O Cerrado, berço das águas
do Brasil e lar de milhares de espécies e de comunidades tradicionais,
está em perigo! O segundo maior bioma do país tem sido desmatado em
velocidade alarmante e isso pode trazer consequências irreversíveis para
nossas vidas e para o planeta.
Há quase 10 anos, algumas das maiores empresas do mundo, como Nestlé,
Mondelez e Unilever, prometeram, até 2020, parar de produzir e
comercializar produtos ligados ao desmatamento. No entanto, embora o
prazo não tenha se esgotado, nem sequer deram sinais de chegarem perto
disso.
Comprometa-se a proteger a biodiversidade brasileira e exija que as empresas façam o mesmo!
Não importa se você mora longe ou perto da floresta: todos nós dependemos dela para sobreviver.Por isso, não há tempo a perder!
O
Cerrado, berço das águas do Brasil e lar de milhares de espécies e de
comunidades tradicionais, está em perigo! O segundo maior bioma do país
tem sido desmatado em velocidade alarmante e isso pode trazer
consequências irreversíveis para nossas vidas e para o planeta.
Grandes empresas precisam agir AGORA para garantir que as florestas, savanas e outros ambientes naturais continuem em pé!
Estão roubando nossos tesouros naturais
Estamos vivendo uma emergência climática e
ecológica sem precedentes. Talvez você já saiba disso, ao sentir
mudanças no seu dia a dia com secas e inundações dramáticas.
Há
quase 10 anos, algumas das maiores empresas do mundo, como Nestlé,
Mondelez e Unilever, prometeram, até 2020, parar de produzir e
comercializar produtos ligados ao desmatamento. No entanto, embora o
prazo não tenha se esgotado, nem sequer deram sinais de chegarem perto disso.
Essas empresas continuam comprando soja, gado e outras matérias-primas responsáveis pela destruição não apenas da Amazônia, mas também do Cerrado,
a caixa d’água do Brasil. A produção de soja, algodão, milho e outros
produtos para exportação — muitos deles usados para ração animal mundo
afora — tem deixado um rastro de destruição, acabando com a rica biodiversidade dessa região e ameaçando as comunidades tradicionais que vivem lá há muito tempo.
Enquanto
alguns grandes produtores e empresários gananciosos enchem seus bolsos
de dinheiro, estamos sendo diretamente afetados pela catástrofe
ambiental, comprometendo também a sobrevivência das próximas gerações.
A
expansão do agronegócio no Cerrado em nome de um desenvolvimento que
beneficia poucas pessoas tem um custo ambiental e social altíssimo.
Também deixa a Amazônia ainda mais ameaçada, pois ela depende do Cerrado
em pé — e vice-versa. Amazônia e Cerrado são biomas irmãos: é no Cerrado que nascem rios vitais para a Amazônia e a América do Sul.
Por sua vez, a umidade da Amazônia leva água para o Centro-Oeste, onde
está o Cerrado e a maior parte da produção agrícola do Brasil.
Mudanças pontuais não são mais suficientes para assegurarmos a proteção da vida num futuro muito próximo. Atualmente, cerca de um milhão de espécies no mundo correm risco de extinção.
Isso tem que parar! Precisamos segurar a linha do desmatamento, antes
que ela passe por cima de tudo o que temos de mais precioso.
Junte-se a nós para proteger espécies ameaçadas do Cerrado, como o lobo-guará
Mas o que eu tenho a ver com isso?
Tudo a ver! O Cerrado, a Amazônia e outros ambientes naturais têm
importância fundamental no controle do clima do planeta e na
disponibilidade de água doce. Se as emissões de gases do efeito estufa
continuarem a crescer devido, principalmente, ao desmatamento, o clima
vai ficar insuportável! Ou seja, SEM FLORESTA não tem água e SEM FLORESTA não tem clima.
Com pequenas atitudes, você pode ajudar a mudar essa realidade. Comprometa-se com as florestas e com o clima e exija que as empresas façam o mesmo!
Some a sua voz e mostre que você se importa!
O que eu cobro? E de quem?
As empresas precisam fazer sua parte para que o
desmatamento no Cerrado, na Amazônia e em outros ambientes naturais do
nosso país pare já. Não há tempo a perder! Sistemas mais sustentáveis e
justos são possíveis e necessários, e precisam ser prioridade em
qualquer modelo de produção responsável e comprometido com a vida. A
destruição tem que acabar!
Pesquisadores querem substituir fertilizantes químicos por bactérias
Com informações da Agência Fapesp - 18/07/2019
Bactérias poderão no futuro substituir os fertilizantes químicos, sem o impacto ambiental destes. [Imagem: Juliana Velasco]
Biofertilizante
Pesquisadores do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR) estão estudando bactérias que promovem o crescimento das plantas.
Como foram isolados do solo, esses organismos têm potencial para serem usados como fertilizantes sem causar a poluição das águas e alterações prejudiciais ao próprio solo, como pode ocorrer com fertilizantes químicos.
Depois de isolar bactérias do solo, a equipe da pesquisadora Juliana Velasco começou a identificar os chamados compostos orgânicos voláteis (COVs), produtos decorrentes do metabolismo das bactérias que promovem o crescimento de plantas. "O objetivo agora é investigar e entender como o metabolismo da planta se altera por conta dessas moléculas sinalizadoras," disse ela.
Na primeira fase do trabalho foram usadas duas espécies de plantas modelos, aArabidopsis thalianae aSetaria viridis, e foram selecionadas as cepas bacterianas que mais contribuíram para o crescimento dessas plantas.
Agora começaram os testes das bactérias no cultivo do arroz, ainda em escala de laboratório. "A princípio, a substituição total de fertilizantes químicos é impossível. Mas com certeza podemos diminuir consideravelmente o uso deles quando utilizamos produtos biológicos", disse Juliana.
A meta é desenvolver um bioproduto que possa ser aplicado no solo em forma sólida (como pó) ou líquida, a princípio em culturas como cana-de-açúcar, milho e arroz. Tecnologias semelhantes já são usadas para a fixação de nitrogênio.
Juliana explicou que em boa parte da lavoura de soja brasileira, produtos bacterianos são usados como substitutos aos adubos nitrogenados. O uso em excesso desses fertilizantes é conhecido por causar contaminação do solo e dos ecossistemas aquáticos, além de aumentar a emissão de óxido nitroso, que agrava o efeito estufa.
