quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Carne cultivada: produção, vantagens e possíveis riscos

 

Carne cultivada: produção, vantagens e possíveis riscos

Equipe eCycle10 min de leitura

 


Imagem de Maude Frédérique Lavoie no Unsplash

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Descubra como é feita a carne cultivada em laboratório e conheça seus benefícios, riscos e impactos ambientais

Se preferir, vá direto ao ponto Esconder 

1. Carne tradicional versus carne cultivada 

2. O contraponto 

3. Uma questão de saúde? 

4. Hormônios anabólicos e desreguladores endócrinos: possíveis riscos 

5. Considerações éticas 

6. Economia 

7. Recepção do público 

Carne cultivadacarne de laboratório ou carne artificial é a carne produzida em laboratório por meio de técnicas de bioengenharia – ou seja, sem abate. Este setor emergente visa desestabilizar as formas convencionais de produção de produtos de origem animal, com o objetivo de reduzir o número de animais mortos para alimentação e criar um sistema alimentar global mais sustentável e ético.

A carne cultivada é produzida a partir de células animais, começando com a retirada indolor de uma amostra de tecido muscular de um animal vivo, que é então transformada em massas de células. Amostras de vacas, galinhas, coelhos, patos, camarões e até atuns foram levadas a laboratórios na tentativa de recriar partes de seus corpos sem ter de criar, confinar ou abater os próprios animais.

Em 2013, Mark Post, professor da Universidade de Maastricht, apresentou o primeiro “hambúrguer de laboratório”, ou seja, produzido a partir de carne cultivada. A experiência, financiada por Sergey Brin, co-fundador do Google, foi resultado de 5 anos de pesquisa e surgiu a partir da reprodução de células-tronco bovinas, cultivadas e alimentadas com nutrientes em laboratório.

Desde então, o sonho de poder produzir carne a partir da “agricultura celular”, sem a pecuária, ganhou apoio tanto de ativistas dos direitos dos animais quanto, principalmente, de atores do setor. Um grande número de start-ups foi criado, muitas delas patrocinadas por grandes nomes da indústria de alimentos.

Com esse objetivo em mente, em 2018 a Food And Drug Administration dos Estados Unidos estabeleceu um marco regulatório e abriu caminho para a comercialização desses produtos. Mas a carne cultivada seria uma revolução alimentar ou uma utopia impossível? Quais os dilemas éticos, econômicos e psicossociais que seu processo de produção envolve? E, para além das questões teóricas, quais são os riscos e os benefícios que a criação de carne cultivada implica?

Carne tradicional versus carne cultivada

Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) estima que a demanda por carne vai aumentar em mais de dois terços nos próximos 40 anos – e o problema é que os métodos de produção atuais não são nada sustentáveis.

pecuária contribui para o agravamento das mudanças climáticas por meio da liberação descontrolada de metano, um gás de efeito estufa 20 vezes mais potente do que o dióxido de carbono. O aumento da demanda aumentará significativamente os níveis de metano, dióxido de carbono e óxido nitroso e causará perda de biodiversidade.

Outro grande problema causado pela indústria agropecuária é o elevado consumo de água. Cultivar plantas para a alimentação animal representa 56% de toda a água consumida nos EUA. O cultivo de grãos consumidos pelos animais demanda uma quantidade enorme de água, que, somada ao consumo direto dos bichos, representa, segundo um estudo, faixas de consumo de água de 34-76 trilhões de litros por ano.

Além disso, a pecuária é a principal causa da extinção de espécies, zonas mortas nos oceanos, poluição da água e destruição de habitats. O uso disseminado de pesticidas, herbicidas e fertilizantes químicos utilizados na produção de culturas para alimentação animal interfere nos sistemas de reprodução dos animais e na saúde do consumidor final. E, segundo um relatório da organização Mercy for animals e um estudo publicado na revista científica Nova Economia, ela também é a principal causa direta de desmatamento na Amazônia.

