sábado, 21 de agosto de 2021

Queimadas e secas frequentes ameaçam a capacidade de recuperação do Pantanal

 

Queimadas e secas frequentes ameaçam a capacidade de recuperação do Pantanal



 

queimada no Pantanal
Foto: © 09.09.2020/Mayke Toscano/Secom-MT

Queimadas e secas frequentes ameaçam a capacidade de recuperação do Pantanal

Um estudo estima que quase 60% dos 22 mil focos de queimadas detectados pelo Inpe no Pantanal em 2020 foram provocadas por atividades agropastoris

Por WWF Brasil

Com a seca extrema enfrentada pelo Pantanal em 2021, o fogo já começa a preocupar especialistas. Embora o número de queimadas no primeiro semestre ainda seja bem mais baixo que no mesmo período do ano passado, o bioma está enfrentando uma estiagem ainda mais severa, que deixa a comunidade científica em alerta para evitar que se repita a tragédia de 2020. Depois de uma temporada excepcionalmente seca em 2019, os incêndios bateram recordes inimagináveis no ano passado, produzindo a maior devastação já registrada na história do Pantanal.

O fogo provocado pela estiagem faz parte da dinâmica natural do bioma, cujo equilíbrio depende da alternância entre períodos de alagamento e de seca. As espécies que prosperam na temporada úmida têm estratégias que lhes permitem sobreviver à estação seca, recuperando rapidamente o espaço perdido quando cessam as queimadas e voltam as chuvas. Mas esse ciclo de regeneração natural pode ser comprometido, alertam especialistas, caso queimadas tão intensas quanto as de 2020 ocorram por anos consecutivos – um risco bastante real, considerando as mudanças climáticas.

Um estudo feito pelos Ministérios Públicos de Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso estima que quase 60% dos 22 mil focos de queimadas detectados pelo Inpe no Pantanal em 2020 foram provocadas por atividades agropastoris. O ano passado foi especialmente catastrófico para o bioma porque o número de focos superou a soma de 2019, 2018 e 2017. Nunca se viu nada igual. Até então, o recorde, alcançado em 2005, era de 12,5 mil focos.

A área afetada pelo fogo em 2020 também não tem precedentes: mais de 40 mil km² ou mais de 27% da cobertura vegetal do bioma no Brasil. O recorde anterior havia sido também em 2005, quando 27 mil km² foram destruídos. O impacto na fauna ainda não foi inteiramente mensurado, mas estimativas realizadas ainda no auge das queimadas do ano passado sugeriam que, em setembro, o fogo já havia atingido ao menos 65 milhões de animais vertebrados e 4 bilhões de invertebrados.

Mesmo após um impacto dessa magnitude, de acordo com especialistas, o Pantanal tem grande capacidade de regeneração – ao menos em algumas partes do bioma, que tem ambientes com características muito diversas, como explica Christine Strüssmann, professora de Ecologia e Conservação da Biodiversidade da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). “A fauna do Pantanal tem grande capacidade de recuperação em alguns ambientes, como as áreas de campo inundável, que são sujeitas anualmente aos ciclos de cheias e seca acompanhada de fogo. Ali, a fauna se regenera com muita rapidez. Em outras áreas que não estão sujeitas ao fogo recorrente, como as matas ciliares, dificilmente haverá recuperação”, diz.

Segundo ela, muitos animais têm estratégias para escapar, mesmo onde há o chamado “fogo subterrâneo”, que arde sob a cobertura de turfa quando as chamas já parecem ter cessado. Christine relata que é comum observar roedores em atividade dentro de buracos onde o chão ainda está fumegante – um exemplo dessas estratégias. Ainda assim, uma enorme quantidade de animais não resiste.

“O problema é que o tempo de duração do fogo foi muito grande em algumas áreas e, nesses casos, tanto a fauna quanto a flora têm mais dificuldades de recuperação. Nos campos inundáveis, logo após os incêndios, observamos intensa atividade de peixes, sapos e caranguejos. Mas em cada área do bioma a resposta é diferente”, afirma a professora.

