terça-feira, 2 de março de 2021

No Brasil, pandemia é usada como “escudo” para retrocessos, aponta estudo

 

No Brasil, pandemia é usada como “escudo” para retrocessos, aponta estudo

Segundo pesquisa, crise sanitária é vista como "oportunidade" para reverter políticas ambientais em países com maiores florestas tropicais. No Brasil, retrocessos implicaram desmatamento e invasões de terras indígenas.

Área desmatada na Amazônia: autores do estudo criticam o que chamam de falsa dicotomia entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental

A maior crise sanitária global dos últimos 100 anos é encarada também como uma “oportunidade” para corroer políticas ambientais e sociais nos países com as maiores áreas de florestas tropicais. No Brasil, Colômbia, República Democrática do Congo, Indonésia e Peru, governos têm aproveitado a pandemia de covid-19 para reverter leis de proteção do meio ambiente e como uma brecha para a exploração desenfreada de recursos naturais.

A conclusão é de um estudo publicado nesta quinta-feira (18/02) por pesquisadores da Middlesex University of London e da organização não governamental Forest Peoples Programme, ambas no Reino Unido, e da Lowenstein International Human Rights Clinic da Yale Law School, nos Estados Unidos.

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No Brasil, os principais retrocessos apontados pelos autores implicaram o aumento das invasões de terras públicas e territórios indígenas, expansão do garimpo ilegal e da indústria da mineração, violações de direitos humanos e leis de proteção ambiental, efeitos nocivos à saúde e aumento do desmatamento.

“Infelizmente, governos estão justificando essas regressões durante a pandemia dizendo que é necessidade econômica. Isso impacta a vida das pessoas que vivem das florestas e os direitos delas. É importante chamar a atenção pra isso no nível mundial”, comenta Christopher Ewell, da Yale Law School, em entrevista à DW. 

Em todo o mundo, estima-se que até 1,4 bilhão de pessoas dependam de florestas para sobreviver, dentre elas cerca de 500 milhões de indígenas.

Com a maior floresta tropical do mundo, o cenário crítico brasileiro se destaca entre os demais analisados na pesquisa. “Em comparação com os outros países, o Brasil chama a atenção pela natureza premeditada desses retrocessos. Em outros países é mais implícito, no Brasil os ataques são diretos, principalmente contra os indígenas. É óbvio, e isso é chocante”, pontua Sofea Dil, uma das autoras norte-americanas, sobre as ações do governo do presidente Jair Bolsonaro.

“Vemos o governo Bolsonaro usando a pandemia como um escudo para flexibilizar muitas legislações ambientais e sociais no Brasil”, diz Ewell.

Ouro a qualquer preço

Um dos fatos destacados no estudo foi protagonizado pelo vice-presidente Hamilton Mourão. Em outubro passado, em plena pandemia, ele defendeu publicamente o garimpo em terras indígenas.

Embora a Constituição proíba a atividade nesses territórios, a Agência Nacional de Mineração recebeu 145 pedidos para minerar em terras indígenas só em 2020, um recorde das últimas duas décadas. Estima-se que, no total, mais de 3 mil requerimentos do tipo tenham sido encaminhados à agência.

“O uso da pandemia para se apropriar de terras para mineração, extração madeireira e agricultura industrial é uma ameaça significativa não apenas para os povos indígenas, mas para vastas áreas de floresta tropical em suas terras e territórios tradicionais”, apontam os autores.

Thais Mantovanelli, antropóloga do Instituto Socioambiental (ISA) e pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), que também participou da pesquisa, classifica o momento político como preocupante. “A gente tem visto um movimento dentro do Congresso para permitir mineração dentro das terras indígenas”, ressalta.

Mantonavelli, que atua desde 2011 no Médio Xingu, Pará, afirma que a região, marcada por obras que desrespeitaram a legislação, teve a situação amplificada desde a chegada da covid-19. “Belo Monte foi construída ali sem consulta livre, prévia e informação dos povos impactados. A mineradora Belo Sun tenta licenciar uma mina muito perto dos territórios”, cita como exemplos.

Na Terra Indígena Trincheira Bacajá, homologada em 1996, as invasões de terras e desmatamento chegaram a níveis nunca antes vistos, afirma a pesquisadora. “Isso tem a ver com toda a flexibilização de leis, enfraquecimento da fiscalização dos crimes ambientais na Amazônia levadas a cabo por Bolsonaro. Os invasores se sentem muito à vontade”, comenta.

A tendência em 2021 parece não ter mudado. Em fevereiro, o governador de Roraima, Antonio Denarium, autorizou o garimpo ilegal com uso do mercúrio, metal tóxico usado para separar o ouro dos rejeitos. Nesse estado fica a maior terra indígena do país, da etnia ianomâmi.

