sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

De olho em 2021: temas de Clima, Cidades e Florestas para acompanhar no Brasil

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De olho em 2021: temas de Clima, Cidades e Florestas para acompanhar no Brasil

Quem poderia prever 2020? Mesmo no início do ano, quando já se sabia da existência de um novo coronavírus, era difícil imaginar que o mundo passaria por tantas mudanças. Os impactos não se limitaram à saúde e espalharam-se pelo comportamento, a economia e muitos outros aspectos da vida no planeta, incluindo o meio ambiente.

Neste momento, não é possível prever como as vacinas contra o vírus podem mudar o destino da humanidade no próximo ano, nem como será a trajetória do Brasil na recuperação da crise causada pela Covid-19. O ano de 2021 começa com essa mistura de incertezas e expectativas – e um forte senso de urgência. Janeiro também marca o início de uma nova década cheia de grandes desafios como a emergência climática, a necessidade de tornar as economias mais limpas, de mudar a nossa relação com as florestas, o uso da terra, os espaços urbanos, reduzir as desigualdades, o racismo e muitos outros.

A proposta deste artigo não é apostar no que pode acontecer, mas reunir temas e momentos importantes para acompanhar ao longo de 2021 em Cidades, Clima e Florestas – os programas do WRI Brasil. Eles ajudarão a apontar como o Brasil e o mundo vão responder aos desafios da década que se inicia e que vão muito além da pandemia.

Florestas e agro sustentável como trunfos da retomada econômica

Início da Década de Restauração dos Ecossistemas da ONU: a Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou, em resolução aprovada em 2019, que a partir do ano de 2021 será instaurada a Década de Restauração dos Ecossistemas. Longe de ser apenas uma medida simbólica, a Década encoraja estados-membros a adotarem políticas reais para mobilizar recursos, capacidade técnica e cooperação para conservar e restaurar florestas. O objetivo é estimular iniciativas de restauração que já estão em curso, desenvolver políticas públicas para evitar a degradação e recuperar áreas degradadas e, assim, acelerar e dar escala à restauração no mundo todo. Dessa forma, a ONU espera incentivar que cidades, estados e países restaurem ecossistemas para combater a pobreza, mitigar as mudanças climáticas, conservar os recursos naturais e melhorar a qualidade de vida das pessoas. O Brasil é peça fundamental nesta engrenagem e tem a oportunidade de liderar essa agenda no mundo, com benefícios ambientais, sociais e econômicos.

<p>mãos humanas seguram um cacho de açaí</p>

Brasil pode ser um dos líderes da agenda da restauração de ecossistemas no mundo. Na foto, viveiro de produção de mudas nativas no Parque Estadual do Rio Doce, em Minas Gerais (foto: Evandro Rodney/IEF)


Monitoramento da restauração florestal: no campo já se pode ver que a restauração das florestas está acontecendo em todos as regiões no Brasil, gerando benefícios ambientais e econômicos para os brasileiros. A websérie As Caras da Restauração ajudou a revelar o trabalho de alguns desses milhares de pioneiros. Em 2021, o desafio é acelerar, dar escala aos projetos e monitorar a transformação na paisagem. Uma das tendências previstas para o ano está no avanço das tecnologias de monitoramento do uso da terra para a restauração. O Brasil tem hoje alguns dos mais avançados sistemas de monitoramento por satélite para identificar desmatamentos e degradação, como o Prodes e o MapBiomas. O próximo passo é desenvolver um sistema para identificar quem está restaurando florestas, ajudando a dar o devido crédito para os produtores rurais que estão recuperando nossos ecossistemas. Um importante passo nesse sentido será dado ainda no começo de 2021, com o lançamento de um observatório da restauração e reflorestamento coordenado pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura com apoio do WRI Brasil.

Sustentabilidade no campo em resposta à crise econômica: recuperação de pastagens degradadas, restauração florestal, sistemas agroflorestais, Integração Lavoura, Pecuária e Floresta e agricultura regenerativa são algumas das opções disponíveis para estimular uma economia de baixo carbono sem agravar a crise ambiental. Uma retomada verde para a agricultura pode gerar ao menos R$ 19 bilhões em produtividade para o país. A restauração florestal é também uma ferramenta para gerar empregos no meio rural. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), política pública brasileira que definiu a meta de restauração de 12 milhões de hectares até 2030, estima que o esforço de recuperação em larga escala da vegetação nativa brasileira pode gerar entre 112 mil e 191 mil empregos rurais diretos por ano.

<p>mãos humanas seguram um cacho de açaí</p>

Açaí tem grande potencial para uma bioeconomia não-exaustiva na Amazônia (foto: Paula Vieira/Idam)


Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação: como qualquer atividade de uso do solo, o sucesso da restauração florestal depende de investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D). Para isso, o WRI Brasil e parceiros têm apoiado a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura no desenvolvimento de um programa de P&D para silvicultura de espécies nativas no Brasil. Para cada R$ 1,00 investido no programa, espera-se um retorno de R$ 2,39. O programa inclui oito temas de pesquisa e 30 espécies nativas e será lançado em janeiro de 2021.

