terça-feira, 9 de abril de 2019

Fique sabendo o que aconteceu entre 29 de março e 04 de abril de 2019

Fique sabendo o que aconteceu entre 29 de março e 04 de abril de 2019

 


Versão para impressãoA recém-lançada Frente Parlamentar em defesa dos direitos indígenas, coordenada pela primeira mulher indígena eleita como deputada federal no país, Joenia Wapichana (Rede-RR), agora encontra representatividade para a resistência destes povos no Legislativo


Frente parlamentar em defesa dos povos indígenas é lançada

 

Na última quinta-feira (04) foi lançada a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, composta por 219 deputados e 29 senadores. O grupo tem como coordenadora a deputada Joenia Wapichana (Rede-RR), primeira mulher indígena a ser eleita para a Câmara federal. Saiba mais no site da Câmara dos Deputados (04/04/2019).


Reserva Extrativista Marinha do Pirajubaé (SC) deve concluir plano de manejo

 

O MInistério Público Federal em Santa Catarina realizou uma audiência contra o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que se comprometeu a agilizar os procedimentos para a conclusão do plano de manejo da Reserva Extrativista (Resex) Marinha do Pirajubaé, no estado catarinense. A Unidade de Conservação foi criada há 22 anos e, no entanto, o ICMBio alegava que os estudos ainda estavam em andamento. Segundo determinação da lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, o plano de manejo deve ser entregue em até 5 anos após a criação da UC. Saiba mais no site do MPF/SC (03/04/2019).


Bolsonaro confirma concessão da Floresta Nacional de Canela e do Aparados da Serra (RS)

 

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, confirmou por sua conta no Twitter a concessão da Floresta Nacional de Canela e do Núcleo de Gestão Integrada Aparados da Serra – que contempla os Parques Nacionais de Aparados da Serra e de Serra Geral, todos no Rio Grande do Sul. Em 2018, o governo federal já sinalizava a publicação de editais para a concessão de 11 parques nacionais administrados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Saiba mais no Diário de Canoas (03/04/2019).


Vereadores de Florianópolis aprovam projeto que muda status da Lagoa do Peri

 

A mudança de categoria da Unidade de Conservação da Lagoa do Peri, em Santa Catarina, de Parque Natural para Monumento Natural (MONAT), foi aprovada no último dia 1º. A alteração se deve à necessidade de conciliar a ampliação da preservação das áreas protegidas e assegurar a manutenção das residências que estão estabelecidas no local, mesmo antes da criação do Parque Natural Municipal, em 1981. Saiba mais no OCP News (02/04/2019).


Mineração ilegal de ouro e diamante causam danos ao Rio Jequitinhonha, em Diamantina (MG)

 

A operação “Salve o Jequitinhonha”, deflagrada pela Polícia Federal e solicitada pelo Ministério Público Federal de Minas Gerais, teve como objetivo desarticular uma atividade clandestina de ouro e diamante em curso em Diamantina (MG). Segundo as investigações, cerca de 900 garimpeiros atuavam de forma ilegal ầs margens do Rio Jequitinhonha, obtendo lucro estimado de 20 milhões de reais contrabandeando diamantes para países da Europa e Ásia. Foram detectados o assoreamento e o desmatamento da mata ciliar, além da utilização de maquinários pesados como tratores, motores, sulcadores de água e jatos de água nas encostas do leito do rio, o que resultava no desmonte de barrancos e de sedimentos diversos, acelerando a erosão. Saiba mais no site do MPF/MG (03/04/2019).


Raquel Dodge defende que pedidos de reparação de dano ambiental sejam imprescritíveis

 

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, defendeu, no Supremo Tribunal Federal (STF), a tese jurídica de que os pedidos de reparação do dano ambiental sejam considerados imprescritíveis. Isto é: o agente que cometeu o dano pode ser processado, julgado ou ter a pena executada a qualquer tempo. A defesa foi feita no tratamento do Recurso Extraordinário (RE) 654.833, envolvendo o processo contra madeireiros condenados, por desmatamento ilegal, a indenizar a comunidade indígena ashaninka-kampa, no Acre. Saiba mais no site do MPF/PGR (02/04/2019).


Caciques xokleng denunciam o uso da Terra Indígena para tráfico de drogas e desmanche de carros

 

Cinco caciques xokleng da Terra Indígena Ibirama-La Klãnõ, em Santa Catarina, denunciaram junto ao Ministério Público Federal (MPF), a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Polícia Militar de Santa Catarina a invasão da Terra Indígena por traficantes de drogas e receptadores de desmanche de veículos. As comunidades se preocupam com a exposição das crianças e adolescentes ao tráfico e com a ideia errônea que os Xokleng participem do crime. Saiba mais no site do MPF/SC.

Sesc de São Paulo promove o 'Abril Indígena' com mais de 300 atividades

 

Ao longo do mês de abril, o Sesc promove 300 atividades nas 39 unidades espalhadas pela capital paulista, interior e litoral. Serão rodas de conversa, cursos, vivências, oficinas, apresentações de dança, música e teatro que contarão com a presença de indígenas de diversas etnias. O evento abordará as mais diversas temáticas, principalmente a luta por território. Confira a programação no site do Sesc e saiba mais na Rede Brasil Atual (01/04/2019).

Quilombolas ingressam com denúncia na OIT contra projeto espacial de Alcântara

 

Nesta quinta (04), na sede da Defensoria Pública da União em São Luiz, as comunidades quilombolas de Alcântara (MA) anunciaram o ingresso de uma reclamação perante a Organização Internacional do Trabalho (OIT), denunciando as graves violações de direitos do projeto espacial do Estado Brasileiro. O território étnico dos quilombos de Alcântara vem sendo utilizado há décadas pelo Governo Federal para a exploração comercial de serviços de lançamentos de satélites e veículos espaciais, deixando um rastro infindável de violações de direitos para as centenas de comunidades quilombolas da região. Saiba mais em nota da Conaq (03/04/2019).


Saiu nos Diários Oficiais

Continua a desintrusão da TI Paraguassu Caramuru (BA), dos Pataxó Hã-Hã-Hãe
A Comissão Permanente de análise de benfeitorias de ocupantes não indígenas, da Funai, publicou a Resolução no último dia 1º – partindo do julgamento do Supremo Tribunal Federal, ocorrido em 02/05/2012, ocasião em foi dirimida a controvérsia referente aos títulos de propriedade de terceiros incidentes sobre a referida terra indígena, consignando-os como nulos e dando publicidade, de forma inconteste, aos limites da área ocupada tradicionalmente pelo povo indígena Pataxó Hã Hã Hãe. A Comissão se baseou em GTs que realizaram levantamentos fundiários da TI, para divulgar a relação das ocupações de boa fé.
Leia na íntegra aqui.



Continuidade da regularização fundiária da Terra Indígena Pankararu (PE)
O presidente da Funai, Franklimberg Ribeiro de Freitas, criou uma Comissão Técnica, para cumprimento de Decisão Judicial, de 28/02/2019, proferida pela 38ª Vara da Justiça Federal de Serra Talhada que determinou que a Funai levante informações dos ocupantes não indígenas remanescentes na Terra Indígena Pankararu, localizada nos municípios de Jatobá, Tacaratu e Petrolândia, estado de Pernambuco. Para saber mais, acesse aqui.



Garantia da presença e modo de vida tradicional na EETM e PNSP
Publicados diversos extratos de Termos de Compromisso entre beiradeiros e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade a fim de compatibilizar transitoriamente a presença e o modo de vida tradicional dos ribeirinhos residentes e/ou usuários de recursos naturais no interior da Estação Ecológica Terra do Meio e do Parque Nacional da Serra do Pardo, no Pará, até que seja viabilizada a adoção de uma solução definitiva. Embora temporários, com um horizonte de cinco anos, os termos de compromisso assinados garantem a possibilidade da manutenção do modo de vida dos beiradeiros em seus territórios tradicionais, bem como garantem que possam acessar políticas públicas até então impossibilitadas pela situação anterior onde sua presença em seus territórios estava negada. É a vitória em uma batalha para a permanência definitiva em seus territórios tradicionais, uma situação inconcebível por falha do estado em cumprir sua obrigação reconhecendo seus direitos, o que negava o direito ao modo de vida enquanto não se consegue uma solução definitiva.
Veja a íntegra aqui e aqui (DOU 01 e 03/04/2019).



Controle espécie exótica: javali
Publicada a Instrução Normativa Ibama nº12/2019, que institui o Sistema Integrado de Manejo de Fauna como sistema eletrônico para recebimento de declarações e relatórios de manejo da espécie exótica invasora javali (Sus scrofa). Além disso a IN altera a IN Ibama nº 3/2013 a qual decreta a nocividade do javali e dispõe sobre o seu manejo e controle, especificando normas de controle como uso de armas brancas e de fogo, cães e autorizando o uso de armadilhas do tipo jaula ou curral, que garantam o bem-estar animal, segurança e eficiência, preferencialmente conforme modelo descrito, sendo proibidas aquelas capazes de matar ou ferir, como, por exemplo, laços e dispositivos que envolvam o acionamento de armas de fogo. Acesse a íntegra.



