segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Antropoceno: a Era do colapso ambiental, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

Antropoceno: a Era do colapso ambiental, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

"Estamos em um carro gigante, acelerando na direção de uma parede de tijolos e  todo     mundo fica discutindo sobre onde cada um vai sentar”

David Suzuki

antropoceno

[EcoDebate] O Homo sapiens surgiu e se espalhou pelo mundo no período geológico do Pleistoceno, mas foi no Holoceno que floresceu a civilização e a espécie humana se tornou uma força onipresente no território global. A população mundial era de cerca de 5 milhões de habitantes no início do período Holoceno, há cerca de 12 mil anos. A estabilidade climática do Holoceno propiciou o florescimento do desenvolvimento econômico e social e o ser humano expandiu as atividades agrícolas, a domesticação dos animais, construiu cidades e montou uma máquina de produção e consumo de bens e serviços jamais vista nos 4,5 bilhões de anos da Terra.

O crescimento da população e da produção foi de tal ordem que prêmio Nobel de Química, Paul Crutzen, avaliando o grau do impacto destruidor das atividades humanas sobre a natureza afirmou que o mundo entrou em uma nova era geológica, a do ANTROPOCENO, que significa “época da dominação humana”. Representa um novo período da história do Planeta, em que o ser humano se tornou a força impulsionadora da degradação ambiental e o vetor de ações que são catalisadoras de uma provável catástrofe ecológica.

A Terra entrou em uma espiral da morte. A 6ª extinção em massa das espécies e a crise climática são as ameaças mais urgentes do nosso tempo. E o tempo para reverter esta espiral da morte está se esgotando. Será necessária uma ação radical para salvar a vida no Planeta. O progresso demoeconômico tem gerado externalidades negativas para o meio ambiente.

O Antropoceno é uma Era sincrônica à modernidade urbano-industrial. A Revolução Industrial e Energética que teve início na Europa no último quartel do século XVIII deu início ao uso generalizado de combustíveis fósseis e à produção em massa de mercadorias e meios de subsistência, possibilitando uma expansão exponencial das atividades antrópicas.

Em 250 anos, a economia global cresceu 135 vezes, a população mundial cresceu 9,2 vezes e a renda per capita cresceu 15 vezes. Este crescimento demoeconômico foi maior do que o de todo o período dos 200 mil anos anteriores, desde o surgimento do Homo sapiens. Mas todo o crescimento e enriquecimento humano ocorreu às custas do encolhimento e empobrecimento do meio ambiente. O conjunto das atividades antrópicas ultrapassou a capacidade de carga da Terra e a Pegada Ecológica da humanidade extrapolou a Biocapacidade do Planeta. A dívida do ser humano com a natureza cresce a cada dia e a degradação ambiental pode, no limite, destruir a base ecológica que sustenta a economia e a sobrevivência humana.

crescimento da economia, da população e da renda per capita mundial: 1770-2020

No Antropoceno, a humanidade danificou o equilíbrio homeostático existente em todas as áreas naturais. Alterou a química da atmosfera, promoveu a acidificação dos solos e das águas, poluiu rios, lagos e os oceanos, reduziu a disponibilidade de água potável, ultrapassou a capacidade de carga da Terra e está promovendo uma grande extinção em massa das espécies. O egoísmo, a gula e a ganância humana provoca danos irreparáveis e um ecocídio generalizado, que pode se transformar em suicídio.

As emissões de gases de efeito estufa (GEE) romperam com o nível de concentração de CO2 na atmosfera, de no máximo 280 partes por milhão (ppm) prevalecente durante todo o Holoceno, e, em 2019, já está acima de 410 ppm e subindo cerca de 2,5 ppm ao ano, na atual década.

Com mais GEE na atmosfera, a temperatura média tem subido e a Terra está acima de um grau mais quente do que o período pré-industrial, podendo iniciar um período de descontrole climático. Esta possibilidade foi aventada em estudo de Steffen e colegas (2018) que indicou que a Terra pode entrar em uma situação com clima tão quente que pode elevar as temperaturas médias globais a até cinco graus Celsius acima das temperaturas pré-industriais. Isto teria várias implicações, como acidificação dos solos e das águas e aumentos no nível dos oceanos entre 10 e 60 metros.

O estudo mostra que o aquecimento global causado pelas atividades antrópicas de 2º Celsius pode desencadear outros processos de retroalimentação, podendo desencadear a liberação incontrolável na atmosfera do carbono armazenado no permafrost, nas calotas polares, etc. Em função do efeito dominó, as “esponjas” que absorviam carbono podem se tornar fontes de emissão de CO2 e piorar significativamente os problemas do aquecimento global. Isto provocaria o fenômeno “Terra Estufa”, o que levaria à temperatura ao recorde dos últimos 1,2 milhão de anos. Os seja, caso este cenário se torne realidade, seria algo parecido com o apocalipse para a vida humana e não humana no Planeta.

Para avaliar os piores cenários do aquecimento global, o jornalista David Wallace-Wells publicou, o livro “The Uninhabitable Earth: Life After Warming” (fevereiro de 2019), mostrando que o aquecimento global vai ser abrangente, terá um impacto muito rápido e vai durar muito tempo. Isto quer dizer que os efeitos danosos das mudanças climáticas vão se agravar com o tempo e, embora todas as gerações já estejam sendo atingidas, são as crianças e jovens que nasceram no século XXI que vão sentir as maiores consequências do colapso ambiental. As ondas de calor vão deixar diversas áreas da Terra inabitáveis.

Artigo de Camilo Mora et. al., “Broad threat to humanity from cumulative climate hazards intensified by greenhouse gas emissions”, publicado na prestigiosa revista Nature Climate Change (19/11/2018), mostra que as mudanças climáticas trarão múltiplos desastres de uma só vez. “Enfrentar essas mudanças climáticas será como entrar em uma briga com Mike Tyson, Schwarzenegger, Stallone e Jackie Chan – tudo ao mesmo tempo”, disse o principal autor do estudo, que descreve os inúmeros impactos que devem atingir a civilização nos próximos anos.

impactos dos riscos climáticos sobre a humanidade

No total, os pesquisadores identificaram 467 maneiras distintas em que a sociedade já está sendo impactada pelo aumento dos extremos climáticos e, em seguida, expuseram como essas ameaças provavelmente se acumularão umas nas outras nas próximas décadas (ver gráfico abaixo). Se algo não for feito para reduzir drasticamente as emissões de gases do efeito estufa, em vez de lidar com um único grande risco de cada vez, as pessoas em todo o mundo podem ser forçadas a lidar com três a seis ao mesmo tempo.

A solução mais simples e barata para evitar o aquecimento global seria o aumento da cobertura vegetal do mundo para funcionar como absorvedores de carbono. Mas está acontecendo o contrário. Existiam 6 trilhões de árvores no mundo e este número cai pela metade. A humanidade já destruiu a metade de todas as árvores do planeta desde o avanço exponencial da pegada ecológica da civilização, segundo um estudo da Universidade de Yale, publicado pela revista científica Nature, conforme estudo de Crowther et al (Nature, 2015). Mas o pior é que os seres humanos estão destruindo 15 bilhões de árvores por ano, enquanto o aparecimento de novas árvores e o reflorestamento é de somente 5 bilhões de unidades. Ou seja, o Planeta está perdendo 10 bilhões de árvores por ano e pode eliminar todo o estoque de 3 trilhões de árvores em 300 anos. O Brasil é o país que mais desmata e menos refloresta, além de bater todos os recordes de desmatamento em 2019.

Além do aquecimento global e da perda de cobertura florestal, a humanidade está degradando os solos e as fontes de água potável. O relatório “Climate Change and Land”, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, publicado dia 08 de agosto de 2019, mostra que existe um efeito perverso de retroalimentação entre a produção de alimentos e o aquecimento global. O relatório mostrou que o crescimento da população mundial e o aumento do consumo per capita de alimentos (ração, fibra, madeira e energia) têm causado taxas sem precedentes de uso de terra e água doce, com a agricultura atualmente respondendo por cerca de 70% do uso global de água doce.