Em ano chave para o clima, Estados Unidos e Amazônia sob os holofotes

Um ano decisivo para a ação climática: o ano de 2021 abre uma década estratégica para o mundo mitigar os impactos da crise climáticas em nossas vidas. A reunião do Clima que acontecerá em novembro, em Glasgow, Escócia, definirá os detalhes do plano de ação, mas cabe a cada país declarar seus próprios compromissos e metas diante desse desafio coletivo. Infelizmente o Brasil anunciou uma nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) pouco ambiciosa, que pode inclusive prejudicar uma retomada econômica mais verde e sustentável para o país. Um dos temas a serem tratados em Glasgow e de grande interesse para o Brasil será o mercado de carbono.

Estados Unidos darão prioridade à diplomacia do clima: As primeiras escolhas do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, para compor a sua equipe indicam que as questões climáticas serão de fato um ponto central do novo governo americano. O experiente John Kerry será o enviado especial para o clima e terá assento no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca – a primeira vez que o órgão terá um cargo dedicado à questão climática. Com ele estarão nomes como Jake Sullivan, reconhecido pela atuação na área de clima, no papel de conselheiro de Segurança Nacional, e Antony Blinken, que será secretário de Estado e responsável por tornar as mudanças climáticas um dos pilares da diplomacia do país. A partir de janeiro, a questão climática será fundamental nas decisões sobre segurança nacional, economia, direitos humanos e outros aspectos vitais para a política externa dos Estados Unidos. O retorno oficial ao Acordo de Paris, esperado para ocorrer nos primeiros dias de mandato, será apenas o primeiro passo.

<p>imagem mostra Joe Biden ajustando paletó de John Kerry</p>

John Kerry e Joe Biden no Salão Oval da Casa Branca, em 2014, durante o governo Obama (foto: Pete Souza/Obama White House/Flickr)


Amazônia sob os olhares do mundo: as decisões do governo e a relação do Brasil com a Amazônia continuarão ganhando atenção dentro e fora do país. O ano de 2020 foi marcado por um movimento crescente da sociedade civilempresáriosbancos privadossetor financeiro e outros atores buscando um caminho sustentável para o desenvolvimento da região. O aumento de 9,5% no desmatamento durante o último ano, segundo os dados mais recentes do Prodes compilados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), acende um sinal de alerta. Assim como o levantamento do Mapbiomas de que 99% do desmatamento foi ilegal. Pesquisas mostram que 90% da população apoia a preservação. Vale a pena observar como esse movimento ganhará forças em 2021 e se haverá uma união de esforços entre as diversas iniciativas para impulsionar um futuro melhor para a região.

Novas metas de preservação da biodiversidade: a Conferência de Biodiversidade das Nações Unidas (COP 15), que ocorreria em 2020, na China, foi transferida para maio de 2021. Espera-se que este evento seja um marco para a proteção da biodiversidade do planeta como foi a conferência do clima de Paris, em 2015, para as mudanças climáticas. A rapidez com que o mundo vem perdendo biodiversidade é alarmante e exige mudanças sistêmicas. Espera-se que durante o encontro sejam definidos novos compromissos e metas para reverter a perda de espécies até 2030 e 2050. Ainda não há uma visão clara sobre quais posições o Brasil – país que abriga a maior biodiversidade do planeta, com mais de 20% do total de espécies – levará à China (se o encontro for presencial) ou às reuniões virtuais de negociação.

Investimentos verdes devem ganhar ainda mais tração: os investimentos ESG (do termo em inglês Environmental, Social and Governance) vêm ganhando força nos últimos anos pelo mundo, e aos poucos a agenda avança no Brasil. O tema ganhou destaque no Fórum Econômico Mundial, em janeiro de 2020, com importantes anúncios, como o da BlackRock. A pandemia da Covid-19 ajudou a impulsionar esse tipo de investimento pela urgência cada vez maior de enfrentar questões sociais e ambientais. A qualidade das informações divulgadas pelas empresas ainda é um desafio, mas cada vez mais bancos e corretoras estão incorporando os critérios ESG no Brasil, em um claro sinal de que este é um movimento em ascensão.

Qualidade do ar precisa ganhar atenção dos governos: problema “invisível” que pode tornar as pessoas mais vulneráveis à Covid-19, a poluição do ar é um problema crônico brasileiro e um desafio ambiental que traz consequências diretas para a saúde, a economia e o clima. A legislação atual é insuficiente e poucos estados realizam o monitoramento dos níveis de poluentes no ar, comprometendo a gestão do problema. Além disso, o país adota padrões mais permissivos do que os recomendados pela Organização Mundial da Saúde. Em janeiro, o WRI Brasil apresentará um panorama da situação no Brasil com a participação de especialistas reconhecidos na área.