Conselho Consultivo Parna Guaricana
O ICMBio realiza chamamento público Nº2/2019 para manifestação de interesse em participar do conselho consultivo do Parque Nacional Guaricana, no Paraná. https://uc.socioambiental.org/arp/5405 A manifestação de interesse serão recebidas no e-mail até às 23:59 horas do dia 12/04/2019, ou pessoalmente até às 17 horas de Brasília na sede do Parque, rua General Carneiro, n° 481, Alto da Glória, Curitiba, Paraná. Dúvidas e esclarecimentos: ngi.curitiba@icmbio.gov.br ou (41) 3262-8649. Veja a íntegra da chamada (DOU 01/04/2019).



Transporte de pescado no Estado do Tocantins
Sob portaria de número 106, do último dia 27, fica estabelecido pelo período de 03 (três) anos cota zero para transporte de pescado no Estado do Tocantins, nas Bacias dos Rios Araguaia e Tocantins, na modalidade pesca esportiva e amadora, podendo ser prorrogado a critério do NATURATINS (Instituto Natureza do Tocantins), considerando subsídios técnicos referentes ao tema. Saiba mais aqui (DOE 28/03/2019).



 

A deputada Joenia Wapichana, primeira mulher indígena eleita no Congresso Nacional. | Marcelo Camargo/Agência Brasil

Mais de 12 mil quelônios são devolvidos para reserva sustentável no AM

Resultado de imagem para Mais de 12 mil quelônios são devolvidos para reserva sustentável no AMG1 - http://g1.globo.com/ - 27/03/2019 Mais de 12 mil quelônios são devolvidos para reserva sustentável no AM

27/03/2019 15h23

Por G1 AM

Ação de soltura garante a conservação das espécies Tracajá, Tartaruga e Irapuca.

No Amazonas, neste último final de semana, aproximadamente 12,5 mil quelônios foram soltos na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã e na Reserva Extrativista (Resex) do Rio Gregório, Unidades de Conservação (UC) gerenciadas pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema). A ação garante a conservação das espécies Tracajá, Tartaruga e Irapuca.

Na RDS do Uatumã, a soltura dos quelônios foi realizada na comunidade Maracarana e contou com o envolvimento dos moradores da UC em um dia intenso de atividades de cunho educacional e cultural, como dança, teatro, campeonato de futebol, oficinas de desenho com as crianças, entre outras. Ao todo, no local, foram devolvidos à natureza 11 mil quelônios na RDS.

Já na Resex do Rio Gregório, os filhotes somaram 1,5 mil, superando a soltura de 2018, quando foram devolvidos à natureza mil quelônios.

O trabalho de manejo dos quelônios é feito pelos próprios comunitários, que recebem orientação da Sema e de parceiros para a atividade. A proteção dos ovos envolve também as crianças, engajando-as na luta pelo meio ambiente. Antes da iniciativa, a relação dos comunitários com estes animais era focada principalmente na alimentação.

O supervisor técnico da Sema, Jefferson Moreira, explicou que é importante monitorar estas espécies para que se consiga aumentar a população de quelônios na natureza, visto que a taxa de sobrevivência é de 1%, e com o manejo sobe para 18%.

"Os comunitários recolhem os ovos quando são depositados na praia, aguardam a eclosão e depois cuidam dos filhotes até atingirem um tamanho ideal para sobrevivência na natureza. Este trabalho vem ajudando a preservar estas espécies", detalhou.

Ação contínua
Na RDS do Uatumã, outras quatro comunidades ainda realizarão soltura de quelônios em junho deste ano, em conjunto com as comemoração de aniversário da reserva.

A atividade nas comunidades Maracarana, Bela Vista e Manain é realizada pela Eletrobras Amazonas Energia, com apoio da Sema, e as demais comunidades da reserva são orientadas pelo Programa de Monitoramento da Biodiversidade e do Uso Sustentável de Recursos Naturais (Probuc), desenvolvimento pela secretaria.

Na Resex do Rio Gregório, este foi o segundo ano de realização da atividade. A ação contou com a participação da Secretaria Municipal de Educação (Semed), Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), e Associação de Moradores Agroextrativistas do Rio Gregório (Amarge), juntamente com integrantes do projeto Agentes Ambientais Voluntários (AAV), da Sema.

Neste ciclo do Probuc, cerca de 304 mil quelônios deverão ser devolvidos à natureza em 11 unidades de conservação gerenciadas pela Sema.

As solturas tiveram início em outubro de 2018 e seguem pelos próximos meses. A secretaria já realiza também o monitoramento da biodiversidade para os próximos ciclos de desova dos quelônios nos tabuleiros nas praias.

https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2019/03/27/mais-de-12-mil-quelonios-sao-devolvidos-para-reserva-sustentavel-no-am.ghtml
Biodiversidade:Fauna

Campeã de requerimentos minerários, Terra Indígena Yanomami sofre com explosão do garimpo

Campeã de requerimentos minerários, Terra Indígena Yanomami sofre com explosão do garimpo




Clara Roman
Extração ilegal se alastra pelo território, contaminando rios e degradando a floresta; levantamento do ISA mostra que região é a mais cobiçada por mineradoras.

Entre 6 e 7 mil garimpeiros estão retirando ouro ilegalmente na Terra Indígena Yanomami, no norte do país. É o maior número registrado até hoje. O garimpo ilegal tem se intensificado nos últimos meses e explodiu em janeiro, depois que o Exército desativou as bases de proteção nos Rios Uraricoera e Mucajaí, as principais entradas para a Terra Indígena.

Nos três últimos anos, a presença do Exército foi fundamental para inibir a entrada de garimpeiros. Em 2018, foi responsável pela saída de mais de 1.500 garimpeiros do Rio Uraricoera. Porém, desde dezembro, com o abandono das bases, os garimpeiros retomaram a invasão em ritmo acelerado.

O garimpo traz doenças, violência, desmatamento, assoreamento dos rios e contaminação por mercúrio e outros metais pesados. Maior do país, a Terra Indígena Yanomami abriga os povos Yanomami e Ye’kwana, além de 96.650 km² de florestas protegidas e 43.614 km de rede de drenagem (rios e igarapés*). A situação se agrava devido à presença de povos indígenas isolados em áreas muito próximas a registros de garimpo.

Imagens aéreas indicam pontos de garimpo na Terra Indígena Yanomami em julho de 2018   

Além do garimpo ilegal, a TI é campeã em requerimentos minerários, com 534 pedidos de pesquisa para exploração em suas terras, segundo levantamento do Instituto Socioambiental (ISA). Isso significa que é o território indígena no Brasil mais cobiçado por mineradoras, que fazem requerimentos na expectativa da regulamentação de uma lei que libere a mineração nessas áreas.


Hoje, a exploração minerária em áreas protegidas, incluindo Terras Indígenas, não é permitida, e esses requerimentos ficam travados quando chegam à Agência Nacional de Mineração (ANM). Ao todo, o levantamento identificou 4.250 requerimentos minerários incidentes em Terras Indígenas. Mais de 90% desses processos são de requerimentos de pesquisa e envolvem a solicitação para a exploração de ao menos 66 substâncias. O ouro é o principal minério em requerimentos incidentes em Terras Indígenas.


No caso da TI Yanomami, as empresas anseiam pela exploração do ouro no solo e rios do território, e os requerimentos incidem em 42,57% do território.

Um histórico de destruição

Na década de 1980, quando aconteceu a primeira grande invasão garimpeira na Terra Indígena, cerca de 20% da população yanomami morreu em decorrência de doenças. Entre 1987 e 1989, estima-se que 2.003 balsas de garimpo trafegavam pelo Rio Uraricoera. Com a demarcação da TI, em 1992, esses garimpos foram encerrados. Mas, pouco a pouco, a atividade ilegal começou a se espalhar novamente pela região.

Yanomami vítima da invasão garimpeira na Terra Indígena Yanomami é levado para  posto médico por piloto da Força Aérea Brasileira (FAB), em 1990 

Em seu livro “A Queda do Céu”, o xamã Yanomami Davi Kopenawa relata os perigos que a extração do ouro traz para o seu povo. “O que os brancos chamam de ‘minério’ são as lascas do céu, da lua, do sol e das estrelas que caíram no primeiro tempo”, explica Kopenawa. “Durante o sono, eu vi os brancos trabalhando nesses minérios. Não pareciam se dar conta de que esses fragmentos de céu antigo são perigosos. Ignoravam que sai deles uma fumaça de metal densa e amarelada, uma fumaça de epidemia tão poderosa que se lança como uma arma para matar os que dela se aproximam e respiram”, afirma.