A natureza está em declínio em um ritmo sem precedentes na
história humana, com taxas de extinção de espécies acelerando e com graves
impactos para as pessoas ao redor do mundo, adverte um novo relatório da
Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e
Serviços Ecossistêmicos (IPBES), cujo resumo foi aprovado na 7ª sessão do
Plenário do IPBES, em reunião na semana passada (de 29 de abril a 4 de maio) em
Paris.
O Relatório de Avaliação Global do IPBES sobre
Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos é o mais abrangente já
concluído. Ele é o primeiro Relatório intergovernamental de seu tipo.
Compilado por 145 autores especialistas de 50 países nos últimos três
anos, com contribuições de outros 310 autores contribuintes, o documento
avalia as mudanças nas últimas cinco décadas, fornecendo uma visão
abrangente da relação entre os caminhos do desenvolvimento econômico e
seus impactos na natureza. Também oferece vários cenários possíveis para
as próximas décadas.
Resultados nada animadores
“A esmagadora evidência da Avaliação Global do IPBES, de um
vasto leque de diferentes áreas de conhecimento, apresenta um quadro sinistro”,
disse o Presidente do IPBES, Sir Robert Watson. “A saúde dos ecossistemas dos
quais nós e todas as outras espécies dependem está se deteriorando mais
rapidamente do que nunca. Estamos erodindo as próprias fundações de nossas
economias, meios de subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de
vida em todo o mundo”.
Destruição de floresta tropical na Indonésia | Foto: 5bf5911a_905 / iStock
“O relatório também nos diz que não é tarde demais para fazer a
diferença, mas apenas se começarmos agora em todos os níveis, do local
ao global”, disse Watson. “Através da ‘mudança transformadora’, a
natureza ainda pode ser conservada, restaurada e usada de forma
sustentável – isso também é fundamental para atender a maioria das
outras metas globais.”
Com base na revisão sistemática de cerca de 15.000 fontes científicas
e governamentais, o relatório também extrai (pela primeira vez nessa
escala) conhecimento indígena e local, particularmente sobre questões
relevantes para os Povos Indígenas e Comunidades Locais.
O documento conclui que cerca de 1 milhão de espécies animais e
vegetais estão ameaçadas de extinção. Muitas já correm o risco de
desaparecerem nas próximas décadas, uma taxa de extinção nunca vista na
história da humanidade.
A abundância média de espécies nativas na maioria dos
principais habitats terrestres caiu em pelo menos 20%, principalmente desde
1900. Mais de 40% das espécies de anfíbios, quase 33% dos corais e mais de um
terço de todos os mamíferos marinhos estão ameaçados. O quadro é menos claro
para espécies de insetos, mas evidências disponíveis apoiam uma estimativa de 10%
de ameaça. Pelo menos 680 espécies de vertebrados foram levadas à extinção
desde o século 16 e mais de 9% de todas as raças domesticadas de mamíferos
usados para alimentação e agricultura foram extintas em 2016, com pelo menos
mais 1.000 raças ainda ameaçadas.
Elefante morto pela caça na África | Foto: iStock
“Ecossistemas, espécies, populações selvagens, variedades
locais e raças de plantas e animais domesticados estão encolhendo, deteriorando
ou desaparecendo. A rede essencial e interconectada da vida na Terra está
ficando menor e cada vez mais desgastada”, disse o Prof. Settele. “Essa
perda é um resultado direto da atividade humana e constitui uma ameaça direta
ao bem-estar humano em todas as regiões do mundo”.
Para aumentar a relevância política do Relatório, os autores
da avaliação classificaram, pela primeira vez nessa escala e com base em uma
análise minuciosa das evidências disponíveis, os cinco direcionadores diretos
da mudança na natureza com os maiores impactos globais relativos até agora.
Esses culpados são, em ordem decrescente:
(1) mudanças no uso da terra e do mar;
(2) exploração direta de organismos;
(3) mudança climática;
(4) poluição, e
(5) espécies exóticas invasoras.
Coral morto | Fofo: iStock by Getty Images
Mudanças climáticas
O relatório observa que, desde 1980, as emissões de gases do efeito
estufa dobraram, elevando a temperatura média global em pelo menos 0,7
graus Celsius – com a mudança climática já afetando a natureza do
ecossistema à genética – os impactos devem aumentar nas próximas
décadas, em alguns casos, superando o impacto da mudança do uso da terra
e do mar e outros fatores.
Apesar do progresso para conservar a natureza e implementar
políticas, o relatório também considera que as metas globais para
conservar e usar a natureza de forma sustentável e alcançar a
sustentabilidade não podem ser alcançadas pelas trajetórias atuais.
Tendências atuais negativas na biodiversidade e nos ecossistemas
minarão o progresso de 80% das metas avaliadas dos Objetivos do
Desenvolvimento Sustentável (ODS), relacionadas à pobreza, fome, saúde,
água, cidades, clima, oceanos e terra (ODS 1, 2, 3, 6, 11, 13, 14 e 15).
A perda de biodiversidade é, portanto, mostrada não apenas como uma
questão ambiental, mas também como um problema de desenvolvimento,
econômico, de segurança, social e moral.
Moçambique antes e depois da passagem do ciclone Idai | Foto: iStock by Getty Images
Outras constatações notáveis do relatório incluem:
Três quartos do ambiente terrestre e cerca de 66% do
ambiente marinho foram significativamente alterados pelas ações humanas. Em
média, essas tendências foram menos severas ou evitadas em áreas mantidas ou
gerenciadas por Povos Indígenas e Comunidades Locais.
Mais de um terço da superfície terrestre do mundo e quase
75% dos recursos de água doce são agora dedicados à produção agrícola ou
pecuária.
Campo de soja sendo irrigado | Foto: iStock by Getty Images
O valor da produção agrícola aumentou cerca de 300% desde
1970, a colheita de madeira bruta subiu 45% e aproximadamente 60 bilhões de
toneladas de recursos renováveis e não renováveis são extraídos globalmente
a cada ano – tendo quase dobrado desde 1980.
A degradação da terra reduziu a produtividade de 23% da
superfície terrestre global, até US $ 577 bilhões em safras globais anuais
estão em risco de perda de polinizadores e 100-300 milhões de pessoas estão em
risco aumentado de inundações e furacões devido à perda de habitats costeiros e
proteção.
Em 2015, 33% dos estoques de peixes marinhos estavam sendo
colhidos em níveis insustentáveis; 60% foram pescados de forma sustentável, com
apenas 7% colhidos em níveis inferiores aos que podem ser pescados de forma
sustentável.