Cidades têm de se reinventar para superar desafios novos e antigos

Novos prefeitos, novos ciclos: o ano marca o começo de novos mandatos nos municípios brasileiros, que estão na linha de frente dos impactos da Covid-19. A luz no fim do túnel da pandemia ainda está distante, e os prefeitos terão papel importante na resposta à crise sanitária e econômica. Em muitos casos, a situação fiscal é preocupante, o transporte coletivo beira o colapso e será preciso continuar respondendo a situações emergenciais causadas pela pandemia, especialmente nas regiões em que ela agravou desigualdades crônicas.

Soluções inovadoras para enfrentar a crise do transporte coletivo: a queda de demanda no sistema ônibus já era uma tendência, mas a pandemia tornou o desafio ainda mais complexo. Soluções e modelos do passado não serão capazes de responder a uma mudança tão brusca no padrão de transporte coletivo nas cidades. Contratos vigentes precisarão ser repactuados. Criar mecanismos para captar recursos extra-tarifários, especialmente a cobrança das externalidades causadas pelo transporte individual, e ajudar a cobrir os custos do transporte coletivo se tornaram necessidades inadiáveis. O veto presidencial ao pacote de auxílio ao transporte público deixa o cenário ainda mais incerto. Os prefeitos precisarão de coragem para desenvolver e aprovar propostas inovadoras que garantam sistemas de transporte coletivo de qualidade para toda a população – especialmente para as pessoas que dependem deles para acessar as oportunidades.

<p>pessoa com equipamentos de segurança faz limpeza contra o coronavirus em terminal de ônibus</p>

Pandemia afetou diretamente a demanda do transporte coletivo e exigiu cuidados adicionais. Na foto, processo de limpeza realizado nos terminais de ônibus em Curitiba (foto: Luiz Costa/SMCS)


Estimular a caminhada e o uso de bicicletas ainda é uma boa resposta à Covid-19: muitos países escolheram a bicicleta como foco de suas ações de resposta à crise sanitária, em alguns casos até financiando consertos ou a compra de bicicletas pela população. No Brasil, a oportunidade de aumentar a infraestrutura para ciclistas e pedestres, seja tirando do papel obras já previstas ou adotando soluções emergenciais e temporárias, foi adotada de maneira pontual por algumas cidades. Se a Covid-19 fez muitas pessoas abandonarem o transporte coletivo, as cidades ainda podem passar uma mensagem mais forte de que essa transição deveria se dar para modos ativos de transporte.

A mobilidade elétrica pode ganhar tração: com histórico de inovação nos sistemas de transporte coletivo por ônibus e uma matriz energética menos dependente de combustíveis fósseis quando comparada à de muitos países desenvolvidos, o Brasil pode se beneficiar muito da eletrificação dos transportes. O mercado indica que está pronto para a transição de frota. Pesquisa publicada em dezembro pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) mostra que 92% dos entrevistados gostariam de mais ônibus elétricos em suas cidades e 72% concordam que o uso de combustíveis fósseis é a principal causa das mudanças climáticas. O lançamento da Plataforma Nacional de Mobilidade Elétrica, uma articulação entre governo, mercado, sociedade civil e Institutos de Ciência e Tecnologia, mostra um esforço para agregar e estimular projetos em andamento. A iniciativa também coordena a elaboração de um Plano Nacional de Mobilidade Elétrica para alavancar ações micro e macro que vão mobilizar recursos, pessoas e força política.

<p>ônibus elétrico nas ruas de são paulo</p>

Novos modelos de contrato podem impulsionar transição para frotas elétricas no transporte coletivo (foto: BYD/Divulgação)


Uma política nacional para o desenvolvimento urbano: a pandemia trouxe novas reflexões sobre o uso dos espaços públicos e privados nas cidades. A tendência é um aumento do teletrabalho, que pode resultar em novos usos para prédios até então destinados unicamente a escritórios. Os espaços públicos – em especial os verdes – se tornaram ainda mais valorizados pela população. Essas transformações chegam justamente no ano em que o Ministério do Desenvolvimento Regional deve elaborar a Política Nacional de Desenvolvimento Urbano, que adota como premissas a diversidade e a singularidade do território nacional. O objetivo é reduzir essas desigualdades, apoiando os municípios na elaboração de políticas municipais e na revisão dos instrumentos de desenvolvimento urbano. Grandes capitais como Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo já estão trabalhando na atualização dos seus planos diretores ou vão começar o processo, e podem usar essa oportunidade para repactuar visões de futuro e definir estratégias claras para tirá-las do papel.

