quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Correio Braziliense – Intimação climática


Temporadas de calor extremo, extinção de espécies, inundação de cidades litorâneas, passagem de ciclones intensos, crises na produção agrícola. A lista dos impactos que serão causados pelo aumento da temperatura global é extensa, e estamos no momento decisivo para evitar boa parte deles. É o que defendem os maiores especialistas do assunto em relatório divulgado ontem, durante reunião do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, órgão das Nações Unidas para o assunto), em Incheon, na Coreia do Sul.

O documento é tratado como o último alerta para que consigamos evitar uma catástrofe climática. Um desafio, segundo os autores, que dependerá de transformações “rápidas” e “sem precedentes” em setores-chave da economia, como energia, indústria e infraestrutura. “É um balanço lúcido e difícil: a política dos pequenos passos não basta. Se não atuarmos agora, nos dirigiremos a um mundo em que estaremos sempre administrando crises. A boa notícia é que há ações em curso no mundo, mas elas precisam ser aceleradas para haver transições suaves. A verdadeira pergunta é esta: estarão as pessoas dispostas a atuar e haverá bastante vontade política coletiva?”, questiona Valérie Masson-Delmotte, diretora de pesquisa da Comissão de Energias Alternativas e Energia Atômica da França e uma dos 91 cientistas que assinaram o relatório.

Baseado em mais de 6 mil estudos, o documento de 400 páginas lista os numerosos impactos a serem enfrentados pelo planeta caso a temperatura suba mais de 1,5°C, considerando os níveis pré-industriais, e traz sugestões de medidas capazes de evitá-los ou amenizá-los. Caso o aquecimento “continue crescendo no ritmo atual” por culpa das emissões de gases de efeito estufa, haverá aumento das temperaturas mundiais de 1,5ºC entre 2030 e 2052, sinaliza o documento. Nesse patamar, por exemplo, o nível do mar aumentará entre 26cm e 77cm até 2100 e haverá queda na produtividade do milho, do arroz e do trigo.

Aumentar mais 0,5°C nesse patamar, chegando a 2°C, terá consequências ainda piores à humanidade. Ondas de calor farão parte da rotina da maioria das regiões, e o ecossistema de 13% da superfície terrestre será alterado, entre outros impactos (Veja arte). “Cada pequeno episódio de aquecimento adicional importa, sobretudo porque superar o 1,5ºC aumenta o risco de mudanças profundas ou até irreversíveis, como a perda de alguns ecossistemas”, ressalta Hans-Otto Pörtner, copresidente do IPCC.

Para especialistas, o relatório inova ao mostrar que esse meio grau pode fazer diferença,  e que, ao contrário do imaginado, os 2°C não são um limite seguro. “É chocante como um aquecimento de 2°C é mais impactante do que o de 1,5°C. Assim como os cenários de baixa emissão não são todos iguais. Vai fazer diferença o momento em que as emissões começarem a cair”, diz Roberto Schaeffer, do programa de pós-graduação e pesquisa de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), e editor revisor de um dos capítulos do documento.

Foco em energia
Também copresidente do painel, a sul-africana Debra Roberts acredita que o documento é um “chamado à coordenação” dos países, com diretrizes do que precisa ser implementado. “O relatório dá aos representantes políticos a informação de que eles precisam para tomar decisões para lutar contra as mudanças climáticas sem esquecer das necessidades das populações. Os próximos anos serão os mais determinantes de nossa história.”

Os especialistas insistem, principalmente, em mudanças ligadas à energia, já que o carvão, o gás e o petróleo são responsáveis por 75% das emissões. Entre as principais medidas (Veja quadro) está a queda de 45% das emissões de gás carbônico até 2030, considerado os lançamentos de 2010. Além disso, o ritmo de redução deve se manter para que, em 2050, o mundo atinja a neutralidade de carbono, quando deixará de emitir mais gás carbônico na atmosfera do que pode retirar.

Também é recomendado que as energias renováveis passe de 20% a 70% da produção de eletricidade até meados do século, e que participação do carvão praticamente desapareça. Ainda de acordo com o relatório, para que essas e outras medidas sejam adotadas, são necessários investimentos anuais de US$ 2,4 trilhões entre 2016 e 2035. O valor equivale a 2,5% do PIB mundial, e os autores ressaltam que o valor deve ser colocado em perspectiva com um custo ainda maior caso as mudanças não sejam implementadas.

Há recursos
Jim Skea, do Imperial College de Londres, acredita que há condições científicas para manter o aumento em 1,5ºC. “As leis da física e da química permitem isso, assim como as tecnologias, a mudança dos modos de vida e os investimentos. O último, e sobre o que os cientistas não podem responder, é se é possível politicamente e institucionalmente. Enviamos a mensagem aos governos, lhes demos as provas. Agora, é com eles.”

A Aliança dos Pequenos Estados Insulares, que pressionou pela meta de aumento de até 1,5ºC no Acordo de Paris, pediu “às nações civilizadas que tomem suas responsabilidades aumentando seus esforços para reduzir as emissões”.  “O relatório mostra que nos resta somente uma oportunidade muito pequena para evitar danos impensáveis para os sistemas climáticos. Os historiadores observarão essas conclusões como um momento-chave na história dos homens”, diz Amjad Abdula, representante dos pequenos países insulares.

O que fazer
Confira as medidas sugeridas por especialistas das Nações Unidas para evitar mudanças sem precedentes no planeta em decorrência do aquecimento global
» Para permanecer em uma variação máxima de 1,5ºC, deve-se inverter a evolução das emissões de CO2 antes de 2030 de maneira significativa: menos 45% até 2030, em relação ao nível de 2010
» Até 2050, é preciso chegar à neutralidade de carbono: deixar de emitir mais gás carbônico na atmosfera do que se pode retirar
» Outras emissões, como metano e fuligem, também devem ser reduzidas, embora menos prioritárias do que a de CO2, uma vez que são menos persistentes
» Energias renováveis devem passar de 20% a 70% da produção de eletricidade até meados do século, enquanto a participação do carvão deve quase desaparecer
» A demanda por energia deve cair e a eficiência energética, aumentar
» A indústria deverá reduzir as emissões de CO2 de 75% a 90% até 2050, em comparação com 2010, no caso de aumento de 1,5°C. No caso de 2°C, aporcentagem recomendada varia de 50% a 80%
» O transporte deverá passar a usar energias de baixo carbono: 35% a 65% em 2050, contra menos de 5% em 2020
» Serão necessários investimentos anuais de US$ 2,4 trilhões entre 2016 e 2035 para a transformação de sistemas de energia

“É um balanço lúcido e difícil: a política dos pequenos passos não basta. Se não atuarmos agora, nos dirigiremos a um mundo em que estaremos sempre administrando crises”

Valérie Masson-Delmotte, diretora de pesquisa da Comissão de Energias Alternativas e Energia Atômica da França e uma das autoras do relatório

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