sexta-feira, 13 de maio de 2016

Incendio à vista!!Lagoa do Cedro virou local de churrasco na fogueira! .

sexta-feira, 25 de abril de 2014





Vejam o que um palito de fósforo aceso, uma simples fagulha pode acarretar.Quanto mais uma fogueira!

 Prezados

Ultimo domingo foi um dia de sofrimento para mim.Para a Lagoa do Cedro deve ter sido ainda pior.

A caminho do Park Shopping-- para o cineminha de praxe-- percebi, ao passar pela Lagoa do Cedro (eu moro na 25 e a reta que leva da 24 à 14 é meu caminho usual), uma fumaça muito significativa Dei meia volta e me deparei com uma família  de pessoas de fora do Park Way (Valparaiso) aboletada ao lado da Lagoa esperando o churrasco ficar pronto.

Sim senhor! Churrasco com fogueira feita com carvão, delimitada por mourões arrancados da cerca que deveria, em principio, proteger a área de vândalos daquele tipo.

No entanto, apesar das placas de proteção ambiental que cercam o local a família fez o que bem entendeu.Se preparou para nadar, se esticou na grama, abriu as marmitas , escolheu a carne para assar, fez a fogueira com carvão e  lá ficou, aguardando o churrasco ficar pronto..

Cuidado ambiental?Sustentabilidade? Risco de incêndio?

Nada disso os impediu de fazer o que bem entenderam.

E para tira-los de lá foi um sufoco.Tive de telefonar para a Crimes Ambientais e pedir para  o policial explicar a eles que fogueira em área verde pode causar incêndio!

Fui ridicularizada pela família por estar estragando o programa deles. Não houve jeito deles entenderem o perigo que uma fogueira feita com carvão pode causar ao meio ambiente.

Pensei que o Governo tivesse implantado nas escolas cursos de Educação Ambiental.

Finalmente, depois de umas últimas ironias  foram embora resmungando.Entendam que eu não pedi para eles saírem, pedi apenas que apagassem o fogo.Mas a família ficou tão ofendida com minhas criticas à fogueira deles que resolveu partir.De nariz em pé.

Quando eu pensei que a situação estava resolvida, a Lagoa salva, e já estava me preparando para partir, com esperanças de chegar no Park Shopping a tempo de pegar a sessão das 16:00 horas, chega outro carro, desta feita cheio de rapazes com cachorros.Mal estacionaram, já foram tirando a roupa para nadar e ...dar banho com sabão nos cachorros.Depois apareceu outro carro e a mulher que estava no banco do passageiro desceu e se pôs a arrancar as mudas das plantas que rodeiam a Lagoa.Depois apareceu outra família numerosa de tomadores de banho e lavadores de bicicleta.

Enfim.No espaço de uma hora eu flagrei quatro grupos de pessoas desrespeitando a Lagoa do Cedro.

Pensei então em fazer um Oficio à Administração Regional pedindo que fosse estabelecido um rodízio de funcionários durante o fim de semana para coibir as agressões à Lagoa do Cedro;mandar fazer outra placa, fixada em cimento, dizendo que é proibido fazer piquenique, fogueira, tomar banho com sabão, lavar carro, cachorro e/ ou bicicletas,  pescar, arrancar mudas naquela área.Seria bom também que os moradores lindeiros à Lagoa tivessem o telefone do funcionário de plantão para eventuais denuncias em casos semelhantes.Pensei também em pedir que a cerca fosse restaurada e reforçada de modo a dificultar o transito de carros ( a Lagoa-- antes de ser colocada a cerca-- era local de lavagem de carros) e de tomadores de banho dentro da Lagoa.

O que vocês acham?

Acrescento que tenho a maior simpatia por programas familiares em que todos se  reúnem para um piquenique domingueiro.Mas que façam isso no Parque da Cidade onde inclusive existe uma estrutura montada para esse fim.

Flavia Ribeiro da Luz

No Brasil, comércio sem fiscalização dá nisso.




População se mobiliza para alertar: dar dinheiro é uma atitude que só aumento o problema
 
Renan Bortoletto
renan.bortoletto@jornaldebrasilia.com.br


Não importa onde você vá, eles estarão sempre prontos para te abordar. Os pedidos podem vir das mais variadas formas, mas o objetivo é um só: sobreviver nas ruas em troca de doações e esmolas. O ato, porém, é contestado por aqueles que se sentem prejudicados e até mesmo coagidos a "colaborar" com os pedintes.

Na quadra 302 Sul, comerciantes espalharam cartazes próximo aos caixas e balcões de atendimento sugerindo que os fregueses não deem esmolas aos moradores de rua. Hoje, aproximadamente duas mil pessoas vivem em situação de vulnerabilidade social no Distrito Federal.

Os problemas, no entanto, vão muito além da contribuição.

Na 302 Sul, as vielas entre o comércio e o setor residencial estão cheias de pertences dos moradores de rua, que chegam a disputar os melhores espaços para passar a noite. Além disso, o cheiro de urina e os restos de comida contribuem para um cenário desolador.

A iniciativa de distribuir panfletos aos comerciantes da 302 Sul partiu da prefeitura local. Um dos principais motivos apontados é que, em muitos casos, as esmolas são usadas para o consumo de drogas. O aviso também destaca que "o GDF disponibiliza atendimento à população de rua na 903 Sul, das 8h às 18h em duas úteis, com atendimento médico e psicossocial, banheiros, guarda de pertences, oficinas, cursos de capacitação, café da manhã e almoço. Às 17h, há transporte para abrigos."

Reclamações

"Eles pedem por comida e dinheiro toda hora. O problema é que abordam nossos clientes logo que saem da porta e já tivemos reclamações. Não sabemos mais quem é mendigo, quem é guardador de carro. Está difícil até mesmo trabalhar", disse Iranice Rodrigues, gerente de uma doceria na 302 Sul.
Ela conta que já foi ameaçada por moradores de rua que estavam nitidamente sob efeito de álcool ou drogas, e por conta disso teve que contratar um segurança para o comércio. "A gente pede para eles não entrarem, mas eles nos mandam calar a boca e perguntam o que tem pra comer. Parece até que temos a obrigação de dar algo", reclama a comerciante.

Situação se torna ciclo vicioso
Gerente de um varejão na 302 Sul, Wesley Alves de Sousa, 30, diz que nunca deu esmolas nem mesmo restos de frutas ou verduras aos moradores de rua que procuraram o seu comércio.


"Acontece que se você dá qualquer coisa num dia, eles vão voltar no próximo e continuar pedindo, é um processo inevitável. Além disso, eles trazem mais moradores de rua para o local. Eu nego de cara, eles saem xingando, reclamando, mas é melhor assim do que contribuir e criar esse vínculo", aconselha.


E para quem faz compras diariamente na 302 Sul, o convívio com os moradores de rua também pode ser incômodo. "Já dei esmola, mas hoje não dou mais. O problema é que isso já cria a insatisfação neles, e acaba que eles te marcam", ressaltou o aposentado Maurício Martins de Faria, de 68 anos.


Para ele, quem dá esmola ou até mesmo comida aos pedintes está agindo de forma errada e irresponsável. "O governo não propicia soluções para isso, mas sei que há abrigos que ajudam estas pessoas. O que quero dizer é que eles dão a moradia, mas não capacitam ou oferecem condições para que eles saiam das ruas de vez", realça.

Faria afirma que já se sentiu coagido em diversas situações, e que teve que "driblar" os pedintes da 302 Sul. "Venho a este setor comercial há mais de 20 anos, mas já deixei até de vir de carro para não ser abordado pelos guardadores de carro e neguei ajuda mesmo podendo", confessou.