Soluções Baseadas na Natureza para o Desenvolvimento Humano no Antropoceno: O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento lançou recentemente o Relatório de Desenvolvimento Humano 2020. Além de apresentar o ranking dos países em relação ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o documento traz um novo índice, que considera também a pressão dos países sobre o planeta. O argumento é que o desenvolvimento humano e a redução das desigualdades não serão possíveis sem o combate às mudanças do clima, à poluição e à perda da biodiversidade. Um dos mecanismos para a mudança no padrão de desenvolvimento destacados no relatório é a adoção sistemática das Soluções Baseadas na Natureza, que oferecem múltiplos benefícios ambientais, sociais e econômicos. Considerando a importância da integração das agendas urbana e ambiental, a iniciativa Cities4Forests promove a implementação desse tipo de solução nas cidades brasileiras, através da troca de experiências entre cidades, disseminação de boas práticas e apoio técnico.

Estudo revela estado da qualidade do ar e mostra como o tema é negligenciado no Brasil

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Estudo revela estado da qualidade do ar e mostra como o tema é negligenciado no Brasil

Uma epidemia silenciosa que mata cerca de 51 mil brasileiros todos os anos e para a qual a vacina são políticas públicas bem desenvolvidas e implementadas. A poluição do ar não pode continuar como um problema silencioso, com uma política nacional que não tem metas de redução das emissões de poluentes, não é implementada, além de ter fragilidades jurídicas. Hoje, o Brasil não monitora o ar de maneira aceitável, os padrões de base são mais permissíveis do que os recomendados pelo Organização Mundial da Saúde e não há penalidades caso sejam descumpridos. Para piorar, estudo feito nos Estados Unidos indica que a taxa de mortalidade por Covid-19 pode aumentar em até 15% em cidades onde as pessoas estão expostas por muitos anos a altas concentrações de poluentes.

A ciência traz evidências para que o assunto seja tratado com a devida seriedade, além de possíveis caminhos para solucionar a questão. Um grupo de 14 especialistas realizou a sistematização mais abrangente de estudos sobre qualidade do ar no país, reunindo as melhores evidências disponíveis. O estudo O Estado da Qualidade do Ar no Brasil, coordenado pelo WRI Brasil, mostra o quanto esse tema negligenciado torna os brasileiros vulneráveis.

Além disso, revela como os impactos da poluição vão muito além da questão ambiental e de saúde, afetando também a economia, a agricultura, a mudança do clima, entre outros. Embora o ar seja aparentemente o mesmo para todos, assim como no caso da Covid-19, os efeitos são desiguais: em geral, a exposição de crianças, idosos e dos mais pobres à poluição é maior.

Veja 6 motivos para tornar a qualidade do ar uma prioridade em 2021 e quais caminhos os especialistas indicam para chegar lá.

Ameaça à saúde em meio a uma crise de saúde

Vivemos uma crise de saúde sem precedentes na história recente e, para agravar o quadro, a Covid-19 tem uma correlação importante com a exposição à poluição do ar. Antes da pandemia, a qualidade do ar já era o maior risco ambiental à saúde humana no planeta. Caso a vacinação seja executada em larga escala com sucesso, tudo indica que a poluição do ar voltará à liderança deste ranking ameaçador.

Os impactos da poluição do ar na saúde estão conectados com a incidência de mortes prematuras, doenças pulmonares, cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais, disposição ao câncer e ao diabetes, além de prejuízo do desenvolvimento cognitivo em crianças e demência em idosos.

Em apenas seis regiões metropolitanas brasileiras, onde vive 23% da população do país, se os padrões de poluição continuarem os mesmos de 2016, ocorrerão cerca de 128 mil mortes precoces entre 2018 e 2025, que representarão um custo de R$ 51,5 bilhões em perda de produtividade, segundo estudo do Instituto Saúde e Sustentabilidade. Haverá ainda 69 mil internações públicas a um custo de R$ 126,9 milhões para o Sistema Único de Saúde (SUS). A estimativa foi feita antes dos efeitos da pandemia de Covid-19, que pode inclusive agravar esse quadro.

Inimigo silencioso e ainda ignorado

Embora os impactos da poluição do ar na saúde estejam bem descritos e sejam preocupantes, o Brasil enfrenta um inimigo que em grande parte desconhece. A estimativa é de que a poluição mate cerca de 51 mil brasileiros anualmente, mas apenas 1,7% dos municípios do país apresentam cobertura de monitoramento da qualidade do ar, a maioria deles na região Sudeste. Na prática, isso significa que a maior parte do país não tem informações sobre as condições do ar respirado pelos cidadãos. Sem essa informação, enfrenta-se um inimigo desconhecido.

Os padrões de qualidade do ar estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) não são atendidos na maioria das grandes cidades brasileiras, e não há penalidades claras para o não cumprimento dos mesmos. Uma importante fragilidade é a ausência de dados que permitam uma análise mais profunda do nível de implementação das políticas, assim como dos impactos alcançados por elas. Outra fragilidade é o arcabouço jurídico existente, que na prática não configura uma política de qualidade do ar robusta e abrangente, com brechas jurídicas e incertezas que afetam sua eficácia, como veremos a seguir.

