No Brasil, os recifes de coral se distribuem por aproximadamente 3 mil
quilômetros de costa, do Maranhão ao sul da Bahia, representando as
únicas formações recifais do Atlântico Sul.
Nessa área existem unidades de conservação federais,
estaduais e municipais que protegem uma parcela significativa desses
ambientes. Mas, no geral, esses sensíveis ecossistemas vêm sofrendo um
rápido processo de degradação por causa das atividades humanas.
Para
reverter esse quadro, o Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente,
aprovou o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Ambientes
Coralíneos – PAN Corais. A portaria que oficializa o plano foi publicada
em março no Diário Oficial da União (DOU).
Além de melhorar o
estado de conservação dos ambientes coralíneos por meio da redução dos
impactos antrópicos (produzidos pelo homem) e da ampliação da proteção e
do conhecimento, o PAN Corais busca conservar 52 espécies de peixes e
invertebrados aquáticos ameaçadas de extinção, entre elas anêmonas e
cavalos-marinhos.
Dez objetivos e 146 ações – Para isso, foram
definidas 146 ações, distribuídas em dez objetivos específicos, que
deverão ser realizadas no prazo de cinco anos. Essas ações serão
desenvolvidas em 18 áreas-foco, ao longo do litoral brasileiro,
incluindo regiões no interior da Zona Econômica Exclusiva, além do mar
territorial, do Maranhão até Santa Catarina.
Todo esse trabalho
será coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da
Biodiversidade Marinha do Sudeste e Sul (Cepsul), do ICMBio, e pela ONG
Instituto Coral Vivo, com supervisão da Coordenação Geral de Manejo para
Conservação, da Diretoria de Pesquisa, Avaliação e Monitoramento da
Biodiversidade (CGESP/DIBIO), também do ICMBio.
De acordo com a
portaria, o PAN Corais será monitorado anualmente, para revisão e ajuste
das ações, com uma avaliação intermediária prevista para o meio da
vigência do plano e avaliação final ao término do ciclo de gestão.
No
dia 15 de março, a presidência do ICMBio publicou nova portaria,
definindo o Grupo de Assessoramento Técnico do PAN Corais, composto por
21 membros, que vai auxiliar no acompanhamento da implementação das
ações. Ainda este ano, serão editados o sumário executivo e o livro do
PAN, contendo diferentes dimensões de diagnóstico e planejamento dos
trabalhos.
Diálogo e articulação – “O PAN Corais é o produto de
um amplo processo de diálogo e articulação entre pesquisadores,
pescadores, ONGs e outros setores da sociedade, constituindo-se em uma
ferramenta muito importante de planificação de ações de conservação
deste ecossistema tão ameaçado”, disse Roberta Aguiar dos Santos, do
Cepsul e coordenadora do PAN Corais.
Segundo ela, para que o
plano tenha êxito, é fundamental o envolvimento das mais diferentes
instâncias de governo, conselhos e fóruns de elaboração e deliberação de
políticas públicas. “Isso demandará um esforço coletivo dos
articuladores das ações propostas e de um conjunto cada vez maior de
pessoas e instituições”, afirmou.
Para Clovis Castro, coordenador
executivo do PAN e do projeto Coral Vivo e professor do Museu
Nacional/UFRJ, o plano abre uma nova etapa para ações de conservação e
uso sustentável dos ambientes coralíneos, representando o amadurecimento
coletivo e evolução de iniciativas anteriores do governo e da sociedade
brasileira.
“O processo de construção do PAN Corais abordou
todas os principais temas relacionados à conservação desses
ecossistemas, como pesca sustentável, pesquisa, poluição, turismo,
espécies exóticas, mudanças do clima e da qualidade da água. Seu
conteúdo sinaliza ações prioritárias a serem realizadas nesses
ambientes, podendo ser utilizado para direcionar os esforços de órgãos
governamentais, agentes financiadores, instituições de pesquisa,
organizações não-governamentais e outros”, disse Castro.
O plástico, em forma de garrafas, sacos ou tampas, é o principal
depredador dos oceanos, denunciou nesta terça-feira a ONG Surfrider após
um estudo de contaminação em cinco pontos da costa francesa e
espanhola.
Com a ajuda de centenas de
voluntários, a ONG realizou em 2015 em várias zonas da Grã-Bretanha e do
País Basco um estudo dos resíduos que contaminam as praias, a costa e
os fundos marinhos, no âmbito de um projeto de alcance europeu.
“Todos
os dias oito milhões de toneladas de resíduos acabam no oceano. E 80%
da poluição de nossos mares é de origem terrestre e consequência da
atividade humana, com repercussões terríveis na biodiversidade e no
conjunto de nosso meio ambiente”, afirma o presidente da Surfrider
Foundation Europe, Gilles Asenjo, em um comunicado.
Segundo a
ONG, o plástico constitui “mais de 80%” dos resíduos nos cinco lugares
do estudo. É o caso da praia de Burumendi, em Mutriku (Espanha), onde
96,6% dos 5.866 resíduos recolhidos são de plástico ou de poliestireno.
Na praia de La Barre, em Anglet (França), a proporção é de 94,5% de um total de 10.884 resíduos. O
plástico e o poliestireno também estão presentes em abundância na praia
de Porsmilin da localidade francesa de Locmaria-Plouzané (83,3%, 2.945
resíduos).
A proporção é muito menor na praia de Murguita de San
Sebastián (Espanha), onde há 61% de plástico e de poliestireno, mas
também 18% de vidro.
E na praia de Inpernupe, em Zumaia
(Espanha), cerca de metade dos resíduos são vidro (47,9%) e 29,1% são
plástico e poliestireno.
Além de plástico, os voluntários também
encontraram nos cinco locais do estudo cordas e redes de pesca, guimbas
de cigarro, recipientes de comida, tampas, garrafas de vidro e de
plástico, sacos e fraldas. Em cada lugar, a Surfrider estabeleceu uma
lista dos dez principais resíduos.
As políticas ambientais brasileiras dos próximos anos terão as ações de
reflorestamento como prioridade. O Ministério do Meio Ambiente (MMA) e a
Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) reiteraram nesta
quarta-feira (13/04), em Brasília, os esforços para manter as ações de
restauração florestal e sustentabilidade na região. Ao todo, oito países
com territórios dentro do bioma fazem parte da OTCA.
