sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Governador do MT pressionou Agência Nacional de Águas por hidrelétricas no Pantanal

 

BIOMA FRÁGIL

Governador do MT pressionou Agência Nacional de Águas por hidrelétricas no Pantanal

Flexibilização da legislação defendida por Mauro Mendes beneficia a empresa Maturati e uma Pequena Central Hidrelétrica

Lázaro Thor Borges Agência Pública

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 01 de Agosto de 2022 às 17:17


Mauro Mendes pressiona por hidrelétricas no Pantanal - Alan Santos/PR

No dia 10 de maio, o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes, chamou de “lamentável” a lei aprovada pela Assembleia Legislativa do Mato Grosso que proibiu a construção de hidrelétricas no rio Cuiabá, um dos principais rios do Pantanal. 

“Isso é uma coisa técnica, e acho lamentável a Assembleia Legislativa ter feito esse tipo de lei a toque de caixa. Tem muito deputado querendo ganhar voto nesta eleição. Isso tem que ser feito com estudo técnico e não podia ter feito assim”, afirmou, após o Projeto de Lei (PL) 957/2019 ter sido aprovado. Dois meses depois, em 4 de julho, Mendes vetou o texto.

Essa não foi a primeira vez que o governador se mostrou favorável a empreendimentos na bacia hidrográfica que compõe o Pantanal, maior planície alagável do mundo. Documentos obtidos pela Agência Pública mostram que, ao longo de seu mandato, Mendes pressionou entidades, órgãos públicos e políticos para flexibilizar leis que poderiam viabilizar a construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas, as PCHs, na região. 

A pressão foi liderada pela empresa Maturati Participações S.A., que planeja construir seis PCHs no rio, com apoio de Mendes, do senador Carlos Fávaro (PSD) e do suplente de deputado federal Valtenir Pereira (MDB). Além dos negócios da Maturati, da flexibilização da lei depende a construção de uma PCH que pertence ao filho de Mendes, Luiz Antônio Taveira Mendes, e a parentes do ex-secretário da Casa Civil do estado Mauro Carvalho.

Considerado um dos biomas mais sensíveis do Brasil, o Pantanal depende de rios que nascem em planaltos e serras, na bacia do alto Paraguai, e sofreu muito com queimadas nos últimos anos. Segundo dados do MapBiomas Água, a região perdeu 74% da superfície de água desde 1985, e cientistas denunciam que existem poucos estudos sobre os efeitos de várias usinas em um espaço tão frágil. 


Pantanal vem sofrendo com a degradação ambiental nos últimos anos / Rogério Florentino/Agência Pública



Mauro e Maturati

Toda a preocupação de Mauro Mendes e da Maturati Participações em acelerar a construção de hidrelétricas na bacia do Pantanal foi evidenciada em um documento protocolado pela própria Maturati em julho de 2020 no Ministério de Minas e Energia.

A carta apresenta a linha do tempo de todas as ações tomadas em parceria com Mendes e outros políticos para liberar as hidrelétricas na região — a Maturati é o principal alvo da lei aprovada na Assembleia e vetada pelo governador. “Inobstante acreditarmos no novo governo do Presidente Bolsonaro, e no seu discurso em prol dos benefícios das PCHs para o Brasil, mesmo assim, estamos vivenciando as mesmas burocracias dos governos anteriores”, reclama o presidente da Maturati, o empresário Fernando Luiz Vilela, no documento. 

A principal reclamação da Maturati envolvia a Resolução 64/2018 da Agência Nacional de Águas (ANA), que suspendeu a construção de hidrelétricas na bacia do alto Paraguai, região que compreende rios que irrigam o Pantanal.  A suspensão valeu até maio de 2020. Além de interromper negócios milionários, a norma determinava estudos para avaliar os impactos das hidrelétricas na região. 

Nesse período, a Maturati e a Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa (Abragel) mobilizaram políticos para derrubar a resolução. Em julho de 2019, atendendo a pedido de empresários, o então deputado federal Valtenir Pereira apresentou um projeto de decreto legislativo para derrubar a resolução. “Trata-se de medida abusiva, que implica em insegurança jurídica, além de prejudicar a economia de toda a bacia”, dizia o parlamentar. 


