quarta-feira, 8 de março de 2017

Patriarcado: a Submissão da Mulher e a Devastação Ambiental, artigo de Paulo Mancini



by Redação - 8/03/2017

Dia Internacional da Mulher


GÊNERO E MEIO AMBIENTE


Patriarcado: a Submissão da Mulher e a Devastação Ambiental

 
Sincronia ocorre quando dois ou mais eventos ou fenômenos ocorrem ao mesmo tempo (cronos) ou simultaneamente. 



Evidências antropológicas e arqueológicas apontam que as primitivas sociedades humanas coletoras-caçadoras eram regidas por regras relativamente igualitárias entre homens e mulheres. 


A partir da Antiguidade – período definido cronologicamente com o surgimento da escrita, por volta de 4.000 anos A.C. – começam a surgir sociedades patriarcais, onde o homem exerce maior poder social e tem mais direitos que as mulheres, como pode ser observado já no Código de Hamurabi dos babilônios na antiga Mesopotâmia (região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates, onde hoje estão localizados Iraque, parte da Turquia, Síria e irã), primeiro sistema jurídico que compila diversas legislações anteriores (p.ex. Código de Ur) e regula toda vida social de uma comunidade. 



Especialmente entre 2.000 e 5.000 anos A.C existiram muitas sociedades onde as Deusas, mais que os Deuses, eram veneradas – aliás palavra que remete a adoração de Deusa romana Vênus, Deusa do Amor, na Grécia chamada de Afrodite – e às mulheres estava destinado o poder de partilha dos recursos. São conhecidas como sociedades matriarcais a Civilização Minoica da Ilha de Creta na Grécia e muitas outras em toda Europa, norte da África e parte da Ásia.



A cultura celta, predominante na região da Bretanha, mesmo com o posterior domínio romano, conservou muitos traços culturais do matriarcado, que notamos até a modernidade com a presença de grandes rainhas-mãe, como Rainha Vitória e, agora, a Rainha Elisabeth II. Não por acaso, também na Inglaterra, em meados do século XVII, temos os primórdios – depois das Revoluções Puritana e Gloriosa – da democracia liberal representativa.




Nas sociedades matriarcais predominam relações de respeito e adoração à natureza, com quem, naturalmente, as mulheres sempre foram associadas, já que é através delas que ocorre a criação, a encarnação. Não à toa, é frequente chamarmos a natureza de Mãe ou Mamãe Natureza, e nosso planeta de Mãe Terra. Na concepção matriarcal o homem seria apenas o “semeador anônimo”1, a escolha, a seleção da semente a germinar e a se desenvolver era domínio ou dom da Mãe. 



Em seu livro “A Prostituta Sagrada” (Editora Paulus), a antropóloga Nancy Qulls-Corbett demonstra através de textos históricos e objetos arqueológicos que a nos antigos templos de Vênus ou Afrodite, Deusa do Amor, as sacerdotisas a serviço da Deusa, também chamada de Virgens do Templo, “eram virgens no sentido original do termo, pessoa íntegra que servia de mediadora para que a deusa chegasse até a humanidade”2. Muitas destas virgens tinham filhos – obviamente frutos do ‘Amor’ que, através delas, Vênus ou Afrodite ofertava aos homens que buscavam o templo e a ele davam seus óbulos – donativo, contribuição doada por fiéis nos templos religiosos, como gratidão.



Vênus de Milo


Estátua com 202 cm encontrada próxima ao Porto de Milos nas Ilhas Cíclades na Grécia, em 1830. Trata-se mesmo de Afrodite, Deusa do Amor correspondente à Vênus romana. 


O significado original da ‘virgindade’ consistia no fato da virgem ser um ‘indivíduo’, ou seja, ser ‘inteira’, integra, não ser apenas ‘parte’, a ‘outra metade’.



De forma resumida, sintética e, inevitavelmente, caricata podemos dizer que no matriarcado a humanidade se considera parte da natureza, estabelecendo com ela uma unidade; como ela, a natureza, também é criadora, mas dela totalmente dependente e devedora; a quem – ainda que com ela se relacione com muita liberdade e intimidade – deve todo respeito e adoração. Predominam, no matriarcado, relações mais horizontais, menos hierárquicas, dos homens e mulheres entre si e destes com o restante dos seres vivos. 