O relatório diz que, se o aquecimento global ultrapassar o limite de 2ºC estabelecido pelo Acordo de Paris, provavelmente as terras férteis se transformarão em desertos, as infraestruturas vão se desmoronar com o degelo do permafrost, e a seca e os fenômenos meteorológicos extremos colocarão em risco o sistema alimentar. Já estão aumentando as queimadas, os incêndios florestais e a frequência e a intensidade dos furacões, tufões e ciclones.

Enquanto cresce a população humana e seus efeitos negativos sobre o Sistema Terra, as populações não humanas definham e são arrasadas. A jornalista Elizabeth Kolbert, no livro The Sixth Extinction, documenta o processo de extinção das espécies que ocorre com o avanço da civilização. O Ecocídio é um crime que acontece contra as espécies animais e vegetais do Planeta. Esse crime se espalha no mundo em uma escala maciça e a cada dia fica pior. O desaparecimento ou grande redução dos insetos e, em especial, das abelhas ameaça a agricultura e a vida selvagem, pois não há reprodução da flora sem os polinizadores.

O último Relatório Planeta Vivo (2018) divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), mostra que o avanço da produção e consumo da humanidade tem provocado uma degradação generalizada dos ecossistemas globais e gerado uma aniquilação da vida selvagem: as populações de vertebrados silvestres, como mamíferos, pássaros, peixes, répteis e anfíbios, sofreram uma redução de 60% entre 1970 e 2014. Confirmando o impacto devastador das atividades humanas sobre a natureza, a Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês), da ONU, mostrou que há 1 milhão de espécies ameaçadas de extinção. O relatório elaborado nos últimos três anos, e divulgado em maio de 2019, fez uma avaliação do ecossistema mundial, com base na análise de 15 mil materiais de referência.

Estudo do Centro Nacional Breakthrough para a Restauração do Clima, um think-tank em Melbourne, Austrália (Barrie, 2019), descreve as mudanças climáticas como “uma ameaça existencial de médio prazo à civilização humana”. O documento argumenta que os “resultados extremamente sérios” das ameaças à segurança, relacionadas ao clima são, com frequência, muito mais prováveis do que o convencionalmente assumido, mas quase impossível de quantificar porque “estão fora da experiência humana dos últimos mil anos”. Na atual trajetória, adverte o relatório: “os sistemas planetário e humano devem atingir um ‘ponto de não retorno’ até meados do século, no qual a perspectiva de uma Terra praticamente inabitável leva ao colapso das nações e da ordem internacional.

Portanto, o avanço do progresso humano tem seus limites no processo de empobrecimento do meio ambiente. A ideia utópica de uma harmonia entre o crescimento da população e o desenvolvimento está se transformando em uma distopia, pois o desenvolvimento sustentável virou um oximoro.

A Divisão de População da ONU estima que até 2100 a população mundial deve atingir cerca de 11 bilhões de habitantes e além dos problemas ambientais, existem todos os problemas de desigualdades sociais que tornam o mundo um barril de pólvora. Toda a humanidade perderá, mas o apartheid social será reforçado pelo apartheid climático, pois os pobres pagarão um preço proporcionalmente maior pelos danos causados principalmente pelos ricos (Alves, 2015).

O fato é que vivemos numa sociedade de risco que gera negatividades crescentes. Assim como o desenvolvimento sustentável se tornou uma contradição em termos, o tripé da sustentabilidade virou um trilema, segundo Martine e Alves (2015). Uma “Terra estufa” e com menos biodiversidade será não só um lugar arriscado para se habitar, mas o Planeta pode ter maiores extensões territoriais cada vez mais inabitáveis.

O aquecimento global, a extinção das espécies a redução da biodiversidade, além da perda de fertilidade dos solos, numa situação de críse hídrica, pode ser prenúncio de um colapso ambiental e social. O professor Jem Bendell: “A mudança climática é agora uma emergência planetária que representa uma ameaça existencial para a humanidade”. Ele prevê um colapso ecológico acontecendo no curto prazo temporal de uma geração.

Segundo Kevin Casey (20/11/2019), o modelo de desenvolvimento e o crescimento demoeconômico são as verdadeiras causas da crise climática e ambiental atual. Ele diz: “O crescimento econômico precisa do crescimento populacional para se sustentar. Mas quando um planeta empobrecido não pode mais carregar o fardo de uma população inflada e suas infinitas demandas, o crescimento não passa de uma ilusão perigosa. A ‘economia saudável’ de hoje é a miséria distópica de amanhã”.

Na história e na natureza, não é incomum a plenitude e a morte coincidirem no tempo. Assim, também não é despropositado supor que o Antropoceno – época da dominação antrópica – possa ser também o começo do fim da Era humana.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. A crise do capital no século XXI: choque ambiental e choque marxista. Salvador, Revista Dialética Edição 7, vol 6, ano 5, junho de 2015 http://revistadialetica.com.br/wp-content/uploads/2016/04/005-a-crise-do-capital-no-seculo-xxi.pdf

Camilo Mora et. al. Broad threat to humanity from cumulative climate hazards intensified by greenhouse gas emissions, Nature climate change, 19/11/2018

https://www.nature.com/articles/s41558-018-0315-6

Chris Barrie. Can we think in new ways about the existential human security risks driven by the climate crisis? Centro Nacional Breakthrough para a Restauração do Clima, Melbourne, 30/05/2019 http://www.climatecodered.org/2019/05/can-we-think-in-new-ways-about.html

Crowther, T.W., H.B. Glick, K.R. Covey, + 30 authors. Mapping tree density at a global scale. Nature 525, 201–205, 2015 https://www.nature.com/articles/nature14967?proof=true

David Wallace-Wells. The Uninhabitable Earth: Life After Warming, 2019

https://www.amazon.com/Uninhabitable-Earth-Life-After-Warming/dp/0525576703

IPCC. Climate Change and Land. An IPCC Special Report on climate change, desertification, land

degradation, sustainable land management, food security, and greenhouse gas fluxes in terrestrial ecosystems, 08/08/2019

https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2019/08/4.-SPM_Approved_Microsite_FINAL.pdf

MARTINE, G. ALVES, JED. Economia, sociedade e meio ambiente no século 21: tripé ou trilema da sustentabilidade? R. bras. Est. Pop. Rebep, n. 32, v. 3, Rio de Janeiro, 2015 (em português e em inglês) http://www.scielo.br/pdf/rbepop/2015nahead/0102-3098-rbepop-S0102-3098201500000027P.pdf

MARTINE, G. ALVES, JED. “Disarray in Global Governance and Climate Change Chaos”, R. bras. Est. Pop., v.36, 1-30, e0075, 2019 https://www.rebep.org.br/revista/article/view/1317/1001

Steffen et. al. Trajectories of the Earth System in the Anthropocene, PNAS August 6, 2018. 06/08/2018 http://www.pnas.org/content/early/2018/07/31/1810141115

Jem Bendell. Deep Adaptation: A Map for Navigating Climate Tragedy, IFLAS Occasional Paper, 27 July 27th 20181 http://lifeworth.com/DeepAdaptation-pt.pdf

Kevin Casey. Why climate change is an irrelevance, economic growth is a myth and sustainability is forty years too late. Global Comment, 20/11/2019

http://globalcomment.com/why-climate-change-is-an-irrelevance-economic-growth-is-a-myth-and-sustainability-is-forty-years-too-late/

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/01/2020

 

Nota da Redação: Em relação ao tema “Antropoceno” recomendamos que leia, também:

Antropoceno É Um Conceito Mais Correto Do Que Capitaloceno
Antropoceno: A Era Do Ecocídio
Antropoceno: Principais Conceitos
Antropoceno: Emergência E Advertência Global
O Apartheid Ambiental É A Norma No Antropoceno
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O Implacável Antropoceno X A Resiliência Ecossistêmica

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Aquecimento e acidificação dos oceanos podem eliminar quase todos os habitats dos recifes de coral até 2100

 

Aquecimento e acidificação dos oceanos podem eliminar quase todos os habitats dos recifes de coral até 2100

recife de coral

 

O aumento da temperatura da superfície do mar e das águas ácidas pode eliminar quase todos os habitats existentes nos recifes de coral até 2100, sugerindo que os projetos de restauração nessas áreas provavelmente enfrentarão sérios desafios, de acordo com uma nova pesquisa apresentada ontem no Ocean Sciences Meeting 2020 .