Política nacional frágil

O Brasil possui uma série de leis e normas que estabelecem a gestão da qualidade do ar e o controle da poluição, mas grande parte da base normativa que dá sustentação ao Programa Nacional de Controle de Qualidade do Ar (Pronar) é infralegal, pois consta apenas em resoluções do Conama. Isso significa que novas resoluções podem gerar retrocessos, como a discussão em andamento para adiar fases do Programa de Controle de Emissões Veiculares (Proconve).

De acordo com o estudo, a realidade da implementação dos instrumentos do Pronar mostra falhas importantes de efetividade. Entre elas, dificuldades de atualização periódica dos padrões nacionais de qualidade do ar, as carências financeiras e de recursos humanos para a sustentação de uma rede nacional de monitoramento e a ausência de um abrangente inventário nacional de emissões.

Parte das fragilidades da política nacional está na distribuição das competências em relação à gestão da qualidade do ar. A competência legislativa é concorrente entre a União e os Estados, ou seja, à União cabe estabelecer o regramento geral básico, podendo os Estados definir regras próprias, desde que mais protetivas. O programa não oferece recursos nem incentivos claros para os Estados. Aos municípios, cabe o estabelecimento de normas de interesse eminentemente local, mas sem responsabilização explícita no Pronar, embora sejam as cidades as responsáveis por políticas relevantes que afetam a qualidade do ar. Em resumo, o arcabouço jurídico existente tem brechas e incertezas que afetam a eficácia das políticas.

Os impactos vão muito além das cidades

O estudo ajuda a mostrar que os impactos da poluição vão além dos centros urbanos. Na região amazônica, por exemplo, os níveis de poluentes gerados pelas queimadas chegam a atingir valores de material particulado (MP 10) de 500 microgramas por metro cúbico, o que representa cerca de 25 vezes mais poluição do que a média histórica da região (20 microgramas por metro cúbico).

De acordo com levantamento do Human Rights Watch, de julho a outubro de 2019 foram mais de 2 mil internações por doenças respiratórias diretamente relacionadas às queimadas, sendo que os mais afetados foram bebês e pessoas com mais de 60 anos, respondendo por 21% e 49% do total de internações, respectivamente. Dados da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Rio Branco, no Acre, mostram que apenas três dos 22 municípios do Acre não registraram piora na qualidade do ar no comparativo entre 2020 e 2019. Até setembro de 2020, pelo menos 12 cidades permaneceram por mais de 30 dias com concentrações de material particulado (MP 2.5) – substância ultrafina que afeta profundamente o sistema respiratório – acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é de 25 ug/m3.

<p>Imagem de porto velho coberta de fumaça</p>

Porto Velho, em Rondônia, é uma das cidades que sofre com a poluição resultante de queimadas. Na imagem, vista do Rio Madeira (foto: Ésio Mendes/Secom/RO)

Esse material particulado também se movimenta seguindo as correntes de ar que atuam na Amazônia, as mesmas que levam a umidade da região para o Centro-Oeste, Sul e Sudeste, conhecidas como rios voadores. Sendo assim, a fumaça das queimadas não somente polui a zona rural e as principais cidades da Amazônia, como também afeta o clima e a qualidade do ar em cidades de outras regiões do país.

Os efeitos podem chegar também na agricultura. Estimativas mostram que uma concentração de ozônio entre 65 e 100 partes por bilhão pode gerar perdas entre 15% e 62% na produtividade da soja, respectivamente.

Nas cidades a qualidade do ar se torna mais visível

Os efeitos da poluição do ar vão além dos grandes centros urbanos, mas é neles que ficam mais evidentes. Também nas cidades, enfrentar o desafio de melhorar a qualidade do ar pode impulsionar o combate às mudanças climáticas e melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Pesquisas de opinião mostram que o brasileiro está disposto a mudar: 67% das pessoas trocariam seus carros ou motos por alternativas de transporte mais limpas. Essa transformação, no entanto, passa não apenas pelo avanço de opções de mobilidade limpas, como a eletrificação do transporte coletivo, por exemplo, como também pelo incentivo a modos ativos, como bicicleta e caminhada. Uma ferramenta lançada pelo WRI Brasil ajuda a estimar os ganhos econômicos e de saúde da substituição de ônibus a diesel por elétricos.

<p>Imagem de ciclovia em Paris</p>

Paris está direcionando atenção aos modos ativos de transporte, com muitas novas ciclovias que permitem deslocamentos seguros durante a pandemia (foto: Jerome Labouyrie/Shutterstock)

Diversas cidades, especialmente na Europa, estão estabelecendo metas para banir veículos a combustão das ruas, muitas delas até 2030 – apenas 9 anos de transição. Além disso, estão usando o planejamento urbano para devolver as ruas às pessoas, restringindo os espaços nos quais hoje os carros têm prioridade, e incentivando a caminhada e as bicicletas. Paris, por exemplo, está adotando o conceito de cidade de 15 minutos, no qual serviços e oportunidades ficam disponíveis em distâncias que não exigem transporte por veículos. Amsterdam, já reconhecida pelo transporte por bicicletas, pretende se ver livre de emissões veiculares também até 2030 – criando zonas livres de emissão que começam na região central até chegar a zonas mais afastadas. É a busca pelo fim dos canos de escapamento.

