No Dia Mundial da Biodiversidade em 22 de maio, chamei a atenção para a poluição por nitrogênio em meu artigo como uma grande ameaça ao meio ambiente. Coincidentemente, após este artigo, imagens de "ranho marinho" no Mar de Mármara começaram a fazer parte da agenda ambiental da Turquia. Especialistas alertaram na notícia que este incidente foi resultado do aquecimento global. A notícia correu não só na Turquia, mas também na imprensa internacional. Os mares da Turquia não são apenas lugares onde temos um pôr do sol romântico comendo frutos do mar, mas também ecossistemas muito importantes tanto econômica quanto ecologicamente. Notícias de meleca do mar mostram que não apreciamos o valor de nossos mares. Como?
As temperaturas da superfície do mar estão aumentando em todo o mundo. Os dados da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos mostram que a temperatura média global da superfície do mar aumentou cerca de 0,13 graus centígrados em cada década dos últimos 100 anos. A biodiversidade marinha está ameaçada devido ao aumento da temperatura. O aumento das temperaturas também afeta a poluição dos mares. Especialmente quando os resíduos domésticos chegam ao mar, a abundância de fitoplâncton aumenta com o aumento da temperatura. Os fitoplânctons, organismos unicelulares que realizam a fotossíntese, são importantes para a biodiversidade marinha e para a Terra, mas seu aumento populacional descontrolado ameaça a vida aquática.
Perturbação do ciclo do nitrogênio
O principal fator para o aumento do fitoplâncton são os resíduos que contêm nitrogênio e fósforo. O número de fitoplâncton pode estar fora de controle quando os resíduos que os contêm são comumente encontrados na água do mar. Esses resíduos poluem o Mar de Mármara há muito tempo. O Mar de Mármara, onde chegam as águas servidas de cerca de 20 milhões de pessoas, já está ameaçado por explosões de fitoplâncton. Além disso, o Mar de Mármara pode ser definido como um ecossistema que se alimenta do Mar Negro, rico em nutrientes. Em outras palavras, os resíduos produzidos pelo homem podem fazer com que o fitoplâncton saia do controle no Mar de Mármara com o efeito da água do mar do Negro Ser.
Os números do fitoplâncton estão ficando fora de controle, fazendo com que os mares se tornem um ecossistema pobre em oxigênio. O resultado é que as imagens semelhantes a muco que vemos hoje em dia são formadas sobre os mares. Esta substância semelhante a muco não é prejudicial por si só; especialistas dizem que essa substância é uma combinação de proteínas, carboidratos e gordura. No entanto, esta substância que se forma causa poluição que estrangula a vida marinha ao atrair muitos microrganismos, incluindo E. coli.
A biodiversidade está irreversivelmente ameaçada
Cientistas turcos que trabalharam com corais observaram que esses habitats estavam completamente cobertos por ranho marinho. Para os corais, o muco marinho é considerado uma ameaça significativa porque causa a morte rápida dos corais, fazendo com que o fundo do mar se torne desertificado.
A meleca do mar, sem dúvida, afeta negativamente os invertebrados, um dos elementos biológicos do Mar de Mármara. Hoje em dia, a camada de muco que atinge a costa passou a ameaçar os criadouros de peixes. Parece que a pressão do aquecimento global e, mais importante, o crescimento da população humana trará efeitos negativos sobre a economia. A indústria pesqueira, especialmente, pode enfrentar dificuldades. É agora uma necessidade reduzir a pressão das águas residuais no Mar de Mármara para não criar um novo fardo económico para a Turquia e, o mais importante, para não prejudicar a biodiversidade única que temos. O ponto que preciso sublinhar mais uma vez é que devemos prestar atenção à poluição por nitrogênio, que aumenta os efeitos negativos do aquecimento global. Claro, não vamos deixar de lado a aceleração descontrolada do crescimento da população humana.
Incêndios no Pantanal e Amazônia poderão ser piores em 2021, alertam cientistas
SECA MAIS SEVERA, AUMENTO DO DESMATAMENTO E ENFRAQUECIMENTO DA FISCALIZAÇÃO AMBIENTAL NO GOVERNO BOLSONARO APONTAM PARA UM PERÍODO DE QUEIMADAS MAIS GRAVE QUE O JÁ OBSERVADO EM 2020.
