domingo, 1 de maio de 2016

As maiores árvores do planeta estão desaparecendo

El País

Desmatamento e mudança climática estão acabando com os exemplares mais antigos de sequoias, eucaliptos gigantes e baobás


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Algumas das maiores e mais velhas árvores do mundo já estavam no planeta quando a maior parte dos humanos vivia literalmente na Idade da Pedra. Mas um conjunto de ações humanas, como o corte, a degradação de ecossistemas e agora a mudança climática está acabando com os exemplares mais antigos de sequoias, eucaliptos de 100 metros e árvores tão mágicas como o baobá. O pior é que já não existem as condições para que as plantas mais jovens alcancem a altura e a idade de suas antecessoras.
Apesar de existirem muitas espécies de árvores milenares, somente poucas crescem durante séculos até alcançarem os 50, os 100 e até os 115 metros superados por alguns exemplares de sequoia vermelha. Não existe uma categoria bem definida do que os botânicos chamam de LOT, Large Old Trees (Grandes e Velhas Árvores, em inglês). Também não foram fixadas altura e envergadura mínimas para determinar o que é uma árvore grande. Um dado objetivo é o papel central que desempenham em seu ecossistema. E um dado subjetivo é a imponência que inspiram aos humanos.


De modo que recebem a denominação de LOT as duas espécies de sequoia que crescem na costa oeste dos Estados Unidos; o eucalipto da montanha (Eucalyptus regnans) que cresce durante 400 anos até os 100 metros ou mais; e o Petersianthus quadrialatus, uma espécie de árvore rosa que cresce nas Filipinas. Mas também são árvores grandes e velhas os abetos de mais de 50 metros que existem no velhíssimo bosque de Bialowieza (Polônia) e o baobá africano que em algumas espécies chega aos 30 metros de altura e mais de 10 de circunferência. Quase todas elas estão em declínio.


Com exceção de algumas espécies europeias, todas as grandes árvores do planeta estão em declínio


Um estudo publicado em 2013 dava poucas décadas a duas das espécies de baobá presentes em Madagascar. No Parque Nacional de Yosemite (Califórnia, EUA), lar das sequoias e outros gigantes como o pinheiro real americano, que pode alcançar os 70 metros de altura, outra pesquisa mostrou em 2009 que a densidade por hectare dessas grandes árvores se reduziu em 25% desde os anos 30 do século passado. Enquanto isso, a maior árvore floral do mundo, o eucalipto de montanha australiano, passará das 5,1 árvores por hectare que possuía no começo do século a somente 0,7 em 2070.


“O declínio se acelerou em muitos ecossistemas”, diz o ecologista da Universidade Nacional da Austrália, David Lindenmayer. O pesquisador, especializado em grandes árvores, lembra que essas espécies são particularmente suscetíveis às secas, mas também sofreram e ainda sofrem um desmatamento insustentável em muitas áreas. “Em alguns ecossistemas do norte da Europa, ocorreu um aumento, mas partiram de populações muito reduzidas”, acrescenta.


A nova ameaça é o aquecimento global. “A mudança climática leva as condições climáticas a níveis fora da categoria normal do nicho ideal para o crescimento e desenvolvimento da árvore”, explica Lindenmayer. “Por exemplo, a redução das chuvas no sudeste e sudoeste da Austrália fará com que essas grandes e velhas árvores não voltem a alcançar a altura e tamanho que costumavam ter. Em outros casos, as condições da primeira germinação há 500 anos são tão diferentes das atuais que não voltarão a germinar nas mesmas áreas onde agora crescem”, acrescenta.
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Ao menos duas espécies de baobabs que crescem em Madagascar desaparecerão antes de acabar no século.
O declínio das LOT pode causar efeitos em cadeia. As árvores mais velhas dessas espécies realizam funções fundamentais em seus ecossistemas que os exemplares mais jovens não podem exercer. Os ocos e curvas do eucalipto da montanha são o ambiente no qual nascem, crescem e morrem por volta de 40 espécies de vertebrados, por exemplo. Com o desaparecimento dos baobás de Madagascar, muitas outras espécies vegetais e animais podem segui-los. O desmatamento, tanto de grandes como pequenas árvores, colocou em risco a sobrevivência de pelo menos 500 espécies de mamíferos, aves e anfíbios nesse século, segundo um estudo realizado pela BirdLife.


Mas a relevância dessas árvores quase eternas vai além da ecologia. Muitas delas realizaram missões sociais e até religiosas para as comunidades humanas que viveram sob elas. Em 2014, dois pesquisadores suecos publicaram um estudo sobre a relevância social e cultural das grandes e velhas árvores. Escreveram: “Acreditamos que o reconhecimento das LOT como parte da identidade humana e seu patrimônio cultural é essencial para abordar a questão de seu declínio em todo o planeta”.


Um dos autores do trabalho, a pesquisadora da Universidade de Uppsala, Malgorzata Blicharska, afirma que quase nada foi feito desde então para incluir as dimensões não ecológicas das grandes árvores nas políticas de gestão e conservação. Se essas medidas forem incorporadas explicitamente, “é possível melhorar a conservação das LOT”, diz.



Mas a tarefa não é simples. Atualmente, um grande corte de árvores centenárias, talvez milenares, é preparado em pleno coração da Europa, em Bialowieza, um dos últimos bosques originais que restam no continente. “Até mesmo esse Patrimônio da Humanidade está submetido à pressão, com os agricultores que querem cortar velhos exemplares de picea europeia [uma conífera] por conta de uma praga de escaravelhos da madeira, algo a que as comunidades científicas e conservacionistas locais e internacionais se opõem terminantemente”, diz o professor da Universidade Sueca de Ciências Agrárias, Grzegorz Mikusinski, coautor do artigo sobre as dimensões sociais e culturais das LOT.


Um dos maiores obstáculos para uma política de proteção eficaz é o diferente limite temporal de humanos e das grandes e velhas árvores. Pelo Dia da Terra, Lindenmayer e seu colega da Universidade James Cook (Austrália), Bill Laurence, publicaram na revista Trends in Ecology & Evolution uma série de medidas que já poderiam ser tomadas para salvar as LOT.


Mas, como diz Laurence: “Precisamos nos assegurar de que pensamos a longo prazo, para coincidir com a forma como essas árvores existiram durante milhares de anos”.

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