O
anúncio ocorreu na abertura do I Seminário Regional para Países Membros
da OTCA sobre Desmatamento Ilegal, promovido pelo MMA até sexta-feira
(15/04). O secretário-executivo do MMA, Carlos Klink, afirmou que, além
do combate ao corte ilegal de vegetação, o Brasil se concentrará em
políticas de restauração. “Queremos ser, também, o país do
reflorestamento”, destacou Klink.
Integrantes da OTCA, Bolívia,
Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela
compartilham essas iniciativas. A secretária-geral da Organização,
Jacqueline Mendoza Ortega, explicou que a parceria e o compartilhamento
de políticas desenvolvidas pelas oito nações são essenciais. “O projeto
de monitoramento da OTCA é pioneiro e inaugura a perspectiva de
integração para o combate ao desmatamento ilegal na Amazônia”, declarou.
Desafio
- O objetivo é manter a sequência de redução das taxas de desmatamento
ilegal no país. No ano passado, a queda foi de 79% em relação aos
índices registrados em 2004, quando foi instituído o Plano de Ação para
Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). “A
conjuntura é desafiadora. Mas temos, do nosso lado, a tecnologia e a
cooperação”, exemplificou a presidente do Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Marilene Ramos.
Aliada
ao combate ao desmatamento ilegal, a intenção é estabelecer uma
economia baseada no valor da floresta em pé. “Os resultados das
políticas têm uma importância global”, ressaltou o secretário-executivo
do MMA, Carlos Klink. Segundo ele, serão desenvolvidas ações voltadas
para a conservação da biodiversidade e para o estabelecimento da
bioeconomia. “É possível trabalhar a proteção juntamente com a produção
de riquezas”, acrescentou.
[EcoDebate]
O processo de extinção está relacionado ao desaparecimento de espécies
ou grupos de espécies em um determinado ambiente ou ecossistema.
Semelhante ao surgimento de novas espécies, a extinção é um evento
natural: espécies surgem por meio de eventos de especiação com longo
isolamento geográfico, seguido de diferenciação genética, ou desaparecem
devido a eventos de extinção como catástrofes naturais ou surgimento de
competidores mais eficientes.
Normalmente o surgimento e a extinção de espécies são eventos
extremamente lentos, demandando milhares ou mesmo milhões de anos para
ocorrer.
Um exemplo disso foi a extinção dos dinossauros, ocorrida
naturalmente há milhões de anos, muito antes do surgimento da espécie
humana, ao que tudo indica devido à alterações climáticas decorrentes da
queda de um grande meteorito. Ou a presença de predadores que se
alimentavam dos ovos. Não há consenso sobre isto.
Ao longo do tempo, porém, o homem vem acelerando muito a taxa de
extinção de espécies, a ponto de ter-se tornado o principal agente do
processo de extinção. Em parte, essa situação deve-se ao mau uso dos
recursos naturais, o que tem provocado um novo ciclo de extinção de
espécies, agora sem precedentes na história geológica da terra.
As principais causas de extinção são a degradação e a fragmentação de
ambientes naturais, resultado da abertura de grandes áreas para
implantação de pastagens ou agricultura convencional, extrativismo
desordenado, expansão urbana, ampliação da malha viária, poluição,
incêndios florestais, formação de lagos para hidrelétricas e mineração
de superfície.
Estes fatores reduzem o total de habitats disponíveis às espécies e
aumentam o grau de isolamento entre suas populações, diminuindo o fluxo
gênico entre estas, o que pode acarretar perdas de variabilidade
genética e a extinção de espécies.
Outra causa importante que leva espécies à extinção é a introdução de
espécies exóticas, ou seja, aquelas que são levadas para além dos
limites de sua área de ocorrência original.
Estas espécies, por suas vantagens competitivas e favorecidas pela
ausência de predadores e pela degradação dos ambientes naturais, dominam
os nichos ocupados pelas espécies nativas.
Com o aumento do comércio internacional, muitas vezes indivíduos são
transportados para áreas onde não encontram predadores naturais, ou
ainda, onde são mais eficientes que as espécies nativas no uso dos
recursos.
Dessa forma, multiplicam-se rapidamente, ocasionando o empobrecimento
dos ambientes, a simplificação dos ecossistemas e a extinção de
espécies nativas.
Espécies ameaçadas são aquelas cujas populações e habitats estão
desaparecendo rapidamente, de forma a colocá-las em risco de tornarem-se
extintas.
A conservação dos ecossistemas naturais, de sua flora, fauna e dos
microrganismos, garante a sustentabilidade dos recursos naturais e
permite a manutenção de vários serviços essenciais à manutenção da
biodiversidade.
Que são a polinização, a reciclagem de nutrientes, a fixação de
nitrogênio no solo, a dispersão de propágulos e sementes, a purificação
da água e o controle biológico de populações de plantas, animais,
insetos e microrganismos, entre outros.
Esses serviços garantem o bem estar das populações humanas e
raramente são valorados economicamente como deviam. Já se disse várias
vezes, meio ambiente para a economia clássica é uma “externalidade”.
A conservação da biodiversidade brasileira para as gerações presentes
e futuras e a administração do conflito entre a conservação e o
desenvolvimento não sustentável são, na atualidade, os maiores desafios
do Ministério do Meio Ambiente (MMA).
O MMA tem enormes responsabilidades em relação às espécies ameaçadas
de extinção. Em primeiro lugar, destaca-se a elaboração das listas das
espécies ameaçadas, com a finalidade de quantificar o problema e
permitir o direcionamento de ações para solucioná-lo.
Em segundo, a proteção e a recuperação dessas espécies. E em
terceiro, e derradeiro, o desenho de um modelo de desenvolvimento que
assegure a utilização sustentável dos componentes da biodiversidade.
Estes objetivos não podem, entretanto, ser alcançados individualmente por um ministério ou isoladamente pelo governo.
Mas somente por meio de uma efetiva aliança e de uma consertação
nacional, que deve envolver as esferas de governo federal, estadual e
municipal, além dos setores acadêmico-científico, não-governamental,
empresarial e a cidadania em geral.
Dr. Roberto Naime,
Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental.
Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade
Ambiental da Universidade Feevale.
Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.
