domingo, 12 de julho de 2015

Pode acontecer tudo, pode não acontecer nada--Eliane Cantanhêde

Temer não é temerário




12 Julho 2015 | 03h 00

 
É aquela velha história: a queda de Dilma continua sendo improvável, ou até muito improvável, mas o ambiente político só piora, o econômico segue esfarelando e, pelo sim, pelo não, diferentes forças políticas decidiram deixar o planejamento do “day after” engatilhado para não serem surpreendidas com o fato consumado. Trabalha-se ostensivamente a opção mais natural: a posse do vice-presidente Michel Temer.


Além de tudo, ele é um homem talhado para esse tipo, digamos, de eventualidade.


“Temer não é temerário”, resumiu um experiente político, num jogo inconsciente de palavras que diz tudo da avaliação e das articulações que correm soltas em Brasília, mas não só em Brasília, para uma solução “à la Itamar Franco”. Obviamente, em caso de absoluta necessidade.


Investido da legitimidade inquestionável da Vice-Presidência, Temer carrega as condições intrínsecas: professor de Direito Constitucional, é presidente de um dos maiores partidos do País e tem enorme vivência política e interlocução com todas as forças políticas.


Sua personalidade privada e pública ajuda, porque tem a marca do equilíbrio, desses onde nada falta, nada transborda: nem omisso nem verborrágico; nem covarde nem valentão; nem ignorante nem gênio; nem muito à esquerda nem muito à direita; nem tão anti-PT nem tão anti-PSDB; um pouco Lula, um pouco Fernando Henrique. E ninguém pode dizer um “A” sobre sua conduta. Até por pragmatismo, ele tem sido impecável com a presidente Dilma Rousseff.


Dilma não é um Fernando Collor e não há Fiats Elba e fontes nababescas ilustrando a atual crise, mas nem o mais cauteloso líder político pode ficar alheio à realidade. Além do imbróglio de campanha, há as “pedaladas fiscais”, a popularidade abaixo de dois dígitos, o Planalto desautorizado diariamente pelo Congresso e... a falta de apoio consistente do próprio PT e do próprio PMDB de Temer.



A economia, que seria a solução para todos os males, não dá sinal de melhora e os indicadores de crescimento, inflação, emprego e renda podem chegar ao fundo do poço entre setembro e outubro.



Até lá estão previstos justamente os dois julgamentos-chave de Dilma, o das contas de campanha no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que pode levar de roldão a chapa Dilma e Temer, e o das “pedaladas” no Tribunal de Contas da União (TCU), que arrastaria Dilma, mas preservaria Temer. Pode acontecer tudo, pode não acontecer nada.




A saída de Dilma via TSE é considerada altamente explosiva. São só sete ministros, quórum muito pequeno para uma decisão tão grande, a transição seria com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (precisa dizer alguma coisa?), e as regras não são claras: como se trata de algo excepcional, valem ou não os prazos de desincompatibilização e de filiação partidária? Pior: a versão de “golpe” ganharia muita estridência, com boas chances até de confrontos de rua.




Já a “saída TCU” teria quórum, processo e “timing” mais digeríveis. Se as contas de Dilma forem reprovadas, isso sugere processo por crime de responsabilidade a ser votado pelo Congresso, um campo político e investido de legitimidade. Com um detalhe: poderia ser uma saída honrosa para o próprio ex-presidente Lula.



Sem Dilma e com Temer, as atenções seriam concentradas na recuperação da economia e na rearrumação das forças políticas. Mesmo com a Lava Jato seguindo seu rumo, Lula, o PT e a própria Dilma sairiam da linha de fogo.



Não custa repetir que são conversações sobre cenários possíveis e nada disso significa a iminente queda de Dilma, que vestiu a indumentária de “caixeiro viajante” mundo afora e “vai lutar com unhas e dentes pelo mandato”.



Mas, com a economia como está, com a popularidade dela como está e com Lula e o PT como estão, seu risco é virar para um lado, virar para o outro e se ver sozinha. A questão não é moral, é jurídica e política.

Desesperados, petistas comemoram até crises externas.