Construção de hidrelétricas pode causar impactos ambientais na região / Rogério Florentino/Agência Pública



Dois meses depois, em agosto de 2019, foi a vez de o governador Mauro Mendes protocolar um pedido na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados e na Casa Civil “pedindo a revogação ou revisão da Resolução 64”. A mesma carta, segundo a Maturati, foi encaminhada à ANA. 

Na carta, obtida pela reportagem da Agência Pública via Lei de Acesso à Informação (LAI), o governador reclama que a resolução aprovada pela ANA suspendeu hidrelétricas que não estavam em operação até 19 de julho de 2018. 

“No início do corrente ano o Governo do Estado de Mato Grosso esteve reunido com a diretoria da ANA e externou a discordância quanto aos termos da aludida resolução”, diz. “A resolução criou restrições que já receberam atos autorizativos do estado causando impacto relevante para aqueles que já apresentaram seus estudos”. 

No documento, Mendes cita 28 PCH’s que conseguiram licença de instalação e licença provisória junto ao estado e que foram impedidas de tocar as obras por conta da resolução. Por conta disso, Mendes exige a revogação da medida. “Diante desse contexto, ainda que o Governo do Estado de Mato Grosso esteja aberto a dialogar, não há como avançar na construção de solução sem que seja revogada ou alterada a Resolução Nº 64/18, para que de fato se trate exclusivamente da restrição para novos empreendimentos”, conclui o governador. 

Ainda em agosto a ANA respondeu ao governador informando que a resolução estaria em revisão. A partir de então, uma série de resoluções da agência foi liberando da suspensão sub-bacias importantes do Pantanal, como a sub-bacia do rio Cuiabá, região dos empreendimentos da Maturati, onde a empresa pretende construir 6 hidrelétricas.

No dia 20 de maio de 2020, mostram os documentos, Mauro Mendes, Carlos Fávaro, Fernando Vilela e o governador do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PSDB), fizeram uma reunião com o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, para novamente cobrar pela liberação dos empreendimentos em águas pantaneiras.  

 


Principais rios do Pantanal afloram no “Arco das Nascentes” / Rogério Florentino/Agência Pública



PCH Santo Antônio

Candidato à reeleição pelo União Brasil e aliado de Jair Bolsonaro, Mauro Mendes é diretamente interessado na liberação de hidrelétricas na bacia do alto Paraguai. Seu filho, Luiz Antônio Taveira Mendes, herdou um projeto iniciado pelo governador em 2007 para a construção de uma PCH nas cabeceiras do córrego Aguaçu, no município de Santo Antônio de Leverger. A PCH Santo Antônio fica na região conhecida como “Arco das Nascentes”, local onde afloram os principais rios que abastecem 70% das águas do Pantanal. 

A PCH, que aguarda licenciamento, será construída a cerca de 3 quilômetros da cachoeira do Aguaçu, uma queda-d’água de 80 metros de altura no córrego homônimo, que pode ser vista a 7 quilômetros de distância. Alvo de uma disputa administrativa na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a PCH Santo Antônio foi pensada inicialmente pelo ex-bicheiro João Arcanjo Ribeiro, considerado líder do crime organizado nos anos 1990 em Mato Grosso. Na época, o nome do projeto era PCH Colibri. 

Arcanjo perdeu o direito de aproveitamento do curso d’água depois que foi preso em 2004. Em 2007 os empresários Mauro Mendes e Mauro Carvalho Júnior ingressaram com requerimento para construir a hidrelétrica através das empresas Malv Empreendimentos e Athivalog Logística. Em 2017, um ano antes de Mauro Mendes se tornar governador e Mauro Carvalho ser nomeado secretário da Casa Civil, as duas empresas conseguiram a autorização para a PCH. 

O projeto é visto como um dos mais rentáveis da região. Documentos protocolados na Aneel apontam que a usina pode gerar receita de R$ 14 milhões por ano. Inconformado com a perda da outorga, Arcanjo entrou com requerimento em abril de 2019 na Aneel alegando “conflito de interesses”. Segundo ele, o projeto original da PCH era de 15 MW, mas o governador teria reduzido a potência prevista para 10 MW, com objetivo de facilitar o licenciamento na Secretaria Estadual do Meio Ambiente do estado (Sema).