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Pesquisadores
da Universidade de Stanford concluem que leis ambientais inconsistentes
na América do Sul abrem brechas para o avanço do desmatamento na região
Controlar o desmatamento requer harmonização de leis em diferentes países
Empresas agrícolas que estão fortemente ligadas ao desmatamento
preferem operar em áreas com menores restrições ambientais, aponta um
estudo publicado em 28 de Março na revista Proceedings of the National
Academy of Sciences.
A pesquisa da Universidade de Stanford – Escola de
Ciências Ambientais, Energia e Terra , conduzida pelo professor Eric
Lambin e sua equipe, também aponta que as empresas geralmente preferem
atuar em áreas com baixa aplicação e fiscalização das leis.
Essas
tendências podem levar o desmatamento a migrar de uma região para outra.
Os autores concluem que isso pode ser evitado por meio da padronização
das regulamentações em diferentes países e, simultaneamente, com o
incentivo à intensificação sustentável da agricultura.
“Os estudos sugerem que, comparado com o ano 2000, serão necessários,
pelo menos, mais 100 milhões de hectares de terras agrícolas para
atender à demanda global por alimentos até 2030”, disse o Prof. Lambin,
que também é professor do Stanford Woods Institute for the Environment.
“Portanto, é primordial encontrar maneiras para atender essa demanda sem
destruir os ecossistemas naturais.”
Algumas políticas de conservação parecem funcionar, mas os sinais
podem ser enganadores. Há indícios de que a imposição de limites na
expansão de commodities como soja e carne em um local podem simplesmente
resultar no avanço do desmatamento em outros locais. Esse fenômeno,
conhecido como vazamento de desmatamento, poderia ter importantes
implicações para políticas públicas, mas atualmente esses processos
permanecem amplamente ignorados.
As terras da região do Grande Chaco e Chiquitano, que abrangem
Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai proporcionam um experimento
natural para a análise de processos de vazamento de desmatamento. O uso
da terra nestas áreas permaneceu em grande parte não regulamentado até
meados da década de 2000. Posteriormente, a criação de novas políticas
públicas estabeleceu diferenças regulatórias significativas entre as
regiões que compõe o Grande Chaco e o Chiquitano.
Para analisar como as empresas direcionaram seus investimentos nas
regiões do Grande Chaco e Chiquitano, foram realizadas entrevistas com
82 empresas de soja e gado na Argentina, Bolívia e Paraguai, cujas
propriedades somam 2,5 milhões de hectares. Os pesquisadores
questionaram o quanto as regras contra o desmatamento afetaram o destino
de seus investimentos e se a falta de padrão e diferenças nessas leis
abriram brechas para os vazamentos de desmatamento.
Os pesquisadores descobriram que essas decisões foram tomadas
influenciadas predominantemente pela proximidade com investimentos
preexistentes feitos pelas empresas e a disponibilidade de terras com
florestas, mas regiões com leis menos severas sobre o desmatamento foram
efetivas em atrair empresas agrícolas mais fortemente associadas ao
desmatamento.
“Embora os efeitos da regulamentação do desmatamento nas decisões de
investimentos possam ter sido minimizados por outros fatores, eles ainda
continuam significativos”, diz Yann le Polain de Waroux, pesquisador
pós-doutorado da Stanford University School of Earth, Energy, and
Environmental Sciences. “Para evitar mais vazamento de desmatamento,
precisaríamos de uma maior harmonização das leis contra desmatamento
causado pela expansão de commodities em todas as regiões, e de práticas
de pecuária mais eficiente e sustentável.”
Essa última solução é proposta porque a prática da pecuária mais
eficiente e sustentável pode resultar em maior produtividade e
rentabilidade em regiões com políticas públicas mais rigorosas que, por
sua vez, poderiam reduzir o ímpeto das empresas em migrar para outras
regiões.
A auto-regulamentação pelos setores agropecuário e financeiro para
implementar padrões de sustentabilidade pode contribuir diretamente para
a harmonização das leis em todas as regiões.
“Se as empresas internacionais e os bancos adotassem padrões
harmonizados de sustentabilidade em todos os países em que atuam, o
vazamento de desmatamento seria menos comum”, diz o Dr. Le Polain. Nos
últimos anos, tem acontecido uma onda de compromissos corporativos e com
investidores para remover o desmatamento nas cadeias de abastecimento e
carteiras de investimento.
O Consumers Goods Forum (CGF), um grupo de
varejistas e marcas com uma receita combinada de mais de USD 2,8
trilhões (R$ 10,2 tri), que incluem gigantes como Unilever e Walmart,
está comprometido em alcançar o desmatamento zero em suas cadeias
produtivas até 2020.
Dez bancos estão alinhando seus objetivos com o
compromisso do CGF, e também pretendem alcançar o desmatamento líquido
zero até 2020, como parte do Soft Commodities Compact ligados à
Iniciativa Bancária Ambiental (Banking and Environment Initiative –
BEI). Outras empresas como a Cargill e McDonalds estão comprometidas com
o desmatamento zero como parte da Declaração de Nova Iorque sobre as
Florestas, de 2014.
“O movimento de redução de desmatamento está crescendo entre os
grandes varejistas e compradores globais da cadeia de soja e carne, e os
nossos resultados sugerem que a harmonização de padrões entre essas
empresas poderiam contribuir no alcance a meta de desmatamento zero”,
conclui o Prof. Lambin.
Esta pesquisa recebeu o apoio da Fundação Gordon e Betty Moore por
meio da concessão GBMF4263. Para ver a pesquisa completa, acesse:
Colaboração de Tiago Lopes, in EcoDebate, 13/04/2016
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reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à
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No último dia 10 de Abril ativistas de várias partes do mundo
realizaram uma ação em vários matadouros para expor o especismo e o
horror das cargas vivas pelas rodovias.
Vários grupos se organizaram para fecharem rodovias e saídas de
matadouros em várias partes do mundo como Espanha, França, Itália,
Venezuela, Israel, Estados Unidos, Canadá, Londres e vários outros. Fonte: Vozes em Luto
Já imaginou como seria uma ave com corpo de pinguim, bico
de papagaio, pé de pato e ainda topete louro? Aposto que não. Mas essa
ave existe e tem o nome de papagaio-do-mar-de-tufos (Fratercula cirrhata).
