quarta-feira, 23 de junho de 2021

Efeito positivo dos espaços verdes urbanos na saúde física e mental

 


Efeito positivo dos espaços verdes urbanos na saúde física e mental

Dados de imagens de satélite de alta resolução revelaram uma correlação global entre espaço verde urbano e felicidade em 60 países

Acredita-se que os espaços verdes urbanos, como parques, quintais, margens de rios e fazendas urbanas, contribuam para a felicidade do cidadão ao promover a saúde física e mental. Embora vários estudos anteriores tenham relatado os benefícios mentais dos espaços verdes, a maioria foi conduzida em partes ricas do mundo, como os Estados Unidos e a Europa, e apenas alguns envolveram um cenário de vários países.

A falta de dados foi a principal limitação na realização desses estudos porque não há um conjunto de dados médicos globais que possa fornecer pesquisas de saúde mental confiáveis e padronizadas em diferentes países. Outro desafio envolve um método sistemático para medir a quantidade de espaço verde entre os países. Vários métodos de medição de espaço verde – questionários, entrevistas qualitativas, imagens de satélite, imagens do Google Street View e até mesmo tecnologia de smartphone ainda dependem de medições em nível individual e, portanto, não são escalonáveis para o nível global. Esses desafios deixaram a questão da associação entre o efeito positivo dos espaços verdes na saúde mental aberta e sem resposta para muitos países com diferentes condições socioeconômicas.

Liderado pelo investigador-chefe e um professor associado CHA Meeyoung no Instituto de Ciências Básicas (IBS) e Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia (KAIST) em Daejeon, Coreia do Sul, uma colaboração internacional de pesquisadores de POSTECH, Instituto Max Planck, Instituto de Tecnologia de Jersey e a Universidade Nacional de Cingapura decidiram resolver o problema.

O novo estudo publicado na revista EPJ Data Science identificou a correlação global entre o espaço verde urbano e a felicidade em 60 países, usando um conjunto de dados de imagens de satélite.

Usando o conjunto de dados de imagens de satélite Sentinel-2, a equipe mediu a pontuação dos espaços verdes urbanos de cada país como o índice total de vegetação por população nas cidades mais populosas. Um total de noventa cidades em sessenta países foi escolhido para representar pelo menos 10% da população nos países estudados. Para uma visão clara, apenas os dados de imagens de satélite do verão foram usados para análise, que é de junho a setembro para o hemisfério norte e de dezembro a fevereiro para o hemisfério sul. A pontuação de felicidade foi retirada do Relatório Mundial de Felicidade, publicado pelas Nações Unidas.

A equipe encontrou uma correlação positiva significativa entre espaço verde urbano e felicidade em todos os países. Os espaços verdes urbanos aumentam a felicidade em comparação com o valor de felicidade básico determinado pela riqueza de uma nação. Essa relação era robusta para outras condições socioeconômicas, incluindo expectativa de vida, gastos com saúde, desemprego, desigualdade de gênero e educação.

A equipe também examinou se essa associação era uniforme em todos os países. A felicidade nos 30 países mais ricos (ou seja, PIB per capita de US $ 38.000 ou mais) é fortemente afetada pela quantidade de espaço verde urbano, enquanto o PIB per capita é um fator mais crítico de felicidade nos 30 países mais pobres. Essa descoberta corrobora a sabedoria convencional de que a prosperidade econômica é crucial para a felicidade até certo nível, após o qual o espaço verde urbano é um melhor indicador de felicidade. Essa descoberta coincide com um conceito conhecido como paradoxo de Easterlin, que nos diz que o aumento da felicidade por meio da riqueza atinge um ponto de saturação, após o qual os fatores que melhoram a felicidade são desconhecidos.

A equipe também identificou uma relação direta positiva entre o apoio social aos espaços verdes urbanos. Isso indica que a variável de suporte social pode servir como mediadora entre o espaço verde e a felicidade. Esta descoberta sublinha a importância de manter os espaços verdes urbanos como um lugar de coesão social em prol da felicidade das pessoas.