As áreas urbanas mais do que dobraram desde 1992.
A poluição plástica aumentou dez vezes desde 1980, 300 a
400 milhões de toneladas de metais pesados, solventes, resíduos tóxicos e
outros resíduos de instalações industriais são despejados anualmente nas águas
do mundo e fertilizantes que entram nos ecossistemas costeiros produziram mais
de 400 “zonas mortas”, totalizando mais de 245.000 km2 – uma área
combinada maior que a do Reino Unido.
Poluição plástica | foto: iStock by Getty Images
Novos modelos econômicos
O relatório destaca a importância de, entre outros, adotar abordagens
integradas de gestão e intersetoriais que levem em conta as
compensações da produção de alimentos e energia, infraestrutura, manejo
de água doce e costeira e conservação da biodiversidade.
Também identificada como um elemento-chave de políticas futuras mais
sustentáveis está a evolução dos sistemas financeiros e econômicos
globais para construir uma economia global sustentável, afastando-se do
atual paradigma limitado de crescimento econômico.
“O IPBES apresenta a ciência autorizada, o conhecimento e as opções
políticas para os tomadores de decisão para sua consideração”, disse a
Secretária Executiva do IPBES, Dra. Anne Larigauderie. “Agradecemos às
centenas de especialistas, de todo o mundo, que ofereceram seu tempo e
conhecimento para ajudar a lidar com a perda de espécies, ecossistemas e
diversidade genética – uma ameaça verdadeiramente global e geracional
para o bem-estar humano.”
Considerado o segundo país em diversidade de aves do mundo, o Brasil
também carrega um recorde negativo: é a nação que possui mais aves
globalmente ameaçadas. Estima-se que cerca de 170 espécies correm risco
de serem extintas. Sem elas, um verdadeiro colapso socioambiental
poderia tomar conta do território nacional, afetando o equilíbrio do
meio ambiente e, consequentemente, influenciando diretamente a vida do
ser humano.
Para evitar esse quadro,
a proteção e recuperação dos habitats das aves, em florestas, cerrados e
campos, é um dos caminhos que está sendo trilhado por ambientalistas e
outros especialistas – medidas que também devem envolver toda a
sociedade.
O diretor-executivo da BirdLife/SAVE Brasil, Pedro Develey, membro da
Rede de Especialistas de Conservação da Natureza, explica que qualquer
cidadão pode fazer sua parte, como respeitar a legislação ambiental,
manter as propriedades rurais com reservas legais e áreas de preservação
permanente ou criar reservas privadas. “Mesmo uma pessoa que mora em
uma cidade pode manter um jardim privado ou ajudar na manutenção de uma
área pública ou plantar árvores nativas que produzam frutos e flores e
atraiam as aves.”, completa Develey.
Ele lembra que na Mata Atlântica, por exemplo, é necessário um
processo de restauração florestal. Ou seja, é preciso plantar árvores
nativas nas florestas a fim de manter e preservar o habitat das aves.
“Para algumas espécies que já atingiram níveis populacionais muito
baixos, é preciso um manejo direto, como a criação em cativeiro para
garantir uma população que poderia ser reintroduzida no futuro”, alerta.
De acordo com Develey, as aves são excelentes indicadores ambientais,
atuando como um termômetro do meio ambiente. “Um país com tantas aves
ameaçadas significa que não está caminhando bem do ponto de vista
ambiental. As aves são importantes polinizadores e dispersores de
sementes, ‘plantando’ árvores naturalmente e contribuindo para a
manutenção do equilíbrio e diversidade do ambiente”, afirma. Além disso,
diversas espécies de aves controlam pragas ao se alimentarem de insetos
que podem ser prejudiciais à agricultura. Os pássaros também ajudam no
combate a vetores de doenças. O beija-flor, por exemplo, além de se
alimentar de néctar, contribui no combate ao Aedes aegypti, mosquito que transmite doenças como a dengue, zika, chikungunya e febre amarela.
Perdas
Caso medidas ambientais não sejam tomadas, o Brasil corre um sério
risco de perder para sempre muitas espécies de aves. No ano passado,
segundo Develey, o país registrou três extinções confirmadas de aves que
viviam na Mata Atlântica do Nordeste: o limpa-folha-do-nordeste, o
gritador-do-nordeste e uma corujinha, a caburé-de-pernambuco.
Por outro lado, a ararinha-azul, extinta da natureza desde 2000, deve
voltar ao meio ambiente nos próximos cinco meses, quando 50 exemplares
da espécie devem chegar ao Brasil, repatriadas da Alemanha. Segundo o
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), as
ararinhas serão encaminhadas até o Refúgio de Vida Silvestre da
Ararinha-Azul, unidade de conservação criada no ano passado, em Curaçá
(BA), especialmente para receber as aves. Depois de um período de
adaptação em viveiro, elas serão soltas na natureza. Atualmente, existem
apenas 163 exemplares da ave em cativeiro no mundo, sendo 13 no Brasil.
“Sem dúvida, o bioma com a situação mais delicada para a conservação
da avifauna é a Mata Atlântica – especialmente a região entre Alagoas,
Pernambuco e Paraíba. Outra espécie extremamente ameaçada é a
choquinha-de-alagoas, que hoje só existe na Estação Ecológica de Murici
(AL) e as estimativas apontam para no máximo 30 indivíduos”, alerta o
pesquisador.
Consequências
O especialista aponta que é difícil prever com precisão a extensão
das consequências da extinção das espécies de aves. “Existem interações
entre as espécies; o desaparecimento de uma pode influenciar diretamente
outra, num efeito dominó. Talvez, a curto prazo, os efeitos não serão
percebidos, mas a médio e longo prazos, o desaparecimento das aves afeta
o equilíbrio de todo o ambiente, que influencia diretamente na vida do
ser humano.”
Além disso, o especialista alerta para
uma perda irreparável de um patrimônio natural único e insubstituível.
“Costumo fazer uma analogia com as grandes obras de arte: se um incêndio
destruísse o Museu do Louvre, seria uma comoção mundial. Mas estamos
perdendo aves todo ano; nossas ‘Monalisas’ estão desaparecendo e a maior
parte da sociedade ainda não se importa”, alerta Develey.
É verão no Hemisfério Norte e a segunda maior cidade da
Colômbia, Medellín, tem adotado estratégias inspiradas na natureza para
regular as altas temperaturas da estação.
