sexta-feira, 7 de junho de 2019

A potência da primeira geração sem esperança

COLUNA i

A potência da primeira geração sem esperança

Os adolescentes que lideram a greve climática encarnam a mais importante adaptação ao planeta em colapso e demonstram ser mais próximos dos povos da floresta do que de seus avós de tradição europeia

Dia Mundial do Meio Ambiente
A ativista sueca Greta Thunberg (centro) participa de manifestação em Viena, Áustria, no dia 31 de maio AP
Em maio, encerrei uma palestra sobre a Amazônia e a criação de futuro, na universidade de Harvard, nos Estados Unidos, afirmando que a esperança, assim como o desespero, é um luxo que não temos. Com um planeta superaquecendo, não há tempo para lamentações e para melancolias. Precisamos nos mover, mesmo sem esperança. Assim que terminei, um grande empresário brasileiro fez uma manifestação apaixonada em defesa da esperança e foi aplaudido entusiasticamente por parte da plateia. A esperança, e não a destruição acelerada da Amazônia ou a emergência climática global, foi o assunto do debate que veio a seguir. Alguns entenderam que eu era uma espécie de inimiga da esperança e, portanto, uma inimiga do futuro (deles). A reação é reveladora de um momento em que a novíssima geração, a das crianças e adolescentes, tem enfiado o dedo na cara dos adultos e mandado eles crescerem.

A esperança tem uma longa história, e espero que algum dia alguém a escreva. Das religiões à filosofia, do marketing político ao mundo das mercadorias do capitalismo. Num planeta com chão cada vez mais movediço, em que os estados-nação se desmontam, a esperança tem progressivamente ocupado o lugar da felicidade como um ativo de mercado. Lembram que até bem pouco tempo atrás todo mundo era obrigado a ser feliz? E quem afirmava não ser tinha uma deformação de alma ou estava doente de depressão?

A “felicidade” como mercadoria já foi bem dissecada por diferentes áreas do conhecimento e pela experiência cotidiana de cada um. Convertida em produto do capitalismo, no qual era objeto de consumo que supostamente se garantia por mais consumo, hoje perdeu valor de mercado, ainda que continue eventualmente a abarrotar as prateleiras de livros de autoajuda. A esperança vai ocupando o seu lugar num momento em que o futuro se desenha sombriamente como um futuro num planeta pior.
Minha investigação pessoal sobre a esperança se iniciou em 2015. E volto a ela daqui a alguns parágrafos. O que levei para a parte final da minha palestra foi o que me parece o mais fascinante desta época: aquela que talvez seja a primeira geração sem esperança. Ao mesmo tempo, é também a geração que rompeu o torpor desse momento histórico marcado por adultos infantilizados, que alternam paralisia e automatismo, também no ato de consumir. Ao romper o torpor, essa geração deu esperança à geração de seus pais. O impasse em torno da esperança é revelador do impasse entre a geração que levou ao paroxismo o consumo do planeta, a dos pais, e a geração que vai viver no planeta esgotado por seus pais.

“Nossa casa está em chamas. Eu não quero a sua esperança. Eu quero que vocês entrem em pânico”
A geração sem esperança tem a imagem de Greta Thunberg, a garota sueca que, em agosto do ano passado, com apenas 15 anos, iniciou uma greve escolar solitária em frente ao parlamento em Estocolmo. E, de lá para cá, já inspirou duas greves globais de estudantes pelo clima, levando para as ruas do mundo centenas de milhares de crianças e adolescentes em cada uma delas. Greta, que se tornou uma das pessoas mais influentes do planeta em menos de um ano, é reconhecida por declarações tão brilhantes quanto afiadas. Em uma delas, responde aos adultos que olham extasiados para seu rosto de boneca de souvenir e confessam de olhos úmidos que ela e sua geração os enche de esperança. A adolescente, hoje com 16 anos, diz:

“Nossa casa está em chamas. Eu não quero a sua esperança, não quero que vocês sejam esperançosos. Eu quero que vocês entrem em pânico, quero que vocês sintam o medo que eu sinto todos os dias. Eu quero que vocês ajam, que ajam como se a casa estivesse em chamas, porque ela está”.

Em geral, depois do susto inicial, os adultos retomam o enamoramento, dando “um desconto à juventude” de Greta – “ela ainda vai crescer...” (e quem sabe se tornar esperançosa como eles?). E, assim, tentam ignorar o que ela diz sobre a esperança – e sobre agir. Mesmo cientistas e ativistas do clima, que conhecem a realidade da emergência climática e têm os números da catástrofe na ponta da língua, têm dificuldades com essa afirmação. Eles temem que, se não houver esperança, as pessoas paralisem e não reajam nem pressionem as autoridades por políticas públicas de combate ao superaquecimento global, tampouco consigam se adaptar às mudanças (para pior) que já começaram a se impor sobre o cotidiano.

Em 24 de maio, na segunda greve estudantil global pelo clima, cerca de 30 crianças e adolescentes brasileiros que protestavam foram recebidos pelo assessor de mudanças climáticas da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Oswaldo Lucon, que é também membro do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) da ONU, afirmou, segundo a Folha de S. Paulo, que “passar para os mais jovens mensagens de total desesperança pode não ser o melhor caminho”.

Diante do sentimento de urgência dos jovens, disse que é “importante brigar mas também tentar trazer soluções para os problemas”. Que deveriam se preocupar em crescer para ocupar cargos públicos e também nas empresas para então tomar decisões que produzam mudanças. O problema, para seus jovens interlocutores, é que só há 11 anos para impedir que o planeta aqueça mais do que 1,5 graus Celsius, o que parece tremendamente difícil com o atual quadro de adultos no comando. Os estudantes em greve climática sabem que não há tempo, que precisam mesmo é sacudir esses homens e mulheres crescidos, mas atarantados, antes que seja tarde demais.


A declaração do adulto na sala foi bem intencionada, como são bem intencionados muitos adultos que enfrentam aquele que é o maior desafio da nossa espécie em toda a sua trajetória: a alteração do clima do planeta provocada por ação humana. A questão que os adultos parecem não compreender é que há uma mudança no modo de pensar. E é uma mudança profunda. Minha hipótese é que, não fosse essa mudança no modo de pensar, adolescentes da geração de Greta não conseguiriam fazer o que fazem. Refiro-me a Greta, por ela ser o principal ícone dessa geração, mas outras lideranças da juventude pelo clima colocam a esperança num lugar menos estratégico que a geração de seus pais. Não me parece que tenham questões com a esperança nem que ela esteja no seu horizonte imediato de preocupações. Apenas ela não é importante na vida deles como é na de seus pais. A esperança aparece no discurso porque provocada pelos adultos.


Ao dizer que não têm esperança e que não querem dar esperança para ninguém, muito menos para aqueles que são em grande parte responsáveis pelo legado de um planeta exaurido, os adolescentes demonstram uma aguda intuição. Eles recusam o discurso hegemônico e também a ideia de um discurso hegemônico. A Europa, que é de onde vem Greta e a maioria das lideranças estudantis pelo clima, é aquela que fez um discurso sobre o que é não só a própria Europa, mas o que são todos os outros, um discurso sobre a humanidade, e também sobre civilização e barbárie. A esperança está embutida nesse pacote da “tradição ocidental”. Ao recusar à ideia fácil da esperança, os adolescentes intuem – ou concluem – que, se quiserem enfrentar a vida no planeta que virá, terão que recusar essa matriz de pensamento – ou não terão chance.


Recusam-se também a ser consumidos pelos adultos assustados, mas sempre ávidos por corpos jovens, como é toda geração que envelhece e passa a temer a morte. A dos adultos atuais tem a particularidade de ser uma geração fortemente influenciada pelos Estados Unidos e sua esperança de exportação, embalada por Hollywood primeiro, pelo Vale do Silício depois. Se tornarem-se fontes de esperança, os estudantes pelo clima passam a ser bibelôs fofos em tempos de trevas, miniaturas vendidas nas lojas para fazer companhia aos pinguins de geladeira. Greta seria então reduzida a um rostinho redondo de porcelana – e não alçada à potência que efetivamente é.


