Publicado: 13 de agosto de 2014 às 10:05
Candidata do PT à reeleição, presidente Dilma Rousseff.
Brasília - Uma nova crise de comunicação ronda o comitê da campanha
petista. Insatisfeita com o “piloto” de seus programas de TV, a
presidente Dilma Rousseff mandou o marqueteiro João Santana mudar, na
última hora, a estratégia para a propaganda do horário eleitoral
gratuito, que começa na próxima terça-feira.
As divergências ocorreram
porque Dilma soube que, pelo cronograma fixado para os quatro primeiros
programas, ela não iria pessoalmente às obras da usina hidrelétrica de
Belo Monte, em Altamira, no Pará, nem da Ferrovia Norte-Sul, ambas
atrasadas.
A equipe de Santana já havia feito gravações de cenários em Belo
Monte, mas sem Dilma, que depois visitou a obra. O plano inicial era
mostrar a candidata do PT à reeleição falando sobre “avanços” sociais
nas áreas de saúde (Mais Médicos) e educação (Pronatec, ProUni) “in
loco”, sempre tendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como
garoto-propaganda do governo. Nos primeiros programas, no entanto, a
presidente discorreria sobre as obras de infraestrutura dentro de um
gabinete, com fundo verde – as imagens externas seriam adicionadas na
edição no lugar da cor verde, com a técnica chamada chroma Key.
O modelo “favela cenográfica”, utilizado sem sucesso pelo então
candidato tucano José Serra ao Planalto em 2010, foi rejeitado pela
presidente.
A ideia sempre foi a de “vender” a imagem de Dilma como gerente de
grandes obras, mas ela não gostou do que viu e mandou Santana refazer o
roteiro. Disse que não poderia discorrer sobre os avanços da área de
infraestrutura sem estar no local e deixou produtores de vídeo à beira
de um ataque de nervos. Motivo: a mudança atrasou o cronograma de
gravações acertado para o começo do horário eleitoral.
“Não tem problema. Quem manda aqui sou eu!”, afirmou Dilma, segundo
relatos obtidos pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. Por causa da
explosão da presidente, a estratégia foi alterada e a equipe – que antes
gravava três vezes por semana – agora tem feito filmes diários, para
acertar o ritmo de trabalho. A partir de terça-feira, Dilma terá 11
minutos e 24 segundos na propaganda do rádio e da TV para expor suas
propostas, um tempo bem maior do que os de seus adversários Aécio Neves
(PSDB) e Eduardo Campos (PSB).
Desde que a presidente mandou Santana mudar tudo, há cerca de duas
semanas, ela já visitou três canteiros de obras, onde gravou cenas para o
programa de TV. Acompanhada do marqueteiro, Dilma esteve no último dia 5
na usina hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no Pará. Lá, subiu
num mirante dedicado a ela, sem prévio aviso à empresa que administra a
obra (Norte Energia), tirou fotos com os operários e almoçou com eles no
refeitório.
Obras atrasadas
Três dias depois, a candidata do PT desembarcou em Iturama, na divisa
dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, onde fez gravações e vistoriou
obras atrasadas da Ferrovia Norte-Sul sobre o Rio Grande. Na manhã de
terça-feira, 12, a presidente visitou um outro trecho da mesma obra,
desta vez ligando Palmas (TO) a Anápolis (GO).
Na ferrovia, Dilma fez questão de comparar o avanço da obra da
Norte-Sul durante a sua administração (2011-2014) e a do seu antecessor,
o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), às gestões
anteriores. De acordo com seus números, entre o governo José Sarney
(1985-1990) e o de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), foram
construídos 205 quilômetros da ferrovia. “No governo do presidente Lula,
no PAC, nós fizemos o trecho de Açailândia até Palmas, em torno de 500 e
poucos quilômetros. Aí, nós continuamos até Ouro Verde de Goiás – as
obras físicas, todas, foram concluídas em maio deste ano, 855
quilômetros.”
Dilma iria nesta quinta-feira, 14, a Porto Velho (RO) gravar nas
usinas de Santo Antônio e Jirau. Mas, pressionada pelo candidato do PT
ao governo de Minas, Fernando Pimentel, decidiu ir a um encontro com
formandos do Pronatec em Belo Horizonte. No sábado, a petista volta a
gravar imagens, desta vez no canteiro de obras da transposição do Rio
São Francisco em Cabrobó e Floresta, em Pernambuco.
A tensão no comitê de Dilma registrou um primeiro abalo no mês
passado, quando uma desavença entre Santana e o jornalista Franklin
Martins – também integrante do comitê da reeleição – agitou a campanha.
Ex-ministro da Comunicação do governo Lula, Martins é adepto de um
estilo de disputa política agressivo, na linha “bateu, levou”.
Diferentemente, João Santana tem preferência por uma estratégia mais
“light”, que mostra a presidente como “rainha”, que não entra no “jogo
rasteiro”.
Nos bastidores, auxiliares de Dilma contam ser comum ela se irritar e
mudar gravações de pronunciamentos e programas na última hora. Exemplo
disso é o programa semanal de rádio Café com a Presidenta, sempre
gravado no domingo.
Em várias ocasiões ela alterou o tema e mandou a
equipe buscar ministros em casa para que lhe passassem informações que
entrariam no ar. (Vera Rosa e Nivaldo Souza/AE)