Os autores apontam que seu trabalho tem várias implicações em nível de política. Em primeiro lugar, os espaços verdes públicos devem ser acessíveis aos moradores urbanos para aumentar o apoio social. Se a segurança pública nos parques urbanos não for garantida, seu papel positivo no apoio social e na felicidade pode diminuir. Além disso, o significado de segurança pública pode mudar; por exemplo, garantir a segurança biológica será uma prioridade para manter os parques urbanos acessíveis durante a pandemia COVID-19.

Em segundo lugar, o planejamento urbano de espaços verdes públicos é necessário tanto para os países desenvolvidos quanto para os em desenvolvimento. Como é desafiador ou quase impossível garantir terras para espaços verdes após o desenvolvimento da área, o planejamento urbano para parques e espaços verdes deve ser considerado nas economias em desenvolvimento, onde novas cidades e áreas suburbanas estão se expandindo rapidamente.

Terceiro, as mudanças climáticas recentes podem apresentar dificuldades substanciais na manutenção de espaços verdes urbanos. Eventos extremos como incêndios florestais, inundações, secas e ondas de frio podem colocar em risco as florestas urbanas, enquanto o aquecimento global pode, inversamente, acelerar o crescimento de árvores nas cidades devido ao efeito de ilha de calor urbana. Assim, mais atenção deve ser dada para prever as mudanças climáticas e descobrir seu impacto na manutenção dos espaços verdes urbanos.

Os autores também destacam a crescente demanda por formulação de políticas para os cidadãos baseada em dados. “Big data de imagens de satélite podem fornecer grandes oportunidades para responder a uma variedade de questões sociais. Nosso método pode ser usado para quantificar o espaço azul nas costas, e podemos estudar mais a fundo a relação entre o espaço azul e a felicidade ”, diz Dr. Cha.

O mapa de espaços verdes urbanos e felicidade em 60 países desenvolvidos
O mapa de espaços verdes urbanos e felicidade em 60 países desenvolvidos. 
O tamanho e a cor dos círculos representam o nível de felicidade e o espaço 
verde urbano em um país, respectivamente. Os marcadores são colocados nas 
cidades mais populosas de cada país. (b) O espaço verde urbano é medido pela 
UGS em quatro cidades do mundo. As áreas verdes indicam o NDVI per capita 
ajustado (ou seja, UGS) para cada pixel de 10m por 10m

Referência:

Kwon, OH., Hong, I., Yang, J. et al. Urban green space and happiness in developed countries. EPJ Data Sci. 10, 28 (2021). https://doi.org/10.1140/epjds/s13688-021-00278-7

 

Henrique Cortez, tradução e edição, a partir de original do Institute for Basic Science (IBS)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/06/2021

 

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Apenas 12% dos biomas não florestais está sob proteção

 210623 andré dib

Apenas 12% dos biomas não florestais está sob proteção

Novo atlas mostra que metade da superfície terrestre é ocupada por biomas não florestais; apenas 12% deles está sob proteção

54% da superfície terrestre do mundo consiste em áreas sem florestas, mas apenas 10% dos planos climáticos nacionais (como parte do Acordo Climático de Paris) incluem referências a esses biomas.

Apesar de sua importância para o clima, a natureza e as pessoas, os biomas não florestais estão ameaçados pela conversão crescente e pelos efeitos drásticos da mudança climática.

