terça-feira, 3 de agosto de 2021

Fóssil de esponja de 890 milhões de anos pode ser o animal mais antigo já encontrado

 


Fóssil de esponja de 890 milhões de anos pode ser o animal mais antigo já encontrado

O FÓSSIL RETICULADO TERIA VIVIDO MAIS DE 300 MILHÕES DE ANOS ANTES DO ANIMAL MAIS ANTIGO ATUALMENTE CONHECIDO NA TERRA. CONTUDO, COMO MUITAS ALEGAÇÕES SOBRE FORMAS DE VIDA MUITO ANTIGAS, O ESTUDO DESPERTA UM GRANDE DEBATE.

Um curioso grupo de fósseis pode ser de esponjas primitivas — parentes da bela esponja da espécie Spongia officinalis mostrada na imagem — o que os tornaria os animais fossilizados mais antigos já encontrados.
FOTO DE RASMUS LOETH PETERSEN, ALAMY STOCK PHOTO

Parentes da humilde esponja-do-mar filtraram as águas da Terra por ao menos milhões de anos, muito antes do surgimento das primeiras plantas terrestres. Sua simplicidade levou cientistas a sugerir que as esponjas foram os primeiros animais a surgir em nosso planeta. Mas quando exatamente isso ocorreu continua sendo objeto de debate.

Agora, um estudo publicado na revista científica Nature sugere que estruturas reticuladas em um recife antigo podem ser esponjas de 890 milhões de anos. Se confirmado, as esponjas fósseis, encontradas em rochas calcárias de “Little Dal”, no noroeste do Canadá, seriam anteriores em mais de 300 milhões de anos aos mais antigos fósseis animais não contestados.

No entanto, a maioria das alegações de formas de vida fossilizadas extremamente antigas gera controvérsia. As criaturas que floresceram nos mares primitivos podem ter tido uma aparência bastante diferente daquelas que nadam pelos oceanos atuais, e não há consenso científico sobre o quanto e quais tipos de evidências podem distinguir animais de outras formas de vida — ou de estruturas geológicas. E os fósseis de Little Dal também não entram nesse consenso.

“É semelhante ao teste psicológico de Rorschach, mas com alguns rabiscos em uma rocha”, afirma Jonathan Antcliffe, paleontólogo especializado em vida primitiva da Universidade de Lausanne, na Suíça.

Durante uma entrevista pela plataforma Zoom, Elizabeth Turner, a única autora do estudo, mostra uma esponja da espécie Spongia officinalis de cor amarelo-mostarda — uma parente moderna da suposta esponja fóssil. Ela aponta a rede de tubos flexíveis que proporcionam sua característica esponjosa, explicando que a malha é “idêntica” à de fósseis analisados recentemente, bem como a de diversos fósseis reticulados mais novos identificados recentemente por outros cientistas.

“Parece evidente”, afirma Turner, geóloga de campo da Universidade Laurentian, em Ontário. Mas ela admite que a proposta de identidade animal é polêmica. “É hora de ser publicada e divulgada entre a comunidade científica para discussão e contestação.”

Fósseis suspeitos

Os fósseis recém-descritos foram localizados nas profundezas do imponente recife Little Dal. A estrutura foi formada em uma época em que mares superficiais e quentes inundaram uma vasta extensão de terra na atual região da América do Norte — o passar do tempo e a movimentação tectônica secaram os mares interiores e petrificaram os recifes. Ao contrário de muitos recifes modernos formados por corais, os arquitetos dessa estrutura antiga foram cianobactérias. Esses micróbios crescem em camadas viscosas, formando montes em camadas à medida que as areias se acumulam em suas superfícies aderentes e os minerais dissolvidos nas águas se transformam em pedaços sólidos como uma penugem.

Quando fossilizadas, as estruturas microbianas em camadas são conhecidas como estromatólitos. Alguns datam de 3,5 bilhões de anos atrás, contendo alguns dos primeiros vestígios convincentes de qualquer tipo de vida na Terra.

