quinta-feira, 9 de março de 2023

Governo do Paraná cria quatro novas unidades de conservação, uma delas para ser refúgio dos guarás





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Governo do Paraná cria quatro novas unidades de conservação, uma delas para ser refúgio dos guarás

Governo do Paraná cria quatro novas unidades de conservação, uma delas para ser refúgio dos guarás

O estado do Paraná ganhará quatro novas Unidades de Conservação (UCs) para proteger sua biodiversidade. O anúncio foi feito ontem (08/03) pelo governador em exercício Darci Piana como parte de uma séria de ações e investimentos na conservação ambiental.

As novas unidades de preservação são a Estação Ecológica Tia Chica, em Reserva do Iguaçu, Estação Ecológica Reserva de Bituruna, em Bituruna, Área de Proteção Ambiental (APA) do Miringuava, em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, e o Refúgio da Vida Silvestre das Ilhas dos Guarás, em Guaratuba, no litoral paranaense.

Juntas as quatro UC’s possuem uma área de mais de 5 mil hectares. Segundo comunicado do governo, as estações ecológicas de Bituruna e Reserva do Iguaçu não serão abertas para visitação pública, “por estarem em áreas de recuperação, com florestas de araucária, e estarão voltadas para a preservação desses ambientes. Serão permitidas nesses locais as atividades de pesquisa e educação ambiental”.

Já a APA de Miringuava será uma unidade de conservação de uso sustentável com o objetivo de proteger os mananciais responsáveis pelo abastecimento de água da capital e região metropolitana.

E o Refúgio da Vida Silvestre das Ilhas dos Guarás tem como principal meta proteger essas lindíssimas aves, que dão nome ao município de Guaratuba. Já escrevi várias reportagens aqui no Conexão Planeta sobre esses animais, entre elas, “De um a milhares em uma década, a história do incrível retorno do guará ao litoral paranaense“.

Por 80 anos, a ave vermelho escarlate sumiu completamente da Baía de Guaratuba. Mas no dia 23 de junho de 2008 um pescador relatou: “Eu vi um guará…”.

Desde então, esforços de conservação, realizados sobretudo pelas ações do Instituto Guaju, têm garantido que o guará permaneça na região, em um ambiente saudável e protegido.

“O refúgio preserva o local de dormitório dessas e outras aves. Estamos dando um regramento para que as pessoas possam observar esses animais, mas de forma sustentável”, diz Rafael Andreguetto, diretor de Patrimônio Natural do Instituto Água e Terra (IAT).

As recém-criadas Unidades de Conservação se juntarão a outras 70 já existentes no Paraná. “Atuamos sempre com o objetivo de fazer com que essas unidades não sejam ilhas, não fiquem isoladas e possam proporcionar uma visitação, quando isso é permitido, com sinalização e apoio aos visitantes para que a gente possa desenvolver o turismo de natureza no Paraná”, ressalta Everton Souza, diretor-presidente do IAT.

Durante a cerimônia da quarta-feira, o governador em exercício também fez a entrega simbólica de 23 novos veículos, além de equipamentos para manejo e notebooks, para serem usados no trabalho de fiscalização e monitoramento dessas áreas de conservação.

Além disso, foi anunciada ainda a produção de um livro fotográfico sobre as Unidades de Conservação do Paraná. A obra será de autoria do fotógrafo Zig Koch, um colaborador muito querido do nosso site, um dos autores do blog coletivo Por Trás das Câmeras.

“A ideia é tentar envolver o humano à conservação, para fugir da velha retórica que da cerca para cá eu faço o que eu quero e da cerca para lá ninguém mexe. É ter uma integração entre o ser humano com a natureza”, revelou Zig.

