terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

A Mata Atlantica esta' ficando mais jovem e isto e' ma' noticia.

 Foto: Herton Escobar/USP Imagens 

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Dentre os muitos problemas ambientais que o Brasil enfrentou nas últimas décadas, um deles, pelo menos, parecia estar relativamente bem resolvido: o estancamento da destruição e a recomposição (ainda que lenta) das florestas da Mata Atlântica. Dados de monitoramento por satélite mostram que a cobertura florestal do bioma vem aumentando desde 2005, graças a uma série de iniciativas (tanto por parte do poder público quanto da sociedade civil) de redução do desmatamento e de incentivo à recuperação de áreas previamente desmatadas. Mas o cenário não é tão positivo quanto parece. 

Mesmo com esse aumento da cobertura florestal, impulsionado pelo crescimento de novas matas, a derrubada das matas nativas mais antigas continua a ocorrer em níveis alarmantes, segundo um estudo publicado nesta quarta-feira (20 de janeiro), na revista Science Advances. Isso é preocupante porque as florestas mais antigas, ou “maduras”, são as que armazenam mais carbono e abrigam a maior quantidade de espécies nativas do bioma, necessárias para repovoar essas florestas mais novas que ainda estão em fase de crescimento. 

  

Fazendo uma analogia: a população está aumentando porque estão nascendo muitos jovens, mas a mortalidade de pessoas idosas continua muito alta — e sem esses idosos para transmitir seus conhecimentos às novas gerações, o futuro é incerto. A nova Mata Atlântica pode não ser como a de antigamente; com prejuízos potencialmente irreversíveis para os serviços ecossistêmicos essenciais que são prestados pelo bioma, como produção de água, regulação climática e manutenção da biodiversidade. 

Marcos Reis Rosa - Foto: Reprodução/IEA-USP 

“Temos que olhar a dinâmica de ganho e perda de florestas levando em conta também o tipo de floresta”, diz o autor principal do estudo, o geógrafo Marcos Rosa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), especialista em cartografia digital e sensoriamento remoto. “Estamos ganhando em cobertura florestal, mas estamos ganhando uma mata muito pobre.” 

Desmatamento x regeneração 

Mapa mostra histórico de derrubadas e recuperação de florestas da Mata Atlântica na região de Foz do Iguaçu (PR). Gráfico abaixo mostra a evolução dessa dinâmica no Brasil como um todo, nos últimos 30 anos. 

 

Fonte: Rosa et al., Sci. Adv. 2021 

A perda das florestas mais maduras, segundo ele, compromete de forma significativa os ganhos obtidos com a regeneração de florestas mais jovens. Essas matas mais recentes podem ser extremamente importantes para aumentar a conectividade de fragmentos florestais e recomposição da cobertura vegetal de áreas de preservação permanente, como margens de rios e encostas de morros; mas elas precisam de um tempo de maturação para recuperar 100% da sua composição original — um processo que pode levar de 60 a 80 anos. “Temos que continuar recuperando florestas, sim; mas ainda temos que estancar, também, essa sangria do desmatamento”, afirma Rosa, que fez a pesquisa para sua tese de doutorado no Programa de Geografia Física da FFLCH. 

  

É a primeira vez que um estudo faz essa qualificação cronológica do desmatamento na Mata Atlântica. A pesquisa foi feita em parceria com o projeto MapBiomas, utilizando imagens de satélite com resolução de 30 metros, para o período de 1990 a 2017. 

Os resultados indicam que o bioma ganhou cerca de 150 mil hectares por ano de novas florestas nesse período, mas continuou a perder entre 80 mil e 220 mil hectares por ano de florestas — incluindo florestas maduras (com mais de 30 anos) e florestas jovens, que voltam a ser derrubadas após alguns anos de regeneração. O resultado, no fim das contas, é um bioma em processo de “rejuvenescimento”, composto por uma parcela cada vez maior de florestas jovens, com menos espécies, menos carbono e menor capacidade de produção de água, entre outros prejuízos. 

  

“Nós revelamos que a aparente estabilidade da cobertura florestal nativa observada nas últimas décadas tem ocultado a destruição de florestas antigas, que são insubstituíveis. Nossos resultados indicam um processo alarmante de rejuvenescimento da cobertura florestal e distribuição espacial desigual em áreas menos atraentes para a agricultura mecanizada, o que pode ter efeitos deletérios na conservação da biodiversidade e nos serviços ecossistêmicos”, escrevem os pesquisadores, na Science Advances. 

