quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Mais de um quarto da produção de ouro no Brasil é irregular

 

Mais de um quarto da produção de ouro no Brasil é irregular

Estudo da UFMG e do MPF evidencia cadeia de mineração ilegal no país. Em apenas dois anos, foram vendidas ao menos 48,9 toneladas de ouro com evidências de ilegalidade, o que corresponde a 28% de toda a produção.

Na Amazônia, evidências de ilegalidade chegam a 44% da produção aurífera, segundo Raoni Rajão, líder do estudo

As ilegalidades na produção brasileira não se limitam ao cultivo de soja em regiões desmatadas ilegalmente ou à pecuária em áreas de proteção ambiental, mas afetam também a mineração. Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aponta que pelo menos 28% do ouro produzido no Brasil em apenas dois anos, e vendido com certificado da Agência Nacional de Mineração (ANM), tem evidências de ilegalidade.

“Na Amazônia, as evidências são ainda mais graves: 90% da produção aurífera ilegal do Brasil provem de lavras garimpeiras na Amazônia”, afirma Raoni Rajão, que coordenou o estudo intitulado Legalidade da produção de ouro no Brasil, uma parceria com o Ministério Público Federal (MPF).”

Segundo os pesquisadores, nos anos de 2019 e 2020, 174 toneladas de ouro foram negociadas. Desse total, 38% vieram de origem desconhecida, 28% foram identificadas como irregulares (ilegais ou potencialmente ilegais), e 34% aparentemente tiveram origem legal.

O estudo evidencia a falta de fiscalização e controle da cadeia de produção aurífera no Brasil, e vincula desmatamento e violações de Terras Indígenas (TIs) à produção ilegal de ouro.

Segundo a pesquisa, 21 mil hectares de Floresta Amazônica foram desmatados para mineração entre 2019 e 2020, sendo a grande maioria no estado do Pará. Desses 21 mil desmatados, ao menos 5 mil hectares ocorreram em terras indígenas homologadas, ameaçando assim os povos originários que vivem na Amazônia, como os Kayapó, Yanomami e Munduruku.

A produção de ouro segue caminhos já observados num estudo anterior feito pela equipe: “Nós já tínhamos feito um outro estudo, publicado na revista Science, The rotten apples of Brazil’s agribusiness [As maçãs podres do agronegócio brasileiro], que foi exatamente uma tentativa exitosa de sair da análise sobre desmatamento e ilegalidade na produção agrícola no nível de município e chegar no nível de transações individuais”, diz Rajão, que é professor associado de Gestão Ambiental e Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia no Departamento de Engenharia de Produção da UFMG.

Seguindo a mesma lógica, o novo estudo se concentrou agora na produção e rastreabilidade de ouro no Brasil. “Como no estudo anterior, em que o primeiro passo foi distinguir desmatamento legal e ilegal, fizemos o mesmo com a cadeia do ouro, neste caso em colaboração com o Ministério Público Federal, que já tem uma série de investigações em andamento sobre a questão do ouro ilegal”, afirma o pesquisador, em entrevista à DW Brasil.

Cruzamento de dados com imagens de satélite

Como base para a análise, foram usadas as 17.500 transações de venda de ouro realizadas em 2019 e 2020, registradas na Agência Nacional de Mineração, totalizando 174 toneladas de ouro.

“O que chamou a atenção foi que 38% da produção de ouro não tinha uma localização específica nos mapas da ANM, sendo que é obrigatório ter a localização”, afirma Rajão. Mas como a maioria dessas ausências são em Minas Gerais e Goiás, que têm minas mais antigas e empresas maiores, o estudo descartou essas produções, já que não havia como comprovar a origem ilegal.

Nos casos em que havia a localização indicada, foi feito um cruzamento deste dado com imagens de satélite da região especificada. Quando realmente existia uma área de produção de ouro naquela região, restrita à área autorizada, a produção oriunda dali foi considerada legal. “Pode ser que o ouro, na verdade, tenha vindo de outro lugar. Mas não temos evidência de irregularidades.”