Impactos na fauna. Christine coordenou uma das equipes de campo que realizou o primeiro  grande inventário sobre a magnitude do impacto das queimadas de 2020 na fauna vertebrada pantaneira. O trabalho, resultado de uma parceria entre diversas instituições de pesquisa que atuam no Pantanal – incluindo a UFMT, que teve apoio do WWF-Brasil –, permitiu estimar a mortalidade de animais em grandes áreas do Pantanal logo após a passagem do fogo.

“Várias equipes de pesquisadores percorreram longos trechos atingidos por queimadas, em áreas que vão do norte do Pantanal ao Mato Grosso do Sul, contando e registrando as carcaças de animais mortos, em períodos de 24 a 48 horas após a passagem do fogo”, explica Christine.

Nunca havia sido realizado um estudo dessa magnitude, com uma metodologia única, em uma área tão grande do Pantanal, salienta ela. Esse trabalho é importante também porque fornece uma base para que novas pesquisas possam revelar a dimensão do impacto global do fogo no ecossistema. Embora a falta de dados prévios impeça uma análise precisa dos impactos sofridos pela fauna em 2020, os pesquisadores verificaram que algumas populações foram mais atingidas.

“O número de serpentes que conseguimos ver foi maior que dos outros grupos. Não temos uma base prévia para comparação – e as populações de serpentes podem ser muito maiores que as de outros grupos. Porém, mesmo entre as serpentes, o impacto foi desigual. As aquáticas foram especialmente atingidas”, afirma.

De acordo com o estudo, a taxa de mortalidade foi alta principalmente entre os répteis, concentrando mais de 79% do total de animais mortos. Destes, mais de 95% eram serpentes, sendo que 97% delas eram aquáticas. Os mamíferos foram pouco mais de 15% do total e os anfíbios, 4%. O número de aves mortas encontradas foi baixo.

De acordo com a bióloga Paula Valdujo, especialista em conservação do WWF-Brasil que acompanhou a realização do estudo, a grande diversidade de ambientes do Pantanal, com determinadas espécies adaptadas a cada um deles, ajuda a explicar o impacto heterogêneo.

“Áreas que nos anos anteriores ficaram submersas estão expostas por conta da estiagem. O Pantanal tem grande abundância de espécies aquáticas e semiaquáticas de vertebrados, que foram as mais impactadas. A seca extrema seguida de fogo foi uma receita pavorosa para os animais que vivem na água, alimentam-se de peixes, mas sobem para utilizar a vegetação marginal”, destaca Paula.

Estratégias de sobrevivência. Apesar de o impacto na fauna ter sido imenso e preocupante, de acordo com Paula, não significa a extinção total. “Os ecossistemas pantaneiros têm grande resiliência. Assim como no Cerrado, a vegetação retorna após as queimadas e as espécies da fauna voltam a habitá-las, ainda que muitos fatores possam tornar esse processo demorado”, pondera.

É provável que a fauna atingida pelo fogo em 2020 se regenere completamente, acredita Paula, mas tudo vai depender do que acontecer daqui em diante. “O impacto do fogo é cumulativo. A vegetação volta após a queimada, mas, se a chuva for reduzida por mais um ou dois anos consecutivos, com grandes incêndios se repetindo, certamente essa resiliência pode ser comprometida “, alerta a bióloga.

Infelizmente, essa é uma perspectiva real. O período de secas no Pantanal começa em maio e tem seu auge em setembro. Mas, após chuvas fracas em dezembro do ano passado e janeiro de 2021, a estiagem já teve início e a seca deste ano parece ainda mais severa que a de 2020. “Tivemos secas intensas por dois anos seguidos e a de 2021 é recorde, com o Rio Paraguai próximo ao nível mais baixo da série histórica iniciada em 2016. É provável que a seca seja pior que as dos últimos anos, que foram intensas”, explica Paula. “Áreas que normalmente ficam submersas já estão muito expostas. Com as secas intensas e repetidas, a vegetação de áreas que normalmente já estariam inundadas se acumula, formando tufos secos de capim altamente inflamável”.