  

Cerca de 11% da cobertura florestal do bioma hoje é composta de florestas muito jovens, com menos de 20 anos, segundo o estudo. O nível de isolamento dessas florestas também aumentou em 36% das áreas examinadas, o que reduz ainda mais as possibilidades de essas matas recuperarem suas características e funções originais. 

"A gente tinha a impressão de que a situação estava sob controle, mas não está." 

Jean Paul Metzger 

“A gente tinha a impressão de que a situação estava sob controle, mas não está”, diz o ecólogo Jean Paul Metzger, professor titular do Instituto de Biociências da USP e autor sênior do trabalho. A Lei da Mata Atlântica, de 2006, garante proteção integral para florestas do bioma com mais de 10 anos de idade, mas a implementação da legislação é falha. “Se continuarmos perdendo essas matas mais antigas e não deixarmos as matas jovens amadurecerem, será um prejuízo muito grande”, afirma Metzger. “Estamos trocando algo maduro, consolidado, por algo que estará sempre em desenvolvimento.” 

  

“A lei é importante não só para a floresta, mas também para a qualidade de vida da população, já que 72% dos brasileiros vivem em áreas de Mata Atlântica e são beneficiados por ela, com serviços como a regulação do clima, abastecimento de água e turismo“, diz a diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, Marcia Hirota, que também assina o estudo. 

 

Fonte: Rosa et al., Sci. Adv. 2021 

A perda de florestas maduras está concentrada nas matas de araucária do interior do Paraná e Santa Catarina, e nas matas secas do nordeste de Minas Gerais e sul da Bahia, onde o desmatamento é impulsionado principalmente pelas indústrias de carvão e siderurgia. No cenário geral, as áreas de floresta nativa desmatadas nesse período foram ocupadas principalmente por pastagens (36%), plantações (19%) e monoculturas de pinus e eucalipto (16%), segundo o estudo. 

  

No Estado de São Paulo, o cenário é mais positivo. Houve um ganho significativo de cobertura florestal, principalmente no interior do Estado, e os desmatamentos são bastante pontuais. A regeneração ocorre tanto de forma espontânea, em áreas desmatadas que foram desocupadas, quanto por projetos ativos de reflorestamento. “Quando você entende melhor os processos você consegue atuar melhor sobre eles”, afirma Rosa. “O mais importante agora é evitar retrocessos.” 

  

Mais informações com o pesquisador Marcos Rosa: marcosrosa@usp.br 

 
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Impacto humano sobre a Mata Atlântica gera perdas de 23% a 42% da biodiversidade

 

Impacto humano sobre a Mata Atlântica gera perdas de 23% a 42% da biodiversidade

Mata Atlântica – Estudo quantificou danos em remanescentes florestais do bioma. Ao longo dos anos, biodiversidade e estoques de carbono foram devastados

Por Marcelo Canquerino – Arte: Simone Gomes – Jornal da USP

Além da Mata Atlântica já ter perdido mais de 80% de sua cobertura florestal original, as florestas que restaram tiveram sua biodiversidade e estoques de carbono devastados pela degradação do bioma ao longo dos anos. Uma pesquisa realizada por cientistas do Instituto de Biociências (IB) da USP, em colaboração com pesquisadores de Santa Catarina, Holanda e França, lançou holofotes sobre esse problema. O estudo, publicado no último mês de dezembro na Nature Communications, mostrou que os impactos humanos sobre os remanescentes florestais já provocaram perdas de 23% a 42% da biodiversidade e dos estoques de carbono, apontando essas regiões como oportunidades de atrair investimentos ligados à restauração florestal e à geração de créditos de carbono.

A ideia para o trabalho surgiu da necessidade de entender quais eram os fatores mais importantes para explicar a biodiversidade e os estoques de biomassa da Mata Atlântica. Inicialmente, os cientistas buscaram compreender o peso das variáveis naturais, como solo e clima, e das variáveis relacionadas à ação humana, como a degradação. “Logo percebemos o peso dos impactos humanos sobre essas florestas e, aos poucos, a pesquisa focalizou o dimensionamento dessas perdas ligadas à ação humana e o seu custo em créditos de carbono”, conta ao Jornal da USP Renato A. F. Lima, pesquisador associado ao Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da USP.