As chamadas “soluções naturais” são, de acordo com a União
Internacional para a Conservação da Natureza, “ações que protegem,
gerenciam de forma sustentável e restauraram ecossistemas naturais ou
modificados, abordando desafios sociais de forma eficaz e adaptável,
proporcionando simultaneamente bem-estar humano e benefícios para a
biodiversidade”.
Medellín, assim como outras cidades, enfrenta o aumento das
temperaturas e o impacto das ilhas de calor urbanas. Concreto e asfalto
absorvem a energia do sol, irradiando calor e mantendo a cidade muito
quente – mesmo depois que o sol se põe.
Para lidar com o aquecimento, as autoridades da cidade colombiana
transformaram 18 ruas e 12 hidrovias em paraísos verdes. O
projeto “Green Corridors” (Corredores Verdes) promoveu a arborização
dessas rotas, o que permitiu reduzir o acúmulo de calor na
infraestrutura urbana.
“Quando tomamos a decisão de plantar os 30 corredores, nós nos
concentramos nas áreas que não tinham mais espaços verdes”, conta o
prefeito Federico Gutiérrez.
A iniciativa venceu este ano o Prêmio Ashden de Refrigeração Baseada
na Natureza, que é apoiado pelo Programa Kigali de Eficiência de
Refrigeração, em parceria com a iniciativa Sustainable Energy for All.
“Com essa intervenção, conseguimos reduzir a temperatura em mais de
2°C e os cidadãos já percebem essa diferença”, acrescenta o chefe do
Executivo municipal.
“O projeto Green Corridors é um excelente exemplo de como a sociedade
civil, urbanistas e governo podem confiar na natureza para desenvolver
um projeto urbano inteligente. O monitoramento será fundamental para
demonstrar ainda mais os múltiplos benefícios dessa abordagem ao longo
do tempo”, avalia Juan Bello, diretor do escritório da ONU Meio Ambiente
na Colômbia.
Solução para ilhas de calor
Os parques urbanos podem reduzir a temperatura ambiente durante o dia
em uma média de aproximadamente 1°C. Na Itália, a cidade de Milão — que
sofreu cortes de energia devido à demanda por ar condicionado durante a
onda de calor do verão — planeja plantar 3 milhões de árvores até 2050.
O objetivo é combater as ilhas de calor e aumentar a qualidade do ar.
Outra solução são os telhados verdes. Existem indícios de que, em
cidades como Atenas, eles podem diminuir em até 66% a demanda por
resfriamento artificial nos edifícios.
“Medellín e muitas outras cidades estão mostrando como podemos
mitigar e nos adaptar à mudança climática graças a soluções renováveis”,
diz Martina Otto, chefe da Unidade de Cidades da ONU Meio Ambiente.
“Se o mundo estiver empenhado em cumprir as metas do Acordo de Paris,
as cidades terão que buscar arduamente a implementação de tais
soluções.”
Impacto da refrigeração
Estima-se que as emissões de gases do efeito estufa geradas pelo
setor de refrigeração aumentem 90% até 2050 — na comparação com dados
referentes a 2017. Daqui a cerca de 30 anos, a refrigeração dos
ambientes vai consumir o mesmo volume de eletricidade já consumido
atualmente por todos os setores e atividades humanas na China e na
Índia.
“À medida que as temperaturas globais aumentam, as dificuldades para
manter os ambientes frescos estão se tornando um problema de saúde
urgente, com as cidades particularmente em risco”, alerta Dan
Hamza-Goodacre, diretor-executivo do Programa Kigali de Eficiência de
Refrigeração.
“Um planejamento urbano inteligente pode desempenhar um papel crucial
no fornecimento de soluções de refrigeração, como telhados verdes e
corredores verdes ou padrões mais altos de projetos de edifícios, que
melhoram a eficiência e o resfriamento passivo.”
As soluções baseadas na natureza são uma das abordagens promovidas
pelo Programa Kigali de Eficiência de Refrigeração, que reúne governos,
empresas, sociedade civil e organizações internacionais — como a ONU
Meio Ambiente.
A coalizão quer que as pessoas evitem o chamado “resfriamento ativo” —
quando é necessário recorrer a técnicas e aparelhos pouco sustentáveis
para diminuir o calor. Para tanto, a rede de instituições aposta na
construção civil inteligente e no planejamento urbano. Um dos objetivos
do programa é impulsionar serviços de refrigeração à base de energia
renovável.
A associação de organizações também pressiona os atores relevantes
para aumentar a eficiência do resfriamento convencional, com base na
Emenda de Kigali — um acordo internacional que visa combater o impacto
que a indústria de refrigeração tem no aquecimento global.
Brasnorte, MT, Brasil: Árvore em meio a plantação de soja. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil) Elton Alisson, de São Pedro (SP) | Agência FAPESP – A
implementação, em 2006, de um acordo entre a sociedade civil,
agroindústrias e o governo para coibir a comercialização da soja
proveniente de áreas desmatadas na Amazônia brasileira permitiu deter a
expansão da produção da commodity naquele bioma sobre a floresta.
Em contrapartida, o problema foi transferido para o Cerrado, onde a
conversão de vegetação nativa em plantações do grão tem aumentado muito
nos últimos anos, apontam especialistas.
Uma das medidas que poderiam contribuir para solucionar essa questão
seria estender também para o Cerrado o pacto de desmatamento zero na
Amazônia conhecido como a moratória da soja, sugerem pesquisadores do
Brasil, da Áustria, França, Bélgica e dos Estados Unidos em estudo
publicado nesta quarta-feira (17/07) na revista Science Advances.
Se entrasse em vigor em 2021, a iniciativa permitiria evitar a perda
de 3,6 milhões de hectares de vegetação nativa que correm o risco de
serem convertidos para produção da soja até 2050, calcula o estudo.
“Descontando vazamentos – o aumento de perda de vegetação nativa para
outras atividades agrícolas devido à expansão da cultura da soja sobre
áreas já desmatadas –, estimamos que a extensão da moratória da soja
para o Cerrado pouparia 2,3 milhões de hectares de vegetação nativa do
bioma”, disse Aline Cristina Soterroni,
pesquisadora brasileira do Instituto Internacional de Análise de
Sistemas Aplicada (IIASA), na Áustria, e primeira autora do estudo, à Agência FAPESP.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), cerca de 50% da soja produzida atualmente no Brasil é
proveniente do Cerrado. Quase um quarto da área de cultivo da
oleaginosa no bioma está situado no Matopiba – uma região que abrange
porções dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia –, onde alguns
dos últimos remanescentes intactos do Cerrado estão localizados. A
produção de soja nessa região aumentou 253% entre 2000 e 2014.