Nesse contexto, o impacto das mudanças climáticas representa uma grave ameaça ao bioma. Apesar da relevância do fogo para o ecossistema pantaneiro e para o processo ecológico, as queimadas frequentes e em grande escala podem levar a impactos negativos cumulativos. Paula explica ainda que o desmatamento no Pantanal – mas também na Amazônia e no Cerrado – podem, de fato, tornar mais recorrentes os eventos extremos de estiagem, desequilibrando o complexo ciclo natural que garante o “pulso” de alagamento e seca característico do bioma.

“Não adianta nada termos uma política extremamente restritiva no Pantanal se as cabeceiras dos rios não forem conservadas no Cerrado”, afirma. Tudo o que acontece na Bacia do Alto Paraguai, salienta ela, afeta o Pantanal e alterações ambientais produzidas no planalto têm impacto nas partes baixas. “Por outro lado, sabemos que parte das chuvas do Pantanal dependem da Amazônia, onde o desmatamento também piora a situação climática. Por isso, o planejamento territorial é fundamental, assim como a conservação de áreas protegidas e o cumprimento do Código Florestal. As políticas públicas para o Pantanal não podem se limitar ao bioma”, frisa Paula.

Ciclos sobrepostos. Os impactos das mudanças climáticas nos ciclos do Pantanal certamente já estão sendo sentidos, mas a complexidade desses fenômenos torna muito difícil saber até que ponto eles determinaram a seca atual e os incêndios extremos de 2020, segundo a professora Catia Nunes da Cunha, especialista em ecologia de áreas alagáveis do Instituto de Biociências da UFMT.

“O Pantanal é uma moeda com duas caras, a fase seca e a fase inundada. Mas, além do ciclo anual que conhecemos, há também grandes variações plurianuais. Isto é, a longo prazo, o ciclo anual se sobrepõe a grandes períodos mais úmidos, alternados por grandes períodos de estiagem mais forte, com muito fogo”, diz a pesquisadora.

De acordo com ela, os últimos 40 anos corresponderam a um ciclo plurianual úmido. Em contrapartida, entre 1963 e 1973, houve um longo período seco, sem inundações. “Sabemos que no período seco da década de 1960, a vegetação adaptada à inundação regrediu, expandindo-se novamente nos últimos 40 anos e dominando a paisagem. Mas ainda não podemos afirmar com certeza se estamos entrando em um novo período de grandes estiagens”, pontua Catia.

Essa hipótese está sendo estudada. Catia coordena uma equipe de campo da UFMT que está avaliando o efeito do fogo sobre a vegetação pantaneira. Os pesquisadores trabalham em nove parcelas permanentes que são estudadas desde 2006. As árvores são etiquetadas e o grupo analisa o grau de mortalidade e a capacidade de regeneração das diversas espécies da flora após os incêndios.

“Verificamos que, no Pantanal, apesar da presença ocasional do fogo, a vegetação não era dramaticamente afetada, havia uma considerável capacidade de regeneração, mesmo nas matas secas e cerradões. Nossa hipótese é que, nos anos úmidos, algumas espécies, como o cambarazal, se expandem e ocupam grandes áreas que antes eram secas e começaram a inundar”, explica.

Prós e contras. A seca e as queimadas de 2020, relata Catia, levaram muitas árvores a morrerem com a falta de água, mesmo em áreas que não foram atingidas pelo fogo. Por outro lado, em áreas de florestas secas, há espécies que se beneficiam das chamas. “Vimos que nas áreas queimadas o impacto depende da intensidade do fogo. Uma antiga floresta de cambarás, com árvores grandes e bem estabelecidas que estudávamos há vários anos – e que sempre se recuperava após as queimadas -, foi totalmente destruída após os incêndios de 2019 e 2020. Quando as labaredas são muito altas, em um horário muito quente do dia, o impacto é mais grave”, diz.