Diante deste cenário, a carne de laboratório surge como uma opção sustentável que mudará para sempre a maneira como comemos e encaramos os alimentos. Uma pesquisa realizada em 2011 por pesquisadores da Universidade de Oxford sugere que a produção de carne bovina cultivada poderia usar até 99% menos espaço do que o necessário para os métodos atuais de criação de gado.

O estudo também aponta que as emissões de gases de efeito estufa e outros prejuízos ao meio ambiente são substancialmente menores quando se produz carne cultivada, em comparação com os métodos utilizados para produzir carne de verdade.

O contraponto

Apesar dos resultados positivos revelados pela pesquisa da equipe de Oxford, estudos mais recentes sugerem que, no longo prazo, o impacto ambiental da carne cultivada em laboratório poderá ser maior do que o da pecuária. Ao contrário da investigação anterior, estes estudos consideraram não só a natureza dos gases emitidos, mas também os custos energéticos das infraestruturas necessárias à cultura de células.

Os animais têm um sistema imunológico que os protege naturalmente contra infecções bacterianas e outras. Este não é o caso da cultura de células e, em um ambiente rico em nutrientes, as bactérias se multiplicam muito mais rápido do que as células animais. Para evitar a produção de um bife com mais bactérias do que carne, é essencial evitar a contaminação – e isso requer um alto nível de esterilidade.

Na indústria farmacêutica, por exemplo, as culturas de células são realizadas em “salas limpas” altamente controladas e higienizadas. A esterilidade é geralmente garantida pelo uso de materiais plásticos descartáveis.

Isso reduz significativamente o risco de contaminação, mas gera resíduos plásticos, cujo nível nos ecossistemas já é alarmante. Alguns dos materiais de cultura são feitos de aço inoxidável e, portanto, podem ser esterilizados a vapor ou lavados com detergentes, mas esses tratamentos também têm um custo ambiental.

Embora poucos estudos tenham sido feitos sobre o impacto ambiental da indústria farmacêutica, os dados disponíveis sugerem que sua pegada de carbono pode ser 55% maior do que a da indústria automotiva.

Uma questão de saúde?

A carne de laboratório é mais saudável do que a carne tradicional? Segundo especialistas, ela pode ser. Se você se preocupa com a contaminação da carne pelas fezes, a carne cultivada pode ser uma boa alternativa, uma vez que a E. coli pode ser totalmente eliminada no laboratório e nas instalações de produção.

O uso de antibióticos, um problema grave associado à produção de carne, também seria eliminado. A Organização Mundial de Saúde apontou, em um relatório, que cerca de 700 mil pessoas morrem de doenças resistentes a medicamentos a cada ano, com esse número subindo para potencialmente 10 milhões até 2050. Por isso, eliminar a necessidade do uso de antibióticos na produção de carne não é apenas mais saudável: é urgentemente necessário.

Os níveis de gordura e colesterol na carne cultivada também podem ser controlados, levando a resultados potencialmente positivos para a saúde, uma vez que níveis elevados de colesterol no sangue podem levar a condições como doenças cardiovasculares. A carne de laboratório também pode ser fortificada com vitaminas e minerais para fornecer nutrição máxima, assim como certos produtos são hoje, como leite, cereais e pão.

Hormônios anabólicos e desreguladores endócrinos: possíveis riscos

Segundo o biólogo Eric Muraille, em artigo publicado no periódico The Conversation, o volume muscular dos animais aumenta lentamente e leva tempo para que as células musculares satélites se multipliquem.

Para obter o que um animal produz ao longo de vários anos em apenas algumas semanas de cultivo in vitro, é necessário estimular continuamente a proliferação das células satélites com fatores de crescimento, incluindo hormônios sexuais anabólicos.

Esses hormônios estão presentes em animais e humanos, bem como em carnes convencionais. Eles estimulam a síntese de proteínas nas células, resultando em aumento da massa muscular. No entanto, a superexposição a eles estabeleceu efeitos deletérios.

