sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Brasil é um dos países em que macacos estão mais ameaçados, aponta estudo

Brasil é um dos países em que macacos estão mais ameaçados, aponta estudo

  • 20 agosto 2018
Mico-leão-douradoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionNo Brasil, o mico-leão-dourado é um dos principais motivos de preocupação
Os primatas do mundo, incluindo gorilas, chimpanzés e gibões, pedem socorro. Grande parte das 439 espécies conhecidas corre algum risco de ser extinta. O perigo é mais iminente para as que vivem nos quatro países com a maior biodiversidade: Brasil, que soma 102 espécies, Madagascar (100), Indonésia (48) e República Democrática do Congo (36).
Dessas 286, cerca de 60% estão ameaçadas de extinção em algum grau (vulneráveis, ameaçadas ou criticamente ameaçadas), por causa de ações humanas. Hoje, a situação é pior em Madagascar, com cerca de 90% de sua fauna de primatas ameaçada de extinção, seguida da Indonésia, com 83%, Brasil, com 39% e Congo, com 17%.
As conclusões são de um amplo estudo realizado por um grupo internacional de 72 especialistas em primatas, entre os quais oito de instituições brasileiras, e publicado em junho na revista científica PeerJ.
"Reunimos pesquisadores de diferentes nacionalidades, mas que direta ou indiretamente trabalham num dos quatro países, e compilamos as informações disponíveis na literatura em relação ás pressões antrópicas sobre os macacos em cada um deles", conta o biólogo Leonardo Oliveira, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia (SBP).
De acordo com ele, o estudo avaliou o papel do Brasil, Madagascar, Indonésia e República Democrática do Congo para a conservação global dos macacos. "Esses quatro países abrigam dois terços de todos os primatas não humanos do mundo", diz. "Daí sua importância para a conservação desses animais."
Os pesquisadores analisaram a distribuição das áreas protegidas e das espécies em cada um dos quatro países e descobriram que a grande maioria das populações de primatas não tem segurança adequada. Por exemplo, embora a porcentagem deles em unidades de conservação no Brasil seja relativamente alta, 38%, na Indonésia e no Congo esses índices são baixos, 17 e 14%, respectivamente. Em Madagascar ele é igual ao do Brasil, 38%.
O estudo avaliou ainda as ameaças aos macacos em cada um dos quatro países e o que contribui para que elas existam ou sejam potencializadas. Entre as principais estão a perda de habitat, em especial no Brasil, Madagascar e Indonésia – no Congo, é a caça comercial de carne de espécies silvestres, no caso aqui, de primatas.
Image captionGorilas são ameaçados por caçadores no Congo
Mas existem várias outras, como doenças, grandes populações humanas em crescimento, exploração madeireira, mineração e extração de petróleo por corporações multinacionais, o comércio ilegal deles como animais de estimação, as mudanças climáticas e até a instabilidade política e a corrupção.
Depois disso, os pesquisadores modelaram o conflito por espaço entre as atuais áreas onde vivem os primatas e a projeção da expansão agrícola (um importante impulsionador da fragmentação dos habitats, desmatamento e perda de biodiversidade) nestes quatro países mais ricos nesses animais. Foram elaborados diferentes cenários. No pior deles, as áreas de ocorrência dos primatas até o final do século 21 encolheriam entre 78% no Brasil, 72% na Indonésia, 62% em Madagascar e 32% no Congo.
A situação é pior em Madagascar, com cerca de 90% de sua fauna de primatas ameaçada de extinção, seguido da Indonésia, com 83%, Brasil, com 39% e Congo, com 17%. Para piorar o quadro, mesmo não correndo risco imediato de extinção, grandes partes das populações de macacos dos quatro países estão em declínio. De novo, a situação mais grave é a da grande ilha africana, com 97% das espécies diminuindo ano a ano, seguida pela Indonésia com 94%, Brasil com 48% e Congo com 39%.
Em Madagascar, uma das espécies mais ameaçadas é o lêmure-de-cauda-anelada (Lemur catta), famoso pela cauda listrada de preto e branco e pelos olhos esbugalhados em tons alaranjados, principalmente por causa do aumento da mineração ilegal de cobalto, níquel e ouro nas florestas, inclusive em áreas de proteção ambiental. Na Indonésia, o garimpo de ouro também é responsável por colocar primatas em perigo, como, por exemplo, o macaco-narigudo (Nasalis larvatus) e o gibão-cinza (Hylobates muelleri).