“A situação que se estabelece em sendo mantida a alteração da potência de 15 MW para 10 MW, deixando somente para o órgão ambiental a ciência dos estudo, agora estabelece conflito de interesses entre os diretores das empresas e os dois principais cargos diretivos do estado de Mato Grosso, uma vez que o empresários Mauro Mendes Ferreira e Mauro Carvalho Junior são respectivamente o governador do estado e o secretário-chefe da Casa Civil”, dizia Arcanjo na carta. 


Cachoeira do Aguaçu, no município de Santo Antônio de Leverger / Rogério Florentino/Agência Pública


O pedido de revisão da outorga foi negado pela Aneel. A legislação atual determina que usinas com potência prevista menor do que 30 MW, caso das PCHs, não necessitam de Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima). Por causa disso, a Malv Engenharia e a Athivalog apresentaram apenas 0 Relatório Ambiental Simplificado (RAS). A solicitação de licença foi feita em abril de 2020 pelas empresas e em dezembro de 2020 foi emitida pela Sema.

Queda da Resolução da ANA

Em maio de 2020, a resolução perdeu a vigência e os estudos da ANA foram concluídos. Foi uma vitória parcial de Mendes, da Maturati Participações e dos políticos que auxiliaram a empresa. Os documentos exigidos pela ANA, porém, mapearam diversas áreas em que o uso da água era extremamente crítico. Uma dessas áreas foi o rio Cuiabá, por causa da disputa com a pesca e o turismo. 

Em dezembro de 2021, o senador Carlos Fávaro, que já foi secretário de Meio Ambiente do Mato Grosso, entrou novamente em cena: em carta enviada à ANA, pediu esclarecimentos sobre a classificação utilizada pela agência. No documento, Fávaro quer saber se o mapeamento vai interferir nas PCHs que, segundo afirma, são empreendimentos de “extrema importância” para o estado. 

Em resposta, a ANA informou que as usinas da Maturati vão precisar de “mecanismos de transposição de peixes” para evitar que as hidrelétricas acabem com o pescado na região e que a responsabilidade sobre o caso é da Sema, pasta que já foi liderada pelo senador.  

Questionada se possui mais documentos de encontros entre políticos, empresários e representantes da ANA, a Assessoria Especial de Assuntos Parlamentares da agência informou não ter dados sobre outras reuniões, cartas e encontros citados pela Maturati em manifestação ao Ministério de Minas e Energia. 

Depois de mais respostas evasivas da ANA, nas quais não informou se as reuniões ocorreram ou não, a Controladoria-Geral da União (CGU) determinou, no dia 20 de julho, que a agência apresente até o dia 9 de agosto informações sobre os encontros e documentos citados na carta da Maturati. Logo em seguida, os documentos que demonstram as pressões de políticos sobre a agência foram disponibilizados. 

A reportagem da Pública entrou em contato também com a Câmara Federal, onde tramitou o projeto de lei apresentado por Valtenir Pereira para derrubar a resolução da ANA. Em resposta, a relatora do projeto, a deputada federal Greyce Elias (Avante-MG) confirmou que recebeu o governador Mauro Mendes para tratar do assunto, mas que não se recorda de ter recebido carta sobre o assunto. 

Em nota encaminhada por sua assessoria, o senador Fávaro afirmou que sua atuação em prol das hidrelétricas se deu dentro dos limites legais. “A atuação dele em relação ao tema ocorreu no sentido de pedir celeridade para a conclusão do estudo técnico e com um ofício, encaminhado à ANA pelo senador, dentro dos limites legais e parte da função de um parlamentar, que visava apenas e tão somente o nivelamento de informações entre todos os entes interessados na questão”, diz o texto. Já o governador e Valtenir Pereira não retornaram até a publicação desta reportagem.

“Viver como deserto”

Para pescadores e ribeirinhos do Pantanal, a percepção  de que o número de peixes nos rios e córregos diminui cada vez mais é indiscutível. O ex-chefe de fiscalização da Sema, Júlio Reiners, não tem dúvidas disso. 