Com o patriarcado, estabeleceu-se uma divisão entre espírito e matéria. O espírito, masculino, positivo, centrífugo; e matéria, feminino, negativo, centrípeto. Uma relação hierárquica, onde o Espírito é superior e subjuga à matéria. Notem que a palavra matéria, deriva, etimologicamente, de latim ‘mater’, isto é, ‘mãe’. Nele, no patriarcado, a natureza, a matéria, enfim, a mulher, foram criadas para seu usufruto, para seu domínio, conforme relatos de várias tradições religiosas. Tudo que está relacionado ao feminino, à matéria, à natureza é corruptível, mortal, sedicioso. 


O patriarcado estabeleceu uma hierarquia onde tudo que é superior está ligado ao polo masculino, solar, positivo, celeste, espiritual, objetivo. Ao polo feminino restou o plano inferior, o noturno, lunar, telúrico, negativo, material, subjetivo. 



FEMINISMO E AMBIENTALISMO: SINCRONIA E IDENTIDADE 



Foi a partir da segunda metade do século XIX, que o movimento de lutas pelos direitos das mulheres começa a reverberar a tríade de conceitos evocados pela Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade (ou solidariedade). Mais precisamente foi em 1857, quando trabalhadoras de uma indústria têxtil de Nova Iorque, em greve para redução da jornada de 18 horas de trabalho e outros direitos trabalhistas e forma duramente reprimidas pela Polícia que acabou incendiando a fábrica com as trabalhadoras no seu interior, levando a morte de muitas delas. De lá para cá, foram muitas as conquistas de direitos sociais das mulheres no mundo todo e também no Brasil. 


Mas ainda hoje, de forma geral, somos uma sociedade impregnada pelo patriarcalismo ou machismo, onde as mulheres em média trabalham mais que os homens e recebem salários menores. A violência contra as mulheres é estatisticamente alarmante, e a participação feminina na gestão dos poderes públicos – Executivo, Legislativo e Judiciário – ainda está longe de ser proporcional à composição demográfica brasileira, onde as mulheres correspondem a 51,3%. O número de homicídios de mulheres no Brasil vem aumentando: em média são assassinadas 13 mulheres por dia, sendo a maioria mortas por familiares; a maioria negra e, proporcionalmente, a maioria nos pequenos municípios onde predominam os tradicionais valores patriarcais. 



A expressão ‘ecologia’ – de certa forma inaugurando o movimento ecológico – foi criada por volta de 1870 pelo pensador, médico e pesquisador alemão de anatomia comparada Ernest Haeckel, como sendo, a ciência que estuda as inter-relações entre os seres vivos e seu ambiente e entre si mesmos. 



Curiosamente, mas não coincidentemente, Haeckel, além de um grande defensor e divulgador da Teoria da Evolução, estabelecida por Charles Darwin em “A Origem das Espécies” em 1855, filosoficamente considerava-se ‘monista’, isto é, adepto da crença na unidade entre todas as coisas existentes no universo, em oposição às posturas ‘dualistas’ que consideram a existência de duas realidades como, p.ex., espírito-matéria, completamente separadas. Chegou mesmo a fazer palestras sobre o tema e a escrever um opúsculo sobre o monismo. 



Houve tempo que as mulheres eram – como e, muitas vezes ‘com’, a terra – vendidas como propriedades de seus pais e maridos. A conquista e a exploração da natureza ainda plenamente presente na consciência humana contemporânea – mesmo com o abismo de seu esgotamento já esteja anunciado não por místicos e artistas como na segunda metade do século XX, mas por cientistas de toda parte do mundo. 



É crescente a consciência de que “A terra não nos pertence; nós pertencemos à terra”, como anunciou o Chefe indígena Seatle a um presidente americano que manifestou interesse– também no início da segunda metade do século XIX – em comprar as terras do povo Seatle. Mas nosso imenso e descomunal lixo despejado diariamente sobre nossa Mãe Terra, mostra que ainda predomina o paradigma da natureza como bem a ser conquistado (como as ‘namoradas’, não?), explorado, usufruído ilimitadamente. 



A ecologia, como ciência, representa uma mudança paradigmática na evolução do pensamento cientifico moderno fundado no racionalismo analítico que para compreender um todo analisa minuciosa e metodicamente suas diferentes partes. A partir da Renascença a ‘filosofia natural’ foi fatiada em diversas disciplinas. Os estudos ecológicos enfatizam e pesquisam exatamente a RELAÇÃO entre as diversas partes de um todo, com a consciência de que o todo (holo) é maior – às vezes surpreendentemente diferente – que a simples soma das partes. 