Image captionO lêmure-de-cauda-anelada é uma das espécies mais ameaçadas em Madagascar
No mesmo país, a construção de uma usina hidrelétrica no norte da ilha de Sumatra, destruirá a floresta Batang Toru, habitat do raro orangotango-de-tapanuli (Pongo tapanuliensis), ameaçando a sua sobrevivência. Na República Democrática do Congo, a vilã é a caça, que está acabando com os gorilas (Gorilla gorilla) e os bonobos (Pan paniscus).
No caso específico do Brasil, em números absolutos, existem hoje 35 espécies ameaçadas de extinção, em diferentes graus. "Temos gêneros completos em risco, como o Leontopithecus (dos micos-leões, 4 espécies) e o Brachyteles (dos muriquis, duas)", informa Oliveira. "Além disso, possuímos duas outras entre as 25 mais ameaçadas do mundo, o Alouatta guariba guariba (bugio ruivo), restrito aos Estados da Bahia e Minas Gerais) e o Cebus kaapori (caiarara), que vive apenas em uma pequena parte do Pará e Maranhão."
Há ainda no país algumas espécies na categoria criticamente ameaçadas de extinção, como o sagui-de-coleira (Saguinus bicolor), restrito à região dos municípios de Manaus, Rio Preto da Eva e Itacoatiara; o guigó-da-caatinga (Callicebus barbarabrownae), único primata endêmico daquele bioma; o cuxiú-preto (Chiropotes satanás), que ocorre no leste da Amazônia no arco do desmatamento; e o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), exclusivo da Mata Atlântica, vivendo em fragmentos florestais de Minas Gerais, Espírito Santo e da Bahia.
A preocupação com a sobrevivência dos primatas não humanos se justifica por uma série de motivos. Eles são de grande importância para a biodiversidade, pois desempenham diversas funções, auxiliam em processos ecológicos e no fornecimento de serviços ecossistêmicos.
"São nossos parentes biológicos vivos mais próximos, oferecendo insights sobre a evolução humana, biologia e comportamento", explica Oliveira. "Esses animais têm também grande importância cultural e religiosa em muitas sociedades, além de servir como fonte de proteína, ajudando na subsistência de várias populações humanas."
Image captionOs bonobos são outra espécie em perigo
Por isso, as consequências de sua extinção são graves. A perda de primatas não humanos pode desencadear, por exemplo, perda de dispersão de sementes de várias espécies de plantas, essenciais para regeneração de florestas. "Mas não é só isso", alerta Oliveira. "Em alguns lugares, os macacos podem funcionar como atrativo turístico e até mesmo serem considerados sagrados."
É neste contexto que o levantamento do grupo internacional se reveste de importância. "Creio que este seja um estudo bastante completo, pois mostra o cenário atual com as ameaças que os primatas não humanos sofrem, as causas delas e os fatores que contribuem para que elas ocorram", diz Oliveira. "Analisamos essas informações em um contexto de crescimento populacional humano, baixo nível de desenvolvimento social e desigualdade econômica, instabilidade política e governança fraca nesses quatro países."
Para o também biólogo Ricardo Dobrovolski, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), outro integrante do grupo, o estudo lembra que é precioso encontrar formas de conviver com a biodiversidade e garantir o bem-estar para as pessoas. "Esse bem-estar deve ser pensado também para os animais domesticados, como os movimentos em defesa deles têm lembrado, e para o resto da biodiversidade", diz. "Talvez os primatas, pelo parentesco, nos motivem a iniciar esse processo. Essa é a mensagem de fundo do estudo."
No final do trabalho, o grupo fez algumas recomendações e apontou várias potenciais soluções para evitar a extinção dos primatas no Brasil, na Indonésia, em Madagascar e no Congo.
A primeira delas é expandir as áreas protegidas. Outras são criar corredores florestais para a migração entre subpopulações atualmente isoladas, incentivar a restauração das comunidades florestais naturais, aumentar a segurança alimentar e as oportunidades que beneficiam a qualidade de vida das pessoas, priorizar a sustentabilidade e as energias limpas, e exigir que os países consumidores e as corporações internacionais paguem um fundo de sustentabilidade e conservação para compensar a sobre-exploração e os danos ambientais.