Ele é considerado uma das aves marinhas mais lindas e diferentes do
mundo e não é tão fácil encontrá-lo. Eu precisei viajar até o Alasca,
nos Estados Unidos, para observar um exemplar desta espécie!
O
papagaio-do-mar-de-tufos é uma das aves marinhas mais bonitas do mundo!
Este eu fotografei no Alasca, nos Estados Unidos. (foto: Andrea
Schmidt)
A viagem longa valeu a pena. Essa região, famosa pelo clima muito
frio e paisagens cheias de gelo, tem uma primavera muito bonita. Na ilha
de São Paulo, que fica próximo ao litoral e tem pouquíssimos habitantes
humanos – cerca de 500! –, a natureza guarda boas surpresas para essa
estação do ano.
Além do papagaio-do-mar-de-tufos, podemos observar por lá um parente seu, o papagaio-do-mar-de-chifres (Fratercula corniculata).
Ele ganhou esse nome porque possui, acima dos olhos, duas pequenas
estruturas pontudas que lembram os chifres de alguns mamíferos. Seu bico
é de um colorido incrível e as patas, de um laranja chocante!
Como
seu parente “topetudo”, o papagaio-do-mar-de-chifres também é um belo
animal. Suas cores vibrantes atraem a gulosa raposa-do-ártico e, para
escapar, a ave precisa construir ninhos em locais inacessíveis para
outros bichos, como fendas em enormes penhascos. (foto: Andrea Schmidt)
Você pode estar se perguntando se essas cores vibrantes e esses
apetrechos na cabeça não atraem atenção de predadores. Bem, essa é a
pergunta que todos fazem quando encontram com essas simpáticas aves. A
resposta é boa: na verdade, a única ameaça para essa espécie na ilha de
São Paulo são as raposas-do-ártico (Vulpes lagopus). Como vivem
em regiões com duras condições climáticas, elas caçam qualquer coisa
que esteja disponível, incluindo aves e seus ovos.
Felizmente para os papagaios-do-mar, eles se adaptaram bem à região,
adquirindo o hábito de construir seus ninhos em lugares inacessíveis
para outros animais, como fendas nas rochas de enormes penhascos.
Escapam, assim, de virar jantar de raposa! Sem sucesso na caça às aves, o
predador caça pequenos roedores silvestres encontrados na ilha.
Outras espécies curiosas
O Alasca é lar de muitas outras espécies curiosas de aves, como a alca-de-crista (Aethia cristatella).
Ela possui um engraçado topete em sua testa, logo acima dos olhos, que
diminui durante os meses de inverno. E tem mais: na época de reprodução,
a pequenina ave produz um odor semelhante à tangerina, que serve para
atrair um parceiro.
O segredo da alca-de-crista para atrair um parceiro está no cheirinho parecido com tangerina! (foto: Andrea Schmidt)
Já a alca-pequena (Aethia pusilla), como o nome diz, é ainda
menor em tamanho. Suas asas são tão pequenas que precisam batê-las
freneticamente para voar, aparentando que vão cair a qualquer momento.
Esta é a espécie de ave marinha mais abundante da América do Norte e uma
das mais abundantes do mundo.
Voltando para casa
Essas e outras aves marinhas, embora tenham o Alasca como lar, não
passam o ano todo por lá. Como dissemos, a região é muito fria e, nos
meses de inverno, as aves voam para o alto mar, onde passam oito meses
por ano sem colocar os pés no chão – ficam apenas boiando na superfície
da água ou voando sem um destino certo.
A alca-pequena é uma das espécies mais abundantes da América do Norte. (foto: Andrea Schmidt)
Especialistas ainda não sabem explicar para onde elas vão, mas uma
coisa é certa: a primavera é época de voltar para casa! Todos os anos, a
chegada da primeira ave marinha na ilha de São Paulo é comemorada pela
população local e pelos turistas com pulos de alegria, seguido de longas
horas de observação com binóculos para melhor entender o comportamento e
biologia dessas curiosas aves.
Andrea Schmidt,
Desde pequena sou apaixonada por animais. Por isso, decidi ser
bióloga e fotógrafa de animais silvestres. Adoro viajar e compartilhar
minhas fotos com vocês!
Heróis nem sempre usam capa, equipamentos complicados ou
superpoderes. Alguns possuem habilidades simples, mas que, quando bem
utilizadas, salvam milhares de vidas. É o caso dos ratos da organização
Apopo, dotados de uma incrível capacidade olfativa – ou seja, habilidade
de sentir os cheiros. Eles foram treinados para detectar perigos para a
vida humana e ajudam a salvar centenas de pessoas!
Além
de detectar explosivos, ratos da espécie Cricetomys gambianus
conseguem sentir o cheiro do agente causador da tuberculose. (foto:
Xavier Rossi/Apopo)
Inicialmente, os ratos da espécie Cricetomys gambianus,
também conhecida como rato-gigante-africano, eram adestrados para
detectar minas terrestres em países da África e da Ásia. Resquícios de
tempos de guerra, esses equipamentos ficam escondidos no solo e explodem
quando alguém pisa em cima, o que pode ferir gravemente ou até matar
pessoas.
Felizmente, os ratos conseguem farejar os explosivos e
descobrir exatamente onde estão enterrados. Como são leves, não disparam
a armadilha – mas dão a dica para equipes especiais liquidarem o
dispositivo.
Agora, na Tanzânia e em Moçambique, no sudeste da África, um novo
exército de ratos foi treinado para outra função: detectar a
tuberculose, doença que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. “Esses
roedores são animais pacíficos, dóceis, fáceis de treinar e que gostam
de realizar tarefas repetitivas”, conta o médico Emilio Valverde,
coordenador do projeto. “Eles são endêmicos da África Subsaariana e
estão, portanto, bem adaptados ao nosso meio”.
E como os bichos sabem que encontraram o que estavam procurando? Bem,
o agente causador da tuberculose, uma micobactéria, produz um cheirinho
particular – imperceptível para nós, humanos, mas notável para os
ratos. Eles são capazes de sentir o odor em amostras de escarro dos
pacientes.
