Juventude extrativista se prepara para defender legado de Chico Mendes
14 Novembro 2018
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Por Frederico Brandão
Cerca de 70 jovens extrativistas, vindos de vários estados da Amazônia,
presenciaram na última semana, um momento histórico para o movimento de
proteção ao meio ambiente brasileiro. No ano que marca os 30 anos da
morte de Chico Mendes, eles puderam conhecer, em Brasília, algumas das
principais lideranças comunitárias e amigos do líder ambientalista, que
lutaram junto com ele pela defesa dos territórios de uso coletivo das
comunidades extrativistas e dos povos tradicionais na Amazônia.
O encontro aconteceu no
Seminário Nacional da Juventude Extrativista,
evento organizado no Museu da República, pelo Conselho Nacional das
Populações Extrativistas (CNS), e reuniu, além dos jovens, líderes
comunitários, representantes do governo e de organizações da sociedade
civil, e artistas. Por meio de palestras, mesas-redondas e construções
conjuntas, eles tiveram a oportunidade de conhecer a história da luta do
líder acriano, assim como refletir sobre seu papel na continuidade da
luta de Chico Mendes.
O Seminário faz parte de uma série de atividades que celebram a
trajetória de resistência e de conquistas do seringueiro, que se encerra
na Semana Chico Mendes, em dezembro, no município de Xapuri (AC),
cidade onde o líder nasceu e morreu. O tema principal das comemorações
deste ano é
Chico Mendes Herói do Brasil - uma memória a honrar, um legado a defender.
“Reunir jovens de todo bioma amazônico e de outras partes foi sem dúvida
histórico. Contribuiu para formação social e política dessa juventude, e
para o resgate da história de luta dos movimentos sociais. Eles
entenderam que precisam dar continuidade a essa trajetória que tanto nos
inspira”, explica Dione Torquato, presidente da Juventude do Conselho
Nacional das Populações Extrativistas (CNS).
No Seminário, os jovens e líderes discutiram a importância dos
territórios tradicionais; e os avanços, as ameaças e os retrocessos das
políticas socioambientais no Brasil e no mundo. Um dos momentos mais
marcantes foi a construção conjunta de um esboço da
Carta de Xapuri,
declaração de compromisso da juventude com a defesa do legado de Chico
Mendes para os próximos 30 anos, que será lida e acordada oficialmente
na Semana em Xapuri.
Para Angela Mendes, filha de Chico, também presente no evento, os jovens
precisam recuperar o passado de luta, assim como seu pai acreditava.
“Estamos vivendo o despertar de um novo momento, assim como Chico previu
na carta que escreveu aos jovens do futuro. O legado dele traz um
imenso aprendizado que nos inspira a traçar novas estratégias para a
resistência dos novos tempos”, afirma.
Em seu discurso, a atriz Lucélia Santos, amiga próxima de Chico, alertou
os jovens. “Precisamos acordar! A verdadeira voz vem da floresta. Não
há projeto melhor para a floresta do que o projeto de Chico Mendes.
Esses 30 anos vem nos unir para continuarmos o trabalho de valorização
da floresta e do meio ambiente. Ele se foi de forma muito precoce, mas o
seu legado permanece. Conto com nossa união, competência e com as
bênçãos do Chico. Não vamos desistir”, incentivou.
A jovem Alcidete Flecha Moraes, de 21 anos, não mora no Acre, mas sempre
foi muito influenciada pelo seringueiro. Moradora da Resex Rio Cajari,
no estado do Amapá, uma das primeiras reservas extrativistas criadas no
Brasil, ela considerou o seminário de extrema importância para entender a
história e a lutar pela sua comunidade. “Somos a próxima geração que
vai lutar pelas nossas florestas e pelo bem-estar do nosso povo.
Venceremos pela coragem e pela persistência”, avalia.
O jovem Raimundo Cunha, de 27 anos, morador da Resex Médio Juruá, no
município de Carauari (AM), agradece a oportunidade de aprender com os
mais velhos e a ser inspirado por Chico. “Ao olhar para a história,
vemos que a luta deles foi muito difícil e que eles não foram preparados
como nós estamos sendo agora. Precisamos honrar esse movimento”,
promete.
Conquistas de Chico
Celebrado mundialmente por seu ativismo ambiental, Francisco Alves
Mendes Filho, conhecido como Chico Mendes, foi seringueiro, ativista
político e um dos maiores defensores das florestas brasileiras.
Liderou os empates, método de resistência pacífica criado pelos
seringueiros para impedir o desmatamento dos seringais na década de 70,
quando chegavam com motosserras para derrubar a floresta e nela
implantar pastagens para as criações de gado. Entre os anos de 1976 a
1988, há registros de que os seringueiros promoveram 45 empates, dos
quais o movimento contabilizou 30 derrotas e 15 vitórias.