Nem mesmo os bairros mais nobres de Brasília estão livres das ações dos moradores de rua. Gerente de uma padaria na quadra 301 do Sudoeste, Simone Freire de Souza conta já ter tido dificuldades até mesmo para abrir o estabelecimento. "Teve dia que não dava nem para abrir as portas de tanta gente que tinha dormindo aqui. A padaria não é autorizada a dar nada para eles, mas os próprios fregueses têm feito isso. É um costume e isso contribui para que eles não larguem essa vida", confessa.

Moradores do Sudoeste também já fizeram campanha para que não se dê esmola, mas, ao que tudo indica, isso não preocupou os moradores de rua. Segundo Simone, os horários de pico são os que mais atraem os mendigos. "Eles aproveitam que as pessoas vêm comprar comida e saem pedindo. Semana passada vi um sair do mercado com um carrinho cheio", conta.

Abordagem assusta clientes

No Distrito Federal, difícil mesmo é encontrar uma cidade onde não existam moradores de rua. Os grupos se concentram, principalmente, em áreas movimentadas. No Guará I, por exemplo, o ponto escolhido por muitos é a QE 7. Ali estão situadas muitas lojas e agências bancárias.

Na quadra, a única solução encontrada pela Caixa Econômica Federal parece ter sido isolar a área externa com grades. Moradores do Guará lembram que há anos local abrigava muitos moradores de rua que passavam a noite ali e faziam suas necessidades fisiológicas nos arredores. Resultado: cheiro de urina, restos de comida espalhados em volta do prédio e constantes abordagens aos clientes. Antes do cercamento, essa população só se multiplicava.

Medo

"Agora eles encontraram um novo meio. Abordam você antes de chegar à agência e entregam um papel escrito com o que querem. Eles estão sempre se locomovendo, não ficam estáticos. Possuo conta nesta agência, venho só para ver se caiu pagamento e não ando mais com dinheiro ou carteira", afirmou o aposentado Júlio Pereira dos Santos, de 56 anos.

Além disso, ele reclama dos chamados "guardadores de carro". "Não são credenciados, muito menos vigiam o veículo. Só estão ali para pegar algum dinheiro e depois ir atrás da droga. E se você não dá, podem riscar seu carro ou fazer alguma maldade", denuncia o aposentado.

Versão Oficial

O secretário de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest), Osvaldo Russo, disse estar ciente de que os moradores de rua incomodam comerciantes e a população. O titular da pasta também defende que as ajudas oferecidas aos pedintes não são a melhor forma de combater o problema. "Temos programas sociais em que oferecemos tudo o que eles precisam para sair das ruas, a exemplo do DF Sem Miséria.

O que acontece, infelizmente, é que muitos ainda relutam em procurar ajuda, mas garanto que o número de moradores de rua tem diminuído drasticamente", alegou. Russo afirmou que existe também um preconceito com os moradores de rua, e que eles não optaram por esta vida, mas sim passaram por situações sociais que os levaram a tais condições. O secretário disse ainda que vai propor uma reunião com os comerciantes e moradores da 302 Sul para acompanhar de perto o problema relatado.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília


domingo, 4 de maio de 2014

Patrimônios ameaçados

quarta-feira, 11 de maio de 2016


Unesco celebrou no início do mês, pela primeira vez, o Dia Mundial do Patrimônio Africano para destacar a necessidade de proteger a cultura e a natureza da África contra o terrorismo, o tráfico, a expansão econômica e o aquecimento global. Continente abriga 129 patrimônios mundiais.

Por Redação da ONU Brasil –

Dos 129 sítios culturais e naturais da África considerados patrimônios mundiais, 17 estão ameaçados. O alerta foi feito pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) na última quinta-feira (5) – dia em que a comunidade internacional comemorou, pela primeira vez, o Dia Mundial do Patrimônio Africano.

Segundo a diretora-geral da agência da ONU, Irina Bokova Bokova, “o rol de ameaças (ao patrimônio) é longo, e vai desde conflitos armados, terrorismo, tráfico e aquecimento global, até a expansão urbana descontrolada e a exploração mineral e petrolífera, tudo isso se desenrolando em meio a transformações econômicas e sociais sem precedentes”.

Entre os locais ameaçados está o Parque Nacional de Garamba, na República Democrática do Congo, que abriga elefantes, girafas, hipopótamos e uma pequena população – apenas 30 animais – de rinocerontes brancos.

Outro sítio cultural ameaçado são as Tumbas dos Reis de Buganda, em Uganda. O local guarda os cadáveres quatro túmulos reais e é apreciado por sua arquitetura complexa produzida apenas com materiais orgânicos.

“Não existe a necessidade de se escolher entre patrimônio e crescimento, entre lindas paisagens e meios de subsistência dignos. Com as habilidades certas e com competências mais fortes, podemos aproveitar o potencial que o patrimônio tem para criar milhões de empregos dignos, ao mesmo tempo em que fornece um senso de dignidade, inclusão e orgulho”, destacou a chefe da UNESCO.

Para Bokova, o patrimônio cultural e natural da África deve ser visto como “uma força para a paz e também é uma força condutora do desenvolvimento e da inovação – o que torna fundamental a sua conservação”.

“Por meio da proteção dos recursos naturais, de rios e parques, podemos desencadear uma extraordinária fonte de energia renovável para todos”, explicou. “A salvaguarda do patrimônio ajuda na criação de empregos, na promoção da igualdade de gênero e na erradicação da pobreza.”

Bokova ressaltou ainda que a UNESCO realizou progressos consideráveis na última década para aumentar o número de sítios africanos na lista dos Patrimônios Mundiais, melhorando a conservação e o gerenciamento de riscos, além de ampliar o envolvimento das comunidades locais e os benefícios destinados a elas.

A dirigente acredita que os esforços de conservação exigem a mobilização de toda a população e atores envolvidos em iniciativas de preservação, a começar pelas crianças em idade escolar, pelas mulheres e homens jovens.

Parceiros como o Fundo Africano do Patrimônio Mundial – que celebra seu 10º aniversário em 2016 – também devem ser incluídos nos projetos que buscam aumentar a conscientização mundial sobre o patrimônio africano e mobilizar uma maior cooperação para a sua salvaguarda.



Fonte: Envolverde

Qual o preço de um rio? Pesquisador da ENSP analisa tragédia em Mariana


O ano de 2015 começou sem água e terminou em lama. Não a lama nossa de cada verão, vinda dos deslizamentos e enchentes, mas lama tóxica, misturada a rejeitos de mineiração. Em fevereiro, enquanto os estados mais ricos do país contavam milímetro a milímetro o volume de seus reservatórios de água, o Informe ENSP entrevistou o pesquisador do Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, Marcelo Firpo, para uma reportagem sobre custos da poluição. “Qual o preço de um rio?”, perguntou Marcelo, na ocasião. Naquele momento, a pergunta parecia flutuar entre a literalidade e a hipérbole, conferindo dramaticidade ao conteúdo da conversa com o pesquisador. Nove meses depois, ela ganhou concretude, nome, sobrenome e endereço: quanto nos custará o assassinato do Rio Doce?

A Fiocruz, esta semana, divulgou uma moção em que se solidariza com os moradores das áreas atingidas pelo rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, que deixou, até o momento, mais de uma dezena de mortos e outra dezena de desaparecidos, devastou comunidades, matou toneladas de peixes e chegou ao mar do Espírito Santo. A Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Abrasco, também divulgou nota em que convoca as organizações da sociedade civil a unirem esforços para buscar saídas para o desastre, que é ao mesmo tempo causa e sintoma de um conjunto complexo de relações sociais e políticas. A equipe do Informe ENSP voltou a ouvir Marcelo Firpo. Atualmente, na coordenação do grupo de trabalho, saúde e ambiente da Abrasco, o pesquisador, mais uma vez, ressaltou a importância de se rever o modelo econômico vigente que, para ele, está prenhe de tragédias como a que acabamos de assistir.

Informe ENSP: Professor, qual a sua avaliação desse acidente em Mariana?