A alternância entre a fase seca e úmida é o que controla a vegetação, destaca Catia. “Os períodos plurianuais fazem expandir ou regredir a tipologia da vegetação em função de quem tem afinidade com a umidade e quem não suporta a inundação. O maior problema do fogo é a reincidência. Se realmente estivermos entrando em um longo período seco, muitas espécies vão se alastrar e outras vão se retrair, mudando a cara do Pantanal por vários anos”, diz.

Embora a seca de 2021 esteja ainda pior que a de 2020, até o início de julho o número de focos de queimadas no acumulado do ano era equivalente a um décimo do que foi detectado no mesmo período em 2020. Isso aconteceu provavelmente porque o tempo foi muito curto para que o emaranhado de vegetação se desenvolvesse – e, portanto, há menos biomassa para ser queimada, de acordo com Catia.

Para o professor Geraldo Damasceno, do Laboratório de Botânica e de Ecologia Vegetal da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o que chamou a atenção em 2020 foi o tamanho da área queimada. “Foi um ano muito seco e áreas que dificilmente estariam disponíveis para pegar fogo acabaram se incendiando”, diz o biólogo.

Boa parte do Pantanal é composta por vegetação herbácea, que tem uma dinâmica resistente a queimadas. Quando o fogo passa, destrói a vegetação exposta, mas um “banco de sementes” de plantas terrestres e aquáticas permanece nas camadas subterrâneas. Quando a inundação volta, a tendência é que a vegetação herbácea se recupere. “Sempre há espécies mais sensíveis que reduzirão sua cobertura. Outras, beneficiam-se do fogo e se alastram, incluindo espécies arbóreas. Os bancos de sementes são muito resistentes e é possível que esteja tudo verde novamente no ano que vem”, explica Damasceno.

De acordo com ele, todo o sistema é altamente resiliente, contanto que não se perca o pulso de cheias e secas. “Se um período seco permanecer por muitos anos, aí sim é bastante complicado para a sobrevivência de diversas plantas. Se o Pantanal parar de pulsar, temos realmente um problema. Esse pulso também é afetado pelo desmatamento nas bordas do bioma.”

Manejo do fogo. O professor destaca a importância do manejo integrado do fogo no bioma e menciona o estudo feito pelos Ministérios Públicos (MPs) de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que atribui à ação humana a maior parte das queimadas ocorridas no Pantanal em 2020. “Os pesquisadores do MP fizeram um levantamento das áreas onde os principais focos de fogo aconteceram, mapearam algumas fazendas e descobriram que a maior parte do fogo teve origem na prática de limpeza do terreno. Esse manejo pode e deve ser feito, mas é preciso ter cuidado. Provavelmente usaram o fogo como costumavam fazer sempre, mas devido às condições da seca, os incêndios se espalharam. Se houvesse um sistema de prevenção do fogo atuante, um alarme geral teria sido dado”, diz Damasceno.

Colega de Damasceno, o agrônomo Arnildo Pott, professor do Departamento de Biologia da UFMS que estuda a biologia vegetal do Pantanal há várias décadas, explica que, uma vez que os incêndios saem do controle, é muito difícil deter seu alastramento quando as condições são muito secas. “As turfeiras, muitas vezes, formam mais de um metro de solo orgânico e inflamável, acumulado eventualmente por 20, 30 ou 40 anos. Nessas áreas, depois da passagem do fogo, quando o incêndio já parece debelado, tudo está queimando por baixo, como uma brasa de cigarro. Assim, o fogo que foi apagado em uma área, pode incandescer durante a noite e se espalhar por outras áreas”, explica Pott.