Recusar-se a ser objeto de esperança é recusar-se a ser consumida pela engrenagem que já engoliu rebeldes muito mais velhos e experientes e mastigou insurreições usando todos os dentes, apenas para cuspi-las na sequência. De alguma maneira, a juventude pelo clima parece intuir também que é preciso fazer esses adultos abrirem mão da muleta da esperança, porque com ela seguem em seu longo torpor num sofá metafórico enquanto, como Greta diz, “nossa casa está em chamas”.
Deve ser assustador ter como pais a minha geração ou a imediatamente posterior, que é ainda mais fraca

Posso imaginar o quanto deve ser assustador ter como pais a minha geração e a geração imediatamente posterior a minha, que me parece ainda mais entorpecida porque mais mimada pelo suposto “direito” de consumir. Essas crianças e adolescentes veem a casa queimando, sentem o calor do fogo e o gosto acre da fumaça tóxica invadindo os pulmões. E os pais lá, cuidando de outros assuntos. Percebem então que, se não fizerem algo, estão ferradas, porque são elas que vão viver num planeta muito pior. Ao mesmo tempo, são estes adultos que estão no poder e (não) tomando as decisões necessárias. Quando finalmente são confrontados, os adultos ou agem com repressão, ao sentirem-se atingidos em sua autoridade conferida pela idade, ou demandam esperança. É, no mínimo, enervante.

O ponto mais interessante é que a demanda por esperança dos adultos esbarra na lógica. O discurso geral é de que, sem esperança, as pessoas não lutarão contra o superaquecimento global. E a realidade mostra que as pessoas que estão mudando o paradigma da luta climática, fato reconhecido pelos cientistas e ativistas do clima mais veteranos, afirmam não ter esperança – ou que ter esperança não é o mais importante neste momento. Quem rompeu o torpor da espécie são esses adolescentes que querem que os adultos entrem em pânico imediatamente e comecem a agir já.

Testemunhamos, sem reparar na grandeza do fato, a mais fascinante adaptação à emergência climática do planeta

Em vez de recusar o que dizem, os adultos deveriam estar escutando-os com toda a atenção. O que testemunhamos é talvez a primeira geração a perceber que não tem tempo para esperar os pais resolverem o problema que até hoje só agravaram – e muito. Como já escrevi em artigo anterior: “Nunca houve nada parecido na história. Em nenhuma história. Os filhotes tentam salvar o mundo que os espécimes adultos destroem sistematicamente. Serão necessários muitos anos de estudos para compreender os efeitos desta inversão sobre a forma de compreender o mundo e seu lugar no mundo daqueles que serão adultos amanhã. Mas, para isso, é preciso ter amanhã”.

Dito de outro modo. O que testemunhamos é uma nova forma de pensamento adaptada à nova realidade do planeta. Minha hipótese é que testemunhamos uma adaptação à emergência climática. Produzida em nível subjetivo, essa adaptação está produzindo acontecimento no planeta. Depois de cientistas e ativistas do clima berrarem sozinhos por décadas, o mundo finalmente começa a escutar que a casa está queimando porque a nova geração, esta que prescinde da esperança, é quem está dizendo.

E dizendo com novas palavras. Em maio, o jornal britânico The Guardian anunciou que mudaria seu manual para conferir mais precisão à linguagem usada na cobertura: em vez de “climate change” (mudança climática), passou a usar “climate emergency, crisis or breakdown” (emergência climática ou crise climática ou colapso climático); em vez de “global warming” (aquecimento global), “global heating” (expressão de difícil conversão ao português, que estou traduzindo como “superaquecimento global”). A pressão pelas mudanças operadas na linguagem foi produzida, em parte, por novíssimas lideranças como Greta Thunberg.

Movimento e esperança, como os (extremamente) jovens ativistas do clima provam, dia após dia, não estão conectados. É possível agir sem esperança. Mas, como me disse Anuna de Wever, a liderança belga da juventude climática, com a alegria de estarem juntos, de fazerem juntos. Sua resposta remete a outra urgência: a de tecer o “comum”, a de fazer comunidade. Não clã, nem nação.

Mas comunidade. É também comunidade que a nova geração de ativistas climáticos está fazendo no mundo, a cada greve estudantil do clima. Derrubando as fronteiras e botando os muros abaixo em nome de um “comum”: a luta contra o superaquecimento global, a batalha contra os senhores do mundo que estão esgotando o planeta e fazendo com que não exista amanhã para os que vêm em seguida, o enfrentamento da lógica capitalista do consumo engolidor de mundos.

Testemunhamos, muitos sem perceber a grandeza do que veem, a espécie se reinventando para sobreviver em ambiente hostil. E fazendo isso não apenas enquanto a casa queima, mas enquanto no planeta comandado por adultos multiplicam-se os governos populistas de extrema direita dedicados a construir muros e armar as fronteiras. A luta do presente pode ser resumida entre aqueles que estão tecendo um comum e aqueles que rasgam a possibilidade do comum, como o governo de ódio de Jair Bolsonaro no Brasil, o governo de muros de Donald Trump nos Estados Unidos, e todas as crias monstruosas dos novos fascistas.

Os populistas de extrema direita negam o aquecimento global porque morrem de medo da criação do comum

Não é por mero acaso que os populistas de extrema direita negam a emergência climática. Eles sabem que é na luta contra o superaquecimento global que a humanidade pode se unir para tecer um comum.
Hoje, tremem de medo diante das crianças que botam o dedo na sua cara, e então tentam torná-las objetos de consumo. Quando não conseguem, inventam conspirações para desqualificá-las, como tem feito tanto a extrema direita quanto a extrema esquerda, sempre tão parecidas. É também nesse ponto que entra a demanda por esperança. “Não é que essas crianças não têm esperança, é que elas ainda são muito jovens, não entendem o mundo”, escuto dizerem. Claro, quem entende o mundo são esses seres experientes que destroem o planeta a cada dia com mais afinco.


Em um belo texto publicado na revista de psicanálise “Percurso”, do Instituto Sedes Sapientiae, um dos adultos mais interessantes vivendo no Brasil, o filósofo Peter Pál Pelbert, escreve lindamente sobre o “comum”:

“Talvez o desafio seja abandonar a dialética do Mesmo e do Outro, da Identidade e da Alteridade, e resgatar a lógica da Multiplicidade. Não se trata mais, apenas, do meu direito de ser diferente do

Outro ou do direito do Outro de ser diferente de mim, preservando em todo caso entre nós uma oposição. Nem mesmo se trata de uma relação de apaziguada coexistência entre nós, onde cada um está preso à sua identidade feito um cachorro ao poste, e portanto nela encastelado. Trata-se de algo mais radical, nesses encontros, de também embarcar e assumir traços do outro, e com isso às vezes até diferir de si mesmo, descolar-se de si, desprender-se da identidade própria e construir sua deriva inusitada”.

Essa passagem me evocou de imediato essa nova geração de ativistas do clima que ainda está no que chamamos de puberdade. Essa nova geração que não é apenas “nova” porque nasceu neste século, mas que é nova porque reivindica o novo, porque mais do que reivindicar o novo “é” o novo. Aponta também o quanto é necessário deixar de ser esse cachorro amarrado ao poste de que fala o filósofo para se arriscar a outras identidades possíveis num mundo bafejado pelo impossível. O quanto é preciso se deslocar de si para experimentar outra experiência de ser – e de ser junto. Começando por compreender que meu arcabouço de experiências não dá conta do mundo. É também por isso que preciso do outro, para que ele possa me ensinar a ver, e ao ver com ele assumo seus traços sem temer perder os meus.

Ao final, o filósofo escreve, referindo-se a Mahmud Darwish, poeta palestino. “A melhor resposta está ainda no poema de Darwish, que a coloca na boca de Saïd. ‘Se eu morrer antes de você, deixo como legado o impossível’. E Darwish pergunta: ‘Está muito longe o impossível?’. E a voz de Saïd responde: ‘a uma geração de distância’. É quase Kafka: ‘Há muita esperança, uma esperança infinita, mas não para nós’”.

Penso que o impossível é a condição dessa geração que já não está mais à distância. Penso que, diante do impossível, precisamos criar um ser novo, fazer algo que nunca fizemos, nos arriscar a ser o que não sabemos.