Uma vez que a produção brasileira do grão deve continuar a crescer
nas próximas décadas para atender a demanda de países como a China, o
Cerrado continuará sendo a região onde ocorrerá a maior parte dessa
expansão, estimam os pesquisadores.
“O Cerrado é o lugar onde a agricultura brasileira acontece. E, apesar de ser um hotspot
de biodiversidade e abranger algumas das maiores bacias hidrográficas
do país, corre o risco de desaparecer porque tem recebido menor atenção e
é menos protegido do que a Amazônia. Além disso, suas áreas de
vegetação remanescentes têm sido convertidas em lavouras ou pastagens
mais rapidamente”, disse Soterroni.
Diferentemente da Amazônia, onde quase metade do bioma está sob algum
tipo de proteção, apenas 8% do Cerrado – que possui menos de 20% de sua
vegetação nativa remanescente não antropizada – está protegido. E
enquanto o Código Florestal estabelece a conservação de 80% da vegetação
nativa em terras privadas na Amazônia, no Cerrado esse número cai para
20% e para 35% para a porção situada na Amazônia Legal.
Além disso, medidas regulatórias governamentais, juntamente com
iniciativas da cadeia de produção, como a moratória da soja, que foram
responsáveis por reduzir o desmatamento na Amazônia brasileira, não têm
avançado no Cerrado, segundo Soterroni.
“Quando o ambiente de governança é fraco e a vontade política é
baixa, como temos observado no Cerrado, políticas surgidas por
iniciativa do setor privado para combater o desmatamento e a conversão
de vegetação nativa em áreas de pastagem ou lavoura, como a extensão da
moratória da soja para o bioma, são fundamentais”, disse.
Código Florestal
A fim de analisar o impacto dessa medida na expansão da produção de
soja no Brasil os pesquisadores usaram o Globiom-Brasil – uma versão
regional de um modelo econômico global, desenvolvido pelo IIASA, que
simula as mudanças no uso da terra com base na dinâmica da economia em
intervalos de cinco anos entre 2000 e 2050.
Os resultados das simulações indicaram que a área de expansão da soja
entre 2021 e 2050 no Brasil será de 12,4 milhões de hectares. A maior
parte dessa expansão deve ocorrer justamente no Cerrado – que ganhará
10,8 milhões de hectares de lavoura contra 1,1 milhão de hectares a
serem ocupados com essa cultura na Amazônia.
É provável que 86% dessa conversão de áreas de vegetação nativa em
lavouras de soja ocorra na região do Matopiba, na fronteira do Cerrado
com a Caatinga, onde a maior parte da vegetação remanescente não
perturbada do bioma está localizada.
Em um cenário de extensão da moratória da soja para o Cerrado seria
possível evitar a conversão direta de 3,6 milhões de hectares de
vegetação nativa em lavoura de soja. Cerca de 2 milhões de hectares de
lavouras de soja no Cerrado migrariam para outros biomas, indicaram as
simulações.
“Essa migração das lavouras de soja para outros biomas ocorreria em
áreas de pastagem ou improdutivas, sem causar desmatamento”, disse Fernando Manoel Ramos, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos autores do estudo.
Sem a moratória da soja, a aplicação do Código Florestal impediria
que apenas 0,9 milhão de hectares de vegetação nativa fosse convertida
em lavouras de soja, indicaram as simulações.
“O Código Florestal não é suficiente para preservar as áreas de
vegetação remanescentes no Cerrado porque os níveis de proteção que
estabeleceu para o bioma são baixos”, disse Soterroni.
Os pesquisadores também avaliaram os impactos no atraso da
implementação da extensão da moratória da soja para o Cerrado. De acordo
com os cálculos, o adiamento dessa decisão causa uma perda média de 140
mil hectares por ano de vegetação nativa.
“Isso equivale a uma perda anual de, aproximadamente, um Parque
Nacional das Emas, que é um patrimônio mundial da humanidade. Se nenhuma
ação for tomada, o Cerrado corre o risco de se transformar em uma
vegetação fragmentada e empobrecida”, disse Ramos.
O artigo Expanding the soy moratorium to Brazil’s cerrado, de
Aline C. Soterroni, Fernando M. Ramos, Aline Mosnier, Joseph Fargione,
Pedro R. Andrade, Leandro Baumgarten, Johannes Pirker, Michael
Obersteiner, Florian Kraxner, Gilberto Câmara, Alexandre X. Y. Carvalho e
Stephen Polasky, pode ser lido na revista Science Advances em https://advances.sciencemag.org/content/5/7/eaav7336.
Maior prevalência de defeitos cardíacos congênitos em áreas com alta intensidade de atividade de poços de petróleo e gás
University of Colorado*, Anschutz Medical Campus
Foto: University of Colorado
Mães que vivem perto de atividades mais intensas de desenvolvimento
de petróleo e gás têm uma chance 40-70% maior de ter filhos com defeitos
cardíacos congênitos (CHDs) em comparação com aqueles que vivem em
áreas de atividade menos intensa, de acordo com um novo estudo de
pesquisadores da University of Colorado, Anschutz Medical Campus.
“Nós observamos que mais crianças estavam nascendo com um defeito
cardíaco congênito em áreas com a maior intensidade de atividade de poço
de petróleo e gás”, disse a autora sênior do estudo Lisa McKenzie, PhD,
da Escola de Saúde Pública da Universidade do Colorado. Pelo menos 17
milhões de pessoas nos EUA e 6% da população do Colorado vivem a menos
de um quilômetro de um poço ativo de petróleo e gás.
O estudo foi publicado hoje na revista peer-reviewed Environment International .
Os pesquisadores estudaram 3.324 bebês nascidos no Colorado entre
2005-2011. Eles analisaram bebês com vários tipos específicos de CC.
Os pesquisadores estimaram a intensidade mensal de petróleo e gás na
residência da mãe de três meses antes da concepção até o segundo mês de
gravidez. Essa medida de intensidade foi responsável pela fase de
desenvolvimento (perfuração, completação do poço ou produção), tamanho
dos locais dos poços e volumes de produção.
Eles descobriram que mães que vivem em áreas com os níveis mais
intensos de atividade de poços de petróleo e gás têm cerca de 40 a 70%
mais chances de ter filhos com DCC. Este é o defeito congênito mais
comum no país e uma das principais causas de morte entre bebês com
defeitos congênitos. Bebês com DAC têm menos probabilidade de prosperar,
mais propensos a ter problemas de desenvolvimento e mais vulneráveis
??a lesões cerebrais.
