terça-feira, 9 de setembro de 2014

Eduardo Campos: De herói a pilantra em poucas semanas?

BLOG do SOMBRA


Entre amigos: diga-me com quem andas…

O homem-bomba falou. Paulo Roberto Costa, o importante ex-diretor da Petrobras, aceitou a delação premiada e começou a colocar a boca no trombone, citando vários nomes de envolvidos no enorme esquema de corrupção montado por uma organização criminosa dentro da maior empresa do país, transformando a “nossa” estatal em propriedade particular da máfia. Entre os nomes citados, Eduardo Campos.
 
Após a comoção com sua trágica morte em acidente de avião, será que Campos passará de herói a pilantra em poucas semanas? Claro, o delator terá de apresentar provas ou evidências, e tudo isso é apenas o começo de uma onda de novas investigações. Mas convenhamos: não há motivo para crer que o nome de Campos seria jogado na lista por pura “malícia”, como alegam seus companheiros. Os outros nomes são bastante suspeitos, envolvendo peixes graúdos do PMDB e do PT, por exemplo...
 
O caso serve para nossa reflexão acerca do impacto que a morte tem na criação de mitos nacionais, especialmente de políticos de esquerda. No Brasil, bastou morrer para ser alçado ao panteão dos santos. Todos os pecados são apagados, a trajetória é revista, os acertos e qualidades são destacados de forma um tanto exagerada, tudo para pintar um novo herói nacional, em um país bastante carente deles.
 
Para quem tivesse olhos para enxergar, Eduardo Campos não tinha exatamente o perfil de santo. A começar, claro, por sua inclinação à esquerda radical, sendo ele neto do comunista Miguel Arraes, tendo ajudado a fundar um partido socialista que ingressou no Foro de São Paulo ao lado de ditadores e do próprio PT. Desconheço heróis socialistas na história.
 
Havia, ainda, suspeitas sobre sua participação em outros escândalos mais antigos. Foi secretário da Fazenda de Pernambuco e acusado de forjar documentos para a emissão de títulos durante a gestão de seu avô, Miguel Arraes, no governo. Foi inocentado, é verdade, mas até Collor foi inocentado de várias acusações.
 
A absolvição pela Justiça livrou Eduardo Campos do problema penal. Mas ele não conseguiu a mesma certidão de “nada consta” em outro julgamento, de natureza administrativa. A revista ÉPOCA teve acesso a documentos inéditos que revelaram que, cinco anos depois da decisão do STF, Eduardo Campos e dois ex-diretores do Banco do Estado de Pernambuco (Bandepe), o antigo banco público de Pernambuco, voltaram a ser julgados pelo Escândalo dos Precatórios. E, desta vez, condenados.
 
A turma do PT, que foi aliada de Campos por bastante tempo, tinha algum motivo para desconfiar de sua honestidade. Afinal, quatro agentes da Abin foram presos em Pernambuco quando espionavam o ex-governador. Eles atuavam disfarçados no Porto de Suape para tentar levantar seus podres. Ou seja, certamente esperavam encontrar algo, o que demonstra o abuso autoritário que o PT faz da máquina estatal, mas também a desconfiança que o partido tinha do ex-aliado.
 
Enfim, sem provas, devemos sempre manter a máxima in dubio pro reo. Todos são inocentes até que provem o contrário. Marina Silva está certa ao pedir mais investigações, cautela, e lembrar que o acusado não está aqui para se defender. Mas nada disso tira a nuvem de dúvida que paira no ar. O ex-diretor da Petrobras está dando nomes, e todos têm em comum uma coisa: negam.
 
Quando olhamos a lista dos políticos delatados, temos boas razões para crer que o ex-diretor está dizendo a verdade. Alguém acha que Renan Calheiros, Edison Lobão, João Vaccari Neto, Henrique Eduardo Alves, Romero Jucá, Cândido Vaccarezza, Sergio Cabral e Roseana Sarney são exemplos de reputação ilibada e acima de qualquer suspeita?
 
Logo, a presença de Eduardo Campos no grupo serve para jogar uma ducha de água fria naqueles que embarcaram na ilusão que, após sua trágica morte, construiu um mito. Como diz o ditado: se non è vero, è ben trovato. Não vejo motivos para duvidar da delação premiada do réu que, ninguém pode negar, conhecia a fundo a podridão instalada no coração da Petrobras. O Brasil terá de procurar um herói nacional em outro lugar…
 
Rodrigo Constantino
Fonte: Coluna do RODRIGO CONSTANTINO - 08/09/2014 - - 17:26:41

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