quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

 

“Jogamos fora 40% do que é pescado no mundo”, alertam cientistas sobre pesca acidental ou ‘bycatch’

O que o petisquinho à beira-mar pode ter a ver com a ameaça de extinção das tartarugas? É que, para pescar 1 kg de camarão, são capturados outros 21 kg de outros animais, que não eram alvos da pesca. E isso tem ameaçado tartarugas, em especial.

“Elas ficam presas nas redes, não conseguindo retornar à superfície para respirar e morrem afogadas, ou podem deglutir ou se prender em anzóis, o que também compromete o ciclo de vida”, explica Larissa Dalpaz, bióloga do VIVA Instituto Verde Azul.

E esse problema tem nome: bycatch ou captura acidental ou pesca acidental.

Em 2005, a Comissão dos Estados Unidos sobre Política Oceânica (United States Commission on Ocean Policy) declarou a bycatch como a maior ameaça aos mamíferos aquáticos no mundo.

Mais de um milhão de animais vertebrados marinhos morrem, todos os anos, capturados por equipamentos de pesca, acidentalmente. Estima-se que 40% de toda pesca é bycatch. São baleias, golfinhos, focas, tartarugas, raias, tubarões, aves marinhas, peixes e invertebrados capturados “sem querer” e descartados.

“Do ponto de vista da conservação, um dos principais problemas é quando essas capturas acidentais envolvem espécies ameaçadas ou protegidas, como é o caso de baleias, golfinhos, tartarugas, aves, tubarões e raias”, destaca a bióloga.

Stop Bycatch Day

1° de dezembro foi o dia escolhido pela comunidade científica para debater o tema, que virou um movimento: Stop Bycatch Day ou Dia Internacional ‘Pare a Captura Acidental’. O objetivo principal é denunciar e compartilhar a situação atual, cobrar políticas públicas e buscar possíveis soluções.

O consumidor tem papel importante ao decidir comprar alimentos de empresas comprometidas com a pesca responsável. Ou escolher espécies que não estão ameaçadas. Um exemplo clássico é o do cação que, na verdade, é um tubarão cortado em postas.

Comer o animal que é topo da cadeia alimentar dos oceanos significa comprometer seriamente o equilíbrio marinho.

Para Larissa Dalpaz, não consumir ou reduzir o consumo de peixes e frutos do mar é um caminho do ponto de vista individual. Mas os estudiosos são unânimes em dizer que é preciso trabalhar a questão em conjunto com os pescadores.

“Falar sobre capturas acidentais é falar sobre gestão pesqueira, já que esse é um problema que ocorre durante a pesca e que, além de prejudicar os animais, afeta também muitos pescadores. No Brasil, por exemplo, não temos monitoramento pesqueiro nas frotas industriais e nas comunidades artesanais. Assim, além de não se saber o quê e quanto é pescado como espécie-alvo, tampouco sabemos das capturas acidentais”, salienta a pesquisadora.

E a pesca industrial?

exploração desenfreada dos animais marinhos a partir da pesca industrial também já é um sinal de alerta. “Pescar dessa forma tão intensa nos levou a ‘estoques’ de peixes muito reduzidos, por vezes levados à beira da extinção. Assim, para continuar capturando as quantidades capturadas antes, muitas vezes é necessário que se passe muito mais tempo ‘tentando’”. Larissa explica:

“As redes precisam ficar mais tempo na água ou devem ser maiores para, muitas vezes, capturar até menos peixes do que antes, já que há pouca oferta. Como os estoques estão menores, isso faz com que nossa pesca, em geral, seja menos eficiente. E essa ineficiência inclui aumentar as capturas acidentais”.

“Este é um cenário de injustiça e não podemos fingir que não vemos. Injustiça pelos milhões de animais que são mortos e feridos, pelas espécies que estão sendo levadas à extinção. E pela injustiça com comunidades pesqueiras artesanais, que também sofrem as consequências da falta de uma boa gestão pesqueira, tendo seu sustento prejudicado, enquanto frotas industriais e a sobrepesca avançam em nossos mares”, finaliza a bióloga.

Ações e petição

Além de se juntar a diversas entidades para ações em todo o país, este ano, o Viva – instituto Verde Azul lançou uma petição em prol de Políticas Públicas para monitorar e reduzir as Capturas Acidentais no Brasil.