Modelos animais mostram que os CHDs podem acontecer com uma única
exposição ambiental durante o início da gravidez. Alguns dos poluentes
atmosféricos perigosos mais comuns emitidos em locais de poços são
suspeitos de teratógenos – agentes que podem causar defeitos congênitos –
conhecidos por atravessarem a placenta.
O estudo se baseia em um estudo anterior que analisou 124.842
nascimentos na área rural do Colorado entre 1996-2009 e descobriu que os
CHDs aumentaram com o aumento da densidade de poços de petróleo e gás
ao redor da residência materna.
Outro estudo em Oklahoma que analisou 476.000 nascimentos encontrou
associações positivas mas imprecisas entre a proximidade de poços de
petróleo e gás e vários tipos de CHDs.
Esses estudos tiveram várias limitações, incluindo não serem capazes
de distinguir entre o desenvolvimento do poço e as fases de produção nos
locais, e não confirmaram CHDs específicos ao revisar os registros
médicos.
As limitações foram abordadas neste último estudo. Os pesquisadores
puderam confirmar onde as mães viviam nos primeiros meses de gravidez,
estimar a intensidade da atividade do poço e explicar a presença de
outras fontes de poluição do ar. Os CHDs também foram confirmados por
uma revisão de prontuário e não incluíram aqueles com uma origem
genética conhecida.
“Nós observamos associações positivas entre as chances de um parto
com uma doença coronariana e exposição materna às atividades de petróleo
e gás no segundo mês gestacional”, disseram os pesquisadores do estudo.
Os dados do estudo mostraram níveis mais elevados de CHDs em áreas
rurais com altas intensidades de atividade de petróleo e gás, em
oposição àquelas em áreas mais urbanas. McKenzie disse que é provável
que outras fontes de poluição do ar em áreas urbanas tenham obscurecido
essas associações.
Exatamente como os produtos químicos levam a CHDs não é totalmente
entendido. Algumas evidências sugerem que elas podem afetar a formação
do coração no segundo mês de gravidez. Isso poderia levar a defeitos
congênitos.
McKenzie disse que as descobertas sugerem, mas não comprovam, uma
relação causal entre exploração de petróleo e gás e defeitos cardíacos
congênitos e que mais pesquisas precisam ser feitas.
“Este estudo fornece mais evidências de uma associação positiva entre
a proximidade materna para as atividades do poço de petróleo e gás e
vários tipos de CHDs”, disse ela. “Juntos, nossos resultados e o
desenvolvimento em expansão de poços de petróleo e gás ressaltam a
importância de continuar a realizar pesquisas abrangentes e rigorosas
sobre as consequências para a saúde da exposição precoce às atividades
de petróleo e gás”.
Os co-autores do estudo incluem William Allshouse, PhD, BSPH e
Stephen Daniels, MD, PhD, ambos da Universidade do Colorado Anschutz
Medical Campus. O estudo foi financiado por uma concessão da American
Heart Association.
Referência: Congenital heart defects and intensity of oil and gas well site activities in early pregnancy
Lisa M.McKenzie, William Allshouse and Stephen Daniels
Environment International https://doi.org/10.1016/j.envint.2019.104949
Com
a previsão de que a população mundial chegará a quase 10 bilhões em
2050, um novo relatório mostra que o sistema global de alimentos deve
passar por mudanças urgentes para garantir que haja comida adequada para
todos, sem destruir o planeta.
O “Relatório de Recursos Mundiais: Criando um Futuro Alimentar Sustentável”
revela que enfrentar esse desafio exigirá o fechamento de três lacunas:
uma “lacuna alimentar” de 56% entre o que foi produzido em 2010 e os
alimentos que serão necessários em 2050; uma “lacuna de terra” de quase
600 milhões de hectares (uma área quase duas vezes maior que a da Índia)
entre a área agrícola global em 2010 e a expectativa de expansão
agrícola até 2050; e um “gap de mitigação de gases de efeito estufa” de
11 gigatoneladas entre as emissões esperadas da agricultura em 2050 e o
nível necessário para atender o Acordo de Paris para o clima.
Para
preencher as lacunas, o relatório pede ajustes significativos na
produção de alimentos, bem como mudanças no consumo das pessoas. Desde o
manejo da pesca silvestre até a quantidade de carne a ser consumida, o
relatório fornece aos formuladores de políticas, empresas e
pesquisadores um roteiro abrangente sobre como criar um sistema
alimentar sustentável da fazenda até o prato.
“Milhões
de agricultores, empresas, consumidores e todos os governos do planeta
terão que fazer mudanças para enfrentar o desafio alimentar global. Em
todos os níveis, o sistema alimentar deve estar vinculado a estratégias
climáticas, bem como proteções do ecossistema e prosperidade econômica”,
disse Andrew Steer, presidente e CEO do World Resources Institute.
“Embora a escala do desafio seja maior do que se imagina, as soluções
que identificamos têm um potencial maior do que muitos imaginam. Há
razão para ter esperanças de que podemos alcançar um futuro sustentável
em alimentos”.
“A
oportunidade de transformar o sistema alimentar não deve ser ignorada.
Recompensar os fazendeiros por produzir alimentos mais diversificados e
nutritivos de uma maneira muito mais sustentável ajudará a aumentar sua
renda e criar empregos, construir sociedades mais saudáveis, reduzir as
emissões de gases de efeito estufa e apoiar a recuperação dos serviços
ecossistêmicos essenciais”, disse Laura Tuck, vice-presidente de
Desenvolvimento Sustentável no Banco Mundial. “O financiamento público
deve ser examinado e, se necessário, redesenhado, para apoiar o uso mais
sustentável dos recursos naturais e alinhar melhor a produção de
alimentos com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável dos países”.
Produzido
pelo World Resources Institute em parceria com Banco Mundial, ONU Meio
Ambiente, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e
agências francesas de pesquisa agrícola CIRAD e INRA, o relatório
apresenta soluções para reformular a forma como o mundo produz e consome
alimentos de forma a garantir uma sustentabilidade para o sistema
alimentar até 2050.