Muitos países também têm metas para zerar as emissões de todos os veículos, incluindo os pesados, como caminhões e ônibus. Uma mudança sistêmica que parecia impensável há alguns anos agora tem prazo para acontecer em muitos lugares. Enquanto isso, nossa indústria automotiva tenta adiar fases do Proconve para veículos pesados, que já são menos ambiciosas do que as de muitas nações, inclusive de países em desenvolvimento.

Para reverter o cenário, muitas mudanças precisam ocorrer ao mesmo tempo e exigem uma visão ambiciosa dos gestores públicos. Quanto antes acelerarmos a transição rumo a uma mobilidade urbana sustentável, mais vidas serão salvas.

Mudar faz sentido para a economia

A boa notícia para o país, em especial para os tomadores de decisão, é que combater a poluição do ar faz sentido também do ponto de vista econômico. Estima-se que os custos associados a mortes prematuras em função do ar poluído equivaleram, em 2015, a 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. O impacto negativo na economia brasileira ocorre em função da queda de produtividade de trabalhadores, das mortes prematuras, das limitações para a aquisição de habilidades cognitivas relevantes para educação causada pela exposição aos poluentes e das perdas na produtividade agrícola.

Estudo da Nova Economia para o Brasil mostrou que os ônibus elétricos, tanto para mobilidade urbana quanto para potencial exportação, representam uma oportunidade para o desenvolvimento de baixo carbono e competitividade no Brasil. A cadeia produtiva de ônibus elétricos, incluindo baterias, estações de recarga, geração de energia renovável e melhorias na infraestrutura de distribuição de energia elétrica, resultaria na geração de empregos diretos e indiretos. A implementação de políticas públicas adequadas poderia atrair investimentos do setor privado, aumentar a produção em escala e reduzir barreiras de alto custo. É, portanto, um exemplo de oportunidade sustentável e de implementação factível que pode gerar um salto de inovação na indústria brasileira. Esse movimento está entre os pilares dos planos de recuperação econômica pós-Covid-19 da China e da Europa, por exemplo.

Caminhos para reverter o cenário

Com base nas evidências levantadas pelo estudo, os pesquisadores apontaram 10 prioridades para o avanço das políticas de melhoria da qualidade do ar no Brasil. São avanços políticos e científicos que devem acontecer de forma simultânea:

  1. Criar uma política nacional sistêmica de qualidade do ar garantida por lei;

  2. Definir um cronograma claro para a execução das próximas fases dos padrões nacionais de qualidade do ar, assim como punições explícitas para o não cumprimento das mesmas;

  3. Criar políticas e incentivos que busquem reduzir as assimetrias regionais na gestão de qualidade do ar no país, como o aprimoramento técnico das equipes dos órgãos estaduais de meio ambiente;

  4. Fortalecer a ciência de dados por trás das políticas de qualidade do ar, principalmente pela ampliação e pelo aperfeiçoamento do sistema de monitoramento atmosférico nacional, priorizando áreas críticas e uso de novas tecnologias;

  5. Alinhar, de forma estratégica, as políticas nacionais de controle de poluentes atmosféricos e de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE);

  6. Fortalecer sinergias e compatibilização entre políticas de qualidade do ar e políticas estruturantes de planejamento urbano, como o plano diretor e os planos de mobilidade urbana;

  7. Promover pesquisas sobre a economia da qualidade do ar e a análise de implementação de políticas públicas, incluindo desafios de governança;

  8. Promover pesquisas sobre a interface entre a qualidade do ar e a desigualdade socioeconômica no Brasil;

  9. Desenvolver políticas regionais e nacionais para gestão de queimadas e prevenção aos riscos à saúde;

  10. Incluir de forma mais equitativa representantes da sociedade civil e do setor de saúde na governança da qualidade do ar, com poderes de decisão e participação plena equivalentes aos representantes do meio ambiente.

Cientistas explicam mitos sobre o plantio de árvores em grande escala

 




Cientistas explicam mitos sobre o plantio de árvores em grande escala

As árvores devem ser capazes de lidar com projeções das mudanças climáticas. Fonte: ALEXANTONELLIRBGKEW.
As árvores devem ser capazes de lidar com as projeções das mudanças climáticas. Fonte: ALEXANTONELLIRBGKEW.

Os cientistas propuseram dez regras de ouro para o plantio de árvores, que eles dizem ser uma prioridade para todas as nações nesta década.