O Pantanal foi atingido por fortes incêndios até meados de novembro de 2020 — Foto: GOVMS/Reprodução
O clima seco neste ano aumenta o risco de incêndios graves na floresta amazônica e no Pantanal, disseram cientistas, alertando que a seca pode impulsionar a destruição de biomas essenciais para conter as mudanças climáticas.
No ano passado, o clima seco teve influência no registro recorde de incêndios no Pantanal, enquanto a Amazônia sofreu a pior onda de incêndios desde 2017, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
A estação chuvosa deste ano –que vai de novembro a abril– foi ainda mais seca em partes ameaçadas da Amazônia, conhecidas como o “arco do desmatamento”, mostram os dados do Inpe.
A seca deste ano no Pantanal é mais severa e generalizada do que a de 2020, segundo os dados.
“O período chuvoso já encerrou, e o período chuvoso foi ruim”, disse Marcelo Seluchi, meteorologista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. “O período de fogo provavelmente será pior.”
Os incêndios e o desmatamento na floresta amazônica aumentaram desde que o presidente Jair Bolsonaro assumiu o cargo, em 2019, com uma defesa do desenvolvimento econômico da região.
5 pontos sobre as queimadas no Pantanal
Defensores do meio ambiente dizem que a retórica de Bolsonaro e o enfraquecimento da fiscalização ambiental têm incentivado criminosos a derrubar e incendiar árvores reivindicando terras públicas.
Os cientistas dizem que a preservação da Amazônia e do Pantanal é vital para frear as mudanças climáticas catastróficas, graças a sua capacidade de absorção de grandes quantidades de gases do efeito estufa.
A previsão para os próximos meses é que a seca continue ao sul do rio Amazonas, disse Renata Libonati, especialista em sensoriamento remoto da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“Qualquer ignição tem muita probabilidade de gerar grandes incêndios e que saia do controle”, disse Libonati.
Embora essas regiões vulneráveis experimentem menos chuvas do que o normal, a parte norte da bacia amazônica está inundando devido às fortes chuvas.
Esse fenômeno tem relação com climas extremos que os cientistas esperam ver com mais frequência devido às mudanças climáticas, disse Maria Silva Dias, cientista atmosférica da Universidade de São Paulo (USP).
O clima mais extremo na Amazônia está relacionado em parte com o aquecimento do Atlântico Norte tropical nos últimos 20 anos, levando a ventos mais fortes e mudanças na circulação atmosférica, disse Dias.
Ela e outros cientistas alertaram que ninguém sabe ao certo o quanto a mudança climática está contribuindo para as mudanças nos padrões de chuvas. “Esta é uma questão em aberto com a qual ainda nos preocupamos”, disse Dias.
A mudança climática é provavelmente um dos vários fatores que afetam as chuvas, juntamente com o desmatamento da Amazônia, alterando os padrões regionais de precipitação e os ciclos de longo prazo existentes no clima.
Enquanto o tempo seco fornece combustível, os homens ateiam fogo.
7 polêmicas sobre o ministro Ricardo Salles
Incêndios naturais, como aqueles causados por raios, são extremamente raros na exuberante floresta tropical.
Os incêndios na Amazônia são geralmente iniciados por agricultores renovando plantações ou fazendeiros e garimpeiros desmatando ilegalmente as terras.
Defensores do meio ambiente dizem que Bolsonaro tem deixado a impressão de que essas pessoas não serão punidas por causar incêndios.
“O que está acontecendo é que as pessoas sentem que nada vai acontecer com elas se queimarem, e depois queimam”, disse Dias. “Não é só o clima… tudo depende de a lei ser aplicada.”
Cambuci vira símbolo de preservação da Mata Atlântica — Foto: Globo Rural
A Mata Atlântica é a segunda maior floresta em extensão do Brasil, mas também um dos biomas que mais sofrem com o desmatamento. Originalmente, a floresta ocupava 1,3 milhão de quilômetros quadrados — hoje restam apenas 7% da cobertura original, distribuídos em 17 estados.
Sob ameaça constante, provocada principalmente pela exploração descontrolada, o bioma tem diversas frutas nativas em ameaça de extinção.
A BBC News Brasil selecionou cinco dessas frutas que, embora sejam de alta produtividade, correm o risco de desaparecer das matas brasileiras.