Chico Mendes foi pioneiro e inovador ao formular o conceito das reservas
extrativistas (Resex) da Amazônia, que depois foi expandido para outros
biomas brasileiros. Após a criação das quatro primeiras Resex do
Brasil, em 1990, a expansão dos territórios de uso comum, federais e
estaduais, cresceu e hoje corresponde a 92 unidades apenas na Amazônia,
que se dividem em reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento
sustentável.
A luta do ambientalista ainda inspirou a criação de uma série de
programas e leis ambientais, como: o Programa Piloto para Proteção das
Florestas Tropicais do Brasil (PPG7); o Plano de Ação para Prevenção e
Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAM); o Programa de
Subsídio Estadual da Borracha, a partir da Lei n° 1.277/ 1999, conhecido
como a Lei Chico Mendes; o Plano Nacional da Biodiversidade; o Programa
Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa); a Lei da Biodiversidade (Lei n°
13.123), além de dar seu nome ao principal órgão do governo para a
conservação de unidades de conservação federais: o Instituto Chico
Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
"Lutar com ele foi uma caminhada de sonho. Nunca foi uma luta por
vaidade ou dinheiro. Sempre foi para construir um mundo de igualdade.
Sabemos que apesar de tantas conquistas, ainda temos muito chão pela
frente. A luta deve ser motivo e estímulo para continuar”, enfatiza
Raimundo Barros, o Raimundão, primo de Chico Mendes.
Exposição
Como parte das celebrações do legado do Chico, paralelamente ao
Seminário, foi inaugurada a exposição de mesmo tema, no último dia 7 de
novembro, para um público de aproximadamente 150 pessoas.
A mostra fica aberta ao público até 9 de dezembro, de terça a domingo,
das 9h às 18h30, com entrada franca. A iniciativa resume a memória do
seringueiro na defesa da Amazônia e dos povos que nela vivem. A partir
de fotos, vídeos, mapas, cartas e até a máquina de escrever utilizada
pelo próprio Chico Mendes, a exposição faz ainda uma homenagem a trinta
mártires, entre homens e mulheres da Amazônia, que, assim como Chico,
foram assassinados nas últimas décadas por lutarem pela terra e pelo
meio ambiente no Brasil.
Organizada pela revista Xapuri Socioambiental, a exposição é uma
realização do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro/DF) e
do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais de Xapuri
(STTR-Xapuri), em parceria com o Conselho Nacional das Populações
Extrativistas (CNS), o Memorial Chico Mendes, a Federação Nacional das
Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), a Cooperação
Alemã (GIZ) e o Museu Nacional da República.
Semana Chico Mendes
A tradicional Semana Chico Mendes, organizada pelo Comitê Chico Mendes,
em parceria com o CNS, e apoio de diversas organizações, acontece de 15 a
22 de dezembro, no município de Xapuri (AC). Um dos principais temas
abordados será o protagonismo do jovem extrativista em defesa das pautas
socioambientais no estado do Acre.
A Semana Chico Mendes acontece anualmente, desde o assassinato do
seringueiro, em 22 de dezembro de 1988, e é um importante momento para
celebrar seu sólido legado de luta e de preservação das florestas
brasileiras. As atividades organizadas normalmente relembram a
trajetória do ambientalista e incentivam a participação dos jovens
extrativistas locais para darem continuidade ao legado de luta pela
conservação ambiental deixado por Chico.
Para o evento deste ano estão previstas a presença de 500 pessoas, entre
lideranças vindas de todos os estados da Amazônia, populações
tradicionais do Acre, convidados do Brasil e do exterior, além de
representantes de organizações e governo. Estão previstas atividades
artístico-culturais, workshops, palestras, rodas-de-conversa,
lançamentos de livros, exposição, entrega de prêmios, e eventos diversos
que terão como conceito principal
Sustentabilidade e Direitos Humanos.
“É imprescindível um maior engajamento da juventude para formar novos
líderes que garantam o futuro de um extrativismo que lute por ideais
socioambientais. As novas gerações precisam valorizar a importância das
unidades de conservação para o desenvolvimento sustentável do País,
assim como o conhecimento tradicional, o uso sustentável dos produtos da
floresta e o legado do socioambientalismo brasileiro”, explica Ricardo
Melo, coordenador do Programa Amazônia do WWF-Brasil.
O Comitê Chico Mendes é uma articulação em Rede de companheiros e amigos
de Chico Mendes, ativistas socioambientais que se identificam com a
luta do
Mártir da Floresta. Foi criada na época de seu
assassinato com dois objetivos: exigir das autoridades policiais e
judiciárias a apuração, o julgamento e a condenação de seus assassinos e
dos mandantes; e divulgar em âmbito nacional e internacional os ideais e
legado de Chico Mendes.
Serviço da exposição:
Chico Mendes Herói do Brasil
Até 9 de dezembro de 2018
Terça-feira a domingo de 9hàs 18h30
Sala 2 - Museu Nacional da República, Brasília - DF
Entrada franca