quarta-feira, 9 de junho de 2021

Abelhas estão acumulando microplásticos em seus corpos

 






Abelhas estão acumulando microplásticos em seus corpos

CIENTISTAS DESCOBRIRAM UMA NOVA MANEIRA DE MONITORAR PARTÍCULAS DE PLÁSTICO. MAS SERIAM OS MICROPLÁSTICOS PREJUDICIAIS ÀS ABELHAS?

Uma abelha-operária Apis mellifera busca alimento numa flor de amêndoa. Cientistas estão usando as abelhas para detectar microplásticos presentes no ar.
FOTO DE ANAND VARMA, NAT GEO IMAGE COLLECTION

As partículas de plástico inevitavelmente se fixam aos corpos das abelhas conforme voam pelo mundo. Elas são cobertas por pelos, oriundos do processo de evolução, que têm a função de conter partículas minúsculas que entram em contato, intencionalmente ou não, com o corpo das abelhas. Esses pelos ficam eletrostaticamente carregados durante o voo dos insetos, o que ajuda a atrair as partículas de plástico. O pólen é a substância mais comumente encontrada nos pelos das abelhas, mas restos de plantas, cera e até mesmo fragmentos dos corpos de outras abelhas também podem ser encontrados.

Agora, outro tipo de material entrou para essa lista: os plásticos. De acordo com um estudo realizado na Dinamarca, 13 tipos de polímeros sintéticos diferentes podem ser encontrados presos entre os pelos das abelhas. O estudo foi publicado no início deste ano no periódico Science of the Total Environment.

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É amplamente comprovado que os microplásticos estão espalhados pelo planeta. No entanto, cientistas ainda buscam saber como essas substâncias se movem pela atmosfera. Segundo eles, coletar amostras de microplásticos não é uma tarefa fácil, e a maioria das pesquisas realizadas até agora foram conduzidas ao nível do solo.

As abelhas são utilizadas para a pesquisa pelo fato de suas pernas e corpos peludos possibilitarem uma melhor avaliação científica da distribuição de fibras e fragmentos de plástico no ar. Devido à grande quantidade de abelhas e o grande alcance geográfico de sua atividade de forrageamento, elas podem ser utilizadas como uma espécie de sonda viva para um estudo mais apurado sobre a presença de microplásticos presentes no ar em todo o mundo.

“Esse trabalho demonstra, pela primeira vez, a possibilidade de usar as abelhas como bioindicador da presença de MPs (microplásticos) no meio ambiente”, afirmam os cientistas.

Ambientalistas em miniatura

Durante décadas, as abelhas foram usadas como sentinelas de poluição, ajudando no monitoramento de metais pesados, pesticidas, poluição do ar e até precipitação radioativa. Na década de 1970, pesquisas sobre a interação das abelhas com os plásticos chegaram a ser realizadas, porém, o foco específico era os macroplásticos em vez dos microplásticos.

As solitárias abelhas-cortadeiras, por exemplo, que têm o tamanho similar ao das abelhas-europeias, usam suas enormes mandíbulas para cortar pedaços grandes de plástico, assim como fazem com folhas e pétalas.

Cientistas do Chile, da Argentina, do Canadá e dos Estados Unidos observaram abelhas-cortadeiras coletando pedaços de sacolas, embalagens e outros materiais plásticos e revestindo seus ninhos com eles. Um estudo realizado nos Estados Unidos sugeriu que as abelhas também cortavam o material de sinalizadores de plástico, usados para demarcação de obras, para construir seus ninhos.

No estudo realizado na Dinamarca, os cientistas reuniram milhares de abelhas-operárias, todas fêmeas, de 19 apiários — nove no centro de Copenhague e 10 em áreas suburbanas e rurais. Os pesquisadores coletaram as abelhas de dentro de suas colmeias na primavera, época em que as colônias ainda estão em fase de formação. Como as abelhas interagem com plantas, água, solo e ar — áreas em que microplásticos se acumulam — elas possuem condições ideais para encontrar os plásticos. A equipe que coletou os insetos usou roupas feitas de fibras naturais, além de terem tomado outras medidas de cuidado, para não contaminar as abelhas.