Ele conta que, dependendo da força do fogo, ele não pode ser detido nem mesmo por aceiros – faixas nas quais a vegetação é suprimida de forma a isolar uma parte da floresta e evitar o alastramento de incêndios. “Já vimos fagulhas atravessando o Rio Paraguai e incendiando a outra margem. Seria impraticável instalar um aceiro maior que o rio”, analisa.

Fogo até na água. O fogo planejado e controlado pode reduzir os incêndios, de acordo com Pott. “As queimadas diminuíram depois que o fogo passou a ser regulamentado. O problema é que, em condições muito secas, é preciso muito cuidado para fazer esse manejo. Dependendo das condições, o fogo pode até mesmo passar por cima de corpos d’água. O rabo-de-burro, que é um capim alto, cresce dentro das lagoas e fica com a parte superior seca acima da água, permitindo que o fogo se alastre sobre a lagoa”, afirma.

Pott faz uma distinção entre a seca atmosférica e a seca no solo. “No ano passado, as duas se somaram. Não choveu muito e não houve inundações. O manejo do fogo não foi modificado e o resultado foi catastrófico”, lembra.

O professor começou a trabalhar no Pantanal no início da década de 1980 e conta que, naquela época, os moradores locais ainda estavam adaptados ao período seco que predominou até 1974. “Eles contam que atravessavam o Rio Paraguai a pé, a cavalo, de jipe e de trator. A seca foi tão prolongada que as pessoas construíram casas em locais que hoje são completamente alagados”, declara Pott.

Ainda não é possível saber, segundo Pott, se essa situação vai perdurar, como na década seca iniciada em 1963, e se, com isso, incêndios como os de 2020 se tornarão mais frequentes, comprometendo o equilíbrio do bioma. Mas, pelo menos por enquanto, o Pantanal deve conseguir se regenerar. “Um mês após a passagem do fogo em 2020 eu fui de carro até a ponte do Rio Paraguai para observar a regeneração. A rebrota e a germinação já estavam acontecendo em níveis impressionantes”, afirma.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/08/2021

 

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Rios são a maior fonte global de mercúrio nos oceanos e o Amazonas lidera a lista

 

Rios são a maior fonte global de mercúrio nos oceanos e o Amazonas lidera a lista

 

pesca
Foto: ONU / ABr

Rios são a maior fonte global de mercúrio nos oceanos e o Amazonas lidera a lista

A presença de mercúrio nos oceanos do mundo tem ramificações para a saúde humana e a vida selvagem, especialmente nas áreas costeiras onde ocorre a maior parte da pesca.

Mas, embora os modelos que avaliam as fontes de mercúrio nos oceanos tenham se concentrado no mercúrio depositado diretamente da atmosfera, um novo estudo liderado por Peter Raymond, professor de ecologia de ecossistemas da Escola de Meio Ambiente de Yale e publicado na Nature Geoscience mostra que os rios são na verdade o principal fonte do metal pesado tóxico ao longo das costas do mundo.

Pela Yale University*

“É uma espécie de religação do ciclo global do mercúrio”, diz Raymond. Anteriormente, acreditava-se que a maior parte do mercúrio no oceano aberto era depositado da atmosfera e, em seguida, chegava às áreas costeiras . Mas agora parece que a maior parte do mercúrio flui dos rios para as áreas costeiras do oceano e, de lá, segue para o oceano aberto . “Atualmente, os legisladores se concentram principalmente no controle da emissão atmosférica e da deposição de mercúrio, enquanto a contribuição do mercúrio do rio para os oceanos costeiros não é bem compreendida”, disse Maodian Liu, pós-doutorado no laboratório de Raymond. Ele diz que as novas descobertas ressaltam a importância de limitar o mercúrio que penetra nos rios.