Por Lauren Lipuma*
American Geophysical Union

Os cientistas projetam que 70 a 90% dos recifes de coral desaparecerão nos próximos 20 anos como resultado das mudanças climáticas e da poluição. Alguns grupos estão tentando conter esse declínio transplantando corais vivos cultivados em laboratório para recifes moribundos. Eles propõem novos corais jovens para aumentar a recuperação do recife e trazê-lo de volta a um estado saudável.

Mas um novo mapeamento de pesquisa onde esses esforços de restauração seriam mais bem-sucedidos nas próximas décadas mostra que, até 2100, poucos a zero habitats de coral adequados permanecerão. As descobertas preliminares sugerem que a temperatura e a acidez da superfície do mar são os fatores mais importantes para determinar se um local é adequado para restauração.

“Até 2100, parece bastante sombrio”, disse Renee Setter, biogeógrafa da Universidade do Havaí em Manoa, que apresentará as novas descobertas.

Os resultados destacam alguns dos impactos devastadores que o aquecimento climático da Terra terá na vida marinha, segundo os pesquisadores. Embora a poluição represente inúmeras ameaças às criaturas oceânicas, a nova pesquisa sugere que os corais correm maior risco de mudanças provocadas pelas emissões em seu ambiente.

“Tentar limpar as praias é ótimo e tentar combater a poluição é fantástico. Precisamos continuar esses esforços ”, disse Setter. “Mas, no final das contas, é realmente o que precisamos defender contra as mudanças climáticas para proteger os corais e evitar estressores compostos”.

Projetando o futuro dos recifes de coral

Os recifes de coral em todo o mundo enfrentam um futuro incerto à medida que a temperatura do oceano continua a subir. As águas mais quentes estressam os corais, causando a liberação de algas simbióticas que vivem dentro deles. Isso torna as comunidades de corais tipicamente de cores vibrantes brancas, um processo chamado branqueamento. Os corais branqueados não estão mortos, mas correm maior risco de morrer, e esses eventos de branqueamento estão se tornando mais comuns nas mudanças climáticas.

No novo estudo, Setter e seus colegas mapearam quais áreas do oceano seriam adequadas para os esforços de restauração de corais nas próximas décadas. Os pesquisadores simularam condições do ambiente oceânico, como temperatura da superfície do mar, energia das ondas, acidez da água, poluição e sobrepesca em áreas onde existem corais. Para levar em consideração a poluição e a sobrepesca, os pesquisadores consideraram a densidade populacional humana e o uso da cobertura do solo para projetar quanto lixo seria liberado nas águas circundantes.

Os pesquisadores descobriram que a maioria das partes do oceano onde os recifes de corais existem hoje não serão habitats adequados para os corais até 2045, e a situação piorou à medida que a simulação se estendia até 2100.

Os poucos locais viáveis até 2100 incluíam apenas pequenas porções da Baja Califórnia e do Mar Vermelho, que não são locais ideais para recifes de coral devido à sua proximidade com rios.

O aumento da temperatura e a acidificação dos oceanos são os principais responsáveis pela diminuição dos habitats de coral, de acordo com os pesquisadores. Os aumentos projetados na poluição humana têm apenas uma pequena contribuição para a eliminação futura do habitat dos recifes, porque os seres humanos já causaram danos tão extensos nos recifes de coral que ainda não existem muitos locais para impactar, disse Setter.

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/02/2020

Aumento da temperatura do mar e o excesso de pesca afetam os níveis de mercúrio nos peixes

 

Aumento da temperatura do mar e o excesso de pesca afetam os níveis de mercúrio nos peixes

Aumento da temperatura do mar e o excesso de pesca afetam os níveis de mercúrio nos peixes

 

Adicionar outro item à lista cada vez maior dos impactos perigosos da mudança climática global: os oceanos aquecidos estão levando a um aumento do metilmercurio neurotóxico prejudicial em pescas populares, incluindo bacalhau, atum rabilho do Atlântico e espadarte, segundo pesquisa liderada pela Harvard. John A. Paulson Escola de Engenharia e Ciências Aplicadas (SEAS) e da Escola de Saúde Pública Harv Chan TH (HSPH).

Por Leah Burrows * **

Os pesquisadores desenvolveram um modelo abrangente e abrangente que simula como os fatores ambientais, incluindo o aumento da temperatura do mar e a sobrepesca, afetam os níveis de metilmercúrio nos peixes. Os pesquisadores descobriram que, embora a regulamentação das emissões de mercúrio tenha reduzido com sucesso os níveis de metilmercúrio nos peixes, as temperaturas mais altas estão fazendo com que esses níveis voltem a subir e terão um papel importante nos níveis de metilmercúrio da vida marinha no futuro.

“Esta pesquisa é um grande avanço na compreensão de como e por que os predadores oceânicos, como o atum e o espadarte, estão acumulando mercúrio”, disse Elsie Sunderland, professor de Química Ambiental da SEAS e HSPH e principal autor do estudo.

Há muito se sabe que o metilmercúrio, um tipo de mercúrio orgânico, se bioacumula nas teias alimentares, ou seja, organismos no topo da cadeia alimentar têm níveis mais altos de metilmercúrio do que aqueles na parte inferior. Mas, para entender todos os fatores que influenciam o processo, você precisa entender como os peixes vivem.

Se você já teve um peixinho dourado, sabe que o peixe faz duas coisas: comer e nadar. O que comem, o quanto comem e quanto nadam afetam a quantidade de peixe de metilmercúrio que se acumula na natureza.

Vamos começar com o que os peixes comem.

Os pesquisadores coletaram e analisaram 30 anos de dados do ecossistema do Golfo do Maine, incluindo uma extensa análise do conteúdo estomacal de dois predadores marinhos, bacalhau do Atlântico e cações espinhosos dos anos 1970 a 2000.

Os pesquisadores modelaram os níveis de metilmercúrio em bacalhau com base em sua dieta e os resultados indicaram que os níveis foram 6 a 20 por cento menores em 1970 do que em 2000. Concentrações modeladas de metilmercúrio em cações espinhosas, no entanto, foram 33 a 61 por cento maior em 1970 comparado com 2000 apesar de viver no mesmo ecossistema e ocupar um lugar semelhante na cadeia alimentar. O que explica essas diferenças?

Na década de 1970, o Golfo do Maine estava experimentando uma perda dramática na população de arenque devido à sobrepesca. Tanto o bacalhau como o espinhoso comem o arenque. Sem isso, cada um se voltou para um substituto diferente. Bacalhau com outros peixes pequenos, como sardinhas e sardinhas (arenque pequeno), que são baixos em metilmercúrio. O cação espinhoso, no entanto, substituiu o arenque por alimentos mais ricos em metilmercúrio como lulas e outros cefalópodes.

Quando a população de arenque se recuperou em 2000, o bacalhau voltou a ter uma dieta mais rica em metilmercúrio, enquanto o cação espinhoso reverteu para uma dieta mais baixa em metilmercúrio.

Há outro fator que afeta o que os peixes comem: o tamanho da boca.

Ao contrário dos humanos, os peixes não podem mastigar – então a maioria dos peixes só pode comer o que se encaixa na boca. No entanto, existem algumas exceções. Os cefalópodes capturam presas com seus tentáculos e usam seus bicos afiados para arrancar bocados.