Como fraudes de madeireiras ameaçam a sobrevivência do ipê na Amazônia

Como fraudes de madeireiras ameaçam a sobrevivência do ipê na Amazônia

  • 15 agosto 2018
Ipê amarelo na Terra Indígena Kayapó, no Pará
Image captionIpês retirados de terras indígenas e de outras áreas de proteção integral são alvo de fraude para legalização da madeira
A extração de ipê nas reservas do Estado do Pará está sendo fraudada para legalizar madeira clandestina. Pesquisadores brasileiros afirmam que as madeireiras estariam superestimando o volume de madeira cuja extração é permitida, de forma a legalizar madeira retirada ilegalmente de áreas de proteção permanente, como a beira dos rios.
O trabalho foi publicado em um artigo na revista científica Science Advances. A partir dele espera-se identificar e coibir as empresas e os técnicos de manejo florestal envolvidos nas fraudes.
"Os madeireiros estão superestimando os volumes de madeira que alegam existir nas áreas que desejam explorar, especialmente de ipê, que é a madeira mais cara e a mais procurada", afirma o engenheiro agrônomo Pedro Brancalion, pesquisador na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) da Universidade de São Paulo, em Piracicaba.
Seu colega na Esalq, o também engenheiro agrônomo Edson Vidal, vai além: "Alguns poucos engenheiros agrônomos responsáveis pela vistoria das áreas de mata a ser explorada inflam o volume das espécies mais valiosas. Fazem isso para poder incluir nos carregamentos legais de madeira troncos de ipê extraídos ilegalmente de reservas indígenas, de áreas de conservação ou nas reservas obrigatórias de mata nativa que cada fazenda é obrigada a manter". Brancalion e Vidal pesquisam o manejo florestal de espécies nativas tropicais.
Para entender como e por que os planos de manejo estão sendo fraudados, é preciso conhecer o processo legal de exploração de madeira na Amazônia. Cada fazenda na região é obrigada a manter uma reserva florestal que corresponde a 80% da área total da propriedade, conhecida como reserva legal.
A extração controlada de madeira nas áreas de reserva legal é permitida, desde que siga certos critérios. Deve-se contratar um engenheiro agrônomo para fazer o plano de manejo e acompanhar o trabalho das madeireiras. Esse profissional deve contar todas as árvores de cada espécie que existem na área que se quer explorar. Ao fazê-lo, ele coloca plaquinhas de identificação nos troncos.
Existe um volume máximo de cada espécie comercial, como ipê, jatobá ou cumaru, que pode ser derrubada em cada área. As árvores devem ter um tronco com diâmetro superior a 60 centímetros, ou seja, são árvores maiores e mais antigas. Mas nem todas elas podem vir abaixo. "No caso do ipê, é preciso manter um mínimo de três árvores por hectare, para garantir o repovoamento da área," diz Brancalion.
É a partir da contagem das árvores que o agrônomo tem condições de estimar a quantidade em metros cúbicos de madeira de cada espécie que pode ser extraída naquele local. Essas quantidades fazem parte do plano de manejo, que é submetido à aprovação de fiscais da Secretaria de Meio Ambiente do Pará.
Uma vez aprovado o plano de manejo, é emitida uma licença (ou Autorização de Exploração Florestal). Só aí podem ser derrubadas, mas apenas aquelas indicadas no plano de manejo e dentro do volume máximo previsto. O agrônomo responsável deve acompanhar o manejo e colocar placas de identificação, especificando a espécie de cada tora retirada, assim como especificando o toco ao qual pertence cada madeira removida.
"Apenas troncos certificados podem circular pelas rodovias, para envio aos centros consumidores no Sudeste do país. Se houver toras sem certificação, o caminhão é barrado pela polícia na estrada," explica Vidal.
"Nos casos que parecem estar sendo fraudados, os madeireiros alegam ter extraído, por exemplo, aquelas dez toras de ipê constantes no plano de manejo aprovado (mas que, na verdade, não existiam na região de exploração)", diz Vidal.
"Mas não é isso que de fato fazem. Os madeireiros derrubam dez árvores, mas talvez metade delas seja ipê, cujos troncos são identificados e carregados nos caminhões. As outras cinco árvores abatidas pertencem, na verdade, a espécies de menor valor comercial, e mesmo espécies não comerciais."
Madeira apreendida em operação do IbamaDireito de imagemMINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE
Image captionSomente troncos certificados estão autorizados a circular pelas rodovias brasileiras