Turner começou a estudar Little Dal décadas atrás como aluna de graduação da Queen’s University em Ontário. Na época, ela estava interessada nos métodos de formação de recifes por cianobactérias. Mas uma série de amostras peculiares com estruturas complexas chamou sua atenção.

“Havia algo suspeito nelas”, conta Turner. O recife Little Dal é basicamente “apenas um conjunto irregular de laminações”, explica ela. No entanto algumas amostras incomuns da estrutura apresentavam formas tubulares ramificadas e unidas novamente em uma rede poligonal tridimensional. Ela não conseguia determinar o que eram as formas incomuns.

“Pensei em refletir sobre a questão com o tempo”, prossegue ela.

Nos últimos anos, entretanto, foram obtidos cada vez mais indícios da possível identidade das amostras. Em vários locais, os pesquisadores encontraram redes espiraladas com uma semelhança extraordinária com os possíveis fósseis em rochas muito mais recentes do que o recife Little Dal. Eles sugeriram que as formações de malhas ramificadas poderiam ser restos fósseis de um grupo de esponjas conhecido como keratosas.

Muitos esqueletos de esponjas são formados a partir de pequenas estruturas rígidas denominadas espículas, compostas por carbonato de cálcio ou sílica e com o formato de estrepes, dispositivos usados para furar pneus. Nos fósseis, as estruturas são sinais indicativos de esponjas antigas, mas as esponjas conhecidas como keratosas não possuem esses esqueletos rígidos. Em vez deles, sua estrutura esponjosa resulta das redes da proteína espongina, que apresenta uma textura flexível e elástica, ideal para sua exploração comercial moderna no banho.

Ao examinar fragmentos de rochas com a espessura de uma folha de papel ao microscópio, Turner comparou as semelhanças das formas e estruturas tubulares entre as amostras de Little Dal, fósseis anteriormente identificados como esponjas keratosas e esponjas modernas.

Décadas após ter observado as formas incomuns, Turner finalmente se sentiu pronta para publicar sua descoberta. “É um tributo à lentidão da ciência”, brinca ela.

Esponja ou algo mais?

O novo estudo se soma ao longo debate sobre quando surgiram os primeiros animais — e quais evidências são necessárias para confirmar que um fóssil seja animal. Nas últimas décadas, o uso de rastreadores geoquímicos da vida primitiva, conhecidos como biomarcadores, tornou-se comum para identificar possíveis criaturas, explica Keyron Hickman-Lewis, geobiólogo especializado em micróbios primitivos do Museu de História Natural de Londres. Restos fósseis de vários tipos de lipídios, por exemplo, são comumente usados como biomarcadores.

Contudo, desde então, segundo Hickman-Lewis, muitas dessas supostas evidências de vida primitiva se revelaram falsas. Alguns dos pretensos biomarcadores provavelmente foram devidos à contaminação, ao passo que outros sinais químicos não eram indicativos infalíveis de animais. Por exemplo, cientistas descobriram recentemente que uma combinação de algas e alterações geológicas poderia produzir os mesmos compostos identificados anteriormente como evidências de esponjas antigas extraídas de sedimentos de 635 milhões de anos em Omã.

Assim, após o grande entusiasmo inicial, Hickman-Lewis declarou: “temos uma forte suspeita de origem animal antiga”.

O estudo das redes de malhas de Little Dal promete acirrar ainda mais o debate. “Acredito que as evidências sejam convincentes”, afirma Robert Riding, revisor do estudo, da Universidade do Tennessee em Knoxville. Ele publicou recentemente um estudo documentando fósseis semelhantes associados a um estromatólito de aproximadamente 485 milhões de anos encontrado em Nova York.

A associação dessas esponjas com os recifes microbianos faria sentido, observa Turner. A atmosfera da Terra nem sempre foi rica em oxigênio, e a origem das esponjas é anterior ao período em que esse gás propício à vida se tornou abundante em todo o mar. Mas provavelmente teriam existido os chamados “oásis de oxigênio” em torno de recifes de cianobactérias, onde os micróbios fotossintéticos teriam gerado o oxigênio necessário às esponjas.