A história não acaba enquanto tivermos memória
A questão da esperança apareceu, para mim, enquanto acompanhava a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e a destruição do rio Xingu, na floresta amazônica. Uma – a construção – resultando na outra – a destruição. Vi pessoas que lutaram contra a morte e que viram seus companheiros tombarem a tiros nas lutas do passado pela floresta, mas que só naquele momento sentiam como se houvessem chegado ao fim da história. Belo Monte se erguia violando todas as leis e violando também os corpos dos mais frágeis – o que faz ainda hoje –, num governo do partido que haviam ajudado a fundar. As casas eram destruídas e incendiadas, a floresta queimava, os bichos morriam afogados, em convulsão. O mundo amazônico se transfigurava.

O que vimos e vivemos foi excesso de lucidez, uma submersão, quase afogamento, no escuro mais fundo dos arranjos de poder e das estruturas de submissão, da política de controle dos corpos, de todos os corpos, o do rio, o das árvores, o dos animais, o dos humanos.

Mas a história não tem fim enquanto temos memória. E então eu, como outros, temos nos dedicado à memória. Percebi ali que me tornara uma outra eu, junto com os outros que também se tornavam eu e outros. Me descobri um eu sem esperança. E descobri que não era triste, tampouco desesperada. Essas oposições já não reverberavam em mim. A esperança não era mais uma questão porque não a sentia nem como falta, porque já não me faltava. A esperança desimportava-se em mim, e eu me desimportava dela.

O que me fascinava naquele momento, e me fascina ainda hoje, era a alegria de estar junto mesmo na catástrofe, um “fenômeno” que primeiro vi, depois experimentei, junto com os ribeirinhos expulsos por Belo Monte, os refugiados dentro de seu próprio país, como os chamei. A alegria como ato de insurreição, como o dedo enfiado no olho do furacão, cavoucando a córnea do opressor. Não substituí a esperança pela alegria, digo antes de ser mais uma vez mal entendida. Me tornei outro tipo de ser/estar no mundo. Um que ri nem que seja por desaforo e que é capaz de lutar mesmo sabendo que vai perder. Fui possuída pela vida feroz.

Em 2015, pensei em contar sobre isso neste espaço. Escrevi uma coluna intitulada “Em defesa da desesperança”. Hoje parece um passado tão distante e o que era ruim virou pior, mas no Brasil de 2015 as pessoas temiam que o ano nunca acabasse, e eu pensei que poderia colaborar contando o que tinha percebido e aprendido. Escrevi assim: “Talvez tenha chegado a hora de superar a esperança. Autorizar-se à desesperança ou pelo menos não linchar quem a ela se autoriza. Quero afirmar aqui que, para enfrentar o desafio de construir um projeto político para o país, a esperança não é tão importante. Acho mesmo que é supervalorizada. Talvez tenha chegado o momento de compreender que, diante de tal conjuntura, é preciso fazer o muito mais difícil: criar/lutar mesmo sem esperança. O que vai costurar os rasgos do Brasil não é a esperança, mas a nossa capacidade de enfrentar os conflitos mesmo quando sabemos que vamos perder. Ou lutar mesmo quando já está perdido. Fazer sem acreditar. Fazer como imperativo ético”.

Como os anos seguintes mostraram, a maioria dos brasileiros, à direita mas também à esquerda, preferiu não enfrentar os conflitos e as contradições, mas colocar no seu lugar o ódio e a falsificação. O resultado estamos vendo. E vivendo.

Lembro que um ano antes, na Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP de 2014, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro disse: “Os índios entendem de fim de mundo porque o mundo deles acabou em 1500”. Sua provocação referia-se ao fato de que, talvez, se tiverem esse desejo, os indígenas possam nos ensinar a viver depois do fim do mundo representado pela emergência climática, porque entendem de fim de mundo, já que o deles acabou com a invasão europeia.

Ao mergulhar no rio de pensamentos outros, entendi que a catástrofe não é o fim, está no meio


A frase impactou a mim e a tantos que lá estavam, mas só fui compreendê-la por completo quando passei a viver na Amazônia e a me expor a outros modos de vida. E outros modos de vida são também outros modos de pensamento. Ao mergulhar nesse rio de pensamentos outros, entendi que a catástrofe não é o fim, está no meio. Entendi isso com o meu corpo, o que faz toda a diferença, ao conviver com pessoas que tinham vivido várias catástrofes, pessoas para as quais o mundo havia se transfigurado várias vezes, e a vida se inventava pela resistência. Mas uma resistência com uma dimensão diferente da que conhecemos a partir da experiência ocidental branca. Uma resistência que não é a do fardo ou a da cruz, a da resignação martirizada, nem a da vingança e a da espada. O riso de desaforo era parte dessa resistência, que Viveiros de Castro chama de “rexistência”: “Os povos indígenas não podem não resistir sob pena de não existir como tais. Seu existir é imanentemente um resistir, o que condenso no neologismo rexistir”.


No Xingu, onde o Estado e a Norte Energia S.A construíram ruínas de grandes dimensões, eu vi – e vivi com – pessoas que existiam porque resistiam – e resistiam para existir. O que me impressionou, ao começar a escutar as garotas e garotos da greve estudantil pelo clima foi como essa juventude europeia, majoritariamente branca e de classe média, se aproximou tanto do pensamento dos povos da floresta sem nunca tê-los conhecido. Por que caminhos invisíveis seus pensamentos se encontraram, como foi feito esse diálogo que aconteceu sem jamais ter acontecido?


Talvez, mas apenas talvez, porque só estou começando a minha investigação, seja a catástrofe no meio das vidas, a catástrofe que não é vivida como o fim da história. A dos povos da floresta, que já viveram a catástrofe e estão ameaçados de viver mais uma vez, a dos adolescentes que sabem que terão que viver num planeta pós-catástrofe – ou “em-catástrofe”. Essa percepção de mundo, a da vida “em-catástrofe”, altera o corpo inteiro – e também o modo de colocar esse corpo no mundo. Este é um corpo em estado de movimento. Ou de “movências”.

O que se disputa hoje não é o futuro, mas sim passados que nunca existiram


Escrevi, meses atrás, na minha coluna no jornal El País de Madri, que hoje a disputa se dá sobre os passados. Do Brexit ao trumpismo e ao bolsonarismo, o debate do presente abandonou o horizonte do futuro para se dedicar a passados que nunca existiram. Caricaturas como Donald Trump e Jair Bolsonaro conseguem tanta adesão (também) porque a dificuldade de imaginar um futuro em que se possa viver alcançou níveis inéditos: pela primeira vez, o amanhã se anuncia como catástrofe. Não como catástrofe possível, como no período da Guerra Fria e da destruição pela bomba atômica. Mas como catástrofe dificilmente evitável, já que o aquecimento de no mínimo 2 graus Celsius da temperatura da Terra é quase certo. Mas isso num modo otimista. Os fatos indicam que estamos nos dirigindo para 3 ou 4 graus, o que terá um impacto absolutamente tremendo.


A sensação de “nenhum futuro” tem como efeito subjetivo a invenção de passados para os quais supostamente se poderia voltar. Os britânicos que votaram pelo Brexit acreditam que poderão retornar a uma Inglaterra poderosa e sem imigrantes. Os cidadãos brancos do interior dos Estados Unidos creem que Trump pode lhes devolver uma América onde os negros eram subalternos e, assim como eles, cada “coisa” estava no seu lugar e cada um podia viver sabendo qual era o lugar de cada coisa. Os eleitores de Bolsonaro negam toda a tortura e os assassinatos praticados por agentes do Estado na ditadura, ou a justificam, porque preferem se iludir que viviam num país onde havia “ordem” e “segurança” – “e homem era homem e mulher era mulher” e homem não transava com homem nem mulher com mulher – e podem voltar a viver nele.


Como se sabe, esses passados nunca existiram imunes a vastos conflitos e enormes violências, mas quem vai dizer o que existiu? Assim, o populismo de extrema direita disputa o passado como estratégia de ocupação de poder enquanto trabalha na destruição sistemática da memória – nem que para isso seja preciso destruir os corpos que a abrigam.

Populistas como Bolsonaro recebem a adesão de seguidores que se comportam na política como crentes religiosos, e isso mesmo quando ateus, porque, pela primeira vez na trajetória humana, o futuro, em grande medida, está dado. Sabemos que viveremos num planeta muito pior. O que se disputa, de fato, é se as condições de vida na Terra serão ruins ou hostis, o que faz uma enorme diferença. O que se disputa também é como vamos lidar com isso. Aqueles que negam a realidade, porém, disputam um passado para colocá-lo no lugar do futuro que não conseguem encarar. A negação, em geral, é desesperada. E o desespero é um grande ativo do ódio.