“Sempre houve um problema na modelagem dos níveis de metilmercúrio em organismos como cefalópodes e espadarte porque eles não seguem padrões típicos de bioacumulação com base em seu tamanho”, disse Sunderland. “Seus padrões únicos de alimentação significam que eles podem comer presas maiores, o que significa que eles estão comendo coisas que bioacumulam mais metilmercúrio. Nós conseguimos representá-lo em nosso modelo.”

Mas o que os peixes comem não é a única coisa que afeta seus níveis de metilmercúrio.

Quando a Schartup estava desenvolvendo o modelo, ela estava tendo problemas para explicar os níveis de metilmercúrio no atum, que estão entre os mais altos de todos os peixes marinhos. Seu lugar no topo da cadeia alimentar é responsável por parte disso, mas não explica totalmente o quão altos são seus níveis. Schartup resolveu esse mistério com inspiração de uma fonte improvável: o nadador Michael Phelps.

“Eu estava assistindo os Jogos Olímpicos e os comentaristas de TV estavam falando sobre como Michael Phelps consome 12.000 calorias por dia durante a competição”, lembrou Schartup. “Eu pensei, isso é seis vezes mais calorias do que eu consumo. Se fôssemos peixes, ele seria exposto a seis vezes mais metilmercúrio do que eu.”

Acontece que os caçadores de alta velocidade e os peixes migratórios consomem muito mais energia do que outros peixes, o que requer que eles consumam mais calorias.

“Esses peixes do estilo Michael Phelps comem muito mais pelo seu tamanho, mas, porque eles nadam tanto, eles não têm um crescimento compensatório que dilui a carga corporal. Então, você pode modelar isso como uma função”, disse Schartup.

Outro fator que entra em jogo é a temperatura da água;. À medida que as águas se aquecem, os peixes usam mais energia para nadar, o que requer mais calorias.

O Golfo do Maine é um dos corpos de água mais rápidos do mundo. Os pesquisadores descobriram que entre 2012 e 2017, os níveis de metilmercúrio no atum-rabilho do Atlântico aumentaram 3,5 por cento ao ano, apesar da diminuição das emissões de mercúrio.

Com base em seu modelo, os pesquisadores preveem que um aumento de 1 grau Celsius na temperatura da água do mar em relação ao ano 2000 levaria a um aumento de 32% nos níveis de metilmercúrio no bacalhau e um aumento de 70% no cação espinhoso.

O modelo permite que os pesquisadores simulem diferentes cenários de uma só vez. Por exemplo:

Um aumento de 1 grau na temperatura da água do mar e uma redução de 20% nas emissões de mercúrio resultam em aumentos nos níveis de metilmercúrio de 10% nos níveis de bacalhau e 20% nos cações espinhosas.

Um aumento de 1 grau na temperatura da água do mar e um colapso na população de arenque resultam em um decréscimo de 10% nos níveis de metilmercúrio no bacalhau e um aumento de 70% nos cações espinhosas.

Uma redução de 20% nas emissões, sem alteração nos níveis de água do mar, diminui os níveis de metilmercúrio em bacalhau e cação espinhosa em 20%.

 

* Com informações da Harvard John A. Paulson School of Engineering and Applied Sciences (SEAS)

** Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

 

Referência: Amina Schartup, Elsie Sunderland et al. “Climate change and overfishing increase neurotoxicant in marine predators”. Nature (7 de agosto de 2019). DOI: 10.1038/s41586-019-1468-9
http://dx.doi.org/10.1038/s41586-019-1468-9
, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/08/2019

[cite]

Verdades inconvenientes sobre a proposta de Lei Geral do Licenciamento Ambiental, por Luis E. Sánchez, Alberto Fonseca e Marcelo Montaño

Verdades inconvenientes sobre a proposta de Lei Geral do Licenciamento Ambiental, por Luis E. Sánchez, Alberto Fonseca e Marcelo Montaño

artigo

 

[USP] Foi divulgada na noite de 8 de agosto a versão “final” do Projeto de Lei (PL) da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que pode ser votado a qualquer momento no plenário da Câmara dos Deputados. Diferentemente da reforma da Previdência Social, que mobilizou toda a sociedade brasileira, a reforma do licenciamento ambiental tramita em regime de urgência sob o escrutínio tímido de uma pequena parcela da sociedade atenta ao assunto. Assim como a previdência, a reforma do licenciamento ambiental também afeta o futuro de todos os brasileiros, seus filhos e netos. Entretanto, grande parte da população terá dificuldade de opinar sobre essa nova reforma sem recorrer aos simplismos veiculados pelas mídias sociais, tais como “licenciamento nada tem a ver com desmatamento”, como afirmou dia 9 de agosto o coordenador do grupo de trabalho, deputado Kim Katiguiri. Nesse contexto, é importante esclarecer três grandes verdades.

A primeira grande verdade, inconveniente para aqueles que defendem o modo afobado como o atual PL foi elaborado, é que a colcha de retalhos em que se transformou o licenciamento ambiental demanda uma lei geral orientada pelo princípio constitucional de assegurar um meio ambiente ecologicamente equilibrado para todos. Todavia, para assegurar a viabilidade política da nova lei, a Câmara precisará encontrar um equilíbrio entre expectativas conflitantes de parcelas da sociedade brasileira, reconhecendo que o espaço oferecido até o momento para o diálogo não pode ser compreendido como suficiente.

A segunda grande verdade, inconveniente para defensores do atual projeto de lei, é que a proposta não é nada equilibrada. Os diversos artigos do PL privilegiam os anseios de certos setores empresariais e (pasmem!) de dirigentes de alguns órgãos licenciadores, a ponto ser possível verificar a existência de pontos inegociáveis e, portanto, previamente acordados, como a isenção do licenciamento concedida a atividades agropecuárias e a certas obras de infraestrutura. O principal objetivo anunciado é agilizar o processo decisório, o que é imprescindível, mas, ao pretender atingi-lo por meio de procedimentos simplificados e redução nas exigências de estudos de impacto ambiental e de participação de órgãos intervenientes, percebe-se um claro prejuízo ao equilíbrio do texto final. Se a Lei Geral do Licenciamento Ambiental for aprovada da forma como se encontra, teremos menos estudos ambientais e mais decisões arbitrárias e mal informadas. Tais alterações poderão beneficiar, no curtíssimo prazo, parte do setor produtivo, que terá suas licenças ambientais aceleradas e barateadas, bem como os dirigentes dos órgãos licenciadores, que terão seus passivos administrativos reduzidos.

Nas audiências públicas promovidas pela Câmara dos Deputados manifestaram-se especialistas em licenciamento ambiental, oferecendo alternativas consistentes para o equilíbrio pretendido. Infelizmente, o coordenador aceitou pouco do ofertado. Contribuições com fundamentação no conhecimento científico foram absolutamente desconsideradas – e sem qualquer justificativa. Apesar dos alertas, o texto do PL que vai a plenário mantém incoerências internas e diversos artigos com profundas fragilidades técnicas e jurídicas.

A terceira grande verdade, inconveniente para todos nós, é que a agilização administrativa pretendida deverá dificultar, e muito, os investimentos. Ao insistir nos erros reiteradamente apontados e ignorar as alternativas que lhe foram apresentadas, o deputado Kim entrega à Câmara do Deputados uma proposta de lei que, aprovada dessa forma, irá resultar em retrocesso na proteção ambiental e potencializar conflitos entre entes federativos e partes interessadas, desencadeando dois problemas principais: 1) insegurança jurídica para quem pretende investir no Brasil, sobretudo no longo prazo, quando os efeitos adversos do PL começarem a se manifestar; e 2) dificuldade para obter financiamento junto a bancos de desenvolvimento, fundos de investimento e bancos privados que, cada vez mais, adotam salvaguardas socioambientais.