Marcelo Firpo: Este acidente é considerado um dos piores, talvez o  pior com impactos socioambientais, no mundo, envolvendo uma barragem de rejeitos de mineração. É um acidente de muitos mortos, desaparecidos e as consequências ainda serão sentidas por décadas. É claro que há toda uma preocupação quanto ao papel do setor saúde em acompanhar e contribuir pra entender e minimizar os impactos desse desastre na saúde da população, mas existe uma discussão de fundo, que a mim me interessa, que busca compreender esse acidente como uma tragédia anunciada. Marx, no 18 Brumário de Luís Bonaparte, diz que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Esse acidente é também uma farsa, no sentido de que existe um conjunto de processos sociais, institucionais, políticos e econômicos por trás da megamineiração, atividade que transformou o Brasil no segundo maior exportador mundial e a Vale na maior empresa mundial de exploração de minério de ferro. Entre 2003 e 2013, houve um aumento de mais de cinco vezes da demanda mundial por minério de ferro, puxada pela China e outros emergentes. Há um mercado violento de commodities, pesadíssimo, e o Brasil possui, em operação ou  construção, cinco das dez maiores minas do mundo, quatro delas localizadas em Minas Gerais. São megaminas com construção de barragens de rejeitos, que são extremamente problemáticas.

Informe ENSP: O que são exatamente essas barragens?

Marcelo Firpo: No processo de produção de minério de ferro, vão sendo retiradas  camadas superficiais, até que se atinja a jazida, quando se começa a trabalhar propriamente com o minério. Passa-se por diversas etapas de produção até que esse minério seja transformado na pelota, naquilo que vai ser exportado ou entrar nas siderúrgicas e metalúrgicas. Todo resto produzido nesse processo vira uma lama gigantesca que é armazenada ao ar livre nos vales ao redor dos morros.

Informe ENSP: Mas se é uma tragédia anunciada, uma situação de risco clara, o que leva o Brasil a investir nesse modelo de exploração de minérios?

Marcelo Firpo: Existem dois modelos de gestão ambiental em sociedades de mercado. No primeiro, que normalmente ocorre em países em que a vida e o meio ambiente são mais valorizados, se tem uma série de compromissos, desde o processo de licenciamento e proposição dos empreendimentos até a proibição ou o acordo para que a empresa siga adiante. São exigidas tecnologias e processos de fiscalização e monitoramento com um patamar extremamente elevado de segurança e proteção ambiental. Só que isso envolve muitos custos. Primeiramente, por parte do estado, que precisa ter recursos econômicos, tecnológicos e humanos para cumprir seu dever constitucional de proteger as pessoas, os trabalhadores, a saúde e o meio ambiente. Em segundo lugar, pelas próprias empresas, que devem internalizar esses gastos. E tudo tem que ser negociado com a sociedade. Se existe uma comunidade tradicional no local em que se dará o empreendimento, ela participará das negociações. Não se trata, simplesmente, de se chegar ao local, retirar os moradores e indenizá-los por uma bagatela, como ocorre no Brasil. Esse padrão elevado de licenciamento, se tivesse sido aplicado em nosso país, impediria que as megaminas tivessem sido construídas da forma como foram, nos últimos 15, 20 anos.

O segundo modelo é justamente o que temos, que é  o modelo do faroeste e da barbárie. A legislação é falha. Quando existe, não é cumprida. Os órgãos licenciadores, de regulação e fiscalização, são extremamente frágeis. Seus recursos humanos, técnicos e econômicos não dão conta da tarefa de avaliar os processos de licenciamento, os relatórios de impacto. Para piorar, não são órgãos independentes, autônomos, porque sofrem pressão das empresas, gestores e políticos, inclusive financiados em suas campanhas eleitorais diretamente pelas empresas. A Vale é um dos maiores financiadores privados de campanhas eleitorais do Brasil.

Informe ENSP: Muitas concessões são feitas com uma série de condicionantes. Eles não costumam ser cumpridos?

Marcelo Firpo: Nesse modelo da barbárie, do faroeste,  os técnicos de órgãos reguladores, em sua busca por fazer um trabalho digno, ainda conseguem colocar os condicionantes, mas são uma espécie de confiança no futuro, em que se crê que a empresa vá empreender ações que não estavam, inicialmente, na sua proposta. Muitas vezes, os órgãos ambientais não tem condições de fiscalizar o cumprimento desses condicionantes ou de interromper o empreendimento depois de inciado. Isso acaba reforçando um processo muito intenso de autoregulação. É claro que as empresas não querem que acidentes ocorram, mas nesse modelo da barbárie, quando acontecem tragédias ou impactos ambientais, sociais e humanos, quem paga a conta é a sociedade. As empresas não assumem os custos. É a previdência social, o setor saúde, ambiental, os territórios, populações, economias, a agricultura, a pesca artesanal, o turismo, que arcam com os ônus das tragédias.

No caso do setor de mineração, é importante também dizer que nos últimos dois anos, mais ou menos, há uma crise de preços nesse mercado volátil das commodities, que é uma fria. Quando há uma crise mundial, todo mundo que produz determinado tipo de commoditie entra em crise junto. O preço da tonelada do minério de ferro, que já passou de US$ 150, atualmente está na ordem de US$ 50. As grandes empresas buscam reduzir custos diante de situações de crise, então, temos que investigar de que maneira Vale, BHP e Samarco vêm enfrentando essa crise a ponto de continuar produzindo lucro, pois possivelmente estão debilitando seus  padrões de segurança.

Informe ENSP: A Folha de São Paulo acaba de noticiar que a Samarco engavetou, em 2009, um plano de monitoramento e alerta das barragens, por causa da crise financeira.

Marcelo Firpo: Sim. Se um plano desses não tivesse sido engavetado, uma quantidade enormes de mortes poderia ter sido evitada.

Informe ENSP: Existem exemplos de países ou locais que conseguiram administrar de maneira responsável e sustentável a atividade de mineração?

Marcelo Firpo: Sim. Isso ocorre em áreas mais inóspitas, como em partes da Austrália, ou por meio de modelos custosos, mas democráticos de negociações, como eu expliquei. As comunidades atingidas têm que ser ouvidas para que se decida, de forma clara, quem assumirá os ônus e os bônus desses processos. No Brasil,  privatiza-se os lucros, nas mãos de grupos particulares, e democratiza-se o ônus, pago pela parcela mais vulnerável da população. Para mim, portanto, a única solução possível é uma radicalização de democracia e de justiça ambiental. É preciso que os movimentos por justiça ambiental, os movimentos sociais e as organizações das populações atingidas tenham um papel de destaque no enfrentamento dessa atual tragédia. 
É fundamental, dentro do jogo institucional, que os Ministérios Públicos e as Defensorias Públicas tenham protagonismo, porque, nesse momento, várias instituições de estado não tem a possibilidade e a legitimidade política e técnica, isoladamente, para enfrentar a tragédia. 
Para que as mudanças sejam efetivas, elas têm que vir a reboque de um processo social e político mais amplo, que essa tragédia vem mobilizando.  Como disse anteriormente, é um desastre anunciado, porque faz parte de um processo que desde a década de 1980 e, principalmente, desde a virada do século, vêm se acelerando, com acidentes, mortes, destruição, degradação ambiental. Não há nada de novo. Dessa vez, entretanto, pela dimensão do desastre, talvez se consiga uma mobilização maior e mudanças, por parte da sociedade.

Fonte: EcoDebate

FAO abre inscrições para curso sobre gestão responsável da terra, florestas e recursos pesqueiros

quinta-feira, 12 de maio de 2016


Brasileiros podem se inscrever até 23 de maio para formação semipresencial que contará com quatro semanas de aulas à distância e três dias de encontros na Guatemala. Custos dos participantes serão inteiramente financiados.


