na história recente e, para agravar o quadro, a Covid-19 tem uma correlação importante com a exposição à poluição do ar. Antes da pandemia, a qualidade do ar já era o maior risco ambiental à saúde humana no planeta. Caso a vacinação seja executada em larga escala com sucesso, tudo indica que a poluição do ar voltará à liderança deste ranking ameaçador.

Os impactos da poluição do ar na saúde estão conectados com a incidência de mortes prematuras, doenças pulmonares, cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais, disposição ao câncer e ao diabetes, além de prejuízo do desenvolvimento cognitivo em crianças e demência em idosos.

Em apenas seis regiões metropolitanas brasileiras, onde vive 23% da população do país, se os padrões de poluição continuarem os mesmos de 2016, ocorrerão cerca de 128 mil mortes precoces entre 2018 e 2025, que representarão um custo de R$ 51,5 bilhões em perda de produtividade, segundo estudo do Instituto Saúde e Sustentabilidade. Haverá ainda 69 mil internações públicas a um custo de R$ 126,9 milhões para o Sistema Único de Saúde (SUS). A estimativa foi feita antes dos efeitos da pandemia de Covid-19, que pode inclusive agravar esse quadro.

Inimigo silencioso e ainda ignorado

Embora os impactos da poluição do ar na saúde estejam bem descritos e sejam preocupantes, o Brasil enfrenta um inimigo que em grande parte desconhece. A estimativa é de que a poluição mate cerca de 51 mil brasileiros anualmente, mas apenas 1,7% dos municípios do país apresentam cobertura de monitoramento da qualidade do ar, a maioria deles na região Sudeste. Na prática, isso significa que a maior parte do país não tem informações sobre as condições do ar respirado pelos cidadãos. Sem essa informação, enfrenta-se um inimigo desconhecido.

Os padrões de qualidade do ar estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) não são atendidos na maioria das grandes cidades brasileiras, e não há penalidades claras para o não cumprimento dos mesmos. Uma importante fragilidade é a ausência de dados que permitam uma análise mais profunda do nível de implementação das políticas, assim como dos impactos alcançados por elas. Outra fragilidade é o arcabouço jurídico existente, que na prática não configura uma política de qualidade do ar robusta e abrangente, com brechas jurídicas e incertezas que afetam sua eficácia, como veremos a seguir.

Política nacional frágil

O Brasil possui uma série de leis e normas que estabelecem a gestão da qualidade do ar e o controle da poluição, mas grande parte da base normativa que dá sustentação ao Programa Nacional de Controle de Qualidade do Ar (Pronar) é infralegal, pois consta apenas em resoluções do Conama. Isso significa que novas resoluções podem gerar retrocessos, como a discussão em andamento para adiar fases do Programa de Controle de Emissões Veiculares (Proconve).

De acordo com o estudo, a realidade da implementação dos instrumentos do Pronar mostra falhas importantes de efetividade. Entre elas, dificuldades de atualização periódica dos padrões nacionais de qualidade do ar, as carências financeiras e de recursos humanos para a sustentação de uma rede nacional de monitoramento e a ausência de um abrangente inventário nacional de emissões.

Parte das fragilidades da política nacional está na distribuição das competências em relação à gestão da qualidade do ar. A competência legislativa é concorrente entre a União e os Estados, ou seja, à União cabe estabelecer o regramento geral básico, podendo os Estados definir regras próprias, desde que mais protetivas. O programa não oferece recursos nem incentivos claros para os Estados. Aos municípios, cabe o estabelecimento de normas de interesse eminentemente local, mas sem responsabilização explícita no Pronar, embora sejam as cidades as responsáveis por políticas relevantes que afetam a qualidade do ar. Em resumo, o arcabouço jurídico existente tem brechas e incertezas que afetam a eficácia das políticas.

Os impactos vão muito além das cidades

O estudo ajuda a mostrar que os impactos da poluição vão além dos centros urbanos. Na região amazônica, por exemplo, os níveis de poluentes gerados pelas queimadas chegam a atingir valores de material particulado (MP 10) de 500 microgramas por metro cúbico, o que representa cerca de 25 vezes mais poluição do que a média histórica da região (20 microgramas por metro cúbico).

De acordo com levantamento do Human Rights Watch, de julho a outubro de 2019 foram mais de 2 mil internações por doenças respiratórias diretamente relacionadas às queimadas, sendo que os mais afetados foram bebês e pessoas com mais de 60 anos, respondendo por 21% e 49% do total de internações, respectivamente. Dados da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Rio Branco, no Acre, mostram que apenas três dos 22 municípios do Acre não registraram piora na qualidade do ar no comparativo entre 2020 e 2019. Até setembro de 2020, pelo menos 12 cidades permaneceram por mais de 30 dias com concentrações de material particulado (MP 2.5) – substância ultrafina que afeta profundamente o sistema respiratório – acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é de 25 ug/m3.

<p>Imagem de porto velho coberta de fumaça</p>

Porto Velho, em Rondônia, é uma das cidades que sofre com a poluição resultante de queimadas. Na imagem, vista do Rio Madeira (foto: Ésio Mendes/Secom/RO)

Esse material particulado também se movimenta seguindo as correntes de ar que atuam na Amazônia, as mesmas que levam a umidade da região para o Centro-Oeste, Sul e Sudeste, conhecidas como rios voadores. Sendo assim, a fumaça das queimadas não somente polui a zona rural e as principais cidades da Amazônia, como também afeta o clima e a qualidade do ar em cidades de outras regiões do país.

Os efeitos podem chegar também na agricultura. Estimativas mostram que uma concentração de ozônio entre 65 e 100 partes por bilhão pode gerar perdas entre 15% e 62% na produtividade da soja, respectivamente.