Para Ligia Meneghello, Coordenadora de Programas e Conteúdo da Associação Slow Food Brasil, um dos principais empecilhos para o consumo dessas frutas nativas — e sua preservação — é a falta de valorização dos produtos nacionais e a padronização da alimentação.
“A gente acaba comendo banana, maçã, manga, laranja e conhece pouco sobre as nossas frutas, valorizamos mais o que vem de fora em vez dos frutos da nossa terra. Acho que tem um pouco a ver com a colonização da nossa alimentação também”, diz.
Ela ainda reforça que isso faz com que muitas pessoas não saibam como consumir esses produtos. “É preciso ensinar como usar e os potenciais gastronômicos de cada uma delas”, afirma.
Para Meneghello, há ainda outro obstáculo para as frutas nativas: seu curto período de viabilidade germinativa. “Todos eles são de alta produtividade, mas muitos possuem rápida degradação e isso é um complicador para a comercialização da fruta in natura. Apesar disso, seguem ótimas congeladas e para polpas”.
Ela afirma que o consumo desses frutos é essencial para a manutenção do bioma e para evitar sua contínua degradação. “A gente consegue ajudar a fomentar a cadeia alimentar e manter essas espécies existentes quando a gente as conhece, quando olha, prova, se vincula, entende as dinâmicas territoriais e culturais das quais elas fazem parte. Tudo isso contribui para que a gente se engaje em ações de conservação.”
Conheça cinco frutos que estão sob ameaça de extinção na Mata Atlântica.
Cambuci
Cambuci: de sabor bastante ácido, o fruto é rico em vitamina C e uma excelente fonte de antioxidantes — Foto: Glenn Makuta via BBC
Primo da goiaba e da pitanga, o nome do fruto dá uma dica sobre o formato: vem do tupi kamu’si, que significa vaso ou pote de argila, geralmente usado para armazenar água. O fruto, de cor esverdeada, tem o formato de uma vasilha, mas também lembra o de um disco voador.
Quando está no ambiente nativo, serve de alimento para aves, roedores e macacos, mas suas sementes têm tempo curto para serem germinadas, o que dificulta a reprodução dos cambucizeiros e prejudica a manutenção da espécie nas matas.
De sabor bastante ácido, o fruto é rico em vitamina C e uma excelente fonte de antioxidantes. Apesar da acidez, o agricultor Junior Magini, do Recanto Magini, especializado na plantação de frutas nativas, afirma que a fruta tem grande potencial para a gastronomia. “Pode ser usado na cachaça, como geleia, licores, vinagres, compotas e muitos outros fins”, afirma.
A região de Paranapiacaba, na Serra do Mar, é conhecida pelas cachaças feitas com cambuci – uma prática que remonta aos tempos coloniais. A fruta também já chegou a batizar um dos bairros da capital paulista pela quantidade de árvores presentes na região do Cambuci. Hoje, poucos exemplares restaram, pois muitas árvores apodreceram ou foram cortadas na cidade, e também nas florestas.
Juçara
Juçara é considerada a “rainha da Mata Atlântica” — Foto: Recanto Magini via BBC
Espécie chave para o bioma, a palmeira juçara, muito procurada pelos animais, é considerada a “rainha da Mata Atlântica”. Apesar disso, a extração ilegal do seu palmito a colocou no rol das espécies em risco de extinção. Isso porque, ao contrário do seu parente açaizeiro, ela é uma planta de tronco único – e portanto, é preciso derrubar a árvore para retirar o palmito.
Mas, assim como o açaí, a juçara também dá um fruto de cor roxa, em formato de coquinho – e sua extração e consumo garantem a manutenção das árvores em pé. Pela semelhança com o fruto amazônico, tanto no formato como no sabor, a fruta da juçara está sendo chamada de “açaí da Mata Atlântica”.
Diversos projetos tentam preservar as palmeiras remanescentes e explorar o potencial comercial e gastronômico de seus frutos. Para o agricultor Douglas Bello, do Sitio do Bello, especializado na produção e comercialização de frutas nativas, o uso é parecido com o do açaí. “Pode ser usada em vitaminas, batido, e também como geleia”.
Além disso, ele reforça que a juçara também tem os mesmos princípios estimulantes procurados no açaí e é rica em ferro.