Até 23 de maio, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) recebe inscrições para um novo curso sobre gestão responsável da terra, das florestas e da pesca. A iniciativa, prevista para ocorrer nos meses de junho e julho, é online e semipresencial, com quatro semanas à distância e três dias de encontros em Antigua, na Guatemala.

Todos os custos do curso para os participantes — incluindo matrícula, viagem, deslocamentos, hospedagem e alimentação — serão financiados pela Cooperação Internacional do Reino Unido.

A iniciativa é voltada para funcionários e técnicos de instituições governamentais e da sociedade civil que trabalham na execução de políticas e programas de gestão sustentável de recursos naturais. O curso pode ser realizado por nacionais de Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guatemala, México e Peru.

Com a capacitação, a FAO espera fortalecer a capacidade institucional de organismos estatais e da sociedade civil para aprimorar a governança da terra, das florestas e da pesca, promovendo a segurança alimentar o desenvolvimento sustentável.

As aulas estão alinhadas a diretrizes específicas sobre esses temas elaboradas pela agência da ONU, que busca aumentar sua aplicação na América Latina. Os princípios da FAO buscam garantir a igualdade no acesso a recursos naturais e estabelecer padrões para a promoção dos direitos de propriedade e manejo responsáveis da natureza — o que pode contribuir para o combate à pobreza e à fome.

Saiba mais aqui; inscreva-se no curso diretamente clicando aqui.

Curso

Duração: 4 semanas à distância e 3 dias presenciais;
Fase à distância: 6 de junho a 10 de julho de 2016;
Fase presencial: 18 a 20 de julho, no Centro de Formação da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento AECID em Antígua, na Guatemala.

Fonte: EcoDebate

Cimento que brilha no escuro pode substituir iluminação em estradas

quinta-feira, 12 de maio de 2016


O cimento consegue absorver a energia do sol durante todo o dia, para permanecer iluminado por até 12 horas.

No que depender do trabalho de José Carlos Rubio, as estradas nunca mais precisarão de iluminação. O pesquisador e Ph.D. da Universidade de Michoacan de San Nicolas Hidalgo, no México, estuda o cimento há nove anos. Após tanto esforço, ele encontrou uma maneira de produzir um piso capaz de emitir luz, com vida útil de cem anos.

Segundo Rubio, o maior problema enfrentado no processo foi o fato de o cimento ser um corpo opaco, que não permite a passagem de luz para o seu interior. Então, foi necessário um estudo mais profundo e diversas experiências até que a solução fosse encontrada.

O pesquisador explicou qual é a lógica por trás dessa invenção. O cimento é um pó que, ao ser adicionado à água, dissolve-se como um comprimido efervescente. Neste momento o material começa a se assemelhar a um gel muito forte e resistente, ao mesmo tempo, flocos cristalinos são formados, mas esses flocos são totalmente indesejados.

Para resolver o problema, Rubio se dedicou à mudança na estrutura do cimento, para eliminar os flocos e deixá-lo completamente em forma de gel, ajudando a absorver a energia do sol, devolvendo-a ao meio ambiente como luz. Este cimento “brilhante” é feito com base em areia e argila, tendo como único resíduo o vapor de água.

O cimento consegue absorver a energia do sol durante todo o dia, para permanecer iluminado por até 12 horas. Além disso, o pesquisador explica que é possível controlar a intensidade da luz, para evitar que o brilho atrapalhe ciclistas e motoristas, e o material pode ser azul ou verde. O melhor de tudo é a sua vida útil, de até cem anos.

A tecnologia está em fase de adaptação para comercialização e os cientistas também estudam a sua inclusão em gesso e outros produtos da construção civil, como alternativa natural para reduzir o consumo de energia elétrica na iluminação de ambientes.

Fonte: Ciclo Vivo

OMS alerta que mais de 80% da população mundial vive em áreas com alta taxa de poluição do ar

Quinta-feira, 12 de maio de 2016


Em torno de 80% das pessoas que vivem em zonas urbanas estão expostas a níveis de qualidade do ar que não respeitam os limites fixados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), revela um estudo publicado nesta quinta-feira.

– Apesar de todas as regiões do mundo serem afetadas, os habitantes das cidades de baixa renda são os que mais sofrem as consequências – alerta a OMS.

Segundo o estudo, 98% das cidades com mais de 100 mil habitantes em países de renda baixa ou média não respeitam as diretrizes da OMS sobre a qualidade do ar. Nos países de renda alta, este percentual cai para 56%.

A contaminação do ar, devido a concentrações elevadas de pequenas partículas (MP10) e de partículas finas (MP2,5), que contêm sulfato, nitratos e carbono negro, representa o principal risco ambiental para a saúde. A poluição aumenta o risco de acidente vascular cerebral, de cardiopatia, de câncer de pulmão e de doenças respiratórias agudas, especialmente asma, e provoca mais de três milhões de mortes prematuras ao ano no mundo, destacou a OMS.

– Quando o ar contaminado envolve nossas cidades, as populações urbanas mais vulneráveis - como os mais jovens, mais idosos e mais pobres - são as mais afetadas – disse a doutora Flavia Bustreo, subdiretora-geral da OMS encarregada do departamento de Saúde da Família.

Segundo os especialistas, que analisaram os níveis de partículas finas em 795 cidades de 67 países, os padrões de contaminação atmosférica no meio urbano cresceram 8% entre 2008 e 2013. Os níveis mais elevados foram encontrados nos países de renda baixa e intermediária do Mediterrâneo oriental e do sudeste asiático, onde os padrões anuais médios são de cinco a dez vezes superiores aos limites fixados pela OMS. Segundo um quadro elaborado pelo organismo internacional, Riad, Nova Délhi, Cairo e Pequim se encontram entre as cidades com o ar mais carregado de partículas MP10.

Na Europa, os níveis de concentração de partículas finas e ultrafinas são praticamente os mesmos em Londres e Genebra, e ligeiramente mais elevados em Paris e Roma. Para melhorar a qualidade do ar, a agência da ONU recomenda limitar as emissões industriais, aumentar o uso de energias renováveis e dar prioridade ao transporte público e às ciclovias.

Fonte: Diário Catarinense

Exercício físico intenso pode antecipar morte de neutrófilos, células do sistema imunológico


Publicado em maio 13, 2016 por



Estudo investiga em competidores de triatlo mecanismos que levam à morte precoce de neutrófilos (fotos: Wikimedia)

Por Diego Freire, Agência FAPESP
Pesquisadores descobriram que o exercício físico intenso pode acelerar o processo de apoptose – a morte celular programada – dos neutrófilos, células do sistema imunológico.
Importante para o equilíbrio do funcionamento do organismo, a apoptose é um mecanismo que deve ocorrer de forma ordenada – do contrário, há danos à saúde, como quando células tumorais, que deveriam morrer naturalmente, persistem.


“Várias células do nosso organismo estão morrendo agora para que outras novas ocupem seu lugar. Assim ocorre com os neutrófilos, que têm um tempo desejado na corrente sanguínea porque novas células do tipo estão continuamente sendo produzidas na medula óssea, em um processo fisiológico equilibrado que é prejudicado se a apoptose é diminuída”, disse Tania Cristina Pithon Curi, professora do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul) e participante do projeto “Efeitos da prática regular de atividade física na qualidade de vida, níveis de estresse e no sistema imune de adultos”, realizado com apoio da FAPESP.


Os neutrófilos são um subgrupo dos leucócitos, também chamados de glóbulos brancos, células encontradas no sangue cuja função é proteger o organismo contra agentes causadores de doenças, como bactérias.


Quando há poucas dessas células o organismo fica mais sujeito a infecções – caso de um grupo de 12 triatletas que participaram da pesquisa.