Os pesquisadores também investigaram mudanças no ciclo anual de escoamento de mercúrio ribeirinho, descobrindo que, globalmente, os níveis eram mais altos em agosto e setembro. E eles analisaram quais rios eram os maiores contribuintes de mercúrio; dez rios são responsáveis por metade do mercúrio ribeirinho. O rio Amazonas está no topo da lista, seguido pelo Ganges na Índia e Bangladesh, e pelo Yangtze na China.

Enquanto outros estudos recentes também estimaram as quantidades de mercúrio ribeirinho, Raymond diz que esses estudos não tinham o mesmo nível de especificidade em relação a quais rios tinham as maiores quantidades de mercúrio e quando durante o ano esses níveis eram mais elevados. “A comunidade realmente não tinha concordado com o papel dos rios”, diz ele, acrescentando que este novo trabalho ajuda a fortalecer o argumento de que os rios são de fato a maior fonte de mercúrio oceânico.

A queima do carvão é predominantemente responsável pelo mercúrio atmosférico, que acaba indo parar tanto no oceano quanto nas massas de terra. O mercúrio que os rios transportam para o oceano pode vir do mercúrio atmosférico que acabou nos solos; também pode vir de outras fontes antropogênicas, como mineração de ouro e, em menor grau, de fontes geológicas de ocorrência natural. Além disso, como a mudança climática induz tempestades e inundações mais severas , o mercúrio que permaneceu dormente nos solos por longos períodos pode ser cada vez mais transportado para os oceanos costeiros, dizem os pesquisadores.

Raymond diz que o trabalho futuro pode se concentrar na compreensão dos processos que afetam o mercúrio nesses “pontos críticos”, onde as concentrações que chegam ao oceano são mais altas, bem como examinar as conexões com a pesca nessas áreas. “O consumo de peixe é a fonte alimentar mais importante de exposição humana ao mercúrio”, observa Liu. Em última análise, essa compreensão aprimorada de como e onde o mercúrio entra nos oceanos ajudará a informar os regulamentos para reduzir a quantidade de mercúrio nos peixes em todos os nossos pratos.

Referência:

Liu, M., Zhang, Q., Maavara, T. et al. Rivers as the largest source of mercury to coastal oceans worldwide. Nat. Geosci. (2021). https://doi.org/10.1038/s41561-021-00793-2

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Henrique Cortez, tradução e edição.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/08/2021

 

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Quais produtos já podem ser fabricados a partir do CO2?

 

Quais produtos já podem ser fabricados a partir do CO2?

Com informações do RCGI - 16/08/2021

Análise mostra os produtos derivados de CO2 mais promissores
A conversão química do CO2 é complicada, mas pode valer a pena.
[Imagem: Kelvin A. Pacheco et al. - 10.1016/j.jcou.2020.101391]

Usar, e não armazenar o CO2

Com as emissões de CO2 da nossa sociedade se tornando um dos principais motores do aquecimento do planeta, tem havido um grande esforço no sentido de transformar esse gás carbônico em combustível ou em outros compostos químicos de interesse industrial.

Isso pode não apenas capturar o CO2 da atmosfera, reduzindo seu efeito estufa, como também evitar a queima de combustíveis fósseis adicionais, que lançam mais dele no ar, o que é mais interessante do que a tradicional captura, sequestro e armazenamento de carbono.

Como essa nova química não é simples, um dos primeiros desafios é identificar quais compostos podem ser produzidos a partir do CO2 e quais deles apresentam as maiores vantagens em termos de viabilidade técnica, potencial de mercado e sustentabilidade.

Este foi o trabalho a que se propuseram químicos da Escola Politécnica da USP. "Tentamos desenvolver a nossa própria metodologia para fazer uma seleção um pouco mais rigorosa do que encontrávamos na literatura," contou o pesquisador Kelvin Pacheco.

Conversão química do CO2

Os pesquisadores partiram de um universo inicial de 122 possíveis produtos, que foram submetidos a três etapas de seleção. Após a definição de critérios e das melhores ferramentas de análise multicritérios, passaram por uma avaliação na qual foram verificados itens como maturidade tecnológica do produto, taxa de utilização das moléculas do CO2 , projeção de crescimento e preço.

