23/02/2016
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Oportunidades na economia florestal mobilizam investidores, ONGs e academia no rastro dos compromissos climáticos.
Por Sérgio Adeodato*
Reza o dito popular, atribuído originalmente ao poeta cubano José
Martí, que o ser humano somente se realiza por completo após ter um
filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Das três partes dessa
missiva, a última, à primeira vista, parece a mais simples. Mas não no
caso do cultivo de mudas para recompor ambientes de floresta natural e
recuperar áreas degradadas, atividade que se tem mostrado bem mais
complexa e cara do que normalmente se imagina.
E agora mobiliza grande esforço por parte de cientistas,
ambientalistas e economistas – no País e em várias partes do mundo –
para o desenvolvimento de um modelo apto a torná-la viável na escala
compatível com a urgência do combate à mudança climática e da
conservação de recursos vitais, como a água.
O caminho exige fazer contas e gerar receita mediante o uso
sustentável, conforme mostra esta primeira reportagem da série sobre
restauração florestal.
No Brasil, os primeiros números da difícil matemática, divulgados em
janeiro como resultado de um estudo inédito conduzido pelo Instituto
Escolhas, retratam o volumoso custo da empreitada: até 2030 será
necessário um investimento total de aproximadamente R$ 52 bilhões (R$
3,7 bilhões ao ano) para tornar factível o plano de restaurar 12 milhões
de hectares, conforme o compromisso brasileiro de mitigar a emissão de
gases de efeito estufa, anunciado em dezembro na conferência da ONU
sobre clima, em Paris.
O cálculo considera o plantio de 50% da área durante 21 anos com
espécies exóticas, como o eucalipto, que deverão ser substituídas por
árvores nativas após 25 a 30 anos. Nessas condições, o modelo prevê taxa
de retorno financeiro de 4%, mediante exploração de madeira, e disso
resultaria a criação de 215 mil empregos. Além da arrecadação de R$ 6,5
bilhões em impostos, o empreendimento permitiria a construção de toda
uma cadeia produtiva (coleta de sementes, viveiros de mudas,
laboratórios, maquinário, serviços de manutenção) capaz de paralelamente
resolver o passivo ambiental do agronegócio.
“Estamos na largada da corrida e precisamos de atletas para isso”,
adverte Roberto Kishinami, um dos coordenadores do estudo, ao reforçar a
importância do investimento em qualificação técnico-profissional neste
momento preparatório. De acordo com o pesquisador, o Brasil cultiva
atualmente 350 mil hectares de floresta por ano, o que corresponde a
pouco mais de um terço do necessário para o País cumprir a atual meta,
e, dessa área, menos de 1% com árvores nativas.
O quadro requer rapidez para romper a defasagem: “O próximo passo, em
2016, será refinar os dados e mapear os métodos de plantio de floresta
ambiental, social e economicamente mais vantajosos, em regiões
prioritárias na Amazônia e Mata Atlântica, biomas abrangidos pelo
estudo”. A modelagem incluirá outras fontes de receita, como o
aproveitamento de produtos não madeireiros e a remuneração por serviços
ecossistêmicos dentro do conceito de
ecologia da paisagem [1].
O fator
mudança no uso da terra [2]
tem sido apontado como a bola da vez no debate climático global, o que
poderá significar aumento do fluxo de recursos para soluções, entre as
quais está a restauração florestal. “O engajamento do setor financeiro
na reunião de Paris foi notório e o Brasil tem tudo para se destacar com
investimentos em estoques de árvores que fixam carbono”, ressalta
Roberto S. Waack, membro da Coalizão Clima, Florestas e Agricultura,
iniciativa que encomendou a modelagem econômica da restauração ao
Instituto Escolhas e pretende acessar recursos de fundos internacionais
para o tema.
O capital privado, segundo Waack, tem sido ator relevante no jogo, o
que reforça a importância de tornar o plantio de florestas
economicamente mais atrativo. Com a redução das incertezas científicas e
o aumento das regulações globais e nacionais, a lógica inverteu-se:
“Hoje, não investir em tecnologias de baixo carbono é que representa
risco ao patrimônio”, diz. Criar sistemas de gestão em land use (uso da
terra), incorporando novos modelos de silvicultura, é estratégico para a
competitividade das empresas.
Uma das iniciativas brasileiras mais recentes é o projeto MapBiomas,
que em 2016 começará a divulgar mapas anuais de cobertura do solo em
todo o Brasil de forma barata, rápida e atualizada, com possibilidade de
comparar dados históricos desde 1985. A principal inovação é o
processamento de imagens de satélite tendo como base a plataforma Google
Earth Engine. A tecnologia disponibiliza dados em nuvem para fácil
acesso a pesquisadores nas diferentes regiões, eliminando barreiras que
antes tornavam o trabalho inviável.
“A ideia foi preencher a lacuna de informação sobre a dinâmica do uso
da terra no Brasil para melhorar as estimativas de emissões de gases de
efeito estufa”, explica Carlos Silva, pesquisador do Instituto do Homem
e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e um dos coordenadores do projeto,
promovido pelo Seeg/Observatório do Clima em cooperação com ONGs,
universidades e empresas. O mapeamento facilitará a aplicação do
Novo Código Florestal [3], além de monitorar áreas protegidas e apontar oportunidades para restauração.
“O País precisa achar os meios para aumentar a cobertura florestal,
porque não poderá voltar atrás no compromisso registrado na ONU”, afirma
Maurício Voivodic, diretor-executivo do Instituto de Manejo e
Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), organização que auxilia
pequenos produtores de cacau e eucalipto a recuperar a mata nativa.