"Os madeireiros ganham duas vezes. Eles cortam e arrastam as árvores de menor valor no lugar de ipês nas áreas legalizadas, e cortam e arrastam ipês de áreas proibidas," diz o biólogo Saulo de Souza, da Esalq, que também participou da pesquisa. Quanto aos troncos das espécies não comerciais, são simplesmente abandonados na mata para apodrecer.
Uma vez que as árvores pouco comerciais são retiradas, o agrônomo responsável pela fraude coloca uma placa em seus tocos indicando que se trata de um ipê. "Mas a outra placa, aquela que deveria ser afixada no tronco de madeira de menor valor correspondente, é na realidade afixado num tronco de ipê, tronco este que foi abatido de forma ilegal, como por exemplo na margem dos rios, onde a extração é proibida," explica Vidal. "Com a placa indicando que aquele tronco de ipê foi extraído legalmente, a madeira ilegal pode ser transportada normalmente pelas rodovias."
Um outro estratagema é afirmar no plano de manejo que as árvores são maiores do que realmente são. Segundo Vidal, o volume fictício de madeira legal resultante passa a ser preenchido com madeira ilegal. "É basicamente assim que os madeireiros fazem para esquentar a madeira retirada de forma clandestina."
Como foi que o estudo chegou a tais conclusões? Os pesquisadores resolveram confrontar os dados referentes ao número de espécies e ao volume de madeira das licenças de extração aprovadas, com uma estimativa científica do volume de madeira, por espécie, que deveria existir originalmente nas áreas que foram manejadas. Tal estimativa pode ser feita a partir de imagens de satélite da floresta, registradas pelo governo federal nos anos 1970.
Os pesquisadores investigaram 427 licenças de manejo constantes no sistema da Secretaria de Meio Ambiente, e que foram aprovadas pelos fiscais do governo. Agindo desse modo, obteve-se o levantamento da quantidade de árvores de cada espécie e do volume de madeira indicado em cada licença.
O passo seguinte foi estimar o volume de madeira existente em cada hectare de floresta registrado nas fotos de satélite. As licenças mencionavam a existência de 80 espécies diferentes. Os pesquisadores estudaram as onze espécies mais abundantes. Chegou-se assim numa estimativa científica do volume de madeira de cada espécie que existia nos locais explorados.
Ao confrontar os dados das licenças com as estimativas feitas dos registros de satélite, os pesquisadores verificaram que muitos números não batiam. "Havia licenças alegando um volume de ipê até quatro vezes superior ao volume por nós estimado," afirma Brancalion.
"Em média, naqueles planos de manejo que parecem ter sido fraudados, os volumes indicados são o dobro do verdadeiro. Especificamente com relação à extração de ipê, 77% dos planos foram aparentemente fraudados," revela Souza.
Por fim, em outubro de 2017, acompanhado de membros da organização não governamental Greenpeace e da Força Nacional, Souza realizou uma vistoria em algumas áreas onde a extração ilegal de ipê parecia ter sido elevada. "Havia nos locais dezenas de 'árvores imaginárias'", comenta Souza.
A partir da identificação dos planos de manejo em teoria fraudados, foi possível descobrir os nomes dos agrônomos responsáveis por cada um deles. Na região, há 97 profissionais que trabalham para as madeireiras elaborando planos de manejo.
"As fraudes parecem estar relacionadas a uma minoria entre os técnicos", diz Brancalion. De acordo com os pesquisadores, cerca de 15% deles são os responsáveis por todos os planos supostamente fraudados.
A BBC News Brasil procurou a área de fiscalização da Secretária de Meio Ambiente do Pará e representantes da Associação Indústria Exportadoras de Madeiras do Pará (Aimex) - as empresas madeireiras Amazônia Florestal, sediada em Belém, Advantage Florestal, de Ananindeua (PA), e Ipex Comércio de Madeiras, de Marituba (PA) -, mas não obteve retorno.
"Estou muito preocupado com o futuro do ipê", diz o pesquisador Edson Vidal. "Ele pode seguir o caminho do mogno, que foi extraído até o desaparecimento no Pará." O mogno era a madeira mais nobre até os anos 1990. Quando suas reservas se exauriram, as madeireiras partiram para a segunda espécie de maior valor comercial, o ipê.
O problema com o ipê talvez venha a ser ainda mais sério do que com o mogno, árvore de crescimento mais rápido do que o ipê. De acordo com Vidal, "o ipê cresce muito lentamente. Dados de que dispomos indicam que seriam necessários cem anos de preservação intocada para repovoar uma área devastada com apenas 10% dos indivíduos da população original de ipês."

