segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

“Brasil sofre bullying internacional. Somos o país mais preservado do mundo e quem vai julgar é o turista”, afirma ministro do Turismo

 

“Brasil sofre bullying internacional. Somos o país mais preservado do mundo e quem vai julgar é o turista”, afirma ministro do Turismo

"Brasil sofre bullying internacional. Somos o país mais preservado do mundo e quem vai julgar é o turista", afirma ministro do Turismo

O novo ministro do Turismo, Gilson Machado Neto, foi entrevistado ontem pelo programa Poder em Foco, no SBT. Amigo pessoal do presidente Jair Bolsonaro, ele assumiu a pasta no mês passado e antes disso, era presidente da Embratur.

Durante a entrevista (veja pequeno trecho ao final desse texto), Machado foi questionado sobre a imagem ruim do Brasil no exterior, sobretudo, em relação ao meio ambiente, e as queimadas e o desmatamento na Amazônia. Para o ministro, o que acontece é que nosso país sofre “bullying internacional”.

“O Brasil sempre sofreu bullying do exterior porque ninguém consegue concorrer com o nosso país quando o assunto é turismo de natureza. Nós somos hoje o país mais preservado do mundo, temos 60% de florestas intocadas”, disse o ministro.

Ainda segundo Machado, o Brasil tem um importante aliado que são os sites de avaliação turísticas da internet, que ele chamou de “motores de reserva”, como Expedia e TripAdvisor.

“Quem vai julgar se o meio ambiente está preservado é o próprio turista. Porque se ele comprar um pacote em uma pousada em São Miguel dos Milagres, por exemplo, e ele chegou num recife de coral e mergulhar e não ver o ouriço, o peixe, ele bota lá ‘não volte’ porque não tem meio ambiente preservado. Então o próprio ‘trem’ de hoje fica de olho na preservação ambiental”, afirmou.

Será por esta razão que o governo atual está promovendo um extensivo desmonte de seus órgãos ambientais desde que assumiu o poder? Está contando com o olhar apurado dos turistas?

Turistas podem sim ajudar na preservação da biodiversidade, mas infelizmente, isso não basta. Eles não têm capacidade nem conhecimento técnico para tal. E os responsáveis pela fiscalização do meio ambiente no Brasil e pelas iniciativas de conservação deveriam ser os funcionários de entidades como o Ibama ou o ICMBio, os mesmos que têm relatado o enfrentamento à censura, perseguição e exonerações como táticas do governo para enfraquecer e destruir os órgãos de proteção ambiental.

O ministro Gilson Machado é mais um membro do governo a propagar o discurso de que o Brasil é o país que mais preserva a natureza no mundo. Antes fosse. E nós brasileiros gostaríamos muito que isso fosse verdade.

Pra começar, a Rússia é a nação que mais preservou suas áreas naturais originais. De acordo com um artigo publicado na renomada revista Nature, em 2018, cinco países concentram a maior proporção dessas áreas protegidas e o Brasil aparece em 5o lugar, atrás ainda de Canadá, Austrália e Estados Unidos.

"Brasil sofre bullying internacional. Somos o país mais preservado do mundo e quem vai julgar é o turista", afirma ministro do Turismo

Ranking mostra países que conseguiram manter sua vegetação original

E quando comparado a outros rankings globais sobre o turismo, o Brasil também não aparece na liderança. Não está, por exemplo, entre os 25 países mais visitados do mundo. Um relatório da Organização Mundial do Turismo (OMT) indica que França, Estados Unidos, Espanha, China e Itália ficam no topo.

Já quando se leva em conta aquelas nações com vocação para o ecoturismo, o Brasil concorre com destinos como Costa Rica, México, Nepal, Nova Zelândia e Austrália, onde a infraestrutura é melhor, há uma malha viária com mais voos e grande parte das pessoas que trabalham com turismo falam mais de uma língua, o que ainda não acontece em nosso país.

Países com mais áreas protegidas no mundo

1. Venezuela (53.9%)
2. Eslovênia (53.6%)
3. Mônaco (53.4%)
4. Butão (47.3%)
5. Turks and Caicos Islands (44.4%)
6. Liechtenstein (44.3%)
7. Brunei Darussalam (44.1%)
8. Seychelles (42.1%)
9. Hong Kong (41.8%)
10. Groelândia (41.2%)

*Porcentagens são em relação à área total do país

Fonte: Banco Mundial

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Foto: divulgação Ministério do Turismo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Biden e o que muda no mundo, artigo de Montserrat Martins

 

Biden e o que muda no mundo, artigo de Montserrat Martins

[EcoDebate]

A questão do momento é o que muda no mundo com a posse de Joe Biden nos Estados Unidos, o país ainda mais poderoso do planeta.

Uma das primeiras medidas foi voltar ao Acordo do Clima de Paris, com o qual Trump havia rompido. O que isso significa na prática, vamos examinar.

Estados Unidos e China são os dois maiores poluidores do planeta, o que mostra que poluição não tem ideologia, assim como vírus, afeta a todos. Cientistas de todo o mundo estudam o clima do planeta, que cada vez tem maior amplitude térmica (verões mais quentes, invernos mais frios) e mais acidentes climáticos como os furacões.

Dos brasileiros o maior expoente foi José Lutzenberger que há 50 anos atrás já explicava que a Amazônia “não é o pulmão do planeta, é o ar condicionado do planeta”. O desmatamento, associado à poluição, pois a concentração de carbono na atmosfera fragiliza a proteção que nossa atmosfera nos dá contra essas variações extremas do clima.

Obama foi o primeiro Presidente americano a levar a sério o problema e chegou a conseguir acordos inéditos com a China a respeito, abandonados depois por Trump. O impacto desses dois países na poluição global é avassalador, pois tem os maiores parques industriais. Depois deles, o maior impacto sobre o clima é o desmatamento da Amazônia, que afeta todo o planeta e em particular o Brasil. A falta de chuvas no sul, por exemplo, é uma decorrência da diminuição dos “rios flutuantes” que é umidade que a Amazônia proporciona a todo o país.

Com Biden, a ciência volta a ser valorizada contra os “negacionistas”, que negam a ciência como um todo, desde as informações mundiais sobre a clise climática até os riscos do coronavírus, também menosprezados na Era Trump. Mas além da Ciência também muda a relação dos Estados Unidos com o mundo inteiro, para um modelo mais diplomático e menos belicoso, com a ideia de colaboração entre as nações ao invés do foco na supremacia americana. Voltam a contribuir com a Organização Mundial da Saúde, agora.

Observem os países da Europa, onde se alternam governos de direita ou esquerda, mas mantém alguns princípios básicos em comum, como o respeito à ciência. Até por sobrevivência, pois a subida do nível do mar os afeta diretamente, serão os primeiros países a ser atingidos. Nós, a Europa e o mundo todo se beneficia com os Estados Unidos mais cooperativo.