Entre
as soluções apontadas, está reduzir o crescimento da demanda,
diminuindo a perda de alimentos e o desperdício, com dietas mais
saudáveis; aumentar a produção de alimentos sem expandir a área agrícola
através de ganhos de produtividade para culturas e pecuária; proteger e
restaurar os ecossistemas naturais, reduzindo o desmatamento,
restaurando terrenos e vinculando ganhos de produtividade com a
conservação do ecossistema; aumentar a oferta de peixe melhorando os
sistemas de aquicultura e a gestão da pesca selvagem; e reduzir as
emissões de gases do efeito de estufa na produção agrícola através de
tecnologias inovadoras e métodos agrícolas.
Muitas
das descobertas do relatório usam o novo modelo GlobAgri-WRR, que
quantifica até que ponto cada item citado pode ajudar a aumentar a
disponibilidade de alimentos, evitar o desmatamento e reduzir as
emissões de gases do efeito estufa. O relatório também identifica uma
série robusta de políticas, inovações e incentivos que podem dar escala
às soluções.
“A
tecnologia será uma das chaves para o sucesso futuro do sistema
alimentar. Não há potencial realista para criar um futuro sustentável de
alimentos sem grandes inovações”, disse Tim Searchinger, pesquisador
sênior do WRI e principal autor do relatório. “A indústria já está
criando avanços emocionantes como alimentos que suprimem a formação de
metano no estômago das vacas. Precisamos de mais financiamento para
pesquisa e desenvolvimento e regulamentação flexível para incentivar o
setor privado a inovar”.
“Este
relatório é claro sobre o que está acontecendo no sistema alimentar e
as transformações que precisamos urgentemente fazer. Um tema evidente é o
quanto a localização das terras agrícolas está mudando, tanto entre os
países quanto dentro deles. Essa mudança está tornando o desafio
alimentar e climático mais difícil de resolver. Como resultado, o mundo
precisa vincular melhor os esforços para aumentar os rendimentos
agrícolas com a proteção de florestas e outras terras naturais”, disse
Inger Andersen, diretora-executiva da ONU Meio Ambiente.
A
mudança dos padrões de consumo, o aumento da produtividade das culturas
e da pecuária e a melhoria da eficiência de insumos, como
fertilizantes, podem reduzir significativamente as emissões e a demanda
por terra, ao mesmo tempo em que aumentam a renda agrícola. Manter o
aquecimento global abaixo de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais
exigiria fazer isso e todas as demais soluções apontadas pelo documento,
além de reflorestar mais de 585 milhões de hectares disponibilizados
por esses ganhos de eficiência.
“O
chamado à ação desse relatório pode ser resumido em três palavras:
produzir, proteger e prosperar. Estes não são interesses concorrentes”,
disse Achim Steiner, administrador do PNUD. “É possível produzir mais
alimentos com a mesma quantidade de terra agrícola de hoje, proteger os
ecossistemas e fazer isso de uma maneira que garanta que os agricultores
e outros possam prosperar. Criar um futuro de comida sustentável não
será fácil, mas pode ser feito.”
O
novo relatório contém as conclusões completas que sustentam a síntese
da criação de um futuro alimentar sustentável, que foi lançado em
dezembro de 2018 na COP24 na Polônia.
Vivência em áreas verdes melhora cognição e consciência ecológica de crianças e adolescentes
ABr
“Uma nuvem de calças”. Foi assim que o jornalista e tradutor Eduardo
Bueno definiu o poeta, historiador e filósofo norte-americano Henry
David Thoreau, conhecido por escrever o livro Walden (ou A Vida nos Bosques). Na obra, Thoreau compartilha a experiência de levar uma vida simples, longe dos centros urbanos.
Encantado com o esplendor da natureza, o filósofo buscou descobrir,
aos 28 anos, o que seria o avesso da industrialização. Já no século 19,
esperava se libertar do que classificava “uma falsa pele”, empreitada
que seria possível somente ao se distanciar do consumismo, segundo ele.
Ao partir, não quis se explicar a ninguém, pois acreditava que as
pessoas ao seu redor não entenderiam suas razões, julgando sua jornada
“impertinente”.
Em um trecho do livro, Thoreau afirma que a humanidade trabalha “sob
engano” e se dedica a “acumular tesouros que serão roídos pelas traças”.
Para ele, a maioria das pessoas “não tem tempo de ser nada além de uma
máquina”.
Viver sem tantas frivolidades e usufruir mais intensamente de
cenários naturais é também uma das propostas da Sociedade Brasileira de
Pediatria e do Instituto Alana, de defesa dos direitos de crianças e
adolescentes. Em maio, as duas instituições divulgaram o manual Benefícios da Natureza no Desenvolvimento de Crianças e Adolescentes.
No documento, destacam que fatores como o planejamento urbano
deficiente, o adensamento populacional, a especulação imobiliária e a
“supremacia dos carros em detrimento de pedestres ou ciclistas” têm
levado ao desaparecimento de espaços verdes nas cidades. Conforme
explica Laís Fleury, coordenadora do projeto Criança e Natureza, do
Instituto Alana, o manual tem como principal público crianças e
adolescentes da zona urbana, por sofrerem mais fortemente os prejuízos
resultantes desse cenário.
Brasília – Alunos da rede pública de ensino do
Distrito Federal participam de atividades de educação ambiental na
Escola da Natureza (Marcelo Camargo/Agência Brasil) – Marcelo Camargo/Agência Brasil
Déficit de natureza
Ela diz que a infância nesses locais tem como característica um
progressivo “confinamento” e que esse estilo de vida provoca impactos
grandes na saúde. O conjunto de efeitos citado pela coordenadora é
relacionado ao chamado Transtorno de Déficit de Natureza. O termo foi
cunhado por um dos co-fundadores do Children & Nature Network,
Richard Louv, que escreveu o livro A Ultima Criança na Natureza (Last child in the woods).
Laís defende que o contato com a natureza promove o desenvolvimento
integral das crianças porque “sua linguagem é o brincar”.
“Principalmente o brincar espontâneo. É através dele que a criança se
conhece, compreende o mundo. O brincar passa muito pelo corpo, que é uma
linguagem de conhecimento que ela vai desenvolvendo quando está
crescendo”, acrescenta.
“Quando está em um ambiente aberto, ao ar livre, a forma como [a
criança] se comunica é através do corpo. Quando está presente em um
ambiente com bastante espaço, numa praia, por exemplo, ela sente,
naturalmente, vontade de correr, de pular, e esses são os verbos da
infância. Ela se sente convidada, dialoga, é uma criança que,
fisicamente, tende a ser mais saudável, tende a não ter problema com
sobrepeso, porque está em constante movimento, desenvolvendo a força
motora, a coordenação, o equilíbrio”, pontua.