A valorização da mulher e do feminino e, principalmente seu empoderamento – isto é a tomada de consciência por elas mesmas de seus direitos e potências, sem que isso signifique que assumam (vide Margareth Thatcher, ás vezes de forma compensatórias ainda mais duras, valores patriarcais destrutivos – é o caminho para a reconciliação da humanidade consigo mesma e desta com seu meio natural, sua mãe, o húmus (terra fértil), que está na raiz de seu nome. Que está também na raiz da palavra ‘humildade’, qualidade necessária para a promoção dessa reconciliação. 


Paulo J. P. Mancini, São Carlos, 08 de março de 2017

Transposição, a hora da verdade, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)




transposição do rio São Francisco

[EcoDebate] Há uma certa euforia a respeito da reta final da Transposição de águas do São Francisco para o chamado Nordeste Setentrional. Elio Gaspari, na Folha de São Paulo, disse que a “Transposição de Lula é um sucesso”. É compreensível também a euforia da população receptora. Nós aqui, que somos obrigados a olhar a floresta e não só a árvore, mantemos nosso olhar crítico sobre essa obra.


Em primeiro, a água ainda não transpôs o divisor e não chegou aos estados do Setentrional, mas permanece nas barragens do Pernambuco. Houve vazamento na barragem de Sertânia e o município foi obrigado a remover 60 famílias atingidas pelo vazamento. Houve morte de pequenos animais e destruição de bens familiares.


Segundo, permanecem as encruzilhadas da obra que sempre chamamos a atenção: essa água transposta será para o povo necessitado dos estados receptores ou para o agro-hidronegócio e indústria? Dilma já disse que para real posto nos grandes canais, serão necessários dois reais para fazer as adutoras que, de fato, levarão a água aos municípios.


Essa é a primeira diferença entre o projeto de várias adutoras – que defendíamos – e a mega obra da Transposição. Se a opção fosse pelas primeiras, a água já teria ido direto – por tubulação simples – para os serviços municipais de água e estariam dispensados os grandes canais. A opção foi pela grande obra. Talvez hoje, depois da Lava-Jato, fique mais claro o porquê.


Acontece que o cenário político mudou. Se Lula-Dilma tinham interesse em fazer as adutoras a partir dos grandes canais, o atual governo pretende criar o maior mercado de águas do mundo, privatizar as águas da Transposição – que significa também privatizar a água de chuva já acumulada nos reservatórios do Setentrional – e não demonstra interesse algum em fazer sua distribuição.


Por último, a revitalização do São Francisco. Lula-Dilma diziam que iriam fazer a revitalização do São Francisco simultaneamente à grande obra da Transposição. O único investimento que deu resultado foi o saneamento, embora ainda inconcluso e desperdiçando obras iniciadas como as estações de tratamento de Pilão Arcado e as adutoras em Remanso. Aqui em Juazeiro o saneamento avançou.


Essa iniciativa é positiva, mas insuficiente. Sem atacar as causas de destruição do São Francisco, que abrange toda sua bacia, mas principalmente a devastação do Cerrado, não haverá São Francisco em breve tempo.


Hoje, o São Francisco está com uma vazão de 750 m3/s, quando nos garantiam que a partir de Sobradinho sempre seria de 1800 m3/s.. Portanto, hoje o volume de água é 1/3 do que os técnicos previam para garantir a água da Transposição.


Sobradinho – a caixa d’água que garante o fluxo abaixo – está com 11% de sua capacidade. O período chuvoso está terminando e todos os usos na bacia, a não ser por um milagre da natureza, estarão comprometidos.


Hoje o mar avança de 30 a 50 km São Francisco adentro, salgando as águas que abastecem a população ribeirinha de Sergipe e Alagoas. Se continuar nesse ritmo, em breve comprometerá a adutora que abastece Aracaju. O rio perdeu força, o mar avança.


O que tem salvado a população nordestina nesses 6 anos de seca foi a malha de pequenas obras hídricas, como as cisternas. Com essas tecnologias e outras políticas sociais vencemos a fome, a sede, a miséria, a migração, os saques e a mortalidade infantil. O IDH subiu em toda a região e o crescimento foi visível em relação a outras regiões do Brasil. Logo, não foi a grande obra. O paradigma da convivência com o Semiárido mostrou-se eficaz, enquanto o paradigma do combate à seca só encheu as burras dos coronéis.