Montserrat Martins é Psiquiatra

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/01/2021

 

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Bolsonaro cita proteção da Amazônia em carta endereçada a Joe Biden

 ((o))eco

Bolsonaro cita proteção da Amazônia em carta endereçada a Joe Biden 

Daniele Bragança
quarta-feira, 20 janeiro 2021 20:32
Presidente hoje em evento da Aeronáutica. Foto: Alan Santos/PR

Em tom conciliatório e com apelo para a continuidade das relações amigáveis entre Brasil e Estados Unidos, o presidente Jair Bolsonaro divulgou nesta quarta-feira (13) o conteúdo de uma carta endereçada ao presidente dos EUA, Joe Biden, que tomou posse na tarde de hoje, em Washington. O texto ressalta a longa amizade entre os dois países – Os Estados Unidos foi a primeira nação a reconhecer a independência brasileira, em 1822 – e afirma que o Brasil está pronto para “continuar nossa parceria em prol do desenvolvimento sustentável e da proteção do meio ambiente, em especial a Amazônia, com base em nosso Diálogo Ambiental, recém-inaugurado”, disse. 

Na campanha eleitoral americana, Biden criticou as queimadas e prometeu US$ 20 bilhões para combater a devastação da Amazônia, mas disse que haveria retaliações se o governo Bolsonaro continuasse a permitir a destruição da floresta. A fala e a fidelidade de Bolsonaro ao ex-presidente, Donald Trump, a quem a política externa se alinhou sem contestação, criou o primeiro racha entre os dois. Fiel ao Trump até o fim, Bolsonaro repetiu as acusações de que as eleições americanas foram fraudadas. Assim como Trump, não apresentou provas. 

Na semana passada, o chanceler Ernesto Araújo publicou um texto endereçado ao Biden dizendo que as preocupações com o meio ambiente são exacerbadas pela imprensa e que esperava do novo presidente ‘compreensão mútua’. 

Bolsonaro diz que Brasil continuará cooperando com os americanos

Bolsonaro afirmou que continuará alinhado aos americanos na Organização Mundial do Comércio (OMC), “onde queremos destravar as negociações e evitar as distorções de economias que não seguem as regras de mercado”. Também reiterou esperar apoio para o ingresso do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), promessa de Trump, e manter a “defesa da democracia e da segurança em nosso hemisfério”

Leia abaixo a carta de Bolsonaro a Biden, na íntegra:

Senhor Presidente,
Reprodução: Twitter/JairMBolsonaro.Senhor Presidente,

Tenho a honra de cumprimentar Vossa Excelência neste dia de sua posse como 46º Presidente dos Estados Unidos da América.

O Brasil e os EUA são as duas maiores democracias do mundo ocidental. Nossos povos ~estão unidos por estreitos laços de fraternidade e pelo firme apreço às liberdades fundamentais, ao estado de direito e à busca de prosperidade através da liberdade.

Pessoalmente, também sou de longa data grande admirador dos Estados Unidos e, desde que assumi a Presidência, passei a corrigir os equívocos de governos brasileiros anteriores, que afastaram o Brasil dos EUA, contrariando o sentimento de nossa população e os nossos interesses comuns.

Assim, inspirados nesses valores compartilhados, e sob o signo da confiança, nossos países têm construído uma ampla e profunda parceria.

No campo econômico, o Brasil, assim como os empresários de nossos dois países, tem interesse em um abrangente acordo de livre comércio, que gere mais empregos e investimentos e aumente a competitividade global de nossas empresas. Já temos como base os recentes protocolos de facilitação de comércio, boas práticas regulatórias e combate à corrupção, que certamente contribuirão para a recuperação de nossas economias no contexto pós-pandemia. A esses acordos se somam recente Memorando entre o Ministério da Economia do Brasil e o Eximbank, para estimular os financiamentos de projetos, e nosso Acordo de Cooperação para o Financiamento de projetos de Infraestrutura.

Na área de ciência e tecnologia, o potencial de cooperação é enorme, como ficou ilustrado pelo ambicioso plano de trabalho desenvolvido por nossa Comissão Mista e pela conclusão do Acordo de Salvaguardas Tecnológicas, que permitirá lançamentos espaciais a partir da base de Alcântara, no Brasil. O mesmo se aplica à área de defesa, com a conclusão de nosso Acordo de Pesquisa, Desenvolvimento, Teste e Avaliação.

Nas organizações econômicas internacionais, o Brasil está pronto para continuar cooperando com os EUA para a reforma da governança internacional. Isso se aplica, por exemplo, à OMC, onde queremos destravar as negociações e evitar as distorções de economias que não seguem as regras de mercado. Na OCDE, com o apoio dos EUA, o Brasil espera poder dar contribuição mais efetiva e aumentar a representatividade da organização. Nosso processo de acessão terá, também, impacto fundamental para as reformas econômicas e sociais em curso em nosso país.

Estamos prontos, ademais, a continuar nossa parceria em prol do desenvolvimento sustentável e da proteção do meio ambiente, em especial a Amazônia, com base em nosso Diálogo Ambiental, recém-inaugurado. Noto, a propósito, que o Brasil demonstrou seu compromisso com o Acordo de Paris com a apresentação de suas novas metas nacionais.

Para o êxito no combate à mudança do clima, será fundamental aprofundar o diálogo na área energética. O Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e, junto com os EUA, é um dos maiores produtores de biocombustíveis. Tendo sido escolhido país líder para o diálogo de alto nível da ONU sobre Transição Energética, o Brasil está pronto para aumentar a cooperação na temática das energias limpas.

Brasil e Estados Unidos coincidem na defesa da democracia e da segurança em nosso hemisfério, atuando juntos contra ameaças que ponham em risco conquistas democráticas em nossa região. Adicionalmente, temos cooperado para impedir a expansão das redes criminosas e do terrorismo, que tantos males causam a nossos países da América Latina e do Caribe.

Necessitamos também continuar lado a lado enfrentando as graves ameaças com que hoje se deparam a democracia e a liberdade em todo o mundo e que se tornam mais prementes no mundo pós-Covid: o crime organizado transnacional; as distorções ao comércio mundial e ao fluxo de investimentos oriundas de práticas alheias ao livre mercado; e a instrumentalização de organismos internacionais por uma agenda também contrária à democracia.

Entendo que interessa aos nossos países contribuir para uma ordem internacional centrada na democracia e na liberdade, que defenda os direitos e liberdades fundamentais de todos e, muito especialmente, de nossos cidadãos. E estamos dispostos a trabalhar juntos para que esses valores fundamentais estejam no centro das atenções, seja bilateralmente, seja nos foros internacionais.

É minha convicção que, juntos, temos todas as condições para seguir aprofundando nossos vínculos e agenda de trabalho, em favor da prosperidade e do bem-estar de nossas ações.

O Brasil alcançou sua Independência em 1822, e os EUA foram o primeiro país a nos reconhecer. Em 1824, foram estabelecidas nossas relações diplomáticas. São dois marcos históricos cujo bicentenário, em futuro próximo, os brasileiros queremos celebrar com nossos amigos americanos.