Os ratos são então treinados para permanecer mais tempo sobre
amostras que apresentam o tal cheiro. Quando fazem isso, recebem um
prêmio! Então, querem acertar sempre, e quanto mais, melhor. Segundo
Emílio, cada animal consegue avaliar cerca de 100 amostras em 20
minutos. Uma rapidez de dar inveja a qualquer laboratório…
“Os ratos identificam corretamente mais de 99% das amostras indicadas
como positivas pela microscopia convencional realizada nas clínicas
colaboradoras. Eles conseguem identificar também como positivas outras
amostras que chegam no laboratório da Apopo com diagnóstico negativo”,
diz o médico. Em outras palavras, parece que o exame dos ratos consegue
ser ainda mais preciso que o teste laboratorial. Que bichos danados!
Você pode conferir mais sobre os heróis moçambicanos neste vídeo que a organização preparou (em português).
Everton Lopes,
estagiário do Instituto Ciência Hoje
Adoro viajar e ler. Quando era pequeno queria ser escritor,
hoje, posso escrever sobre um monte de coisas novas que eu descubro aqui
na CHC!
Simpático, ativo, ágil – assim é o galito (Alectrurus tricolor),
um pequeno passarinho que habita o cerrado brasileiro e também regiões
do Paraguai, da Argentina e da Bolívia. Nos campos abertos, pousa em
finos ramos para descansar. É nessas horas que ele mostra uma de suas
habilidades mais impressionantes: a de equilibrista! Mesmo com o vento
soprando para lá e para cá, o valente galito permanece firme.
No
Brasil, o galito habita principalmente as áreas de cerrado, incluindo
os estados de Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Mato Grosso de Sul, além
do Paraná e, muito provavelmente, o Rio Grande do Sul. (foto: Sávio
Freire Bruno / Universidade Federal Fluminense)
Insetívoro, o galito espreita suas presas – insetos, como moscas,
grilos, besouros, abelhas e mariposas, ou aranhas – aguardando o momento
exato de atacar. Com bico rápido e certeiro, nhac! Faz a sua refeição e
volta, quase sempre, ao mesmo galho, onde aguarda sua próxima vítima. E
assim passa boa parte do seu dia…
Há diferenças marcantes entre macho e fêmea desta espécie. As fêmeas
são pardas, com asas e cauda escuras e garganta branca. Já os machos
possuem coloração preta e branca, com um desenho branco em forma de V no
dorso e uma faixa peitoral negra incompleta.
O
galito é pequenino: as fêmeas (à esquerda) medem de 12 a 13 centímetros
e os machos, até 19 centímetros. (foto: Sávio Freire Bruno /
Universidade Federal Fluminense)
Mas a principal característica do galito macho é a sua cauda negra em
forma de leque. Na época reprodutiva, ela se torna mais avantajada que
de costume, o que ajuda o passarinho em sua curiosa dança nupcial. Para
cortejar a fêmea, machos fazem um voo de exibição, eriçando
acentuadamente a cauda e executando fortes e pausadas batidas de asa.
Depois da conquista, é hora de preparar a chegada dos filhotes. Nessa
etapa, a fêmea assume a maior parte das tarefas, como construir o ninho
em forma de taça utilizando capim seco.
O ninho é construído
diretamente no solo, mas escondido em meio às gramíneas altas. É lá que
os filhotes passam os primeiros dias de vida e, com quase duas semanas,
saem e se escondem na vegetação próxima, sendo alimentados e protegidos
pelos pais até que consigam realmente voar.
O
galito pertence a uma grande família, a maior entre as aves do mundo
ocidental, conhecida como Tyrannidae. (foto: Sávio Freire Bruno /
Universidade Federal Fluminense)
Infelizmente, a destruição do hábitat natural desse esperto
passarinho, em especial por causa da expansão das lavouras e da
pecuária, vem ameaçando a espécie. O galito não gosta de áreas
alteradas! Sem falar que as atividades desenvolvidas no solo põem em
risco os seus ninhos…
Por esses motivos, tem sido raro observar o galito em regiões como o
estado de São Paulo. Pode ser, até, que ele desapareça de vez!
Precisamos fazer alguma coisa para impedir, não acha?
Sávio Freire Bruno,
Universidade Federal Fluminense
Desenvolvo pesquisas sobre espécies ameaçadas de extinção, como
o pato-mergulhão. Adoro fotografar e filmar a natureza e seus animais –
e também escrever sobre eles!
Dia 1º de abril, o famoso “dia da mentira”. Quem nunca
caiu em uma pegadinha feita por um amigo? Eu já caí em muitas. Algumas
mentiras são tão cabeludas que é fácil desmascarar o espertinho que as
conta. Mas tem gente que sabe mentir de uma forma tão convincente que
fica difícil perceber…
Animais
miméticos são mestres da mentira. Por exemplo, um grilo que finge ser
uma formiga (à esquerda) e uma lagarta que se passa por serpente.
(fotos: Muhammad Mahdi Karim / Wikipedia e Henrique C. Costa)
Na sua turma tem muito mentiroso? O mundo animal está cheio deles. E
eles não mentem apenas no dia 1º de abril, não, e sim durante a vida
toda! Na verdade, a vida desses bichos depende de uma mentira bem
contada. Afinal, eles são miméticos.
Um animal mimético é aquele que imita outro animal, uma planta ou até
uma coisa. O objetivo da imitação pode ser enganar uma presa ou um
predador, por exemplo. Há espécies de aranhas que parecem flores,
lagartos que imitam besouros, insetos que lembram gravetos, e por aí
vai.
Mais
de 30 espécies de corais-verdadeiras são encontradas no Brasil. Elas
vivem geralmente escondidas no subsolo, o que as torna difíceis de ver.
Aqui você observa quatro delas: Micrurus corallinus (“de coral”, em latim) e Micrurus frontalis (do latim “frontal”, por causa da cor do focinho) são encontradas no sudeste; Micrurus surinamensis (“do Suriname”, em latim, país onde foi descoberta) vive na Amazônia e é aquática; e a curiosa Micrurus albicinctus (“rodeada de branco”, em latim), também da Amazônia, não possui cor vermelha.
Um exemplo bastante interessante é o das cobras-corais. Existem
dezenas de espécies de “corais-verdadeiras”, dotadas de um poderoso
veneno usado para matar suas presas e se defender contra inimigos. A
maioria das corais-verdadeiras do nosso continente pertence ao gênero Micrurus (“cauda pequena”, em grego) e apresenta cores vibrantes, geralmente em tons de vermelho, branco e preto.