Logo após cerca de quatro horas de prova e de percorrerem 21 quilômetros (km) a pé, 90 km de bicicleta e 2 km a nado, os atletas tiveram seu sangue coletado pelos pesquisadores em laboratórios instalados sob tendas no local da competição, em Ubatuba, no litoral paulista. Antes de competirem, todos haviam passado por exames de laboratório e avaliações da composição corporal e da capacidade cardiorrespiratória.


Os neutrófilos, tipo celular de interesse da pesquisa, foram isolados do sangue coletado. Em um citômetro de fluxo, aparelho por meio do qual é possível realizar análises de características físicas e químicas de uma célula, os pesquisadores avaliaram uma série de parâmetros relacionados à apoptose dos neutrófilos.


“Quando a célula começa a morrer por apoptose, um fosfolipídeo denominado fosfatidilserina, que está presente dentro da membrana celular, migra para a parte externa da membrana. Nós aplicamos na amostra uma substância que se liga a esse fosfolipídeo e emite uma fluorescência que é detectada pelo citômetro”, disse Curi.


“Também foram observadas outras características típicas da apoptose, como fragmentação de DNA e alterações na mitocôndria celular, sugerindo a morte precoce da célula, cujo tempo de vida normal é de aproximadamente 10 horas no sangue”, disse.


Alternativas terapêuticas
Diante da constatação da antecipação da apoptose dos neutrófilos após exercícios físicos intensos, os pesquisadores investigaram as possíveis causas do processo, correlacionando o aumento da autodestruição das células com substâncias circulantes no plasma, como os ácidos graxos livres, compostos orgânicos produzidos quando as gorduras são quebradas.


“A prática de exercício físico aeróbio acarreta um aumento da lipólise, processo de degradação de lipídeos em glicerol e ácidos graxos, que são utilizados em maior quantidade como fonte de energia. A presença em grande quantidade desses ácidos graxos, provocada pela exacerbação da lipólise, pode estar associada à apoptose precoce dos neutrófilos”, indicou Curi.


Os pesquisadores trabalham também em alternativas terapêuticas à perda de neutrófilos por parte de atletas de alto rendimento.


“Exercício físico é bom, importante, mas a intensidade e a frequência com que ele é praticado, como mostrado pela pesquisa que constatou a apoptose precoce dos neutrófilos, podem ter impactos tanto positivos como negativos”, disse Curi.


“Ainda assim, não se pode simplesmente pedir a um atleta profissional que diminua suas atividades. Dessa forma, temos investigado estratégias de suplementação para minimizar a antecipação da apoptose, evitando que o atleta fique com seu sistema imunológico debilitado após exercícios intensos e mais vulnerável a infecções, entre outros riscos”, disse.
Entre as suplementações estudadas está a de glutamina, aminoácido livre que atua como nutriente para as células imunológicas.

“A glutamina é um aminoácido não essencial, sendo produzido pelo organismo de acordo com a necessidade. Quando o atleta pratica exercício físico em uma intensidade muito alta, a concentração desse aminoácido pode ser reduzida no plasma, tornando importante sua suplementação”, disse Curi.

“Nós investigamos o efeito molecular desse aminoácido, que é importante para a função de leucócitos, e constatamos que linfócitos e monócitos consomem altas taxas de glutamina. Os neutrófilos chegam a consumi-la mais do que a glicose, cuja taxa de consumo é de 460 nanomoles/hora/mg de proteína, enquanto que a de glutamina é de 770, quase o dobro”, disse.

Ainda de acordo com a pesquisadora, a glutamina pode ser responsável por “manter a maquinaria da célula funcionando adequadamente e acabando por modular a função celular e, eventualmente, evitar a apoptose”.

in EcoDebate, 13/05/2016

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à Ecodebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Bothrops muriciensis: protegidos pelo paraíso

Por Vandré Fonseca

Uma jararacuçu descansa na Estação Ecológica Murici, em Alagoas. A presença da serpente é sinal que floresta está preservada. Foto: Divulgação.
Uma jararacuçu descansa na Estação Ecológica Murici, em Alagoas. A presença da 
serpente é sinal que floresta está preservada. Foto: Divulgação.
Manaus, AM – Jararacuçus não têm o apelo sedutor de golfinhos, bichos-preguiça ou macacos. Perigosas, mortíferas e, para muitos, repugnantes. Para quem adentra a mata, um encontro inesperado com ela pode não terminar muito bem, mas a presença de jararacuçus em uma floresta é uma excelente noticia para o Meio Ambiente.


“Elas são o que nós chamamos de espécie guarda-chuva, porque se está protegida significa que todo o ambiente está protegido”, afirma Marco Antônio de Freitas, analista ambiental do Instituto Chico Mendes (ICMBio), responsável por um estudo que apontou o risco de extinção de uma das espécies de jararacuçus brasileiras, a Bothrops muriciensis, que só é encontrada na Estação Ecológica Murici, Alagoas, e imediações.


Essa talvez seja a Bothrops continental mais rara e menos conhecida do Brasil, na opinião de Freitas, que é geógrafo e zoólogo. Desde que pesquisadores a espécie, em 2001, até agora, só nove indivíduos foram encontrados. O artigo assinado por Freitas e colegas relaciona outros seis registros, dois deles obtidos em uma expedição realizada há quase três anos, que teve a participação dele.


Em março de 2010, Freitas e outros três pesquisadores, Daniella França, Cristiano Moura e Alexandre Cavalcanti, empreenderam a busca na Fazenda Bananeiras, que tem mais de 75 por cento de sua área sobreposta à Esec Murici, na tentativa de obter novos registros da víbora. Foram oito dias e mais de 300 horas de buscas ativas (contando o trabalho da equipe inteira) à noite. A missão resultou em novos registros da serpente e informações que serviram para classificá-la como criticamente ameaçada, na lista de espécies brasileiras em risco de extinção.
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Das 27 espécies diferentes do gênero Bothrops encontradas no Brasil, Freitas explica que quatro fazem parte do grupo das jararacuçus, caracterizadas por serem maiores e mais volumosas do que as primas jararacas. Elas podem chegar a 2 metros de comprimento, enquanto as jararacas, medem aproximadamente um metro (exceção da urutu-cruzeiro Bothrops alternatus, que pode atingir um tamanho de aproximadamente 1,5 metro). Além disso, o veneno da jararacuçu possui uma substância parecida com a miotoxina, veneno das cascavéis.


Outra diferença é que o afunilamento na parte final do coró, no caso das jararacas, é mais suave. As jararacuçu têm também um bote maior e capacidade de inocular mais veneno do que as parentes. Além da B muriciensis, existem a B pirajai (encontrada também no Nordeste, em uma limitada área do litoral baiano), a B jararacussu (que ocorre desde o Sul da Bahia até o Rio Grande do Sul) e a B brazili (relacionada ao Bioma Amazônia).


Os novos registros
As jararacuçus encontradas eram jovens e mediam 24 e 31 centímetros de comprimento. Infelizmente, os registros confirmam que a víbora só é encontrada em uma região muito pequena e que precisa ser protegida. De acordo com o artigo publicado no periódico científico North-Western Journal Of Zoology, a jararacuçu alagoana só foi vista até agora dentro dos 15,29 quilômetros quadrados da fazenda.


A importância de preservar a região vai além da presença da serpente. Os 61,16 quilômetros quadrados da Esec Murici abrigam diversos outros animais endêmicos, como outros répteis, anfíbios e aves. Faz parte também do pouco que restou da Mata Atlântica, bioma do qual só restam 8% da área original e ainda assim muito fragmentados. espécies endêmicas relacionadas a ela e ao ambiente, como aves e o macaco-prego-amarelo.


De acordo com o herpetólogo, a ESEC Murici precisa de uma base permanente e fiscalização mais rigorosa, esta jararaca é um exemplo de um animal que pode se extinguir se nada for feito, e com ela podem desaparecer toxinas importantes para a humanidade. O veneno da jararaca, como lembra Freitas, é utilizado para a produção do captopril. No veneno da cascavel, outro exemplo, foi descoberta uma substância anticancerígena e um analgésico centenas de vezes mais poderoso do que a morfina, segundo o pesquisador.


