Em 2004, nas águas do Havaí, foi registrado uma interação inesperada entre uma baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) e um golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus). Esse último parecia estar utilizando a cabeça e o corpo do primeiro com um escorregador, após ser levantado pelo gigante para fora d'água e depois deslizando novamente para dentro dela. Meses depois, na região de Maui, outra cena similar foi documentada, com um comportamento que mais parecia brincadeira entre as duas diferentes espécies (assista aos vídeos mais abaixo).
Decididos a descobrir se tais interações eram eventuais ou mais comuns do que imaginávamos, cientistas australianos da Universidade de Griffith começaram a investigar casos como esses. Olaf Meynecke e Olivia Crawley analisaram quase 200 vídeos e imagens, envolvendo 19 espécies de cetáceos, feitos por pesquisadores, internautas e operadores de turismo, em 17 localidades diferentes do mundo.
Para eles, não há dúvida: 3/4 desses registros demonstravam uma relação de interesse mútuo, ou seja, tanto as baleias como os golfinhos estavam engajados naquele comportamento. "E, em particular para as baleias-jubarte, descobrimos que, em um terço dos eventos, as respostas comportamentais em relação aos golfinhos pareciam positivas. As jubartes rolavam de um lado para o outro, exibiam a barriga e realizavam outros comportamentos associados à corte ou à socialização amigável", revela Meynecke.
Segundo os cientistas, que relataram suas descobertas em um artigo na revista Discover Animals, na grande maioria das interações observadas, nenhum dos animais demonstrou comportamento que indicasse desagrado ou agressividade.
Em alguns casos, inclusive, baleias foram filmadas se movendo estrategicamente e, de forma mais lenta, na direção dos golfinhos, para facilitar a interação.
Mas, em geral, eram os golfinhos que iniciavam a maioria das interações, nadando em formação ou até mesmo tocando as baleias.
"Embora a brincadeira social seja cooperativa e recíproca, também existe uma brincadeira ou interação unilateral, com apenas um participante percebendo a interação como lúdica, como visto em casos de provocações ou assédio por parte de golfinhos durante eventos de alimentação”, ressalta Meynecke. "Estudos comportamentais de mamíferos marinhos como esses fornecem insights sobre suas complexas estruturas sociais e desempenham um papel crucial no aprimoramento da nossa compreensão dos ecossistemas marinhos e das interações entre as espécies marinhas."

Interações analisadas pelo estudo dos pesquisadores australianos
Fotos: Ofal-Meynecke et al, Discover Animals, 2025
Os autores do estudo destacam ainda como a chamada ciência-cidadã (registros e vídeos de leigos e turistas, por exemplo, publicados em redes sociais) e o uso de novas tecnologias, como drones, têm se tornado uma contribuição valiosa às pesquisas científicas.
Abaixo o vídeo divulgado pelo American Museum of Natural History:
*Com informações e entrevistas contidas no texto de divulgação da Universidade de Griffith e no artigo do site The Conversation
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Foto de abertura: Jaimen Hudson / Ofal-Meynecke et al, Discover Animals, 2025
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