Do grupo inicial de 122, uma primeira triagem selecionou 23, que foram reduzidos para apenas 8 mais viáveis. Dentre esses oito, os pesquisadores definiram os três mais promissores técnica e comercialmente.

A análise mostrou que o dimetilcarbonato (DMC), o ácido acético e o dimetil éter (DME) são os três produtos derivados do dióxido de carbono com maior potencial para desenvolvimento e mais promissores para novos estudos.

Análise mostra os produtos derivados de CO2 mais promissores
Uma abordagem ainda mais promissora consiste em usar energia solar para transformar CO2 em combustível.
[Imagem: University of Cambridge]

"A conversão química do CO2 em outro composto químico é uma reação desfavorável, sob o ponto de vista energético. É difícil de ser realizada," esclarece Antônio Bresciani, membro da equipe. "Outro aspecto importante é que a conversão, além de eliminar a emissão de CO2, precisa ser viável comercialmente. Não adianta viabilizar uma reação para um produto que não tenha mercado ou que tenha um valor menor."

As metodologias que a equipe analisou procuraram justamente encontrar produtos que atendessem aos diferentes critérios, levando-se em conta a dificuldade de promover a reação, o mercado para o produto e a sua sustentabilidade.

Aplicações dos produtos

Os três produtos derivados do CO2 selecionados pelos pesquisadores apresentam grande vantagem ambiental. O dimetilcarbonato (DMC), por exemplo, é atualmente produzido principalmente por rota convencional a partir de metanol e fosgênio, a qual apresenta diversos problemas, sendo o principal o uso do fosgênio. Trata-se de um gás extremamente tóxico e que gera como subproduto o ácido clorídrico, altamente corrosivo. Portanto, a produção de DMC a partir de CO2, em substituição ao fosgênio, é um método ambientalmente mais apropriado.

Entre as possíveis aplicações do DMC (dimetilcarbonato) está a fabricação de policarbonato, um tipo de plástico capaz de substituir o vidro, normalmente gerado a partir da indústria petroquímica. O processo possibilitaria diminuir 1.730 toneladas de CO2 para cada 10.000 toneladas de policarbonato produzidas. Caso toda a produção mundial de policarbonato utilizasse esse processo, haveria uma diminuição em torno de 450.000 toneladas de CO2 por ano. O DMC também pode ser usado como solvente e aditivo de combustível.

Já o gás dimetil éter (DME) tem como uma de suas possíveis aplicações a substituição do diesel como combustível, o que abriria um grande mercado. A questão do preço em comparação com os produtos do petróleo, no entanto, ainda precisa ser resolvida.

E o terceiro produto, o ácido acético, é amplamente usado na indústria química como reagente. É o precursor do acetato de vinila, usado para fazer o PVA, outro tipo de plástico com numerosas aplicações, como em adesivos.

Bibliografia:

Artigo: Multi criteria decision analysis for screening carbon dioxide conversion products
Autores: Kelvin A. Pacheco, Antonio E. Bresciani, Rita M.B. Alves
Revista: Journal of CO2 Utilization
Vol.: 43, 101391
DOI: 10.1016/j.jcou.2020.101391

Extrair metais de plantas pode ser melhor que mineração convencional Redação do Site Inovação Tecnológica - 19/08/2021

 

Extrair metais de plantas pode ser melhor que mineração convencional

Redação do Site Inovação Tecnológica - 19/08/2021

Mineração vegetal: Como extrair metais de plantas
Microscopia de fluorescência de raios X da planta hiperacumuladora de níquel Alyssum murale. A cor vermelha mostra sua estrutura, a cor verde mostra cálcio e o azul mostra o níquel.
[Imagem: Antony van der Ent]

Mineração vegetal

Pesquisadores australianos afirmam que a fitomineração - ou agromineração - está pronta para sair dos laboratórios para as minas, ou lavouras minerais, como queira.