Hoje, apenas na porção da Terra Indígena que ocupa o Estado de Roraima, existem 14 pistas de pouso clandestinas de garimpo ilegal, e 347 polígonos de área degradada, o que corresponde a 1.096 hectares (ou mais de mil campos de futebol). O garimpo ocorre principalmente em 14 regiões da TI: Oriak, Uraricaá, Waikás, Aracaçá, Parima, Whato u, Homoxi, Hakoma, Kayanau, Uxiu, Alto catrimani, Serra da Estrutura, Lobo d’almada, e Rio Novo.

Isolados em risco

Focos de garimpo foram registrados na Serra da Estrutura, próxima à fronteira com a Venezuela. A região tem presença de indígenas isolados, que escolheram não ter nenhum contato com não indígenas e mesmo outros indígenas, e dependem intrinsecamente da floresta para sobreviver. Além da degradação pelo garimpo, há uma pista de pouso na área. Nesta região, a área degradada decorrente do garimpo aumentou 167% desde outubro de 2018.

Em 2015, por conta dos cortes no orçamento, a Funai encerrou sua base de proteção de isolados na Serra da Estrutura, uma das regiões com maior presença desses povos. Hoje, a Terra Indígena Yanomami abriga sete registros de povos em isolamento voluntário, segundo dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), apenas na porção brasileira. São cinco registros em informação, um em estudo e um confirmado. Essas categorias são utilizadas pela Funai para classificar os registros de acordo com o nível de informação que se tem sobre cada um deles.

Além da possibilidade de conflitos, o perigo é de contaminação, já que os índios isolados não têm imunidade para doenças comuns que circulam entre os não indígenas. Na década de 1970, a construção da Perimetral Norte levou o sarampo, a gripe, a malária, a caxumba e a tuberculose para o território Yanomami. Segundo relatos da Comissão Nacional da Verdade, em algumas regiões 80% da população Yanomami morreu em decorrência dessas doenças. A rodovia foi planejada pelo governo militar, mas sua construção foi abandonada.

Imagens aéreas indicam pontos de garimpo na Terra Indígena Yanomami em julho de 2018  

Relatos do povo Ye’kwana, que também vive na TI, dão pistas sobre um mercado paralelo do ouro que se formou na região. Em zonas de difícil acesso e comunicação, os garimpeiros instalaram pontos de wifi, onde se cobra 0,5 g de ouro por meia hora de acesso. 50 litros de diesel custam 10g de ouro e 50 litrosde gasolina, 15g. Uma lata pequena de cerveja chega a custar 0,2 gramas de ouro (R$ 20 reais) um frango, 0,8 g, ou R$ 80 reais.

“Quando o ouro fica no frio das profundezas de terra, aí tudo está bem. Tudo está realmente bem. Ele não é perigoso. Quando os brancos tiram o ouro da terra, eles o queimam, mexem com ele em cima do fogo como se fosse farinha. Isto faz sair fumaça dele. Assim se cria a xawara que é a fumaça do ouro. Depois desta xawara wakêmi esta “epidemia fumaça”, vai se alastrando na floresta, lá onde moram os Yanomami, mas também na terra dos brancos, em todo lugar. É por isso que estamos morrendo. Por causa desta fumaça”, afirma Davi Kopenawa.
*Identificados em base cartográfica na escala 1:250.000
Imagens: 

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Avanço da agropecuária, estradas ilegais e floresta no chão. Assim começa o ano no Xingu





por ISA – 
 
Destruição da vegetação nativa na bacia do Xingu nos dois primeiros meses de 2019 superou em 54% o desmatamento no mesmo período em 2018. Em média, 170 mil árvores foram derrubadas por dia

Nos dois primeiros meses do ano, mais de 8.500 hectares de floresta, o equivalente a 10 milhões de árvores, foram derrubados na bacia do Xingu. O avanço da agropecuária, grilagem e abertura de estradas ilegais explicam esses índices, que superaram em 54% o total desmatado no mesmo período em 2018, quando foram detectados pouco mais de 5 mil hectares.
No porção mato grossense da bacia, essa porcentagem atingiu 204%, impulsionada por três municípios: Santa Carmem, com 1.119 hectares e Feliz Natal, com 755 hectares. Em União do Sul, os 1.139 hectares de floresta destruídos nos dois primeiros meses de 2019 representam 30% do total desmatado em 2018.



Avanço do desmatamento no Xingu.
Devido às fortes chuvas em dezembro, houve uma redução no desmatamento em Terras Indígenas (TIs) em comparação com os últimos meses de 2018. O aumento dos índices em relação ao ano anterior, no entanto, é significativo: em janeiro, a destruição da floresta cresceu 221% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Já em fevereiro, a taxa atingiu 361% a mais do que o detectado em 2018.


Estrada ilegal ameaça isolados
A TI Ituna/Itatá, no Pará, foi a mais desmatada nos dois primeiros meses do ano, com 453 hectares. Nesse período foi detectada uma estrada no interior da TI, que se espalhou criando ramificações e segue em direção à vizinha TI Koatinemo, do povo Assurini. O ramal, localizado no meio da floresta, provavelmente está sendo utilizado por grileiros e madeireiros. A abertura de uma estrada para retirada ilegal de madeira na região é sem precedentes.

O território é uma área com restrição de uso, que impede a circulação de não-indígenas e destina seu uso exclusivo aos grupos isolados que ali vivem. Em 9 de janeiro, uma Portaria renovou a restrição de uso da área por mais três anos. Apesar disso, foi constatada a inscrição de CAR em dezenas de propriedades dentro da área interditada, que muitas vezes se sobrepõe. Algumas áreas dentro da TI chegam a ter cinco registros, o que indicaria que o território está sendo disputado por vários grupos de grileiros.

A TI localiza-se a menos de 70 quilômetros do sítio Pimental, principal canteiro de obras da hidrelétrica de Belo Monte, e a destruição da floresta vem aumentando exponencialmente desde 2011, início da construção da usina. A implantação de um plano de proteção à Tis é uma condicionante de Belo Monte, mas nunca foi integralmente cumprida. [Saiba mais]



Desmatamento na Terra Indígena Ituna/Itatá, no Pará, ameaça indígenas isolados| 
Juan Doblas –
ISA
Na rota da Ferrogrão
A expectativa da construção da Estrada de Ferro 170, conhecida como Ferrogrão, vêm aquecendo o mercado de terras na região oeste do Mato Grosso. No ano passado, 17.685 hectares foram desmatados nos municípios de Cláudia, Feliz Natal, Marcelândia, União do Sul e Santa Carmem, todos na área de influência do projeto. Em União do Sul, município campeão de desmatamento em fevereiro, foram produzidos mais de 196 mil toneladas de soja em uma área de 59 mil hectares, segundo dados do IBGE/2017.

Se sair do papel, a obra vai conectar a região produtora de grãos do Mato Grosso aos portos de exportação no Pará, consolidando um novo corredor logístico de exportação do Brasil pela Amazônia. A construção da ferrovia deve potencializar os impactos socioambientais das áreas protegidas nas proximidades do seu trajeto, além de acirrar os conflitos fundiários da BR-163, rodovia paralela à Ferrogrão.

As áreas foram detectadas pelo Sirad X, o sistema de monitoramento de desmatamento da Rede Xingu +. Por meio da tecnologia de radar, é possível detectar o desmatamento através das nuvens que cobrem a região entre setembro e maio. Os boletins são publicados na Plataforma Rede Xingu +. Clique aqui para acessar a edição nº11.

ONU defende educação sobre florestas para preservar recursos naturais



No Dia Internacional das Florestas, lembrado nesta quinta-feira (21), a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) defende a educação sobre esses ecossistemas como estratégia para preservar os recursos naturais do planeta. Cerca de 90% de todas as espécies terrestres de seres vivos são encontradas nas florestas, que oferecem não apenas um habitat para a biodiversidade, mas também uma série de serviços ecossistêmicos para os humanos.

“As florestas ajudam a manter o ar, o solo, a água e as pessoas saudáveis. E elas desempenham um papel vital no combate a alguns dos maiores desafios que enfrentamos, tais como a luta contra as mudanças climáticas e a erradicação da fome”, afirmou em mensagem para a data o chefe da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva.

Em 2019, a ONU comemora o dia internacional com o tema Florestas e educação. “A educação é um passo crítico para proteger os recursos naturais para as gerações futuras. É essencial que as crianças aprendam sobre as florestas desde cedo”, acrescentou Graziano.

Embora os benefícios trazidos pelas florestas sejam amplamente documentados, a integridade e a sustentabilidade dessas formações vegetais, alerta a FAO, estão ameaçadas pelos efeitos cumulativos do desmatamento, degradação da terra e competição por usos alternativos do solo.

De 1990 a 2015, a proporção da superfície do planeta coberta com florestas passou de 31,6% para 30,6%. Os dados são do último Panorama Ambiental Global, divulgado na semana passada pela ONU Meio ambiente.