Há anos, eles denunciam o aumento do garimpo ilegal na região. Segundo a Hutukara Associação Yanomami, mais de 20 mil garimpeiros estão na região. Durante a pandemia, os invasores trazem, além da doença, a violência ao território.

Saúde em risco

Para Sofea Dil, da Yale Law School, os efeitos negativos dos retrocessos observados durante a pandemia sobre a saúde de indígenas brasileiros foram mais graves que em outros países. Dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) apontam que o novo coronavírus atingiu 162 povos das 305 etnias do país. Até essa quinta-feira, a covid-19 já havia provocado a morte de 966 indígenas.

“O impacto do Ministério da Saúde na disseminação de fake news, do uso da cloroquina como tratamento preventivo sem que haja comprovação científica, chegou aos postos de atendimentos nas comunidades indígenas e causou grande impacto”, pontua Mantovanelli. “A situação só não foi pior porque lideranças e organizações da sociedade civil se engajaram no combate à pandemia, no incentivo à vacinação e contra medicamentos que não fazem efeito.”

Christopher Ewell, da Yale Law School, diz que parte do trabalho da equipe internacional de pesquisadores é reconhecer que retrocessos em leis sociais e ambientais no Brasil, com impacto grande sobre populações indígenas, acontecem por influência econômica de corporações ou instituições que estão nos países ricos.

“Deveria ser responsabilidade do governo brasileiro assegurar os direitos dos brasileiros contra essas atividades econômicas. É importante lembrar que, nos países desenvolvidos, cidadãos também têm responsabilidades, já que se beneficiam tanto dos recursos naturais que vêm de lugares como as florestas brasileiras”, ressalta.

Falsa dicotomia

Os autores do estudo criticam ainda o que chamam de falsa dicotomia entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental, usada por muitos governos analisados na pesquisa para promover os retrocessos.

“Vale lembrar que a ciência do clima mostra que estamos muito próximos do ponto de não retorno da floresta por causa do tanto que já desmatamos”, afirma Mantovanelli, lembrando que, em 2020, o desmatamento na Amazônia atingiu o maior patamar em mais de uma década, com 11.088 km² de devastação, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

“Sem a floresta, não vai ter chuva, nem para a pecuária, nem para a soja. Preservar não se opõe a desenvolver”, conclui Mantovanelli.

Fonte: Deutsche Welle

Por que os biomas brasileiros nunca estiveram tão ameaçados

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Por que os biomas brasileiros nunca estiveram tão ameaçados

COM RECORDES DE ÁREAS DEGRADADAS NOS ÚLTIMOS ANOS, ECOSSISTEMAS DO PAÍS DÃO SINAIS DE QUE É URGENTE FREAR O DESMATAMENTO E PRESERVAR O QUE RESTA DA NOSSA FAUNA E FLORA.


Biomas brasileiros estão mais ameaçados do que nunca (Foto: Felipe Dias/Unsplash)

Nos mais de 40 anos em que frequenta a Lagoa do Peri, localizada no sul da ilha de Florianópolis e conhecida por ser a maior lagoa de água doce da costa de Santa Catarina, o pescador Osni nunca havia visto tamanha estiagem. O rio que conecta a lagoa à casa da família, no alto de um morro por onde passam cachoeiras, está praticamente seco. Para sair de onde mora, Osni, que há alguns anos tornou a casa na lagoa sua residência permanente, precisa carregar a canoa por alguns metros de lodo até finalmente alcançar a água — são cerca de 20 minutos de remada até uma trilha que desemboca na estrada, que ele percorre de bicicleta.

Com pouco mais de 5 quilômetros de extensão e 11 metros de profundidade, a lagoa é cercada por vestígios de Mata Atlântica primária. Os cerca de 2 mil hectares que compõem o ecossistema são considerados unidade de conservação. Além da mata em regeneração, abriga animais típicos, como a lontra e o macaco-prego, e aves ameaçadas de extinção, caso da gralha azul. É fundamental também para o abastecimento de água de população da Ilha, atendendo entre 102 mil e 113 mil habitantes, principalmente nas regiões leste e sul.

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O desequilíbrio é preocupante. Em visitas técnicas, pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) já identificaram a morte de peixes, o aparecimento de gaivotas e gaviões que não fazem parte da fauna local e a proliferação de cianobactérias tóxicas. A proximidade com o Oceano Atlântico e a presença de um sangradouro entre o mar e a lagoa também aumentam o risco de que, se o processo de erosão continuar, a água salgada acabe contaminando a doce. Mas, além dos perigos locais, a situação na Lagoa do Peri serve de alerta para uma crise muito mais grave: os biomas brasileiros nunca estiveram tão ameaçados.