Apesar da necessidade de preservação, a Esec e a B muriciensis têm inimigos poderosos. Em novembro do ano passado, por exemplo, o Ministério Público Federal entrou na Justiça contra o senador Renan Calheiros (PMDB/AL) e a empresa Agropecuária Amazonas.


A acusação: pavimentação irregular com paralelepípedos de uma estrada com 700 metros de extensão dentro da Estação Ecológica, sem autorização do ICMBio.


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Quando leões búlgaros, siberianos e mexicanos caminhavam pela Terra

Por Fabio Olmos
Um grupo de leoas ruma para um pântano da área de Ndutu, na Tanzânia, onde irão emboscar seu jantar.
Um grupo de leoas ruma para um pântano da área de Ndutu, na Tanzânia, onde irão 
emboscar seu jantar.


Há não muito tempo a cena desta foto podia ser vista na Espanha, na Grécia, na Turquia, na Palestina, toda a região que hoje chamamos Oriente Médio, no Paquistão e boa parte da Índia. E se recuássemos uns poucos milhares de anos, também veríamos leões em boa parte da Europa, Ásia, e na América, do Alasca até o México e, parece, o Peru. Além, é claro, da África.



Os fósseis mais antigos de leões foram encontrados na África, onde a espécie surgiu entre 1 milhão e 800 mil anos atrás. Leões emigraram para os continentes vizinhos e Panthera leo fossilis é o primeiro leão registrado na Europa, onde foi encontrado em sítios italianos datando de 700 mil anos atrás. Este é o leão ancestral do qual evoluiu o famoso leão das cavernas P. leo spelaea e o leão americano P. leo atrox, linhagens irmãs distintas daquela dos leões que ficaram na África.


Restos do leão das cavernas são encontrados da Península Ibérica e Ilhas Britânicas à Alemanha, Sibéria, Yakutia e Turkestão. Leões aparecem em esculturas de 40 mil anos encontradas na Alemanha e em pinturas rupestres espetaculares, como as da espetacular caverna de Chauvet, que têm 32 mil anos. Estas mostram leões que não tinham jubas (como acontece com algumas populações africanas) e caçavam em grupos.


Leões das cavernas eram no mínimo tão grandes quanto os maiores leões atuais (que chegam a 250 kg, embora um comedor de homens sul-africano tenha chegado a 315 kg). Considera-se que os leões das cavernas eram 8-10% maiores que os maiores leões atuais, e análises isotópicas de exemplares europeus mostram que se alimentavam basicamente de renas e filhotes de ursos.


Uma população de P. l. spelaea colonizou o que é hoje o Yukon e o Alasca, já na América, onde persistiu até 11.900 anos atrás. Dados genéticos sugerem que leões eurasiáticos deram origem ao leão americano, pois os que foram "fazer" a América acabaram isolados pelo avanço das geleiras durante a penúltima glaciação (cerca de 300 mil anos atrás).


Estes gatos da idade do gelo eram 20-25% maiores que a média dos leões atuais, pesando 250 a 350 kg e atingindo 1,2 metros nos ombros. Eles surgem no registro fóssil ao sul do Alasca a partir de 125 mil anos, ocorrendo em praticamente toda a América do Norte (a parte que não estava sob as geleiras) até Chiapas, no México. O fóssil mais recente de leão americano, proveniente de Edmonton (Canadá) foi datado de 11.300 anos atrás. Fósseis de Talara, no noroeste do Peru, talvez representem uma população sul-americana de leões.


No início do Holoceno (que começou há 11.700 anos) ainda havia populações de leões no norte da Espanha, na Ucrânia e sudeste da Europa. Heródoto, o pai da História, informa que em 480 AC, durante a guerra entre persas e gregos (retratada de forma nada realista no filme 300), leões atacavam os camelos das caravanas de abastecimento do exército persa "nunca molestando nem as pessoas ou qualquer outro animal". Ele ainda diz que esta região da Trácia (hoje Bulgária) era a única onde leões sobreviviam e que ali também viviam os gigantescos auroques, os ancestrais do nanico gado doméstico. Leões caçando auroques deveriam proporcionar um show à parte.


Os leões não duraram muito na Europa depois disso (os auroques sobreviveram na Polônia até 1627), Aristóteles, em 300 AC, dizia que eram raros e pelo ano 100 AC estavam extintos. A última população de leões mais ou menos europeus sobreviveu no Cáucaso até o século 10.


Os dados genéticos mostram que os leões africanos e asiáticos divergiram entre si há cerca de 200 mil anos, menos tempo do que os leões das cavernas e os americanos, e, parece, não há uma conexão genética forte entre os grandes leões da idade do gelo e os leões da África e do sul da Ásia. Claro que novos dados podem mudar isso.


Os leões asiáticos são considerados uma forma distinta (Panthera leo persica), tanto morfológica quanto genética. São os leões retratados por sucessivas civilizações no Crescente Fértil e que aparecem em mitos caros à nossa cultura, originalmente ocorrendo da Turquia e Palestina ao norte da Índia.


Extinção pela mão humana
"Leões, onças-pintadas e outros grandes predadores que estão em permanente conflito com a segurança de humanos e seu precioso gado dependem de grandes áreas protegidas, públicas ou privadas, para sua sobrevivência."
 
 
Leões foram extintos na Palestina durante a Idade Média; os que viviam na Turquia e Síria sobreviveram até o século 19, talvez mesmo início do século 20. Os últimos leões que viviam no Irã foram mortos em 1963.


Os leões que viviam no norte e centro da Índia foram quase eliminados no final do século 19 por britânicos coloniais e nobres locais sedentos de sangue, o P. leo persica só sobrevivendo até os dias de hoje porquê o então Nawab de Junagarh salvou os últimos 12 exemplares na sua reserva privada, que mais tarde se tornou o Parque Nacional Gir, em Gujarat.


A população sobrevivente cresceu para 411 em 2010 graças a medidas de conservação que incluíram a remoção de vilas inteiras de povos nativos que mantinham seu gado na reserva.



No Brasil provavelmente transformariam o parque nacional em APA ou reserva extrativista e o leão estaria extinto. No entanto a situação está longe de ser positiva e leões continuam a morrer afogados em poços, eletrocutados e envenenados, já que o parque é pequeno e mais de 100 gatos vivem fora dele em uma região cheia de gente.


Um projeto de translocação visando estabelecer uma segunda população no Palpur-Kuno Wildlife Sanctuary em Madhya Pradesh foi proposto há muito tempo e o local foi objeto de reintroduções de espécies-presa e remoção de pessoas para que pudesse receber os leões.


O governo de Gujarat, numa mostra de bairrismo estúpido, resistiu o quanto pôde ao envio de leões para outro estado e foi necessária uma ordem da Suprema Corte indiana em abril de 2013 para que o projeto desatolasse, mas, até agora, nenhum leão mudou de estado.
Talvez devêssemos apelar ao Supremo Tribunal Federal para que os planos de conservação de espécies ameaçadas produzidos pelo ICMBio sejam implementados para valer.


Além do leão asiático, há outras 7 formas reconhecidas de leões africanos, todas identificadas a partir de marcadores genéticos. Muitas estão em situação precária.


Os grandes leões do norte da África, entre o Marrocos e o Egito ("leões da Barbária"), são geneticamente mais próximos dos asiáticos do que seus primos do sul, mas só sobrevivem em cativeiro. Os leões da África Ocidental sobrevivem em populações isoladas, algumas minúsculas, em poucos parques.