Mas o que é o futuro, afinal? O futuro precisa também se desinventar como conceito de futuro para voltar a ser imaginado. Ou o futuro precisa se descolar dos conceitos hegemônicos de futuro para se abrir a outras possibilidades de ser pensado como futuro. Talvez não tenha nem mesmo o nome de futuro, mas outros. É necessário se desgarrar das matrizes de pensamento europeias e das estruturas lógicas estabelecidas pelos inventores da civilização que nos trouxe até esse momento limite. Esse futuro desinventado de futuro está sendo tecido por experiências de minorias vindas de outros territórios cosmopolíticos. Entre tantas más notícias, há uma ótima: por caminhos surpreendentes, a nova geração de suecas está vindo como índio.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum
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quinta-feira, 6 de junho de 2019

Criação de UCs: solução para frear a devastação dos biomas

  WWF

  

Criação de UCs: solução para frear a devastação dos biomas



05 Junho 2019   |   0 Comments
Renata Andrada Peña

A Convenção sobre Biodiversidade Biológica (CDB), tratado da ONU do qual o Brasil é signatário desde 1998, quando ratificou sua participação, estabelece que no mínimo 10% da área de cada bioma deve ser protegida. Para alcançar essa meta, inicialmente fixada para 2010, o Brasil precisaria criar hoje mais de 260 mil quilômetros quadrados de Unidades de Conservação (UCs). Especialistas reunidos hoje no Senado Federal defenderam a necessidade urgente de seguir esse caminho como forma de garantir a preservação da biodiversidade brasileira e de barrar a devastação de biomas como Cerrado e Mata Atlântica, fortemente massacrados pelo desmatamento.

Mariana Ferreira, gerente do WWF-Brasil para Ciências, chamou a atenção para a devastação do Cerrado: “a taxa de desmatamento é de 700 a um milhão de hectares por ano e somente 3% dele está protegido em Unidades de Conservação”. A gerente do WWF-Brasil reforçou a importância do bioma para o país e defendeu um modelo sustentável de produção. “O Cerrado tem conexão hoje com todo o planeta. A maioria do que é produzido no bioma é exportado. É muito importante que o Brasil acompanhe o mundo em objetivos de produção sustentável, já que é perfeitamente possível aumentar a efetividade da área de pastagem ou de agricultura, por exemplo, aumentando ao mesmo tempo a proteção. Já sabemos por meio de estudos que podemos atender toda a demanda global até 2050 sem derrubar sequer 1 hectare de Cerrado de agora em diante”, afirmou.

A diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, Márcia Hirota, falou sobre o bioma que possui sete das nove bacias hidrográficas existentes no país e concentra 72% da população brasileira, mais de 145 milhões de pessoas. “Hoje restam apenas 12,4% de Mata Atlântica no Brasil e o desmatamento continua crítico em cinco estados: Minas Gerais, Piauí, Paraná, Bahia e Santa Catarina. Atuamos no fortalecimento do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) como forma de garantir a conservação do bioma”, disse Márcia.

Joao Paulo Capobianco, presidente do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) defendeu a criação urgente de mais UCs no Brasil para frear a devastação de biomas como Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga e Pampas. “Desde a década de 1960, países da Europa e os Estados Unidos implementaram essa estratégia como forma de conservação Essa é uma estratégia que é sucesso no mundo inteiro, é a melhor forma de proteger os biomas. Não há outra melhor ou comparável a essa. As Áreas Protegidas além de conservar, geram emprego e renda para as comunidades locais”, afirmou Capobianco. “Não podemos aceitar informações falsas como a de que o Brasil é o país que mais conserva ou que criando UCs o país vai deixar de produzir alimentos. Isso é falso. Estamos avançando na degradação do meio ambiente brasileiro e na extinção de espécies. Temos mais de mil espécies de fauna ameaçadas no país e mais de 2 mil da flora.

“Meio Ambiente: balanço da conservação dos biomas brasileiros”, foi o tema da audiência pública que ocorreu hoje no Senado Federal. O debate foi organizado a pedido do senador Fabiano Contarato, presidente da Comissão de Meio Ambiente da Casa e faz parte do ciclo de debates “Junho Verde – O Meio Ambiente Une”.

Retrocesso ambiental
Os três especialistas falaram sobre fizeram um apelo para que os parlamentares freiem tentativas de retrocesso ambiental atualmente em curso ou futuras. A gerente do WWF-Brasil para Ciências, Mariana Ferreira, defendeu a possibilidade real do desenvolvimento sustentável no país: “O Brasil pode sem dúvida produzir e conservar ao mesmo tempo por meio de três pilares: setor público comprometido, empresas e sociedade engajada”.

“Apavora vivenciar as iniciativas que estão sendo publicamente declaradas pelo Executivo.  de paralização de criação de UCs, de intervenção no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)... Isso está acontecendo. É um retrocesso inadmissível. Na criação do Fundo Amazônia conseguimos por meio de negociações convencer países a premiar o Brasil sempre que ele diminuísse o desmatamento e corremos o risco de perder essa conquista”, disse Capobianco.

Para Márcia Hirota, todos os brasileiros podem exercer a cidadania em seus próprios municípios. “O cidadão pode participar dos eventos nas Assembleias Legislativas e não permitir o desmonte da legislação ambiental e a destruição de todas as conquistas que o Brasil conseguiu. O crescimento deve ser aliado à conservação. Não podemos aceitar nada que não seja isso”, disse.

O senador Jaques Wagner (PT-BA), vice-presidente da Comissão de Meio Ambiente, que presidiu a audiência, disse que o momento atual é de luta: “o sentimento de tristeza não pode se transformar em prostração. Temos que ter vontade de batalhar e de ir para as ruas cobrar nossos direitos. Com relação ao meio ambiente, por exemplo, estamos vivendo momento de sandices difíceis de entender, como a tentativa de negar as mudanças climáticas. Temos que atualizar nossas ferramentas de batalha”, disse.

Rio: ambientalistas fazem ato em defesa do Fundo Amazônia

Rio: ambientalistas fazem ato em defesa do Fundo Amazônia


Rio: ambientalistas fazem ato em defesa do Fundo Amazônia
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Um ato contra mudanças no Fundo Amazônia reuniu dezenas de pessoas, no início da noite desta terça-feira (4), em frente à sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no centro do Rio. A manifestação teve a participação de funcionários do banco, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), de ambientalistas, indígenas e apoiadores da causa ecológica.


Os participantes demonstraram temor de que eventuais mudanças na gestão do fundo, mantido principalmente com verbas da Alemanha e da Noruega, possam causar danos à imagem do Brasil e colocar em risco a continuidade da iniciativa.


O governo brasileiro, por meio do Ministério do Meio Ambiente (MMA), sinalizou o desejo de modificar tanto o corpo gerencial do fundo quanto a destinação das verbas, que poderiam, por exemplo, serem utilizadas na desapropriação de terras ocupadas por fazendeiros na Amazônia.


Um dos criadores do fundo, que começou em 2008, e ex-diretor-geral do Serviço Florestal, Tasso Azevedo, ressaltou a preocupação dos ambientalistas com as mudanças propostas pelo governo e até com a imagem do país no exterior, pois o fundo foi criado para ajudar a reduzir o desmatamento.


“O Fundo Amazônia, a gente desenhou e criou com objetivo de, baseado nos resultados que o Brasil obteve, de reduzir o desmatamento, receber contribuições de parceiros internacionais, com doações, baseadas no resultado que a gente obtém. Cada vez que a gente reduz o desmatamento, a gente reduz uma quantidade de gases de efeito estufa, de carbono, na atmosfera. Por cada tonelada de carbono que a gente reduz, por ter menos desmatamento e queimadas, a gente pode receber US$ 5 de contribuição para o fundo. E foram muitos milhões de toneladas que deixaram de ser emitidas quando o Brasil reduziu o desmatamento”, disse.


Segundo Azevedo, as contribuições de países, especialmente Noruega e Alemanha, tornaram o Fundo Amazônia o maior em conservação florestal do mundo, todo baseado em resultados. “Os doadores não dão palpite, mas temos que seguir as regras que foram acordadas quando foi feito o contrato. Essas regras têm de essencial que o BNDES é o gestor do fundo e é quem aprova os projetos. Outra coisa é que o fundo tem um comitê orientador formado pelo governo federal, pelos governos estaduais e pela sociedade civil. E esta comissão não pode ser alterada sem que isso impacte o contrato com os doadores”, disse Tasso.