A espécie Erythrolamprus aesculapii
habita tanto florestas quanto áreas abertas e seu alimento favorito são
outras serpentes e lagartos de corpo alongado. (foto: Henrique C.
Costa)
Também existem por aqui muitas espécies de “falsas-corais”, serpentes
cujo veneno é fatal para suas presas, mas não costuma oferecer perigo a
predadores como nós, humanos. Como o nome já diz, as falsas-corais se
parecem com as corais-verdadeiras.
Uma das possíveis explicações para
este fenômeno é que, por se parecer com uma coral-verdadeira, a
falsa-coral fica mais protegida. Isso acontece porque muitos predadores
como aves e mamíferos evitam atacar animais com cores muito chamativas,
pois geralmente eles são venenosos ou têm gosto ruim.
Uma das falsas-corais mais comuns no Brasil é conhecida pelos cientistas como Erythrolamprus aesculapii. Em grego, Erythrolamprus quer dizer “vermelho brilhante”, uma das cores desta espécie. Já o nome aesculapii faz referência a Esculápio ou Asclépio, deus grego da medicina e da cura, cujo símbolo é um cajado onde se enrola uma serpente.
A diversidade de falsas-corais do Brasil também é grande. Essa é só uma pequena amostra.
Também são comuns por aqui as espécies do gênero Oxyrhopus (“que
muda rapidamente”, em grego). Uma característica interessante dessas
serpentes é que seu ventre costuma ser branco, ao contrário das cores
vibrantes do dorso. Talvez seja essa a origem do nome científico do
gênero.
Algumas espécies de Oxyrhopus são encontradas em várias regiões do Brasil, como Oxyrhopus guibei (nome em homenagem ao pesquisador francês Jean Marius René Guibé, amigo dos descobridores da espécie) e O. trigeminus (“trigêmeo”,
em latim, referência às manchas pretas que se distribuem em grupos de
três pelo corpo desta espécie).
Há também algumas Oxyrhopus com distribuição mais restrita, como O. clathratus (“decorada como uma treliça”, em latim), que ocorre na Mata Atlântica, e O. melanogenys (“mandíbula negra”, em grego), típica da Amazônia.
Você
já se perguntou de onde vem o nome “cobra-coral”? Ele tem origem na
semelhança do tom de vermelho de muitas dessas serpentes com o do
coral-marinho da espécie Corallium rubrum (“coral rubro” em uma
mistura de grego e latim), muito usado antigamente para confecção de
joias. (foto: Christophe Quintin / Flickr / CC BY-NC 2.0)
Esses são apenas alguns exemplos. Como eu disse, existem muitas
espécies de falsas-corais, com colorações que lembram vagamente ou até
perfeitamente uma coral-verdadeira. Por isso, vamos combinar:
diferenciar uma coral-verdadeira de uma falsa é tarefa para
especialistas!
Henrique Caldeira Costa,
Departamento de Zoologia, UFMG
Curioso desde criança, Henrique tem um interesse especial em
pesquisar a história por trás dos nomes científicos dos animais, que
partilha com a gente na coluna O nome dos bichos
Para muitos de nós, os urubus sinalizam mau agouro ou –
diz a tradição! – que vai chover no dia seguinte. Mas cientistas da
Universidade Nacional Maior de San Marcos, no Peru, veem nesses animais
possíveis aliados na fiscalização do despejo clandestino de lixo. Por
isso, têm utilizado os urubus para localizar lixões na cidade de Lima,
capital do país.
O projeto está baseado numa característica do comportamento dessas
aves: para buscar alimento nas grandes cidades, elas costumam se
aproximar de regiões onde há muito lixo acumulado. Essa foi uma forma de
os urubus se adaptarem ao ambiente urbano, conta o biólogo Weber
Novaes, da WGN Consultoria Ambiental. “Na natureza, os urubus se
alimentam de matéria orgânica em decomposição, e o lixo que o ser humano
produz acaba se tornando algo próximo disso em seu novo habitat”,
justifica.
Equipados
com câmeras e aparelhos de GPS, urubus-de-cabeça-preta voam até 200
quilômetros por dia e ajudam cientistas de Lima a encontrar lixões
(foto: Hans Hillewaert/Wikimedia CC-BY-SA-4.0)
Outro fator importante para a escolha desses animais foi a grande
distância percorrida em seus voos diários. “Sem bater asas, por se
aproveitar das correntes de ar, o urubu pode voar até 200 quilômetros
por dia e nem gasta muita energia”, afirma Weber. São os ajudantes de
que os cientistas estavam precisando!
Os pesquisadores decidiram, então, equipar urubus-de-cabeça-preta (Coragypsatratus),
comuns na região, com câmeras e aparelhos de GPS. Quando eles voam
atrás de comida, os pesquisadores observam as imagens captadas pela
câmera e usam o GPS para localizar o ponto da cidade onde existe acúmulo
de lixo.
A campanha recebeu o nome de Gallinazo Avisa (que quer dizer
“Urubu Avisa”, em espanhol) e tem como objetivo, além de localizar os
lixões, conscientizar os moradores sobre como o despejo incorreto do
lixo pode causar danos ambientais e à saúde da população.
No Brasil, segundo Weber, poucos pesquisadores estudam os urubus. Mas
conhecer a fundo esses animais poderia ser muito útil! O cientista
contou à CHC que entender melhor a movimentação das aves nas cidades
poderia evitar uma série de acidentes nos aeroportos brasileiros.
João Paulo Rossini,
estagiário do Instituto Ciência Hoje/ RJ
Gosto de ler e escrever desde pequeno. Daí surgiu a vontade de conhecer e contar novas histórias.
Você já usou uma meia como bola? Uma caixa de papelão
como casa de bonecas? E um pote de sorvete como porta-trecos? Apesar de
esses objetos terem sido projetados para desempenharem outras funções,
quebram um galho na falta de uma bola, de uma casinha de brinquedo ou de
uma caixa de madeira, por exemplo.
Algo parecido com isso acontece na natureza: estruturas presentes em um organismo, que, ao longo da evolução, foram selecionadas por desempenhar muito bem determinada função,
se mostram muito úteis em desempenhar uma nova função para a qual não
haviam sido selecionadas anteriormente. Um bom exemplo disso são as
penas das aves.
Dinossauros
como o velociraptor possuíam penas revestindo o corpo, mas não voavam.