O plantio de árvores é uma solução brilhante para enfrentar a mudança climática e proteger a biodiversidade, mas a árvore errada no lugar errado pode fazer mais mal do que bem, dizem os especialistas do Royal Botanic Gardens, Kew.

Leia também:

As regras incluem primeiro proteger as florestas existentes e envolver os habitantes locais.

As florestas são essenciais para a vida na Terra.

Elas fornecem um lar para três quartos das plantas e animais do mundo, absorvem dióxido de carbono e fornecem alimentos, combustíveis e medicamentos.

Mas elas estão desaparecendo rapidamente; uma área do tamanho da Dinamarca de floresta tropical intocada é perdida a cada ano.

“Plantar as árvores certas no lugar certo deve ser uma prioridade para todas as nações, pois enfrentamos uma década crucial para garantir o futuro do nosso planeta”, disse o Dr. Paul Smith, pesquisador do estudo e secretário-geral da caridade conservacionista do Botanic Gardens Conservation International, em Kew.

Demora pelo menos um século para restaurar florestas danificadas. Fonte: RBGKEW.
Demora pelo menos um século para restaurar florestas danificadas. Fonte: RBGKEW.

Uma série de projetos ambiciosos de plantio de árvores estão em andamento em todo o mundo para substituir as florestas perdidas.

Boris Johnson disse que pretende plantar 30.000 hectares (300 km²) de novas florestas por ano em todo o Reino Unido até o final deste parlamento.

Um movimento liderado por africanos para plantar um muro de floresta de 5.000 milhas (8.048 km) para combater a crise climática está prestes a se tornar a maior estrutura viva da Terra, três vezes o tamanho da Grande Barreira de Corais.

No entanto, o plantio de árvores é altamente complexo, sem solução universal fácil.

“Se você plantar as árvores erradas no lugar errado, poderá estar fazendo mais mal do que bem”, disse a pesquisadora principal, Dra. Kate Hardwick, da RBG Kew.

Florestas antigas não danificadas são grandes sumidouros de carbono de longo prazo. Fonte: RBGKEW
Florestas antigas não danificadas são grandes sumidouros de carbono de longo prazo. Fonte: RBGKEW.

Com muita frequência, as florestas naturais repletas de plantas, animais e fungos são substituídas por plantações comerciais com fileiras e mais fileiras de árvores madeireiras, que serão colhidas após algumas décadas, disse ela à BBC News.

“O que estamos tentando fazer é incentivar as pessoas, sempre que possível, a tentar recriar florestas que sejam semelhantes às florestas naturais e que proporcionem múltiplos benefícios às pessoas, ao meio ambiente e à natureza, além de capturar carbono”.

A revisão da pesquisa, publicada na revista Global Change Biology, descobriu que, em alguns casos, o plantio planejado de árvores não aumenta a captura de carbono e pode ter efeitos negativos.

As 10 regras de ouro são:

Proteja primeiro as florestas existentes

Manter as florestas em seu estado original é sempre preferível; florestas antigas não danificadas absorvem melhor o carbono e são mais resistentes a incêndios, tempestades e secas. “Sempre que há uma escolha, enfatizamos que conter o desmatamento e proteger as florestas remanescentes deve ser uma prioridade”, disse o professor Alexandre Antonelli, diretor de ciência da RGB Kew.

Coloque a população local no centro dos projetos de plantio de árvores

Estudos mostram que envolver as comunidades locais é a chave para o sucesso dos projetos de plantio de árvores. Frequentemente, são as pessoas locais que têm mais a ganhar cuidando da floresta no futuro.

Maximize a recuperação da biodiversidade para atender a vários objetivos

reflorestamento deve envolver vários objetivos, incluindo proteção contra as mudanças climáticas, melhoria da conservação e fornecimento de benefícios econômicos e culturais.

Selecione a área certa para o reflorestamento

Plante árvores em áreas que eram historicamente florestadas, mas degradadas, em vez de usar outros habitats naturais, como campos ou pântanos.

Use a regeneração natural da floresta sempre que possível

Deixar as árvores crescerem naturalmente pode ser mais barato e mais eficiente do que plantar árvores.

Selecione as espécies de árvores certas que podem maximizar a biodiversidade

Onde o plantio de árvores é necessário, escolher as espécies certas é crucial. Os cientistas aconselham uma mistura de espécies arbóreas naturalmente encontradas na área local, incluindo algumas espécies raras e árvores de importância econômica, mas evitando árvores que possam se tornar invasoras.

Certifique-se de que as árvores são resistentes para se adaptar a um clima em mudança

Use sementes de árvores que sejam adequadas para o clima local e tenha em mente que isso pode mudar no futuro.

Planejar com antecedência

Planeje como obter sementes ou árvores, trabalhando com a população local.