Na Europa, a utilização de hormônios de crescimento na agricultura está proibida desde 1981 pela Directiva 81/602. Esta proibição foi confirmada em 2003 pela diretiva 2003/74 e validada pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) em 2007. Mas qual será a concentração final desses hormônios na carne cultivada?

Além disso, um número crescente de estudos documentou a toxicidade de produtos plásticos comumente usados. Os disruptores endócrinos, compostos que podem interferir no sistema hormonal e desorganizá-lo, podem ser transferidos das embalagens plásticas para os alimentos. Sem surpresa, o mesmo fenômeno foi documentado em culturas de células cultivadas em recipientes de plástico por fertilização in vitro.

A menos que o uso de plástico na produção de carne por cultura de células seja rigidamente controlado, a carne pode ser contaminada com disruptores endócrinos e outras substâncias antes mesmo de ser embalada.

Considerações éticas

Existem algumas considerações éticas para a carne cultivada em laboratório. Um dos benefícios principais e inegáveis ​​é a redução drástica no abate necessário. No entanto, as células iniciais sempre precisarão de amostras colhidas de animais vivos, que nunca poderão dar seu consentimento.

A carne de laboratório também falha em derrubar o mito de que os animais são apenas recursos para serem explorados pelos humanos. Disponibilizar carne cultivada em laboratório também reforça a ideia de que as pessoas podem e devem continuar a comer carne, apesar do fato de ser biologicamente desnecessário para uma boa saúde, como revelam bilhões de pessoas em todo o mundo que seguem dietas à base de vegetais.

Economia

O mercado potencial total endereçável para carne cultivada em laboratório é enorme e, à medida que a tecnologia melhora, os investidores estão ganhando confiança no setor. Em janeiro de 2020, a Memphis Meats arrecadou 161 milhões de dólares em uma rodada de arrecadação de fundos da Série B – uma soma que excede todos os investimentos divulgados publicamente em carne cultivada em laboratório até o momento. O investimento foi saudado como um ponto de inflexão para a indústria de carnes.

Contribuindo para essa confiança estão os grandes nomes que investem em empresas de carnes cultivadas em laboratório, incluindo Bill Gates e Richard Branson, e as próprias empresas de carnes convencionais, como Tyson Foods e Cargill.

Recepção do público

Para além dos desafios ambientais, éticos e econômicos que a produção de carne cultivada envolve, uma questão cultural e psicossocial se destaca: a resistência do consumidor. De um lado, defensores do consumo de carne alegam que alimentos produzidos em laboratório não são comida de verdade e que, portanto, a carne artificial não seria carne de verdade.

De outro, vegetarianos argumentam que é possível viver bem, e de maneira saudável, sem a ingestão de proteína animal. Além disso, a aceitação do consumidor está associada a fatores morais e éticos mais amplos, que muitas vezes envolvem convicções políticas, culturais e até mesmo religiosas.

Com tantos obstáculos, é difícil prever quando a carne cultivada deverá chegar ao supermercado mais próximo – e, principalmente, se o produto encontrará espaço na mesa das pessoas. Por enquanto, é um mistério.


Fontes: BioscienceMercy for AnimalsNova EconomiaThe ConversationSentient MediaThe Guardian e Cultured Beef

Nova York celebra presença de golfinhos em rio no Bronx, que no passado era considerado um esgoto a céu aberto

 



Nova York celebra presença de golfinhos em rio no Bronx, que no passado era considerado um esgoto a céu aberto

Nova York celebra presença de golfinhos em rio no Bronx, que no passado era considerado um esgoto a céu aberto

Notícias assim sempre me trazem imediatamente à mente a imagem dos rios Pinheiros e Tietê, na capital paulista, com sua água parada, totalmente mortos e contaminados há décadas. E sem esforço real político nenhum de mudar esse triste cenário. O que não faltam são exemplos no mundo de como rios podem ser recuperados e ganharem vida novamente. É o caso do Bronx, em Nova York, onde há poucos dias dois golfinhos foram avistados nadando por ele, perto do Starlight Park.