As abelhas foram congeladas para a eutanásia, depois lavadas e esfregadas para remover as partículas presas a suas pernas e corpos. Usando microscópio e luz infravermelha, as partículas foram classificadas por tamanho, forma e tipo de material.

Das partículas encontradas, 15% eram microplásticos. Desses microplásticos, 52% eram fragmentos e 38% eram fibras. O poliéster foi a fibra encontrada em maior quantidade, seguido pelo polietileno e pelo policloreto de vinila. Fibras naturais de algodão também foram detectadas.

Conforme esperado, as abelhas que vivem em ambiente urbano apresentaram maior índice de microplásticos em seus corpos, pois se sabe que as áreas urbanas contêm grande densidade de desses fragmentos. Contudo a quantidade de microplásticos encontrados nas abelhas de áreas rurais não foi consideravelmente menor do que nas abelhas que vivem em zonas urbanas, e isso foi uma surpresa para os cientistas. Segundo eles, esse resultado sugere que a dispersão do vento nivela a concentração de microplásticos em grandes áreas.

“Eu esperava encontrar mais abelhas ‘limpas’ no campo do que no centro de Copenhague”, disse por e-mail Roberto Rosal, professor de engenharia química na Universidade de Alcalá, em Madrid, e coautor da pesquisa. “A intensa mobilidade dos pequenos microplásticos pode explicar isso”, acrescenta o engenheiro químico.

Plásticos poluídos prejudicam as abelhas?

O impacto causado pelo contato das abelhas com os plásticos ainda é uma questão a ser esclarecida. As opiniões dos cientistas se dividem: alguns acreditam que a construção de ninhos com pedaços de plástico por abelhas-cortadeiras é simplesmente uma evidência de que as abelhas estão se adaptando à presença de um novo material; outros acreditam que isso pode ser prejudicial.

Em um estudo publicado no início deste ano no periódico Journal of Hazardous Materials, cientistas chineses procuraram avaliar os riscos que os microplásticos podem representar para as abelhas. Eles alimentaram as abelhas com microplásticos de poliestireno por duas semanas e descobriram que isso não alterava sua taxa de mortalidade. No entanto a experiência com os microplásticos alterou o microbioma das abelhas, desorganizando o conjunto de bactérias intestinais essenciais para as funções biológicas básicas. Com isso, a equipe chinesa concluiu que o contato das abelhas-cortadeiras com plásticos pode apresentar “riscos substanciais à saúde desses insetos”.

A equipe também constatou que a taxa de mortalidade das abelhas disparou de menos de 20% para cerca de 55% quando as abelhas consumiram uma combinação de poliestireno e tetraciclina, um antibiótico comum usado na apicultura para prevenir uma doença larval. “Por si sós, os microplásticos podem não ser o elemento contaminante mais tóxico, mas a presença de outras substâncias químicas pode aumentar sua toxicidade”, concluíram os pesquisadores chineses.

Illaria Negri, pesquisadora da Università Cattolica del Sacuro Cuore, na Itália, que não participou dos estudos realizados na Dinamarca e na China, também se preocupa com a questão. Por e-mail, Negri afirmou que os efeitos tóxicos dos microplásticos “podem se intensificar quando combinados com outros poluentes como pesticidas, medicamentos veterinários ou aditivos plásticos”.

A pesquisadora conclui que certos pesticidas podem ser absorvidos por detritos de plástico e podem ter “efeitos devastadores” na saúde das abelhas e de outros animais selvagens e insetos se ingeridos.

Fonte: National Geographic Brasil

Tratado global para regular a poluição por plástico ganha impulso

 


Tratado global para regular a poluição por plástico ganha impulso

O simples saco plástico passou a simbolizar o problema crescente do mundo com o lixo plástico. Ainda assim, globalmente, existem sete definições do que é considerado uma sacola de plástico – e isso complica os esforços para reduzir sua proliferação.

Banir os sacos, junto com outras embalagens de plástico, é o remédio mais comumente usado para controlar os resíduos de plástico. Até agora, 115 nações adotaram essa abordagem, mas de maneiras diferentes. Na França, os sacos com menos de 0,05 mm de espessura são proibidos. Na Tunísia, os sacos são proibidos se tiverem menos de 0,04 mm de espessura.