Mata fechada na Amazônia peruana. Foto: Flickr (CC)/Joseph King
O relatório alerta ainda que, conforme o desmatamento avança na Floresta Amazônica, o volume de chuvas tem diminuído — um sintoma da interação entre as florestas, o clima e as necessidades humanas. Estimativas recentes indicam que, caso o desflorestamento destrua de 20 a 25% da cobertura vegetal original da bacia amazônica, o bioma chegará a um “ponto sem retorno”, com prejuízos irreversíveis para o ciclo hidrológico. Nos últimos 50 anos, 17% da extensão original da Amazônia foi devastado, de acordo com dados da WWF citados no panorama da ONU.



Talvez o maior desafio dos esforços de conservação, aponta a FAO, seja a falta de entendimento sobre os modos como as florestas contribuem com a sociedade global. Parte das lacunas nessa compreensão se deve à crescente desconexão entre as pessoas e a natureza, em particular nas áreas urbanas. A FAO ressalta que esse problema precisa ser encarado e revertido — e que a educação pode ajudar a superar esse cenário.

O organismo internacional destaca, porém, que a educação sobre florestas é frequentemente inadequada e não é capaz de abordar desafios emergentes. Menos jovens estão estudando o uso dos recursos florestais nas universidades e um número ainda menor de escolas dos ensinos fundamental e médio inclui a educação sobre florestas em seus currículos. Quando o tema é inserido na formação de crianças e adolescentes, nem sempre o assunto é trabalhado de maneira a explicar o papel multifuncional das florestas.

A FAO tem trabalhado com parceiros para conscientizar os jovens e a população em geral sobre as ameaças às florestas. A agência empreende esforços na criação de programas educativos abrangentes e também no estabelecimento de escolas vocacionais rurais, que possam capacitar profissionais do setor de silvicultura.

Nesse dia internacional, o organismo liderado por Graziano anunciou a implementação de dois projetos de “alfabetização florestal” para crianças de nove a 12 anos, na Tanzânia e Filipinas.


Financiados com mais de 1 milhão de dólares do governo da Alemanha, os programas terão duração de três anos e vão envolver a elaboração de módulos educativos que sejam práticos e interativos. A iniciativa prevê a divulgação posterior desse material por meio online, para todo o mundo.


Tanto nas Filipinas quanto na Tanzânia, as florestas são vitais, especialmente para a nutrição das populações rurais, para as necessidades de energia e para os meios de subsistência.

Quase metade da população tanzaniana e um terço da população filipina têm menos de 15 anos de idade. A FAO acredita que educar estudantes do fundamental I sobre o uso sustentável e conservação das florestas é uma porta de entrada para a saúde a longo prazo das florestas dos dois países.


Também com financiamento alemão, a FAO, a Organização Internacional de Madeira Tropical (ITTO) e a União Internacional da Organização de Pesquisa Florestal (IUFRO) estão cooperando para realizar, com outras instituições, um inventário da educação florestal. O levantamento deve catalogar e analisar o estado de práticas de aprendizado sobre o tema em todo o mundo, a fim de identificar lacunas e propor recomendações. O projeto prevê ainda o lançamento de uma plataforma virtual que deverá ser a principal referência global em educação florestal.


Florestas e biodiversidade

 

 

Em mensagem para a data, a secretária-executiva da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica, Cristiana Pasca Palmer, afirmou que as florestas, com as suas complexas interações entre seres vivos, são “grandes professoras” para os humanos.

“Elas nos ensinam sobre as variadas formas pelas quais todos os organismos no planeta estão interconectados e, de muitas maneiras, dependem uns dos outros para sobreviver”, disse a dirigente.
“A educação florestal deve incluir tanto a pesquisa científica de ponta como também os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas, que vivem lado a lado da biodiversidade das florestas por inúmeras gerações.”

Cristiana enfatizou ainda que os conhecimentos sobre os benefícios das florestas devem ser acessíveis para crianças, jovens e também para homens e mulheres, sem discriminação de gênero.

(#Envolverde)

Projetos protegem 3,9 milhões de hectares de florestas em Mato Grosso, Rondônia e Amazonas


 


Iniciativas apoiadas pelo Programa Petrobras Socioambiental também já recuperaram 1.700 hectares de áreas degradadas
 
No dia Internacional das Florestas, cinco projetos apoiados pelo Programa Petrobras Socioambiental na Amazônia comemoram a proteção de mais de 3,9 milhões de hectares de florestas e a recuperação de 1.700 hectares de áreas degradadas. As iniciativas acontecem em terras indígenas, reservas extrativistas e propriedades de agricultura familiar no Amazonas, Mato Grosso e em Rondônia.
Os projetos envolvem atividades de assistência técnica para indígenas, extrativistas, pequenos produtores rurais, produção de mudas, educação ambiental e acesso a mercados. Com o trabalho, mais de 6,5 mil pessoas são beneficiadas pelos projetos, cujo apoio vai desde a oferta de cursos de formação até a compra de equipamentos e construção de infraestrutura de apoio à produção.

Em Mato Grosso, a Associação Pacto das Águas ajuda extrativistas da Reserva Guariba Roosevelt e indígenas Rikbaktsa das terras Escondido e Japuíra com a melhora na qualidade da produção de castanha e borracha e com apoio no acesso a mercado. São mais de 800 pessoas envolvidas diretamente e 485 mil hectares de florestas que são protegidas gerando renda para as comunidades.

Só no ano passado, a comercialização de 80 toneladas de castanha e 11 toneladas de borracha nativa de alta qualidade gerou um faturamento de R$ 50 mil para as três comunidades. “Isso é um resultado incrível para as comunidades. Antes do projeto, a maioria dos extrativistas nem recebia pela venda dos produtos, acabava trocando por mercadorias. Com o projeto, as comunidades ganham mais autonomia”, comemora Emerson de Oliveira, coordenador do projeto que leva o mesmo nome, Pacto das Águas.

Na mesma região, o projeto Poço de Carbono Juruena, desenvolvido pela Associação de Desenvolvimento Rural de Juruena – Aderjur, oferece alternativas sustentáveis de renda aos agricultores familiares e povos indígenas, incentivando o extrativismo de castanha-do-brasil e babaçu, além do uso de sistemas agroflorestais.

No Poço de Carbono, os agricultores têm diversas opções de cultivos e uma renda garantida e melhor distribuída ao longo do ano. Além do benefício econômico, os sistemas agroflorestais “imitam” o comportamento da floresta, armazenando carbono e ajudando a mitigar os efeitos das mudanças climáticas.

“Nós temos uma forte experiência com a castanha-do-brasil, em que 300 famílias de agricultores e indígenas produziram, somente na última safra, 200 toneladas de castanha e produtos derivados e geraram uma renda de 2,5 milhões de reais”, explica Paulo Nunes, coordenador do projeto. Isso representa apoio a proteção de quase 1,6 milhão de hectares. Além disso, outros 100 hectares de áreas degradadas estão sendo recuperados  pelo projeto.


Em Rondônia, dois projetos incentivam a recuperação de áreas degradadas. Desenvolvido pela CES Rioterra desde 2010, o projeto Semeando Sustentabilidade já recuperou 350 hectares de Áreas de Preservação Permanente (APP), atendendo a mais de mil agricultores familiares em 17 municípios. Além disso, o projeto também distribuiu mais de 1 milhão de mudas de diversas espécies, o suficiente para recuperar mais de 900 hectares de áreas degradadas. Pelos cálculos do CES Rioterra, o plantio dessas árvores resulta em mais de 52,3 milhões de toneladas de gases de efeito estufa como o dióxido de carbono (CO2) removido da atmosfera. “Com todo o nosso trabalho de educação e esclarecimento os agricultores já começam a perceber o retorno dos serviços ambientais que melhoram a sua produção, ou seja, agora ele entende a importância de se adequar para além da legislação, mas principalmente quanto ao meio ambiente por meio da regeneração do solo e da floresta”, reforça Fabiana Barbosa, gerente Geotecnologia e Pesquisa da CES Rioterra.

Outros 350 hectares de Áreas de Preservação Permanente (APP’s) e Sistemas Produtivos Sustentáveis em oito municípios da zona da mata rondoniense e centro sul do estado de Rondônia, foram e estão sendo recuperados pelo projeto Viveiro Cidadão, realizado pela Ecoporé, desde 2013. A iniciativa atua com mais de 600 proprietários rurais, entre agricultores familiares, mulheres do campo e jovens agricultores, onde já distribuiu de mais de 1 milhão de mudas de diversas espécies frutíferas e florestais.