Portanto, olhando a árvore o sucesso da Transposição está garantido, olhando a floresta os problemas continuam e se acumulam.


Roberto Malvezzi (Gogó), Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.
www.robertomalvezzi.com.br
OBS: A intenção de Temer e Alckmin de tirar uma lasquinha na inauguração da Transposição excede todo ridículo.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/03/2017
"Transposição, a hora da verdade, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 7/03/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/03/07/transposicao-hora-da-verdade-artigo-de-roberto-malvezzi-gogo/.

Contaminação ambiental por cemitérios, artigo de Roberto Naime



Cemitério
Cemitério. Foto: EBC

[EcoDebate] Um dos maiores especialistas do país, na contaminação gerada pela percolação de necrochorume nos terrenos, é o geólogo Leziro Marques da Silva que atua na área há algumas décadas. Alicerçado em observações realizadas por este agente ambiental, se estima que cerca de 75% dos cemitérios do país tenham problemas com vazamentos de necrochorume, que é o líquido resultante da decomposição dos corpos, e que contamina preferencialmente aquíferos freáticos e eventualmente reservas subterrâneas.


Dados registram que num intervalo de até seis meses após a morte, um corpo de 70 quilos tende a perder até 30 quilos em forma de necrochorume. A contaminação do lençol freático, em locais em que a profundidade da água é muito pequena, é de natureza química e microbiológica, com os materiais podendo contaminar os seres vivos de qualquer natureza, com uma série de moléstias e doenças infectocontagiosas.


Os elevados índices de crescimento da população, cada vez mais exigem áreas maiores para sepultamento de corpos humanos. As áreas que acabam destinadas pelo setor público ou por empreendimentos privados para a implantação de cemitérios geralmente são escolhidas entre áreas de baixa valorização econômica, quase sempre em regiões de reduzido desenvolvimento socioeconômico. Com frequência, são áreas de baixios ou com possibilidades de sofrerem inundações, ainda que esporádicas.


Estas são áreas com características geológicas e hidrogeológicas não adequadas ou mesmo não avaliadas devidamente, o que pode levar a problemas sanitários e ambientais de enorme complexidade. Áreas de cemitérios geram alterações no meio físico e por isso, devem ser consideradas como fontes sérias da ocorrência de impactos ambientais.


A realidade determina que a maioria dos cemitérios existentes no país, tende a ter instituição bastante antiga. Na época de sua fundação, não existia nem conhecimento suficiente dos impactos que poderiam ser gerados, nem difusão de boas práticas que hoje são recomendáveis, aceitas, praticadas e consensuais. Uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente, de número 335, estabeleceu que todos os tipos de cemitérios, tanto verticais como horizontais, deveriam ser submetidos a processos de licenciamento ambiental.


Os terrenos em que estão instalados os memoriais necrófilos, operam como filtros das impurezas carregadas por dissolução no necrochorume e que percolam nos substratos de solo e rocha. Os processos de decomposição que se instalam em corpos cadavéricos, liberam diversos metais que são constituintes do organismo humano. Também estão presentes nas urnas funerárias, utensílios que vestem ou adornam o corpo. No Egito antigo, onde predominavam crenças de reencarnação ou metempsicose, as pirâmides ou outros locais eram abastecidos inclusive com alimentos, além de roupas e variadas utilidades.


Na decomposição dos corpos, ocorre a formação de um líquido conhecido como necrochorume, de aspecto viscoso e coloração castanho-acinzentada, que contém cerca de 60% de água, 30% de sais minerais e 10% de substâncias orgânicas degradáveis, além de eventuais micro-organismos em quantidade reduzida, próxima ao que se considera como meros traços ou indícios.


Nos terrenos com alta umidade, ocorre um processo conhecido como “saponificação” pelo qual se patrocinam a “quebra”, ou decomposição de moléculas das gorduras corporais, resultando em liberação de ácidos graxos. Os compostos liberados exibem alta acidez, o que inibindo a ação de bactérias que tem a função putrefativas.