Reina a balbúrdia no reino lulopetista, com todo mundo atirando às cegas ou agarrando a primeira desculpa com que se depara para driblar a incompetência congênita da etnia que destrói o país há mais de 12 anos. Leiam artigo de Merval Pereira:


A confusão é tamanha entre os petistas e seus aliados que eles deram agora para comemorar crises internacionais como se elas confirmassem o que a presidente Dilma mais gosta de dizer, que os problemas brasileiros são causados pela má situação econômica e financeira do mundo.

Assim, a crise das bolsas da China, que vai repercutir em toda a economia global e principalmente nos países periféricos como o Brasil, está sendo quase que comemorada pelos estrategistas petistas, esquecendo-se de que se estamos nessa situação econômica delicada sem que os motivos externos fossem os verdadeiros culpados, agora que existem realmente esses problemas, a situação só tende a piorar.

Durou pouco também a comemoração dos que viram no “Não” do plebiscito grego uma rejeição ao programa de ajuste das contas públicas exigido pela União Européia. O Primeiro-Ministro grego Alexis Tsipras deu um golpe político nos radicais de seu próprio partido ( e nos torcedores de outros cantos do mundo, inclusive brasileiros) e, vencedor do plebiscito, mas sabedor que a vitória não lhe dava um mandato para sair da zona do euro, apresentou proposta muito semelhante aos termos que a Grécia rejeitara, e em alguns pontos mais dura ainda, na tentativa de conseguir um socorro financeiro de € 53,5 bilhões durante três anos e uma promessa de reestruturação da dívida.

Os petistas e quejandos comemoraram o resultado do plebiscito grego como se ele pudesse indicar que aqui também o povo deveria dizer não ao programa de ajuste fiscal da presidente Dilma, que o ministro da Fazenda Joaquim Levy tenta levar a bom termo. Lá como cá, no entanto, quem tem a responsabilidade de governar sabe que não pode brincar com o desequilíbrio fiscal, embora possa vencer eleições prometendo coisas que não serão cumpridas.

Aqui, Dilma venceu em 2014 vendendo um país que já não existia desde seu primeiro mandato, mas que o governo petista sustentou às custas de “pedaladas” fiscais e emissão de moeda que deu no que deu: inflação já na casa de 2 dígitos em algumas regiões, crescimento negativo, juros na estratosfera.

Na Grécia, o Syriza, partido vencedor das eleições, chegou ao poder depois de defender durante anos a rejeição ao programa de ajuste. Muitos nefelibatas políticos, ou simples populistas na Grécia e em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil, viram a vitória do “Não” como uma virada de mesa contra a União Européia, o que absolutamente não acontecerá.

O ajuste proposto pelo governo grego prevê corte de € 13 bilhões nos gastos públicos através de elevação de impostos, fim de benefícios tarifários para as ilhas gregas, reformas previdenciárias e privatizações, quando o plano anterior previa cortes de até € 8 bilhões. O superávit primário que tanta ojeriza causa aos nefelibatas petistas está lá presente no plano grego: 1% este ano; 2% em 2016; 3% em 2017 e, finalmente, 3,5% em 2018.

A China, cujos índices de ações recuaram mais de 30% nas últimas semanas, está conseguindo controlar sua crise às custas da força bruta que lhe confere o capitalismo de Estado. O impacto foi tão forte que autoridades chinesas proibiram a venda de ações por grandes investidores, como bancos e fundos de pensão, os mesmos que haviam recebido incentivos governamentais para gerar o que acabou sendo uma bolha.

Os que aqui no Brasil quase chegaram a comemorar a crise chinesa que vem ao encontro de uma tese antiga da presidente Dilma, esquecem que ela desborda para a economia real e nos atinge diretamente, e também aos BRICS, reduzindo os preços de commodities como o petróleo, desvalorizando nossas reservas, e prejudicando as exportações para a Russia, e o minério de ferro, maior produto do comércio exterior do Brasil para a China, derrubando nossa balança comercial. 

A situação é tão ridícula que, depois do “Não” grego, esses estrategistas que vivem em outra dimensão chegaram a pensar que a Grécia poderia se livrar da pressão de Ângela Merkel e da União Européia para ser ajudada pelos BRICS, cujo novo Banco de Desenvolvimento poderia dar o apoio que a Grécia não receberia dos organismos europeus e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Agora, vamos ter que lidar com uma crise verdadeira.