As mudas e apoio técnico do projeto têm mudado a vida das comunidades. “Eu tenho duas áreas que quero utilizar com apoio do projeto, uma em que eu vou plantar agrofloresta e outra que quero recuperar utilizando espécies apícolas. Se não fosse o Viveiro Cidadão e os técnicos me incentivando nada disso poderia se tornar realidade”, conta a jovem Ana Lúcia Cardoso Martins, de 18 anos, filha de agricultores familiares de Pimenta Bueno.
No Amazonas, o projeto Raízes do Purus apoia quatro povos indígenas de seis terras indígenas na bacia hidrográfica dos Médios rio Purus e Juruá. Juntos, estes territórios protegem uma área de 2,3 milhões de hectares de floresta, da qual cerca de duas mil pessoas tiram seu sustento sem desmatamento, associando o trabalho com as cadeias de valor da sociobiodiversidade a ações de vigilância e proteção territorial. As atividades são coordenadas pela Operação Amazônia Nativa (Opan) e incluem apoio ao manejo sustentável do pirarucu e dos sistemas agroflorestais

O povo Paumari, por exemplo, tem o manejo de pirarucu como sua principal atividade econômica. Em 2018, com apoio do projeto, conseguiram comercializar 30 toneladas do peixe. Já o povo Deni realizou sua segunda pesca manejada de pirarucu e conseguiu comercializar 70 peixes em parceria com as comunidades extrativistas da região. “Não gabando a gente mesmo, mas o nosso peixe é da melhor qualidade”, diz o coordenador do manejo Francisco Paumari.

Agroflorestas também fazem parte das atividades incentivadas com os recursos da Petrobras. É o caso do povo Apurinã, que está ampliando suas unidades de sistemas agroflorestais na Terra Indígena Caititu. O quarto povo apoiado pelo projeto da Opan, o Jamamadi, vem trabalhando pela melhoria da qualidade da farinha de mandioca. O foco é produção para consumo próprio, mas eles trabalham com a com possibilidade de comercialização do excedente.

Fatos e dados
Geral

  • 2,7 milhões de hectares de floresta protegidos em três estados
  • Mais de 4 mil pessoas envolvidas
  • 600 hectares de áreas degradadas em recuperação
  • 2 milhões de mudas plantadas
Mato Grosso
  • 2mil hectares de floresta protegidos
  • Povo indígena beneficiado: Rikbaktsas das Terras Indígenas Escondido e Japuíra
  • Extrativistas da Reserva Extrativista Estadual Guariba Roosevelt
  • Municípios abrangidos: Aripuanã, Colniza, Cotriguaçu, Juara, Juruena e Rondolândia
Rondônia
  • 600 hectares recuperados
  • 2 milhões de mudas plantadas
  • 25 Municípios abrangidos: (CES Rioterra + Ecoporé)
Amazonas

  • 2,3 milhões hectares de floresta protegidos
  • Povos indígenas envolvidos: Deni, Jamamadi, Paumari e Apurinã
  • Terras Indígenas: TI Paumari do Lago Cuniuá, TI Paumari do Lago Paricá, TI Paumari do Lago Manissuã, TI Jarawara/Jamamadi/Kanamanti, TI Caititu e TI Deni.
  • Municípios abrangidos: Carauari, Itamarati, Lábrea, Tapauá.

Quem são os inimigos dos ambientalistas

por Samyra Crespo – 
 

Quem são os inimigos dos ambientalistas

Mia Couto filósofo e escritor moçambicano, diz que em vez de produzir riquezas, estamos produzindo ricos

Posso afirmar sem medo de errar que os ambientalistas, em sua maioria, acreditam na possibilidade de reformar o capitalismo, dando a ele uma feição inteligente (mais eficaz nas suas promessas de prosperidade) e mais ecológica. Os teóricos chamam a essa tendência majoritária hoje, cujos operadores são os sustentabilistas, de “A modernização ecológica do capitalismo”. Assim, longe de ser revolucionário este movimento vem abraçando o reformismo como ideologia politico-econômica.
Este veio de crenças e sua diligente tradução em práticas de “negócios sustentáveis” se configurou nas primeiras duas décadas deste século, ainda em curso. O mote principal dos sustentabilistas é mainstreamming the ecology (colocar a ecologia no coração da economia capitalista).

Portanto não venham com esse papo de que somos marxistas e anticapitalistas ferrenhos. Há os que discordam do status-quo. São antes anti-establishment. E representam hoje grupos minoritários.
Vamos aprofundar isto. E vou precisar de dois posts para o mesmo assunto. Um texto muito grande ninguém lê e aqui é um embate público, não acadêmico.

Quando eu estava na faculdade um professor que estudara a formação da classe industrial paulista e a formação das novas fortunas originadas na commodity da época – o café – se espantava com os alunos da pós graduação que só tinham apetite para falar dos movimentos sociais, dos pobres e oprimidos. Inclusive eu que naquele momento desenvolvia meu mestrado estudando os integristas católicos envolvidos no Golpe de 64.

Vocês devem estudar os ricos, o poder econômico por eles constituído pois a opressão e a pobreza estão aí como resultado, dizia nosso professor de estudos agrários.

Essas reminiscências me vêm à mente quando vejo diariamente as cotações do dólar dar taquicardia e os colunistas políticos e econômicos se referirem ao Deus MERCADO. O mercado pensa assim, o mercado pensa assado.

Olho para o voo solo e torpedeado de Thomas Piketty, o economista francês – que se utilizando de base de dados sistemáticas e séries históricas, longitudinais, nos mostrou didaticamente como ao longo de séculos – e mesmo enfrentando grandes guerras, as fortunas se mantém nas mãos de algumas poucas famílias. Também explica como a ciranda financeira torna novas pessoas tidas como empreendedores exemplares, tipo Bill Gates e Slim o magnata mexicano muito, muito ricas.

Ao final do século XX vimos dois fenômenos intimamente ligados ocorrer: a expansão do capitalismo (territorial e culturalmente falando) e a concentração brutal da riqueza. Como substrato, massa de pobres e mesmo bolsões de miséria em países tidos como desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos.

Pena, diz Mia Couto filósofo e escritor moçambicano, que em vez de riqueza estamos produzindo ricos, riqueza esta que só é distribuída com escândalo. Basta ver os debates em torno da “renda minima”, não só no Brasil. Faz-se brutais mudanças tecnológicas que destroem milhões de empregos e mesmo as migalhas que serão distribuídas aos que “sobram” desta transição são alvo de controvérsia.

A pergunta que não quer calar é: de onde vêm as fortunas do Brasil?

Respondo que se você quer saber quem são os inimigos dos ambientalistas, siga o dinheiro. Para abrir o apetite para o próximo post, eu adianto:

A riqueza no Brasil tem base fundiária, rentista e imobiliária. Extração de madeira, mineração e comércio do solo urbano. O industrialismo sempre contou com proteção de mercado e as commodities com largos subsídios. O avanço sobre terras públicas, o desmatamento, as Serras Peladas, o avanço do boi e da soja. Sacaram?
Volto com mais detalhes.

Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo ” O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”.

Desenvolvimento economico da Amazonia significará o fim da Amazonia?


 
 
 
Uma carta de intenção entre o Ministério do Meio Ambiente e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), foi divulgada em 18 de março. Nela, os dois países afirmam ter colaborado para a preservação da Amazônia durante décadas e que “ambos os países compartilham a noção de que o engajamento e a parceria com o setor privado são pontos críticos para o desenvolvimento de um modelo de produção sustentável e voltado para o mercado na região da Amazônia”. Enfatizam que a falta de acesso ao crédito e financiamento impedem o empreendedorismo, o surgimento de cadeias de produção, inovação e start-ups na região. Para isso, pretendem criar um fundo de investimento com US$100 milhões provenientes do setor privado, que servirão para financiar empreendimentos que promovam a sustentabilidade, o crescimento econômico, a preservação das florestas e da biodiversidade, assim como o bem-estar de povos tradicionais.
 



Segundo o site da agência, sua presença no Brasil data de 1962, promovendo ações pela melhora da saúde, educação, segurança alimentar, saneamento básico, direitos das crianças e adolescentes, combate ao tráfico humano, desenvolvimento de micro empreendimentos e preservação do meio ambiente. O trabalho de maior destaque desenvolvido no Brasil pela USAID foi o auxílio à consolidação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), criada em 1972 para combater a fome no país. A agência afirma ter colaborado com o aumento de aptidões da EMBRAPA para o desenvolvimento de pesquisas.
 

A carta de intenção surge em um momento polêmico para a política ambiental brasileira – a demarcação de terras indígenas e quilombolas passou para o Ministério da Agricultura, em um claro desvio de competência; o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é acusado pelo Ministério Público de São Paulo de alterar ilegalmente o plano de manejo de uma área de proteção ambiental durante seu mandato como Secretário de Meio Ambiente do estado; as taxas de desmatamento e a degradação do meio ambiente na Amazônia têm batido recordes ano após ano. Vista a cadeia de fatos, é necessário compreender os motivos por trás dessa intenção de investimento na Amazônia Legal.

A USAID

sábado, 6 de abril de 2019

Conheça as empresas que pediram os novos pesticidas ‘extremamente tóxicos’

Conheça as empresas que pediram os novos pesticidas ‘extremamente tóxicos’

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Contaminação de funcionários, irregularidades na produção e doações para bancada ruralista compõem histórico das multinacionais do mercado de agrotóxicos; menos conhecidas, corporações nacionais também foram beneficiadas pelas liberações do governo Bolsonaro



Por Julia Dolce
O recorde de novos pesticidas certificados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) em menor período, batido pelo governo Bolsonaro após aprovar 86 novos produtos em pouco menos de dois meses, é comemorado por um grupo seleto de empresas. Além de colecionarem pedidos de registros, as corporações por trás desses agrotóxicos e seus sócios — ambos negligenciados pela imprensa brasileira — têm em comum históricos de conflitos agrários, processos e denúncias de contaminação.
 