Caixões de madeira tendem a não ampliar a contaminação dos terrenos. Desde que, as substâncias conservantes da madeira não contenham metais pesados, como cromo, ou substâncias do grupo dos chamados organoclorados. Urnas processadas com madeiras não tratadas se decompõem em períodos ainda mais curtos, atenuando os impactos. Caixões de metal podem provocar contaminação do solo por metais como ferro, cobre, chumbo e zinco. A ampliação de impactos contaminantes pode ser causada pela prata, que é utilizada na confecção de alças de urnas.

Decomposição de corpos gera a exalação de alguns gases, que não é apropriado aqui descrever todos os processos químicos, por desnecessário. Atualmente, devido ao alastramento dos casos de câncer, grande quantidade de cadáveres, são submetidos a processos de radioterapia ainda em vida. Isto, adicionado à ingestão de substâncias anti-neoplásicas, amplia o período de decomposição do féretro, produzindo também contaminações derivadas da radioatividade.


A presença de construções, que são usadas como túmulos, que se encontram em mau estado, apresentando rachaduras e fissuramentos, e a má gestão de resíduos sólidos nestes locais, são problemas adicionais de grande relevância, potencializando ainda mais os impactos ambientais identificados.


Não inspira criar alarmismos, mas a ingestão exagerada por qualquer motivo de substâncias nitrogenadas, como nitratos, pode gerar moléstias como a meta-hemoglobinemia, popularmente conhecida como síndrome do bebe azul. Esta é apenas uma exemplificação, não havendo proposição exaustiva de esgotamento do tema.


Cemitérios em edifícios, também denominados de verticais são uma alternativa para as instalações convencionais, que são sujeitas a todos os impactos ambientais já descritos e considerados. Nessas unidades os corpos são dispostos em lápides que tem finalidades específicas. As construções se assemelham a edifícios comuns, como é o caso do Memorial de Santos, no litoral de São Paulo. Esse tipo de instalação tem diversas vantagens em relação ao cemitério horizontal.


Por derradeiro, as práticas de cremação apresentam vantagens também quanto à eliminação de microrganismos patogênicos no processo realizado em temperaturas elevadas. A cremação elimina por completo essas fontes naturais de poluição. Assim, a cremação é uma forma de garantia e segurança ambiental aqueles que continuam vivos.


Não há intenção de induzir ninguém a realizar quaisquer práticas. Que, em qualquer contexto ou situação, colidam com seus princípios religiosos ou mesmo sobrenaturais. Mas se suscita uma reflexão sobre uma questão cada vez mais importante na medida em que aumentam as populações e se ampliam as expectativas de vida. Para que todos possam usufruir de melhor qualidade ambiental e melhores condições de vida.


Referência:
Cemitérios como Fonte de Contaminação Ambiental, Pedro Kemerich, Fernando Ernesto Ucker e Willian F. de Borba. (http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/cemiterios_como_fonte_de_contaminacao_ambiental.html).

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

terça-feira, 7 de março de 2017

Técnica usada pela 1ª vez no Brasil faz rio no ES voltar a ter vida


04/03/2017 13h40 - Atualizado em 04/03/2017 13h53


Troncos reduzem velocidade do rio, aumenta infiltração e retém sedimentos.


Em 1 ano, a quantidade de peixes aumentou 80% no Rio Mangaraí.

Roger SantanaDa TV Gazeta


Troncos de eucaliptos estão ajudando a trazer mais vida para um rio importante do Espírito Santo. A técnica usada no Brasil pela primeira vez já aumentou em mais de 80% a quantidade de peixes. É a natureza se recuperando através da própria natureza, no Rio Mangaraí, que fica em Santa Leopoldina, na região Serrana do estado.


Os resultados começaram a aparecer quase um ano após o início do projeto Renaturalize, em um trecho de 200 metros do Rio Mangaraí, que é um dos principais afluentes do Rio Santa Maria da Vitória, que abastece a Grande Vitória.


O projeto é pioneiro em todo o país e na América latina. A tecnologia foi trazida da Inglaterra, após uma aplicação bem sucedida nos afluentes do Rio Tâmisa.


A técnica, basicamente, consiste na colocação dos troncos em pontos do rio. Os troncos amarrados com cabos de aço formam redutos. A estrutura conseguiu reduzir a velocidade da água, o que permite uma infiltração maior no lençol freático.
Técnica usa troncos de eucalipto para reduzir a velocidade do rio (Foto: Reprodução/ TV Gazeta)Técnica usa troncos de eucalipto para reduzir a velocidade do rio (Foto: Reprodução/ TV Gazeta)
Outra vantagem, além de oxigenar a água, é que os troncos também ajudam a reter os sedimentos que descem o rio e que assoreiam não só o afluente, mas também o rio principal. Os troncos conseguem segurar este material. Em um ponto do Rio Mangaraí, em dez meses foram retiradas 67 toneladas de sedimentos.