Um novo atlas dessas paisagens pode orientar os negociadores do clima e da biodiversidade que se preparam para as cúpulas da ONU

Um novo atlas mostra que 54% da superfície terrestre do mundo consiste em biomas diferentes das florestas. São áreas que abrigam alguns dos habitats mais preciosos da Terra e sustentam centenas de milhões de pessoas. É o caso, por exemplo, do cerrado brasileiro, dos pampas e da caatinga. Mas, até agora, esses biomas não florestais raramente figuravam nas agendas internacionais: apenas 10% dos planos climáticos nacionais (como parte do Acordo Climático de Paris) incluem referências a essas áreas, ao passo que 70% incluem referências a florestas. Embora sejam conhecidos por desempenhar um papel fundamental no armazenamento de carbono, como habitat para diversos animais selvagens e origem para alguns dos maiores rios e pântanos do mundo, parte da razão pela qual foram subvalorizados é a falta de dados consolidados sobre sua extensão e valor.

O Rangelands Atlas preenche parte dessa lacuna. Biomas não florestais (rangelands, em inglês) consistem em sete biomas, incluindo pastagens, savanas, desertos, arbustos e tundra. O atlas, que engloba 16 mapas e será continuamente atualizado, foi publicado em conjunto pelo International Livestock Research Institute, a União Internacional para a Conservação da Natureza, o WWF, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e a Coalizão Internacional de Terras, com contribuições da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura

O Cerrado brasileiro é um bom exemplo da importância dos biomas não florestais. Uma das regiões de maior biodiversidade do mundo, estima-se que possua quase 5% de todas as espécies no mundo e 30% da biodiversidade do país. Ele também detém vastos estoques de carbono, principalmente no subsolo: aproximadamente 13,7 bilhões de toneladas. O processo de conversão do bioma impediria, por exemplo, o cumprimento dos compromissos internacionais do Brasil nas Convenções do Clima e de Biodiversidade. Porém sofrendo com a degradação, o Cerrado também abriga um dos seis locais reconhecidos pelo Estado como em processo de desertificação.

Até o momento, os esforços de conservação e desenvolvimento têm se concentrado nas florestas, deixando de lado outros ecossistemas valiosos. Este atlas nos mostra, pela primeira vez, a extensão dessas áreas e destaca que devemos parar de negligenciá-las se quisermos enfrentar as crises climáticas e naturais do mundo e, ao mesmo tempo, atender de forma sustentável à demanda global de alimentos. A proteção, gestão e restauração dos ricos e variados ecossistemas que compõem os biomas não florestais são fundamentais e sua relevância deve ser refletida nas agendas de conservação global”, declarou Karina Berg, líder da iniciativa global Grasslands and Savannahs, do WWF.

Um exemplo recente de esforços de conservação dos biomas não florestais é o projeto CERES, iniciativa da União Europeia com as organizações WWF-Brasil, WWF-Paraguai, WWF-Holanda e ISPN (Instituto Sociedade, População e Natureza). Com quatro anos de duração e 5,5 milhões de euros de investimentos, ele visa encontrar, testar e alavancar soluções inclusivas de conservação da paisagem no Cerrado brasileiro que possam ser replicadas em outras savanas ao redor do mundo.

Iniciativas para preservar biomas não florestais são urgentes: até o momento, apenas 12% deles são designados como áreas protegidas.

Boa parte do restante está ameaçada pela escalada da conversão, especialmente para agropecuária. Mais uma vez, o Cerrado brasileiro é um bom exemplo: entre 1 e 27 de maio deste ano foram desmatados 870 km2, um aumento de 142% em comparação aos 360 km2 registrados no mesmo período em 2020.  No acumulado do ano, foram destruídos 2.065km2 entre 1 de janeiro e 27 de maio deste ano, contra 1.685km2 no mesmo período do ano passado – um aumento de 22%. A aceleração da devastação também é evidente quando se considera o acumulado desde agosto – quando começa a contagem oficial da temporada de desmatamento no Brasil. De agosto até o fim de maio, o Cerrado teve 3.868 km2 destruídos, um aumento de 30% em comparação ao mesmo período em 2020, quando foram desmatados 2.981km2. Entre agosto de 2019 e julho de 2020 a destruição foi de cerca de 7,3 mil km², um aumento de 12,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O atlas mostra que nos últimos três séculos mais de 60% da vegetação nativa e florestas foram convertidas – uma área maior que a América do Norte – e uma área aproximadamente do tamanho da Austrália (7,45 milhões de km2) agora é usada para plantações. Essa mudança no uso da terra contribui para a crise climática e o atlas mostra que as áreas não florestais também sofrerão com o aquecimento global. Os efeitos drásticos ocorrem em uma área com o dobro do tamanho da Europa, com a natureza sendo perigosamente desestabilizada e a capacidade de produzir alimentos, combustível e fibras sendo reduzida.  Os novos dados do Atlas podem ajudar os formuladores de políticas a gerenciar melhor esses biomas, com grandes benefícios para as pessoas, a natureza e o clima.

