segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Então sou eu o radical? Sério?



Esse coroa é radical, não eu!


Chegam aos meus ouvidos comentários feitos por leigos em política, que se não votaram no PT, mostram-se ao menos muito tolerantes com os eleitores de Dilma. Afinal, por que julgar cada um, não é mesmo? E, vale notar, aquelas críticas feitas pela Veja são muito “partidárias” (como se a revista tivesse inventado o Petrolão, não o próprio PT). Por falar nisso, aquele colunista Rodrigo Constantino é muito radical…


Pessoas que dizem isso votam, pasmem!, no PSOL! Ou acham Marcelo Freixo um cara razoável. Talvez Jean Wyllys goze da estima deles. E o radical sou eu! Entenderam? Um liberal clássico defensor da democracia, do império das leis, do Estado de Direito, e que por isso mesmo abomina o bolivarianismo petista, esse é o radical. Mas o PSOL, defensor do socialismo em pleno século 21, da ditadura cubana carcomida após meio século de poder, esse é moderado.


Tal inversão, que é uma tática deliberada do lado de lá, foi tema de um capítulo sobre o duplipensar em meu livro Esquerda Caviar. Segue um longo trecho, pois o debate é necessário neste país:



Palavras e expressões fazem diferença na cultura de um povo. Mas mesmo os americanos não ficaram livres das manipulações de conceitos. A esquerda lá foi tão eficiente que usurpou até mesmo o termo “liberal”, que passou a ser associado a políticas claramente antiliberais, que pregam sempre maior intervenção estatal na vida dos indivíduos.

O líder do Partido Socialista americano, Norman M. Thomas, em um discurso de campanha em 1948, declarou que o povo americano jamais adotaria o sistema socialista de forma consciente. Mas, sob o nome “liberalismo”, encamparia cada fragmento do programa socialista até que um dia a nação seria socialista sem saber como aconteceu. Quando vemos que Obama se diz um “liberal”, temos de reconhecer a capacidade profética do líder socialista.

No Brasil, o termo perdeu totalmente seu sentido, e nossos males sempre foram jogados na conta do tal “neoliberalismo”. Porém, como disse Roberto Campos, o “Brasil está tão distante do liberalismo – novo ou velho – como o planeta Terra da constelação da Ursa Maior!” Só mesmo no Brasil que um partido de esquerda como o PSDB pode ser rotulado de neoliberal.

Recentemente, talvez por perceber os ventos de mudança e o declínio da esquerda, chamuscada pelo desgaste no poder, parte da imprensa começou a tentar criar no país a mesma dicotomia entre liberal e conservador existente nos Estados Unidos. A Folha, quando fez uma reportagem sobre uma pesquisa que mostrava que o brasileiro é conservador, colocou a bandeira do desarmamento como coisa de liberal. Não! Desarmar inocentes não é uma bandeira liberal, até porque os liberais respeitam o direito individual de legítima defesa.


Mas a esquerda caviar adora rótulos sem sentido. Enquanto posa de moderada, costuma atacar seus oponentes como “extremistas”. O primeiro passo daqueles que pretendem confundir os indivíduos com seus vagos termos é jogar tudo no mesmo saco, chamando o conjunto todo de “extremismo” e pregando um “caminho do meio”. A técnica é conhecida.


Se alguém escutar uma pessoa afirmando ser igualmente contrária à peste bubônica, ao estupro e aos sermões de sua sogra, não restará dúvida de que o objeto do seu verdadeiro ódio seja a sogra, e eliminá-la parecerá o real objetivo de sua colocação. Afinal, não seria razoável considerar como males iguais as três coisas, por mais chato que fosse o sermão da sogra.


Da mesma maneira, quando alguém repete que condena igualmente o comunismo, o nazismo e o capitalismo, não resta dúvida de que o alvo verdadeiro seja o capitalismo. O comunismo carrega nas costas algo como 100 milhões de defuntos, enquanto o nazismo tantos outros milhões. Ambos são totalitários, depositam no estado todo o poder, partem para fins coletivistas, transformando os indivíduos em meios sacrificáveis, e incitam o ódio do preconceito, seja de classe ou de raça.



Em outras palavras, tanto o comunismo como o nazismo, similares em inúmeros aspectos, são absolutamente opostos ao capitalismo liberal, que prega a liberdade individual, entendendo que cada indivíduo é um fim em si. Enquanto o comunismo e o nazismo trouxeram apenas desgraça, miséria, terror e morte, o capitalismo trouxe o progresso para os povos e retirou centenas de milhões da pobreza, o estado natural da humanidade.


Mas os “moderados” jogam tudo no mesmo saco, sem separar o joio do trigo, e alegam que são “neutros” ou isentos de ideologias, com o único intuito de obliterar o verdadeiro significado do termo “capitalismo” e manchá-lo com as más companhias. A tática deu certo, claro, pois vemos que os capitalistas morrem de medo de serem acusados de radicais só por defender o capitalismo, infinitamente superior aos demais.  


Ayn Rand tentou reagir a esse perigo: “A melhor prova do colapso de um movimento intelectual é o dia em que ele não tem nada mais a oferecer como um ideal último além da demanda por moderação”.



Rodrigo Constantino

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