Procurado por meio de sua assessoria, o Ministério do Meio Ambiente não se pronunciou até o fechamento desta matéria.

Por Vladimir Platonow, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/06/2019

Rio: ambientalistas fazem ato em defesa do Fundo Amazônia

, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 5/06/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/06/05/rio-ambientalistas-fazem-ato-em-defesa-do-fundo-amazonia/.

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Bancos de sementes e tecnologias de captação de água contribuem para o desenvolvimento sustentável no semiárido

Bancos de sementes e tecnologias de captação de água contribuem para o desenvolvimento sustentável no semiárido

Bancos de sementes e tecnologias de captação de água – Projeto atende 3.731 famílias que vivem em 69 municípios: 3.560 com bancos de sementes e 171 com cisternas e barreiros trincheiras


cisterna

Os nove estados que compõem o semiárido brasileiro – Alagoas, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe – terão, até o final deste semestre, a conclusão de 178 bancos de sementes comunitários. A iniciativa é uma parceria da Associação Programa Um Milhão de Cisternas – AP1MC e da Fundação Banco do Brasil, que já implantou 171 unidades de tecnologia social de acesso à água de chuva para produção de alimentos: 54 cisternas calçadão, 63 cisternas enxurradas e 54 barreiros trincheiras.

O projeto “Bancos Comunitários de Sementes com Tecnologias de Acesso a Água” permite aos moradores da região o acesso às sementes crioulas de boa qualidade e adaptadas ao semiárido, e também água para nutrir os animais e irrigar a produção de alimentos. Os beneficiados são agricultores familiares, inscritos nos programas sociais do Governo Federal. O investimento social da
Fundação BB no projeto foi de R$ R$ 10,2 milhões.

Os contemplados são de 3.731 famílias localizadas em 69 municípios. Dessas, 3.560 foram mobilizadas para os bancos de sementes (40 famílias por banco) e 171 receberam as cisternas e os barreiros trincheiras. Todas foram capacitadas em gestão dos bancos de sementes, manutenção das cisternas e uso racional da água.

As famílias também participam de intercâmbios, que permitem as trocas de sementes crioulas entre as guardiãs e guardiões, possibilitando a diversidade dos grãos que já possuem e cultivam há muitos anos. Na lista estão, principalmente, feijões (de arranque/comum e de corda/macassar/caupi), dezenas de variedades de milho crioulo, arroz, fava; sorgo, gergelim, batata, amendoim, algodão, hortaliças e nativas.

De acordo com Claudio Ribeiro, assessor de coordenação da AP1MC, cada banco comunitário possui regimento próprio de gestão de suas sementes. Ele explica que a maioria das famílias devolve uma quantidade maior do que foi tomado emprestado, com o objetivo de aumentar o estoque armazenado. No caso do milho, especificamente, há um grande cuidado nas entradas de sementes para que não ocorra a contaminação por variedades transgênicas. Nesse caso, o projeto desenvolveu kit’s de testes de transgenia onde foi possível analisar os lotes de sementes de milho adquiridos pelo projeto, evitando propagar o material genético contaminado.

Durante a gestão do projeto, os agricultores participam de encontros estaduais das sementes, como os que já aconteceram em Vitória da Conquista (BA), Canindé (CE), Pedro II (PI), Aracaju (SE) e Porteirinha (MG). Nesta quarta-feira (29) e quinta-feira (30), o município de Serra Talhada, sertão de Pernambuco, sedia o 3º Encontro Estadual de Sementes da Partilha. O evento reúne agricultoras e agricultores do Agreste Central, Meridional e Setentrional e Sertão de Pernambuco para roda de experiências, diálogo compartilhado sobre transgenia, feira de troca de sementes e sabores, e uma mesa de diálogo sobre política de sementes crioulas em Pernambuco. A previsão é que os próximos encontros aconteçam em municípios de Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Sobre as tecnologias de captação de águas

Cisternas Calçadão e de Enxurrada – são métodos usados para captação e armazenamento de água pluvial destinada ao consumo de pequenos rebanhos e plantio de hortaliças. As tecnologias sociais possibilitam a captação da água de chuva das estradas e caminhos, que normalmente se perde por escoamento superficial.

Barreiros Trincheiras – são tanques longos, estreitos e fundos escavados no subsolo. Eles têm esse nome porque se parecem muito com uma trincheira e servem para armazenar a água da chuva.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/06/2019

Bancos de sementes e tecnologias de captação de água contribuem para o desenvolvimento sustentável no semiárido

, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 5/06/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/06/05/bancos-de-sementes-e-tecnologias-de-captacao-de-agua-contribuem-para-o-desenvolvimento-sustentavel-no-semiarido/.

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Dois mil anos de crescimento demoeconômico global, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Dois mil anos de crescimento demoeconômico global, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


crescimento demoeconômico glogal em dois milênios

Dois mil anos de crescimento demoeconômico global

[EcoDebate] O crescimento da população e da economia nos últimos dois mil anos foi algo impressionante. Do ano 1 da Era Cristã até o ano 2000, a população mundial passou de cerca de 225 milhões de habitantes para 6 bilhões de habitantes e a renda per capita global passou de $ 467 para $ 6.055 (dólares internacionais em poder de paridade de compra – ppp, na sigla em inglês). Isto quer dizer que o PIB global era de $ 106 bilhões no ano 1 e passou para $ 36,3 trilhões no ano 2000.


O crescimento da população foi de 26,5 vezes em dois mil anos, enquanto o crescimento da economia foi de 342,7 vezes. Isto quer dizer que a renda per capital mundial cresceu 13 vezes no período.
Mas o crescimento demoeconômico não foi uniforme ao longo dos dois milênios. Entre o ano 1 e o ano de 1500, a população passou de 226 milhões de habitantes para 438,4 milhões (um aumento de 1,93 vezes), enquanto a renda per capita passou de $ 467 para $ 566 (uma aumento de 1,2 vezes). Ou seja, a população cresceu menos de 2 vezes e a renda per capita cresceu apenas 20% em um milênio e meio.


Entre 1500 e cerca de 1800 a população mundial passou de 438,4 milhões de habitantes para 1 bilhão de habitantes (um crescimento de 2,28 vezes). No mesmo período a renda per capita global passou de $ 566 para $ 667 (um crescimento de 1,2 vezes). Portanto, houve uma aceleração da população neste período, mas a renda per capita continuou praticamente estagnada.


Todavia, tudo mudou com o desenvolvimento da Revolução Industrial e Energética que começou nas últimas décadas do século XVIII. Houve uma grande aceleração do ritmo do crescimento demoeconômico. Nos cerca de 200 anos, entre o início do século XIX e o final do século XX, a população mundial passou de 1 bilhão de habitantes para 6 bilhões (um crescimento de 6 vezes). Já a renda per capita passou de $ 667 por volta de 1800 para $ 6.055 no ano 2000 (um aumento de 9,1 vezes em dois séculos).


O que os dados do gráfico acima mostram é que a Revolução Industrial, que iniciou por meio de avanços tecnológico e o uso em larga escala de energia extrassomática (combustíveis fósseis), acelerou o ritmo de crescimento da população e da economia. A despeito das desigualdades sociais, o avanço no padrão de vida da humanidade foi muito significativo. A esperança de vida ao nascer da população mundial que estava em torno de 25 anos em 1800, ultrapassou os 70 anos no início dos anos 2000. Cerca de 94% da população mundial vivia abaixo da linha de extrema pobreza no início do século XIX e esta percentagem caiu para 10% em 2015.


O gráfico abaixo mostra, de forma esquemática, como se dá o processo de transição demográfica (TD). Primeiro caem as taxas de mortalidade e só depois de um certo tempo cai a taxa de natalidade. Em decorrência, há uma aceleração do crescimento populacional e depois uma desaceleração. A TD provoca também uma mudança na estrutura etária.


taxas de nascimentos e mortes (por 1.000 pessoas por ano)

Indubitavelmente, houve um aumento significativo do padrão de vida dos seres humanos nos últimos 200 anos. Mas todo o enriquecimento da humanidade ocorreu às custas do empobrecimento da natureza e do holocausto biológico dos demais seres vivos do Planeta.