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Fonte: BBC News / Helen Briggs
Tradução: Redação Ambientebrasil / Maria Beatriz Ayello Leite
Para ler a reportagem original em inglês acesse:
 https://www.bbc.com/news/science-environment-55795816

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Meet the Syrian who saved cats from regime shelling

 

Meet the Syrian who saved cats from regime shelling


Tradução Um grupo de voluntários esta' fornecendo abrigo para animais- que foram feridos durante os bombardeios ou que foram abandonados por seus donos- e colocando em um santuário construído na cidade de Idlib no norte da Síria.

A group of volunteers is providing shelter for animals that were wounded due to the shelling or those abandoned by their owners and putting them in a sanctuary that was built in Idlib in northern Syria.

al-monitor The cats at the House of Cats Ernesto sanctuary are seen waiting to be fed, Idlib, Syria, unknown date. Photo by House of Cats Ernesto.
Mohammed Hardan

Mohammed Hardan

@_MohammedHardan

Jan 27, 2021

IDLIB, Syria — Not just Syrians have been suffering from the Syrian regime bombardments during the country's civil war; a large number of animals have perished across Syria, too.

In a first step in Syria to save the animals affected by the shelling or abandoned by their owners, a number of volunteers, including a veterinarian, have established an animal sanctuary in the city of Idlib, which is under the control of the armed opposition factions. 

The sanctuary, called House of Cats Ernesto, includes about 25 animal species — mainly cats, dogs, monkeys, horses and several types of birds such as pigeons, ducks, geese and chickens, in addition to some livestock such as donkeys and goats.

Mohammad Youssef, the veterinarian at the sanctuary, told Al-Monitor, “We are working on sheltering stray animals such as cats and dogs, and we are contacting local councils in the area to help the team carry out awareness campaigns among civilians on the need to care for animals as a humanitarian duty, in addition to the importance of their [animals’] role in maintaining the ecological balance. We are also training cats and dogs on how to deal with humans and how to relieve their needs in the places designated for that, and eat their meals at specific times and places. Then we put them up for adoption. The other part of our work involves rescuing and treating all kinds of injured animals at the clinic [in the sanctuary] and releasing them afterward.”

He added, “In the beginning the purpose of ​​the reserve was limited to treating the animals affected by the shelling, and it was not that developed. We did not have a private clinic and sanctuary at that time, but we tried to organize our work gradually; the sanctuary was established to shelter all kinds of animals in the area. About 16 people were employed, and we now have a full team with some of us specializing in the feeding and caring for animals, or teaching and training them, while others tend to them if they are injured or need attention.”

The sanctuary was first established in 2014 in eastern Aleppo, when the area was under the control of the armed opposition factions. Alaa Mohammad al-Jaleel, the founder of the sanctuary in Idlib, turned the garden of his house in Aleppo’s Hanano neighborhood into a place to care for the cats and provide for their needs. Yet Aleppo’s residents were displaced due to the regime shelling back then, preventing Jaleel from expanding his project to include other animal species.

After the Syrian regime and its allies took control of Aleppo at the end of 2016, Jaleel took all the cats that were at his house in Aleppo’s western countryside and fled to Idlib where he worked with other volunteers to establish the House of Cats Ernesto.

Jaleel told Al-Monitor, “We obtained an official license as an animal care organization called Ernesto based in Italy in 2018. The sanctuary was built in Idlib in early 2019. The organization is funded by donations from animal lovers around the world and whoever is interested. The team uses the funds to provide the needs of the animals from food and vaccines to the necessary medication. It also pays the salaries of the employees and operational costs. The idea of the establishment of the sanctuary had been brewing since I was in Aleppo, when some people contacted me to contribute to the expenses of the cats in my garden. I was about to build the sanctuary in Aleppo when the intensive shelling of the city began. When I moved and obtained the license, I established the sanctuary in Idlib and hired 16 employees.”

He said, “The team is trying to expand its activities by opening new centers to include all areas of northern Syria. The team members received special capacity-building training to deal with animals, and all medical equipment, tools and animal transport vehicles and containers were provided. We then started working on building a large sanctuary on the Syrian-Turkish border to move operations there."

Meanwhile, the coronavirus pandemic has also affected the House of Cats Ernesto, when several members of the team were infected. This limited their ability to do the necessary work at the only animal sanctuary in northern Syria.

Youssef explained, “The virus cannot jump species, from humans to animals. To verify this, we talked to Western experts after the first case of infection in our team was detected. They told us that the infected person cannot give the virus to animals. We then continued to work but with minimum team capacity, and we used all necessary precautions, from social distancing between the employees to regularly sanitizing the place.”

Despite the tough circumstances in the towns and cities of northern Syria, and amid the shortage of resources and inability of organizations to meet the citizens’ needs, officials are called upon to take steps to care for animals, too. According to Article 2 of the United Nations Universal Declaration on Animal Rights and its 14 principles issued on Oct. 15, 1978, “All animals have the right to the attention, care and protection of man.” Article 3 states that “no animal shall be ill-treated or subjected to cruel acts.”

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