Uvaia
Uvaia se transforma em sucos, sorvetes e geleias — Foto: Kenia Bahr via BBC
“Fruta ácida” é a tradução do nome “uvaia” em tupi. Da família das Mirtaceas, como muitas outras frutas do bioma, é parente da jabuticaba e da pitanga e é polinizada principalmente por abelhas. Muito perecível, seu transporte deve ser feito com cuidado para que a fruta não estrague.
De sabor intenso, o fruto é bastante suculento, por isso seus principais usos gastronômicos são os sucos, sorvetes e geleias. Pela acidez e textura, também é utilizada em doces, e para compor vinagres, vinhos e kombuchas. Um preparo bem conhecido na região da Serra do Mar é o chamado “uísque tropeiro”, que mistura a uvaia com o Cambuci, curtidos em cachaça.
Araçá
Araçá vermelha: além da fruta, a árvore, muito comum nos pomares domésticos da região da Serra do Mar, também é procurada pela madeira e sua casca usada para curtir peles — Foto: Slow Food Brasil via BBC
Parente próximo da goiaba, o araçá dá nome a diversas espécies: há o verde, vermelho, amarelos e roxo, todos eles do gênero Psidium. As árvores do araçazeiro podem chegar a até seis metros, dependendo do tipo.
Assim como a goiaba, os frutos possuem muitas sementes, mas são menores, de tamanho semelhante ao das jabuticabas. Rico em vitamina C, os araçás costumam ser agridoces, misturando acidez e doçura.
Além da fruta, a árvore, muito comum nos pomares domésticos da região da Serra do Mar, também é procurada pela madeira e sua casca usada para curtir peles.
Cereja do Rio Grande
Cereja do Rio Grande tem sabor doce e intenso — Foto: Beatriz Bello/ Sítio do Bello via BBC
Também conhecida como “falsa cereja” ou “cereja do mar”, a fruta é mais oval que a cereja tradicional, mas tem a aparência semelhante, e também é composta de uma semente única e grande. Suas flores, brancas e numerosas, são bastante usadas na indústria de perfumes.
A árvore pode chegar a 10 metros de altura e é procurada para fins ornamentais, pela beleza das flores e dos frutos e também usada em reflorestamentos e recuperação de áreas degradadas pois os frutos atraem muitos pássaros.
Os frutos têm sabor doce e intenso, e têm as cores como a da cereja tradicional, que variam do vermelho intenso ao roxo. Podem ser ingeridas in natura e no preparo de caldas, doces e licores.
Pagar por serviço ambiental para conservar a Amazônia será eficaz se invasões de terra acabarem, dizem especialistas
LEI SANCIONADA QUE CRIA A POLÍTICA NACIONAL DE PAGAMENTO POR SERVIÇOS AMBIENTAIS DEPENDE DE REGULAMENTAÇÃO. PAGAMENTO CONSISTE EM TRANSAÇÃO VOLUNTÁRIA, QUANDO ALGUÉM PAGA PARA SE COLOCAR EM PRÁTICA ATIVIDADES QUE AJUDEM A RECUPERAR, MELHORAR E MANTER O ECOSSISTEMA EM FUNCIONAMENTO.
Floresta amazônica vista do alto da torre, em São Sebastião do Uarumã, na Amazônia — Foto: Bruno Kelly/Reuters
Financiar a preservação da Amazônia através do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) é visto por especialistas como uma importante ferramenta para que produtores e fazendeiros usufruam de uma economia verde mantendo a floresta em pé.
Porém, o chamado PSA faz parte de uma equação maior de projetos de conservação, sendo que de nada adiantará se as invasões de terra e as atividades grileiras no bioma continuarem.
“Um público prioritário deve ser os povos indígenas e os nativos da floresta, quilombolas e extrativistas, pois sabem como usar muito bem a floresta. Vivem da floresta, já conhecem, têm capacidade de colher produtos novos, e, portanto, já fazem serviços ambientais e sabem como fazer. Mas nada disso vai adiantar se continuar havendo invasão dentro dessas terras indígenas. São atividades incompatíveis. Para parar a invasão da terra não é PSA, mas sim aplicação da lei. Precisamos dosar mecanismos de punição com de indução, de premiação à atividade correta”, explicou Raul Valle, diretor de Justiça Socioambiental da WWF Brasil.
