quinta-feira, 12 de julho de 2018

Valor Econômico – Setor financeiro mundial é crítico para a transformação da economia

Por Daniela Chiaretti | De Da Nang, Vietnã

Leo Pinheiro/ValorSteiner: "É preciso liderança. O setor privado não pode ser um ator passivo"

O alemão nascido no Brasil Achim Steiner, 57 anos, que por 10 anos dirigiu o Programa da ONU para o Meio Ambiente (Pnuma), em Nairóbi, no Quênia, e hoje conduz o Programa da ONU para o Desenvolvimento (Pnud) diz que o setor financeiro é crítico para a transformação da economia. Ele critica os mercados que "investem na economia de ontem, que é onde se sentem confortáveis, onde fazem dinheiro, onde mantém o "status quo". E emenda: "Engajar o setor financeiro é prioridade porque é onde a energia da nossa economia está canalizada."

Valor: Como o senhor avalia o cenário ambiental global hoje?

Achim Steiner: Muito do que vimos emergir em termos ambientais nos últimos dez anos está se concretizando. O Acordo de Paris, o surgimento dos 'green bonds', a expansão massiva das energias renováveis, o problema do plástico na economia e no ambiente chegando às manchetes. E a transformação da economia verde, metáfora de como podemos dissociar o crescimento econômico da proteção ambiental e reinventar as nossas economias. Mas ainda assim o mundo tem graves problemas.

Valor: Quais são os piores?

Steiner: As emissões não estão baixando o suficiente. Os níveis globais de produção e consumo são insustentáveis, assim como a poluição atmosférica. Produzimos mais plástico nos últimos 30 anos do que na história da humanidade. Nossa capacidade de responder aos desafios ainda está sendo testada. Temos enorme necessidade de transformação e mudança.

Valor: Foi o multilateralismo que falhou?

Steiner: É tempo de grande desconforto para quem acredita que para que a transformação aconteça temos de ser capazes de trabalhar juntos. É relacionar a agenda ambiental com a economia. Ainda estamos lutando com isso.

Valor: O que quer dizer?

Steiner: Os mercados, o setor privado e os investidores de capital não estão fazendo o tipo de investimento na escala necessária, não estão nem perto disso. Investem US$ 20 bilhões, desde 2010, em gerenciamento sustentável de florestas mas investem US$ 777 bilhões no rumo contrário: em mudança do uso da terra, no desmatamento. A economia está inundada por múltiplos atores que estão fazendo a coisa errada, pelo menos em sustentabilidade a longo prazo.

Valor: Como se comportam os mercados financeiros?

Steiner: Tentamos fazer com que mercado e setor privado concentrem esforços e instrumentos para serem mais parte da solução. Os mercados financeiros e seus instrumentos serão fundamentais neste processo. Teremos fatores multiplicadores se os mercados financeiros orientarem o foco para a agenda ambiental, se conseguirem alavancar finanças públicas, se pudermos realmente atrair o setor privado, se isso orientar a abordagem regulatória dos governos para investimentos futuros.

Valor: O senhor é otimista?

Steiner: Estamos correndo contra o tempo e, mesmo assim, começando a fazer a coisa certa em muitos lugares, sem falar nos retornos que investimentos financeiros sustentáveis geram nos mercados. Ampliar a escala e colocar o foco da agenda ambiental dentro da transformação da economia permanece central. Estou convencido de que com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) priorizamos as três dimensões do desenvolvimento - social, econômica e ambiental. Os ODS não só irão mudar o mundo como nós o conhecemos, mas também como podemos imaginá-lo no futuro.

Valor: O quanto o PNUD está engajado na mudança?

Steiner: Operamos um portfólio de 840 projetos relacionados com mudança climática à agenda ambiental ampla, que vale US$ 3,6 bilhões com US$ 15,6 bilhões de co-financiamento. É uma das maiores redes globais de longo alcance com projetos em 141 países.

Valor: Qual o nível de cooperação que se espera da África?

Steiner: Passei 10 anos vivendo em Nairóbi e chefiando a agência que tem sede na África, nunca tive razões para reclamar da liderança africana. Tanto na economia verde, ou na extraordinária conservação da biodiversidade em que a África já está investindo. Há também uma grande destruição acontecendo nos recursos naturais e na vida selvagem no continente. O foco agora é engajar governos e atores econômicos para permitir que a transição em direção à economia verde molde o plano africano de desenvolvimento. Sem ambiente, sem natureza, sem que se proteja isso tudo, o forte turismo africano seria uma fração do que é.

Valor: Como avalia a Índia?

Steiner: A consciência pública está conduzindo a Índia para a agenda ambiental. A população urbana diz que o nível de poluição em que vive não é aceitável e não é um preço que precisa pagar pelo desenvolvimento. Nas decisões de uso do solo, sobre os recursos naturais, acho que estamos vendo bons avanços. E também no Judiciário, com os tribunais verdes e os casos legais que têm sido levantados. Sob a gestão do primeiro-ministro Narendra Modi, as energias renováveis representam papel-chave na matriz doméstica como para o resto do mundo.

Valor: Como convencer o setor privado a se engajar em sustentabilidade em vez causar danos?