Segundo o primeiro Relatório Anual do Desmatamento do Brasil, divulgado no fim de maio pelo Map Biomas, o país perdeu em 2019 ao menos 1,2 milhão de hectares de vegetação nativa, área equivalente a oito vezes o município de São Paulo. Mais da metade (60%) de toda área desmatada está na Amazônia, com 770 mil hectares perdidos. No início de junho, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) constatou que entre agosto de 2018 e julho de 2019 foram desmatados 10.129 km² de floresta, área equivalente a mais de oito vezes a da cidade do Rio de Janeiro e maior índice desde 2008.

Mas a destruição também foi significativa no Cerrado (408,6 mil hectares), no Pantanal (16,5 mil hectares), na Caatinga (12,1 mil hectares) e na Mata Atlântica (10,6 mil hectares). Mesmo figurando como última da lista, a Mata Atlântica, bioma ameaçado desde o início do processo de colonização do país, teve um desmatamento significativo, com um crescimento de quase 30% entre 2018 e 2019 em relação ao ano anterior (2017-2018), de acordo com a Fundação SOS Mata Atlântica.

Os dados e o exemplo da situação da Lagoa do Peri evidenciam a gravidade de um efeito cascata generalizado da ameaça aos biomas brasileiros. “Pensar no estado de Santa Catarina não é só olhar para a Mata Atlântica. Ela está conectada com a Amazônia, por exemplo, não dá para pensar em uma coisa sem a outra”, explica o professor Lindberg Nascimento Júnior, do departamento de Geociências da UFSC. A bióloga Marlúcia Martins, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, completa: “quando pensamos em respirar, beber água, comer e até se relacionar, precisamos lembrar que para cada uma dessas atividades existe algum serviço que os ecossistemas prestam.” 

Caminho sem volta
Um bioma é o conjunto de ecossistemas animais e vegetais que têm um certo nível de homogeneidade ou características próximas entre si. No Brasil, há seis principais: segundo o IBGE, a Amazônia é o maior deles, ocupando 49,5% do território nacional; o Cerrado é o segundo mais extenso, correspondendo a 23,3% da área do país; em seguida vêm Mata Atlântica (13%) Caatinga (10,1%), Pampa (2,3%) e Pantanal (1,8%). Há ainda o Sistema Costeiro-Marinho, que ocupa 1,7% do território em sua parte continental (superpondo-se aos outros biomas).

Caatinga sofre degradação crônica mesmo em áreas sem desmatamento (Foto: Wikimedia Commons)

Embora possam ser separados conforme suas características, no fundo, todos estão interligados. Na questão das chuvas, por exemplo, tão importante quanto sistemas de ventos e nuvens nos oceanos é a trajetória da água pelos chamados “rios voadores”. Isso depende muito do equilíbrio dos biomas que abastecem a atmosfera com água — papel desempenhado especialmente pela Amazônia — e a retêm no solo.  É por isso que o desmatamento no norte tem efeito direto na estiagem do sul do país e, por sua vez, em ecossistemas locais.

É também nos biomas onde vivem bilhões de agentes polinizadores, como abelhas, vespas, formigas, moscas, borboletas, entre outros insetos. Esse conjunto das espécies que habitam sistemas, explica Martins, são fundamentais para a manutenção dos sistemas agrícolas. São eles que levam o pólen de um vegetal para outro, possibilitando reprodução e crescimento. Sem eles, o cultivo de soja, café, laranja e maçã, alguns dos principais produtos agrícolas do país, seria praticamente impossível, causando um grande prejuízo.

Um levantamento de 2019 da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos mostra que, em 2018, as culturas que dependeram desses agentes responderam por US$ 12 bilhões na economia brasileira. “O impacto da degradação de um bioma não é só ambiental, mas econômico”, explica Rubens Benini, líder da estratégia de restauração florestal da The Nature Conservancy (TNC) na América Latina. Desmatar a Amazônia, na visão do especialista, seria “matar a galinha dos ovos de ouro” do país.

“A curto prazo, o efeito negativo é termos nossa imagem internacional arranhada”, explica a pesquisadora do Emílio Goeldi. E isso já vem acontecendo: na última semana de junho, fundos internacionais de investidores, que gerenciam cerca de R$ 21 trilhões, cobraram do Brasil mais efetividade na área ambiental. “A médio prazo, precisaremos de um projeto de socorro. E, a longo prazo, perderemos a sustentabilidade natural, iremos à bancarrota, como muitas civilizações já foram, sem futuro mesmo para o agronegócio.”