Assine! Este é um problema de todos nós e diz respeito ao presente e ao futuro da humanidade e do planeta.

Foto: NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration)

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Restam 30 cervos-do-pantanal na última população conhecida da espécie no Rio Grande do Sul

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Restam 30 cervos-do-pantanal na última população conhecida da espécie no Rio Grande do Sul 

Restam 30 cervos-do-pantanal na última população conhecida da espécie no Rio Grande do Sul

*Por Aldem Bourscheit 

A última população conhecida do cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) no Rio Grande do Sul está isolada em reservas ambientais na região metropolitana da capital Porto Alegre, onde vivem 4,4 milhões de pessoas. Governo, cientistas e ONGs agem para salvá-la, inclusive recuperando e conectando áreas protegidas pressionadas por caçadores, cachorros e agrotóxicos.

Estendendo-se pelos municípios de Glorinha, Gravataí, Viamão e Santo Antônio da Patrulha, a Área de Proteção Ambiental (APA) do Banhado Grande e o Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos são a tábua de salvação dos últimos 30 cervos pantaneiros no estado mais meridional do país.

A área total protegida tem quase 140 mil hectares, similares à extensão da cidade de São Paulo, mas os animais se concentram nos 2,5 mil hectares do refúgio, onde a presença humana é mais restrita do que na APA. O grupo acabou isolado com a destruição de áreas úmidas pelo agronegócio, urbanização e obras de infraestrutura. Outras pressões assombram seu futuro.

Restam 30 cervos-do-pantanal na última população conhecida da espécie no Rio Grande do Sul

O Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos (amarelo) e a Área de Proteção Ambiental do Banhado Grande (vermelho) estão na vizinhança do município de Porto Alegre (azul)
e abrigam os últimos cervos-do-pantanal no RS
(Mapa: Google Earth/Sema-RS/ObservaPoA/Mongabay)

“Cachorros atacam adultos e filhotes de cervos. As reservas sofrem com a caça de capivaras, jacarés e marrecos, drenagem para agricultura e agrotóxicos”, diz Alexandre Krob, coordenador Técnico e de Políticas Públicas do Instituto Curicaca. A ONG lidera o Programa de Conservação do cervo-do-pantanal no Rio Grande do Sul (Procervo).

Segundo ele, os cervos tentam driblar as ameaças circulando mais sob as árvores, nos fins de tarde e à noite. Em áreas mais preservadas, como o Pantanal, a espécie é facilmente vista à luz do dia. “Também há uma aparente redução de sua estatura em relação a outras populações, mas isso ainda precisa ser comprovado”, destaca Krob.

O cervo-do-pantanal é o maior cervídeo da América Latina. Os machos da espécie podem alcançar 140 quilos e 1,90 de comprimento; ao contrário das fêmeas, eles têm pescoços mais robustos e chifres.

Restam 30 cervos-do-pantanal na última população conhecida da espécie no Rio Grande do Sul

Cervos-do-pantanal registrados nas Unidades de Conservação gaúchas
(Fotos: André Osório Rosa/Sema-RS)

Diretor de Conservação da Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (Sema), Diego Pereira conta que mais de 200 cachorros em loteamentos e fazendas ao redor das reservas foram cadastrados e castrados desde 2018. “Sobretudo animais que estejam passando fome invadem as reservas e atacam variadas espécies”, conta.

Assentamentos na região dos banhados têm produção agroecológica, enquanto outros imóveis pulverizam arrozais com agrotóxicos. Segundo Pereira, contudo, a deriva dos venenos não seria uma ameaça maior aos cervos e às áreas protegidas. “Seu uso foi limitado na região e aplicações devem ser informadas previamente às chefias das reservas”, afirma.

“Mas os venenos podem afetar filhotes de cervos e outras espécies mais sensíveis”, lembra Krob, do Curicaca. Os agrotóxicos também dessecam (queimam) a vegetação natural das áreas preservadas e contaminam a água dos banhados e rios que abastece a vida selvagem e populações humanas nas cidades e no campo.