Segundo Laís, ao incorporar atividades ao ar livre ao cotidiano dos
filhos, os pais geram benefícios adicionais, no âmbito da saúde mental.
“A gente sabe, intuitivamente, do poder restaurativo que a natureza tem.
Adultos, quando estão cansados, passam tempo na natureza, na floresta,
isso nos regenera. E é a mesma coisa para as crianças. Esse bem-estar,
esse poder regenerativo que a natureza tem é algo que impacta, de
maneira muito positiva, a saúde da criança”, frisa Laís.
Transformações: do individual ao coletivo
A especislita cita outros benefícios do contato das crianças com a
natureza. “Há várias pesquisas que mostram que tendem a ser crianças
mais equilibradas emocionalmente. É um ambiente que favorece muito a
integração entre pares, membros da família, favorece vínculos, porque um
ajuda o outro e tem brincadeiras acolhedoras. Quando está em meio à
natureza, a criança brinca com possibilidades. Ela está, o tempo todo,
criando os próprios brinquedos. Na brincadeira com o outro, não há um
limitador”, afirma a coordenadora.
“Ela [a criança] estabelece uma brincadeira muito criativa com a
natureza, onde a gente percebe que ela ressignifica [coisas]. A gente vê
um pauzinho, que, uma hora, pode ser uma espada de um príncipe e, outra
hora, pode ser um rabinho de um bicho, algo para puxar um barco, uma
caneta pra escrever na areia. [Nota-se] Como um mesmo elemento nutre
criativamente a criança, a imaginação”, complementa.
De quebra, o lúdico na natureza, diz Laís, é capaz de ampliar a
resistência diante de dificuldades. “Por exemplo, ao subir em uma
árvore, a criança está lidando com o risco, por estar trabalhando com a
altura. E o fato de ela estar lidando com essas adversidades faz com que
esteja desenvolvendo uma resiliência maior. Está trabalhando a coragem
dela, com o imprevisível”.
O incentivo a passeios em áreas verde é tema do guia Acampando com
Crianças, elaborado pelo Instituto Alana, com o apoio da Coalizão
Pró-Unidades de Conservação da Natureza e do Instituto Chico Mendes de
Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Também participam da iniciativa o
portal de campismo MaCamp e a organização Outward Bound Brasil. O
material tem distribuição gratuita e pode ser baixado por download.
O guia lista oito parques nacionais com áreas reservadas para
acampamento. Um deles é o Parque Nacional do Caparaó, que fica na Serra
do Caparaó, divisa entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. A
unidade tem fama de ser um dos destinos mais procurados pelos adeptos do
montanhismo no Brasil e abrigar o terceiro ponto mais alto do país, o
Pico da Bandeira.
Laís finaliza ressaltando que especialistas observam que as
contribuições não se restringem às esferas espiritual e de saúde,
manifestando-se, similarmente, no campo da consciência ambiental. Ela
argumenta que uma pessoa, ao crescer com vivências que valorizam a
biodiversidade, ano após ano, passa a prezar por uma rotina de hábitos
mais sustentáveis. “Além de proporcionar para as crianças uma alegria de
poder brincar, é uma experiência relacionada a valores humanos, de
desenvolvimento de ética, de respeito ao outro, ao meio ambiente, de
contemplação do belo”, afirma.
Por Letycia Bond, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/07/2019
Análise avaliou
prática conhecida por “greenwashing”, que manipula informações para
passar ao público uma imagem ecologicamente responsável
Uma pesquisa realizada
pelo Idec, Ong de Defesa do Consumidor, com 509 produtos de higiene e
cosméticos, limpeza e utilidades domésticas com alegações
socioambientais em seus rótulos revelou que 47,7% não deveriam
apresentar essa descrição em sua embalagem.
O resultado foi
encontrado após a análise dos rótulos de produtos dessas três categorias
vendidos nas cinco principais redes de supermercados do Brasil, em
unidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Após a identificação da
presença do argumento socioambiental, o Idec verificou a veracidade e a
pertinência das informações e checou cada item com as empresas
fabricantes.
Cada irregularidade
constatada foi enquadrada em um dos “sete pecados do greenwashing”, de
acordo com a consultoria TerraChoice Environmental: “Sem provas”, “Troca
oculta”, “Vagueza e Imprecisão”, “Irrelevância”, “Menor de dois males”,
“Lorota” e “Adorando falsos rótulos”.
O tipo de problema
mais identificado como greenwashing nos rótulos analisados foi o item
“Sem Provas”, encontrado em 168 casos, relacionado a produtos que se
dizem ambientalmente corretos, mas não apresentam provas como laudos e
relatórios técnicos. Em segundo lugar, ficou “Irrelevância” da
informação (129 produtos), que ocorre quando a alegação até pode ser
verdadeira, mas não é importante para o consumidor que procura uma opção
com vantagem ambiental. Já em outras 65 embalagens, foi identificada
“Vagueza e imprecisão”, que ocorre pelo uso de expressões mal definidas e
amplas ou de difícil compreensão ao consumidor, como “amigo do meio
ambiente”, “sustentável” ou “natural”.
“Muitas empresas
colocam determinadas marcas ou selos no produto sem nenhuma
rastreabilidade ou credibilidade, induzindo os consumidores a acreditar
em algo que não tem fundamento. Essa pesquisa é mais uma ferramenta para
alertar o consumidor a ficar atento na hora de fazer suas escolhas”,
alerta pesquisadora do Idec Júlia Ferreira.
Entre os exemplos de
greenwashing mais frequentes encontrados pelo Idec na pesquisa está o
uso da alegação do produto não conter CFC, componente proibido em todos
os produtos produzidos desde 1999. Outra irregularidade muito presente
em itens saneantes (desinfetantes, detergentes etc.) é a de que eles
contém “tensoativo biodegradável”. Por lei, no Brasil, só se pode
produzir e importar saneantes que usam esse tipo de tensoativo. Isso é
problemático, pois os rótulos propagandeiam o simples cumprimento da lei
como se fosse uma vantagem ambiental, podendo induzir os consumidores a
erro no momento da compra.
Para explicar a prática do greenwashing, o Idec lançou nesta quinta-feira (18) uma página especial
em seu site para expor como empresas usam essa tática que leva o
consumidor a fazer escolhas equivocadas. O site ainda traz informações
sobre como não cair nessas armadilhas, o que fazer quando identificar o
problema e os demais dados coletados no estudo.