Em relação aos casos de produção identificados como irregulares, foram consideradas algumas questões: por exemplo, quando as imagens de satélite não apontaram qualquer atividade de mineração na região especificada na transação. “Então, certamente, [o ouro] foi produzido em outro lugar”, explica Rajão.

O estudo também considerou como produção irregular quando a área indicada no registro era uma região não autorizada para mineração, ou seja, quando o ouro vem de um garimpo ilegal.

“Em alguns casos, até encontramos uma autorização para a produção, mesmo se tratando de uma área não autorizada. O que mostra, inclusive, a incapacidade do órgão do Ministério de Minas e Energia em verificar a própria legislação brasileira sobre o assunto”, diz o pesquisador.

Entre as produções com evidências de irregularidades há ainda as consideradas “potencialmente ilegais” – quando uma produção legal invade uma área não autorizada. “Ou seja, quando existe uma chance de o ouro ter sido produzido, na verdade, fora da área de concessão.”

Todas essas categorias apontadas como irregulares compõem 28% da produção aurífera total no Brasil, o que corresponde a 48,9 toneladas de ouro. “Mas a prevalência de ilegalidade pode ser até bem maior”, alerta Rajão. Olhando apenas para a Amazônia, o quadro é ainda mais grave. “Do ouro produzido na Amazônia, 44% tem evidência de irregularidade”, conclui.

Para onde vai o ouro?

Segundo Rajão, o Brasil exporta mais ouro do que legalmente produz. Ao todo, 72% do ouro exportado vai para o Canadá, Reino Unido e Suíça. Ou seja, “existe uma chance muito grande de que boa parte desse ouro ilegal esteja indo para esses três países, além de outros países como Índia e Emirados Árabes”.

O pesquisador cobra, assim, uma fiscalização mais detalhada por parte dos compradores internacionais, como já é exigido nos Estados Unidos.

Outra opção seria a criação de um selo, emitido pelos estados brasileiros, que indica a origem legal, como é feito na produção agrícola através do código CAR (Cadastro Ambiental Rural), para verificar o título minerário do ouro.

Inação do governo

Uma vez que os dados usados no estudo estão disponíveis publicamente, a ausência de ações do governo para inibir a produção ilegal de ouro é uma incógnita para o professor da UFMG.

“Se nós, pesquisadores, com base em dados disponíveis publicamente, já conseguimos ver quase 30% da produção com evidências de ilegalidade, como é que o governo, que tem muito mais informações, não consegue ver isso e não toma as providências?”, questiona Rajão.

Com base no estudo, o Ministério Público Federal entrou, em julho deste ano, com uma ação civil pública contra a Agência Nacional de Mineração e o Banco Central do Brasil, que são as agências responsáveis pela fiscalização.

Fonte: Deutsche Welle

O que está ao nosso alcance diante da iminente crise climática?

 

O que está ao nosso alcance diante da iminente crise climática?

Com base no último relatório do IPCC, especialista da TNC Brasil analisa as evidências e possíveis soluções para mitigar os efeitos das mudanças climáticas

Incêndio na Califórnia (EUA), em 2021 (Foto: CALFIRE_Official)

Em meio a tantas notícias de desordem mundial, a divulgação do relatório Mudanças climáticas 2021: a base científica, com cenários catastróficos em nível global projetados para um futuro cada vez mais próximo, acabou passando quase despercebida pela população em geral. Aprovado por 195 estados membros membros do grupo de especialistas do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC), o relatório foi elaborado a partir de mais de 14 mil artigos científicos.

Segundo o documento, o aumento de 1,5ºC da temperatura na superfície da Terra em comparação ao período pré-industrial será atingido em até duas décadas, independentemente do cenário considerado. Se as emissões de gases de efeito estufa (GEE) não forem reduzidas nos próximos anos, isso poderá acontecer ainda mais cedo.