“Se construir todas as PCHs que estão projetadas, vai acabar com tudo”, diz Reiners. “É o fim de tudo, podemos viver como deserto, já tivemos dois anos de seca intensa, tudo isso é consequência dessas PCHs e usinas todas. É interesse puramente econômico e individual, não estão pensando no meio ambiente nem no povo ribeirinho que apesar da dificuldade sobrevive”, afirmou. 

Atualmente existem 133 hidrelétricas previstas na bacia do alto Paraguai, com influência direta no Pantanal. A Pública visitou uma das regiões mais marcadas pelo avanço desses empreendimentos: os municípios do Pantanal Norte, que inclui Santo Antônio do Leverger, Barão de Melgaço, Poconé e Cáceres. 

As baías dos rios Chacororé e Siá Mariana, que ficam entre os municípios de Santo Antônio de Leverger e Barão de Melgaço, formam verdadeiros berçários da fauna pantaneira. Um manancial de biodiversidade que está sob ameaça constante. Em janeiro de 2021, a baía Chacororé secou completamente pela primeira vez na história. 


Biodiversidade pantaneira está sob ameaça constante / Rogério Florentino/Agência Pública



No mesmo ano, o Ministério Público Estadual do Mato Grosso (MPMT) entrou com ação requerendo a suspensão de hidrelétricas no Pantanal. No documento, o MPMT cita que os empreendimentos têm impacto negativo no bioma. Os promotores fazem referência também aos efeitos da Usina Hidrelétrica do Rio Manso, afluente do Cuiabá, no pescado do Pantanal. 

A falta de peixes no Pantanal criou a figura do ex-pescador. Pantaneiros que antes viviam da pesca, consumo e comercialização do pescado abandonaram a profissão à medida que as águas ficavam cada vez menos produtivas. Benedito Flaviano Siqueira, conhecido como Dito Carrapicho, é um deles. 

“Eu pesco até hoje, mas não se ganha dinheiro mais, naquele tempo ganhava muito”, conta Dito, que se lembra com carinho das pescarias no rio Mutum: “Naquele tempo tinha muito peixe, meu pai fazia rapadura na beira do rio, a gente pescava lá. Você jogava isca e pegava cada pacu enorme. Hoje nem piranha mais a gente acha nesse rio”, comenta o ex-pescador que mora no distrito de Mimoso, no município de Santo Antônio de Leverger.

Nos meses de seca, contam, é preciso pedir água de caminhões-pipa ou contar com a ajuda de vizinhos que possuem poço artesiano. “Água, aqui em Mimoso, é a coisa mais difícil que tem. Agora tem água, mas quando começa a secar é só no caminhão-pipa”, diz o também ex-pescador José Brandão. 


José Brandão, ex-pescador / Rogério Florentino/Agência Pública



O rio Mutum das memórias de Dito e Zé Brandão é o principal responsável por encher a baía de Chacororé, a terceira maior do Pantanal. Nas cabeceiras do Mutum está sendo instalada a PCH Montovillis, primeira hidrelétrica a sair do papel na região. O empreendimento é questionado por indígenas da etnia Bororo, pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo MPMT. 

Pedido ilegal

Além do governador Mauro Mendes, a Maturati Participações tem aliados ainda mais poderosos. A empresa conseguiu uma previsão de aporte de capital chinês de US$ 381 milhões, através da estatal China Energy Engineering Group Co.

À medida que a empresa conseguiu destravar algumas resistências ao projeto, novos problemas foram surgindo. Uma dessas resistências ficou evidente em um pedido feito pela advogada da Maturati Participações, Fabrina Ely Gouvea, à Sema. 

Na solicitação datada de julho de 2020, Fabrina pediu que a Sema desse andamento ao pedido de licenciamento ambiental das PCHs do rio Cuiabá antes da emissão da Declaração de Reserva de Disponibilidade Hídrica (DRDH).  A DRDH é uma autorização de utilização da água para empreendimentos energéticos emitida pela ANA. Na resposta, a secretária de Meio Ambiente afirmou se tratar de uma solicitação “ilegal” e negou o pedido. 

“Em resposta a solicitação de posicionamento informo da impossibilidade do atendimento da referida solicitação, devido a mesma ser ilegal e inviável do ponto de vista técnico-jurídico, invertendo toda lógica do procedimento de licenciamento ambiental de empreendimentos energéticos”, diz trecho assinado pela secretária de Meio Ambiente, Mauren Lazzaretti. 