No segundo semestre de 2021, líderes governamentais participarão de conferências anuais para as três Convenções do Rio: sobre mudança climática (UNFCCC), biodiversidade (UNCBD) e desertificação (UNCCD), juntamente com a primeira Cúpula de Sistemas Alimentares da ONU. A publicação vem a público ao início da Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas, podendo ajudar a orientar governos, organizações internacionais, ONGs e doadores na restauração, proteção e melhor gestão dessas áreas.

O atlas está disponível em www.rangelandsdata.org/atlas (conteúdo em inglês).

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/06/2021

 

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Foto: André Dib

Lira diz que vai discutir mineração em terra indígena com líderes

 

Lira diz que vai discutir mineração em terra indígena com líderes

Em discurso após protestos de indígenas contra a proposta que acaba com a demarcação de terras indígenas, presidente da Câmara afirmou que vai pautar a regulamentação da mineração

Daniele Bragança ·

22 de junho de 2021

Arthur Lira

governo Bolsonaro

mineração em terras indígenas

“Esta Casa precisa ter coragem de debater sobre o tema de exploração em terra indígena. Não é possível que nós vamos ficar de olhos fechados quanto a isso. Não tem só um lado da história não, têm dois, têm três, têm quatro”, disse nesta terça-feira (22) o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), em discurso após criticar o protesto de indígenas ocorridos hoje. A manifestação foi reprimida pela polícia com bombas de gás lacrimogênio, spray de pimenta e balas de borracha. Ao menos três indígenas sofreram ferimentos e precisaram de atendimento médico e outros dez inalaram gás. Três funcionários da Câmara também foram feridos, segundo Arthur Lira.

Os indígenas estão em Brasília para protestar contra a inclusão do projeto de lei 490, de 2007, na pauta da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A proposta estabelece que as terras indígenas serão demarcadas através de leis. Para os indígenas, esse projeto de lei acaba, na prática, com a demarcação de novas terras indígenas, já que o parlamento brasileiro, historicamente, tem uma composição de ruralistas majoritária, maior inclusive do que a composição desse grupo na sociedade brasileira, já que a maioria da população, segundo o último Censo, vive nas cidades.


Ao criticar o protesto, Lira afirmou que prometeu criar um grupo de trabalho para apreciar o Projeto de Lei 191/20, que regulamenta a mineração em terras indígenas e que é uma das prioridades do governo Bolsonaro para o ano de 2021. Lira tem acelerado a pauta para fazer andar temas importantes para o governo. Nesta terça-feira, após o presidente da Câmara se posicionar contra o impeachment, Bolsonaro (sem partido) agradeceu o apoio. “Eu costumo sempre dizer: não são três poderes, Arthur [Lira], são dois. O Judiciário e nós para o lado de cá. Formamos ‘heteramente’ um casal”, disse se referindo à união entre os poderes Executivo e Legislativo.