O IPCC trabalhou em cinco cenários diferentes, do mais otimista ao mais sombrio. Em todos os cinco casos, o aumento da temperatura global chegaria a 1,5 ou 1,6ºC por volta de 2040, uma década antes do estimado pelo Painel há apenas três anos. Na ausência de reduções imediatas, rápidas e em grande escala das emissões de GEE, é possível ainda um aumento de 2ºC ou pouco mais.

Todas as regiões do mundo estão em risco. Cada 0,5ºC adicional de aquecimento resultará em um aumento na intensidade e na frequência dos eventos extremos. Globalmente, precipitação diária intensa e consequentes inundações devem aumentar em cerca de 7% para cada 1 grau de aquecimento global. Em altas latitudes, espera-se que a precipitação aumente; já nas latitudes menores, onde se localiza todo território brasileiro, deve diminuir.

Evidências não faltam para essas projeções: 1) na última década, a temperatura média global na superfície da Terra foi 1,09ºC superior à de 1850-1900 ; 2) os últimos cinco anos foram os mais quentes já registrados desde 1850; 3) a recente taxa de aumento do nível do mar quase triplicou em comparação com o período de 1901 a 1971; 4) a influência humana é “muito provavelmente” (probabilidade de 90%) o principal fator pelo derretimento de geleiras desde a década de 1990 e pela diminuição do gelo marinho do Ártico; 5) é “praticamente certo” que os extremos de calor se tornaram mais frequentes e intensos desde a década de 1950, enquanto os episódios de frio se tornaram menos frequentes e menos severos.

Tampouco faltam exemplos reais: ondas de calor extremo como as observadas nas últimas semanas nos países ao longo do Mediterrâneo e no oeste da América do Norte, com a temperatura alcançando 49,6ºC no Canadá; ou inundações como as que tomaram parte da Alemanha e da China; e ainda secas e incêndios florestais cada vez mais intensos e extensos na Califórnia, no Brasil e até na Sibéria.

Na ausência de reduções imediatas, rápidas e em grande escala das emissões de GEE, é possível um aumento de 2ºC ou pouco mais. (Foto: Pixabay)

Tudo isso acompanhado por perdas de vidas humanas e da fauna, aumento de problemas cardiorrespiratórios, quebras de safra e aumento do preço dos alimentos, falta de água e custo energético elevado, danos materiais e morais, entre muitos outros problemas. Ou seja, as mudanças climáticas já estão afetando o nosso dia a dia. No entanto, ainda estamos vivenciando apenas uma amostra atenuada do que pode acontecer.

Sem as alterações no clima, alguns desses eventos ocorreriam devido a outros fenômenos naturais. Mas não todos e tantos quase simultaneamente ou com tamanha intensidade. Para se ter ideia, o recorde de temperatura atingido em 2021 no Canadá, um país de clima temperado a polar, é 5ºC mais elevado que a marca anterior do país, registrada em 1937, e 5ºC maior que o recorde brasileiro, registrado em novembro de 2020 em Nova Maringá, no Mato Grosso.

Com o aumento projetado de 1,5ºC, haverá mais ondas de calor, estações quentes mais longas e estações frias mais curtas. A 2ºC, de acordo com o relatório, extremos de calor atingirão mais frequentemente limites críticos para agricultura e saúde, ciclones e tempestades tropicais devem se intensificar e eventos extremos simultâneos devem se tornar mais repetidos.

O nível médio global do mar em comparação com o período de 1995 a 2014 poderia aumentar de 0,28 a 0,55 metro no caso de emissões de GEE muito baixas, ou mesmo de 0,63 a 1,01 metro num cenário de emissões muito altas, resultando em inundações e erosão mais frequentes e severas em áreas costeiras. E a Amazônia, hoje fundamental para ações de mitigação climática, pode atingir o ponto de não retorno (o tipping point), perdendo suas características de floresta densa e sempre verde.

Número de alertas de desmatamento na Amazônia em 2021 é o segundo maior desde 2016 (Foto: Fotos Públicas)

Embora este relatório seja mais claro e contundente sobre as mudanças climáticas e suas consequências, os cientistas têm mais esperança de que, se as emissões globais forem reduzidas pela metade até 2030 e chegarem a zero líquido em meados do século, seremos capazes de parar, ou até mesmo reverter, o aumento das temperaturas.

