Capitão
Moore, que descobriu a mancha de resíduos no pacífico, alerta que
epidemias de obesidade e diabetes tipo 2 estão associadas ao uso
intensivo dos plásticos
porLiana MeloAtualizada em 11 de junho de 2018 , 14:03
Denúncia de lixo no mar, não importa onde aconteça é problema (Sergio Hanquet/Biosphoto/AFP)
Os peixes e outros animais marinhos que nadam no Oceano Pacífico
andam se alimentando de uma sopa intragável, que boia a 1,6 mil
quilômetros da costa entre a Califórnia e o Havaí: uma mistura de
plástico com plânctons e mais uma enorme quantidade de lixo. É uma dieta
pouco saudável e que vem sendo ingerida há anos. A sopa só aumenta de
tamanho, desde que, há duas décadas, foi descoberta, por acaso, pelo
capitão Charles Moore. Da imagem perturbadora do lugar, que batizou, à
época, de “mancha de lixo”, Moore se transformou em ativista, criou duas
ONGs ambientais, a Algalita Manine Research Foundation e a Long Beach
Organic, e virou um pessimista assumido.
“Usem menos plástico”, bradou, em alto e bom som, capitão Moore no
palco do 1º Congresso Internacional Cidades Lixo Zero, que está
ocorrendo em Brasília desde o último dia 5. A mancha, que é duas vezes
maior que o estado do Texas, nos Estados Unidos, não é a única. As ilhas
de lixo dos oceanos – conhecidas no jargão científico como vórtices –
somam cinco ao todo. Os redemoinhos formados pela circulação oceânica
recebem materiais, especialmente plásticos, que vem de milhões de
quilômetros de distância e o lixo circula, sem ter como sair.
Capitao Charles Moore. fala surante o Congresso Internacional de Cidades Lixo Zero (Foto de Liana Melo)
Ele conclamou os participantes do encontro a transformarem o dia 15
de setembro, Dia Mundial de Limpeza de Rios e Praias, numa data de
combate à poluição plástica nos mares. “O lixo que boia nos oceanos está
a quilômetros de distância de qualquer zona econômica, de qualquer
país, e, por isso, não tem dono”. O problema só cresce de tamanho, já
tendo se transformado num dos maiores desafios ambientais do nosso
tempo.
Dados das Nações Unidas indicam que, todos os anos, mais de oito
milhões de toneladas de plástico nos oceanos. Ainda segundo a ONU, a
cada minuto, são compradas um milhão de garrafas plásticas e 90% da água
engarrafada contêm microplásticos. E os animais marinhos e os peixes
que comem qualquer coisa que encontram pela frente, passaram a comer
plástico. Recentemente, em mais uma de suas expedições, Moore encontrou
uma micropartícula de plástico dentro de uma água viva.
Estamos produzindo plástico de forma estúpida e irresponsável
capitão Charles Moore
fundador das ONGs Long Beach Organic e Algalita Manine
Alguns cientistas já defendem que o planeta está entrando na Era do
Plástico, por consideraram que a superfície da Terra está alterada pelo
descarte de materiais de longa durabilidade. As mudanças não estão
restritas ao meio ambiente. A saúde humana tem sofrido as consequências,
por exemplo, da dieta plástica.
Um oceano de lixo na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro (Foto Custodio Coimbra)
“A exposição durante a gravidez ao bisfenol A (BPA), substância
utilizada para a fabricação de garrafas plásticas, aumenta
substancialmente o risco de o bebê desenvolver diabetes e outras doenças
cardíacas”, advertiu capitão Moore. A epidemia de obesidade e de
Diabetes tipo 2 está intimamente ligada ao uso intensivo de plástico no
nosso dia a dia. “Estamos produzindo plástico de forma estúpida e
irresponsável”, concluiu.
Os dejetos microscópicos criam ainda outras anomalias, como uma
tartaruga que cresce com um anel de plástico em volta do casco ou
albatrozes com emaranhado de fios dentro do corpo.
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