O crescimento demoeconômico foi tão grande que o volume de atividades produzidos pela civilização ultrapassou os limites da resiliência do Planeta.

O caminho adotado desde a Revolução Industrial e Energética chegou numa encruzilhada, pois não dá mais para continuar a insana marcha forçada de crescimento e acumulação de capital, pois, ecologicamente, é insustentável manter o grau de exploração dos recursos naturais e muito menos manter elevado nível de descarte de resíduos sólidos, poluição em geral e aumento das emissões de gases de efeito estufa.

Não há muitas alternativas para o terceiro milênio. Ou a curva de crescimento demoeconômico sofre uma inflexão urgente, ou a humanidade terá que enfrentar um colapso ambiental de grandes proporções, só comparável com aquele momento em que a Terra foi atingida por um grande meteoro que provocou uma extinção em massa da vida no Planeta e o desaparecimento dos dinossauros.


O “meteoro” que está provocando uma grande extinção de espécies no Antropoceno e gerando mudanças climáticas catastróficas se chama ser humano, mas que quer ter o mesmo destino dos dinossauros.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/06/2019

Dois mil anos de crescimento demoeconômico global, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 3/06/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/06/03/dois-mil-anos-de-crescimento-demoeconomico-global-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

Efeito dominó da extinção de espécies também ameaça a biodiversidade

Efeito dominó da extinção de espécies também ameaça a biodiversidade


As dependências mútuas de muitas espécies de plantas e seus polinizadores significam que os efeitos negativos das mudanças climáticas são exacerbados.

Como mostram os pesquisadores da UZH, o número total de espécies ameaçadas de extinção é, portanto, consideravelmente maior do que o previsto em modelos anteriores.



abelha
Parte de uma rede gigante de dependências mútuas: as plantas precisam de insetos 
para dispersar seu pólen e, por sua vez, os insetos dependem das plantas para 
se alimentarem.
(Imagem: istock.com/KenanOlgun)

A mudança climática global está ameaçando a biodiversidade. Para prever o destino das espécies, os ecologistas usam modelos climáticos que consideram espécies individuais isoladamente. Esse tipo de modelo, entretanto, ignora o fato de que as espécies fazem parte de uma rede gigante de dependências mútuas: por exemplo, as plantas precisam de insetos para dispersar seu pólen e, por sua vez, os insetos dependem das plantas para se alimentarem.


Sete redes de polinização na Europa investigadas
Esses tipos de interações mutuamente benéficas têm sido muito importantes na geração da diversidade da vida na Terra. Mas a interação também tem um efeito negativo quando a extinção de uma espécie faz com que outras espécies dependentes dela também morram, um efeito que é chamado de co-extinção. Biólogos evolucionistas da Universidade de Zurique, juntamente com ecologistas da Espanha, Grã-Bretanha e Chile, já quantificaram o impacto de uma mudança climática na biodiversidade quando essas dependências mútuas entre as espécies são levadas em conta. Para esse fim, a equipe de pesquisadores analisou as redes entre plantas com flores e seus insetos polinizadores em sete diferentes regiões da Europa.


Ameaça particular à biodiversidade nas regiões mediterrânicas
Os autores também observaram que o papel das co-extinções no aumento do número de espécies erradicadas poderia ser particularmente alto nas comunidades mediterrâneas. Como exemplo, em uma comunidade na Grécia, o número total de espécies de plantas com previsão de desaparecer localmente até 2080 pode ser tão alto quanto entre duas e três vezes a quantidade esperada quando se considera espécies isoladas.


Os pesquisadores apontam duas razões para isso: primeiro, as regiões do Mediterrâneo foram mais fortemente afetadas pela mudança climática do que a Europa central e do norte. Em segundo lugar, as regiões do sul da Europa abrigam espécies com faixas de distribuição mais estreitas, o que as torna mais suscetíveis à extinção do que aquelas amplamente distribuídas.


Referência:
Jordi Bascompte, María B. García, Raúl Ortega, Enrico L. Rezende, and Samuel Pironon. Mutualistic interactions reshuffle the effects of climate change on plants across the tree of life. Scientific Advances. 15 May 2019. DOI: 10.1126/sciadv.aav2539
https://advances.sciencemag.org/content/5/5/eaav2539


Fonte: University of Zurich, com tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/05/2019

 

Efeito dominó da extinção de espécies também ameaça a biodiversidade

, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 3/06/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/06/03/efeito-domino-da-extincao-de-especies-tambem-ameaca-a-biodiversidade/.

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Biocombustíveis – Impactos do óleo de palma (dendê) sobre a biodiversidade neotropical

Biocombustíveis – Impactos do óleo de palma (dendê) sobre a biodiversidade neotropical


Plantação de dendê
Plantação de dendê, Culturas Energéticas – NACE da Embrapa Agroenergia e Embrapa Cerrados. Foto de SANTOS, Maria Goreti Braga dos

Caros Colegas,
Estou indicando artigos liderados por Lain Pardo, meu ex-aluno de doutorado, que estudou os impactos da expansão do óleo de palma (dendê) sobre os mamíferos nativos na Colômbia, usando o método de captura de câmeras.

Como vocês sabem, o dendê está se expandindo rapidamente na América Latina e em outros lugares nos trópicos.

O último artigo de Lain tem duas conclusões fundamentais:

1 – Reduções na diversidade de mamíferos não são tão severas se as faixas de floresta riparia forem retidas nas plantações de dendezeiros, em vez de serem completamente removidas
2 – As perdas de mamíferos também são menores se for permitido que a vegetação de cobertura do solo se regenere sob dendezeiros, em vez de manter o sub-bosque nu de cobertura
Os artigos anteriores de Lain (listados abaixo) fornecem descobertas importantes:
1 – Em geral, as plantações de dendezeiros têm uma biodiversidade de mamíferos substancialmente menor do que a floresta nativa ciliar e as savanas que substituem
2 – Algumas espécies de mamíferos são muito mais vulneráveis ??à expansão da palmeira do que outras, sendo os mesopredadores generalistas e os herbívoros relativamente tolerantes, e muitas outras espécies sendo altamente vulneráveis.
3 – Em escala de paisagem, quando o dendê aumenta para mais da metade da cobertura do solo (45-75%), a diversidade de mamíferos diminui drasticamente


Artigos Indicados:
Pardo, L. E. V., W. F. Laurance, G. R. Clements, and W. Edwards. 2015. The impacts of oil palm agriculture on Colombia’s biodiversity: What we know and still need to know. Tropical Conservation Science 8:828-835.
Pardo, L., M. Campbell, W. Edwards, G. R. Clements, and W. F. Laurance. 2018. Terrestrial mammal responses to oil palm dominated landscapes in Colombia. PLoS ONE 13(5):e0197539.
Pardo, L. E., F. de Roque, M. J. Campbell, N. Younes, W. Edwards, and W. F. Laurance. 2018. Identifying critical limits in oil palm cover for the conservation of terrestrial mammals in Colombia. Biological Conservation 227:65-73.

Saudações a todos(as)
Bill
William F. Laurance, PhD, FAA, FAAAS, FRSQ
Distinguished Research Professor
Australian Laureate & Prince Bernhard Chair in International Nature Conservation (Emeritus)
Director of the Centre for Tropical Environmental and Sustainability Science (TESS)
Director of ALERT (ALERT-conservation.org)

College of Science and Engineering
James Cook University
Cairns, Queensland 4878, Australia

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/06/2019

Biocombustíveis – Impactos do óleo de palma (dendê) sobre a biodiversidade neotropical

, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 3/06/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/06/03/biocombustiveis-impactos-do-oleo-de-palma-dende-sobre-a-biodiversidade-neotropical/.

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quarta-feira, 5 de junho de 2019

Câmara discute papel das unidades de conservação na economia

Câmara discute papel das unidades de conservação na economia



05 Junho 2019   |  
por Jaime Gesisky

Cada lâmpada acesa no Brasil tem uma contribuição das Unidades de Conservação (UCs), ainda que a maioria delas esteja localizada na Amazônia. O estudo "Quanto vale o verde?", que trata sobre a importância econômica dessas áreas protegidas estima que dependem das UCs mais de quatro a cada 10 megawatts de energia gerada em usinas hidrelétricas, que respondem por 65% da eletricidade produzida no país. Além disso, aproximadamente um a cada quatro litros de água consumidos no Brasil também dependem das UCs, na forma de proteção de mananciais.