O alcance de emissão zero líquida envolve a redução das emissões de GEE por meio de tecnologias limpas, redução do desmatamento e da degradação florestal, desenvolvimento de técnicas de captura e armazenamento de carbono em escala; e do sequestro de CO2 com o plantio de árvores e adoção de práticas de melhor manejo de solos. Nesse contexto, o Brasil, como detentor da maior área de floresta tropical do mundo e com milhões de hectares de áreas degradadas e abandonadas, sem nenhum retorno econômico ou social, tem uma contribuição protagonista a oferecer.

Mas, acima de tudo, a remoção de GEE da atmosfera requer vontade e coesão política em nível mundial. Mesmo que essa remoção ocorra de forma efetiva e rápida, a estabilização das temperaturas globais pode levar de 20 a 30 anos. Alguns dos impactos das mudanças climáticas até o momento, como perdas de geleiras e aumento do nível do mar, no entanto, já são “irreversíveis” ao longo de décadas, até milênios.

Por outro lado, o cenário pode ser ainda pior se os tomadores de decisão continuarem a ignorar as mudanças climáticas ou a adotar medidas limitadas de combate, priorizando unicamente a defesa de interesses econômicos a curto prazo.

Fonte: Galileu

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro reconhece direito de alunos que se recusam a fazer pesquisa usando animais

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Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro reconhece direito de alunos que se recusam a fazer pesquisa usando animais

Em decisão histórica, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro reconhece direito de alunos que se recusam a fazer pesquisa usando animais

Em 2007, o estudante de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Róber Bachinski, decidiu entrar na justiça para que ele conquistasse o direito de não ser obrigado a participar de aulas em que houvesse sacrifício ou dissecação de animais. No processo contra a instituição, que ganhou atenção nacional, ele alegava ser inconstitucional a obrigação de assistir às aulas que contrariem seus princípios éticos. O termo jurídico usado para isso é “objeção de consciência“. Sete anos depois, em 2014, ele se tornou o primeiro brasileiro a ganhar o prêmio internacional Lush, por suas pesquisa para o desenvolvimento de métodos alternativos ao uso de animais em testes.

Quase 15 anos após a batalha judicial de Bachinski, numa decisão histórica, outra universidade brasileira, a Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), decidiu reconhecer o direito dos estudantes à objeção de consciência. No texto aprovado no dia 30 de julho, a instituição reconhece que esse é um “direito fundamental, garantido constitucionalmente, de uma pessoa não se ver obrigada a fazer algo que lhe fira a consciência. No caso dessa norma, a objeção de consciência consiste no direito de discentes não se submeterem a processos educativos que se utilizam de animais vivos por métodos não curativos ou mortos e suas partes, a não ser os de origem ética com sua respectiva documentação que assim os comprove”.

Ainda de acordo o regulamento aprovado pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFRRJ, coordenações de cursos, chefias de departamento e demais instâncias acadêmicas são estimuladas a fazer uma divulgação ampla desse direito dos estudantes, sobretudo, para aqueles que estão entrando na universidade agora. Para quem tiver interesse em requisitar este direito, é necessário preencher um formulário, no semestre anterior ao que irá cursar a disciplina, e entregá-lo na secretaria da coordenação do curso.

A UFRRJ garante que irá incentivar a produção e eventual compra de sistemas e métodos substitutivos ao uso de animais.

“A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro incorporou essa possibilidade à sua rotina didática. É inédita essa normatização, ainda mais numa instituição federal, e isso é um precedente maravilhoso que estimula outras universidades a criarem essa sistemática”, afirma Maurício Varallo, diretor da ONG Olhar Animal.

Ele acredita também que a decisão fará com que estudantes também exijam o direito perante as suas instituições de ensino. “É o sinal dos tempos, uma mudança muito importante. Vale destacar que ela foi resultado do ativismo e dos esforços de defensores dos direitos humanos e animais”.