É o que os especialistas chamam de tipping point, ponto a partir do qual um sistema não consegue mais se recuperar — em geral, estimado entre 20% e 25% de degradação. A Amazônia está hoje em 19%, segundo um artigo publicado em fevereiro de 2020 na revista Nature.

Como chegamos aqui
“A situação é mais grave do que parece”, diz Carlos Nobre, pesquisador aposentado do Inpe e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN). “Depois de grande sucesso nas políticas ambientais do país até 2012, voltamos a ter um aumento gradual no desmatamento, mas a partir de 2018 até o presente 2020 isso vem acontecendo com uma velocidade muito grande.”

Em junho, o sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 1.034,4 km² de área com risco de ser desmatada. Esse número é o maior desde que o acompanhamento começou a ser feito, em 2015. No primeiro semestre deste ano, os alertas de desmatamento aumentaram 25% em comparação com o mesmo período de 2019, segundo o Inpe divulgou nesta sexta-feira (10).

Desmatamento na Amazônia (Foto: Ibama/Flickr)

Ao longo de 40 anos, principalmente a partir da Constituição de 1988, primeira a ter um capítulo específico para o meio ambiente e a impor o dever de defendê-lo e preservá-lo para gerações presentes e futuras, o Brasil vinha se posicionando bem nas questões ambientais, conforme avaliam os especialistas. Foram sendo criadas também leis e uma série de estruturas e aparatos para garantir que fossem cumpridas, como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em 1989, e o próprio Ministério do Meio Ambiente, em 1992.

“Nos anos 1990, 1992, o Brasil liderou as discussões com o conceito de desenvolvimento sustentável, seguindo um tripé social, econômico e ambiental”, diz Benini, do TNC. Até 2012, foram instituídas também leis como a dos crimes ambientais, prevendo sanções penais e administrativas para atividades que prejudicam o meio ambiente, e a de unidades de conservação. O Estatuto das Cidades, de 2001, teve entre os objetivos permitir que o desenvolvimento dos municípios não ocorresse em detrimento do meio ambiente. 

Em 2012, porém, a situação começou a mudar. Um novo Código Florestal, mais permissivo que os anteriores, foi aprovado depois de cinco anos de discussões. De lá para cá, especialmente a partir de 2015, os índices foram aumentando gradualmente, até começarem a bater recorde atrás de recorde a partir de 2018. O que deu errado?

A primeira hipótese dos especialistas é a redução da fiscalização, que desde 2005 se tornou bastante rigorosa. Ainda que não prendessem diretamente os envolvidos, que em geral conseguiam escapar, os agentes capturavam e queimavam as ferramentas que eles deixavam para trás. “Os financiadores passaram a perder muito dinheiro com isso, pois o custo de cada trator daqueles [usados para derrubar árvores] é alto”, explica Nobre. Em 2019, no entanto, um dos principais órgãos fiscalizadores, o Ibama, teve o orçamento cortado em 24%. Com a redução das ações de controle, os criminosos ambientais voltaram a se sentir impunes.

O maior problema, concordam os estudiosos, foi a mudança drástica no discurso político, escancarado com a fala do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante a reunião ministerial de 22 de abril. Nas imagens divulgadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello, Salles falou sobre o que considerava ser uma oportunidade em meio à pandemia da Covid-19. Para ele, o governo deveria aproveitar o momento, em que o foco das notícias estava voltado para a saúde, e mudar regras que poderiam vir a ser questionadas na Justiça. “Precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos neste momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de Covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”, disse o ministro na ocasião.

“Está havendo um desmonte na estrutura nacional de proteção ao meio ambiente”, diz Marlúcia Martins. Esse desmonte, explica, vem ocorrendo com tentativas de rearranjos nas instituições que não poderiam ser feitos de forma “tão descarada”. “A legislação não pode ser tão alterada, mas todos os bons funcionários podem ser identificados, desautorizados e destituídos de suas funções”, diz. Um exemplo marcante foi a exoneração do chefe de fiscalização do Ibama e do responsável por operações contra crimes ambientais, que ocorreu em abril, após operações contra garimpos ilegais.

“O discurso adotado pelo Ministério do Meio Ambiente é como um sinal verde para o crime ambiental”, opina Nobre. “Por mais que a política ambiental do país tenha avançado muito, ela ganhou um ponto de vista conservador, no qual crescimento equivale a desenvolvimento econômico, colocando em xeque os recursos naturais”, completa o especialista da UFSC. “A natureza está hoje reduzida a ser fonte de recursos, não é exagero dizer que hoje o maior problema é político.”