Em sua análise, “faltam condições políticas e econômicas ao País para
desatar esse nó”. O Plano ABC — Agricultura de Baixo Carbono previu em
2010 a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas até
2020, parte mediante plantios florestais, mas até agora atingiu-se
apenas um quinto da meta, segundo Voivodic.
Avanços mais expressivos são esperados após a aprovação do Plano
Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) – marco legal que
definirá como as reservas legais poderão ser exploradas economicamente,
hoje no Ministério do Meio Ambiente para ajustes após consulta pública
entre janeiro e agosto do ano passado. No horizonte de 20 anos, o plano
prevê a recuperação de 390 mil hectares nos primeiros cinco anos e
estabelece medidas para sensibilização da sociedade, aumento da
quantidade e qualidade de sementes e mudas, fomento ao mercado de
produtos e serviços de restauração florestal, desenvolvimento de
mecanismos de incentivo e expansão de assistência técnica.
“O desafio está em mudar a visão dos tomadores de decisão, mostrando
que plantar árvores pode gerar mais renda do que as atividades que as
destroem”, destaca Rubens Benini, coordenador da agenda de restauração
da TNC Brasil. A ONG iniciará estudos econômicos da restauração em 2016,
tendo até hoje contribuído para repor 11 mil hectares de vegetação
nativa em dez Estados, com um total de 29 milhões de árvores.

Para Benini, uma importante questão a ser resolvida é a estruturação
de uma base genética para espécies nativas, repetindo o esforço
empreendido para o eucalipto. “Não estamos falando apenas de clima, mas
de segurança alimentar, garantia de água e redução da pobreza.” Em razão
desses fatores, e também dos benefícios de outros insumos básicos que
podem ser obtidos de árvores, como a geração de energia, o tema da
restauração florestal compõe a agenda dos Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS), estabelecida pelas Nações Unidas no ano passado com
metas para 2030.
A questão, antes restrita ao círculo ambientalista e às
universidades, chegou aos bancos e tende a ser considerada, por exemplo,
na liberação de crédito rural. Márcio Macedo, gerente da área de meio
ambiente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES), tem a expectativa de significativo aumento da demanda por
financiamento [4]
de plantios de floresta: “Após o acordo climático de Paris, o tema
ganhou importância global e o fluxo de recursos para a atividade deverá
crescer”. O banco está estruturando um fundo ambiental de R$ 1 bilhão a
partir de recursos captados lá fora – “um plano ambicioso, que dependerá
de qualificação técnica e bons projetos”.
Em plantios florestais de menor escala com espécies nativas, o custo
chega a R$ 14 mil por hectare, mas no caso de áreas regeneradas
naturalmente, sem cultivo de mudas, o valor cai para R$ 3 mil a R$ 5 mil
por hectare. Experimentos de campo têm chegado a modelos mais baratos.
“Na Mata Atlântica e na Amazônia, a redução de custo atingiu 50%, em
média, com uma combinação de espécies nativas e adubação verde”, revela
Ricardo Rodrigues, pesquisador da Universidade de São Paulo/Esalq, em
Piracicaba (SP). E o retorno financeiro com a exploração de madeira
superou as expectativas. “Queremos agora medir o valor dos ganhos com os
serviços ecossistêmicos da restauração.”
Os negócios podem ser favorecidos pelo surgimento de mecanismos de mercado, como a
compra e venda de Cotas de Reserva Ambiental (CRA) [5],
em desenvolvimento no Instituto BVRio. O presidente executivo, Pedro
Moura Costa, é otimista: “A ficha está caindo; é maior o engajamento de
produtores rurais e tudo indica que o setor deslanchará quando a
situação econômica melhorar”.
Outro mecanismo, recém-lançado pela instituição, é a bolsa de
comércio de madeira, com plano de movimentar US$ 200 milhões até
dezembro. Como suporte às transações foi criado um aplicativo para que
compradores (construtoras, serrarias, fabricantes de móveis, atacadistas
e exportadores) possam rastrear a origem do produto ao passar o
telefone sobre o código de barras da guia que o acompanha.
O Serviço Florestal Brasileiro estima que menos da metade das toras
extraídas na Amazônia tem origem legal e sustentável. Mudar o cenário de
competição desleal do produto predatório, que não paga impostos, é uma
condição para a chegada de investimentos. Para o suprimento da demanda
brasileira, estima-se a necessidade de multiplicar por dez a atual área
de produção de madeira rastreada, até 2030. Plantar árvores é uma das
soluções.
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[1] Método que considera não apenas as reservas
legais das propriedades rurais isoladamente, mas os benefícios
ambientais, econômicos e sociais obtidos pela conexão delas com outras
áreas de mata, em uma perspectiva mais ampla.
[2] É a principal fonte de emissões da economia
brasileira, no total de 486 milhões de toneladas de carbono, segundo
dados do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa
(Seeg) – 2015.
[3] O passivo ambiental a ser restaurado nas
propriedades, após a implementação do Cadastro Ambiental Rural, é
estimado em 20 milhões de hectares.
[4] Lançado em 2015, o BNDES Restauração Ecológica já recebeu 78
projetos para restauração de 20 mil hectares na Mata Atlântica,
totalizando R$ 281 milhões.
[5] Mecanismo previsto no Código Florestal, no qual
um proprietário sem Reserva Legal pode compensar o passivo comprando
“cota” de floresta em outra área.
(Página 22/ #Envolverde)
* Esta é a primeira de uma série de reportagens sobre restauração florestal, em parceria da PÁGINA22 com o projeto MapBiomas.