“A Mata Atlântica é um dos mais importantes hotspots da biodiversidade global. Quase metade de sua flora e fauna ocorre aqui e em nenhum outro local do mundo. Conservar ou restaurar esse bioma tem repercussões tanto locais quanto globais no que se refere à conservação da biodiversidade e à provisão de serviços ecossistêmicos essenciais à vida humana, como a regulação climática.”

Renato Lima

De acordo com Lima, em média, os remanescentes florestais perdem de ¼ a ⅓ de seus estoques de carbono e de suas espécies de árvores, em especial aquelas que são nativas da Mata Atlântica. Apesar de terem sido usados mais de mil levantamentos de campo, espalhados por toda a extensão do bioma, as estimativas de perda de carbono e biodiversidade são provavelmente conservadoras: “Localmente as perdas podem ser maiores”.

Os pesquisadores usaram dois mil inventários florestais compilados de diferentes fontes para mostrar que 23% a 42% da biodiversidade e dos estoques de carbono foram perdidos em função de ações humanas. Esses inventários foram utilizados na construção de modelos estatísticos que comparam dois cenários: o atual, no qual as florestas estão submetidas aos impactos humanos, e o cenário passado ou potencial, no qual esses impactos eram baixos ou inexistentes. “A diferença da biomassa, riqueza de espécies, etc., entre esses cenários foi usada para quantificar as perdas relacionadas aos impactos humanos”,  descreve Lima ao Jornal da USP. 

Exemplo de fragmentos florestais de Mata Atlântica bem conservados (à esquerda) e fortemente degradados (à direita)
Exemplo de fragmentos florestais de Mata Atlântica bem conservados (à esquerda) e fortemente degradados (à direita) – Fotos: Renato Lima e André L. de Gasper

Importância da restauração dos remanescentes florestais

Além da quantificação dos impactos humanos nos remanescentes florestais, o estudo também contou com projeções sobre quanto essas perdas representariam para a Mata Atlântica como um todo. “As perdas dos estoques de carbono equivalem ao desmatamento de até 70 mil quilômetros quadrados de floresta, quase 10 milhões de campos de futebol ou 2,6 bilhões de dólares em créditos de carbono”, explica Paulo Inácio Prado, professor do Departamento de Ecologia da USP.  “E essas quantias não consideram outros serviços ecossistêmicos importantes, como o ciclo da água e a regulação do clima”, acrescenta.

A conservação da biodiversidade e do carbono florestal precisa contemplar três tipos de ações: acabar com o desmatamento ilegal, reflorestar regiões degradadas e recuperar os remanescentes florestais degradados. Segundo Lima, as duas primeiras ações são de extrema importância e já são muito debatidas dentro do cenário global. O que a pesquisa traz de novidade é o destaque da terceira ação, muitas vezes esquecida como ação de conservação. “Apesar disso, as três ações devem sempre caminhar juntas”, detalha.

As unidades de conservação da natureza e o combate ao desmatamento possuem papel essencial para evitar perdas de biodiversidade e carbono, assim como a restauração florestal, que deve ser feita tanto dentro quanto fora dos remanescentes florestais da Mata Atlântica. “Portanto, os remanescentes florestais, mesmo que degradados, podem ser vistos como oportunidades de atrair investimentos ligados à restauração florestal e à geração de créditos de carbono”, finaliza Lima.

O estudo também contou com a participação dos pesquisadores Alexandre A. Oliveira (USP), Gregory R. Pitta (USP) e Alexander Vibrans (Universidade Regional de Blumenau, FURB).

Com informações do press release de Renato Augusto Ferreira de Lima

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/02/2021

 

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Turismo é o principal responsável pelo lixo marinho nas praias do Mediterrâneo

 

Turismo é o principal responsável pelo lixo marinho nas praias do Mediterrâneo

 

lixo - canudos plásticos

Turismo é o principal responsável pelo lixo marinho nas praias do Mediterrâneo

A pandemia global COVID19 pode ser uma oportunidade para repensar o modelo de turismo sustentável

Universitat Autònoma de Barcelona*

Pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental da Universitat Autònoma de Barcelona (ICTA-UAB) alertam para o impacto do atual modelo de turismo nas ilhas mediterrâneas na produção de lixo marinho nas praias, e recomendam aproveitar a situação gerada pela pandemia Covid19 para repensar um novo modelo mais sustentável.