Quais são elas?


Riscos para os trabalhadores e para o ambiente. (Foto: Reprodução)

Na lista das que mais tiveram novos produtos registrados estão multinacionais e empresas brasileiras pouco conhecidas do público em geral, como a israelo-chinesa Adama, sétima maior produtora de químicos agrícolas do mundo (com faturamento anual no Brasil estimado em US$ 600 milhões). Ela é a responsável pelo pedido de dois novos produtos classificados como classe I ou extremamente tóxicos, o Voraz EC e o Hexazinona Técnico Adama BR, além de dois produtos altamente tóxicos e um medianamente tóxico. A empresa alemã Helm teve o pedido de dois venenos classe I aceitos pelo Mapa.

Entre as campeãs em novas certificações desponta uma velha conhecida: a Syngenta Proteção de Cultivos Ltda. A multinacional suíça, cujo faturamento total, por ano, chega a US$ 10 bilhões, foi adquirida em 2017 pela estatal chinesa ChemChina. No Brasil, é responsável pelo pedido de dois produtos “extremamente tóxicos”: o Elatus Trio, indicado para as culturas de milho e soja, e o Avicta 500 FS PRO, indicado para as mesmas culturas, além dos plantios de algodão e cana-de-açúcar.

Esse último pesticida é produzido com o ingrediente ativo abamectina, que já teve a legalidade de seu uso questionada pelo Ministério Público Federal (MPF), em março de 2015, e pela 7ª Vara da Justiça Federal do Distrito Federal, no ano passado, por causar danos à saúde humana e ao ambiente.
A relação traz ainda empresas brasileiras como a Agroimport do Brasil Ltda, pertencente ao Grupo Ferrarin,  responsável por uma variação do glifosato conhecida como Topatudo, outro pesticida extremamente tóxico aprovado neste ano. Confira na outra reportagem da série: “Um dos agrotóxicos liberados em janeiro pelo governo Bolsonaro chama-se Topatudo“.

E o número de pedidos e aprovações só cresce: em 2005 foram apenas 91 registros deferidos; em 2018, esse número saltou para 450. A perspectiva é que o Brasil chegue neste ano à primeira centena somente nos primeiros meses do mandato de Bolsonaro. Em janeiro foram 131 solicitações divulgadas. No dia 4 de fevereiro, o Mapa teve 78 novas solicitações de registro de agrotóxicos. No dia 15, onze dias depois, foram feitos mais 31 pedidos.

‘EXTREMAMENTE TÓXICOS COLOCAM EM RISCO OS TRABALHADORES’

No caso dos produtos classificados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como extremamente tóxicos, 21 deles foram aprovados pelo atual governo em quatro atos publicados no Diário Oficial da União (DOU) em janeiro e fevereiro. De acordo com o procurador do trabalho Pedro Luiz Serafim, coordenador do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, a legislação brasileira determina que os novos agrotóxicos registrados pelo Mapa sejam cada vez menos perigosos:

A Constituição diz que a lei deve procurar substitutivos cada vez menos tóxicos, o contrário do que está acontecendo. Os extremamente tóxicos colocam em risco os trabalhadores – nas etapas de fabricação,  transporte, aplicação – e o meio ambiente. Não existe uso seguro, por isso queremos trabalhar para que cada vez mais as empresas sejam responsabilizadas, dando instrumentos ao Estado para proteger a saúde das pessoas.

Meirelles, da Fiocruz, diz que produtos “extremamente tóxicos” são subnotificados. (Imagem: Reprodução/YouTube)

A avaliação da categoria “extremamente tóxico” no Brasil é baseada no perigo agudo que a substância representa, o que já indica uma subnotificação dos riscos crônicos causado pelos químicos.
“Os piores venenos também estão nos menores frascos”, afirma Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador e professor em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

Ele ocupou por treze anos o cargo de  gerente geral de toxicologia da Anvisa. “Ou seja, é preciso uma dose muito pequena para causar muito dano, é isso que norteia a classificação”, explica. “Mas há também riscos crônicos de doenças congênitas e outros danos diversos à saúde”. Meirelles foi exonerado em 2012 após denunciar um esquema de corrupção na agência.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo ele, vem recomendando, há tempos, que os pesticidas altamente perigosos sejam retirados do mercado: “Não é interessante para o país autorizar uma série de substâncias que caiam nesse perfil, não é adequado do ponto de vista do risco sanitário, o que impacta até mesmo em questões econômicas”.

ASSASSINATO, CONTAMINAÇÃO DE CRIANÇAS E PERSEGUIÇÕES

A Syngenta foi condenada em dezembro pelo homicídio do sem-terra Valmir Mota de Oliveira e pela tentativa de assassinato da camponesa Isabel Nascimento de Souza. A decisão, confirmada em segunda instância pelo Tribunal de Justiça do Paraná, determinou que a empresa deveria indenizar as famílias das vítimas por danos morais e materiais. O assassinato ocorreu no município de Santa Tereza do Oeste, em um campo de experimentos com transgênicos. A área estava ocupada por 150 integrantes da Via Campesina, articulação de movimentos sociais do campo, que denunciava a suposta ilegalidade das pesquisas da transnacional. Os militantes foram atacados a tiros por cerca de quarenta agentes de uma empresa contratada, a NF Segurança.

O sem-terra Valmir Mota de Oliveira, assassinado por seguranças contratados pela Syngenta. (Foto: MST)

Também no ano passado, a Syngenta foi condenada a indenizar em R$ 150 mil os 92 alunos, professores e funcionários da Escola Municipal Rural São José do Pontal, em Rio Verde (GO), atingidos em 2013 pela pulverização aérea do agrotóxico EngeoTM. Usando serviços da Aerotex Aviação Agrícola, a empresa despejou o veneno em uma cultura de milho localizada ao lado da escola municipal, que faz parte do Projeto de Assentamento Pontal dos Buritis, em uma área da União, como explicou De Olho nos Ruralistas em reportagem publicada na época.

A Syngenta já teve mais de 1 milhão de quilos e 150 mil litros de agrotóxicos apreendidos pela Anvisa em 2009, no município de Paulínia (SP), devido a uma série de irregularidades encontradas nos produtos, como datas de fabricação e validade adulteradas. Em 2006, a multinacional teve 143 hectares de terra, irregularmente utilizados para testes com soja e milho transgênicos, desapropriados pelo governo do Paraná. Em 2017, a Anvisa proibiu a comercialização de um dos principais herbicidas da Syngenta, o paraquat, relacionado ao desenvolvimento de câncer e Parkinson.

Em outros países a corporação foi considerada responsável por irregularidades e contaminação. Seus pesticidas, proibidos, devido à sua extrema toxicidade. Em maio, a Syngenta foi condenada a indenizar produtores de milho nos EUA em US$ 1,5 bilhão, após vender uma semente modificada para a China antes de o país asiático aprovar sua regulamentação, o que gerou prejuízo aos produtores dos Estados Unidos. A empresa se envolveu em polêmicas também no Reino Unido, após a descoberta de que uma de suas fábricas na região exportava o agrotóxico Gramoxone, cujo princípio ativo é o paraquat, proibido na ilha.

Tyrone Hayes foi perseguido após provar ação nociva de agrotóxico da Syngenta. (Foto: Universidade da Califórnia)

Um dos casos mais graves atribuídos à multinacional é a perseguição ao cientista Tyrone Hayes, difamado pela Syngenta após um estudo realizado a pedido da própria empresa, sobre o herbicida atrazina. Nos anos 80, o pesquisador concluiu que o agrotóxico impedia o desenvolvimento sexual dos sapos. A empresa tentou comprar os dados da pesquisa para mantê-los em segredo. Sem sucesso, deu início a uma ampla campanha para destruir a reputação profissional do cientista, como relatou a revista New Yorker, em reportagem publicada em 2014.

À frente do Ministério da Agricultura, a ruralista Tereza Cristina, apelidada de “musa do veneno”, possui ligações indiretas com a Syngenta. Sua campanha ao cargo de deputada federal nas últimas eleições teve como um de seus maiores financiadores o empresário Celso Grieseang, um dos proprietários da Sementes Tropical, empresa que comercializa fungicidas em parceria com a Syngenta, e doou R$ 37,5 mil à candidatura da ministra.

COMPONENTE DO AGENTE LARANJA É PRODUZIDO NO SUL

De Olho Nos Ruralistas pesquisou o histórico das demais empresas, brasileiras e multinacionais, por trás dos novos agrotóxicos aprovados neste ano, na média de dois a cada três dias, que, em breve, contaminarão a comida e o solo dos brasileiros.

