domingo, 26 de julho de 2015

Brasília e suas cicatrizes


Teatro Galpão
Os espaços culturais Teatro Galpão e Galpãozinho, hoje Espaço cultural Renato Russo, foram criados na década de 1970 e foram o palco para o movimento teatral de Brasília
BRASILIA degradada 10 (RenatoRusso) luiz seabraTexto e fotos de Luiz Adriano Seabra 

O jovem locutor entrou para o teatro nos idos de 1979. Com colegas do Ceub ensaiou exaustivamente o roteiro da peça Cicatrizes, que havia conquistado o Prêmio Molère, em 1977. Parecia-lhe coisa importante. Falava de política, loucura, hospício, cárcere, vozes de dentro e de fora. E, com certeza, os ensaios e a apresentação em si somariam para a sua formação profissional, dando-lhe interpretações outras e mais cancha.
Embora o seu personagem não atuasse de fato, apenas a voz se faria sentir na alma de um dos atores, o locutor levou a sério a empreitada. E a peça rendeu ótimos comentários de público e crítica tanto na apresentação no Teatro Galpão, à 508 Sul, hoje Espaço Renato Russo da extinta Fundação Cultural do Distrito Federal, como na Sala Martins Penna, do Teatro Nacional de Brasília, em única apresentação.
BRASILIA degradada 6 luiz seabraE a cena incomodava as pessoas já sentadas ou ainda entrando no espaço. Era imperioso sentir já, ali, o posicionamento das pessoas em relação ao que se ouvia falar naqueles tempos bicudos de censura e governos autoritários.
BRASILIA degradada 1 luiz seabraEnquanto a plateia ainda chegava para os seus lugares a peça já estava valendo.


Dois homens de terno preto que pareciam estar à serviço do SNI, Serviço Nacional de Informações, ameaçavam levar preso, de forma truculenta, um jovem da plateia.
BRASILIA degradada 7 luiz seabraE sempre acontecia de alguns jovens se levantarem em defesa do cidadão prestes a ser levado pelos homens de preto. Até que a voz do locutor, justamente a voz que iria costurar a consciência do personagem principal, interferisse para tentar acalmar os ânimos já bem exaltados naquele primeiro BRASILIA degradada 8 luiz seabraato
Naquele tempo, Brasília contava com 29, 30 anos. E a cidade parecia que ia durar uma vida inteira daquele jeito.


Brasília era limpa, organizada, respeitava os espaços públicos e nada, nem em pensamento, faria supor que 10 anos depois tudo BRASILIA degradada 2 luiz seabracomeçaria a mudar, e mudar para pior.
Primeiro veio o Sr. Joaquim Roriz, distribuindo lotes, terrenos – envolvido em falcatruas e grilagens – para transformar a cidade de uma vez por todas em um centro de imigrantes sem precedentes. Daí o entorno cresceu muito acima do esperado para sufocar o trânsito, deteriorar hospitais públicos,  calçamentos segurança e aquilo que mais nos conquistava, a tranquilidade das noites frias durante todo o ano.
BRASILIA degradada 9 luiz seabraDepois, para assegurar e segurar a tsunami do crescimento desordenado, coisa impensada por Juscelino, Niemeyer e Lucio Costa, começaram a invadir a cidade com puxadinhos de todo tipo: em ponto de ônibus, prédios, calçadas, área verde.


E como numa lata velha colorida de verde cinzento com o azul do céu que, graças a Deus, ainda não ocuparam, Brasília vai se esquecendo até da única obra boa do famigerado político, os jardins do Roriz.
BRASILIA degradada 4 luiz seabraA avenida W.3 Sul está abandonada, a W.3 Norte virou uma pedalada apocalíptica do chamado zoneamento, o Setor Comercial Sul inexiste, as calçadas estão deformadas; soltando munições portuguesas para black blocs, o gramado gritando socorro até em tempos de chuva, alagamentos de todo tipo e galerias acanhadas para suportar tanto lixo.
Ah, uma ideia me ocorreu agora!
BRASILIA degradada 5 luiz seabraEssa cidade vovó deveria exigir uma lei que desse cinco anos de prazo para que os seus prédios também sejam restaurados. Todos eles. Claro, vale para o poder público também…


E que se levantem vozes e pessoas para a truculência do descaso público e privado. Que Brasília não se torne um retratinho desbotado, cheio de cicatrizes, de um Brasil que vem aqui para fazer da capital a casa da mãe Joana, um hospício, uma jaula em si mesma. Vamos nós censurar os maus políticos e até sermos autoritários com eles.
Essa cidade de traçados tão futuros não pode se deixar levar por feridas e porões ainda tão mofados.


Ah, e fodam-se os homens de preto…

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