Restam 30 cervos-do-pantanal na última população conhecida da espécie no Rio Grande do Sul

Lavouras de arroz na APA do Banhado Grande
(Foto: Divulgação/Instituto Curicaca)

Ao contrário de formações usualmente contínuas como florestas, campos e savanas, as várzeas, pântanos e matas paludosas (encharcadas) preferidas pelos cervos são naturalmente isoladas nos grandes cenários naturais. Assim, perpetuar a espécie depende da recuperação e da conexão dessas áreas úmidas.

Para tanto, entidades públicas, privadas e civis do Procervo desenharam um corredor interligando as áreas mais favoráveis à espécie através das duas reservas ecológicas. A medida é associada à restauração de áreas degradadas no passado pela produção rural.

“O Refúgio de Vida Silvestre não pode ser uma ilha. A implantação do corredor será apoiada por uma portaria. Quando efetivado, ele proporcionará um território mais amplo para a circulação e conservação da espécie”, destaca Pereira, da Secretaria do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul. “Perder um indivíduo apenas já é um grande prejuízo pelo tamanho e isolamento da população”, completa.

Além de proteger o cervo e espécies como as aves veste-amarela (Xanthopsar flavus) e noivinha-de-rabo-preto (Heteroxolmis dominicanus), a saúde das Unidades de Conservação melhora a água do Rio Gravataí. O manancial é um dos mais poluídos do Brasil conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sobretudo pelo despejo de esgotos domésticos em seu trecho final, próximo à capital gaúcha.

Projeto do corredor ecológico (hachurado) para o cervo-do-pantanal no Rio Grande do Sul
(Fonte: Plano de Manejo da APA do Banhado Grande)

Fora de seu grande abrigo sul-americano, o Pantanal, a situação dos cervos é alarmante. Pequenos grupos isolados e fragmentados ainda vivem na borda da Amazônia, no leste dos Andes e em banhados na Argentina, como os Esteros del Iberá. E ainda em áreas de São Paulo, Paraná, Goiás, Minas Gerais e Bahia.

As populações brasileiras podem sumir do mapa “em curto espaço de tempo”, reconhece o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Cervídeos Ameaçados de Extinção, do ICMBio. A espécie já foi eliminada do Uruguai, Paraguai, Peru, sul dos estados do Piauí e do Maranhão, porções da Caatinga e outras antigas moradas.

“Sua área de ocorrência atual é de apenas 10% da original”, estima Alexandre Krob, do Instituto Curicaca. As populações do cervo na América do Sul estão vulneráveis e em declínio, alerta a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). A espécie é criticamente ameaçada de extinção em alguns estados brasileiros.

Segundo levantamento inédito realizado este ano, no qual pesquisadores mapearam as alterações de habitat de 145 espécies de mamíferos no mundo, o cervo-do-pantanal teria sido o que mais perdeu território na América do Sul – uma redução de 76%.

No continente sul-americano, o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) e a onça-pintada (Panthera onca) estão entre as espécies que mais tiveram sua distribuição reduzida — com 76% e 40% de perda de seu território, respectivamente.

Distribuição geográfica do cervo-do-pantanal na América do Sul (hoje e originalmente)
(Mapa: UICN/Mongabay)

Grupos de cervos também podem sumir junto com as várzeas que restam na Bacia do Rio Paraná, em parte de estados do Sudeste e do Centro-oeste. A Embrapa Pantanal estima que metade deles já foi eliminada do território. Os grandes vilões são o desmatamento e, novamente, a drenagem de várzeas e outras áreas úmidas pelo agronegócio.

No Brasil, a vegetação natural da Bacia do Paraná encolheu de 225 mil km2 para 182 mil km2 desde 1985, estima o projeto MapBiomas. Os 44 mil km2 perdidos equivalem às áreas do estado do Rio de Janeiro ou da Dinamarca. E a devastação avança nos países que dividem a bacia com o Brasil, a Argentina e o Paraguai, somando ao todo 150 mil kmdestruídos, revela uma reportagem do El País.