Ao desejar a Vossa Excelência pleno êxito no exercício de seu mandato, peço que aceita, Senhor Presidente, os votos de minha mais alta estima e consideração.

Jair Bolsonaro.

 

Autódromo: Justiça suspende audiência que iria decidir futuro da Floresta do Camboatá

 ((o))eco

Autódromo: Justiça suspende audiência que iria decidir futuro da Floresta do Camboatá

Daniele Bragança
segunda-feira, 3 agosto 2020 23:47
Imagem do Campo de Instrução de Camboatá (Área 1) e de área militar 
anexa ao leste (Área 2). Fonte: Google Earth.

A juíza Roseli Nalin, da 15ª Vara de Fazenda Pública, suspendeu na noite desta segunda-feira (03) a audiência pública que estava marcada para a próxima sexta-feira (07) e que iria decidir o destino da Floresta do Camboatá, em Deodoro, no Rio de Janeiro terreno onde querem construir o novo autódromo da capital. A decisão é liminar e cabe recurso. 

A audiência é uma das etapas obrigatórias para a obtenção da licença prévia do empreendimento, que irá desmatar 200 mil árvores de um dos últimos redutos de Mata Atlântica em terrenos planos na capital.

“Grande vitória nossa”, comemora o advogado e ambientalista Rogério Rocco, um dos autores da ação popular que suspendeu a votação da audiência pública. O advogado Antônio Seixas foi o outro autor da ação. 

É a terceira vez que a audiência pública é adiada na Justiça. Em março, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro conseguiu adiá-la, por causa da pandemia. Logo depois, o governo anunciou uma nova data, dessa vez online, para maio. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) entrou de novo com um ação e conseguiu suspender a audiência junto à 14ª Vara de Fazenda Pública. Na ocasião, se questionou a ausência de regulamentação das audiências virtuais. A decisão foi mantida em instâncias superiores, mas em julho o ministro Dias Toffoli derrubou a liminar e autorizou a realização da audiência, marcada para ocorrer no dia 7 de agosto. A reunião foi suspensa nesta segunda-feira (03), a partir de uma ação popular que questiona a existência do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Conema) do Rio, instância onde a reunião seria feita. 

“O Conselho Estadual de Meio Ambiente do Rio é um órgão clandestino; ele não existe, ele pratica atos que repercutem nos processos de licenciamento ambiental que estão em curso no Rio de Janeiro, de licenças que foram expedidas anos atrás, mas trata-se de um órgão clandestino na estrutura do estado. Tudo ao contrário dos mínimos requisitos de legalidade exigidos para a atuação do poder público. É uma coisa sem precedente, é uma coisa inacreditável o desprezos que esse governo tem com a estrutura de normatização da política ambiental do estado do Rio de Janeiro”, explica Rogério Rocco, em entrevista ao ((o))eco. 

A ação popular elenca uma série de irregularidades na existência do Conema, como, por exemplo, a criação do conselho ter sido por decreto, quando a constituição estadual determina, expressamente, que o órgão seja criado por projeto de lei, ou seja, passando pelo escrutínio da Assembleia Legislativa. 

Outra irregularidade é que o Conselho precisa ser paritário, ou seja, mesmo número de cadeira para o poder público e para a sociedade civil. A atual composição, definida em 2019, tem mais cadeiras para o governo. 

Além disso, as regras de votação virtual, definidas pelo próprio Conema, não estão sendo seguidas pelos próprios conselheiros, como o voto ser encaminhado por e-mail e as atas não divulgadas dentro do prazo previsto por decreto. 

Os advogados argumentam que o Conema não existe e que toda decisão tomada até agora pelo colegiado é nula, logo, não tem validade. Baseado nisso, pediram que a Justiça decidisse, liminarmente, pela suspensão da audiência sobre a Floresta de Camboatá, já que a decisão que sairia de lá “colocava em risco as regras de proteção ao meio ambiente com base na clandestinidade”.

A ação foi protocolada na sexta-feira passada (31) e a justiça decidiu pela liminar nesta segunda-feira (03). 

O que é/O que querem transformar. Imagem: Movimento SOS 
Floresta do Camboatá/Facebook.

O terreno onde querem construir o autódromo foi concedido pelo Exército Brasileiro à Prefeitura do Rio e é o único fragmento bem preservado acima de 100 hectares de mata de terras baixas na cidade do Rio. Segundo o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), há quatro alternativas locacionais para a obra, que não precisaria desmatar uma área de 160 hectares. Em maio de 2019 a Rio Motopark venceu o certame para a construção do autódromo, que seria capaz de receber a Fórmula 1 a partir da temporada de 2021, após o término do atual contrato com São Paulo. O projeto prevê 14 meses de obras e um traçado de 5 quilômetros para provas de automobilismo e motociclismo. 

“O estudo de impacto ambiental aponta quatro alternativas locacionais. O Movimento SOS Camboatá até complementa: que o autódromo seja em outro lugar. Ele [o movimento] não é contra o autódromo, ele só quer que seja em outro lugar. Qualquer outra desses quatro alternativas locacionais é mais viável do ponto de vista ambiental que a Floresta de Camboatá, pois ela é a única que tem que desmatar floresta. Não tem nenhuma com 200 mil árvores e 18 espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção, com a importância ambiental que essa floresta tem. Por que eles insistem?”, pergunta Rocco.

 

Novo prefeito do Rio afirma que “não vai ter” autódromo na Floresta do Camboatá, área de preservação ambiental

 

Novo prefeito do Rio afirma que “não vai ter” autódromo na Floresta do Camboatá, área de preservação ambiental

Por duas vezes, a jornalista Mônica Nunes escreveu sobre este projeto absurdo aqui no Conexão Planeta: a construção de um autódromo numa área de preservação ambiental, a Floresta de Camboatá, no bairro de Deodoro, na zona norte do Rio de Janeiro.

A área é um dos últimos remanescentes de Mata Atlântica de terras baixas da capital fluminense. Desde 1904, é administrada pelo Exército e já abrigou depósito de armamento e munição e, posteriormente, o Centro de Instrução de Operação Especial do Exército. Foi preservada nesses anos todos numa região que tem sofrido intenso processo de urbanização e adensamento e, por isso, se configura como uma ilha desse bioma.

A Floresta de Camboatá abriga mais de 200 mil árvores e é habitat para várias espécies de aves, mamíferos e répteis.

Para construir o autódromo seria necessário desmatar uma área de 160 hectares ou quase 50 campos de futebol! A Rio Motorsports, empresa que fez o planejamento para construir e operar as pistas, tinha o apoio do então governador Wilson Witzel (agora afastado) e o ex-prefeito Marcelo Crivella (também sendo investigado por corrupção).

Em outubro, a licença ambiental para o empreendimento foi bloqueada pelo Instituto Nacional do Meio Ambiente (Inea), que analisou o estudo de impacto ambiental apresentado pela prefeitura e identificou inconsistências, erros e omissões.