Caça e tráfico de onças disparam em estados bolivianos na fronteira com o Brasil

Caça e tráfico de onças disparam em estados bolivianos na fronteira com o Brasil

Investigação reforça que estados bolivianos próximos do Brasil são focos de caça e comércio clandestino de onças. Ilegalidades ganharam força com maior presença chinesa na América do Sul

Aldem Bourscheit ·

11 de novembro de 2020

caça

conservação

Journalism Emergency Relief Fund

onça pintada

tráfico de animais silvestres

Procura por partes de onças ganhou força com mercado aquecido em países asiáticos. A foto da Liga da Terra Internacional mostra peles de onças manuseadas por traficantes.

Investigação internacional inédita reforça que estados bolivianos próximos do Brasil são focos de caça e comércio clandestino de onças. Animais podem ser capturados também em território brasileiro. Os crimes estão conectados ao tráfico de drogas. Ilegalidades ganharam força com maior presença chinesa na América do Sul.

Os estados de Beni e de Santa Cruz são os grandes centros de tráfico de onças na Bolívia. Eles fazem fronteira com a Amazônia e o Pantanal brasileiros. As regiões naturais alcançam países vizinhos e abrigam nove em cada dez dos grandes felinos vivendo livres. Contrabando de animais acontece também nas fronteiras da Bolívia com Peru, Chile, Argentina e Paraguai.

Parte de um time na Universidade de Oxford (Reino Unido) que há duas décadas pesquisa impactos e conexões do tráfico mundial de animais, a bióloga brasileira Thaís Morcatty avalia que caça e tráfico associados à disparada do desmatamento e das queimadas na Amazônia e no Pantanal põem em xeque a sobrevivência do maior felino das Américas.

“Esses problemas podem reduzir populações de onças em quantidade muito maior do que se imagina. As onças circulam livremente pelas florestas contínuas e pouco acessíveis das fronteiras amazônicas e pantaneiras, regiões remotas e pouco fiscalizadas. Sabemos que pessoas caçam onças no Brasil e levam para escoar suas partes desde países vizinhos”, denuncia a pesquisadora.

Brasil e Bolívia dividem quase 3.500 quilômetros de fronteiras. O desmate na Amazônia brasileira pode alcançar este ano cerca de 13 mil quilômetros quadrados, taxa semelhante à registrada em 2008. Quase 40 mil quilômetros quadrados (28%) do Pantanal já queimaram em 2020. Os dados são de instituições públicas federais.

Presa de onça em posse de criminosos. Foto: Liga da Terra Internacional.

Quebra-cabeça

A investigação da Liga da Terra Internacional é apoiada pela ONG União Internacional para a Conservação da Natureza e pela Loteria do Código Postal Holandês. O trabalho da entidade sediada em Los Angeles conta até com ex-membros da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA, sigla em inglês).

O esforço confirmou que bolivianos caçam e revendem partes de onças a traficantes chineses. Os pedaços chegam à Ásia na bagagem de aviões ou presos ao corpo dos criminosos. Brasil, Vietnã e Hong Kong são escalas preferidas. Agentes alfandegários e policiais são subornados para fazer vista grossa. Impunes, restaurantes no estado de Santa Cruz servem pratos baratos com carne de onça.

“A China é o mercado ilegal mais importante para vários produtos de vida selvagem da América Latina, como partes de onças, barbatanas de tubarão, animais vivos e madeiras. Os traficantes podem usar, ainda, aeroportos em Amsterdam, na Holanda, na Cidade do México ou Los Angeles”, conta Andrea Costa, diretor executivo da Liga da Terra Internacional.

O tráfico cresce na Bolívia desde 2015, quando o país passou a buscar recursos estrangeiros para aliviar a crise econômica. Sempre disposta a ampliar sua presença geopolítica, a China investe pesado em mineração, geração de energia e outras obras de infraestrutura na Bolívia e outros países latino-americanos. Trabalhadores e investimentos chineses chegam juntos nessas regiões.

Em 2015 um chinês foi detido em Beijing com 119 dentes de onças trazidos da Bolívia. Quase 200 presas e peles de onças foram apreendidas em fevereiro de 2018 com outros dois chineses. Foram condenados a 4 e 3 anos de prisão. Mais de 300 dentes do maior felino das Américas já foram encontrados pelo correio boliviano em pacotes rumo à China.