*Texto publicado originalmente em 24/11/22 no site do Mongabay Brasil

Foto de abertura: Phillip Capper/Creative Commons

Projeto de conservação de espécies amplia em seis vezes a área de atuação

 BIODIVERSIDADE

Projeto de conservação de espécies amplia em seis vezes a área de atuação

Território de atuação para a estratégia de conservação passou de 9 milhões para mais 62 milhões de hectares em 2022
Publicado em 24/11/2022 15h51 Atualizado em 25/11/2022 18h23
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Fotos: Luiz Filipe Varella (Aechmea winkleri) ; Matheus Volcan (Austrolebias univentripinnis); Rodrigo Lopes Ferreira (Spinopilar moria); Rodrigo B. Singer (Codonorchis canisioi)

AEstratégia Nacional para Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção (Pró-Espécies) do Ministério do Meio Ambiente (MMA) ultrapassou, em mais de seis vezes, a projeção inicial de sua área de atuação, passando de nove milhões para 62 milhões de hectares em 2022. Essa ampliação foi possível graças à conclusão de 11 Planos de Ação Territoriais para Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção (PAT), que detalhou os limites de cada um dos 24 territórios contemplados na iniciativa.

A secretária de biodiversidade do MMA, Julie Messias, explica que outra meta também foi superada, a de avaliação do status de conservação. “Inicialmente seriam avaliadas sete mil espécies entre flora e fauna e até junho de 2022 foram avaliadas 8.761 espécies, sendo 5.511 de fauna e 3.250 de flora” explica Julie.

O novo cálculo foi feito com o auxílio de um software de geoprocessamento e a partir de cada PAT. O trabalho também contou com expedições de campo, que contemplam, prioritariamente, as espécies que constam como criticamente em perigo nas listas de espécies ameaçadas de extinção, e com foco naquelas que não possuem estratégia de conservação. Neste caso, são 173 espécies, sendo 43% de fauna e 47% de flora.

“Esse aumento na área é resultado do trabalho desenvolvido pelos parceiros do projeto, em especial os órgãos estaduais de meio ambiente. Nossa ideia inicial era trabalhar em, pelo menos, nove milhões de hectares, mas quando vamos para a execução e desenvolvimento dos Planos de Ação Territoriais (PAT), é que se tem a real dimensão das áreas que serão trabalhadas. A definição é feita com quem está na ponta”, explica Samuel Schwaida, analista ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

Os documentos são construídos de forma participativa, considerando o ambiente em que habitam, os aspectos socioeconômicos da região. Os pesquisadores identificam as espécies-alvo definidas pelo projeto para mapear e subsidiar as pesquisas, avaliar o status de sua existência e as ações de conservação delas, sendo o ponto de partida para reduzir o risco de extinção e garantir sua sobrevivência. Os planos também são capazes de identificar quais os principais vetores de pressão em cada um dos territórios para ações mais efetivas e que promovam o engajamento de toda a sociedade.

Segundo a coordenadora de projetos do Departamento de Espécies do MMA, Renata Sauerbronn, as expectativas para o próximo ano são diversas. O projeto tem pensado em formas de melhorar a implementação das ações de controle e sensibilização do combate aos crimes contra a fauna e flora, além de consolidar as medidas que foram estabelecidas por meio da Estratégia Nacional de Espécies Exóticas Invasoras (ENEEI) para reduzir o impacto que essas espécies geram na diversidade biológica e nos serviços ecossistêmicos.

Prioridades
A seleção das áreas inseridas no Pró-Espécies levou em consideração fatores como a presença de espécies criticamente ameaçadas, em perigo ou vulnerável e sua localização por bacias hidrográficas. O principal, no entanto, era contemplar territórios que não contavam com instrumento de conservação ou planos de ação.

O Pró-Espécies, lançado em maio de 2018, visa adotar ações de prevenção, conservação, manejo e gestão que possam minimizar as ameaças e o risco de extinção de espécies, especialmente 290 criticamente ameaçadas, que não possuíam políticas públicas de conservação.

O projeto prioriza a integração da União e estados na implementação de políticas públicas e iniciativas que busquem reduzir as ameaças e melhorar a conservação das espécies-alvo. A iniciativa foi estruturada de modo a combater as principais causas de extinção das espécies: perda de habitat, extração ilegal e espécies exóticas invasoras.

O Projeto Pró-Espécies: Todos contra a extinção é financiada pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, da sigla em inglês para Global Environment Facility Trust Fund), sob a coordenação do Departamento de Espécies do MMA. É implementado pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e tem o WWF-Brasil como agência executora. Entre os parceiros estão o ICMBio, Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Órgãos Estaduais de Meio Ambiente.

ASCOM MMA

Meio Ambiente e Clima