Antes que seja tarde demais
Na tentativa de conter o desmatamento na Amazônia, o governo criou, em fevereiro, o Conselho Nacional da Amazônia Legal. Composto por militares e sem a participação de representantes do Ibama e da Fundação Nacional do Índio (Funai), o conselho não está atrelado ao Ministério do Meio Ambiente, e sim à vice-presidência da república, sob o comando do general da reserva Hamilton Mourão (PRTB). O objetivo é propor e acompanhar políticas públicas regionais, além de coordenar ações de prevenção, fiscalização e repressão a atos ilícitos.

Mas o conselho até o momento não teve o resultado esperado. Em entrevista à Agência Senado, a coordenadora do Observatório do Clima, Suely Vaz, criticou o modelo: as Forças Armadas, na sua visão, não substituem a atuação de agentes especializados na fiscalização e custam caro. “Manter até 2022, como o general Mourão está pretendendo, significa gastar R$ 60 milhões por mês só com os militares. Dois meses de ações, ou R$ 120 milhões, pagam o salário anual de 100 fiscais do Ibama. Esse é o déficit de fiscais para todo o Brasil”, disse. Procurados pela reportagem da GALILEU, tanto o Ministério do Meio Ambiente quanto a vice-presidência da república não retornaram as tentativas de contato.

Amazônia (Foto: Victor Caetano Andrade/Trends in Plant Science)

Para o especialista da RECN, a maioria das pessoas envolvidas com a causa ambiental está pessimista. “Não achamos que exército vai ganhar essa guerra [contra o desmatamento]”, diz Carlos Nobre. Para Benini, da TNC, é preciso tomar medidas efetivas o quanto antes. “Nem tudo está perdido, mas é importante agir agora, não é mais possível tapar o sol com a peneira”, opina.

A maior urgência é frear o desmatamento ilegal — o que é menos complicado do que parece, segundo os especialistas. “A curto prazo, precisamos acabar com o crime [99% do desmatamento é ilegal]. Isso não é difícil, os satélites veem na hora que está acontecendo. Leva de um a dois meses para desmatar fazendas de mil, 2 mil hectares, é facílimo achar o lugar da ilegalidade”, explica Nobre.

Mas a população também deve se atentar para a questão. Uma ferramenta de controle é praticar o consumo responsável, exigindo o certificado de origem dos produtos que consomem — hoje, cerca de 76% da carne produzida nas pastagens que tomam conta da Amazônia é destinada ao consumo interno, segundo Nobre. “Exigir o certificado de origem é dar uma vantagem para quem pratica a pecuária legal”, opina.

Afinal, por mais que pareçam imperceptíveis, as ações individuais têm impactos que não se limitam a proximidades geográficas. Assim como nos biomas, tudo está interligado. Por isso, não é exagero dizer que nossa própria sobrevivência depende da deles.

Fonte: Galileu

Ceará é o primeiro estado do país a ter um inventário da fauna local

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Ceará é o primeiro estado do país a ter um inventário da fauna local

FEITO POR PESQUISADORES DAS UNIVERSIDADES FEDERAL E ESTADUAL DO CEARÁ E DA ONG AQUASIS, LEVANTAMENTO LISTOU 1,3 MIL ANIMAIS VERTEBRADOS E PODE SER FERRAMENTA PARA MONITORAR AQUELES QUE ESTÃO AMEAÇADOS

O soldadinho-do-araripe é uma das 1,3 mil espécies listadas no inventário da fauna cearense (Foto: Ciro Albano)

Fruto de um trabalho de décadas, a Secretaria de Meio Ambiente do Ceará (Sema) lançou na última sexta-feira (26) um inventário virtual com ao menos 1.287 espécies da fauna cearense, incluindo mamíferos, répteis, aves, anfíbios e peixes de água doce e marinhos. A partir de trabalhos de campo, coleções e publicações científicas, o levantamento foi feito por pesquisadores das universidades federal e estadual do estado (UFC e UECE, respectivamente) e da ONG Aquasis.

Há cerca de cinco anos, surgiu na Sema a ideia de elaborar uma lista da fauna ameaçada de extinção no estado, contou Hugo Fernandes, coordenador do projeto e pesquisador da UECE, na transmissão virtual de lançamento do inventário. O plano começou a sair do papel com a criação do Cientista-Chefe, programa que tem como objetivo incluir o meio acadêmico nas secretarias e órgãos mais estratégicos do governo estadual.