A autora do pedido, Fabrina Ely Gouvea, advoga para a Maturati ao mesmo tempo em que é representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema), que analisará o licenciamento das usinas no rio Cuiabá. A OAB e a Sema não proíbem a participação de representantes de empresas no Conselho. Por norma, a advogada deve apenas se declarar impedida quando o licenciamento chegar ao órgão.  

Além da Assembleia Legislativa do Mato Grosso, a Câmara Municipal de Cuiabá aprovou uma lei proibindo a construção de hidrelétricas na área em que o rio corta a capital mato-grossense. Outro projeto de lei, que também versa sobre o Pantanal, foi discutido por deputados estaduais nos últimos meses e aprovado pela Assembleia Legislativa. 

O PL 561/2022 alterou a legislação de proteção das áreas inundáveis da Planície Alagável da Bacia do Alto Paraguai no Mato Grosso, que têm aproximadamente 600 mil quilômetros quadrados e abrangem dez municípios — Cuiabá, Várzea Grande, Jangada, Acorizal, Nossa Senhora do Livramento, Santo Antônio de Leverger, Barão de Melgaço, Poconé, Cáceres e Itiquira. 

Ao mesmo tempo que flexibiliza a pecuária no Pantanal, o texto proíbe a construção de PCHs na “Planície Alagável da Bacia do Alto Paraguai”. A redação do projeto, no entanto, não deixa claro se empreendimentos fora da planície alagável — mas dentro da bacia — também estão proibidos. 

No meio da disputa empresarial e política pela construção de hidrelétricas no Pantanal está João Pedro Dorileo, dono da fazenda Poço de Pedra, onde deve ser construída a PCH Santo Antônio, que pertence aos familiares do governador Mauro Mendes. Com 65 hectares, ela fica na beira da cachoeira do Aguaçu. 

Em dois anos, o pantaneiro investiu para aproveitar o potencial ecoturístico da cachoeira: construiu trilhas de acesso com escadas de madeira e placas de sinalização, além de um quiosque no meio da mata para que turistas pudessem se alimentar. “O turismo vai para todo mundo, vai para o padeiro, vai para o comerciante, beneficia todo município”, comenta. 

Para ele, a quantidade de energia que a PCH vai produzir não compensa o impacto na região. “No mínimo, eles vão ter que tirar 70% da água, aí acabou a cachoeira, uma coisa exuberante dessa. Dói pensar que vão acabar com isso por causa de 10 MW, que vai beneficiar quatro a cinco pessoas”, afirma.


 

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Brasil de Fato | Lábrea (AM) |
 
Incêndio no Pantanal, setembro de 2020 - Mayke Toscano

Sob críticas de dezenas de entidades ambientalistas, o governador do Mato Grosso Mauro Mendes (União) sancionou o Projeto de Lei (PL) 561/2022, que libera a pecuária extensiva em Áreas de Preservação Permanente (APP) no Pantanal. A sanção foi publicada na quinta-feira (4) no Diário Oficial.

O texto, que altera a Lei do Pantanal, permite a utilização de até 40% das propriedades em áreas alagáveis para pastagem, suspende restrições para uso de agrotóxicos e dá permissão para mineração e empreendimentos ligados ao turismo.

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Mais de 40 entidades populares e socioambientais afirmam que as mudanças representam a legalização da degradação ambiental e aceleram o colapso ambiental do Pantanal. A pecuária extensiva aumenta os riscos de incêndios, como o que destruiu 26% da cobertura vegetal do bioma em 2020. 

Já o texto do PL justifica que a pecuária extensiva é uma "atividade de baixo impacto" que "auxilia a manter a biodiversidade biológica". No Pantanal, é "totalmente inviável cercar toda área considerada de preservação permanente", diz trecho do PL. 

Possível judicialização 

O Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad-MT), que reúne 30 entidades que lutam pela preservação do bioma, classifica as mudanças como um retrocesso que atende aos interesses do agronegócio. Representantes das comunidades tradicionais do Pantanal dizem não ter sido consultados previamente.