Governo do Paraná cria quatro novas unidades de conservação, uma delas para ser refúgio dos guarás

Medindo entre 50 e 60 cm, o guará possui bico fino, longo e
levemente curvado para baixo

*Com informações da assessoria de comunicação do Governo do Paraná

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Foto de abertura: Edgar Fernandez/Instituto Guaju

Reconexão de habitats pode salvar milhões de anfíbios, que estão sendo dizimados por fungo letal

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Reconexão de habitats pode salvar milhões de anfíbios, que estão sendo dizimados por fungo letal

Reconexão de habitats pode salvar milhões de anfíbios, que estão sendo dizimados por fungo letal

*Por Sean Mowbray
Traduzido por Carol De Marchi e André Cherri

fragmentação do habitat em florestas tropicais está aumentando a incidência de doenças fatais em sapos, rãs e pererecas, diz um estudo recentemente publicado na revista Biological Reviews. Conforme explicou à Mongabay o principal autor do estudo, Gui Becker, biólogo da Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA), a divisão do habitat ocorre quando múltiplas classes de habitat importantes para algumas espécies de anfíbios, como florestas, riachos e lagoas, são separadas.

Em trabalhos anteriores, Becker e colegas já haviam concluído que essa fragmentação era uma força motriz por trás das extinções locais de anfíbios na altamente fragmentada Mata Atlântica. Entretanto, uma ligação entre a divisão do habitat e a morte por doenças não havia sido considerada na época. O fungo Batrachochytrium dendrobatidis é particularmente preocupante, pois está ligado ao declínio populacional no Brasil e à perda de espécies anfíbias em todo o mundo. Também conhecido como Bd, este fungo pode causar a quitridiomicose, doença potencialmente fatal.

Reconexão de habitats pode salvar milhões de anfíbios, que estão sendo dizimados por fungo letal

Fragmento de floresta na Mata Atlântica do Brasil
(Foto: Gui Becker/divulgação)

Becker e sua equipe, realizando testes em vários locais da Mata Atlântica, descobriram que a divisão do habitat estava ligada a maiores cargas de infecção pelo fungo durante a época de reprodução. Além disso, à medida que a distância entre a floresta e os corpos d’água aumenta, também crescem os casos de quitridiomicose. “Essa é a ligação da doença que encontramos com a divisão do habitat”, explica Becker.

De acordo com o novo estudo, a passagem de um anfíbio por um habitat alterado para completar seu ciclo de vida poderia impactar a espécie de três formas primárias: alterando o microbioma de uma espécie (a composição de bactérias que habitam sua pele); induzindo estresse crônico; e reduzindo a diversidade dos genes imunológicos. Todos estes efeitos poderiam impactar negativamente a resistência a doenças, embora a teoria exija testes.

Para Andrea Jani, pesquisadora da Universidade do Havaí (EUA), o trabalho oferece uma “distinção sutil, mas importante” em relação às questões que envolvem a fragmentação do habitat e possíveis soluções de conservação: “A análise sugeriu que o tamanho do fragmento de habitat é menos importante do que o grau de divisão do habitat”, afirma Jani, que não se envolveu no estudo. “Em outras palavras: em alguns casos, a distância entre dois pedaços de habitat pode ser mais importante para a conservação da espécie do que o tamanho de um determinado pedaço de habitat”, ou seja, uma maior distância percorrida de um lugar para outro potencialmente contribui para a suscetibilidade a doenças.

Na opinião da pesquisadora, “o fato e a maneira como a divisão do habitat leva ao aumento do risco de doenças” também dependerá de uma série de fatores, incluindo as espécies em questão, o patógeno e o tipo de habitat.

Reconexão de habitats pode salvar milhões de anfíbios, que estão sendo dizimados por fungo letal

Espécies como o Aplastodiscus leucopygius, sapo endêmico das serras do Mar e da Mantiqueira de reprodução aquática, que dependem de diferentes tipos de habitat para seu ciclo de vida, podem sofrer com desequilíbrios no microbioma da pele, alteração na imunidade e estresse crônico
(Foto: Gui Becker/divulgação)

“O que realmente me agradou no estudo foi que eles analisaram as respostas imunológicas e isso é algo que não é realizado com frequência”, diz Dennis Rödder, do Instituto Leibniz de Análise da Mudança da Biodiversidade, na Alemanha.