Inserido no Código Florestal Brasileiro em 2012, o pagamento por serviços ambientais ganhou força este ano ao ser sancionada a lei federal nº14.119/2021, que designa a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (PNPSA) e trata da implementação de uma política de incentivo à preservação. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vetou alguns artigos do então projeto de lei, mas foram derrubados no Congresso Nacional. A lei ainda depende de regulamentação.
Esse tipo de pagamento, conforme a norma, consiste em uma transação voluntária, pois a pessoa paga para alguém colocar em prática atividades coletivas ou individuais com objetivo de recuperar, melhorar e manter o ecossistema em contínuo funcionamento.
Para André Guimarães, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o PSA ajuda a criar incentivos para impulsionar a produção agropecuária sem perdas econômicas, estimulando, em paralelo, a conservação do meio ambiente.
PSA ajuda a criar incentivos para impulsionar a produção agropecuária sem perdas econômicas, diz diretor executivo do IPAM. — Foto: Reuters/Amanda Perobelli
‘”Assim, você harmoniza melhor as atividades humanas com a natureza para permitir que se continue, no futuro, promovendo aquela atividade na mesma região com o mesmo regime de chuva, qualidade de solo e produtividade”, disse.
“(O PSA) é um arcabouço jurídico que cria incentivos para que os usuários da terra continuem utilizando de forma racional as áreas já abertas, mas que também invistam e se dediquem a conservar os ativos ambientais que ainda existem”, reforçou André Guimarães.
O diretor executivo do IPAM avalia a derrubada dos vetos pelo Congresso Nacional como positiva, um marco legal. Esse novo passo, segundo ele, permite que os debates sobre PSA ganhem maiores escalas e pulso jurídico, o que auxiliará, por exemplo, na expansão do serviço entre empresas de estados diferentes ou de um grupo do exterior com um brasileiro.
“A oferta existe, mas há pouca demanda por causa da falta desse arcabouço jurídico. Não é que não existam pessoas, países que queiram investir nos serviços ambientais, mas não temos estrutura jurídica que torne essas transações mais transparentes e formalizadas. Vejo esse processo legislativo com muita esperança, de que não será só uma lei, mas sim grande alavanca para que os negócios dos serviços ambientais tomem proporção e que saiam da escala de projeto ou ações pontuais para uma escala nacional”, complementou André.
“A lei vai aproximar quem esteja precisando de uma brigada de incêndios para proteger mais a sua área com alguém que está buscando projetos para investir em ações dessa natureza. A economia verde passa por essa valorização de serviços e ativos e em formas extrativistas que protegem a floresta”, declarou o advogado Rômulo Sampaio, da Fundação Getúlio Vargas.
Conforme Rômulo, o pagamento por serviços ambientais pode ser visto como um instrumento adicional para corrigir uma falha de mercado. Ou seja, quando se produz algo que causa impacto em um terceiro que não faz parte dessa relação de produção.
“O típico caso de danos ambientais. Quando uma indústria se desenvolve, precisa utilizar o meio ambiente para processar os seus resíduos. Então, joga fumaça no ar, joga reagentes tratados no rio e isso precisa ser controlado, senão causa essa falha de mercado”, disse.
Iniciativas de mercado
Um dos exemplos de PSA é o mercado de crédito de carbono. Com a premissa de diminuir os impactos ambientais e mitigar as mudanças climáticas por meio da compensação dos gases de efeito estufa, esse tipo de mercado pode ser mais uma soma a favor da conservação dos ecossistemas, pois conta com repasse econômico para que se haja uma atitude positiva ao meio ambiente, como sequestrar carbono ou deixar de desmatar.
Porém, na prática, ainda não é regulamentado no Brasil e segue uma linha voluntária no país. Os debates sobre uma possível regulamentação estão previstos para ocorrer na 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 26) em novembro deste ano, na Escócia, quando representantes das nações se reunirão para tentar chegar a um consenso sobre o artigo sexto do Acordo de Paris.
Fumaça das queimadas na Amazônia. — Foto: João Laet/AFP
O mercado de crédito de carbono funciona assim: uma organização que emite os gases paga outra que gera créditos para neutralizá-los. Assim, o carbono emitido é compensado. A cada uma tonelada métrica de CO2 não emitida é gerado um crédito. As regras desse mercado, entretanto, dependem da gestão de cada país.