O projeto também permitiu um aumento da biodiversidade no rio. Nos remansos formados pelos troncos ficam acumuladas folhas e, com o tempo, um lodo se forma no local. Tudo isso se transforma em alimentos para a fauna, que aproveita o local para se recuperar da correnteza.


Antes da técnica, o fundo do rio era todo homogêneo, o que é nocivo, é como se fosse uma floresta de uma espécie só, então poucos animais sobreviviam nesse ambiente. Com a madeira, formam-se lugares com ramas, cascalho, o que cria maior heterogeneidade, e logo, maior biodiversidade.
A comunidade foi envolvida no processo, aprenderam a instalar a madeira. Crianças da escola da região fizeram visitas para aprender os benefícios da madeira dento do rio, tiveram aula prática e desenho, concurso de redação, a intenção é que eles cuidem do espaço no futuro.


A cientista ambiental Carolina Pinto explica a importância dos troncos. "Quando você tem o desmatamento, quando você tem a perda dessas características naturais, essas curvas naturas do rio também se perdem. Então quando você coloca esses elementos naturais de volta no canal, você está trazendo de volta essas curvas, que são os meandros do rio", disse.



Rio Mangaraí em Santa Leopoldina, na região Serrana do Espírito Santo (Foto: Reprodução/ TV Gazeta)Rio Mangaraí em Santa Leopoldina, na região Serrana do Espírito Santo (Foto: Reprodução/ TV Gazeta)
 
 
Meio Ambiente
Devido aos bons resultados, o projeto Renaturalize pode vir a ser adotado em outros rios capixabas, como explica o secretário de Meio Ambiente, Aladim Cerqueira. Por enquanto já se sabe, segundo ele, que a técnica é aplicável em outros rios, principalmente nos afluentes. O que foi feito em 200 metros do rio trouxe resultados muito bons, em um projeto de baixo custo.


Em paralelo, segundo Aladim, começam a ser implantados no início do próximo ano outros projetos, com recursos do estado e do banco mundial. dentre eles a construção de 200 quilômetros de estradas pavimentadas com um tipo de pavimentação que não lança sedimentos nos rios.


Também serão construídas 12 mil caixas secas e reflorestados mil hectares. Haverá a construção de fossas para evitar o lançamento de esgoto no rio e o treinamento dos produtores em manejo sustentável do solo. Haverá ainda uma gestão do cadastro ambiental rural. Outros projetos financiados pelo governo do estado vão iniciar em 2017.

Oportunidade: Paisagismo e Jardinagem no Parque Estadual da Pedra Branca

paisagismo mauriicio
Curso de paisagismo. Image: Divulgação


Além do curso gratuito de apicultura, em março, o Parque Estadual da Pedra Branca (RJ) também abre espaço o curso de Curso de Introdução ao Paisagismo e Jardinagem. Com duração de três meses, o curso fará uma introdução à história do paisagismo e sua evolução até os dias atuais através de uma abordagem teórica e prática. Os alunos receberão orientações de projeto e a turma gerará, sob a orientação de professores capacitados, uma proposta básica de jardim para ser implementado.



O curso ministrado pelo Espaço Origens acontece de 11/03 até 10/06, aos sábados das 09h00 às 13h00, com aulas teóricas e práticas nas dependências da sede da unidade de conservação. A programação inclui aulas externas no Sítio Roberto Burle Marx e em um horto em Guaratiba.



Ao término do curso, o jardim implementado pela turma ocupará área específica do Parque que será aberta aos visitantes da unidade. O curso capacitará os alunos a criar e manter jardins através das técnicas e práticas de jardinagem apresentadas. Uma apostila com todo o material abordado será disponibilizada aos participantes.



O valor do curso completo – incluindo a apostila e as visitas guiadas – é de R$450,00, com possibilidade de parcelamento em até 6x de R$75,00 no cartão de crédito. O valor arrecadado garante a compra de todo material necessário para as aulas praticas, mudas, terra e elementos paisagísticos para implementação do projeto da turma.


