terça-feira, 10 de junho de 2014

Brasileiros viram 'amigos de aluguel' para acompanhar turistas na Copa




Site reúne pessoas comuns que cobram para mostrar cidade a estrangeiros.


Serviço é procurado por visitantes que querem saber como é a vida local.

Flávia Mantovani Do G1, em São Paulo

A chef Bárbara Santos, que atua como 'amiga de aluguel' de turistas em São Paulo, com clientes mexicanos (Foto: Bárbara Santos/Arquivo pessoal) 
A chef Bárbara Santos, que atua como 'amiga de aluguel' de turistas em São Paulo, com clientes mexicanos no Mercado Municipal 
 
Estrangeiros que vêm ao país durante a Copa do Mundo e não conhecem nenhum brasileiro estão recorrendo a um esquema curioso para fazer turismo pelas cidades-sede: alugar um “amigo local”.

Criado por uma brasileira, o site “Rent a Local Friend” (alugue um amigo local) promove o contato entre pessoas que vivem em várias cidades do mundo e turistas que querem conhecer o destino sob a ótica de um morador. 

O serviço é pago, e atualmente, há mais de mil “amigos de aluguel” cadastrados em quase 50 cidades de 22 países.

No Brasil, o serviço existe em 16 cidades, sendo que 11 delas são sedes da Copa. A expectativa é que a demanda aumente devido ao evento. Até esta segunda-feira (9), o número de reservas para o período do Mundial havia crescido 236% em relação aos meses de abril e maio.

O site tem amigos de aluguel cadastrados em 22 países (Foto: Reprodução/rentalocalfriend.com) 
 
O site tem amigos de aluguel cadastrados em
22 países
 
Também houve maior procura de candidatos a "local friends": 137 pessoas se inscreveram entre maio e os primeiros dias de junho, enquanto em março e abril foram 65.

Segundo a empresa, para se tornar um “local friend” é preciso “conhecer muito bem a cidade, ser comunicativo e gostar de ter contato com estrangeiros”. Também é necessário ser fluente em inglês e na língua local, e quanto mais idiomas a pessoa souber, maior a chance de ser contratada.

“Quanto mais gente diferente, melhor. A ideia é que eu possa passear na Toscana com alguém que entende de vinhos, ou na França com uma pessoa que entende de queijos, por exemplo”, diz diz a publicitária Danielle Cunha, CEO do site. 

Segundo ela, a maioria dos amigos de aluguel busca no serviço uma forma de complementar renda nas horas vagas. “E é também uma forma de conhecer gente, de trocar conhecimentos”, diz Danielle.

O preço cobrado pelo serviço é fixado por cada “local friend”. O valor médio do passeio de quatro horas é de US$ 149 (cerca de R$ 330). 

O site fica com 30% de cada transação e cobra uma anuidade de US$ 100 (cerca de R$ 220) dos cadastrados.
A maioria dos clientes tem entre 30 e 45 anos. Brasileiros, americanos, ingleses, alemães e portugueses são as pessoas que mais procuram o site.

Churrasco de família
Bárbara com clientes indianos e ingleses em um piquenique; ideia é mostrar o dia a dia do destino aos estrangeiros (Foto: Bárbara Santos/Arquivo pessoal)Bárbara levou uma turista indiana e um inglês para um piquenique com os amigos; ideia é mostrar o dia a dia do destino aos estrangeiros 
 
O tipo de passeio que será feito é combinado com cada turista. Há aqueles que têm interesse em temas específicos –conhecer mercados gastronômicos ou fazer um tour de compras, por exemplo. Outros deixam a decisão a cargo do amigo de aluguel.

Alguns querem apenas conhecer o estilo de vida de quem mora no destino e pedem para serem incorporados à rotina do morador. Danielle, por exemplo, já levou uma americana para sair junto com seus amigos no Rio de Janeiro, onde mora. 

“Ela já tinha agendado um tour para o Cristo, mas queria conhecer o estilo de vida dos cariocas e me pediu que a levasse para os lugares que eu frequento”, conta.

Uma vez uma americana me disse que queria conhecer o dia a dia dos brasileiros, e eu ofereci que ela me acompanhasse a um churrasco da minha família"
 
Bárbara Santos, 'amiga de aluguel'
Em São Paulo, a chef de cozinha Barbara Santos, de 27 anos, que atua há um ano e meio como “amiga de aluguel”, diz que recebe pedidos parecidos. “Uma vez uma americana me disse que queria conhecer o dia a dia dos brasileiros, e eu ofereci que ela me acompanhasse a um churrasco da minha família”, conta

Devido à descrição do seu perfil, ela costuma receber gente interessada em gastronomia e diversão noturna. “Gosto muito de sair à noite, de ir a festas. Quem me procura são pessoas parecidas comigo. Fico amiga delas depois, a gente continua trocando informações”, diz ela, que foi convidada até para um casamento do filho de um casal de clientes na Índia.

Barbara costuma receber pedidos quinzenalmente ou semanalmente, dependendo do mês, vindos especialmente canadenses, americanos, peruanos e colombianos. Para o período da Copa, ela disse que a procura aumentou: já tem 11 dias reservados para tours.

Diferenças
O Rent a Local Friend foi criado em 2010 pela carioca Alice Moura, que morava em Lisboa e costumava levar amigos e conhecidos para passear na cidade. Com o aumento da demanda, ela resolveu ganhar um dinheiro extra com a atividade e acabou criando uma rede com outras pessoas que queriam oferecer o mesmo serviço pelo mundo.

O guia tradicional vai saber dizer quando um lugar foi fundado, vai levar as pessoas para os locais mais conhecidos. Já o 'local friend' vai fazer um passeio personalizado, mais livre, espontâneo"
 
Danielle Cunha, CEO do site
Segundo Danielle Cunha, o “amigo de aluguel” é muito diferente de um guia turístico convencional. “O guia tradicional tem uma formação, um conhecimento histórico. Ele vai saber dizer quando algo foi fundado, vai levar as pessoas para os lugares mais conhecidos. Já o ‘local friend’ vai fazer um passeio personalizado, mais livre, espontâneo”, afirma ela.

Para ela, o fato de existirem comunidades como o Couchsurfing, onde é possível contatar um morador do destino sem ter que pagar por isso, não ameaça o Rent a Local Friend. “Quando não se paga nada, não se espera nada. A pessoa que recebe sem cobrar não tem o compromisso de fazer com que o turista tenha a melhor experiência”, afirma.

Ela diz ainda que o site oferece um seguro que cobre danos morais e materiais, para o caso, por exemplo, de o estrangeiro ser assaltado durante um dos tours.

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