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Tiriba-de-peito-cinza, uma das aves catalogadas no inventário (Foto: Fabio Nunes)

De livre acesso, o levantamento tem como público-alvo estudantes, pesquisadores, gestores públicos, consultores de empresas e ONGs. Os dados serão atualizados à medida em que novas espécies forem registradas. “Este trabalho de hoje é de décadas de pesquisa. Muita gente mergulhou no fundo do mar, acampou na serra e na Caatinga para poder pegar informações sobre nossa fauna. Todos nós somos cientistas-chefe”, disse Marcelo Soares, cientista chefe da Sema, na apresentação.

Segundo Hugo Fernandes, estão catalogados no inventário 140 mamíferos continentais, 25 mamíferos marinhos, 102 peixes continentais, 400 peixes marinhos, 133 répteis, 57 anfíbios e mais de 443 aves. No total, 443 espécies residentes no Ceará têm caráter migratório.

Cobra-cega (ou Siphonops paulensis), uma das espécies de anfíbio catalogadas no inventário (Foto: Hugo Fernandes)

Há ainda as espécies catalogadas como extintas, vagantes ou que já viveram por algum período no estado. “É um marco histórico a partir de um trabalho de compilação. Os gigantes do passado que começaram a fazer esse processo todo”, definiu o coordenador sobre o projeto. 

Suaçubóia (Corallus hortulanus) (Foto: Diva Borges)

Para produzir a lista de animais em risco de extinção, foram seguidos os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). O objetivo dos pesquisadores é que a lista da fauna ameaçada seja lançada até 2022.

E há planos de estender o inventário à flora. “Lanço um desafio. Precisamos também de um inventário de flora, para saber as espécies vegetais em risco de extinção”, propôs Artur Bruno, secretário do Meio Ambiente e Sustentabilidade do Ceará.

Pilrito-das-praias (ou Calidris alba), uma das aves catalogadas no inventário (Foto: Fabio Nunes)

Fonte: Galileu

À espera da chuva, Pantanal teme nova catástrofe

 

À espera da chuva, Pantanal teme nova catástrofe

A maior planície alagada do planeta atravessa a pior seca em 60 anos. Moradores da região se preparam para incêndios ainda mais devastadores do que em 2020.

Imagens como esta contrastam com o esperado da estação de chuvas no Pantanal

Quem chega ao Pantanal em fevereiro, normalmente está preparado para encarar um tempo molhado. Nesta época do ano, tudo costuma estar submerso, com grande parte da região transitável apenas a cavalo ou de barco. Traga roupa de chuva, dizia-se por telefone.

Mas, em vez disso, a poeira queima no nariz e nos olhos quando se dirige por uma estrada de terra de Mutum até a maior reserva natural privada do Brasil, no interior do Pantanal. E no lugar de nuvens escuras, o sol brilha no céu.

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É época de chuvas no Pantanal, mas simplesmente não chove. Há meses que o tempo está demasiadamente seco. Rios que normalmente transbordam pelas margens nesta época do ano hoje não são mais do que poças e bancos de areia. Em vários lagos ao longo do caminho a água se tornou tão escassa que já não há mais espaço e nem alimento para os jacarés. Eles começaram a se atacar, e alguns já morreram. Suas carcaças servem agora de alimento para os urubus.

Tanto à esquerda, quanto à direita, já deveria haver água a esta altura do ano

Pior estiagem em décadas

Segundo cientistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres (Cemaden), o Pantanal vive atualmente a pior seca dos últimos 60 anos. Os pesquisadores alertam também que a seca ainda deverá durar mais alguns anos e ter graves consequências para a fauna, a flora e as pessoas, a exemplo do aumento de grandes incêndios.

As causas da atual seca não estão claras. Pode ser tanto em decorrência das mudanças climáticas como do desmatamento da bacia amazônica – menos floresta por lá, significa menos formação de nuvens e, portanto, menos chuva por aqui. Um ciclo natural também não está descartado: entre 1968 e 1973, o Pantanal também passou por uma seca extrema. Provavelmente é um misto dos três fatores.

No Pantanal, teme-se agora que a catástrofe de 2020 se repita neste ano. Entre agosto e outubro de 2020, grandes incêndios devastaram cerca de um quarto do bioma. Por mais contraditório que possa parecer: foram os piores incêndios na história da maior zona úmida da Terra.

As causas da atual seca no Pantanal ainda não estão claras

O inferno de 2020

“Este ano é muito mais seco que 2020”, diz Alessandro Amorim, de 34 anos, guarda-florestal da maior reserva natural privada do Brasil, a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).