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Esses tipos de diferenças criam brechas que permitem que as sacolas ilegais cheguem aos vendedores ambulantes e bancas do mercado. O Quênia, que aprovou a proibição de sacolas mais difícil do mundo em 2017, teve que lutar contra sacolas ilegais contrabandeadas de Uganda e Somália. O mesmo aconteceu com Ruanda.

Da mesma forma, milhões de telas mosquiteiras que Ruanda importou dos Estados Unidos chegaram em embalagens plásticas cujo conteúdo químico não foi divulgado – mesmo após a consulta de um reciclador de Ruanda. Isso os tornava não recicláveis.

A poluição por plástico no oceano deve triplicar até 2040, aumentando a urgência de encontrar uma solução global.
A poluição por plástico no oceano deve triplicar até 2040, aumentando a urgência de encontrar uma solução global.

Para empresas globais como a Nestlé, que vende produtos alimentícios em 187 países, isso significa cumprir 187 diferentes conjuntos de regulamentações nacionais sobre embalagens plásticas.

Esses são apenas três exemplos de centenas de políticas contraditórias, inconsistências e falta de transparência que estão embutidas no comércio global de plásticos de maneiras que dificultam o controle do acúmulo crescente de resíduos plásticos. Não apenas as definições diferem de país para país, também não há regras globais para práticas como determinar quais materiais plásticos podem ser misturados em um produto; isso cria um pesadelo potencial para a reciclagem. Não existem métodos internacionalmente aceitos para medir a propagação de resíduos plásticos no meio ambiente. Sem padrões uniformes ou dados específicos, o trabalho de consertar tudo se torna essencialmente impossível.

Agora, a ajuda pode estar a caminho. O apoio está crescendo para um tratado global para tratar dos resíduos de plástico. Pelo menos 100 nações já expressaram apoio a um tratado de plástico, e aqueles envolvidos nas negociações preliminares estão otimistas de que um poderia ser aprovado em um ritmo que poderia fazer a diferença, assim como o Protocolo de Montreal de 1987, que evitou o esgotamento do ozônio estratosférico.

“Fundamentalmente, os governos não serão capazes de fazer o que devem fazer se não puderem contar com uma parceria internacional e uma estrutura internacional. Não vai funcionar ”, diz Hugo-Maria Schally, chefe da unidade de cooperação ambiental multilateral da Comissão Europeia. “É um problema concreto que exige uma solução concreta e que um acordo global irá providenciar.”

A mensagem de Schally para a indústria é direta: “Você pode trabalhar com políticas públicas (para tornar) o plástico sustentável e isso significa que você pode ser parte da solução, ou pode ficar na defensiva e então você é parte do problema.”

Um aumento no desperdício

O principal argumento contra a tentativa de forçar um tratado pelas Nações Unidas e seus 193 estados membros é que as negociações podem se arrastar por uma década ou mais e, na questão dos plásticos, há pouco tempo a perder.

Novos resíduos de plástico são criados anualmente a uma taxa de 303 milhões de toneladas. Até o momento, 75 por cento de todo o plástico já produzido se tornou resíduo, e a produção deve triplicar até 2050. Uma nova pesquisa deste ano sugere que o acúmulo de resíduos de plástico nos oceanos também deve triplicar até 2040 para uma média de 32 milhões toneladas por ano.

Com números como esses, não é surpresa que nenhuma das nações que contribuem mais significativamente com o lixo plástico para o meio ambiente tenha conseguido obter o controle de seus resíduos mal gerenciados. E embora os tratados globais levem tempo, nenhuma questão ambiental dessa magnitude foi tratada de forma significativa sem possuir um.

A poluição por plástico está na agenda das Nações Unidas desde 2012. Em 2019, quando a Assembleia Ambiental da ONU se reuniu pela última vez em Nairóbi, as negociações sobre resíduos de plástico foram bloqueadas, principalmente pelos Estados Unidos, que se opôs a um tratado vinculativo. O único acordo que surgiu foi um acordo para continuar falando.