Os benefícios proporcionados por áreas de proteção extrapolam os limites do território brasileiro. O estudo estima que as Unidades de Conservação estoquem uma quantidade de carbono equivalente a 4,6 vezes o total das emissões brasileiras em 2016, contribuindo para conter os efeitos das mudanças climáticas. Somados, os benefícios hídricos e o valor do estoque de carbono das UCs, chega-se a um benefício anual estimado em R$ 190 bilhões por ano.

Os dados acima foram organizados e agregados a uma série de outras análises técnicas e científicas em um manifesto lançado pela Coalizão Pró-Ucs nesta terça-feira (4) na Câmara dos Deputados. Criada há quatro anos, a coalizão reúne as ONGs que atuam no tema das UCs no Brasil, entre elas a SOS Mata Atlântica, IUCN, Semeia, Fundação Grupo O Boticário e WWF-Brasil. Realizado na véspera do Dia Mundial do Meio Ambiente, o evento reuniu pesquisadores, parlamentares, membros do Ministério Público e ONGs.

O manifesto que será entregue oficialmente ao Parlamento e à Procuradoria Geral da República serve para dimensionar a importância das áreas protegidas para a economia brasileira e o futuro das novas gerações.

O documento segue sua tese de defesa das UCs para o aproveitamento econômico mostrando que visitação em áreas protegidas continua tendo grande destaque como elemento de dinamização econômica. Cerca de 17 milhões de visitantes foram registrados em 2016, com impacto sobre a economia estimado até 6 bilhões anuais, correspondendo a uma geração de 133 mil ocupações de trabalho. A presença de UCs responde ainda por 44% do valor total do ICMS ecológico dos municípios de treze estados brasileiros. Esse valor foi estimado em R$ 776 milhões para o ano de 2015, afirma o texto.

“Outro aspecto que merece destaque é a importância das áreas protegidas para a saúde humana. Em um país com altas taxas de urbanização, os parques urbanos e naturais representam, em muitos contextos, os últimos espaços onde a população pode desfrutar de um encontro e de uma reconexão com a natureza”, lembrou Erika Guimarães, da ONG SOS Mata Atlântica, que leu o manifesto durante a sessão na Câmara.

Ela lembrou que recentes pesquisas mostram que estar na natureza é essencial para a saúde e para o bem-estar humano, com impactos positivos na redução do estresse e da depressão, recuperação de doenças e promoção estilos de vida mais saudáveis.

Mais proteção

Um dos organizadores do livro Quanto Vale o Verde?, o professor Carlos Eduardo Young, do Instituto de Economia da UFRJ participou da sessão na Câmara. Ele trouxe para o debate números de sua pesquisa que revelam que as áreas protegidas no país somam 1,6 milhão de quilômetros quadrados no continente e mais 963 mil quilômetros quadrados no mar. Essa extensão, segundo ele, equivale a 18% da área continental e 26% da área marinha, sob vários status de proteção.

O professor ressaltou que apenas 6% da área terrestre do Brasil encontra-se em unidades de proteção integral, que não permitem outras atividades econômicas para além do turismo. Dos restantes 12% que estão no grupo de uso sustentável (permitem outras atividades econômicas), 5,4% estão em APAs (áreas com pouquíssimas restrições ao uso da terra, inclusive com cidades e fazendas no seu interior) e as demais incluem áreas que permitem a produção madeireira sustentável e extrativismo de produtos como a castanha, açaí e borracha.

Essas atividades, defende o acadêmico, podem gerar significativa atividade econômica para o país e constituir importante meio de geração de trabalho e renda para as populações locais e tradicionais. Em 2016, a contribuição econômica da produção de peixe, camarão e caranguejo oriunda de UCs foi de R$ 29,2 milhões, com potencial de alcançar R$ 167 milhões anuais, se investimentos no fortalecimento das cadeias produtivas e no manejo dessas áreas forem feitos.

A maior parte das Unidades de Conservação brasileiras encontra-se na Amazônia. O Sistema Nacional de Unidades de Conservação registra 28,1% do bioma Amazônia protegido. O percentual de proteção é menor dos demais biomas: 9,5% da Mata Atlântica, 8,8% da Caatinga, 8,3% do Cerrado, 4,55% do Pantanal e 2,86% do Pampa.

Patrimônio em risco Um patrimônio de todos os brasileiros, construído em décadas de atuação conjunta que reuniu governos, cientistas e sociedade civil, as UCs nunca estiveram tão ameaçadas como agora, alerta o manifesto.

Os ataques vêm aumentado nos últimos anos no Congresso Nacional e assembleias legislativas estaduais, com uma séria de tentativas de alteração dos limites, redução do grau de proteção ou eliminação das unidades de conservação. Cerca de 70 eventos desse tipo já ocorreram no Brasil, afetando uma área total de mais de 110.000 km2, ou equivalente ao tamanho de Cuba. Conhecidos internacionalmente pela sigla PADDD (do inglês Protected Areas Downgrading, Downsizing, and Degazettement), esses eventos são motivados principalmente por projetos de infraestrutura, mineração e agronegócio.

Atualmente, dentre as principais ameaças estão a proposta de reabertura da Estrada do Colono (no Parque Nacional do Iguaçu), a redução do status de proteção do PN Campos Gerais, da Estação Ecológica de Tamoios – que o presidente da República disse querer transformar em uma “Cancún brasileira – e o Parque Nacional da Lagoa do Peixe. A pressão sobre as UCs também está na liberação de áreas para leilão de petróleo em Abrolhos, no litoral da Bahia, além da proposta do Ministério do Meio Ambiente, feita sem qualquer justificativa razoável, de revisar os limites e categorias de todas as UCs federais.

Apenas nas duas primeiras semanas de maio, a área desmatada nas Unidades de Conservação da Amazônia soma mais da metade de tudo o que foi derrubado nos nove meses anteriores, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O aumento do ritmo das motosserras provavelmente está associado ao relaxamento na fiscalização ambiental, com significativa redução nos números de autuações por parte do ICMBio e IBAMA.
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Brasil já reverteu proteção ambiental de 86 áreas, revela estudo

Brasil já reverteu proteção ambiental de 86 áreas, revela estudo

Estudo analisou 125 anos de reversões de áreas protegidas.

Reduzir ou até eliminar áreas de proteção ambiental são ações mais comuns do que se imagina. A partir da compilação de dados, disponíveis globalmente, um estudo conduzido por brasileiros e norte-americanos alerta para este fato tendo como recorte os Estados Unidos e os nove países da Amazônia.
A pesquisa usa a sigla PADDD (Protected Area Downgrading, Downsizing and Degazettement) para designar eventos de recategorização, redução e extinção de áreas protegidas -, tudo feito de forma legal. Segundo o documento, os governos dos Estados Unidos e dos países amazônicos promulgaram 269 e 440 eventos PADDD, respectivamente. O estudo analisou 125 anos de reversões de áreas protegidas, concluindo que 78% das mudanças ocorreram a partir dos anos 2000.

Principais resultados da Amazônia

 

– Os governos de sete países da Amazônia promulgaram 440 reversões de 245 áreas protegidas pelo estado (322 recategorizações, 86 reduções de tamanho e 32 extinções de proteção legal) entre 1961 e 2017.

– No Brasil, 86 reversões foram promulgadas e 60 foram propostas entre 1971 e 2017. Juntas, elas afetam cerca de 30 milhões de hectares de áreas protegidas.

– As reversões na Amazônia são extensas, com 75% de ecorregiões e 21% de áreas de biodiversidade importantes sendo atual ou potencialmente afetadas.


Destrinchando perdas 

 

 

Entre os países da Amazônia, as reduções e extinções variam muito de acordo com as estruturas legais que regem cada área de preservação. O estudo exemplifica o caso da Bolívia, que autoriza atividades extrativas em certas áreas protegidas, ou seja, quando se é emitido licenças para petróleo ou gás nestes parques nacionais, eles não se enquandram no chamado PADDD. As taxas mais altas de alteração na Colômbia (85%) e Peru (43%) surgiram após reformas em leis de nível nacional que autorizam mineração, agricultura e infraestrutura. Já no Brasil, com 48% das reversões os eventos promulgados ou simplesmente propostos, entre 2010 e 2017, ocorreram principalmente para autorizar barragens de energia hidrelétrica.