De envenenamento a desorientação durante o voo, como os agrotóxicos afetam pássaros e abelhas

De envenenamento a desorientação durante o voo, como os agrotóxicos afetam pássaros e abelhas

  • 18 agosto 2018

Tico-tico de coroa branca (Zonotrichia leucophrys)Direito de imagemGETTY IMAGES
Image captionEstudo afirma que dois tipos de inseticidas usados no Brasil envenenam aves como o tico-tico de coroa branca

Estudos internacionais recentes vêm reforçando os argumentos de ambientalistas de que o uso de agrotóxicos causa danos à fauna das regiões onde estão as lavouras – às vezes, de longo prazo.
Um deles, divulgado na revista científica Nature, avaliou o impacto dos inseticidas imidacloprido (neonicotinoide) e clorpirifós (organofosforado), ambos usados no Brasil, em aves canoras (pássaros que têm a capacidade de cantar) que se alimentam de sementes. Os tico-ticos de coroa branca (Zonotrichia leucophrys), pássaros das Américas analisados na pesquisa, apresentaram sinais de envenenamento, perda de massa corporal e alteração na capacidade de orientação durante voos migratórios.
Além dos pássaros, segundo especialistas, qualquer ser vivo está sujeito a sofrer esses efeitos tóxicos, incluindo insetos, répteis, anfíbios, mamíferos, peixes, demais organismos aquáticos e espécies vegetais.
"São compostos químicos projetados para ter um efeito biológico prejudicial ao crescimento, ao desenvolvimento, à reprodução ou à sobrevivência dos organismos", disse à BBC News Brasil Luis Schiesari, professor de gestão ambiental da USP.
Organismos da mesma família das pragas, por exemplo, por serem biologicamente similares, também podem ser atingidos pelos defensivos agrícolas e ter o mesmo destino.
É o que acontece com a lagarta da soja – centenas de mariposas parentes dela são envenenadas. Mas o mais grave é que muitos herbicidas, inseticidas e fungicidas atuam em processos comuns aos seres vivos.
"Algumas moléculas agem no processo da divisão celular, outras no processo da respiração celular e outras no transporte de íons através da membrana celular. Existe um potencial enorme de moléculas (das substâncias químicas) afetarem as espécies não-alvo porque todos os organismos necessitam desses três processos", explica.
Encontrar espécies não-alvo mortas, inclusive predadores naturais das pragas, faz parte da rotina de quem trabalha em campos agrícolas pulverizados com agrotóxicos. Mesmo quando a dose é insuficiente para matá-las, elas podem ter sequelas como a diminuição da fecundidade, malformações no desenvolvimento, alterações comportamentais e perturbações hormonais.
"Um pesquisador da Universidade da Califórnia descobriu anos atrás que o herbicida Atrazina, um dos mais usados no mundo, é capaz de transformar girinos geneticamente machos em fêmeas numa concentração de uma parte por bilhão. Mesmo que aquele indivíduo não morra no curto prazo, a população morre no médio prazo porque, se deixa de ter reprodução, entra em colapso", afirma Schiesari.