Cabe agora ao presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, ponderar se encaminha ao plenário um texto capenga, que será provavelmente combatido no Senado, ou se determina a retomada do diálogo com vistas à produção de um texto que compatibilize a proteção dos recursos ambientais para as presentes e futuras gerações com sustentabilidade econômica e social.*

 

* Duas notas técnicas sobre o projeto de lei foram preparadas pelos autores, em colaboração com outros pesquisadores, e estão disponíveis em https://doi.org/10.13140/RG.2.2.25204.19841 e https://doi.org/10.13140/RG.2.2.10309.81121.

 

Luis E. Sánchez é professor titular da Poli-USP; Alberto Fonseca é professor associado da Escola de Minas da UFOP; Marcelo Montaño é professor associado da Escola de Engenharia de São Carlos (USP)

 

Do Jornal da USP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/08/2019

[cite]

 




 

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Em Confresa (MT), ‘chuva’ de agrotóxicos expulsa agricultores familiares e polui as águas do território indígena Urubu Branco

 

Em Confresa (MT), ‘chuva’ de agrotóxicos expulsa agricultores familiares e polui as águas do território indígena Urubu Branco

Por Texto: Julia Dolce | Fotos: José Cícero da Silva

A Pública

A senhora pode aguentar tudo, resistir à pressão de todo o tipo, mas quero ver aguentar o veneno”, ouviu Valdiva de Oliveira e Silva, hoje com 66 anos, de um funcionário de “Gilbertão”, que queria expulsá-la de seu lote, no assentamento Gleba Novo Horizonte, em Confresa, Mato Grosso. O grileiro Gilberto – preso por grilagem, ameaça e uso de violência em 2009 – foi certeiro na previsão. A agricultora, uma liderança conhecida por suportar as ameaças de morte e agressões físicas de capangas, acabou vencida pela chuva de agrotóxicos despejada pelas produtoras de soja sobre os pés de pequi e laranja que lhe davam o sustento – quando as vacas começaram a morrer, ela foi a última a deixar a casa na comunidade de 80 famílias.

Só não resisti ao veneno. Eu fiquei com a terrinha de 36 alqueires, no meio de uma área de 16 mil hectares de lavoura de cana. Era avião o dia inteiro, jogando inseticida, herbicida. Eles usavam de estratégia, minha área virou ponto de manobra do avião, ele fazia o retorno em cima da minha terra. O vento puxava o veneno e vinha uma chuva em cima de nós”, relata.

O canavial deu lugar às plantações de soja da Agropecuária Três Flechas sem que Valdiva conseguisse reaver o prejuízo – ela chegou a registrar Boletim de Ocorrência (BO) na delegacia de polícia de Confresa, mas nada aconteceu. O filho Moisés, então adolescente, passou a sofrer de uma alergia que perdura até hoje. Em 2015, foi por fim assentada na Gleba Independente I, também na zona rural de Confresa. Mas não conseguiu fugir do veneno. Quando mudou para lá, as comunidades da região já sofriam com a deriva (a aplicação do produto que se desvia do alvo) do glifosato, o agrotóxico mais utilizado pelo agronegócio brasileiro. A fazenda Luta, a maior produtora de soja transgênica da região, fica a apenas 4 km de sua casa.

Valdiva conta que já sabia que seria cercada pela soja. “E sei também que daqui a dez anos esses assentamentos onde estamos, onde tiver terra plana que dá para virar soja, vai virar. Não sei como vamos viver. Aqui já sentimos os efeitos, não sei se é da Luta, se é da fazenda que fica aqui atrás. Mas a mandioca embola o olho todinho, fica empedradinho. As plantas murcham, quebram, endurecem e não voltam mais”, enumera.

Cerca de 90% do território do município de Confresa é formado por assentamentos rurais, segundo a prefeitura. As quatro feiras semanais de alimentos, produzidos por quase 6 mil famílias assentadas, movimentam uma renda de R$ 3 milhões por ano. Nas palavras do secretário de Agricultura, Meio Ambiente e Turismo de Confresa, Iranilto de Matos Rodrigues, é essa renda que “faz a cidade girar”.

Ele próprio assentado e ex-executor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) do Araguaia, Rodrigues destaca que a deriva dos agrotóxicos da fazenda Luta preocupa ainda mais porque ela fica “quase dentro” da sede do município e “na divisa com os índios”. Ele se refere à fronteira da Luta com a Terra Indígena (TI) Urubu Branco, um grande retângulo de floresta transitória entre o cerrado e a mata amazônica que o povo Apyãwa, conhecido como Tapirapé, luta para preservar. Os indígenas se queixam principalmente da poluição das águas, já que os ribeirões passam pela fazenda antes de se juntarem no córrego da Onça, no território deles. “Eles têm reclamado, os agricultores têm reclamado, nossos técnicos que têm propriedades lá ao redor também têm reclamado. Temos que achar uma forma mais pacífica de conviver, principalmente porque aqui acabam usando bastante a pulverização aérea”, diz o secretário.

O padre Alex Venuncio Gonçalves, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Alto Araguaia, que há anos acompanha os conflitos fundiários resultantes da expansão da soja na região, faz uma denúncia ainda mais grave. Segundo ele, a pulverização tem sido utilizada como forma de expulsar os agricultores familiares, como aconteceu com Valdiva. “Num primeiro momento, foi a luta armada, pistoleiros. Depois, veio uma intensa judicialização, que frequentemente prejudicava os pequenos agricultores. Hoje temos uma guerra química: as derivas de veneno cumprem essa função, porque vão acabando com as produções dos camponeses, gerando uma situação de empobrecimento e pressionando-os a negociar seus lotes e sair”, diz.

Julia Dolce/Agência Pública

Depósito municipal de vasilhames de agrotóxicos em Confresa fica na fronteira com a propriedade da Fazenda Luta

Depósito municipal de vasilhames de agrotóxicos em Confresa fica na fronteira com a propriedade da Fazenda Luta

A engenheira agrônoma Polyana Rafaela Ramos, professora do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), também alerta para a seriedade da situação. “Já ouvi muitos casos, a maioria dos assentamentos menores, que têm terras boas para o agronegócio, tem passado por isso. Eles ameaçam de forma velada ou diretamente com o veneno, vão comprando propriedades ao redor, e quem aguenta? Com gado morrendo, plantação morrendo, perdendo a saúde?”, questiona.

A fazenda Luta

Em janeiro de 2015, quando Valdiva deixava sua terra para ser reassentada na Gleba Novo Horizonte, três de seus futuros vizinhos registravam um Boletim de Ocorrência na Polícia Civil de Confresa contra a fazenda Luta por abandono de substâncias tóxicas nocivas ao meio ambiente, delito previsto na Lei dos Crimes Ambientais (Lei n° 2.848/40). Argildo Jornooki, conhecido como Russo por sua ascendência eslava, reclamava a perda do mandiocal, da plantação de jaca e abacaxi, que há 32 anos cultiva no lote de 13 hectares a 800 metros da sede da fazenda Luta. O apicultor Silvestre, seu irmão e vizinho, também atribuía à deriva do veneno da soja a morte das abelhas e a drástica redução da produção do mel, sua principal fonte de renda. O produtor José Valdir Duarte trazia o prejuízo no corpo, com problemas de pele causados pela deriva da pulverização aérea.

Um ano antes Russo, Silvestre e outros mais de 40 produtores do assentamento se reuniram para reclamar da deriva dos agrotóxicos a representantes da fazenda Luta. O veneno passou a afetá-los em 2013, exatamente quando a fazenda iniciava o plantio de soja nos 40 mil hectares comprados em 2012 da antiga Destilaria Gameleira, que foi à falência depois do resgate de 1.400 trabalhadores em trabalho análogo à escravidão. O gerente da fazenda Luta, Fernando Luiz Canan, genro do proprietário, Vítor Elísio Poltronieri, fez então um acordo informal com os agricultores. Russo diz que recebeu R$ 40 mil da fazenda, e o irmão, R$ 2 mil, além da promessa do gerente de que a deriva dos venenos seria controlada. Mas no ano seguinte a deriva foi ainda mais forte e o prejuízo maior, como vem ocorrendo até agora, dizem os agricultores.