“A proximidade entre esses recifes e as supostas esponjas torna mais provável uma origem animal”, pondera Hickman-Lewis.

Outros especialistas estão menos convictos dessa origem, observando que a rede semelhante a uma esponja não é tão exclusiva do grupo quanto sugerido por Turner e outros. “Basicamente, todas as formas da vida — bactérias, algas, fungos, plantas, animais — podem criar estruturas semelhantes”, retruca Antcliffe.

Em uma análise de evidências das primeiras esponjas em 2014, Antcliffe e seus colegas concluíram que os fósseis de animais mais antigos e não contestados são espículas de esponja encontradas no Irã datadas de cerca de 535 milhões de anos atrás — e ele afirma que nenhum estudo recente o convenceu do contrário.

Muitas análises identificaram o que ele considera serem “vestígios vagos” de estruturas semelhantes a esponjas primitivas. Mas nenhuma apresenta características inquestionáveis, como espículas ou poros. Essa última característica foi fundamental para confirmar a identidade das tão debatidas esponjas conhecidas como arqueociatos, outro grupo sem espículas identificado em rochas de 523 milhões de anos.

Um dos desafios se resume à dificuldade de distinguir esponjas primitivas de outros animais, afirma Drew Muscente, paleontólogo e geobiólogo da Universidade de Harvard. Os dinossauros, por exemplo, possuem uma série de características ósseas distintivas — órbitas oculares, suturas cranianas e muito mais — que podem ajudar os cientistas a diferenciar seus fósseis de objetos inanimados. “Todos esses pequenos detalhes estão ausentes em uma esponja ou organismo semelhante a uma esponja”, explica ele.

Processos químicos abióticos, ou sem vida, também podem formar estruturas que parecem surpreendentemente semelhantes à vida, acrescenta Rachel Wood, geóloga da Universidade de Edimburgo especializada em rochas carbonáticas. “Ela pode ter razão. Mas acredito que é preciso explorar e refutar todas as demais possibilidades antes de fazer uma afirmação tão drástica como essa. “Então, por ora, Wood comenta: “acredito que ela errou ao afirmar que sejam esponjas”.

Somente uma análise mais aprofundada pode resolver a questão. Wood observa que a criação de modelos tridimensionais da rede tubular permitiria uma análise mais detalhada das estruturas. E Riding espera que o novo estudo inspire mais cientistas a analisar mais profundamente outros estromatólitos e a pesquisar mais dessas estruturas reticuladas.

“Acredito que essa história não acabe aqui”, observa Riding. “É apenas o começo de uma fase bastante interessante.”

Fonte: National Geographic Brasil

Incêndios causam mortes e devastação no sul da Europa

 


Incêndios causam mortes e devastação no sul da Europa

TURQUIA LUTA CONTRA PIORES INCÊNDIOS EM AO MENOS UMA DÉCADA. GRÉCIA ENFRENTA CHAMAS E ONDA DE CALOR HISTÓRICA, COM PREVISÃO DE 47 °C. FOGO TAMBÉM ASSOLA ITÁLIA E ESPANHA E FORÇA RETIRADA DE TURISTAS E MORADORES.

Bombeiros lutam contra o fogo em Manavgat, ao leste de Antalya, na Turquia

A União Europeia (UE) enviou ajuda para a Turquia nesta segunda-feira (02/08), e voluntários se juntaram a bombeiros na luta contra fortes incêndios que já duram seis dias e mataram oito pessoas no país. Em meio a uma onda de calor que atinge o sul da Europa, com temperaturas acima dos 40 °C, brigadistas também combatem chamas em partes da Grécia, da Itália e da Espanha.

Na Turquia, os piores incêndios florestais em ao menos uma década assolam regiões turísticas às margens do Mediterrâneo e do mar Egeu. As chamas forçaram residentes e turistas a deixarem casas e hotéis e destruíram vastas áreas de florestas, que especialistas estimam que podem levar décadas para se recuperar.