Na última década, o terreno mudou dramaticamente. “Em 2015, nenhum país expressou interesse em buscar um tratado global”, disse Erik Lindebjerg, que está liderando a campanha de resíduos plásticos do Fundo Mundial para a Vida Selvagem em Oslo. Ele ajudou a supervisionar a publicação do The Business Case para um Tratado da ONU sobre Poluição por Plástico, um relatório preparado em parceria com a Fundação Ellen MacArthur, que detalha como um tratado poderia resolver uma variedade de problemas de negócios. “Em certo sentido, atingimos um ponto de saturação, então, de repente, você vê impactos em todos os lugares.”

A indústria também reverteu sua oposição.

“Nossa posição evoluiu conforme a situação evoluiu”, disse Stewart Harris, executivo do Conselho Americano de Química (ACC, sigla em inglês), que falava em nome do Conselho Internacional de Associações Químicas, uma associação química global da qual o ACC é membro.

“Estávamos preocupados com o elemento vinculante de um [tratado] global. Sentimos que ainda não estávamos prontos para isso ”, diz ele. “E agora isso mudou. Agora acreditamos que um instrumento global é necessário para nos ajudar a alcançar a eliminação de resíduos no meio ambiente e ajudar as empresas a cumprir compromissos voluntários.”

O que está na mesa de negociações

As negociações preliminares já estão em andamento, todas voltadas para a próxima reunião presencial em Nairóbi, onde há grandes esperanças de que seja possível chegar a um acordo para prosseguir com as discussões do tratado.

As nações da Escandinávia tradicionalmente têm conversado sobre resíduos de plástico, com a Noruega, como atual presidente da Assembleia Ambiental da ONU, assumindo a liderança. Mas outros grupos de nações têm se reunido e levado a conversa adiante. Equador, Alemanha, Ruanda e Vietnã realizaram várias sessões, com outra programada para setembro. Pequenos países insulares, inundados por resíduos de plástico e com muito a perder com a mudança climática, conduziram suas próprias conversas preliminares.

O objetivo geral das primeiras negociações foi definir uma data específica para evitar que o plástico se espalhe nos oceanos. O restante da agenda está centrado em quatro tópicos: um conjunto harmonizado de definições e padrões que eliminaria inconsistências, como a definição de uma sacola de plástico; coordenação de metas e planos nacionais; acordo sobre padrões e metodologias de relatório; e criação de um fundo para construir instalações de gestão de resíduos onde são mais necessários em países menos desenvolvidos.

Christina Dixon, especialista em oceanos da Agência de Investigação Ambiental, uma organização ambiental sem fins lucrativos com sede em Londres e Washington, diz que os métodos existentes para gerenciar o mercado de plástico não são sustentáveis. “Precisamos encontrar uma maneira de olhar para o plástico com uma lente global. Temos um material que está poluindo ao longo de seu ciclo de vida e além das fronteiras. Nenhum país é capaz de enfrentar o desafio sozinho.”

A opinião pública também está provocando mudanças. A poluição do plástico é uma das três preocupações ambientais mais prementes, junto com a mudança climática e a poluição da água, de acordo com uma pesquisa de 2019 incluída no Business Case para um relatório do Tratado da ONU. Jovens ativistas que saíram às ruas em 2019 para protestar contra a falta de ação sobre o clima têm prestado atenção ao lixo plástico. Vários estudos da indústria mostram que a Geração Z e a Geração Y estão empurrando os fabricantes de produtos de consumo para práticas de sustentabilidade.

Então, há uma questão simples de que os lados opostos agora estão falando uns com os outros.

Em 2019, Dave Ford, um ex-executivo de publicidade cuja empresa vinha recebendo líderes corporativos em viagens caras à Antártida, África e outros lugares, decidiu realizar um cruzeiro e debate de quatro dias das Bermudas ao Mar dos Sargaços para 165 pessoas que trabalham com resíduos de plástico. A lista de passageiros variava de executivos da Dow Chemical ao Greenpeace. Em uma ação destinada a obter o máximo de publicidade, um ativista do Greenpeace dividiu o quarto com um executivo da Nestlé no que ficou conhecido a bordo como o momento Sleeping With The Enemy (Dormindo com o inimigo).

O estratagema funcionou. Muitos membros do cruzeiro ainda estão conversando e as tensões que estavam crescendo, diminuíram.