Entre as propriedades que detinha na região, antes de comprar as terras da Gameleira, o catarinense Vitor era dono da madeireira Poltronieri Madeiras, no município de Sinop, e de uma transportadora, processada em 2009 e condenada em primeira instância por transporte irregular de madeira (o empresário recorreu e o processo está na Turma Recursal Única de Cuiabá). Poltronieri também foi processado pelo Ministério do Meio Ambiente acusado de desmatar 2.838,58 hectares no município de Ipiranga do Norte (MT) (condenado por Dano Ambiental em primeira instância, ele recorreu, e o processo está suspenso). A família tem fazendas em Ipiranga e em Sinop, onde o seu genro e gerente, Fernando Canan, foi condenado em outubro de 2018 em um processo administrativo por desmatar mais de 500 hectares de vegetação nativa.

De acordo com um ex-funcionário da fazenda Luta, que pediu para não ser identificado pela reportagem, era Fernando que comandava as pulverizações de agrotóxicos, embora a legislação exija que esse trabalho seja feito por um engenheiro agrônomo. O funcionário, que trabalhou na fazenda entre 2014 e 2018, disse que, embora as propriedades da família Poltronieri no Mato Grosso sejam supervisionadas por um mesmo engenheiro agrônomo, ele raramente acompanhava a fazenda Luta. “Eles [o gerente e o agrônomo] se comunicavam por e-mail, mas quase o ano todo quem determinava as aplicações era o Fernando”, na dosagem que “era conveniente para ele” e sem “seguir regras”, afirmou.

A Agência Pública teve acesso a uma perícia do Instituto de Defesa Agropecuária do Estado do Mato Grosso (Indea), de fevereiro de 2015, em que o engenheiro agrônomo e fiscal Kleube Pereira de Souza constatou a “utilização de agrotóxicos em desacordo com as recomendações constantes”, em receitas assinadas pelo agrônomo responsável pela fazenda Luta. “Os produtos Zapp QI 620, Nomolt 150 e Talstar 100 foram aplicados com dose ou cultura em desacordo com o recomendado.” O primeiro produto, patenteado pela Syngenta, é um herbicida classificado pela Associação Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como pouco tóxico. O segundo e o terceiro são inseticidas, respectivamente classificados como pouco e medianamente tóxicos.

A fazenda Luta não retornou as tentativas de contato presencial, telefônico e por email da Pública, que também não conseguiu falar com o proprietário da fazenda, Vítor Poltronieri, nem com o gerente, Fernando Canan. Em declaração anexada na ação civil pública aberta pelo Ministério Público Federal (MPF) em decorrência das denúncias dos agricultores, o advogado da fazenda Luta, Mário Sérgio dos Santos Ferreira Júnior, afirma que as aplicações feitas em torno dos agricultores se limitaram a fungicidas, e não herbicidas, o que impossibilitaria os danos alegados.

Evidências e lapsos

Amargando os prejuízos na roça e na saúde, os agricultores voltaram a procurar a Luta no ano seguinte. Dessa vez, ouviram que não tinham como provar que o prejuízo era causado pela fazenda e que, se quisessem reclamar, que entrassem na Justiça. Foi quando eles lavraram o BO, que não resultou em nenhuma investigação. Procuraram então um advogado, mas, segundo eles, ninguém queria pegar o processo. “Todo mundo tinha medo [da fazenda Luta], eles são grandes”, diz Russo.

Finalmente, em setembro de 2017, o advogado Luiz Octávio Moraes Martins aceitou representar o caso, e o inquérito policial 91.371 foi aberto para investigar as denúncias na Polícia Civil de Confresa. Em maio deste ano, a investigação chegou ao gabinete do juiz do Fórum da Comarca de Porto Alegre do Norte, segundo informou a assessora do juiz. Possivelmente, porém, o caso será arquivado, como recomenda uma minuta do Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPE) anexada ao processo consultado pela Pública no Fórum de Porto Alegre do Norte. A justificativa do MPE é que não “se vislumbra comprovação da materialidade delitiva”, já que não houve laudo pericial para atestar as denúncias.

Pela mesma razão, o inquérito civil sobre o caso, aberto paralelamente ao inquérito policial, também em 2017, na 1a Promotoria de Justiça Cível de Porto Alegre do Norte foi arquivado em maio deste ano. O promotor Marcelo Rodrigues Silva pediu arquivamento por ausência de laudo de dimensão dos prejuízos ambientais e do auto de infração. Segundo o promotor, “diante do lapso temporal decorrido” qualquer tentativa de apuração dos fatos seria “frustrada”.

No processo consultado pela Pública, porém, há laudos periciais feitos pelo Indea, comprovando sintomas de contaminação nas plantas dos agricultores. “Esses sintomas assemelham-se à fitotoxidez ocasionada por herbicidas sistêmicos”, afirma o documento, assinado pelo engenheiro agrônomo Reinaldo Moraes da Silva.

Mas, segundo o MPE, para que o processo fosse adiante, o advogado das partes teria que ter pedido perícia à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), o que não fez. A Pública procurou Luiz Otávio Moraes Martins, mas ele não quis falar com a reportagem.

Para Russo, as provas do caso são “visíveis”. “Tem foto, testemunha, tá tudo bem montado. Mas não se acredita, não.” Em um grande espaço de seu lote, o agricultor deixa os restos do abacaxi que não vingou como prova da intoxicação. “Sempre achei que alguém fosse vir ver.”

Águas tapirapés

A engenheira agrônoma Polyana Rafaela Ramos, professora do IFMT, diz que a irresponsabilidade na aplicação de agrotóxicos nas fazendas é o mais comum. Mas, mesmo quando a pulverização é feita com cuidado, a deriva é inevitável, destaca. “Se não fizer as precauções, ela vai atingir velocidade e distâncias maiores, mas sempre vai existir. Aqui na região venta bastante, a deriva chega a quase 30 km. Não tem como controlar, mesmo com trator. Você diminui, mas acabar não acaba, é mentira”, afirma, categórica.

Polyana é mestre em ciências ambientais e, em sua dissertação, estudou as práticas agrícolas do povo Tapirapé. Segundo ela, os indígenas estão sofrendo com a deriva dos agrotóxicos especialmente pela contaminação dos córregos. “Não temos estudos que comprovem, até porque estudos que buscam indícios de agrotóxicos são caríssimos e pouquíssimas universidades hoje dispõem dos equipamentos necessários. Mas os córregos correm dentro da Luta e temos o etnoconhecimento, o relato da população, e prontuários médicos que dizem que pessoas tiveram intoxicação provavelmente causada por químicos na região, que coincidem com aplicações na região”, explica.

A gente percebe o cheiro através do vento e aí dá sintomas de gripe. Mas temos fontes de ribeirão, que saem e entram no território. Todos os venenos vêm junto com a água, contaminam o lençol freático e também podem prejudicar, mesmo futuramente, a saúde do nosso povo”, diz o cacique Kamoriwai’i Elber Tapirapé, que acompanhou a reportagem da Pública em uma visita de dez dias às aldeias.

O cacique conta que há cerca de dois anos os Tapirapé procuraram a fazenda Luta para pedir que as aplicações fossem feitas mais longe da fronteira com a Urubu Branco. “Falaram que eles jogam, mas não é problemático para o ser humano, que é só pra matar insetos que dão na lavoura”, diz Kamoriwai’i, que continuou preocupado. “A gente tem conhecimento que muitos estudos mostram como eles prejudicam o ser humano. Sabemos que muitas vezes não é imediato, leva tempo.”