“O Brasil tem todas as possibilidades de ser um dos principais beneficiários de um mercado de carbono internacional. Se bem estruturado, pode sim ser uma ferramenta importante e positiva para se reduzir desmatamento e induzir a restauração florestal”, explicou Raul Valle, da WWF Brasil.
Outra frente de iniciativa ao mercado de pagamento de serviços ambientais é o desenvolvimento de projetos para reduzir as emissões oriundas da degradação ambiental em áreas de preservação. O instrumento que reúne tais projetos é chamado de Redução de Emissões do Desmatamento e Degradação Florestal (REDD +).
A ideia é o pagamento por resultado. Países em desenvolvimento detentores de florestas tropicais fazem a redução das emissões e, em troca, recebem compensação financeira internacional. Além do recuo das emissões, o REDD+ trabalha com a condição de aumentar as reservas florestais de carbono, além de promover a gestão sustentável das florestas e mantê-las de pé.
“O Brasil é um país dependente de serviços ambientais para o sucesso econômico. Praticamente todos os nossos grandes ciclos econômicos, desde o pau-brasil, no século XVI, passando pelo cacau, borracha, café e agora no ciclo recente do agronegócio, são todos ciclos econômicos que dependem dos serviços ambientais. Dependem da chuva, da qualidade do manejo do solo, de se fazer uma boa gestão dos recursos naturais”, reforçou André Guimarães, diretor executivo do IPAM.
Papel do governo federal
Com intuito de consolidar o pagamento por serviços ambientais no Brasil e fomentar o conceito de uma nova economia verde, o programa “Floresta+”, do governo federal, foi instituído em julho do ano passado. A ideia é que o projeto consiga abranger todos os biomas brasileiros, com primeiro passo dado nos estados que compõem a Amazônia Legal. O foco é em áreas de vegetação nativa e engloba terras indígenas, unidades de conservação, assentamentos e propriedades privadas.
Recentemente, por exemplo, um novo eixo do programa entrou em vigor. Batizado de “Floresta+ Empreendedor”, o objetivo é conectar pagadores e prestadores desses serviços. Para colocar em prática trabalhos como orientação técnica aos interessados em aderir ao mercado de pagamento por serviços ambientais, o governo federal firmou cooperação com o Sebrae.
O secretário da Amazônia e Serviços Ambientais, do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Joaquim Leite, explicou que o maior desafio é fazer com que o programa seja relevante aos que protegem a floresta, especialmente produtores rurais.
“O desafio é fazer com que a gente crie e consolide o mercado de serviços ambientais em um país onde 67% do território é preservado com a floresta nativa. O desafio do programa é que atualmente há uma grande possibilidade de que esse mercado seja relevante para todo mundo que protege floresta, tanto aos que protegem floresta em áreas rurais, especialmente áreas rurais, produtores rurais com um volume de área de aproximadamente 218 milhões de hectares de remanescente de vegetação nativa nas propriedades e esses produtores rurais prestam essas atividades e deveriam ser reconhecidos e remunerados”, explicou o secretário.
No contexto do programa, as atividades de serviços ambientais incluem reflorestamento com árvores nativas, conservação de solo, água e biodiversidade, combate e prevenção de incêndios, entre outros. Parcerias com órgãos e entidades, sejam eles públicos ou privados, nacionais ou estrangeiros, poderão ser firmados para desenvolver essas iniciativas.
“O programa Floresta+ inspirou a lei brasileira de pagamentos por serviços ambientais e é um dos caminhos para que a gente possa receber recursos de países estrangeiros mesmo antes de que o artigo sexto do Acordo de Paris esteja regulamentado. Já é uma forma do Brasil receber recursos e essa forma pode ajudar muito não só na preservação da floresta amazônica, mas de todos os nossos biomas”, reforçou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.
O advogado Rômulo Sampaio cita que o governo federal está disposto a aceitar outros mecanismos para conseguir atingir objetivos que ajudem a preservar o meio ambiente. “Esses instrumentos já vinham sendo usados por países desenvolvidos e o Brasil anda agora mais nessa direção. O Floresta+ é um programa muito curto em que o governo diz que estamos dispostos a ir para esse caminho de valorar serviços ambientais proporcionados por essa floresta com um novo conceito de economia verde, partindo de um pressuposto de que se precisa levar dinheiro à floresta, porque tem pessoas que vivem lá”.