Na verdade a situação do rei dos animais é muito ruim. De talvez 400 mil leões vivendo na África em 1950, hoje se estima que restem 37 mil gatos em 67 populações que ocupam 17% da sua distribuição histórica. De grande mamífero com maior distribuição depois de Homo sapiens, hoje, o Panthera leo é uma espécie vulnerável à extinção.


As causas desse declínio desastroso são evidentes. Há gente demais que compete com os leões (e outros predadores) por comida e espaço, que os matam por razões culturais muito discutíveis (como "iniciações de guerreiros, amuletos e "remédios") e que têm cães que transmitem doenças como a cinomose. Uma visita a países como a Nigéria, onde a população quadruplicou em 50 anos ou a Tanzânia, onde áreas naturais são ocupadas por uma população crescente de pastores e seu gado, que matam qualquer predador que apareça, mostram que o futuro dos leões é precário.


Humanos sempre foram má notícia para os leões. Não há muita dúvida sobre o que exterminou os leões europeus, asiáticos e africanos, ao mesmo tempo a mão humana pode perfeitamente estar implicada no fim do leão das cavernas eurasiático e do leão americano. Afinal, eles sobreviveram a várias transições climáticas violentas, só sumindo depois que nós nos tornamos evidentes no registro arqueológico.


Leões, onças-pintadas e outros grandes predadores que estão em permanente conflito com a segurança de humanos e seu precioso gado dependem de grandes áreas protegidas, públicas ou privadas, para sua sobrevivência. Não há futuro para esses grandes predadores fora das unidades de conservação, pois são incapazes de conviver com agrupamentos humanos e exatamente por isso tornam o mundo muito mais interessante. A opção são os museus e os zoológicos de um mundo domesticado.


Jararacas, as serpentes que salvaram os hipertensos

ECO

Por Fabio Olmos
Uma jovem jararaca [i]Bothrops jararaca[/i] na reserva de Mata Atlântica do
Uma jovem jararaca [i]Bothrops jararaca[/i] na reserva de Mata Atlântica 

Gosto de serpentes e uma das maneiras mais fáceis de arrumar briga ou uma demissão por justa causa comigo é matar uma. Nunca entendi o medo que a maioria das pessoas tem. Talvez seja resultado de educação torta, do tipo mãe ou padre estragando as crianças. Ou um primitivismo inato, circuitos neuronais herdados de nossos ancestrais primatas (veja aqui) afetando o julgamento.



O fato é que serpentes não são apenas bonitas (algumas estão no Olimpo da beleza animal). Elas são fascinantes. E, para quem precisa esse argumento para valorizar algo, salvaram e salvam incontáveis vidas.


As 29 (até agora) espécies de jararacas, cotiaras, urutus & cia encontradas no Brasil formam um grupo de espetaculares serpentes amplamente distribuídas no país. Na maioria predadoras de emboscada, há espécies de jararacas arborícolas que capturam pererecas, lagartos e aves, e há jararacas terrestres que comem rãs, calangos e roedores. Uma espécie, a jararaca-de-alcaltrazes Bothrops alcatraz, endêmica da ilha de Alcatrazes (SP) é uma forma mini que se alimenta basicamente de lacraias. A evolução insular produz coisas exóticas.


Várias espécies de jararacas estão ameaçadas de extinção, principalmente pela destruição de seu habitat. Estas incluem Bothrops muriciensis, que teve o azar de ser restrita à Mata Atlântica de Alagoas, e a bela mas pouco conhecida cotiara Bothrops cotiara, que tem o azar de ser uma espécie da floresta com araucária e matas interiores entre o sul de SP e o RS.


A espécie mais comum é a famosa jararaca Bothrops jararaca, uma serpente muito bem sucedida encontrada da Bahia ao Rio Grande do Sul e partes adjacentes da Argentina e Paraguai em áreas que são ou foram de Mata Atlântica (incluindo as florestas semidecíduas do interior e matas ciliares) entre o nível do mar e mil metros de altitude.


Jararacas alimentam-se de anfíbios e lagartos quando jovens e usam a ponta clara da cauda, que imita um verme, para atrair suas presas. É um comportamento muito interessante de observar. Conforme crescem as serpentes passam a consumir presas maiores, especialmente roedores. Jararacas adoram ratos e ajudam no seu controle.


Isso faz com que jararacas apreciem a proximidade de áreas onde humanos sustentam populações de ratos. Jararacas continuam frequentes mesmo no município de São Paulo, onde pelo menos 50 espécies de répteis foram recentemente extintas e se adaptam a mosaicos de áreas agrícolas e capoeiras.


Uma arma secreta das jararacas é um par de sensores térmicos localizados na face, entre as narinas e os olhos. Essas fossetas loreais captam a radiação eletromagnética na faixa do infravermelho emitida por animais de sangue quente da mesma forma que os olhos captam a radiação eletromagnética na faixa da luz visível, mas com sensibilidade para perceber diferenças de >0.001 °C!


A informação vinda das fossetas é processada na mesma área do cérebro que a vinda dos olhos. É possível que as jararacas vejam o mundo de forma parecida que o Predador. E para quem gosta de batalhas épicas, veja isso.


A natureza antecipa a ficção.


O veneno das jararacas tem ação anti-coagulante, proteolítica e vasculotóxica. Ou seja, destrói os vasos sanguíneos e provoca hemorragias, ao mesmo tempo que transforma a carne da presa em papinha. O que ajuda muito na hora da digestão. Tente engolir um rato inteiro sem mastigar, como elas fazem.


Um estudo que incluiu 3.139 casos de picadas por serpentes do gênero Bothrops entre 1981 e 1990 contabilizou 21 amputações e 9 óbitos (0,3%) como resultado dos acidentes. Jararacas matam muito menos que calçadas mal conservadas ou maionese estragada, para não mencionar nossos políticos (compare os hospitais públicos com os estádios da Copa).


E, definitivamente, não vão atrás das pessoas para prejudica-las, ao contrário dos políticos.
Andando no mato já me descobri várias vezes com uma jararaca próxima a meu pé sem qualquer tentativa de ataque. Quando irritadas as jararacas vibram a cauda, o que faz um barulho característico no folhiço (elas avisam que não querem ser pisadas), e se pressionadas dão botes de advertência enquanto recuam em busca de segurança. Não somos presas e sim ameaças, e as serpentes não querem contato com a gente.


Mas também estive com um amigo quando ele foi picado por uma Bothrops leucurus irritada por sacudirmos (sem saber) a galharia onde ela repousava... O resultado foi dor, quatro dias de hospital e uma cicatriz. A conclusão é que é melhor usar perneiras e respeitar o espaço pessoal dos bichos. Nada de ficar pegando neles, como alguns gostam.


Venenos e medicamentos
Venenos são coquetéis de substâncias e em 1965 o pesquisador do Instituto Butantan e depois presidente da SBPC, Sérgio Henrique Ferreira, publicou um trabalho onde demonstrou, no veneno da jararaca, a presença de uma substância que inibe as angiotensinas (substâncias que elevam a pressão arterial e potencializa a bradicinina, um vasodilatador que mantém a pressão baixa.


Esse trabalho levou a mais pesquisas que deram origem ao captopril e seu sucessor, o enalapril, talvez os mais populares medicamentos utilizados para controle da hipertensão.
Vale lembrar que a hipertensão é um dos principais fatores de risco para a ocorrência de acidente vascular cerebral (AVC), enfarte agudo do miocárdio e aneurisma arterial (p. ex. aneurisma da aorta), além de insuficiência renal crônica e insuficiência cardíaca.



A hipertensão é a doença crônica que mais demanda os sistemas de saúde, com grande impacto social e econômico. Em 2004, 17 milhões de brasileiros tinham hipertensão e 70% eram tratados através do SUS. Uma porção considerável dos hipertensos estaria morta ou inválida se o veneno da jararaca não tivesse sido estudado.


