Silas Malafaia e Jean Wyllys (Fotos: Estadão Conteúdo)
Eles
devem ter vinte e poucos anos, vestem camisas xadrezes e tênis all star
esgarçados, cultivam barbas à la Rasputin. No intervalo entre um beijo e
outro, se distraem com seus notebuques customizados. Nada do que eu
disser irá interessá-los. Posso cantar o hino à Bandeira, comer ranho e
atear fogo em Roma. Nem eu, nem qualquer outro escritor que passe de
duzentos e quarenta caracteres tem o poder de dizer qualquer coisa que
desperte o interesse do casal de barbudinhos - que se beija
voluptuosamente logo à minha frente. O restaurante está lotado.
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Uma senhora interrompe o idílio do casal de barbudinhos.
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Creio que só existe um livro capaz de subverter a modorra, de gerar
desconfiança e fazer “ouvir uma dúvida”. Ou seja, provocar atritos e
deslocamentos e, em última análise, chamar a atenção do casal de
barbudinhos. Foi a conclusão que cheguei depois de presenciar a cena
que, daqui a pouco, pretendo dichavar para vocês.
O mais assustador, porém, é que as mensagens desse livro não primam
exatamente pela tolerância e nem são muito conciliadoras, ao contrário: o
conteúdo é confuso, repulsivo, ameaçador, beligerante e nitidamente
anti-barbudinhos apaixonados.
Antes de contar o que presenciei, me ocorre o seguinte: desde a
gênese a Bíblia foi pensada para a tecnologia de nossos dias. A maior
parte dos seus versículos conta menos de 240 caracteres. Todos nós que
temos uma conta no tuíter (menos eu) estamos – inopinadamente -
reescrevendo o livro sagrado. Não vai demorar muito para chegarmos ao
apocalipse.
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Aos fatos.
A senhora a que me referi acima dirige-se à mesa dos barbudinhos, e
os reprime citando Coríntios, 6:17: “Não sejais desencaminhados. Nem
fornicadores, nem homens mantidos para propósitos desnaturais..."
Os meninos recorrem ao gerente do estabelecimento. O gerente pede
para eles respeitarem a senhora, que continua vociferando: "nem homens
que se deitem com homens, nem ladrões, nem gananciosos, nem beberrões,
nem injuriadores herdarão o reino de Deus". O barbudinho nº1 liga para a
polícia.
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Um
livro que contém a palavra de Deus, seguramente tem a participação do
seu inimigo mais amado, Satã. Daí o sucesso milenar, eu acho.
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Nos últimos anos, diferentemente da manisfestação de junho do ano
passado que se dissipou em várias outras e virou coisa nenhuma, as
paradas gay e neo-evangélicas arrastaram multidões que continuam na
ativa – sem contar os passivos, os enrustidos e os infiltrados, de ambos
os lados. Se nos últimos dez anos, o gado aparentemente era pacífico e
estava sob controle, hoje, a coisa mudou.
O botão do Start nunca deu tanta sopa.
Quem acompanhou os tuiters de Silas Malafaia e Jean Wyllys na infeliz
campanha presidencial de outubro sabe do que eu estou falando.
Não adianta nada invocar a legalidade, a paz, o amor e a tolerância
se, no frigir da omelete, tanto o pastor como o deputado, oferecem a
milhares de seguidores hostilidade e ódio recíprocos.
Malafaia e Wyllys se opõem furiosamente um ao outro, e os seus
respectivos rebanhos refletem essa fúria nas ruas, nas redes sociais,e
nos bares & restaurantes que eu tenho a infelicidade de frequentar.
Quando os dois lados tem razão e não abrem mão dela em nome de Deus ou
em nome da Purpurina, a resolução ou o único termo a que podem chegar é a
guerra.
Falta pouco para o final da picada, quando, por um descuido ou uma
fagulha qualquer, as duas forças ( aqui não me interessa saber quem está
do lado do "bem" ou do "mal", estou apenas conjecturando sobre o final
da picada) chegarão às vias de fato. Se um dos lados não abrir mão das
fundamentais certezas - creio que não abrirá - o primeiro arquiduque que
vacilar muito em breve será sacrificado. Vai pra caçapa outra vez.
E aí, bem, aí eu não vou dizer
mais nada, ou seja, minha impotência - a mesma que me paralisou quando o
barbudinho nº 2 avançou na direção do pescoço da inconveniente senhora,
e disse: "limpo meu rabo cheio de porra com sua bíblia, crente de
merda" - enfim, minha impotência será refletida no destino de quem,
hoje, me ignora porque eu falo demais, sou preconceituoso e "julgo" por
antecipação.
Eu? Ora, logo eu?