“Essa lei não traz nenhuma vantagem para os povos tradicionais e comunidades no entorno do Pantanal e muito menos para o bioma. Ela representa meramente a autorização para o desaparecimento do Pantanal e dessas comunidades”, afirmou em nota Herman Oliveira, secretário executivo do Formad-MT. 

:: Governador do MT pressionou Agência Nacional de Águas por hidrelétricas no Pantanal ::

A consulta prévia, livre e informada às comunidades tradicionais que tiverem seus modos de vida impactados por grandes empreendimentos econômicos é um direito previsto na convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. 

A ausência de processo de consulta denunciada pelas comunidades motivou uma denúncia de inconstitucionalidade contra o PL 561/2022 feito ao Ministério Público Federal (MPF) pelo biólogo e pesquisador Lucas Ferrante. O deputado estadual pelo Mato Grosso Lúdio Cabral (PT) já declarou que poderia judicializar o PL, caso ele fosse aprovada pela Assembleia Legislativa. 

Autor de PL declarou R$ 100 mil investidos em pecuária

O PL 561/2022 é de autoria da Comissão de Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Recursos Minerais da Assembleia Legislativa do Mato Grosso. O presidente da Comissão é o deputado Carlos Avallone (PSDB), dono das principais construtoras do estado.

O parlamentar disputou a primeira eleição em 2018 e levou a suplência, antes de ser empossado. Na declaração de bens à Justiça Federal, informou que tinha ao todo R$ 95,5 mil investidos em pecuária, principal atividade beneficiada pelo PL 561/2022. 

:: Autor de PL que liberou "boiada" no Pantanal declarou R$ 100 mil investidos em pecuária ::

O Brasil de Fato perguntou ao parlamentar se sua articulação política em favor do projeto configura conflito de interesses, mas nunca houve resposta. O espaço segue aberto, e o texto será atualizado caso o parlamentar se manifeste. 

Edição: Rodrigo Durão Coelho

Ministério Público entra com ação para cobrar U$2 bilhões de Bolsonaro e ex-ministro Ricardo Salles pelo fim do Fundo Amazônia

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O Ministério Público (MP) moveu uma ação junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) na última quinta-feira (30/6) pedindo que o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, paguem cerca de US$ 2 bilhões, mais de R$ 10 bilhões, pelo fim do Fundo Amazônia.

A ação, protocolada pelo subprocurador-geral do MP, Lucas Rocha Furtado, solicita que o TCU apure se a conduta “intransigente, temerária e ideologizada” de Bolsonaro e Salles levou à “a ocorrência de prejuízos ao Brasil, sobretudo às políticas públicas de preservação ambiental, havidos na perda de contribuições financeiras para o Fundo Amazônia, bem assim na paralisação da aplicação dos respectivos recursos”.

Furtado denuncia ainda que “o governo Bolsonaro insistiu em manipular a finalidade do fundo, decidindo livremente e de maneira unilateral a destinação dos recursos”.

O MP sugere que, caso o presidente e Salles sejam condenados, paguem US$ 1 bilhão em multas e mais US$ 1 bilhão em débitos.

Criado em 2008, o fundo promovia e apoiava financeiramente projetos para a prevenção e o combate ao desmatamento e também, para a conservação e o uso sustentável das florestas na Amazônia Legal, área que compreende nove estados brasileiros e corresponde a quase 60% do território nacional.

Financiado principalmente pelos governos da Noruega (o principal investidor, responsável por 93% dos recursos) e da Alemanha, o fundo tinha seus recursos geridos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e os projetos analisados pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). Até hoje foram apoiadas 103 iniciativas e o fundo contava com R$ 3,4 bilhões em caixa.

Todavia, em 2019, o governo federal decidiu, por conta própria, tentar mudar as regras do Fundo Amazônia. O então ministro do Meio Ambiente declarou que queria usar os recursos da iniciativa para desapropriar terras e tentou ainda colocar dúvidas sobre o trabalho feito pelas ONGs recebedoras do dinheiro.

Naquele ano, o governo norueguês declarou oficialmente a insatisfação em relação à política ambiental do governo Bolsonaro e os índices crescentes de desmatamento na Amazônia, além de ter sido contra o fim do comitê técnico e da diretoria da iniciativa. O ministro do Meio Ambiente Ola Elvestuen citou ainda a preocupação da comunidade científica ao possível “ponto sem volta” da destruição da Floresta Amazônica.