Ontem, o novo prefeito do Rio, Eduardo Paes, disse que “não vai ter autódromo”. Essa havia sido uma das promessas de sua campanha a ambientalistas, entre eles, o deputado estadual Carlos Minc, um dos co-autores de um projeto de lei de 2018, que previa a anexação da a Floresta do Camboatá ao Parque Estadual do Mendanha-Gericinó e a criação de áreas de lazer, pesquisa e horta de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica. Apesar da proposta ter sido aprovada, acabou engavetada por pressões políticas e empresariais.

Paes afirmou ainda que concorda com a construção de um novo autódromo, mas a prefeitura irá analisar outros lugares para a obra. Uma das possibilidades seria uma área em Guaratiba, também na zona oeste do Rio.

A polêmica sobre a construção do autódromo carioca teve repercussão internacional. O campeão Lewis Hamilton declarou que não correria numa pista que tivesse causado tamanho impacto ambiental e social.

Imagem: divulgação do Consórcio Rio Motorsports

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Cinco anos depois do desastre, a água da Bacia do Rio Doce ainda não foi recuperada

 

Cinco anos depois do desastre, a água da Bacia do Rio Doce ainda não foi recuperada

Cinco anos depois do desastre, a água da bacia do Rio Doce ainda não foi recuperada

*Por Ana Ionova

As águas do Rio Doce ainda apresentam uma cor marrom-avermelhada e turva a poucos metros da casa de Adomilson Costa de Souza. Até novembro de 2015, o rio era fonte de alimento e renda para ele. Agora, é uma lembrança diária do desastre que mudou sua vida. “Eu sempre vivi do Rio Doce. Qualquer peixe que eu pescava, vendia na porta de casa.”

Na maior parte do ano, Adomilson pescava em torno de 100 quilos de peixe por mês, vendendo-os a clientes que vinham de todos os cantos, alguns até mesmo percorrendo centenas de quilômetros em busca do produto fresco. Às margens do rio, ele criava animais e tinha uma plantação de bananas. A maioria de seus vizinhos no distrito de Pedra Corrida, em Minas Gerais, vivia da mesma forma. “Para nós, que nascemos aqui, o rio era tudo. Mas então veio a tragédia.”

A tragédia é o vazamento de milhões de toneladas de lama tóxica de uma barragem de rejeitos de mineração que se rompeu 300 quilômetros rio acima de Pedra Corrida. O desastre matou 19 pessoas soterradas no subdistrito de Bento Rodrigues e teve um impacto negativo em 39 municípios de dois estados. Os rejeitos da mineradora se espalharam por mais de 650 quilômetros desde sua fonte até o Oceano Atlântico.

Hoje, a calamidade é considerada o pior desastre ambiental do Brasil, e a responsabilidade pelo rompimento da barragem é atribuída diretamente à mineradora Samarco, um empreendimento conjunto entre a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton – duas das maiores mineradoras do mundo – e às falhas de regulação do governo brasileiro.

Cinco anos depois do desastre, a água da bacia do Rio Doce ainda não foi recuperada
A força assombrosa da onda de lama tóxica que atingiu Bento Rodrigues (MG) fez com que carro atravessasse casa. Samarco e alguns de seus executivos foram acusados
de homicídio, mas caso ainda não foi concluído
(Foto: Romerito Pontes, sob licença Creative Commons / Attribution 2.0 Generic license)

As cicatrizes na paisagem ribeirinha

Nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a lama vermelha arrasou vilarejos, destruiu casas e contaminou o Rio Doce, o mais importante da região. Após a catástrofe, 11 toneladas de peixes mortos foram retirados do rio. Estima-se que 1,6 milhão de pessoas na bacia do Rio Doce tenham sofrido o impacto do desastre que destruiu a economia regional e os meios de subsistência das populações ribeirinhas.

Os impactos adversos permanecem e, mesmo hoje, uma camada espessa de lama tóxica cobre o leito do Rio Doce e as plantações e pomares às suas margens, deixando a água e a terra ao redor pintadas de marrom-avermelhado, fruto da mistura de rejeito de mineração e metais pesados.

“Foi um choque imenso para a região e a recuperação dos impactos ambientais e sociais tem sido lenta”, diz Bruno Milanez, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenador do PoEMAS, um grupo de pesquisa que estuda o impacto político, econômico, social e ambiental da mineração.

Em Pedra Corrida, as pessoas dizem que não ousam comer peixes que vêm do rio e suas plantações não produzem tanto quanto antes. Muitos dos 2.500 moradores do distrito estão sobrevivendo com um cheque mensal de assistência da Samarco, a proprietária da barragem.

O rompimento da barragem de rejeitos foi um golpe duro para Adomilson Costa de Souza. Suas bananeiras, que cresciam perto da margem do rio, diminuíram de mil para apenas 150. Gradativamente, o número de peixes no Rio Doce foi aumentando nos anos seguintes ao desastre – mas Souza e seus vizinhos não pescam mais lá. “Sempre que pegamos algum peixe do rio, está todo manchado”, diz ele. “Às vezes, você abre o peixe e ele está podre por dentro. As pessoas têm medo de comprar. Não tem mais compradores para o nosso peixe.”

Cinco anos depois do desastre, a água da bacia do Rio Doce ainda não foi recuperada
Pessoas, animais silvestres e domésticos, além de peixes, morreram quando a lama tóxica destruiu Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e outras comunidades
Foto: Romerito Pontes, sob licença Creative Commons / Attribution 2.0 Generic license.
Cinco anos depois do desastre, a água da bacia do Rio Doce ainda não foi recuperada
O novo distrito de Bento Rodrigues ainda está sendo construído pela Samarco, mais de cinco anos após o desastre (Foto: Ana Ionova)

Recuperação paralisada

Ainda não está claro o que exatamente causou o desastre, mas as autoridades mostraram, a partir de documentos internos, que a Samarco e seus proprietários sabiam que a barragem poderia romper e arrasar a região. A companhia – ainda hoje sob propriedade da Vale e da BHP Billiton – foi obrigada a pagar bilhões em limpeza ambiental e indenizações às vítimas. Vinte e uma pessoas, incluindo o CEO da Samarco, Ricardo Vescovi, também foram acusadas de crimes, inclusive de homicídio, mas os processos judiciais ainda estão correndo. No entanto, parece que a Vale não aprendeu muito com o acidente, uma vez que não preveniu o rompimento semelhante da barragem de Brumadinho, em janeiro de 2019, no qual centenas de pessoas morreram.

Enquanto isso, as indenizações demoram a chegar às vítimas do Rio Doce. A Fundação Renova, criada pela Samarco para administrar as reivindicações relacionadas ao desastre, diz que até agora destinou R$ 10 bilhões para reparações e compensações pelos danos causados pelo rompimento da barragem. Mas um relatório recente da ONU revela que a companhia estava por trás de todos os 42 projetos destinados a combater as consequências do acidente.