No começo deste ano, como mostramos nesta outra reportagem, cientistas israelenses criaram um medicamento contra o câncer sem usar animais em testes. Os pesquisadores da Hebrew University de Jerusalém usaram uma tecnologia com um chip contendo tecido humano com sensores microscópicos, que permite o monitoramento preciso da resposta do sistema imune ao tratamento.

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Foto: Ricky Kharawala on Unsplash

Um dos ‘hotspots’ de biodiversidade do mundo, Cerrado pode entrar em colapso em menos de 30 anos devido ao agronegócio

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Um dos ‘hotspots’ de biodiversidade do mundo, Cerrado pode entrar em colapso em menos de 30 anos devido ao agronegócio

Um dos 'hotspots' de biodiversidade do mundo, Cerrado pode entrar em colapso em menos de 30 anos devido ao agronegócio

Por Fernanda Wenzel* – O bioma do Cerrado, um dos hotspots de biodiversidade do mundo e fonte vital para grande parte da água no Brasil, pode entrar em colapso em menos de 30 anos se o agronegócio continuar avançando no ritmo atual. Esta é a descoberta fundamental de um artigo baseado em pesquisas primárias apresentado por 12 cientistas brasileiros e publicado recentemente na revista Global Change Biology.

“Estamos falando de linhagens inteiras de vida que desaparecerão, sem mencionar vários insetos que existem apenas no Cerrado”, alerta Gabriel Hofmann, doutor em Ecologia e estudante de pós-graduação em Geografia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Hofmann é o autor principal de um novo estudo que analisa como a transformação da vegetação nativa em lavouras está acelerando as mudanças climáticas em um bioma que já teve quase metade de sua área convertida em plantações de soja, milho e algodão e pastos para gado.

A maior parte da rápida escalada do desmatamento aconteceu após os anos 1990, quando produtores do agronegócio se concentraram numa parte do bioma que apelidaram de Matopiba – acrônimo que reúne as sílabas iniciais de quatro estados: Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Hoje, a região é o coração da nova fronteira agrícola brasileira.

Um dos 'hotspots' de biodiversidade do mundo, Cerrado pode entrar em colapso em menos de 30 anos devido ao agronegócio
Rã-quatro-olhos (Physalaemus nattereri): uma das espécies nativas do Cerrado cujo futuro está em risco / Foto: Felipe Gomes/ Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.5)

Uma savana mais quente e mais seca

O Cerrado de hoje é bem mais quente e seco do que no passado, conclui o artigo a partir de análises de temperatura e mudanças na precipitação ao longo de seis décadas. Aumentos de 2,24 °C em média nas temperaturas máximas mensais foram observados entre 1961 e 2019, com picos de 4 °C no mês de outubro. Se esta tendência persistir, a temperatura será 6 °C mais alta em 2050 em comparação com 1961, afirma o artigo.

“As mudanças climáticas por si só já têm este efeito (quente e seco) sobre a região. O que estamos fazendo é ampliar este efeito expandindo as áreas de plantações, como a soja, e reduzindo a cobertura de vegetação nativa”, diz Francisco Aquino, professor de Geografia da UFRGS e um dos autores do estudo.

No artigo, os pesquisadores argumentam que a interferência humana está perturbando uma estratégia eficiente da natureza, em que, durante os meses de pouca ou nenhuma chuva, as árvores do Cerrado usam suas raízes profundas para buscar água em aquíferos a até 15 metros de profundidade no subsolo.

Isso permite que as plantas continuem realizando fotossíntese e soltando água na atmosfera através da transpiração e da evaporação, mesmo na estação seca.

Esse mecanismo, explica Hofmann, desaparece com o avanço do agronegócio e a substituição da vegetação por grandes lavouras: “Na estação seca, os fazendeiros não plantam nada no Cerrado. Eles deixam o solo nu ou (coberto) com matéria orgânica morta. Como não há plantas para absorver a energia do sol e fazer fotossíntese, toda essa energia é usada para aquecer o ar, e a temperatura aumenta”.