Rödder, que não participou no estudo, acrescenta que a prevalência de doenças e cargas de infecção são frequentemente investigados, mas não tanto os hormônios de estresse e o papel do microbioma. “É algo que as pessoas estão apenas começando [a explorar], e nós precisamos de muito mais informações sobre isso.”

Segundo Trent Garner, pesquisador do Instituto de Zoologia de Londres, no Reino Unido, é possível que a divisão do habitat poderia impactar a imunidade e desencadear respostas ao estresse, mas ele é mais cético quanto ao impacto sugerido sobre o microbioma.

“Digo isso porque, em minha experiência, os anfíbios inevitavelmente experimentam instabilidades microbianas que se movem da terra para a água, e de volta”, explica ele. Garner não estava envolvido na pesquisa, mas reviu o artigo. “Acho mais difícil entender como as instabilidades migratórias adicionais são uma grande força por trás das instabilidades microbianas que afetam as doenças”.

A perereca-de-capacete-do-rio-pomba (Nyctimantis pomba) é uma espécie endêmica da Zona da Mata mineira que possui baixa diversidade microbiológica em sua pele. A possível relação entre o grau de ameaça de uma espécie e a diversidade de bactérias em sua pele necessita ser mais explorad
(Foto: Pedro Peloso/Projeto DoTS)

Investigando o microbioma dos anfíbios

A compreensão da dinâmica das doenças é uma das chaves para a sobrevivência dos anfíbios ao redor do mundo, dizem os pesquisadores, particularmente nos trópicos. O fungo Bd, por exemplo, está ligado a declínios em mais de 500 espécies de anfíbios em todo o planeta, com base em pesquisas anteriores.

“O risco de doenças para os anfíbios não pode ser subestimado”, afirma Jani. “Pesquisadores e gestores de conservação têm se esforçado para encontrar maneiras de evitar o declínio de anfíbios produzido por bactérias, mas até agora não temos uma solução sólida para as populações selvagens. Parte do problema é que o patógeno pode sobreviver no meio ambiente.”

É cada vez mais reconhecido que um microbioma anfíbio saudável pode desempenhar um papel importante na proteção contra infecções, embora ainda existam lacunas significativas de conhecimento.

Pesquisas anteriores conduzidas por Jackson Preuss, biólogo da Universidade do Oeste de Santa Catarina, descobriram que a suinocultura disseminada na paisagem fragmentada da Mata Atlântica catarinense pode aumentar o risco de doenças para os anfíbios que ali vivem. Neste cenário, os anfíbios podem deixar fragmentos de floresta em busca de cursos d’água e lagoas artificiais para se reproduzirem. Mas a entrada nestes habitats aquáticos alterados, onde os dejetos de suínos são descartados, “altera as comunidades microbianas da pele dos hospedeiros anfíbios tropicais, aumentando assim potencialmente o risco de quitridiomicose”, afirma o pesquisador.

“Nossas descobertas indicam que, ao interromper os processos naturais de organização e função microbiológica, as descargas de resíduos da criação integrada de suínos e peixes podem aumentar a pressão da doença em hospedeiros nativos que dependem de tanques artificiais para a persistência da população”, explica Preuss.

Reconexão de habitats pode salvar milhões de anfíbios, que estão sendo dizimados por fungo letal

Em áreas com criação intensiva de suínos, descarte de dejetos em cursos d’água pode aumentar risco da quitridiomicose entre anfíbios tropicais
(Foto: Jackson Preuss/divulgação
)

Outro estudo recente de Becker levantou ainda mais questões relacionadas ao papel do microbioma na diminuição dos anfíbios. Analisando um banco de dados de diversidade microbiana em espécies ameaçadas e não ameaçados no Brasil e em Madagascar, a equipe do pesquisador descobriu que as aquelas à beira da extinção tinham níveis mais baixos de diversidade microbiana do que suas contrapartes não ameaçadas.