Marino D’Angelo Junior está entre os milhares que ainda esperam por uma indenização, passados mais de cinco anos em que a onda de lama tóxica varreu a maior parte de Paracatu de Baixo, o distrito no qual ele viveu toda sua vida. A casa de Mariano foi uma das poucas que não acabou destruída pela onda de lama, mas suas terras foram submersas pelo lodo e suas plantações destruídas. “Quando olhei pela janela da sala, parecia que eu estava na lua: a paisagem era só lama. Nós sempre vivemos da terra. O desastre acabou com tudo.”

Antes do colapso da barragem, D’Angelo ganhava a vida criando vacas leiteiras. Ele vendia o leite por meio de uma associação de produtores que ele mesmo liderava e os negócios iam muito bem: a produção do grupo tinha aumentado de 400 litros por dia para 10 mil litros por dia em pouco mais de uma década. “Nós conseguíamos ganhar mais, colocar mais dinheiro no bolso”, diz D’Angelo. “Então o rompimento da barragem destruiu metade das propriedades de nossos produtores. Acabou com tudo.”

Cinco anos depois do desastre, a água da bacia do Rio Doce ainda não foi recuperada
Marta de Jesus mostra foto do neto, que ficou doente três anos depois do rompimento da barragem que despejou 90 milhões de toneladas de rejeitos tóxicos de mineração. Sua casa, em Paracatu de Baixo, foi destruída se rompeu. Vítimas do distrito ainda não foram acomodadas em novas moradias (Foto: Ana Ionova)

Riscos de longo prazo

Com o passar dos anos, aumentam os temores dos moradores sobre os impactos de longo prazo à saúde causados pelo lodo de resíduos da mineração que ainda polui o Rio Doce e cobre terras antes férteis. A Fundação Renova alega que a água e o solo da região não estão mais contaminados, mas os moradores nas comunidades afetadas dizem que sua saúde está se deteriorando e que estão ficando doentes desde o desastre.

Estudos parecem corroborar essas alegações. No distrito de Barra Longa (MG), que foi bastante atingido, 77,9% dos moradores relataram problemas de saúde sem razão aparente desde o desastre, incluindo dores de cabeça, tosse, dor nas pernas e reações alérgicas. “Quem mora aqui não bebe essa água e não come nada que seja produzido na região”, diz Adomilson, referindo-se à comunidade de Pedra Corrida. “Então não adianta dizer que está tudo bem, eles não vão convencer a comunidade.”

Em Paracatu de Baixo, o rompimento da barragem foi um golpe duplo para Maria de Jesus Arcanjo Peixoto. A onda de lama varreu o bairro onde ela e sua família moravam há gerações, reduzindo sua casa a escombros e cobrindo com uma espessa camada de rejeito de mineração as terras onde ela criava vacas leiteiras. “As plantações não crescem mais como antes”, aponta, enquanto caminha em meio à lama vermelha que ainda cerca a carcaça de concreto que antes era sua casa. “A terra foi arruinada. É tudo lama agora.”

Dois anos atrás, um segundo desastre atingiu sua família: uma doença misteriosa atacou os pulmões de seu neto e o deixou preso a uma cadeira de rodas. “Até agora, os médicos não encontraram nada”, diz Maria de Jesus. “Ele tinha três meses quando a barragem rompeu. E toda a comida, o leite, o alimento das vacas – tudo vinha da lama.”

O neto não consegue caminhar, vítima de uma doença ainda não diagnosticada
(Foto: Ana Ionova)

A Fundação Renova diz que o tratamento extensivo do Rio Doce ajudou a restaurar a qualidade da água, que agora é “similar a antes do rompimento da barragem”. A fundação diz que coleta três milhões de unidades de dados em 92 estações de monitoramento ao longo do rio, e que esses dados não mostram traços de metais pesados ou elementos tóxicos na água.

Contudo, um relatório recente de uma agência ambiental do governo, que ainda não foi publicado, mas ao qual a Mongabay obteve acesso a partir de uma fonte anônima, revela níveis elevados de uma série de metais no Rio Doce e em suas margens, e pede mais monitoramento da água e do solo da região.

Embora a Renova tenha gastado dinheiro para tratar da contaminação do Rio Doce, a maior parte das ações da fundação financiada pela indústria tem sido de “esforços paliativos” focados em monitorar a qualidade da água em vez de tratar o rio, de acordo com Milanez, da Universidade Federal de Juiz de Fora.

“Eles estão colocando muito dinheiro nessas medições”, diz o pesquisador. “Mas, no fim das contas, as pessoas ainda estão expostas e os peixes ainda estão contaminados. Pode estar melhorando, mas é seguro? Esta é a grande questão.”

O Rio Gualaxo do Norte, afluente do Rio Doce, no distrito de Mariana (MG), é o palco de um projeto piloto que utiliza vegetação nativa para o tratamento de suas águas (Foto: Ana Ionova)

Novo caminho e nova esperança

As águas marrons do Rio Gualaxo do Norte atravessam suavemente os escombros de Bento Rodrigues – o distrito que ficava logo abaixo da barragem de rejeitos. O lugar foi totalmente destruído pelo rompimento da barragem, que matou 19 moradores e fez o restante fugir para terras mais altas pouco antes da torrente de lama avançar. A Samarco realojou todos os moradores sobreviventes, embora as memórias traumatizantes que eles carregam do dia 5 de novembro de 2015 permaneçam.

Agora, uma startup local decidiu limpar o Rio Gualaxo do Norte, alimentando a esperança de que pelo menos alguns danos ambientais locais possam ser revertidos.

Um projeto piloto financiado pela Renova está usando vegetação nativa e naturalizada para tratar a água e regenerar a vida aquática no Gualaxo, um dos maiores afluentes do Rio Doce. A mesma tecnologia já foi implementada com sucesso em outros lugares, inclusive em Londres, onde ajudou a limpar o Rio Tâmisa. Agora, ela está sendo testada em Mariana com a esperança de que possa ser usada para limpar a bacia do Rio Doce.

“O impacto [do rompimento da barragem] foi gigantesco sobre todo o ambiente aquático”, diz William Pessôa, diretor-executivo e fundador da LiaMarinha, a startup que desenvolveu a tecnologia de limpeza e que vem tocando o projeto desde agosto de 2020. “Mas a natureza tem essa capacidade de se regenerar. Nosso objetivo é ajudar a natureza a passar por esse processo mais rapidamente.”

O projeto ainda está no início, mas já há sinais de que as plantas estão ajudando a reduzir as partículas de metais pesados e a turbidez das águas, tornando-as mais claras e menos poluídas. “Hoje, a água já melhorou bastante”, diz Pessôa. “E vemos que tem potencial para melhorar muito mais.”

As comunidades estão encontrando outros caminhos inovadores para a recuperação. Em Pedra Corrida, Adomilson tem atuado em um pequeno projeto de aquicultura nos últimos três anos. Ele e outros pescadores, que antes tiravam o sustento do Rio Doce, agora criam alevinos em piscinas despoluídas até que os peixes cresçam o suficiente para serem vendidos.