Onças são mortas por suas presas, peles, ossos e testículos. Na China esses itens são usados como adereços, remédios e contra impotência sexual. O país tem quase 1,4 bilhão de habitantes. Lá as presas de onças valem 10 vezes mais do que o valor pago a criminosos da América do Sul. Eles usam rádios, Redes Sociais e panfletos na compra de partes de onças.

A procura pelo “Tigre Americano” ganhou força com a extinção ou redução das populações de grandes felinos na Ásia justamente pela caça e tráfico, como o tigre-de-bengala. Os métodos para captura e venda desses animais e também de chifres de rinocerontes e marfim de elefantes foram transportados para a América do Sul.

Também há apreensões de partes de onças na União Europeia, outras países asiáticos e até na rota México – Estados Unidos. 

Crimes conectados

Adereços de mau gosto produzidos com dentes de onças. Foto:  Liga da Terra Internacional.

A investigação encontrou mais de 50 traficantes de partes de onças em países latino americanos como Suriname, Peru e Guiana. E outros 25 apenas na Bolívia. Todos estão organizados em redes criminosas. Muitos atuam em atividades legalizadas como restaurantes e lojas de produtos variados.

Com nome de cidade chinesa e envolvida no tráfico de drogas, a gangue Putian é apontada pela investigação como controladora das exportações de partes de onças na Bolívia. O grupo seria o braço sul americano da Máfia de Fujian, da China. Juntas atuam na operação e lavagem de dinheiro em cassinos e outros negócios lícitos e ilegais. 

A Bolívia é um dos maiores produtores mundiais de coca e cocaína e um corredor para drogas vindas da Colômbia e do Peru rumo a Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Europa. Para Andrea Costa, da Liga da Terra Internacional, o tráfico de vida selvagem ganha em investimentos e organização quando associado ao contrabando de drogas.

“Não estamos lidando apenas com caçadores furtivos ou pequenos grupos pouco sofisticados, mas com redes de tráfico internacional e homens de negócios que fazem ‘todo tipo de coisas’. Eles operam quase sem perturbações há décadas e se tornaram muito bons no que fazem. Sabem como subornar pessoas e contrabandear qualquer coisa da América Latina. A região é um ‘bufê livre’, você pega o que quer e sai”, analisou.

Por isso o ativista alerta que o tráfico de animais não é uma questão isolada de conservação da natureza. Segundo ele, não basta combater o crime apenas com cientistas, biólogos e ativistas, pois eles não são páreo para os criminosos. Redes criminosas e traficantes pouco ligam para programas conservacionistas, parques, leis ou fronteiras nacionais. 

“Se você olhar para este problema como sendo principalmente um problema de conservação, você está fadado a falhar. Para combatê-lo precisamos de forte vontade política nas regiões mais críticas e fortalecer coleta de informações e investigações para melhor compreender o problema, sua cadeia de abastecimento e os principais atores envolvidos”, ressaltou.

São crânios e ossos de onças em posse de traficantes. Foto: Liga da Terra Internacional

É crime federal caçar e vender animais selvagens na Bolívia desde 1986. Em 2017 foi definindo um plano nacional de combate ao tráfico no país. Todavia, combater o tráfico de vida selvagem não é prioridade para o Governo Boliviano, afirma o relatório da Liga da Terra Internacional.

A escalada do tráfico de animais no país andino-amazônico levou a Embaixada da China na Bolívia a enviar um comunicado no primeiro semestre de 2018 pedindo aos “cidadãos chineses que vivem na Bolívia a respeitar e observar estritamente tanto as leis e regulamentos chineses como bolivianos contra o tráfico ilegal de animais selvagens”. 

Tentamos ouvir a Embaixada da China na Bolívia sobre as novas investigações internacionais, mas não houve retorno até o fechamento desta reportagem.