A RPPN foi fundada em 1997 pelo Sesc e é considerada uma das reservas naturais mais bem administradas do Brasil. Com quase 110 mil km², ela abriga uma imensa variedade de animais, entre eles a arara-azul, o lobo-do-rio, o tamanduá-bandeira, a onça pintada, o lobo-guará, a ema e a anta. Alessandro Amorim se diz feliz em trabalhar aqui e ajudar a proteger a flora e fauna. Nascido no Pantanal e filho de um pequeno agricultor, ele atualmente gerencia, junto com outros dois colegas, um dos seis postos de guarda-florestal da RPPN.

 No ano passado, quando os incêndios queimaram quase 95% da reserva do Sesc, Amorim lutou durante 50 dias e noites contra as chamas. Investigações apontam que o fogo foi desencadeado por um pecuarista e por indígenas de uma aldeia de fora da reserva. Já em outras partes do Pantanal, segundo a Delegacia de Meio Ambiente (Dema), os responsáveis foram coletores de mel, acidentes automobilísticos, incêndios e pecuaristas criminosos.

A vegetação ressecada transformou o fogo num inferno, com chamas avançando por mais de 50 quilômetros, queimando até mesmo debaixo da terra. “Nunca vi nada igual”, disse Amorim. “O calor, a fumaça, o vento quente, as paredes de fogo. Os animais vinham correndo da floresta, carbonizados.”

Trecho do Pantanal arrasado pelos incêndios de 2020

Fogo controlado

Para conter as chamas, os guardas-florestais traçaram corredores na floresta e atearam fogo de maneira controlada. Do ar, eles tinham o apoio de aviões de combate a incêndios. Quando os incêndios acabaram, no final de setembro, foram instalados 165 tanques de água para alimentar os animais que sobraram, e frutas foram distribuídas a eles. “Isso salvou a vida de muitos animais debilitados”, lembra Amorim.

Agora ele e seus colegas se preparam para os próximos incêndios. Com a ajuda de tratores, eles traçam mais corredores ao redor da reserva para parar o avanço de possíveis incêndios. Além disso, o Sesc também busca conscientizar a população dos entornos da reserva sobre o perigo das tradicionais queimadas de campos.

A visão dos fazendeiros

A 350 quilômetros e seis horas de carro do posto da guarda-florestal, José Dorilêo repete a frase que se ouve tantas vezes: “Não chove”.

Dorilêo vive na Transpantaneira, uma estrada de terra que percorre o norte do Pantanal ao longo de 150 quilômetros entre Poconé e Porto Jofre. Hoje ele recebe a visita do sobrinho Raúl Costa, que, como ele, é criador de gado – já estão na quarta geração, como ambos orgulhosamente salientam. A Fazenda de Dorilêo compreende cerca de 12 mil hectares, um vasto campo por onde são conduzidas cerca de 3 mil cabeças de gado por vaqueiros.

Tanto ele quanto Costa resistem a serem retratados pela mídia como vilões do Pantanal. “Quando teve o incêndio, disseram que nós, os fazendeiros, tínhamos começado o fogo para criar pastagens”, conta Costa. “Isso é um absurdo! O Pantanal é enorme e um ou dois malucos podem ter feito isso, mas atear fogo aqui seria suicídio. Nossa própria fazenda queimou quase toda no ano passado. Não dá para colocar todos os fazendeiros no mesmo saco”.

Jacarés mortos ao longo da Transpantaneira

Pastagens naturais

Costa está sentado na cozinha do casarão centenário, que dá os ares de um museu local. Fotos antigas, esporas e laços decoram as paredes. É a hora do café da manhã, e um dos vaqueiros traz uma cabeça de gado que ficou assando por 9 horas num forno de barro no quintal da casa.

Após morder um pedaço de língua de boi, o homem de 43 anos diz que nunca houve derrubada de mata na fazenda. Pelo contrário, aponta, os fazendeiros dependem das árvores, pois elas protegem os lugares elevados onde o gado fica durante os dilúvios. O que o incomoda é que, de acordo com a lei, não é permitida nem a retirada de plantas invasoras – arbustos, por exemplo, que se reproduzem de forma veloz e acabam alimentando ainda mais as chamas.

O Pantanal, na verdade, tem suas próprias regras ao longo da Transpantaneira. Ao contrário da Amazônia, muitas pastagens aqui não são produto do desmatamento, mas surgem naturalmente através de enchentes. É por isso que pecuaristas locais como Costa e Dorilêo se sentem injustiçados ao serem acusados de vilões do meio ambiente. Eles dizem ter consciência ambiental e querem combater o clichê de fazendeiros exploradores. Parecem ter entendido que, no Pantanal, só se pode obter lucros com a natureza.