“Hoje estamos criando nossos próprios peixes e vivemos com a renda da venda”, diz. “E soltamos alguns peixes no rio. Agora podemos devolver à natureza, em vez de tirar dela”. Por meio do programa socioeconômico, Adomilson conseguiu repor sua antiga renda, dizimada pelo rompimento da barragem. Agora, ganha cerca de R$ 2 mil por mês com o trabalho na aquicultura.

A Fundação Renova também lidera um projeto maior de pesca, com o objetivo de replicar esses resultados e ampliar o acesso da comunidade à aquicultura – ação bem recebida pelos moradores, que ainda sentem os terríveis impactos do desastre ambiental. Para Adomilson, que está ajudando a expandir o projeto de aquicultura, a esperança é que ele atinja mais pessoas em sua comunidade, dando-lhes a mesma chance de reconstruir suas vidas.

Imagem no Banner: O rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco, cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP, causou uma enxurrada de lama que inundou várias casas no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais. Foto: Rogério Alves / TV Senado.

Marta de Jesus segura únicas fotos de casamento que conseguiu salvar antes que sua casa fosse varrida pelo lodo tóxico da mineração (Foto: Ana Ionova)

*Texto publicado originalmente em 06/01/21 no site do Mongabay Brasil

Foto: Rogério Alves / TV Senado (abertura)

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Agência de notícias sem fins lucrativos que visa aumentar o interesse e a valorização de terras e animais selvagens, ao examinar o impacto das tendências emergentes no clima, na tecnologia, na economia e nas finanças em conservação e desenvolvimento. Seu objetivo é inspirar, educar e informar

Mais de 50 países formam coalizão para proteger áreas terrestres e oceanos do planeta, mas Brasil fica de fora

 

Mais de 50 países formam coalizão para proteger áreas terrestres e oceanos do planeta, mas Brasil fica de fora

Mais de 50 países formam coalizão para proteger áreas terrestres e oceanos do planeta, mas Brasil fica de fora

Líderes de vários países se reuniram, presencialmente ou virtualmente, na última segunda-feira (11/01) no One Planet Summit, em Paris, para discutir questões como a crise da biodiversidade e a relação entre a saúde humana e a natureza. O presidente francês, Emmanuel Macron, presidiu o evento, que contou com a participação do primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel e o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau.

Durante o encontro, mais de 50 países anunciaram a formação da High Ambition Coalition (HAC) for Nature and People, uma coalizão internacional que se compromete a proteger, até 2030, pelo menos 30% das áreas terrestres e dos oceanos do planeta.

O grupo é liderado pela Costa Rica, Reino Unido e França. O objetivo principal é deter o avanço da extinção de espécies e da degradação de ecossistemas.

“A proteção de 30% do planeta, sem dúvida, melhorará a qualidade de vida dos cidadãos e nos ajudará a alcançar uma sociedade justa, descarbonizada e resiliente. A cura e a recuperação da natureza representam um passo importante para o bem-estar do ser humano, criando milhões de empregos verdes e azuis de qualidade e cumprindo a agenda de 2030, especialmente no que tange a nossos esforços de recuperação sustentável”, diz Andrea Meza, Ministra do Meio Ambiente e Energia da Costa Rica.

O Brasil não aparece na lista dos países que aderiram ao pacto, apesar de vários de seus vizinhos sul-americanos terem assinado o compromisso, como Chile, Colômbia, Equador e Peru.

“O Brasil foi convidado a aderir ao HAC – todos os 190 países signatários da Convenção sobre Diversidade Biológica são incentivados a aderir. Outros países estão em vários estágios de discussão para aderir ao pacto, mas o Brasil provavelmente não entrará neste momento”, revelou Susan Tonassi, assessora de comunicação da coalizão.

Infelizmente, cada vez mais nosso país se torna um pária na questão ambiental, bem diferente do seu papel de liderança exercido no passado.

Em outubro, por exemplo, o Brasil não assinou um compromisso global para reverter a perda da biodiversidade. Durante o United Nations Summit on Biodiversity, Encontro das Nações Unidas pela Biodiversidade, líderes de 76 países, além das nações da União Europeia, referendaram um compromisso que estabelecia ações urgentes, como o combate ao descarte de plástico, a implementação de políticas baseadas na ciência e o reconhecimento do papel crucial da sabedoria tradicional e indígena. O governo de Jair Bolsonaro preferiu ficar de fora.

Não há compromisso financeiro exigido aos países participantes da High Ambition Coalition for Nature and People. No entanto, as nações concordam em se reunir ao longo do próximo ano e, juntas, se engajarem em ações que vão desde a assinatura de declarações até a realização de coletivas de imprensa e o recrutamento de vários países.

Entre os principais pilares da iniciativa estão a gestão sustentável, novas metas para a proteção da biodiversidade, melhoria na administração de áreas protegidas já existentes e aumento de financiamentos, seja pelo poder público ou pelo setor privado.

Por que 30%?

Nas últimas décadas, milhares de plantas, insetos, aves, mamíferos, répteis e anfíbios sumiram do planeta. Simplesmente deixaram de existir. De acordo com historiadores, a Terra já passou por cinco grandes períodos de extinção. No último deles, o choque de um meteoro gigante teria provocado a morte dos dinossauros.

Mas cientistas já consideram o que está acontecendo nos dias de hoje como uma nova onda de extinção em massa.

Atualmente apenas 15% das áreas terrestres do planeta e 7% dos oceanos estão protegidas. E evidências científicas indicam que uma forma de evitar a crise da extinção em massa implica na proteção de, no mínimo, 30% do planeta até 2030.

Já pelo lado econômico, um estudo recente da consultoria McKinsey concluiu que a preservação de 30% das terras e pelo menos 30% dos oceanos do planeta poderiam criar até 650 mil novs empregos e manteriam outros 30 milhões nas áreas de ecoturismo e pesca sustentável.

“Temos uma oportunidade ímpar na Conferência sobre Biodiversidade deste ano, que será realizada na China, de elaborar um acordo para proteger pelo menos 30% das terras e oceanos do mundo até 2030. Tenho esperança de que nossa ambição conjunta impeça o declínio global do ambiente natural, crucial para a sobrevivência do nosso planeta”, destaca Zac Goldsmith, ministro do Meio Ambiente do Reino Unido.

Países membros da Coalizão

Alemanha
Angola
Armênia
Benin
Botswana
Canadá
Chile
Colômbia
Costa Rica
Costa do Marfim
República Tcheca
República Democrática do Congo
Dinamarca
República Dominicana
Emirados Árabes Unidos
Equador
Eslováquia
Eslovênia
Espanha
Etiópia
Comissão Europeia
Finlândia
França
Gabão
Grécia
Granada
Guatemala
Irlanda
Itália
Luxemburgo
Japão
Quênia
Ilhas Marshall
México
Mônaco
Mongólia
Moçambique
Holanda
Nicarágua
Nigéria
Paquistão
Panamá
Peru
Portugal
Reino Unido
Romênia
Ruanda
Senegal
Seychelles
Suíça
Uganda

———————————————————————————————————

*Texto atualizado às 13h12 para incluir informação da assessoria de imprensa da High Ambition Coalition for Nature and People sobre a participação do Brasil no pacto.