Uma delas, a Adama, já entrou em conflito com camponeses. A empresa teve sua fábrica ocupada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) em 2010. A ação foi parte da Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Camponesas da Via Campesina em defesa da soberania alimentar, como forma de denúncia contra o modelo de agronegócio que consideram prejudicial à vida das camponesas.

A multinacional é uma das maiores empresas de agroquímicos do sul do país, produtora de princípios ativos de agrotóxicos para sementes, incluindo o 2,4-D, que já foi proibido no Brasil por ser cancerígeno. O ingrediente é um dos principais componentes do agente laranja, arma química utilizada no Vietnã, responsável até hoje pelo nascimento de crianças com malformações congênitas no país asiático.

Camponesas ocuparam fábrica da Adama em 2015. (Foto: MST)

Uma fusão da brasileira Milena Agrociências com o grupo israelense Makhteshim Agan, posteriormente comprada pela ChemChina, a Adama já foi multada pela adulteração de 2,5 milhões de litros de agrotóxicos, em 2010, após uma fiscalização realizada nas fábricas localizadas nos municípios de Londrina (PR) e Taquari (RS). O CEO da Adama Brasil, Rodrigo de Souza Dias Gutierrez, é pecuarista e administrador da empresa Lucas de Souza Dias Gutierrez, que controla uma fazenda de criação de gado no município de Platina (SP).

A empresa está por trás da doação de dinheiro para representantes da bancada ruralista no Congresso. Nas eleições de 2014, a empresa doou R$ 75 mil para o PR, repassados à campanha do ex-deputado federal Alex Canziani (PTB-PR), parlamentar que integrava a bancada. Em uma entrevista de 2012, o pesquisador Meirelles apontava Canziani como um dos maiores lobistas da Câmara para a liberação de agrotóxicos, sendo o deputado que mais pressionava técnicos da Anvisa para a aprovação de registros.

Nas mesmas eleições, a empresa doou R$ 60,2 mil para o PSD, repassados para a campanha do falecido deputado federal Rômulo Gouveia (PSD-PB), integrante da Comissão Especial sobre os pesticidas, destinada a dar parecer ao Projeto de Lei (PL) que mudava a palavra utilizada para descrever os produtos, de agrotóxicos para “defensivos fitossanitários”.

NO CEARÁ, ANEMIA, DEPRESSÃO E SUICÍDIO



Na opinião do procurador Serafim, os parlamentares ruralistas incorporam cada vez mais a linguagem dos fabricantes de agrotóxicos:

– Eles vêm com o discurso de quem está ganhando mais com a venda do produto, que é o fabricante. É importante que a sociedade tenha a compreensão de que o agronegócio reproduz essa fala, mesmo colocando em risco a saúde dos brasileiros e do meio ambiente e atrapalhando até mesmo a subsistência da atividade deles. As multinacionais dominam de várias formas, e a interferência na questão política é uma das principais. Nós precisamos tomar medidas para interromper isso.

A empresa australiana Nufarm, responsável pela produção do “extremamente tóxico” Tamiz, doou R$ 35 mil, em 2014, para a campanha do deputado federal Raimundo Matos (PSDB-CE), que já ocupou o cargo de vice-presidente dessa Comissão Especial, agora responsável por analisar o projeto apelidado como PL do Veneno, que propõe a flexibilização da regulamentação de agrotóxicos no Brasil. Em seu sexto mandato, o ruralista foi acusado, no ano passado, de receber R$ 100 mil em propinas da JBS, segundo delação de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento da empresa, como também reportou o observatório.

Em 2007, a Nufarm comprou a brasileira Agripec Química e Farmacêutica S.A, adquirindo seu portfólio de agrotóxicos. A empresa pertencia à família de Jorge Alberto Vieira Studart Gomes, conhecido como Beto Studart, que concorreu ao cargo de vice-governador do Ceará em 2006. Na época, ele possuía terras utilizadas como haras e declarou possuir um total de R$ 449 milhões em bens.

A Nufarm foi acusada de contaminar o ambiente e intoxicar pessoas no município de Maracanaú, sede de uma de suas das fábricas. Em 2006, o Ministério Público do estado solicitou um estudo à Universidade Federal do Ceará para avaliar o nível de poluição emitido pela empresa, após moradores denunciarem um cheiro “insuportável” vindo do prédio da indústria, que produzia o inseticida Strom, cujo princípio ativo é o químico metamidofós. Uma agente de saúde registrou aumento no casos de anemia, depressão, suicídio e malformações congênitas entre os moradores da região.

Contra a Nufarm, de origem australiana, pesam casos de depressão e anemia associados à substância Strom. (Foto: Divulgação)

O relatório do estudo, entregue em 2009, foi produzido em cooperação científica com a Fundação Jorge Duprat Figueiredo, de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro-MG)  e trazia como solução efetiva para a eliminação do risco a suspensão da produção do inseticida. Também em 2006, a empresa foi apontada como responsável pelo descarte de material tóxico na estrada da Cascalheira, em Camaçari (BA), e denunciada ao MP estadual. Três anos depois, a Agripec foi condenada na 1ª Vara Civil de Resende (RJ) a pagar um salário mínimo a cada pescador do Rio Paraíba do Sul, impedidos de exercer suas atividades profissionais em consequência de vazamento de produtos tóxicos por parte da empresa.

A Sipcam Nichino Brasil S.A. é formada por 50% do capital Sipcam, empresa do Grupo Sipcam-Oxon, atuante no mercado agroquímico brasileiro desde 1979, e por 50% do capital da Nihon Nohyaku Co. Ltd, tradicional companhia japonesa. Fabricante dos produtos classe I Difenoconazole Técnico SUP e Difenoconazole Técnico SNB, ela teve o parecer técnico de um consultor – contratado pela própria empresa, na época pertencente à italiana Isagro – adotado pelo Mapa. O documento argumentava contra o banimento do agrotóxico cihexatina, utilizado na citricultura.


A adoção do parecer de uma iniciativa privada gerou polêmica, mesmo com uma recomendação da Anvisa para que o produto não fosse mais utilizado por fazer mal à saúde de consumidores e lavradores. Dois anos depois, em 2010, a Anvisa apreendeu 50 mil litros irregulares da fábrica da empresa em Uberaba (MG), encontrando problemas que iam desde a adulteração nos prazos de validade até a falta de controle de qualidade dos produtos.

Outras multinacionais responsáveis pelos registros de agrotóxicos categorizados como classe I são relativamente pouco conhecidas. Entre elas está a Arysta Lifescience do Brasil, dos Estados Unidos, recentemente vendida para a indiana Platform Specialty Products, que conseguiu a aprovação dos agrotóxicos Agile e Metomil Técnico Volcano. A alemã Helm do Brasil Mercantil teve os produtos Difenoconazole JS Técnico Helm e Diquat ZF Técnico Helg aprovados no segundo ato sobre agrotóxicos registrados pelo Mapa, no dia 17 de janeiro.

A Rotam do Brasil, com sede em Hong Kong, é autora do pedido do pesticida Abamectin, aprovado no terceiro ato, publicado no dia 4 de fevereiro. Finalmente, a chinesa Rainbow Defensivos Agrícolas, com sede brasileira em Porto Alegre, produz do classe I Sonyaguard XTRA.

EMPRESA TEVE PRODUTO BANIDO DO RIO GRANDE DO SUL

 

Não apenas as multinacionais do ramo dos agrotóxicos têm seu currículo manchado. A brasileira BRA Agroquímica (BRA Defensivos Agrícolas), com sede em Piracicaba (SP) e filial em Redenção (PA), é produtora dos “extremamente tóxicos” Zardo e Clorotalonil Técnico. Ela tem, entre seu corpo de sócios, empresários envolvidos com a política institucional e com empresas que atuam em áreas opostas à da produção dos agrotóxicos.

É o caso do sócio Milton Alexandre Teixeiras Vargas, que, nos anos 2000, foi um dos donos de uma empresa já fechada de consultoria ambiental, a Bioagri Consultoria Ambiental. Ou de Jorge Luiz Alberici, do MDB de Londrina (PR) e sócio de uma consultoria de registro de produtos, a AG Brasil Consultoria e Registro de Produtos. O sócio Álvaro Augusto Teixeira Vargas é presidente do Museu de Ciência e Tecnologia de Piracicaba.

A América Latina Tecnologia Agrícola Ltda (Alta), que conseguiu a certificação de uma variação do 2,4-D, apesar de brasileira, tem imbróglios a nível internacional. A empresa faz parte do grupo Agrihold Management Corp, offshore baseada em Bahamas denunciada como uma das offshores mapeadas no escândalo do Panamá Papers. O representante legal da Agrihold Investments Ltd no país, Ernesto Eugênio Bellotto, trabalhou em outras distribuidoras de agrotóxicos, como Sinon e a Sipcam, além das multinacionais Monsanto, Dow e Dupont.

Em maio, a empresa teve a comercialização de um produto, o herbicida Paraquate Alta 200 SL, banido do Rio Grande do Sul por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Na época, a ministra Cármen Lúcia considerou comprovada a ameaça de grave risco à saúde e ao ambiente. Com isso ela suspendia os efeitos de liminar concedida à empresa pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que permitia a comercialização do agrotóxico.