No domingo, moradores do vilarejo de Cokertme, por exemplo, tiveram que escapar de barco ou de carro à medida que o fogo se aproximava – cenas descritas pelo prefeito do resort próximo de Bodrum, Ahmet Aras, como “inferno”.

Autoridades turcas afirmaram que mais de cem focos de incêndio foram registrados em 35 cidades do país desde quarta-feira. Sete delas continuam em chamas nesta segunda. Serviços meteorológicos alertaram moradores para a qualidade do ar ruim.

No domingo, a UE anunciou que ajudou a mobilizar um avião da Croácia e dois da Espanha para ajudar a Turquia, os quais devem chegar ao país nestas segunda e terça.

Os termômetros em Antalya chegaram a marcar 42 °C, cerca de 5 a 6 °C acima da média.

Pessoas correm das chamas na região de Antalya

Calor vindo do Norte da África

A onda de calor alimentada por massas de ar quente do Norte da África causou dezenas de incêndios na costa mediterrânea, incluindo na ilha da Sicília e em outras partes da Itália.

Numa praia em Pescara, no leste do país, ao menos cinco pessoas ficaram feridas, e turistas foram removidos da área após as chamas devastarem árvores na reserva natural de Pineta Dannunziana. Cerca de 800 pessoas tiveram que deixar suas casas.

Mais de 800 focos de incêndio foram registrados ao longo do fim de semana, sobretudo no sul do país. “Nas últimas 24 horas, bombeiros realizaram mais de 800 intervenções: 250 na Sicília, 130 na Apúlia e na Calábria, 90 no Lácio e 70 na Campânia”, informaram os bombeiros no domingo.

No fim de semana anterior, mais de 20 mil hectares de florestas, oliveiras e plantações foram destruídos por um incêndio na Sardenha.

“Imensa catástrofe”

Na Grécia, vilarejos também foram evacuados e pessoas foram hospitalizadas com queimaduras e problemas respiratórios após um incêndio de grandes proporções ter início perto de Patras, no oeste do país, no sábado. Cerca de 20 casas foram destruídas pelo fogo. O prefeito do vilarejo próximo de Aigialeias, Dimitris Kalogeropoulos, descreveu o cenário como “uma imensa catástrofe”.

Vilarejos foram evacuados e pessoas foram hospitalizadas após um incêndio de grandes proporções ter início perto de Patras, na Grécia

Dezenas de casas, celeiros e estábulos também foram consumidos pelo fogo nos vilarejos de Ziria, Kamares, Achaias e Labiri. O resort de Loggos também foi evacuado.

Um grande incêndio que eclodiu na ilha de Rodes no domingo foi contido nesta segunda, mas em meio a uma forte seca e ventos fortes, o risco de novas chamas segue alto, segundo os bombeiros.

Dezenas de incêndios florestais foram registrados na Grécia durante este verão. Dados da UE apontam que 13.500 hectares já foram atingidos pelo fogo, bem acima da média de 7.500 neste período do ano, registrada entre 2008 e 2020.

Destruição após fogo em Labiri, perto de Patras

A onda de calor descrita por meteorologistas como histórica e que já dura quase uma semana deve continuar a assolar o país nos próximos dias, com a previsão de temperaturas de até 47 °C. Nos últimos dias, termômetros já marcaram mais de 40 °C durante o dia e mais de 30 °C durante a noite. O calor prolongado e o uso de ares-condicionados vêm deixando o sistema elétrico do país no limite.

Mudança climática

Na Espanha, dezenas de bombeiros apoiados por aviões lutaram no fim de semana contra um incêndio que eclodiu na reserva de San Juan, cerca de 70 quilômetros a leste de Madri. Autoridades pediram que as pessoas evitassem a área, popular entre banhistas da capital.

Dados da UE mostram que a temporada de incêndios deste ano tem sido significativamente mais destrutiva do que o habitual. As chamas são impulsionadas pelas temperaturas elevadas e ventos fortes, e especialistas afirmam que a mudança climática aumenta tanto a frequência quanto a intensidade dos incêndios.