A proposta da fitomineração é desenvolver técnicas de extração de metais de um grupo incomum de plantas, chamadas hiperacumuladoras. Hiperacumuladoras são plantas que acumulam metais em altos teores, tendo aparentemente evoluído para prosperar em solos ricos em metais, que matariam a planta em seu estado original.

Mais do que sobreviver, elas passam a absorver e acumular concentrações excepcionalmente altas de metais em sua biomassa, chegando a 5% em peso em alguns casos, tornando essas plantas autênticos biominérios.

E os pesquisadores acreditam que já estamos prontos para começar a fazer "mineração vegetal".

"No estágio atual, a fitomineração pode ir para a escala real para o níquel imediatamente, enquanto a fitomineração para o cobalto, o tálio e o selênio estão ao alcance," afirmou o professor Antony van der Ent, da Universidade de Queensland. "Há uma abundância de minérios não convencionais que poderiam ser aproveitados por fitomineração, como solos ultramáficos abundantes em regiões tropicais, que normalmente contêm 0,5-1% em peso de níquel, abaixo dos níveis de corte para a mineração convencional."

Mineração vegetal: Como extrair metais de plantas
Fluorescência de raios X de uma fruta hiperacumuladora, mostrando níquel em vermelho, cálcio em verde e potássio em azul.
[Imagem: Sustainable Minerals Institute/University of Queensland]

Fazendas minerais

Uma das vantagens da fitomineração é que é um método mais sustentável de extrair metais que estão se tornando cada vez mais difíceis de acessar devido a fatores ambientais, sociais, de governança e técnicas complexas associadas à localização de novas minas.

Além disso, o níquel, zinco, manganês, cobalto, selênio e tálio, todos encontrados em plantas hiperacumuladoras específicas, são vitais para as tecnologias renováveis, o que tem feito seu preço disparar.

"Plantas como a Alyssum murale podem atingir rendimentos de até 400 kg de níquel por hectare por ano, que vale cerca de US$ 4.000 a preços atuais, excluindo custos de produção e processamento. O níquel de origem biológica também é único por ser de pureza particularmente elevada, com a biomassa processada contendo 20-30% de níquel, e poucas das impurezas geralmente associadas aos minérios de níquel convencionais," disse Antony.

A equipe está agora negociando com empresas mineradoras, detentoras dos direitos de exploração das áreas ricas em minérios, para realizar testes em larga escala, que possam confirmar as vantagens dessas colheitas minerais.

Outra alternativa é testar a fitomineração não nas reservas principais, mas nas sobras dos minerais que já foram processados pelas técnicas convencionais. "A fitomineração também torna possível coletar metais de baixo teor, prejudiciais ao meio ambiente, dos resíduos da mina, essencialmente fazendo 'tesouro com o lixo' e, ao mesmo tempo, reabilitando os resíduos da mina," disse Antony.

Bibliografia:

Artigo: Intensive cycling of nickel in a New Caledonian forest dominated by hyperaccumulator trees
Autores: Adrian L. D. Paul, Sandrine Isnard, Christine M. Wawryk, Peter D. Erskine, Guillaume Echevarria, Alan J. M. Baker, Jason K. Kirby, Antony van der Ent
Revista: The Plant Journal
Vol.: 282, 131096
DOI: 10.1111/tpj.15362

Artigo: Simultaneous hyperaccumulation of rare earth elements, manganese and aluminum in Phytolacca americana in response to soil properties
Autores: Chong Liu, Wen-Shen Liu, Antony van der Ent, Jean Louis Morel, Hong-Xiang Zheng, Guo-Bao Wang, Ye-Tao Tang, Rong-Liang Qiu
Revista: Chemosphere
DOI: 10.1016/j.chemosphere.2021.131096