O fato foi compartilhado pelo Departamento de Parques e Recreação (NYC Parks) da cidade americana, em seu perfil no Twitter.

“É verdade – golfinhos foram vistos no rio Bronx esta semana! Esta é uma ótima notícia – mostra que o esforço de décadas para restaurar o rio como um habitat saudável está funcionando. Acreditamos que esses golfinhos naturalmente encontraram o caminho para o rio em busca de peixes”, escreveu o NYC Parks.

A recuperação do rio Bronx

Com cerca de 40 km de extensão, o Bronx é o único rio de água doce da cidade de Nova York. Os indígenas Mohegans viviam à sua volta e pescavam nele.

Mas por volta de 1800, indústrias, empresas e moradores da região o usavam como lixeira. Durante um século ele se tornou um esgoto a céu aberto. Nele era despejado de tudo: poluentes de fábricas, fertilizantes, dejetos residenciais, além de qualquer objeto que se considerasse indesejado – de pneus e geladeiras até carros que não andavam mais.

O resultado é que não existia mais vida no rio Bronx. Espécies nativas de peixes e ostras simplesmente desapareceram, assim como toda a vegetação em suas margens.

Nas décadas de 70 e 80 surgiram os primeiros esforços para tentar limpar e restaurar o Bronx, com a criação do “Bronx River Restoration Master Plan”, mas foi apenas 20 anos depois, com a união de organizações comunitárias e iniciativas públicas e privadas, que o trabalho realmente começou.

Imagem de um trecho do rio Bronx já despoluído
(Foto: New York City Department of Parks & Recreation)

Atualmente a Bronx River Alliance é a principal coordenadora das ações desenvolvidas ali. Ao longo dos últimos anos, foram removidas toneladas de lixo e espécies invasoras do rio, houve controle da erosão nas margens, plantio de mudas de árvores e plantas nativas e a soltura de peixes que viviam nesse ecossistema.

Todo o trabalho feito é baseado em dados e mapas históricos, que mostram como o rio foi no passado.

“Dificilmente conseguiremos ter o mesmo número de peixes que existia aqui antigamente, todavia, mais importante do que ter esse número histórico é ter aqui essas espécies realizando de novo a função essencial que elas possuem nesse ecossistema. Elas são a base dessa cadeia alimentar. São alimento para aves, guaxinis e lontras”, explica Stephen Gephard, biólogo do Departamento de Meio Ambiente de Connecticut.

Da mesma maneira, os golfinhos que agora voltam ao Bronx ajudam a controlar a população de outros animais e trazer equilíbrio para vida no rio.

Segundo o NYC Parks, esta é a primeira vez que os golfinhos chegam ao rio desde 2017, embora outros tenham sido vistos no ano passado no East River, que se conecta ao Bronx.

“Os golfinhos ajudam a fornecer equilíbrio ecológico, evitando que outras espécies se tornem excessivamente abundantes. Além disso, ver golfinhos e saber que eles vivem no parque do seu bairro pode inspirar admiração, curiosidade e orgulho, auxiliando a promover um senso mais profundo de administração do meio ambiente local e estimulando ações para proteger, cuidar e restaurar habitats locais importantes, como o rio Bronx”, ressalta o departamento de parques de Nova York.

*Com informações do NYC Parks e Bronx River Alliance

https://conexaoplaneta.com.br/blog/nova-york-celebra-presenca-de-golfinhos-em-rio-no-bronx-que-no-passado-era-considerado-um-esgoto-a-ceu-aberto/#fechar

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Foto de abertura: Jonas Von Werne on Unsplash (apenas conceitual para mostrar dois golfinhos da mesma espécie avistada no rio Bronx)