Mais informações sobre o curso podem ser obtidas através pelo telefone (21) 964658135 ou pelo e-mail vanessateixeira.inea@gmail.com.
inscriçoes mauricio

Até 2020, 67% das espécies de vertebrados poderá deixar de existir

Por Mariana Napolitano
Foto: Leticia F. Paes/Flickr.
A onça-pintada, até a década de 1960, eram numerosas na Mata Atlântica, mas com a quase
extinção do bioma, o maior felino das Américas corre sério risco de desaparecer. 

Foto: Leticia F. Paes/Flickr.


No sábado (03/03) foi comemorado o Dia Mundial da Vida Selvagem, data reservada para se falar sobre o que os cientistas têm alertado durante décadas: o fato de que a existência de muitas espécies está sendo pressionada pelas ações humanas na direção de uma sexta extinção em massa.



O relatório do Planeta Vivo, divulgado no segundo semestre de 2016, aponta que, em média, a abundância das espécies de vertebrados diminuiu 58% desde 1970 e, se as atuais tendências continuarem, até 2020 esse declínio chegará a 67%. Mesmo quando as metas projetadas pelas Nações Unidas são de acabar com a perda da biodiversidade até 2020.


Parece uma mensagem um tanto catastrófica, mas as evidências nunca foram tão fortes. A lista vermelha da IUCN ratifica essa constatação ao assinalar que mais espécies estão ameaçadas de extinção ou, então, que algumas espécies estão cada vez mais ameaçadas de extinção. Em termos de diversidade de fauna e flora, as florestas tropicais estão entre os ecossistemas mais ricos do planeta e que sofreram a maior perda de área. O LPR fala de 48,5% do habitat das florestas tropicais que foram convertidos para uso humano, até os anos 2000.


A onça-pintada, por exemplo, é um dos animais emblemático das florestas tropicais brasileiras. Até a década de 1960 eram numerosas na Mata Atlântica, mas com a quase extinção do bioma, o maior felino das Américas corre sério risco de desaparecer. Em um estudo publicado recentemente, a revista Scientific Reports revelou que menos de 300 onças estão presentes no bioma e suas populações encontram-se isoladas em apenas 3% do que resta de Mata Atlântica. Para se ter uma ideia, somente no Parque Nacional do Iguaçu, a quantidade da espécie caiu 90% nos últimos 20 anos.


Já o índice do Planeta Vivo Aquático apresentado no estudo mostra que a abundância das populações monitoradas no sistema aquático sofreu uma queda geral de cerca de 81% entre 1970 e 2012. Esses números estão baseados nos dados de 3.324 populações monitoradas de 881 espécies aquáticas. Os pesquisadores sugerem que são as pressões decorrentes de atividades humanas não sustentáveis, como a agricultura, a pesca, a mineração, a sobre-explotação, as mudanças climáticas e a poluição, que contribuem para a perda de habitat e a degradação do meio ambiente terrestre e aquático.


E, segundo eles, os efeitos não recaem apenas sobre plantas e animais selvagens, mas, nós, seres humanos, também somos vítimas de nosso comportamento de deterioração da natureza.
Uma maneira prática de compreender a relação entre as ações humanas e a os limites que o planeta aguenta é por meio dos cálculos da Pegada Ecológica feitos pela Global Footprint Network, organização internacional pela sustentabilidade, parceira global da Rede WWF, que indica que estamos consumindo cerca de 50% além da capacidade regenerativa anual da Terra.


Os custos deste excesso estão se tornando cada dia mais evidentes com a seca extrema, a escassez de água doce, a erosão do solo, a perda de biodiversidade, o acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera e a ameaça à forma de vida de muitos povos indígenas e populações tradicionais que dependem dos recursos naturais como meio de vida. Estudos recentes sugerem que os prováveis índices de extinção, atualmente, sejam de até 100 a 1.000 extinções por 10.000 espécies em 100 anos, o que é muito elevado. Isso leva a crer que nós estamos mesmo à beira da sexta extinção em massa.


Considerando toda essa trajetória e nosso papel central de fazer uma mudança para modos sustentáveis e resilientes de produção e consumo, temos motivo para ter esperança. No entanto, essa transição deve ser urgente. Uma série de mudanças significativas precisam acontecer no sistema econômico global para promover a perspectiva de que nosso planeta possui recursos finitos.