Só que a natureza se torna cada vez mais imprevisível. Devido à falta de chuvas, Costa teme que os tanques sequem neste ano. “Aí não teríamos água suficiente para o gado e teríamos que vendê-lo”, afirma.

Economia baseada no turismo sustentável

Já a vários quilômetros dali, um homem na Transpantaneira acredita saber como lucrar com o Pantanal e protegê-lo ao mesmo tempo. Mas a primeira coisa que André Thuronyi diz à reportagem é que está chocado com a seca. “Aqui deveria haver água por toda parte”, lamenta, apontando para os prados secos.

Filho de uma família nobre de imigrantes húngaros, Thuronyi veio para o Pantanal em meados da década de 1970. Ele se apaixonou pela região e começou a espalhar a ideia do ecoturismo – algo que ninguém no Pantanal conhecia na época. “Fui pioneiro”, diz ele.

Hoje, o homem magro de 66 anos, cuja marca registrada é uma ondulante cabeleira de um louro acinzentado, é dono da exclusiva Araras Eco Lodge. O conceito inclui imersão na natureza: observação de animais silvestres, excursões noturnas e passeios a cavalo.

“Mostrei às pessoas que uma onça ou uma arara-azul tem muito mais valor viva do que morta ou em cativeiro”, diz Thuronyi. “Quem quer atrair turistas precisa da natureza.” Mas levou muito tempo para que seus vizinhos entendessem essa máxima. “Eu fui considerado o gringo maluco.”

Mas com os anos, o sucesso da pousada de Thuronyi inspirou imitadores. Hoje, no lugar de antigas fazendas, existem 18 eco-lodges ao longo da Transpantaneira.

Ao anoitecer, Thuronyi sobe em uma torre de observação de 25 metros de altura no meio de uma floresta que faz parte do terreno da eco-lodge. Enquanto um grupo de macacos-pregos macaqueia no andaime da torre, nuvens escuras aparecem no horizonte. Em alguns lugares, é possível ver a chuva caindo sobre a terra plana. “Isso me alegra muito”, diz André Thuronyi. “Mas temo que seja tarde demais.”

Fonte: Deutsche Welle


Sucesso! Satélite brasileiro Amazonia-1 é lançado na Índia neste domingo (28)

 

Sucesso! Satélite brasileiro Amazonia-1 é lançado na Índia neste domingo (28)

Na madrugada deste domingo (28), o primeiro satélite 100% brasileiro foi lançado a bordo do foguete PSLV-C51, na Índia. O lançamento aconteceu no Centro Espacial Satish Dhawan (SHAR), em Sriharikota, e o satélite tem como objetivo observar e monitorar o desmatamento da região amazônica.

O Amazonia-1 pesa 640 quilos, tem 2,5 metros de altura e operará a 750 km de altitude. Foram 13 anos de desenvolvimento para que chegássemos ao lançamento bem-sucedido e, com isso, o Brasil entra para o grupo de apenas 20 países capazes de desenvolver um satélite próprio dessa maneira.

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Este é o primeiro satélite de observação da Terra completamente brasileiro, sendo projetado, desenvolvido, testado e operado pelo Brasil. Apenas o lançamento aconteceu em outro país, com todo o restante da operação acontecendo em nosso território nacional — ainda que tenhamos a base de lançamentos de Alcântara, que fica no estado do Maranhão.

Por que, então, o Amazonia-1 precisou ser lançado na Índia? A resposta é simples: apesar de termos Alcântara, o Brasil não tem um foguete grande o suficiente para levar o nosso satélite à órbita, e Alcântara também não tem uma plataforma com dimensões e estruturas adequadas para lançar um foguete do tamanho que seria necessário para transportar o Amazonia-1. Enquanto o foguete indiano PSLV-C51 tem 44,4 metros, o foguete brasileiro VLS (sigla para Veículo Lançador de Satélites) tem apenas 19,7 metros de altura.

Voltando à operação do Amazonia-1, ele foi colocado em uma órbita em sincronia com a do Sol, viajando a 27 mil km/h e levando 100 minutos para dar uma volta ao redor da Terra. Em seu trajeto, o satélite será capaz de fotografar qualquer lugar do planeta, sendo que essas imagens serão registradas em alta resolução. A cada dois ou três dias, no máximo, o Amazonia-1 fornecerá imagens do território brasileiro, permitindo, então, o monitoramento contínuo da região amazônica — mas também será útil para que o Brasil monitore, em imagens, outras regiões de interesse, como plantações agrícolas, regiões costeiras e reservatórios de água.

Se quiser assistir à reprise do lançamento, é só reproduzir o vídeo abaixo, com a transmissão feita ao vivo pelo YouTube do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE):

Fonte: Canaltech