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Foto: Andreas Gücklhorn on Unsplash

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Em meio a altas históricas no desmatamento, ministério do Meio Ambiente tem o menor orçamento em 21 anos

 

Em meio a altas históricas no desmatamento, ministério do Meio Ambiente tem o menor orçamento em 21 anos

Em meio a altas históricas no desmatamento, ministério do Meio Ambiente tem o menor orçamento em 21 anos

O orçamento proposto pelo governo para o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e órgãos vinculados para 2021 é o mais baixo desde, pelo menos, o fim do século passado. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) deste ano, que será analisado pelo Congresso em fevereiro, prevê R$ 1,72 bilhão para todas as despesas do MMA, inclusive as obrigatórias.

Na série histórica, desde o ano 2000, o montante autorizado nunca foi menor do que R$ 2,9 bilhões, em valores atualizados pelo IPCA (índice de preços considerado oficial pelo governo federal). Os dados são de uma análise inédita do Observatório do Clima.

O relatório “Passando a Boiada”, lançado nesta sexta-feira (22/1), analisa o segundo ano de desmonte ambiental do governo de Jair Bolsonaro, com dados de 2020. E mostra que as promessas feitas pelo atual presidente na campanha eleitoral de 2018 — de acabar com o ativismo ambiental e fechar o MMA — estão sendo cumpridas à risca.

Apesar de dois anos consecutivos de aumento do desmatamento e das queimadas, o governo inicia 2021 com uma redução de 27,4% no orçamento para fiscalização ambiental e combate a incêndios florestais, considerando Ibama e Instituto Chico Mendes. A atual administração aprofundou em 2020 o desmonte das estruturas de proteção socioambiental do Estado brasileiro, eliminando regulamentações e abdicando da gestão ambiental.

O corte de recursos se soma a medidas como a flexibilização do controle da exportação de madeira, o loteamento de cargos nos órgãos ambientais com policiais militares e a proposta de extinção do Instituto Chico Mendes. Ao mesmo tempo, houve um esforço de relações-públicas de resultados pífios ao entregar também a Amazônia — além da saúde, da articulação política e de diversas outras áreas da gestão estatal — aos militares. A boiada, porém, tem encontrado a resistência de instituições, da sociedade civil e da comunidade internacional.

“O relatório mostra que, nos últimos dois anos, a pauta ambiental e climática no Brasil sofreu retrocessos inimagináveis e em escala assustadora. Bolsonaro adotou a destruição do meio ambiente como política e sabotou os instrumentos de proteção dos nossos biomas, sendo responsável diretamente pelo aumento das queimadas, do desmatamento e das emissões nacionais. A situação é dramática, porque o governo federal, que é quem poderia trabalhar soluções para esse cenário, hoje é o foco do problema”, analisa Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima.

“O governo Bolsonaro colocou em prática suas promessas de campanha em relação à política ambiental. O Ministério do Meio Ambiente/Administração Direta se apequenou como produtor de políticas públicas e, atualmente, gere valores irrisórios que nem justificam sua própria existência. O Ibama está fragilizado e deslegitimado pela narrativa do próprio presidente da República e de outras autoridades. Além disso, há evidências de que o Instituto Chico Mendes tende a ser extinto ainda no primeiro semestre deste ano, em retrocesso que não podemos deixar ocorrer. É um projeto de destruição que está sendo concretizado”, destaca Suely Araújo, especialista sênior em Políticas Públicas Observatório do Clima.

Abaixo, destaques do relatório, que pode ser acessado na íntegra aqui.

• Análise histórica de todo o orçamento disponível (obrigatório e discricionário) para a área ambiental (MMA e entidades vinculadas) revela que os gastos previstos para 2021 (R$ 1,72 bilhão) são os menores em duas décadas.

• Análise do Ploa encaminhado pelo governo ao Congresso mostra queda de 27,4% no orçamento federal para fiscalização ambiental e combate a incêndios florestais na comparação com o que foi autorizado em 2020. A queda é maior em relação a 2019: 34,5%.

• O orçamento proposto para 2021 reafirma a estratégia da atual gestão de continuar sufocando a fiscalização do Ibama e, na prática, acabar com o ICMBio: houve corte de 61,5% dos recursos previstos especificamente para criação e gestão de unidades de conservação na comparação com o orçamento autorizado em 2018.

• O total de multas aplicadas pelo Ibama em 2020 também foi o menor em duas décadas: houve queda de 20% na comparação com o ano anterior e de 35% em relação a 2018 (governo Temer).

• O novo aumento do desmatamento — 9,5% em 2020, depois de ter subido 34% em 2019 — coincide com uma queda de 42% das multas por infrações contra a flora nos nove Estados da Amazônia Legal.

• O discurso anti-indígena repercutiu no campo, especialmente na Amazônia: as invasões de terras indígenas cresceram 135% em 2019. Foram registrados 256 casos, segundo o Conselho Indigenista Missionário.

• Pelo menos 18 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo em 2020, de acordo com levantamento da Comissão Pastoral da Terra.

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Imagem: divulgação Observatório do Clima

Uma das mais importantes revistas científicas do mundo, Science destaca ameaça de decreto do governo a espécies aquáticas brasileiras

 

Uma das mais importantes revistas científicas do mundo, Science destaca ameaça de decreto do governo a espécies aquáticas brasileiras

Uma das mais importantes publicações científicas do mundo, Science destaca ameaça de decreto do governo a espécies aquáticas brasileiras

Novamente o Brasil ganha a atenção mundial de forma negativa. Uma das mais renomadas e respeitadas publicações científicas internacionais, a Science destacou o novo decreto do Governo Federal que ameaça a diversidade de espécies aquáticas brasileiras.

Na edição divulgada hoje, a revista incluiu em sua sessão de cartas o alerta enviado por diversos pesquisadores brasileiros sobre o risco da produção da tilápia no país.

“Mais uma vez, o governo brasileiro está ameaçando a biodiversidade nativa ao facilitar o cultivo de espécies exóticas invasoras. A Secretaria da Pesca anunciou recentemente um decreto para impulsionar a aquicultura, implementando a criação da tilápia do Nilo em 60 dos 73 reservatórios do Brasil”, denunciam os cientistas.

A tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) é uma espécie exótica invasora, originária da África, e que foi introduzida no Brasil por volta da década de 30.

“Os políticos estão contando com a ideia equivocada de que se a tilápia do Nilo escapar, peixes selvagens iriam atacá-la e elas não se reproduziriam nas profundezas dos reservatórios. No entanto, há muitas evidências mostrando que uma vez que a tilápia do Nilo escapa, sobrevive, reproduz, estabelece populações e provoca danos ambientais”, alertam os pesquisadores brasileiros.