Esse processo de esquentar e secar desencadeia um efeito cascata que pode acabar com a maior parte da biodiversidade do Cerrado. Plantas menores, que não têm raízes longas, dependem do orvalho como sua única fonte de água na estação seca.

O orvalho costuma se formar à noite, quando as temperaturas mais baixas condensam a umidade atmosférica (que passa para o ar através da transpiração e evaporação das árvores de raízes profundas). Mas agora, com menos árvores e menos vapor de água no ar, além de temperaturas mais altas durante o dia e a noite, o orvalho é um fenômeno cada vez mais raro. “Essas plantas vão simplesmente torrar ao sol”, diz Hofmann.

Insetos, incluindo abelhas e formigas e aranhas também são muito dependentes do orvalho como fonte de água. “Se tirarmos os insetos polinizadores, o ecossistema entra em colapso”, conclui Hofmann, que prevê grandes impactos na biodiversidade do Cerrado nos próximos 30 anos.

Um dos 'hotspots' de biodiversidade do mundo, Cerrado pode entrar em colapso em menos de 30 anos devido ao agronegócio
Para muitos dos insetos e plantas nativas do Cerrado, como a Gaylussacia brasiliensis vista aqui, o orvalho é a única fonte de água na estação seca. Com menos umidade no ar e temperaturas mais altas, a formação de orvalho diminui, desencadeando um efeito cascata que pode levar ao colapso da biodiversidade do bioma / Foto: Ruy Walka Alves

“Poderemos ver o Cerrado se transformar em algo muito parecido com um deserto”, alerta Tércio Ambrizzi, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo, que não esteve envolvido no estudo. Ambrizzi, que estuda as mudanças climáticas na América do Sul, diz que as descobertas da equipe de pesquisadores de Hofmann confirmam as previsões que ele e outros pesquisadores fizeram oito anos atrás para o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.

“Essas descobertas mostram que teremos menos chuvas no Norte e no Nordeste, portanto o Cerrado será mais quente e seco e mais vulnerável a incêndios”, diz Ambrizzi. Em 2019, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registrou 63.874 focos de incêndio no Cerrado – um aumento de 61,92% em relação ao ano anterior. O número de incêndios permaneceu alto em 2020.

Em 2017, Bernardo Strassburg, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, alertou para o que chamou de “tempestade perfeita”: o encontro dos impactos da expansão do agronegócio, o desenvolvimento de infraestrutura, a fraca proteção legal da terra e incentivos limitados à conservação.

De acordo com o artigo que publicou na época, as áreas públicas protegidas cobriam apenas 7,5% do bioma (em comparação com 46% na Amazônia).

Além disso, a moratória da soja, acordo segundo o qual as companhias de commodities se comprometem a não comprar soja de terras recentemente desmatadas na Amazônia Legal, não se aplica ao Cerrado. Tentativas de fazer com que as empresas concordem com uma moratória semelhante para a savana, conhecida como o Manifesto do Cerrado, fracassaram em grande parte.

“O quadro que vemos é bem pior”, escreveu Strassburg. Se nada mudar, ele estima que mais de 30% da vegetação nativa remanescente do Cerrado seja removida para dar lugar à agricultura até 2050, resultando possivelmente na extinção de 480 espécies endêmicas de plantas; isso equivale a mais de três vezes todas as extinções de plantas documentadas desde o ano 1500”.

A vegetação do Cerrado é composta por gramíneas e árvores com raízes profundas que podem buscar água a até 15 metros de profundidade no subsolo. Quando essas árvores são removidas para dar lugar a grandes lavouras, há menos umidade lançada no ar, levando a um aumento das temperaturas e agravamento da seca / Foto: Gabriel Hofmann

Fontes de recursos hídricos em risco 

No fim de junho, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, falou em rede nacional de televisão para pedir o uso “consciente e responsável” de água e energia no país, que enfrenta a pior seca em quase um século.