Entre 1892 e 2017, os EUA removeram as proteções de mais de 15 mil quilômetros quadrados de áreas. Exemplo disso é o Parque Nacional de Yellowstone: o mais antigo parque nacional no mundo. Foi protegido por lei a partir de 1872, porém já em 1892 perdeu parte de sua área para construção de rodovias e, em 1905, perdeu mais 30% de proteção para permitir a exploração florestal e a mineração. Além de oito florestas nacionais que foram reduzidas para permitir a construção da infraestrutura de esqui.


Em 2017, ainda foram aprovados o desenvolvimento de petróleo e gás no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico. No mesmo ano, o presidente Trump promulgou as duas maiores reduções na história dos EUA nos monumentos nacionais  de Bears Ears e Grand-Staircase Escalante em 85% (466 hectares) e 51% (349 hectares), respectivamente.


O estudo ainda ressalta que nem todas as mudanças ocorreram para pior: mudanças nas regulamentações permitem provisoriamente que as tribos nativas americanas colham plantas para fins tradicionais de subsistência. “Respostas políticas estratégicas são necessárias para abordar o PADDD e sustentar áreas protegidas eficazes”, afirma o estudo.

Futuro incerto

 

“Os números globais apresentados são estimativas conservadoras porque os documentos legais permanecem inacessíveis em muitos países”, diz o estudo. Isso quer dizer que o cenário real pode ser ainda pior. Embora haja exceções, a maioria dos casos listados no documento estão associados à extração e ao desenvolvimento de recursos em escala industrial. Talvez por isso, em entrevista ao G1, Bruno Coutinho, que é coautor do estudo, ressaltou que a perda de áreas ambientais significam perdas econômicas a longo e médio prazo.


“Nossa pesquisa mostra que as áreas protegidas não são necessariamente permanentes e podem ser revertidas. As proteções perdidas podem acelerar o desmatamento florestal e as emissões de carbono, colocando nosso clima e nossa biodiversidade global em um risco ainda maior”, disse Rachel Golden Kroner, cientista social da Conservation International, autora principal do estudo e doutoranda na George Mason University.


O estudo intitulado “O futuro incerto das terras e águas protegidas” revela a preocupação de que nenhuma proteção é garantida para sempre e isso pode trazer consequências ainda subestimadas. A pesquisa foi conduzida por pesquisadores George Mason University e Conservation International e publicada na revista Science.

Desmonte de política ambiental prejudicará exportações brasileiras

30-05-2019, 8h02

Desmonte de política ambiental prejudicará exportações brasileiras

Ricardos Sales não está interessado em defender meio ambiente

Kennedy Alencar
São Paulo

O paulatino desmonte da política ambiental deverá trazer consequências econômicas negativas para os exportadores do agronegócio brasileiro.

O ministro Ricardo Salles não está interessado em defender o meio ambiente. Salles tem atuado no sentido de derrubar políticas construídas ao longo dos últimos trinta anos. Recentemente, diluiu a representação da sociedade civil no Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), ampliando a presença de um Executivo hostil aos ambientalistas.

Ontem, a Câmara afrouxou regras do Código Florestal. O Senado não deve ter tempo de analisar as mudanças feitas por medida provisória. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), disse ontem que essa MP deverá caducar. Essa medida provisória perdoaria desmatadores e não exigiria recomposição de áreas destruídas.

Nas últimas décadas, a agricultura e a pecuária brasileira conquistaram mercados internacionais enquanto o país melhorava os seus controles de preservação ambiental.

Destruir esses controles deverá levar países que importam produtos brasileiros a retaliar nossos exportadores. A questão ambiental é levada a sério no plano internacional. Um país como o Brasil, uma potência ambiental, deveria medir as consequências sistêmicas de uma política pró-ruralistas que deverá se tornar um tiro no pé.

Ambientalistas alertam para o crescimento do desmatamento no Brasil. Se os números da gestão Bolsonaro confirmarem aumento significativo da devastação, exportadores brasileiros vão ser prejudicados no médio e no longo prazo.
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Civilizacão é preciso
O STF (Supremo Tribunal Federal) acertou ao proibir que gestantes e lactantes trabalhem em locais insalubres, derrubando ponto da reforma trabalhista. Na salada de frutas em que se transformou a relação entre Poderes no Brasil, pode-se criticar eventual voracidade legiferante do Judiciário.
Mas, nesse caso, há consistência na sustentação jurídica do STF ao considerar princípios constitucionais na decisão tomada ontem.

Enzimas formam tesoura molecular que destrói PET

Enzimas formam tesoura molecular que destrói PET

Enzimas prometem
As duas enzimas em conjunto prometem cortar o PET em seus blocos constituintes básicos, que poderão então ser usados para fabricar PET novo. [Imagem: Martin Künsting/HZB]

Enzimas que comem PET
Em 2016, um grupo de pesquisadores japoneses descobriu uma bactéria que cresce no PET (polietileno tereftalato), o material das garrafas de refrigerante, e se alimenta parcialmente do polímero tão difícil de degradar.

Eles descobriram que a bactéria Ideonella sakaiensis possui duas enzimas especiais, PETase e MHETase. A PETase decompõe o plástico em blocos de construção de PET menores, principalmente o MHET, e a MHETase divide esse MHET em dois blocos precursores básicos do PET, o ácido tereftálico e o etilenoglicol.

Ambos os componentes são muito valiosos para sintetizar PET novo sem a adição de petróleo - para um ciclo de produção e recuperação sustentável e fechado.

PETase e MHETase
Para desfrutar de todo o potencial dessa dupla, porém, é necessário desvendar a estrutura tridimensional das duas enzimas, permitindo a construção de versões sintéticas otimizadas, que não atendam apenas às necessidades das bactérias, mas à necessidade de lidar com imensos volume de lixo.

Em abril de 2018, a estrutura da PETase foi finalmente resolvida de forma independente por vários grupos de pesquisa. Agora, Gottfried Palm e colegas da Universidade Greifswald, na Alemanha, desvendaram a estrutura da MHETase.

"A MHETase é consideravelmente maior que a PETase e ainda mais complexa. Uma única molécula de MHETase consiste em 600 aminoácidos, ou cerca de 4.000 átomos. A MHETase tem uma superfície que é aproximadamente duas vezes maior do que a superfície da PETase e tem, portanto, um potencial consideravelmente maior de otimização para a decomposição do PET," disse o professor Gert Weber.

Decifrar a estrutura permitiu que os pesquisadores vissem exatamente onde a molécula MHET, produzida pela PETase, se liga à MHETase, onde é quebrada em seus dois componentes formadores.
Com isto, foi possível produzir uma variante MHETase com atividade otimizada, a fim de utilizá-la, juntamente com a PETase, para uma reciclagem sustentável do PET. Os resultados foram tão promissores que a equipe chamou o composto de "tesoura molecular para cortar PET".

Enzimas prometem
Estrutura da MHETase. [Imagem: Palm et al. - 10.1038/s41467-019-09326-3]
Ciclo biotecnológico
Foi um primeiro passo, mas otimizações adicionais serão necessárias porque nem a PETase e nem a MHETase são particularmente eficientes do ponto de vista de uma reciclagem em escala industrial.
A equipe planeja complementar esses estudos de otimização com trabalhos sobre estruturas biológicas, a fim de desenvolver sistematicamente enzimas de digestão de plástico para aplicações ambientais.

Produzir esses tipos de enzimas em ciclos biotecnológicos fechados, por exemplo, pode ser uma maneira de quebrar os plásticos PET e outros polímeros em seus blocos básicos. Esta também seria a chave para uma solução de longo prazo para a reciclagem dos resíduos plásticos: A produção de plástico seria um ciclo fechado e não mais dependente do petróleo.

Bibliografia:

Structure of the plastic-degrading Ideonella sakaiensis MHETase bound to a substrate
Gottfried J. Palm, Lukas Reisky, Dominique Böttcher, Henrik Müller, Emil A. P. Michels, Miriam C. Walczak, Leona Berndt, Manfred S. Weiss, Uwe T. Bornscheuer, Gert Weber
Nature Communications
Vol.: 10, Article number: 1717
DOI: 10.1038/s41467-019-09326-3