Direito de imagemGETTY IMAGES
Image captionRecentemente, a União Europeia proibiu três inseticidas neonicotinoides que, segundo pesquisas, causavam morte de abelhas

No entanto, fabricantes garantem que esses produtos, principalmente os mais novos, passam por pesquisas minuciosas para que sejam eficientes no controle de pragas, doenças e ervas daninhas, e ambientalmente seguros.
"Vários estudos são realizados desde o início do descobrimento, verificando sua viabilidade através de estudos preliminares. As empresas começam com cerca de 160 mil moléculas, mas no final de quatro anos restam apenas cinco que seguirão os próximos estágios de desenvolvimento", afirma Andreia Ferraz, gerente de ciência regulatória da Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF).
"Essas moléculas, para seguirem, passam por diversos estudos toxicológicos e crônicos, e por outros que permitem caracterizar tanto o destino ambiental, bem como os efeitos para organismos não-alvo."

Cerco fechado para as abelhas

O fenômeno do declínio populacional de abelhas em conexão com o uso de agrotóxicos vem sendo acompanhado de perto por vários países e comprovado por pesquisas como o relatório divulgado pela Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) no início de 2018.
Após analisar mais de 1,5 mil estudos sobre os neonicotinoides (agrotóxicos derivados da nicotina), o órgão afirmou que os danos que o agrotóxico causa nas abelhas variam de acordo com a espécie, a utilização e a via de exposição, mas de modo geral representa riscos para todas.
Pesquisas anteriores tinham revelado que o composto químico neurotóxico danifica a memória do inseto – ao sair para buscar alimento, ele se perde e não consegue voltar para a colmeia – além de provocar a morte precoce de abelhas rainhas e operárias.
A substância também foi considerada vilã das abelhas por pesquisadores da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, em estudo publicado na revista Science. Foram encontrados traços de pelo menos um tipo de neonicotinoide em 75% das amostras de mel coletadas em todo o mundo.
Diante das evidências, recentemente a União Europeia proibiu três inseticidas da classe desse agrotóxico: imidacloprido, clotianidina e tiametoxam.
Fungicidas também podem ser fatais para o inseto, segundo pesquisadores, já que alguns fungos mantêm relações simbióticas com as abelhas.
Outros fatores, como doenças comuns e o desmatamento também podem ameaçar as colônias. Neste último caso, quando abre-se caminho para o plantio de grandes planações, as abelhas acabam se alimentando apenas de um tipo de pólen e de néctar disponível nesses cultivos. Por causa disso, acabam enfraquecendo por deficiência nutricional.