Essa seca é uma péssima notícia para um país que gera 65% de sua eletricidade a partir de hidrelétricas. No nível individual, ela já significa um aumento nas contas de energia e até o risco de blecautes. A seca e os danos que ela traz à agricultura também representam uma ameaça à economia do país, que luta para se recuperar da pandemia de covid-19, na qual mais de meio milhão de brasileiros já morreram (579.330 óbitos, em 29/8/2021, segundo o Consórcio de Veículos de Imprensa, com dados das secretarias de saúde dos estados).

De acordo com cientistas, uma parte substancial da crise se deve à interferência humana. Em primeiro lugar, existem as mudanças climáticas causadas pelo homem, que tornam o país bem mais quente e seco. Além disso, outra parte importante do problema é que o Brasil está ameaçando gravemente suas duas principais fontes de recursos hídricos.

“Se preservarmos a Amazônia e o Cerrado, preservaremos as fontes de água em geral. Estamos falando de duas áreas extremamente importantes, e ambas têm sido desmatadas, queimadas ou alteradas”, explica Aquino.

A Amazônia é onde os chamados “rios aéreos” da América do Sul se originam: correntes atmosféricas de umidade que partem das florestas tropicais e se dirigem ao sul e sudeste do país, onde se transformam em precipitação. Essas regiões, por sua vez, abrigam até um terço da população do país, e são as maiores vítimas da seca recorde de 2021.

Assim como o Cerrado, a Amazônia também vê sua vegetação nativa encolher ano após ano com o desmatamento, que reduz o fluxo dos rios aéreos. Entre janeiro e julho de 2021, um total de 5.100 quilômetros quadrados de floresta foram perdidos, de acordo com o Inpe – uma área maior que três vezes a extensão do município de São Paulo.

O desmatamento tem crescido em velocidade acelerada sob o governo do presidente Jair Bolsonaro.

A vocação do Cerrado de fornecer grãos para o Brasil e o mundo depende diretamente da sua riqueza hídrica – cada vez mais em risco em decorrência do desmatamento e das mudanças climáticas. Na imagem, cachoeira na Chapada dos Veadeiros (GO). Foto: Max Moura Wolosker

Já o Cerrado é fonte de oito das doze bacias hidrográficas do país. Isso se deve em parte à topografia da savana, que se estende sobre o Planalto Brasileiro: a chuva que cai sobre o platô alimenta rios que fluem a jusante para as regiões de menor altitude, incluindo o Pantanal, a maior planície alagada do mundo.

“Se houver menos umidade e chuva no Cerrado, não haverá água para os rios e não teremos fornecimento de água para a população (do país). É catastrófico”, alerta Hofmann.

Os problemas hidrológicos do Cerrado também pressagiam tempos difíceis para o agronegócio brasileiro, e também para o fornecimento de alimento para humanos e animais do planeta.

O Brasil é hoje o maior produtor de soja do mundo, ultrapassando recentemente os Estados Unidos. O país fornece soja para países do mundo inteiro, incluindo a China, outras partes da Ásia e a União Europeia. Assim, o Cerrado é a região brasileira fundamental e insubstituível para a produção de soja.

De acordo com estudo publicado recentemente na revista científica World Development e assinado por cientistas do Brasil, Estados Unidos e Áustria, o aumento das temperaturas no Cerrado pode reduzir a produtividade da soja a um custo de US$ 4,5 bilhões por ano.

Os impactos mais devastadores, dizem os especialistas, podem não ser sentidos pelo agronegócio, mas por aqueles que não têm dinheiro para se adaptar às mudanças climáticas.

“Os grandes produtores de soja podem reduzir o ciclo de suas plantações para evitar a estação seca, ou podem investir em caros sistemas de irrigação. Os mais afetados, contudo, serão as comunidades tradicionais e agricultores familiares, que são aqueles que produzem alimentos para a sociedade”, diz Hofmann.

*Este texto foi publicado originalmente no site Mongabay Brasil, em 19/8/2021

Foto: Max Pixel/Domínio Público (Coruja em uma plantação de soja no Cerrado)

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