Se você é hipertenso é muito provável que esteja bem por causa da Bothrops jararaca e da pesquisa sobre seu veneno. Se não fosse por isso você poderia ser um enfartado, um repolho humano vítima de um AVC ou estar morto.


Pense na dívida que você tem com esses animais pouco amados antes de dar uma paulada numa serpente, destruir sua casa ou achar que pesquisa científica em assuntos esotéricos como o funcionamento do veneno de uma cobra (ou aranha, escorpião ou água-viva) é coisa de nerds que não têm o que fazer.

Livro sobre serpentes do Cerrado alerta para perigos de extinção


Por Duda Menegassi
<I>Epicrates crassus</i> é uma serpente de grande porte, comum em áreas de cerrado típico. ë predominantemente nioturna e caça roedores e aves, ultizando de sua força muscular para suforcar as presas (por constricção). Foto: Cristiano de Campos Nogueira
<i>Xenodon nattereri</i> é outra serpente endêmica do Cerrado, sendo bastante rara e pouco estudada. Seu focinho é projetado para cima, em forma de uma pequena pá, provavelmente auxilia a serpente a procurar alimento e abrigo em frestas e pequenas cavidades no solo. Esta espécie ocorre principalmente em áreas úmidas, como veredas e campos úmidos no Cerrado. O exemplar da foto foi fotografado na reserva de Cerrado da Área Alfa, uma área de Cerrado preservado pela Marinha Brasileira, nas imediações de Brasília. Foto: Cristiano de Campos Nogueira
Liophis maryellenae á outra serpente endêmica do Cerrado, e ocorre em geral em ambientes
úmidos, como veredas e campos úmidos, onde alimenta-se de peixes e anfíbios, 
que caca dirante o dia. Parque Nacional das Emas, Goiás. 

Foto: Cristiano de Campos Nogueira


O Cerrado é o habitat natural de mais de 100 espécies de serpentes, algumas delas em perigo crescente de extinção à medida em que o bioma vai sendo devastado para abrir espaço para pastos e plantações. O livro “Serpentes do Cerrado - Guia Ilustrado”, lançado no começo de abril pela Holos Editora, é uma iniciativa de trazer à tona a rica biodiversidade de cobras que vivem no bioma e estimular a conservação não só destes animais, mas do próprio Cerrado.


São 135 espécies e 185 fotos que ilustram as páginas do Guia, escrito pelos pesquisadores Cristiano Nogueira, Otavio Marques, André Eterovic e Ivan Sazima.


O Guia Ilustrado apresenta cada serpente em fotografias, que mostram sua coloração e os padrões de pele, em conjunto com uma linguagem iconográfica que ajuda a descrever seus hábitos, tamanho do corpo e cauda, dentição, estratégias de defesa e reprodução. Um dos objetivos dos autores é exatamente facilitar a identificação das serpentes:  reconhecê-las como venenosas ou não, e orientar o “modus operandis” quando alguém cruza com o caminho de uma, pois muitas vezes a falta de conhecimento aliada ao medo generalizado que existe com relação às cobras faz com que elas terminem mortas por ação humana.


Um dos passos para combater a extinção é exatamente o inventário da fauna, aliado com dados do status populacional, as demandas por recursos e as interações de cada espécie. A, o fornecer essas informações, os autores esperam que o Guia seja uma ferramenta importante em prol de ações de conservação de serpentes no Cerrado, ao demonstrar a relevância do papel ecológico das serpentes dentro do ecossistema.


O Guia de Serpentes do Cerrado dá sequência a outros dois guias anteriores: o “Serpentes da Mata Atlântica”, lançado em 2001, e “Serpentes do Pantanal”, de 2005. O guia teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da organização WWF-Brasil.

Vista típica de hábitats de Cerrado. Chapada do Veadeiros, Goiás. Em primeiro plano campo sujo, seguido por campo úmido e vereda / mata de galeria. Foto: Cristiano de Campos NogueiraVista de campo úmido e vereda na região do jalapão, Tocantins, com Serra do Espírito Santo e morro do Saca Trapo, ao fundo. As chapadas, tais como a chapada de Arenito da Serra geral e Serra do Espírito Santo, são formações típicas do relevo do Cerrado. Grande parte da diversidade regional de Serpentes, e da distribuição das espécies d erépteis do Cerado, é fortemente determinada por grandes feições do relevo, como grandes chapadas separadas por depressões, formando as principais unidades biogeográficas na distribuição de cobras e lagartos do Cerrado. Foto: Cristiano de Campos Nogueira
Veja abaixo algumas imagens do guia
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Variação de hábitats de Cerrado, em mirante do Parque Nacional das Emas, Goiás. Em primeiro plano, à esquerda, campo cerrado, no centro da imagem campo úmido circundando floresta de galeria (nascentes do córrego Avoador). Mais ao fundo cerrado sensu stricto. Esta variação de ambientes determina a distribuição local de Serpentes do Cerrado, com cada ambiente apresentando diferentes especies. Há, portanto, especies típicas da mata de galeria (<i>Bothrops moojeni</i>), espécies típicas de savanas campestres (campo sujo, campo cerrado), tais como <i>Bothrops itapetiningae</i>, e espécies típicas de campos úmidos, como por exemplo <i>Xenodon nattereri</i> e <i>Liophis maryellenae</i>.
Vista do Morro Santo, e da Serra Geral (ao fundo), Formosa do Rio Preto, na região oeste do estado da Bahia. A Serra Geral está situada na divisa entre os estados de Goiás, Tocantins e Bahia. Este imenso planalto, de terras planas e com solos profundos, encontra-se sob intenso processo de ocupação por extensas áreas de monocultura (soja, algodão, milho, sorgo). Áreas nativas de Cerrado no oeste baiano, tais como esta da imagem, estão cada vez mais reduzidas. Serpentes como Rodriguesophis iglesiasi e Drymoluber brazili, espécies naturalmente raras e ainda pouco estudadas, deverão se tornar ainda mais raras no futuro, em consequência do desmatamento das áreas nativas de Cerrado. Foto: Cristiano de Campos Nogueira <I>Bothrops itapetiningae</i>, é serpente endêmica do Cerrado e típica de ambientes campestres. Ocorre apenas na porção sul do Cerrado, desde estado de São Paulo até o triângulo mineiro, parte do Mato Grosso de sul, sul de Goiás e Distrito Federal. A serpente desta imagem foi encontrada na Reserva Ecológica do IBGE, uma das áreas de Cerrado nativo na região de Brasília. Embora haja muitos registros antigos desta especies no Cerrado paulista, sabe-se hoje que as populações desta especies então isoladas nos últimos fragmentos de campos no Cerrado do estado de São Paulo. A parte sul do Cerrado, e especialmente suas áreas de campos de topo de chapada, são a porção mais desmatada e impactada do Cerrado. Foto: Cristiano de Campos Nogueira
<I>Drymoluber brazili</i> é uma Serpente extremamente rara, amplamente associada às áreas de Cerrado do Brasil central. Este é um exemplar jovem, encontrado em cerrado sensu stricto no Parque Nacional das Emas, Goiás. Nos adultos, as bandas dorsair desaparecem dando lugar a uma coloração castanha uniforme. É uma serpente diurna que caça ativamente guiando-se pela visão relativamente acurada para uma serpente. Foto: Cristiano de Campos Nogueira <i>Bothrops pauloensis</i> é também endêmica do Cerrado. Este exemplar, fotografado por Otavio Marques no Parque Nacional das Emas, Goiás, havia sobrevivido a um extenso incêndio em áreas de campo sujo. Os répteis do Cerrado estão adaptados a eventos de fogo, e se abrigam em tocas e galerias no solo durante as queimadas, um evento natural e necessário para a manutenção e funcionamento dos ecossistemas de Cerrado. Foto: Cristiano de Campos Nogueira


*Atualizado em 12.05.2016, às 15h00