*Com informações do jornal Metrópoles

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Foto: Marcos Corrêa, PR/Agência Brasil

Parque Estadual Cristalino II em perigo! Justiça do MT determina extinção desta área considerada prioritária para a conservação da Amazônia

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Parque Estadual Cristalino II em perigo! Justiça do MT determina extinção desta área considerada prioritária para a conservação da Amazônia

Parque Estadual Cristalino II em perigo! Justiça do MT determina extinção desta área considerada prioritária para a conservação da Amazônia

Em 2011, a Sociedade Comercial e Agropecuária Triângulo LTDA. protocolou uma ação declaratória na Justiça do Mato Grosso contra o governo do estado, solicitando a anulação do decreto de criação do Parque Estadual do Cristalino II, no extremo norte do estado. A empresa alegou que as exigências da lei federal sobre audiências públicas e estudos técnicos não foram cumpridas.

Seu pedido foi negado em primeira e segunda estâncias, mas ela não desistiu. Recorreu ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ) para que o processo voltasse ao TJMT para análise, onde dois dos três desembargadores que analisaram o caso decidiram pela anulação do decreto que criou o Parque Estadual do Cristalino II.

E pasme: o governo do MT, réu no processo, não recorreu da decisão e deixou o prazo legal (28 de abril) vencer, abrindo mão da defesa da área em última instância.

Assim, a decisão do TJMT transitou em julgado no final de abril. E, em 10 de julho, a PGE -Procuradoria Geral do Estado encaminhou oficio à Sema – Secretaria Estadual de Meio Ambiente informando sobre a decisão e exigindo que fosse acatada. Por meio de nota, o órgão informou que “o Estado já recorreu e se manifestou nos autos sempre que necessário“, mas cumprirá a decisão judicial assim como dará continuidade à sua atuação na região contra crimes ambientais.

Em entrevista à imprensa, em 2 de agosto, o governador Mauro Mendes declarou: “Primeiro preciso ouvir a procuradoria para saber quais os motivos que levaram a esta revogação judicial. Imagino que, se assim o fez, deve ter existido alguns erros ou vícios que tornaram nula essa criação. Eu pretendo, primeiro, conhecer o parecer da procuradoria a respeito para, depois, falar sobre o assunto”.

Mobilização

O Parque Estadual do Cristalino II tem 118 mil hectares, fica nos municípios de Novo Mundo e Alta Floresta e é um dos mais ricos em biodiversidade, com dezenas de espécies endêmicas, por isso, é considerado área prioritária na conservação da Amazônia. Junto com o Parque Estadual Cristalino I (66.900 hectares), totaliza 184.900 hectares de extraordinária natureza.

Enquanto o estado se mostra moroso para proteger esta importantíssima área de preservação, organizações socioambientais se mobilizam para lutar contra a ação da Agropecuária Triângulo e a decisão do Tribunal de Justiça do Mato Grosso, que são “uma ameaça sem precedentes na história das Unidades de Conservação brasileiras“, como destaca a Rede Pró-UC em suas redes sociais.

Liderados pelo coletivo Observa-MT (Observatório Ambiental do Mato Grosso), a Rede Pró-UC e outras 45 organizações se uniram para tentar impedir que a decisão avance. Sua posição está resumida no documento divulgado ontem: a Manifestação Coletiva sobre o anúncio da extinção do Parque Cristalino II.

“Ainda que o voto do relator tenha sido vencido, há elementos suficientes para se propor um recurso ao Superior Tribunal de Justiça, que já possui entendimento contrário do que foi proferido pela maioria dos desembargadores de Mato Grosso”, declara o grupo que, apoiado “por assessorias jurídicas e especializadas”, estuda “meios judiciais para suspender os efeitos da decisão”.

Acompanhe as redes sociais da Rede Pró-UC para obter mais informações e saber como participar das mobilizações: InstagramFacebook e Twitter.
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Foto (destaque): prefeitura de Novo Mundo/divulgação

Fontes: G1, O Eco, MídiaJur