“O que estamos tentando fazer é com que todas as partes que lutam historicamente entre si entendam onde todos estão sentados”, diz Ford. “Em muitos casos, eles podem estar mais próximos do que pensam.”

Fonte: National Geographic / Laura Parker
Tradução: Redação Ambientebrasil / Maria Beatriz Ayello Leite
Para ler a reportagem original em inglês acesse:
 https://www.nationalgeographic.com/environment/article/global-treaty-to-regulate-plastic-pollution-gains-momentum

quinta-feira, 3 de junho de 2021

8 lobos vermelhos soltos na natureza trazem esperança para espécies criticamente ameaçadas de extinção

 




8 lobos vermelhos soltos na natureza trazem esperança para espécies criticamente ameaçadas de extinção

A única população selvagem de lobos vermelhos do mundo acaba de receber mais oito membros. Quatro lobos vermelhos adultos e quatro filhotes nascidos em cativeiro foram soltos em um refúgio de vida selvagem no leste da Carolina do Norte, aumentando a esperança de que esta espécie única possa ser retirada da beira da extinção – pela segunda vez.

Os lobos vermelhos são uma espécie criticamente ameaçada de extinção, não encontrada em nenhum outro lugar do mundo, exceto na Carolina do Norte, e sua distribuição inclui dois refúgios de vida selvagem e uma colcha de retalhos de terras federais, estaduais e privadas. A população selvagem total é agora estimada em cerca de 20 a 25 animais, contando os oito animais recém-soltos.

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A libertação desses oito lobos vermelhos foi ordenada por uma ordem judicial. O Southern Environmental Law Center (SELC, sigla em inglês), em nome de vários grupos conservacionistas, processou o Fish and Wildlife Service (Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA) no outono de 2020 por não ter liberado mais lobos vermelhos na natureza. A SELC argumentou que a falta de ação foi uma violação da Lei de Espécies Ameaçadas. Em janeiro, um juiz distrital dos EUA ordenou que o serviço preparasse um plano revisado para liberações iminentes.

Ron Sutherland, da Wildlands Network, um grupo ambientalista, considera as solturas mais recentes “um grande passo na direção certa”, embora sua organização tenha defendido a libertação de ainda mais lobos. Ele espera que o Fish and Wildlife Service “comece a defender seu próprio programa novamente [e] se comprometa a trabalhar no terreno com o povo da Carolina do Norte com o objetivo de resgatar essa população de lobos vermelhos”.

“Nosso objetivo é trabalhar juntos para estabelecer um plano de implementação … para alcançar as metas de recuperação estabelecidas em conjunto para o lobo vermelho”, disse John Tirpak, vice-diretor regional assistente de serviços ecológicos do Fish and Wildlife Service.

Família dedicada

Os quatro filhotes de lobo vermelho, nascidos no Zoológico de Akron, foram colocados na toca de uma fêmea selvagem no início de maio no Refúgio de Vida Selvagem dos Lagos Pocosin, na península de Albemarle-Pamlico, no leste da Carolina do Norte. Essa estratégia, conhecida como criação de filhotes, tem obtido grande sucesso para a espécie. Ela tem uma taxa de sucesso próxima de 100 por cento, diz Chris Lasher, do Zoológico da Carolina do Norte em Asheboro, que é coordenador do Red Wolf Species Survival Plan (Plano de sobrevivência das espécies de lobo vermelho), um conjunto de medidas de conservação destinadas a garantir a longevidade e a segurança desses animais como espécie.

Mas é um trabalho complicado. Os filhotes devem ser removidos antes de completarem duas semanas de idade, enquanto seus olhos ainda estão fechados, e os tratadores tentam garantir que eles cheirem como seus companheiros de ninhada selvagens, para ajudar a facilitar a aceitação por sua mãe adotiva. Neste caso, os filhotes foram levados de Akron, Ohio para a Carolina do Norte, exigindo coordenação e trabalho em equipe entre os tratadores, biólogos do governo e outros funcionários, incluindo um piloto voluntário.

Joe Madison, diretor do programa de lobo vermelho na Carolina do Norte para o Fish and Wildlife Service, relata que logo depois que os filhotes adotivos foram colocados na toca, a mãe lobo selvagem moveu toda a ninhada para um novo local, o que é típico depois de qualquer perturbação na toca. Os cientistas que monitoram seus movimentos com um colar de rastreamento descobriram que ela continua ao redor da toca, um bom sinal.