Fonte: Deutsche Welle

sexta-feira, 30 de julho de 2021

O fungo e as bactérias que atacam os resíduos de plástico

 






O fungo e as bactérias que atacam os resíduos de plástico

Por acidente, Samantha Jenkins descobriu as propriedades de ingestão de plástico de um fungo. Fonte: S JENKINS.
Por acidente, Samantha Jenkins descobriu as propriedades de ingestão de plástico de um fungo. Fonte: S JENKINS.

Samantha Jenkins estava estudando vários tipos de fungo em um projeto de pesquisa para sua empresa, quando um dos fungos fez uma oferta pela liberdade.

“Imagine uma jarra cheia de grãos com uma espécie de caroço de cogumelo saindo do topo”, diz o engenheiro chefe de biotecnologia da empresa de bio-fabricação Biohm.

“Não parecia particularmente animador ou fascinante. Mas assim que foi aberto, foi muito, muito legal.”

O fungo havia comido a esponja de plástico que pretendia selá-lo, quebrando-o e assimilando-o como qualquer outro alimento.

O objetivo do projeto era avaliar uma série de cepas de fungos para uso em painéis de isolamento biológico, mas o fungo faminto os levou a outra direção.

A Biohm agora está trabalhando para desenvolver a cepa para torná-la um digestor ainda mais eficiente, o que poderia potencialmente ajudar com a questão dos resíduos de plástico.

Sob o microscópio é possível ver as bactérias digerindo o plástico. Fonte: BIOHM.

Não é segredo que o lixo plástico descartável é um grande problema: até 2015, de acordo com o Greenpeace, o mundo havia produzido 6,3 bilhões de toneladas de plástico virgem, dos quais apenas 9% foram reciclados. O resto foi queimado em incineradores ou despejado.

As coisas estão melhorando, com mais de 40% das embalagens de plástico recicladas na União Europeia, e uma meta de 50% até 2025.

Mas alguns tipos de plástico, como o PET (tereftalato de polietileno), amplamente utilizado para garrafas de bebidas, são difíceis de reciclar pelos meios tradicionais. Então, os métodos biológicos podem ser a resposta?

A Sra. Jenkins está testando seu fungo em PET e poliuretano.

“Você coloca plástico, os fungos comem o plástico, os fungos fazem mais fungos e daí você pode fazer biomateriais para comida, ou estoques de ração para animais, ou antibióticos.”

Outros também tiveram algum sucesso.

Uma versão ajustada da bactéria E. coli pode transformar o plástico em um condimento útil. Fonte: GETTY IMAGES.
Uma versão ajustada da bactéria E. coli pode transformar o plástico em um condimento útil. Fonte: GETTY IMAGES.

Cientistas da Universidade de Edimburgo usaram recentemente uma versão projetada em laboratório da bactéria E. coli para transformar o ácido tereftálico, uma molécula derivada do PET, no aromatizante culinário de vanilina, por meio de uma série de reações químicas.

“Nosso estudo ainda está em um estágio muito inicial e precisamos fazer mais para encontrar maneiras de tornar o processo mais eficiente e economicamente viável”, disse a Dra. Joanna Sadler, da Escola de Ciências Biológicas da universidade.

“Mas é um ponto de partida realmente empolgante e há potencial para que isso seja comercialmente prático no futuro, depois que novas melhorias no processo forem feitas.”

Enquanto isso, uma equipe do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental-UFZ em Leipzig está usando uma bactéria originalmente encontrada em um depósito de lixo local para quebrar o poliuretano.

Chamada de Pseudomonas sp. TDA1, a bactéria consome cerca de metade do plástico para aumentar sua própria biomassa, sendo o restante liberado como dióxido de carbono.

Como outros organismos comedores de plástico, Pseudomonas decompõe o poliuretano usando enzimas; e a equipe já realizou uma análise genômica da bactéria com o objetivo de identificar os genes específicos que codificam para essas enzimas.

Mas alguns questionam se tais técnicas algum dia serão comercialmente viáveis.