A pesquisa, publicada recentemente na revista Scientific Reports , mostra que o uso recreativo das praias das ilhas mediterrâneas durante o verão é responsável por até 80% do lixo marinho que se acumula nessas praias, e gera grandes quantidades de microplásticos através da fragmentação de maiores artigos de plástico.

O estudo internacional liderado por pesquisadores do ICTA-UAB analisou os efeitos dos resíduos gerados pelo turismo em oito ilhas do Mediterrâneo nos últimos quatro anos. O lixo marinho, incluindo microplásticos, pode ser definido como qualquer material sólido persistente, manufaturado ou processado descartado, descartado ou abandonado no meio marinho e costeiro. Resulta da atividade humana e pode ser encontrado em todos os oceanos e mares do mundo. “Esta questão ambiental está ameaçando a boa saúde dos ecossistemas marinhos e pode levar à perda de biodiversidade. Ela também pode ter impactos econômicos enormes para as comunidades costeiras que dependem dos serviços ecossistêmicos, aumentando os gastos com limpeza de praias, saúde pública ou eliminação de resíduos” , afirma o Dr. Michaël Grelaud, pesquisador do ICTA-UAB e autor do artigo.

A região do Mediterrâneo acolhe cerca de um terço do turismo mundial todos os anos e é particularmente afetada pela poluição ambiental relacionada com este setor. Devido à sua atratividade, as ilhas do Mediterrâneo multiplicam sua população em até 20 durante a alta temporada. Isto representa um desafio para os municípios costeiros, que dependem deste setor mas têm de se adaptar e fazer face ao aumento dos resíduos gerados, inclusive nas praias, pelo afluxo sazonal de turistas. Espera-se que o turismo costeiro seja uma das principais fontes terrestres de lixo marinho.

A quantidade e o tipo de resíduos coletados foram caracterizados durante 147 pesquisas de lixo marinho realizadas durante a temporada de turismo baixa e alta de 2017, em 24 praias de 8 ilhas mediterrâneas diferentes. Os resultados mostram que a grande maioria dos itens coletados são de plástico, pois representam mais de 94% do lixo marinho.

Durante o verão, em média 330 itens se acumulam por 1000m2 de praia por dia nas praias turísticas mais populares, 5,7 vezes mais do que na baixa temporada. Isso representa um item a cada três etapas. O número de itens provavelmente deixados nas praias pelos visitantes, como bitucas de cigarro, canudos ou latas de bebidas, representam mais de 65% da quantidade de lixo marinho que se acumula nas praias mais procuradas pelos turistas. Isso pode aumentar até 80% se os microplásticos grandes forem incluídos como sugerido pelos resultados: durante o verão, os itens de plástico deixados na praia sofrerão fragmentação sob os efeitos combinados da irradiância solar e atrito com a areia, acelerados pelo alto volume de visitantes. Extrapolado para todas as ilhas do Mar Mediterrâneo,

Em 2019, e após a realização de campanhas de sensibilização cidadã, os resultados apontaram para uma diminuição de mais de 50% dos itens associados a visitantes.

“Esses resultados muito encorajadores provavelmente se beneficiam da crescente atenção do público à poluição do plástico nos oceanos ou às medidas adotadas pela Comissão Europeia para reduzir o lixo marinho, como a diretriz de uso único do plástico”, diz a Dra. Patrizia Ziveri , Professor Pesquisador do ICREA do ICTA-UAB.

Além disso, eles lembram que “o confinamento pela COVID19 e a redução drástica temporária do turismo associada oferece uma oportunidade para repensar a importância fundamental do turismo sustentável para garantir um futuro saudável para o meio ambiente e, portanto, também para as pessoas”, Dr. Patrizia Ziveri conclui.

Referência:

Grelaud, M., Ziveri, P. The generation of marine litter in Mediterranean island beaches as an effect of tourism and its mitigation. Sci Rep 10, 20326 (2020). https://doi.org/10.1038/s41598-020-77225-5

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/02/2021

 

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