(ilustração: Matt Martyniuk / Wikimedia Commons / CC BY 2.5 )
Hoje, as penas são fundamentais para o voo. São estruturas leves,
aerodinâmicas e altamente resistentes. Mas você sabia que, nos animais
que existiram no passado, as penas não eram usadas para voar?
Penas de milhões de anos
Durante muito tempo, os cientistas se questionaram sobre como teria
ocorrido a evolução das penas nas aves. Graças ao estudo de muitos
fósseis, eles conseguiram esclarecer essa questão.
Um passo importante para isso foi descobrir que vários dinossauros
tinham penas – e a maioria não voava. Isso sugere que as penas foram
selecionadas porque tinham uma outra utilidade: controlar a temperatura
do corpo desses dinossauros, o que era fundamental para que os animais
exercessem suas atividades diárias.
Mas o interessante é que, apesar de as penas terem sido selecionadas
por desempenhar a função de controle de temperatura, quando alguns
desses dinossauros se aventuraram a pular entre os galhos das árvores,
essas penas também os ajudaram a planar melhor. Foi então que elas
começaram a desempenhar uma nova função, o voo.
As longas penas do Microraptor gui já o ajudavam a planar pela floresta densa onde morava. (ilustração: David Krentz)
Não é difícil imaginar que os animais que naturalmente apresentavam
penas um pouco mais longas nos braços tinham mais chances de escapar de
predadores ou caçar melhor suas presas. Desse modo, as penas mais
eficientes para o voo foram selecionadas ao longo de diversas gerações, e
alguns grupos de dinossauros passaram a voar de forma mais eficiente.
Esses grupos conseguiram escapar da grande extinção do período Cretáceo, há 65 milhões de anos, e continuam vivos até hoje.
Mudança de função
Os descendentes dos dinossauros com penas formam hoje o grupo que
chamamos de aves. A permanência das penas é um bom exemplo de como
estruturas que desempenham originalmente uma função podem ter outras
utilidades para os seres vivos.
Quando uma estrutura surge por pressões seletivas para desempenhar
uma dada função (como, no caso das penas, controlar a temperatura do
corpo) e depois passa a desempenhar uma nova função (neste caso, o voo),
dizemos que ela evoluiu por exaptação. Nas aves atuais, as penas ajudam
tanto a controlar a temperatura do corpo quanto a voar.
Você consegue pensar em outro exemplo?
Ubirajara Oliveira,
Instituto de Geociências, Universidade Federal de Minas Gerais
Sou biólogo e desde criança sabia que queria ser cientista.
Agora que sou, uso a ciência para buscar respostas para minhas perguntas
sobre a natureza.
Aposto que você já ouviu falar que, se pegar em uma
mariposa e colocar a mão no olho, você fica cego. Vou dizer uma coisa
com franqueza: isso é um mito. Acusadas de serem feias, sem graça e
venenosas, as mariposas são bichos muito incompreendidos. Quanta
injustiça!
As mariposas têm tamanhos e formas muito variados. Observe alguns exemplos. (fotos: Isabela Oliveira)
Existem no mundo aproximadamente 150 mil espécies já descritas de
borboletas e mariposas. Em vários lugares, as pessoas se deparam com
borboletas em casa e relacionam isso com boa sorte. Como as mariposas
são predominantemente noturnas e várias delas são grandes e escuras,
muita gente acha que elas dão azar! Por isso, recebem o apelido de
bruxas. Mas não são como as bruxas maldosas que povoam os contos de
fadas…
Há muita delicadeza nas mariposas. Elas variam em tamanho (algumas
menores que um centímetro, outras com até 30 centímetros) e forma.
Geralmente, têm antenas compridas e frágeis, que podem ser finas e
alongadas ou em forma de pena e servem para procurar alimentos e
parceiros – mais ou menos como o nariz dos mamíferos.
Nem toda mariposa é marrom ou preta. Veja as cores vibrantes desta espécie! (foto: Patrick Coin / CC BY-SA 2.5)
As mariposas têm um papel muito importante na manutenção de espécies
vegetais, pois atuam como polinizadoras de várias flores.
Ao se
alimentarem do néctar, elas se enchem de pólen pelo corpo e, voando até
outra flor da mesma espécie, levam essas partículas e possibilitam a
reprodução do vegetal. Algumas espécies de plantas dependem
exclusivamente das mariposas para se reproduzirem.
Da próxima vez que você encontrar uma mariposa, não tenha medo. Ela será frágil e delicada e não lhe fará mal nenhum!
Isabela Freitas Oliveira,
Sou bióloga e apaixonada pela natureza. Os cheiros, os sons e
as cores do mundo natural me fascinam! Adoro entrar no mato e ver a
interação dos organismos com o ambiente.
O morango vermelho e carnudo e o espinafre verde-escuro de folhas
largas comprados na feira podem conter, além de nutrientes, doses altas
demais de resíduos químicos. Estamos em 2016 e no Brasil ainda se
consomem frutas, verduras e legumes que cresceram sob os borrifos de
pesticidas que lá fora já foram banidos há anos.
A quantidade de agrotóxicos ingerida no Brasil é tão alta,
que o país está na liderança do consumo mundial desde 2008. A boa
notícia, é que naquele mesmo ano, a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) iniciou a reavaliação de 14 pesticidas que podem
apresentar riscos à saúde. A má notícia é que até agora os estudos não
terminaram.
A essa morosidade somam-se incentivos fiscais. O Governo brasileiro
concede redução de 60% do ICMS (imposto relativo à circulação de
mercadorias), isenção total do PIS/COFINS (contribuições para a
Seguridade Social) e do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) à
produção e comércio dos pesticidas,
segundo listou João Eloi Olenike, presidente do Instituto Brasileiro de
Planejamento e Tributação (IBPT).
O que resta de imposto sobre os
agrotóxicos representam, segundo Olenike, 22% do valor do produto. "Para
se ter uma ideia, no caso dos medicamentos, que não são isentos de
impostos, 34% do valor final são tributos", diz.