Uma das mais importantes publicações científicas do mundo, Science destaca ameaça de decreto do governo a espécies aquáticas brasileiras

Carta publicada na Science

Cultivo de espécies exóticas no Brasil

Falamos sobre este assunto em dezembro aqui no Conexão Planeta. O decreto exclui ainda o Ibama dos processos para a permissão de criação de peixes em “corpos d’água da União”.

O anúncio causou preocupação e alarde entre especialistas do setor. “O decreto é um absurdo e criminoso do ponto de vista ambiental e da biosegurança e biodiversidade aquática”, afirma o biólogo Jean Vitule, professor de Ecologia do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e um dos autores da carta publicada agora pela Science.

O biólogo destaca que existem centenas de trabalhos científicos que relatam os impactos de tilápias em ecossistemas naturais, não só para os organismos aquáticos, mas a eutrofização de águas (aumento de nutrientes, especialmente fósforo e nitrogênio, o que provoca surgimento excessivo de organismos como algas e cianobactérias) e até, transmissões de doenças como cólera, para humanos. “No Nordeste onde as tilápias existem há anos já existem claras evidências de impactos”, alerta.

“É o Ibama que avalia e faz os termos de referências sobre análises de impactos e viabilidade para o meio ambiente, além de avaliações técnicas sobre impactos em organismos nativos e ecossistemas e fiscalizar se a lei está sendo cumprida ou não”, diz.

Vitule ressalta ainda que o cultivo de organismos não nativos vai contra tratados internacionais de biodiversidade, dos quais o Brasil é signatário.

Já existe uma petição online que pede a revogação do decreto. Assine já aqui!

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Foto: domínio público/pixabay

Orçamento do Meio Ambiente é o menor do século

 

Orçamento do Meio Ambiente é o menor do século

desmatamento e queimada na Amazônia
Foto de arquivo

Orçamento do Meio Ambiente é o menor do século

Análise do Observatório do Clima mostra que proposta orçamentária para 2021, a mais baixa do século para a pasta, coroa estratégia de desmonte ambiental do governo Bolsonaro.

Por Solange A. Barreira

O orçamento proposto pelo governo para o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e órgãos vinculados para 2021 é o mais baixo desde, pelo menos, o fim do século passado. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) deste ano, que será analisado pelo Congresso em fevereiro, prevê R$ 1,72 bilhão para todas as despesas do MMA, inclusive as obrigatórias. Na série histórica, desde o ano 2000, o montante autorizado nunca foi menor do que R$ 2,9 bilhões, em valores atualizados pelo IPCA (índice de preços considerado oficial pelo governo federal). Os dados são de uma análise inédita do Observatório do Clima.

O relatório “Passando a Boiada”, lançado nesta sexta-feira (22/1), analisa o segundo ano de desmonte ambiental do governo de Jair Bolsonaro, com dados de 2020. E mostra que as promessas feitas pelo atual presidente na campanha eleitoral de 2018 — de acabar com o ativismo ambiental e fechar o MMA — estão sendo cumpridas à risca.

Apesar de dois anos consecutivos de aumento do desmatamento e das queimadas, o governo inicia 2021 com uma redução de 27,4% no orçamento para fiscalização ambiental e combate a incêndios florestais, considerando Ibama e Instituto Chico Mendes. A atual administração aprofundou em 2020 o desmonte das estruturas de proteção socioambiental do Estado brasileiro, eliminando regulamentações e abdicando da gestão ambiental.

O corte de recursos se soma a medidas como a flexibilização do controle da exportação de madeira, o loteamento de cargos nos órgãos ambientais com policiais militares e a proposta de extinção do Instituto Chico Mendes. Ao mesmo tempo, houve um esforço de relações-públicas de resultados pífios ao entregar também a Amazônia — além da saúde, da articulação política e de diversas outras áreas da gestão estatal — aos militares. A boiada, porém, tem encontrado a resistência de instituições, da sociedade civil e da comunidade internacional.

“O relatório mostra que, nos últimos dois anos, a pauta ambiental e climática no Brasil sofreu retrocessos inimagináveis e em escala assustadora. Bolsonaro adotou a destruição do meio ambiente como política e sabotou os instrumentos de proteção dos nossos biomas, sendo responsável diretamente pelo aumento das queimadas, do desmatamento e das emissões nacionais. A situação é dramática, porque o governo federal, que é quem poderia trabalhar soluções para esse cenário, hoje é o foco do problema”, analisa Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima.

“O governo Bolsonaro colocou em prática suas promessas de campanha em relação à política ambiental. O Ministério do Meio Ambiente/Administração Direta se apequenou como produtor de políticas públicas e, atualmente, gere valores irrisórios que nem justificam sua própria existência. O Ibama está fragilizado e deslegitimado pela narrativa do próprio presidente da República e de outras autoridades. Além disso, há evidências de que o Instituto Chico Mendes tende a ser extinto ainda no primeiro semestre deste ano, em retrocesso que não podemos deixar ocorrer. É um projeto de destruição que está sendo concretizado”, destaca Suely Araújo, especialista sênior em Políticas Públicas Observatório do Clima.

Abaixo, destaques do relatório, que pode ser acessado na íntegra aqui.

• Análise histórica de todo o orçamento disponível (obrigatório e discricionário) para a área ambiental (MMA e entidades vinculadas) revela que os gastos previstos para 2021 (R$ 1,72 bilhão) são os menores em duas décadas.

• Análise do Ploa encaminhado pelo governo ao Congresso mostra queda de 27,4% no orçamento federal para fiscalização ambiental e combate a incêndios florestais na comparação com o que foi autorizado em 2020. A queda é maior em relação a 2019: 34,5%.

• O orçamento proposto para 2021 reafirma a estratégia da atual gestão de continuar sufocando a fiscalização do Ibama e, na prática, acabar com o ICMBio: houve corte de 61,5% dos recursos previstos especificamente para criação e gestão de unidades de conservação na comparação com o orçamento autorizado em 2018.

• O total de multas aplicadas pelo Ibama em 2020 também foi o menor em duas décadas: houve queda de 20% na comparação com o ano anterior e de 35% em relação a 2018 (governo Temer).

• O novo aumento do desmatamento — 9,5% em 2020, depois de ter subido 34% em 2019 — coincide com uma queda de 42% das multas por infrações contra a flora nos nove Estados da Amazônia Legal.

• O discurso antiindígena repercutiu no campo, especialmente na Amazônia: as invasões de terras indígenas cresceram 135% em 2019. Foram registrados 256 casos, segundo o Conselho Indigenista Missionário.

• Pelo menos 18 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo em 2020, de acordo com levantamento da Comissão Pastoral da Terra.

Sobre o Observatório do Clima: rede formada em 2002, composta por 56 organizações da sociedade civil. Atua para o progresso do diálogo, das políticas públicas e dos processos de tomada de decisão sobre mudanças climáticas no país e globalmente. Site: www.oc.eco.br

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/01/2021

 

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