Nas cidades a qualidade do ar se torna mais visível

Os efeitos da poluição do ar vão além dos grandes centros urbanos, mas é neles que ficam mais evidentes. Também nas cidades, enfrentar o desafio de melhorar a qualidade do ar pode impulsionar o combate às mudanças climáticas e melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Pesquisas de opinião mostram que o brasileiro está disposto a mudar: 67% das pessoas trocariam seus carros ou motos por alternativas de transporte mais limpas. Essa transformação, no entanto, passa não apenas pelo avanço de opções de mobilidade limpas, como a eletrificação do transporte coletivo, por exemplo, como também pelo incentivo a modos ativos, como bicicleta e caminhada. Uma ferramenta lançada pelo WRI Brasil ajuda a estimar os ganhos econômicos e de saúde da substituição de ônibus a diesel por elétricos.

<p>Imagem de ciclovia em Paris</p>

Paris está direcionando atenção aos modos ativos de transporte, com muitas novas ciclovias que permitem deslocamentos seguros durante a pandemia (foto: Jerome Labouyrie/Shutterstock)

Diversas cidades, especialmente na Europa, estão estabelecendo metas para banir veículos a combustão das ruas, muitas delas até 2030 – apenas 9 anos de transição. Além disso, estão usando o planejamento urbano para devolver as ruas às pessoas, restringindo os espaços nos quais hoje os carros têm prioridade, e incentivando a caminhada e as bicicletas. Paris, por exemplo, está adotando o conceito de cidade de 15 minutos, no qual serviços e oportunidades ficam disponíveis em distâncias que não exigem transporte por veículos. Amsterdam, já reconhecida pelo transporte por bicicletas, pretende se ver livre de emissões veiculares também até 2030 – criando zonas livres de emissão que começam na região central até chegar a zonas mais afastadas. É a busca pelo fim dos canos de escapamento.

Muitos países também têm metas para zerar as emissões de todos os veículos, incluindo os pesados, como caminhões e ônibus. Uma mudança sistêmica que parecia impensável há alguns anos agora tem prazo para acontecer em muitos lugares. Enquanto isso, nossa indústria automotiva tenta adiar fases do Proconve para veículos pesados, que já são menos ambiciosas do que as de muitas nações, inclusive de países em desenvolvimento.

Para reverter o cenário, muitas mudanças precisam ocorrer ao mesmo tempo e exigem uma visão ambiciosa dos gestores públicos. Quanto antes acelerarmos a transição rumo a uma mobilidade urbana sustentável, mais vidas serão salvas.

Mudar faz sentido para a economia

A boa notícia para o país, em especial para os tomadores de decisão, é que combater a poluição do ar faz sentido também do ponto de vista econômico. Estima-se que os custos associados a mortes prematuras em função do ar poluído equivaleram, em 2015, a 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. O impacto negativo na economia brasileira ocorre em função da queda de produtividade de trabalhadores, das mortes prematuras, das limitações para a aquisição de habilidades cognitivas relevantes para educação causada pela exposição aos poluentes e das perdas na produtividade agrícola.

Estudo da Nova Economia para o Brasil mostrou que os ônibus elétricos, tanto para mobilidade urbana quanto para potencial exportação, representam uma oportunidade para o desenvolvimento de baixo carbono e competitividade no Brasil. A cadeia produtiva de ônibus elétricos, incluindo baterias, estações de recarga, geração de energia renovável e melhorias na infraestrutura de distribuição de energia elétrica, resultaria na geração de empregos diretos e indiretos. A implementação de políticas públicas adequadas poderia atrair investimentos do setor privado, aumentar a produção em escala e reduzir barreiras de alto custo. É, portanto, um exemplo de oportunidade sustentável e de implementação factível que pode gerar um salto de inovação na indústria brasileira. Esse movimento está entre os pilares dos planos de recuperação econômica pós-Covid-19 da China e da Europa, por exemplo.

Caminhos para reverter o cenário

Com base nas evidências levantadas pelo estudo, os pesquisadores apontaram 10 prioridades para o avanço das políticas de melhoria da qualidade do ar no Brasil. São avanços políticos e científicos que devem acontecer de forma simultânea:

  1. Criar uma política nacional sistêmica de qualidade do ar garantida por lei;

  2. Definir um cronograma claro para a execução das próximas fases dos padrões nacionais de qualidade do ar, assim como punições explícitas para o não cumprimento das mesmas;

  3. Criar políticas e incentivos que busquem reduzir as assimetrias regionais na gestão de qualidade do ar no país, como o aprimoramento técnico das equipes dos órgãos estaduais de meio ambiente;

  4. Fortalecer a ciência de dados por trás das políticas de qualidade do ar, principalmente pela ampliação e pelo aperfeiçoamento do sistema de monitoramento atmosférico nacional, priorizando áreas críticas e uso de novas tecnologias;

  5. Alinhar, de forma estratégica, as políticas nacionais de controle de poluentes atmosféricos e de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE);

  6. Fortalecer sinergias e compatibilização entre políticas de qualidade do ar e políticas estruturantes de planejamento urbano, como o plano diretor e os planos de mobilidade urbana;

  7. Promover pesquisas sobre a economia da qualidade do ar e a análise de implementação de políticas públicas, incluindo desafios de governança;

  8. Promover pesquisas sobre a interface entre a qualidade do ar e a desigualdade socioeconômica no Brasil;

  9. Desenvolver políticas regionais e nacionais para gestão de queimadas e prevenção aos riscos à saúde;

  10. Incluir de forma mais equitativa representantes da sociedade civil e do setor de saúde na governança da qualidade do ar, com poderes de decisão e participação plena equivalentes aos representantes do meio ambiente.