O início da controvérsia ocorreu após a Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler negar o cadastramento do produto, que já havia obtido registro junto ao Ministério da Agricultura. A empresa, então, impetrou um mandado de segurança, alegando o direito de vender o agrotóxico no estado gaúcho.

A BRASILEIRA NORTOX E O ENVENENAMENTO DE INDÍGENAS

A Nortox S.A é outra companhia brasileira que compila irregularidades. Seu produto “altamente tóxico” 2,4-D Técnico Nortox CH, de origem chinesa, foi aprovado na última leva de certificações do Ministério da Agricultura, publicada no Diário Oficial da União em 18 de fevereiro. A empresa já registrou neste ano dois outros produtos medianamente tóxicos e um altamente tóxico.

Em Arapongas (PR), a fábrica da Nortox recebeu a fiscalização após o superaquecimento de um reator provocar o lançamento de gases que causaram mau cheiro no município paranaense. O resultado da fiscalização, realizada pela Anvisa, foi a interdição de 370 mil litros de agrotóxicos após a identificação de alterações de componentes que os tornavam diferentes dos registros autorizados pelo governo.

Uso do Nortox comprometeu a saúde de indígenas no MT, segundo relatório da ONG Repórter 
Brasil. (Foto: MPF).
 

A contaminação humana faz parte do histórico da empresa brasileira. Ela foi citada no relatório da ONG Repórter Brasil sobre envenenamento de indígenas no Mato Grosso do Sul. As principais vítimas foram crianças da Terra Indígena Guaiviry. “Quando eles passam veneno nas lavouras, geralmente o Nortox, as pessoas passam muito mal”,  afirmou Cirso Jorge, liderança local. 



“Principalmente as crianças. Pega em todo mundo, dá umas fístulas cheias de pus, depois a pele da gente fica toda marcada”.


A empresa entrou em conflito com o MST em 2006, quando aproximadamente cem integrantes do movimento interromperam o tráfego na BR-369 para protestar contra a doação da Nortox à campanha do deputado federal Abelardo Lupion (PFL-PR, hoje DEM). Foram R$ 50 mil doados em 1998, segundo o movimento campesino, “com o objetivo de flexibilizar a utilização de agrotóxicos no Brasil”. Os manifestantes protestaram nas proximidades da Fazenda Santa Rita, propriedade do político em Santo Antônio da Platina (PR).

A empresa foi autuada em 2 de fevereiro de 2009 e 29 de junho de 2010 por produzir o pesticida Endossulfan Técnico Nortox de forma diferente da autorizada pela Anvisa. Considerado de risco Classe I, o agrotóxico teve seu uso associado a problemas reprodutivos e endócrinos identificados em trabalhadores rurais. No fim do ano passado, a Nortox teve uma de suas unidades fechadas em Rondonópolis (MT), por não apresentar o Estudo e Relatório de Impacto Ambiental.


A empresa foi vencedora do Prêmio Chico Mendes de Responsabilidade Socioambiental por três anos consecutivos (2014, 2015 e 2016), por seu projeto socioambiental Olho D’água, que tem como objetivo recuperar minas e nascentes.

Outra brasileira responsável pelos pedidos de químicos registrados pelo governo Bolsonaro é a Companhia das Cooperativas Agrícolas do Brasil (CCAB Agro S.A), associada ao grupo francês InVivo Agrosciences desde 2016 e ao grupo Louis Dreyfus, para comercialização, desde 2011. A empresa movimenta 90 bilhões de euros por ano, congrega mais de duzentas cooperativas e registrou o extremamente tóxico Difenoconazol Técnico CCAB, além de dois outros produtos considerados medianamente tóxicos.


A gaúcha Cropchem conseguiu o registro de seus produtos Kasan Max 750 WG e Taura 200 EC. Nos últimos dois anos, a empresa triplicou seu portfólio de agrotóxicos. Seu CEO, José Luis Harlacher de Leão, possui duas empresas de comércio de pesticidas, a Green Power, e a Crystal Agro, ambas em Porto Alegre.

NOVOS PEDIDOS AGUARDAM NA FILA DA AGENDA DA MINISTRA

 

Além dos pedidos já deferidos, a entrada de Tereza Cristina e sua sinalização positiva aos agrotóxicos está incentivando empresas a entrar com novos registros. Nas solicitações deste ano, os nomes das empresas destacadas nesta reportagem se repetem algumas vezes. A Adama entrou com pedido de vinte novos produtos; a Nortox, sete; a BRA Defensivos Agrícolas, quatro.

Nomeação da “musa do veneno” alavancou pedidos de registro de agrotóxicos no governo Bolsonaro. (Imagem: Reprodução/You Tube)
Embora o mercado dos agrotóxicos se restrinja a um número pequeno de multinacionais, o crescimento dessas empresas brasileiras no ramo preocupa o toxicologista Meirelles. “Temos cerca de 60% do mercado controlado por cerca de seis grandes empresas, é um mercado muito concentrado”, analisa. 

“Quanto mais empresas tivermos produzindo substâncias extremamente tóxicas, mais difícil será para os órgãos reguladores revisar a liberação desses produtos no futuro, porque haverá uma gama forte de empresas confrontando o governo”. Segundo ele, a última lista de revisão feita no país foi em 2008, “e a ciência avançou muito desde então”.

O dado explica ainda o alto número de companhias pedindo o registro de cópias do mesmo veneno ou ingredientes ativos. Segundo o Ministério da Agricultura, todos os ingredientes que compõem os produtos já eram comercializados no Brasil, mas agora terão sua aplicação em novas culturas ou serão formulados em diferentes composições e combinações químicas.

Uma instrução normativa lançada no ano passado (nº 40 da Secretaria de Defesa Agropecuária) garantiu plenos poderes aos engenheiros agrônomos para determinarem, com liberdade, misturas de diferentes agrotóxicos para a produção de novas receitas. Independentemente do desconhecimento de seus efeitos e riscos.

Para o procurador Pedro Serafim, o alto número de registros representa um movimento de recuperação do mercado internacional, a partir da flexibilização do registro de agrotóxicos no Brasil:

– A legislação externa tem sido cada vez mais restrita, principalmente na União Europeia. O setor do agronegócio diz ao governo que os pedidos de registro são aprimoramentos de tecnologia, mas são cópias de princípios ativos banidos em outros países. Então é uma questão de mercado, para colocar o Brasil como celeiro, ou cemitério, dos agrotóxicos. (Colaborou Bruno Stankevicius Bassi)

Janela inteligente filtra luz, calor e poeira


Janelas contra luz e poeira
 Redação do Site Inovação Tecnológica -  
Janela inteligente filtra luz, calor e poeira

Um processo simples e econômico para fabricar janelas "duplamente inteligentes" e flexíveis em larga escala acaba de ser desenvolvido por uma equipe da Universidade de Ciência e Tecnologia da China.
As telas são capazes de, simultaneamente, ajustar a intensidade da luz que passa por elas, inclusive a porção infravermelha (calor) e filtrar a poeira, deixando de fora o material particulado atmosférico.
Essa dupla funcionalidade resultou da fusão de duas tecnologias: (1) Eletrodos transparentes flexíveis que alteram sua transmitância em resposta a estímulos elétricos ou térmicos ajustam a intensidade da luz que passa e (2) a própria malha em que esses eletrodos são tecidos captura com alta eficiência o material particulado PM2,5 - partículas que medem menos de 2,5 micrômetros.
O professor Yu Shuhong contou que custou exatos U$15,03 dólares e levou 20 minutos para fabricar 7,5 m2 das janelas transparentes flexíveis.
Sem qualquer modificação, o material apresentou uma resistência de de 8,87 Ω sq-1 e uma transmitância óptica de 86,05%.
Janela inteligente filtra luz, calor e poeira
Foto de um dos protótipos e o material depositado sobre a malha de nylon (alto à direita). [Imagem: YU Shuhong]
Luz, calor e poeira
A tela é feita de fios de nylon revestidos com nanopartículas de prata e uma tinta termocrômica, capaz de reter não apenas a luz visível, mas também parte da radiação infravermelha (calor).
Os protótipos apresentaram excelente estabilidade mecânica, com o desempenho permanecendo estável mesmo após 10.000 ciclos de flexão com um raio de curvatura mínimo de 2,0 mm e 1.000 ciclos de deformação de estiramento com tensão mecânica de 10%.
A eficiência na remoção do material particulado 2,5 apresentou 99,65% de eficiência, mantendo a estabilidade após 100 ciclos de filtração e lavagem, para limpeza das partículas de poeira coletadas.

Bibliografia:

Mass Production of Nanowire-Nylon Flexible Transparent Smart Windows for PM2.5 Capture
Wei-Ran Huang, Zhen He, Jin-Long Wang, Jian-Wei Liu, Shu-Hong Yu
iScience