Imagem ilustrativa de espécie de lobo.
Imagem ilustrativa de espécie de lobo.

“Todas as indicações são de que os filhotes nascidos em cativeiro foram adotados com sucesso”, diz Madison.

A criação de filhotes funciona bem para a espécie, em parte porque “[eles] são uma espécie de família muito compassiva e dedicada”, diz Lasher. “As mães lobas vermelhas estão comprometidas em criar uma ninhada de filhotes, não importa o tamanho ou a composição.” O processo é útil porque ajuda a aumentar o número de lobos vermelhos na natureza e aumenta a diversidade genética da população, introduzindo novos genes de lobos vermelhos em cativeiro.

Lobo da América

Menores que seus primos, os lobos cinzentos, e ligeiramente maiores que os coiotes, os lobos vermelhos já perambulavam por grande parte do sudeste – mas as campanhas de extermínio generalizadas, junto com a perda de habitat, levaram ao declínio da maioria dos predadores de ponta neste país.

Em 1980, os lobos vermelhos foram oficialmente declarados extintos na natureza. Pouco antes, alguns lobos vermelhos foram trazidos da natureza para o Zoológico e Aquário Point Defiance, em Tacoma, Washington, para serem criados sob cuidados humanos em um esforço para preservar a espécie. Em 1987, quatro pares reprodutores descendentes daqueles 14 animais originais foram soltos no Alligator River Wildlife Refuge (Refúgio de vida selvagem do rio Alligator), no leste da Carolina do Norte, como um experimento pioneiro de retorná-los a vida selvagem.

O lobo mais ameaçado do mundo

Houve alguns desafios iniciais. “Passamos muito tempo descobrindo os aspectos técnicos, como soltar um predador na natureza – coisas como canetas de aclimatação”, observa Tirpak. Mas a população cresceu constantemente. O pico atingiu cerca de 120 em 2012 e, entre 2004 e 2014, manteve-se estável em cerca de cem lobos vermelhos em várias matilhas de famílias.

Inicialmente, a reintrodução do lobo vermelho foi amplamente vista como um sucesso, “nada menos que um milagre biológico, político e sociológico”, como afirma o autor T. DeLene Beeland em O mundo secreto dos lobos vermelhos. Serviria como um modelo para a posterior reintrodução de lobos cinzentos em Yellowstone e Idaho, bem como para outras reintroduções de predadores em todo o mundo.

Mas a população de coiote em rápido crescimento na Carolina do Norte, combinada com a deterioração das relações com os habitantes locais e uma mudança nas estratégias de manejo de longa data, acabaria por contribuir para que a população selvagem de lobos vermelhos entrasse em queda livre.

Antes comuns em todo o centro-sul e leste dos Estados Unidos, as populações de lobo vermelho caíram vertiginosamente no início do século XX. Eles foram designados como “ameaçados de extinção” em 1967. Aproximadamente 20 a 25 lobos permanecem hoje em liberdade na Carolina do Norte.

Os esforços de recuperação na natureza começaram em 1987 no Alligator River National Wildlife Refuge. A população atual de lobos ocorre em cinco condados da Carolina do Norte.

Na década de 1990, um pequeno mas ruidoso grupo de caçadores e proprietários de terras, liderado por um incorporador chamado Jett Ferebee, que possui vários milhares de hectares adjacentes ao Refúgio dos Lagos Pocosin, começou a contestar ferozmente o programa de recuperação do lobo vermelho. Em sites, banners de aviões e outdoors em rodovias, Ferebee classificou isso como um “escândalo”, uma violação federal que infringia os direitos de propriedade das pessoas e custava milhões aos contribuintes. Os lobos vermelhos também foram acusados ​​de dizimar as populações locais de veados – embora nenhuma evidência dê suporte a essas afirmações.

Depois de atingir um pico de cerca de 120 lobos em 2012, a população diminuiu. Os lobos morrem principalmente por incidentes causados ​​por humanos, como tiros e batidas de veículos.

Christina Shintani, NGM Staff. Fonte: USFWS; WDPA; Kim Wheeler, Red Wolf Coalition.