Recentemente, o consumo de agrotóxicos esteve novamente no centro da discussão. A apresentadora Bela Gil,
que tem mais de 590.000 seguidores no Facebook, liderou um movimento
para que a população se mostrasse contrária ao uso do carbofurano,
substância usada em pesticidas em lavouras de algodão, feijão, banana,
arroz e milho. Isso ocorreu quando a Anvisa colocou em seu site uma
consulta pública sobre essa substância. Antes de Bela Gil publicar um
texto engajando seus seguidores, o resultado se mostrava favorável à
continuação do uso desse agrotóxico.
Mas em poucas horas, a
apresentadora conseguiu reverter o resultado da consulta, mostrando que
os brasileiros querem que essa substância seja proibida também no
Brasil, assim como já é em países como Estados Unidos, Canadá e em toda a União Europeia.
Por e-mail, a chefe de cozinha adepta da culinária natureba disse por
que liderou a campanha. “Já existem estudos revelando a toxicidade e os
perigos do carbofurano”, disse. “Essa substância é cancerígena,
desregula o sistema endócrino em qualquer dose relevante e afeta o
sistema reprodutor”.
Na bula do produto
consta a informação de que essa substância é “muito perigosa ao meio
ambiente e altamente tóxica para aves”. Orienta o usuário a não entrar
nas lavouras que receberam o produto por até 24 horas após a aplicação
“a menos que se use roupas protetoras”.
2,4-D e a polêmica do 'Agente Laranja'
Há exatos dez anos, desde 2006, a Anvisa está reavaliando os riscos à saúde que o herbicida 2,4-D pode causar. De nome estranho, essa substância era uma das que formavam o chamado Agente Laranja, uma química que foi amplamente utilizada pelas Forças Armadas norte-americanas durante a guerra do Vietnã.
Seu uso, naquele momento, era para destruir plantações agrícolas que
eram usadas como esconderijo pelos inimigos. Mas, segundo a Cruz
Vermelha, cerca de 150.000 crianças nasceram com malformação congênita
em consequência dessa substância. Os Estados Unidos contestam esse
número.
Por meio de nota, a Anvisa afirmou que o parecer técnico de
reavaliação do 2,4-D foi recentemente finalizado e deverá ser
disponibilizado para consulta pública no portal da Anvisa nos próximos meses.
A consulta pública faz parte do processo de reavaliação das 14
substâncias realizado pela Anvisa (veja o quadro abaixo). Desde o início
dos estudos, em 2008, seis pesticidas foram banidos e dois foram
autorizados a permanecer no mercado sob algumas restrições. Resta a
conclusão dos estudos de outras seis substâncias - dentre elas o
carbofurano. O glifosato, usado para proteger lavouras de milho e pasto,
e que no ano passado foi considerado cancerígeno pela Organização
Mundial da Saúde, também está nesta lista que aguarda conclusões.
A demora para finalizar essa reavaliação fez o Ministério Público
entrar com uma ação, em junho do ano passado, pedindo maior agilidade no
processo. Na época, a Justiça acatou o pedido e estabeleceu um prazo de 90 dias para que todos os estudos fossem concluídos. Mas o setor do agronegócio
também se moveu.
O Sindicato Nacional das Indústrias de Defesa Vegetal
(Sindivag) entrou com um recurso alegando que o prazo não era
suficiente. Em nota, o Sindivag afirmou ser "favorável ao procedimento
de reavaliação", mas que "o prazo concedido para conclusão da
reavaliação não era suficiente para que fossem adotados todos os
procedimentos previstos nas normas vigentes". O processo está agora na
Justiça Federal, que informou não haver prazo para o julgamento.
Fonte: Anvisa
Apesar da demora, as reavaliações dos agrotóxicos são um passo
importante para a discussão do consumo dessas substâncias no Brasil. "A
consulta pública da Anvisa sobre o carbofurano foi importante para que o
órgão e os especialistas envolvidos obtivessem conhecimento do que a
população pensa", diz Bela Gil. "A Anvisa pode se sentir mais inclinada a
tomada de decisão de realmente banir esse agrotóxico".
Para Wanderlei Pignati, professor de Medicina da Universidade Federal
do Mato Grosso (UFMT), a lentidão desse processo ocorre porque há uma
forte pressão de setores interessados na comercialização dessas
substâncias. "As empresas querem fazer acordo, mas não deveria caber
recurso", diz. "Queremos proibir todos os [agrotóxicos] que são
proibidos na União Europeia", afirma. "Por que aqui são consumidos
livremente? Somos mais fortes que eles e podemos aguentar, por acaso?".
Segundo João Olenike, do IBPT, os agrotóxicos deveriam ter altos
tributos, e não ser isentos. "Existe uma coisa chamada
extra-fiscalidade, que significa que, além da arrecadação, o tributo tem
também uma função social", explica. "Por isso, tributa-se muito a
bebida alcoólica e o cigarro: para desestimular seu consumo". Para ele,
deveria-se fazer o mesmo com os pesticidas. "O que valia na década de
70, [quando foi lançado o Plano Nacional da Agricultura], não vale para
hoje. O Governo deveria fazer uma revisão".
Perguntas e respostas sobre os agrotóxicos
Lavar os alimentos antes de consumi-los retira os agrotóxicos?
Não. Lavar os alimentos pode contribuir para que apenas parte das
substâncias sejam retiradas, mas eles continuarão contaminados pelos
agrotóxicos.
Água sanitária retira os agrotóxicos dos alimentos?
Não. Segundo a Anvisa, até o momento não existem evidências
científicas que comprovem a eficácia da água sanitária ou do cloro na
remoção ou eliminação de resíduos dos agrotóxicos nos alimentos. A
Anvisa orienta que se use uma solução de uma colher de sopa de água
sanitária diluída em um litro de água com o objetivo apenas de matar
agentes microbiológicos que possam estar presentes nos alimentos.
Como diminuir a ingestão de agrotóxicos?
O ideal seria optar pelos alimentos orgânicos,
que venham com o certificado Produto Orgânico Brasil, um selo branco,
preto e verde. Como esses alimentos são mais caros e não estão
disponíveis em todo mercado, há outras possibilidades, como escolher
produtos com o selo Brasil Certificado: Agricultura de Qualidade. Esse
selo não garante a isenção do uso de agrotóxicos, mas significa que a
origem do alimento é controlada, o que aumenta o comprometimento de
produtores com a qualidade do alimento. Além disso, recomenda-se o
consumo de alimentos da época que, normalmente, recebem menos
agrotóxicos para serem produzidos.