Pesquisa inédita com abelhas no Brasil

No Brasil, cientistas também observaram a mortalidade de abelhas intoxicadas por defensivos agrícolas.
"Os inseticidas foram desenvolvidos para matar insetos, e a abelha é um inseto. Se ela se aproxima, vai ocorrer mortalidade. É um problema bastante sério no Estado de São Paulo. Não que não aconteça em outros Estados do Brasil, mas em São Paulo nós temos registro", adverte Roberta Nocelli, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que desenvolve pesquisas em ecotoxicologia de abelhas.
O registro que ela menciona é uma pesquisa inédita no Brasil realizada pelo Projeto Colmeia Viva com participação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da UFSCar. Para fazer o Mapeamento de Abelhas Participativo (MAP), especialistas estiveram em apiários entre agosto de 2014 e agosto de 2017, com o objetivo de averiguar a relação da agricultura e apicultura e a aplicação de agrotóxicos.
Das 107 visitas feitas em campo, 88 possibilitaram essa análise. Foi encontrada a presença de inseticidas neonicotinoides, de pirazol e de triazol em 59 casos, dentro e fora das culturas agrícolas (por exemplo, quando as abelhas buscam água e alimento em áreas de criação de gado).
Os casos de mortalidade do inseto por uso incorreto de agroquímicos nas lavouras representaram 35,59% das amostras coletadas.

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Image captionDesmatamento para monoculturas também pode reduzir população de abelhas, que sofrem de deficiência nutricional

Esses dados se referem à espécie Apis Mellifera africanizada (uma mistura de subespécies europeias e africanas), conhecida como "abelha que produz mel". As abelhas que têm origem brasileira não foram analisadas.
"Não podemos mensurar o impacto das abelhas que estão nas matas. Mas, pelas medições que fazemos com a Apis Mellifera, estimamos que a mesma coisa esteja acontecendo com as colmeias das colônias de abelhas nativas. São aproximadamente 3 mil espécies não pesquisadas", afirma Nocelli.
O perigo de extinção das abelhas assusta porque o inseto desempenha um papel fundamental na produção de alimentos. "É importante pensarmos que a produção depende do polinizador em boa parte das culturas. E a abelha é o polinizador mais importante, porque é responsável pela polinização de mais de 70% das plantas com flores."

Mudanças na legislação de agrotóxicos

Quando os agrotóxicos causam o enfraquecimento ou a morte de animais polinizadores, as colheitas são menos fartas. Por outro lado, se eles forem retirados das lavouras, as pragas são capazes de destruir safras inteiras.
Por isso, não é o fim completo do uso de agrotóxicos que a maioria dos biólogos e grupos ambientais defende, mas sim um uso mais responsável desses produtos e a adoção de formas de controle que não agridam o meio ambiente, como o manejo integrado de pragas, sempre que possível.


O Brasil é o país um dos países que consome o maior volume de agrotóxicos no mundo. E, para os ambientalistas, o consumo tende a aumentar com o Projeto de Lei 6.299/2002, que muda as regras de fiscalização e aplicação das substâncias.
Se aprovado, o projeto centralizará a responsabilidade de liberar ou não novos agrotóxicos – que hoje é dividida entre os ministérios de Agricultura, Meio Ambiente (por meio do Ibama) e Saúde (pela da Anvisa) – no Ministério da Agricultura. O Ibama e a Anvisa continuarão fazendo análises sobre o meio ambiente e a saúde humana, mas a decisão final caberá à pasta.
Segundo Marisa Zerbetto, coordenadora-geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas do Ibama, isso seria um golpe duro para a fauna, a flora e a saúde humana.
"A mudança proposta pode trazer inúmeros riscos ao meio ambiente ao tornar ineficaz uma política de minimização dos efeitos da utilização dos agrotóxicos. O projeto de lei sobrepõe interesses econômicos aos de proteção à vida em todas as suas formas, à saúde pública e à qualidade ambiental."
Mas, para Marcelo Morandi, chefe da Embrapa Meio Ambiente, o projeto de lei traz avanços para resolver problemas da legislação atual. Um deles é a dependência de protocolos distintos do Ministério da Agricultura, do Ibama e da Anvisa para o registro de novos agrotóxicos, o que, segundo ele, faz com que o processo caminhe de forma muito lenta.
O PL estabelece um prazo máximo de dois anos para que essa análise ocorra, diferentemente da lei atual, que permite que a avaliação seja concluída em até oito anos. "A questão de unificar o processo é um ganho muito importante. Não é tirar o papel de nenhum dos três órgãos. Isso vai continuar acontecendo. O grande avanço é a unificação desse processo no sentido do trâmite."