Precisamos reconhecer o valor e as necessidades de nosso planeta Terra, cada vez mais frágil, e gerar consciência de que as agendas social, econômica e ambiental devem caminhar juntas. É imprescindível que protejamos a vida selvagem.


A data de sábado foi criada em 2013 pela ONU a fim de reafirmar o valor essencial das espécies selvagem.


E o Brasil, País que possui a maior biodiversidade do planeta, precisa agir agora e tomar ações decisivas para que mecanismos sejam criados para promover o melhor aproveitamento do solo; que os serviços ambientais providos pelas florestas, por exemplo, a regulação climática e a segurança hídrica, sejam valorizados; além de incentivar o melhor ordenamento e gestão territorial; a consolidação e criação de áreas protegidas levando em conta uma paisagem mais ampla, a promoção de cadeias produtivas, entre outras ações cotidianas que podem garantir uma efetiva redução na pressão sobre os recursos naturais e a vida selvagem ao redor do mundo.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Biopneus: Pneus renováveis feitos de biomassa


Biopneus: Processo produz pneus renováveis de biomassa
Planta em escala de laboratório produzindo isopreno renovável a partir de biomassa. [Imagem: UMN]
 
Pneus renováveis
Uma nova tecnologia para produzir pneus de automóveis usando matérias-primas vegetais - árvores e gramíneas - promete virar a indústria em direção ao uso de recursos renováveis.

Os pneus de carro são vistos como ambientalmente hostis porque são predominantemente feitos de combustíveis fósseis e não há muito o que fazer com eles depois que chegam ao final de sua vida útil. Contudo, até hoje não existem materiais alternativos em termos de preço e desempenho.

A equipe que desenvolveu o novo processo afirma que os pneus de carro produzidos a partir da biomassa serão idênticos aos pneus atuais, com a mesma composição química, cor, forma e desempenho.

"Nossa equipe criou um novo processo químico para fazer isopreno, a molécula-chave nos pneus de carro, a partir de produtos naturais como árvores, gramíneas ou milho. Esta pesquisa poderá ter um grande impacto sobre a multibilionária indústria de pneus de automóveis," disse o professor Paul Dauenhauer, da Universidade de Minnesota, nos EUA.

Isopreno biológico
Hoje, o isopreno é produzido separando-se termicamente moléculas no petróleo que são semelhantes à gasolina, em um processo chamado craqueamento. O isopreno é então separado de centenas de outros produtos e purificado. No passo final, o composto é posto para reagir consigo mesmo, formando cadeias longas que originam um polímero sólido que é o componente principal dos pneus de automóvel.

O isopreno de biomassa, por sua vez, é fabricado a partir de açúcares extraídos de plantas como gramíneas, árvores ou milho, em um processo de três passos "hibridizado", o que significa que ele combina a fermentação biológica, usando microrganismos, com a refinação catalítica convencional, que é semelhante à tecnologia de refinação do petróleo.


O primeiro passo é a fermentação microbiana dos açúcares da biomassa, como a glicose, para se obter um composto intermediário, chamado ácido itacônico. No segundo passo, o ácido itacônico reage com hidrogênio, gerando um produto químico chamado metil-THF (tetrahidrofurano). Esta etapa foi otimizada quando a equipe identificou uma combinação metal-metal única que serviu como um catalisador altamente eficiente.


Mas o grande avanço tecnológico do processo está no terceiro passo, quando o metil-THF é desidratado para gerar o isopreno. Usando um catalisador recentemente descoberto, chamado P-SPP (pentasil autoempilhado fosfórico), a equipe foi capaz de demonstrar uma eficiência catalítica de até 90%, com a maior parte do produto catalítico sendo isopreno.


Combinando as três etapas em um processo, o isopreno renovável pode ser obtido de forma renovável a partir da biomassa.


A tecnologia foi patenteada e está disponível para licenciamento pela Universidade.

Bibliografia:

Renewable Isoprene by Sequential Hydrogenation of Itaconic Acid and Dehydra-Decyclization of 3-Methyl-Tetrahydrofuran
Omar A. Abdelrahman, Dae Sung Park, Katherine P. Vinter, Charles S. Spanjers, Limin Ren, Hong Je Cho, Kechun Zhang, Wei Fan, Michael Tsapatsis, Paul J. Dauenhauer
Catalysis
Vol.: 7 (2), pp 1428-1431
DOI: 10.1021/acscatal.6b03335