Os cinco condados da área de recuperação do lobo vermelho estão entre os mais pobres do estado, com uma economia que depende da caça e da pesca e de outras atividades ao ar livre, que podem incluir o ecoturismo. Mas tem ocorrido um sentimento crescente de antigoverno na região. Um acordo judicial de 2014 proibiu a caça noturna de coiotes em uma tentativa de conter as mortes de lobos vermelhos, alimentando ainda mais a oposição aos lobos. (Pode ser difícil distinguir entre jovens lobos vermelhos e coiotes, e algumas pessoas achavam que era injusto não poderem caçar coiotes sem limitações.)

Em fóruns de caça online, os lobos vermelhos foram rotulados de “híbridos” e “mutantes”, o que é impreciso, uma vez que os zoológicos criam cuidadosamente os animais para manter a diversidade genética. Embora os lobos vermelhos possam se reproduzir e às vezes se reproduzam com coiotes, isso normalmente acontece quando não há companheiros de lobo vermelhos suficientes na natureza. Por um tempo, houve debates acadêmicos sobre a taxonomia do lobo vermelho, mas um estudo confiável da National Academy of Sciences em 2019 os declarou uma espécie distinta, Canis rufus, e digna de proteção federal.

Em 2015, a Comissão de Recursos da Vida Selvagem da Carolina do Norte aprovou resoluções que atrapalharam severamente os esforços do governo federal para manter a população. A agência parou de fomentar a geração de filhotes nessa época e também parou de esterilizar coiotes – um método eficaz para controlar seu número.

Inundado por pedidos para remover lobos, o Fish and Wildlife Service também concedeu algumas licenças para matar lobos em propriedades privadas, embora os lobos tenham matado apenas sete animais domésticos ao longo de 30 anos, e os proprietários foram indenizados. Depois de 2014, a população caiu de cerca de 100 para aproximadamente 20 no final de 2020, diz Madison.

Sierra Weaver, advogada da SELC, diz que até que o Fish and Wildlife Service cedesse à pressão e mudasse suas políticas, “eles tinham um plano de manejo muito bem-sucedido”. Reconhecendo o ímpeto mais recente para melhorar as relações com os habitantes locais, ela cita a necessidade de mais aplicação da lei. Apesar de vários lobos vermelhos terem sido mortos a tiros na última década, não houve nenhum processo contra os responsáveis.

Motivo de esperança

Assim como a criação de filhotes de lobo vermelho requer amplo planejamento e coordenação com os parceiros, o trabalho em equipe será essencial para os lobos vermelhos recuperarem o equilíbrio na natureza, diz Lasher. Avançando, Fish and Wildlife espera melhorar o alcance e aumentar a tolerância para os lobos vermelhos, incluindo um programa de incentivo a proprietários de terras recém-lançado, diz Madison. “Prey for the Pack” (Presa para a Matilha) ajudará os proprietários de terras com melhorias de habitat em troca de permitir que os lobos vermelhos vivam em suas terras.

“Este é um primeiro passo empolgante”, disse Ramona McGee, advogada da SELC, sobre as solturas recentes. “Mas é preciso fazer mais [já que] a população ainda é muito pequena.” Em 2019 e 2020, nenhuma ninhada nasceu na natureza. “É essencial garantir e facilitar [esta] reprodução”, acrescenta McGee.

De acordo com a ordem judicial, o serviço fornecerá atualizações regulares sobre seu trabalho e planos para futuras solturas. Neste verão, ele participará da reunião do Red Wolf Species Survival Plan, que reúne líderes de mais de 40 instalações que protegem e reproduzem os aproximadamente 250 lobos vermelhos atualmente sob cuidados humanos.

“Esperamos continuar esses esforços”, diz Madison, “e trabalhar em cooperação com as comunidades locais para angariar apoio para o nosso trabalho e a sobrevivência desta espécie notável.”

Fonte: National Geographic / Meaghan Mulholland
Tradução: Redação Ambientebrasil / Maria Beatriz Ayello Leite
Para ler a reportagem original em inglês acesse:
 https://www.nationalgeographic.com/animals/article/red-wolves-released-wild-north-carolina-hope-for-species