Para os pajés, os primeiros a serem procurados pelos Tapirapé quando adoecem, a contaminação da água já está prejudicando a saúde das pessoas. Enquanto nos explica como cura seus pacientes, fumando e passando as mãos sobre eles, Marlene Tapirapé, pajé de 48 anos, diz devagar em português: “O branco joga lixo dentro da água e a água faz mal para a pessoa. A pessoa chega ruim do rio, dá dor de barriga. Antigamente não era assim não, agora o branco tá perto e tá trazendo mais doenças. Quando eu não sei a cura para o mal dos brancos, mando para o hospital”, diz. Marlene e seu filho Namoré, também pajé, vivem na aldeia Wiriaotawa, que fica bem próxima ao rio Tapirapé.

O agente de saúde indígena Arawy’i Jackson Tapirapé, que trabalha há 13 anos no posto da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) na Urubu Branco, conta que as principais doenças que acometem os cerca de 800 moradores da TI são resfriados e diarreia – o que, segundo ele, é resultado do aumento do consumo de produtos industrializados pela população indígena e do contato com água contaminada. “Tudo ao redor das aldeias é plantação de soja e milho com agrotóxicos, isso nos afeta muito. Muitos produtos são jogados, caem no rio Tapirapé, os peixes consomem e nós consumimos os peixes. Nos contaminamos também indiretamente”, explica, acrescentando que os principais afetados são idosos e crianças.

A Secretaria de Saúde de Confresa não respondeu às inúmeras tentativas da reportagem de ter acesso a laudos de intoxicação por agrotóxicos. Dados do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde, publicados pelo site Por Trás do Alimento, uma parceria entre a Pública e a Repórter Brasil, porém, mostram que entre 2014 e 2017 todos os 27 agrotóxicos testados pelo órgão foram detectados na água que abastece Confresa. A água da cidade é abastecida pelo córrego Cacau, que cruza a fazenda Luta. Além disso, 19 agrotóxicos foram detectados acima do limite considerado seguro na União Europeia, entre eles, justamente, o glifosato.

Produtores quebrados

Confresa é repleta de lojas de produtos agrícolas e revendedoras de insumos – é a soja que fez a população, atualmente de 30 mil habitantes, aumentar 4,7% ao ano, uma das maiores taxas de crescimento urbano do estado. A cidade funciona como dormitório para os caminhoneiros que, com o asfaltamento da BR-158, conhecida como uma das estradas da soja, aguardam para levar o produto para o porto de Itaqui no Maranhão, de onde é exportado.

Trata-se de um ciclo de desenvolvimento que não beneficia a população local, como observa o padre Alex. “Há o asfaltamento da BR-158, a chegada do linhão da energia elétrica. Isso, claro, é desenvolvimento para a região, mas vem dentro de uma lógica que não é para ligar cidades ou favorecer as populações que aqui habitam, mas em uma estrutura voltada para a soja. E o agronegócio das monoculturas em grande escala é voltado para a exportação, sobretudo para a China e para os Estados Unidos”, explica.

A reportagem conversou com Matheus Simões, funcionário da revendedora de agrotóxicos Brasil Rural, cuja principal parceira é a Bayer, antiga Monsanto. A loja, montada há três anos e meio, é uma das pioneiras no município. De acordo com Simões, só no ano passado foram abertas outras oito revendedoras de agrotóxicos na cidade; e no primeiro semestre deste ano, mais duas. O vendedor disse que, entre os herbicidas, o glifosato é o mais vendido. Patenteado pela Monsanto nos anos 1970, o produto já foi relacionado ao desenvolvimento cancerígeno por uma série de pesquisas ao redor do mundo. Apenas nos Estados Unidos, a Bayer já soma mais de 18 mil processos contra o uso de glifosato.

A aplicação por aviação agrícola de alguns herbicidas, como o 2,4-D, que costuma ser aplicado em conjunto com o glifosato, é proibida no Brasil. A pulverização aérea de agrotóxicos permitidos também é restringida a menos de 500 metros de povoações e 250 metros de rios e áreas de mananciais, o que é considerado insuficiente para garantir a saúde da população, segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que defende a proibição da pulverização aérea em todo o país.

Em audiência pública na Assembleia Legislativa do estado, no último mês de abril, o médico Wanderlei Pignati, professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e pesquisador da Abrasco, apresentou um dado impressionante: a exposição ao agrotóxico no Mato Grosso é quase dez vezes maior do que a média nacional, de 7,3 litros por pessoa. Pignati conduziu uma pesquisa no município de Lucas do Rio Verde (MT), entre 2007 e 2014, cujo resultado apontou a presença de agrotóxicos até mesmo no leite materno. Um mês depois dessa audiência pública, a Assembleia Legislativa do Mato Grosso deu parecer contrário ao Projeto de Lei 484/2019, que propunha a proibição da pulverização aérea no estado. Segundo dados da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT), mais de 30% da área plantada com soja no MT utiliza aviação agrícola, e o estado possui a maior frota de aeronaves agrícolas do país, 494 unidades ao todo.

Enquanto isso, os agricultores familiares continuam sofrendo com o uso abusivo – quando não mal-intencionado, como denunciou o padre Alex – dos agrotóxicos. Para o agricultor Russo, por exemplo, a perda da produção por anos consecutivos acarretou na impossibilidade de continuar a pagar o tratamento de sua filha Cátia, de 27 anos, que ficou tetraplégica em um acidente de ônibus em 2008. A indenização da viação Xavante até hoje não foi recebida pela família. “Se não me atrapalhar, eu tiro até R$ 100 mil no ano. Mas os anos que eu mais produzi, que mais ia crescer, eles me derrubaram. Fiquei quase um ano sem colher. Gastava R$ 3.500 por mês com o tratamento dela em Cuiabá, tava difícil eu trabalhar e pagar pra ir lá visitar. Tô quebrado, não tem saída. Agora ela faz tratamento aqui no hospital de Confresa”, lamenta. Seu irmão, o apicultor Silvestre, também perdeu sua maior fonte de renda: a produção de mel, que chegava a 2 litros de mel por colmeia/ano.

Silvestre, Valdiva e outros agricultores familiares estão participando de um curso de agroecologia promovido pela Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente de Confresa, em parceria com o IFMT, para assentados e indígenas. Em uma visita à TI Urubu Branco, Valdiva constatou que os prejuízos unem indígenas e agricultores familiares. “Todas as nações que estão aqui, fazendo todos os tipos de agricultura familiar, tão sendo punidas do mesmo jeito. Para nós, o veneno é um fracasso”, diz.

A reportagem é parte do projeto da Agência Pública chamado Amazônia sem Lei que investiga violência relacionada à regularização fundiária, demarcação de terras e reforma agrária na Amazônia Legal

Reportagem originalmente publicada na Agência Pública

Saiba quais são os alimentos com mais agrotóxicos proibidos

 

Saiba quais são os alimentos com mais agrotóxicos proibidos

Laranja, pimentão e goiaba: alimentos campeões de agrotóxicos acima do limite

 

Fonte: Agência Pública

Resumo:

Saiba quais são os alimentos com mais agrotóxicos proibidos ou acima do volume permitido e aqueles que oferecem risco imediato à saúde do consumidor. Cálculo de intoxicação da Anvisa ignora crianças com menos de 10 anos

Por Pedro Grigori, Bruno Fonseca, Agência Pública

Agência Pública

A Anvisa usou tom otimista na publicação do relatório do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos com resultados de testes feitos em frutas e legumes entre 2017 e 2018. Mas o documento não colocou de forma clara informações de alto interesse público que foram destaque na divulgação de relatórios anteriores. Por exemplo, quais são os alimentos em que mais foram detectados agrotóxicos em doses problemáticas? A Agência Pública e a Repórter Brasil analisaram os dados brutos do relatório em busca dessa e de outras respostas. 

A agência divulgou que, no geral, 23% dos alimentos testados tinham agrotóxicos proibidos ou acima do volume permitido. Mas esse quadro é ainda mais preocupante quando se olha alguns alimentos específicos.