“A conversão enzimática ou microbiana de PET em seus blocos de construção constituintes é uma ciência interessante e precisa ser explorada. No entanto, a tecnologia terá que competir com outras tecnologias de conversão comerciais comprovadas, usando sistemas catalisadores de água comuns e menos empolgantes”, disse o Prof Ramani Narayan da Universidade Estadual de Michigan.

Carbios usa enzimas para quebrar PET. Fonte: CARBIOS.
A Carbios usa enzimas para quebrar PET. Fonte: CARBIOS.

O mais avançado no caminho para a comercialização é provavelmente a Carbios, uma empresa francesa que usa uma versão projetada de uma enzima originalmente encontrada em uma pilha de composto para quebrar o PET.

Depois de se associar a alguns grandes nomes em produtos de consumo, incluindo L’Oreal e Nestlé, a empresa anunciou recentemente que produziu as primeiras garrafas de plástico PET de grau alimentício do mundo, produzidas inteiramente de plástico reciclado enzimaticamente.

E, ao contrário da maioria dos métodos de reciclagem, as enzimas podem lidar com PET colorido.

“Com métodos tradicionais, como a reciclagem mecânica, para fazer um produto final adequado para garrafas transparentes, você precisa de garrafas transparentes como insumo”, disse o vice-presidente-executivo Martin Stephan.

“Com nossa tecnologia, qualquer tipo de resíduo PET é reciclado em qualquer tipo de produto PET.”

A Carbios afirma que sua tecnologia pode transformar resíduos em qualquer tipo de produto PET. Fonte: CARBIOS.
A Carbios afirma que sua tecnologia pode transformar resíduos em qualquer tipo de produto PET. Fonte: CARBIOS.

No entanto, as garrafas produzidas por esse processo são quase duas vezes mais caras do que as que usam petroquímicos.

Ainda assim, Stephan diz que a tecnologia tem potencial para se equiparar aos baixos custos das garrafas feitas tradicionalmente.

O Dr. Wolfgang Zimmermann, do Instituto de Química Analítica da Universidade de Leipzig, acredita que a técnica da Carbios é promissora.

“As enzimas podem ser muito úteis porque são muito específicas e também não ligam para a contaminação, se a embalagem ainda estiver suja. E não consomem muita energia.

“Um outro ponto é que pode ser ampliado e reduzido convenientemente. As enzimas teriam a vantagem de poderem consistir em pequenas unidades que teriam uma baixa pegada de carbono e poderiam estar fora das áreas metropolitanas em países em desenvolvimento ou lugares remotos.”

Porém, ele acredita que elas não são uma solução universal.

O PET é difícil de reciclar e costuma ser enviado a países em desenvolvimento para processamento. Fonte: GETTY IMAGES.
O PET é difícil de reciclar e costuma ser enviado a países em desenvolvimento para processamento. Fonte: GETTY IMAGES.

“As garrafas PET podem ser recicladas usando esta enzima de volta para as novas garrafas, mas infelizmente as garrafas PET são muito cristalinas e muito resistentes à degradação da enzima, então a empresa teve que introduzir um pré-tratamento onde eles realmente colocam uma grande quantidade de energia extra para derreter o material e extrudá-lo para reduzir a cristalização”, diz ele.

“Depois disso, você pode degradá-lo com a enzima – mas economicamente, e também em termos de pegada de carbono, isso não faz muito sentido na minha opinião.”

E embora as coisas possam melhorar, a reciclagem enzimática atualmente tem um alcance muito limitado, como admite Stephan.

“Desenvolvemos tecnologias para o fim de vida de apenas dois poliésteres, que representam cerca de 75 milhões de toneladas de produção anual, em comparação com uma produção global de plásticos de cerca de 350 milhões de toneladas”, diz ele.

“Temos muito trabalho pela frente.”

Fonte: BBC News / Emma Woollacott
Tradução: Redação Ambientebrasil / Maria Beatriz Ayello Leite
Para ler a reportagem original em inglês acesse:
 https://www.bbc.com/news/business-57733178