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Image captionPara determinar o grau de toxicidade de agrotóxicos, são examinadas espécies não-alvo padronizadas internacionalmente, mas Ibama quer pesquisar espécies brasileiras

Para ele, outro ponto positivo é a substituição da análise de perigo, adotada hoje, pela análise de risco, proposta no projeto de lei. Em vez de proibir os produtos pela simples identificação do perigo de uma substância (de causar câncer, por exemplo), haverá a possibilidade de registro após uma avaliação que aponte possíveis doses seguras. Pelo texto, serão proibidos produtos que apresentem "risco inaceitável" para o ser humano e o meio ambiente.
"A análise de risco dá um panorama muito maior de qual é a segurança dos produtos. Em relação ao grau de conservadorismo que será adotado, cada país estabelece o seu."

Como agrotóxicos são aprovados?

Mas enquanto o PL não é votado no plenário da Câmara dos Deputados, as regras antigas continuam valendo. Atualmente, os agrotóxicos passam por uma longa avaliação antes de serem liberados para a comercialização.
"A partir do conhecimento que obtemos sobre o agente químico, físico ou biológico destinado ao controle de um organismo considerado nocivo, são delimitadas as doses, o modo e a frequência de aplicação dele e os cuidados a serem adotados para a minimização dos efeitos sobre organismos não-alvo durante e após a sua aplicação. Também são estabelecidas as restrições ao uso que se fizerem necessárias", explica Marisa Zerbetto.
Para determinar o grau de toxicidade dessas substâncias, são examinadas espécies não-alvo e realizados estudos de persistência ambiental do agrotóxico e de sua mobilidade em solo - ou seja, quando tempo ele permanece na natureza e se pode ser levado para lençóis freáticos, por exemplo.
Os testes são feitos com espécies padronizadas internacionalmente, algo que o Ibama quer mudar buscando parcerias para pesquisar organismos específicos da fauna brasileira nas diferentes regiões agrícolas.
Feita a análise, os agrotóxicos recebem classificação 1, 2, 3 ou 4, sendo os enquadrados na classe 1 os mais perigosos. A fiscalização desses produtos é feita tanto pelos Estados quanto por órgãos federais.
O mal que os agroquímicos podem causar depende de sua toxicidade, da dose aplicada e da duração deles no ambiente, ressalta Zerbetto.
Por isso, ela diz, é importante seguir as informações contidas nos rótulos e bulas e não utilizar o controle químico em cultivos onde as pragas ainda não estão presentes. Bom senso também é importante. No caso das abelhas, por exemplo, jamais se deve pulverizar defensivos agrícolas durante a florada ou quando elas estiverem buscando alimento nas lavouras.
Marcelo Morandi diz que os agrotóxicos novos que estão em fase de análise são menos nocivos que os utilizados atualmente no país. "Eles são menos tóxicos e mais eficientes do que os antigos, que não são tirados do mercado por não terem substitutos."
Segundo Silvia Fagnani, diretora-executiva do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), é importante que os agrotóxicos sejam usados corretamente para a praga e a cultura.
"O setor de defesa vegetal acredita no equilíbrio entre uso de defensivos agrícolas, a produção agrícola e as espécies não-alvo. Ou seja, é possível que insetos e as práticas agrícolas convivam sem danos às espécies não-alvo."