Como ocorreu em anos anteriores, o pimentão foi o campeão de problemas. Em cada 10, oito tinham agrotóxicos proibidos ou acima do permitido. A novidade nesta edição do relatório foi o segundo lugar para a goiaba, que teve 42% das amostras testadas com doses acima do recomendado ou agrotóxicos proibidos. Em seguida ficaram a cenoura com 39% de desconformidade,  e o tomate com 35%.

Alimentos com agrotóxicos proibidos ou acima do limite

Além desses alimentos, também fazem parte da análise amostras de abacaxi, alface, alho, arroz, batata-doce, beterraba, chuchu, laranja, manga e uva (confira os resultados sobre cada um deles na arte acima). As coletas foram realizadas entre agosto de 2017 e junho de 2018 pelas Vigilâncias Sanitárias Estaduais e Municipais em todos os estados — apenas o Paraná ficou de fora. 

É a Anvisa que determina qual agrotóxico pode ser usado e qual a quantidade máxima de resíduo que pode ficar em cada alimento, o chamado Limite Máximo de Resíduos (LMR). De acordo com a agência, a detecção de agrotóxico acima do LMR não significa necessariamente risco à saúde do consumidor. Nesses casos, segundo a Anvisa, é necessário fazer outra avaliação específica sobre os riscos. 

Se foi detectado acima do limite é porque ocorreu um uso desnecessário, o agricultor usou mais agrotóxico do que precisava, seja por não seguir a bula, por não ter sido orientado ou porque a praga não estava morrendo”, explica a toxicologista e pesquisadora da Fiocruz Karen Friedrich. 

Laranja pode intoxicar consumidor

Nas avaliações específicas para identificar a quantidade de agrotóxico que pode gerar problemas à saúde de quem come o alimento, a Anvisa criou um novo método para avaliar o risco agudo (a curto prazo) e crônico (a longo prazo). Para isso, a agência usou dados sobre quanto os brasileiros consomem em média de cada alimento e o peso corpóreo dos consumidores a partir de 10 anos de idade. 

Ou seja, a Anvisa ignora o risco para crianças de zero a 10 anos, grupo cuja saúde é ainda mais suscetível à intoxicação porque tem peso inferior ao dos adultos. Questionada pela reportagem, a agência confirmou a informação e atribuiu a falha à limitação da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, usada como base para a avaliação.

A partir deste cálculo, a agência concluiu que não há casos de risco crônico nos alimentos analisados e apenas 41 frutas e legumes tem potencial de risco agudo. Desses, 27 eram laranjas. Ou seja, a cada 14 laranjas vendidas nos mercados, uma tinha agrotóxico suficiente para causar uma intoxicação imediata em quem consumiu – um cenário preocupante para um país onde a fruta é consumida com frequência. 

O risco agudo inclui uma gama de sintomas como enjoo, dor de cabeça, alteração do ritmo cardíaco e respiratório, em alguns casos podendo levar a pessoa a ser hospitalizada”, explica Karen, da Fiocruz. 

Cinco laranjas analisadas apresentaram mais de cinco vezes o limite de segurança de exposição, todas para o agrotóxico carbofurano, um inseticida proibido no Brasil desde 2017 devido aos efeitos neurotóxicos. Este produto pode afetar o desenvolvimento, incluindo efeitos nos fetos, funcionais e comportamentais.

Especialistas alertam que o problema pode não estar apenas na laranja.  A pesquisadora da Fiocruz faz críticas ao método de avaliação para risco à saúde humana, apontando que uma das falhas é a análise isolada dos agrotóxicos. “Os resultados mostram que a mistura é frequente. Interações entre os agrotóxicos podem gerar efeitos aditivos e sinérgicos que necessariamente impactam o cálculo”, explica Karen. 

Outra crítica é em relação ao cálculo de quanto o brasileiro consome. Segundo o relatório, a abordagem da Anvisa “parte do princípio de que é improvável que um indivíduo consuma grande porção de dois ou mais alimentos diferentes, em um curto período, contendo resíduos do mesmo agrotóxico nas maiores concentrações detectadas”.

Para Karen, o relatório erra ao não considerar que “a pessoa come diferentes alimentos por dia, que podem conter resíduos de diversos agrotóxicos com efeitos danosos para a saúde”. 

21 agrotóxicos no mesmo alimento 

Segundo análise independente deste mesmo relatório conduzida pelo Grupo de Trabalho de Agrotóxicos da Fiocruz, em 34% das amostras foram identificadas misturas de agrotóxicos, variando de dois a 21 tipos diferentes de ingredientes ativos. Os produtos que apresentaram maior percentual de mistura de agrotóxicos foram o pimentão (95%), cenoura (73%) e tomate (68%).

Foram pesquisados até 270 agrotóxicos diferentes no total, 16% a mais do que na edição anterior do relatório. No geral, o agrotóxico mais encontrado foi o imidacloprido, que apareceu em 16% dos casos. O inseticida é o oitavo agrotóxico mais vendido no Brasil, com 10 mil toneladas comercializadas em 2018, segundo o Ibama. Ele é um neonicotinoide, derivado da nicotina que tem capacidade de se espalhar por todas as partes da planta. Ou seja, descascar o alimento ou lavá-lo não é suficiente para retirar todos resíduos. Ele também é fatal para polinizadores como a abelha

Logo depois, aparecem os fungicidas tebuconazol e o carbendazim — este último proibido na União Europeia, Estados Unidos, Canadá e Japão por causar mutação nos genes e problemas reprodutivos.

presença de agrotóxicos em alimentos

Mas o agrotóxico que mais preocupou a Anvisa no relatório é o acefato, quinto mais vendido no Brasil, com 24,6 mil toneladas por ano. Ele é o sétimo mais encontrado e é o que mais apareceu em alimentos para os quais não é permitido, em 314 casos.

O acefato foi destaque em levantamento publicado pela Agência Pública e a Repórter Brasil sobre casos de depressão e suicídio envolvendo agrotóxicos. Ele faz parte dos organofosforados, uma classe de agrotóxicos comprovadamente neurotóxicos que podem desenvolver alterações no sistema nervoso do seres humanos, causando, entre outros problemas, casos severos de depressão. 

O potencial neurotóxico é um dos motivos que fez a União Europeia banir o acefato. No Brasil, ele passou por reavaliação, e em 2013 a Anvisa decidiu mantê-lo no mercado, mas com restrições. Entre elas, a proibição nas culturas de tomate e pimentão e fumo, entre outros que não são alimentos. 

Mesmo proibido para essas culturas, o acefato foi identificado em 41% dos pimentões e 21% dos tomates. 

No relatório, a Anvisa destaca a situação deste agrotóxico como preocupante e diz que as ações de mitigação não foram suficientes para redução significativa das irregularidades, que podem ter impacto sobre a saúde do trabalhador. “Por isso, recomenda-se avaliar a efetividade das medidas já adotadas e verificar a necessidade de propor novas ações ou ampliar as restrições regulatórias”, diz. 

De acordo com a assessoria de imprensa da Anvisa, os resultados não indicaram situações de risco ao consumidor, mas sim ao trabalhador rural. A agência informou que colocará nova regulamentação sobre o acefato em consulta pública. 

A Anvisa ainda não tem previsão de quando vai divulgar a próxima avaliação sobre agrotóxicos na comida, com análises feitas entre 2018 e 2019. De acordo com a Anvisa, “após a publicação da última edição, as Vigilâncias Sanitárias dos Estados e Municípios notificaram os pontos varejistas sobre os resultados dos seus estabelecimentos para que eles possam tomar as medidas necessárias junto aos seus fornecedores”. 


As secretarias de Agricultura também foram informadas, para que possam orientar os profissionais envolvidos no processo produtivo do setor primário.
Confira a íntegra da resposta da Anvisa.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/10/2020