Neste caso, porque o cientista olhou para os habitats naturais em vez de habitats divididos, seu time levantou uma questão “o ovo ou a galinha” sobre se o status de perigo veio primeiro, seguido por níveis mais baixos de diversidade microbiana, ou se este possível declínio microbiano veio primeiro e então contribuiu para o status de perigo.

“Não há como saber, com base nos dados que temos”, disse ele. “Mas o padrão em si é bastante interessante. Especialmente porque estamos olhando para a biodiversidade e múltiplas escalas de organização biológica [em declínio] ao mesmo tempo.”

Qualquer que seja a sequência causal apropriada, Becker e seus coautores ressaltam que os padrões em torno do status ameaçado e do declínio microbiano levantam uma possível bandeira vermelha. Seus resultados poderiam indicar “baixa resistência a patógenos invasores” nessas espécies ameaçadas de extinção.

Gephyromantis corvus, a frog confined to a small range in Madagascar.

Pesquisas recentes descobriram que anfíbios tropicais em perigo, tais como a rã Gephyromantis corvus, confinada a uma pequena área de Madagascar, têm uma diversidade microbiológica menor em comparação às espécies não ameaçadas
(Foto: Franco Andreone via Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.5)

Preparar imunidade para múltiplas espécies?

Embora todos concordem que há necessidade de mais pesquisas para testar a hipótese de divisão de habitat, Becker acredita que o conhecimento já adquirido poderia levar os projetos de conservação a pensar em modos de restaurar e conectar múltiplos habitats terrestres e aquáticos – como uma forma imunizar contra doenças “através da exposição repetida de baixa carga a patógenos endêmicos e redução da imunossupressão induzida pelo estresse”.

“Pensamos que, se há florestas, vamos conectar as florestas. Mas no caso dos sapos, há mais do que floresta”, explica. Para alguns anfíbios, por exemplo, pode ser o caso de olhar além dos fragmentos e conectar as zonas ribeirinhas ou conectar seus locais de reprodução.

As descobertas também podem iluminar questões similares em outras espécies, provocando um reexame de qualquer uma que dependa de diferentes tipos de habitat como parte de seu ciclo de vida, e fazendo com que os pesquisadores procurem vulnerabilidades impulsionadas pela divisão do habitat.

Embora os potenciais efeitos prejudiciais da divisão do habitat sejam preocupantes do ponto de vista da conservação, compreender melhor a questão também poderia oferecer possibilidades de restauração, embora “ainda não estejamos lá”, adverte Becker.

“O bom é que estamos trabalhando para poder, talvez, restaurar paisagens que favoreçam microbiomas saudáveis [e] a diversidade genética imunológica”, acrescenta o pesquisador. O estudo recente oferece um “primeiro passo para as pessoas começarem a pensar que um projeto de restauração também pode ser uma maneira de aperfeiçoar o sistema imunológico hospedeiro e reduzir o risco de doenças em cada animal que precisa de múltiplos ambientes para completar seu ciclo de vida”.

Quando se trata de anfíbios, Rödder concorda que essa é uma possibilidade interessante, mas reitera que muito mais precisa ser aprendido sobre como os microbiomas respondem à modificação do habitat em diferentes ecossistemas.

“A maioria dos ecologistas e conservacionistas argumentam que a conectividade facilita a transmissão de doenças através do movimento do hospedeiro”, diz Garner. “Pessoalmente, gosto de posições contrárias, e espero que Becker e seus parceiros possam gerar evidências que sustentem esta mudança de visão”.

*Texto publicado originalmente em 03/03/23 no site do Mongabay Brasil
Todas as fotos incluídas no texto e seus direitos autorais e menções são de total responsabilidade do Mongabay Brasil

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