Steiner: É preciso liderança. O setor privado não pode ser um ator passivo ou esperar que o governo resolva o problema. O setor privado foi um ator-chave para o Acordo de Paris em 2015. Envolveu tantos líderes que ficou difícil para alguns dos lobbies que se escondem atrás das cortinas agir para parar aquilo. O setor financeiro é crítico. Precisa manter um diálogo e também enfrentar os mercados que investem na economia de ontem, que é onde se sentem confortáveis, onde fazem dinheiro, onde mantém o 'status quo'. Os players que dominam o mercado estão bem felizes em mantê-lo daquele jeito. Se permitirmos que continuem, não há maneira de cumprirmos metas de combate à mudança climática ou os ODS. Engajar o setor financeiro é prioridade porque é onde a energia da nossa economia está canalizada. A emergência do mercado dos green bonds, hoje de US$ 150 bilhões por ano, é bom sinal. E a China, com sua política financeira verde há três anos foi fundamental para mudar o ponteiro do mercado financeiro.

Valor: Como vê o momento internacional agora, e o Brasil nisso?

Steiner: São tempos turbulentos, não há dúvida. Podemos sustentar o multilateralismo neste clima político atual? Temos que conseguir. A capacidade de agirmos juntos é o melhor antídoto para aqueles que querem nos convencer que nacionalismo, protecionismo, erguer muros e cercas são as respostas para os desafios do século 21. As pandemias de hoje e amanhã, o clima em mutação, as secas, as inundações, segurança cibernética, a crise dos preços dos alimentos, as ondas migratórias, nada disso vai parar. Temos que começar a resolver os problemas na fonte e não lutar contra os sintomas quando é tarde demais.

Valor: Como vê o Brasil de hoje?

Steiner: Muitos países estão passando por uma fase de turbulência. Acredito que o que defendemos na ONU é o melhor que podemos oferecer ao mundo para evitar o recuo ao nacionalismo e à narrativa em que o inimigo está sempre do outro lado da cerca. Isso só vai nos levar ao conflito. Temos que ser cautelosos. A História nos ensina lições amargas de quando o nacionalismo se torna a força motora das relações internacionais.

Valor: E a ONU neste quadro?

Steiner: A prevenção é o centro da missão da ONU. Mas muito do que acabamos fazendo hoje é ser o serviço da ambulância, a brigada de incêndio do mundo quando as coisas já saíram do controle. Nossa atenção, nosso foco e nossa prioridade nos anos que virão têm que ser mais em prevenção e no gerenciamento de riscos, e dando à comunidade internacional os meios, que podem ser uma Convenção, um Protocolo, uma parceria, uma abordagem financeira coletiva, para atuar juntos o mais velozmente possível.

Por Daniela Chiaretti | De Da Nang, Vietnã

Silvia Zamboni/ValorSolheim: "Se a mudança forçar pessoas a serem pobres, nunca irá funcionar"

O norueguês Erik Solheim, 63 anos, dirige o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) desde maio de 2016. Pragmático e preocupado em aproximar as questões ambientais das pessoas, tratou de mudar o nome do Pnuma para algo mais direto - ONU Meio Ambiente. Não ficou só na narrativa. O esforço mundial de combater o uso indiscriminado dos plásticos descartáveis, que ganhou manchetes no mundo todo, tem a sua marca.

Ele vislumbra novas frentes globais de mudança: mobilidade, agricultura e energia. "A maior fonte de poluição em Nova Déli vem da queima de resíduos da agricultura. Se isso puder ser transformado em fertilizantes e energia, a perspectiva melhora para o agricultor e reduz a poluição." Seu próximo alvo será buscar a transformação dos "níveis insustentáveis de produção e consumo".

Valor: Como avalia o GEF?

Erik Solheim: A mudança que queremos ver no GEF é como podemos ter grandes programas que promovam transformações. Gastar dinheiro em pequenos projetos pode ser bom, ajudar pessoas, mas não muda o mundo. O que está acontecendo com os plásticos é um bom exemplo de como a mudança está acontecendo. Há um ano poucos falavam do problema dos plásticos e agora temos este movimento global. O primeiro-ministro Narandra Modi, da Índia, prometeu que o país banirá o uso de plásticos descartáveis em 2022. Se isso pode acontecer na Índia, pode acontecer em outros países.

Valor: E o que acontece neste campo nos países desenvolvidos?

Solheim: A União Europeia acaba de fazer o maior compromisso do mundo ao anunciar sua estratégia de banir vários itens de plástico e que conta com imenso apoio popular. Podemos viver sem canudos, garrafas e copos de plástico. São mudanças pequenas na vida das pessoas, mas que permitem que nos movamos para a economia circular e tenhamos melhor manejo de resíduos. Isso é algo concreto para as pessoas e é uma transformação parecida com a do hábito de fumar.

Valor: Onde há similaridade?

Solheim: Há 14 anos, fumar era permitido em todos os restaurantes do planeta. E agora, em lugar nenhum. Foi muito difícil, mas a mudança aconteceu. De novo, foi a combinação de cidadãos conduzindo a mudança e fazendo os políticos agirem. Agora temos outros objetivos, como mudar a mobilidade.

Valor: Como o senhor imagina que esta mudança aconteça?

Solheim: Com mais veículos elétricos, mais sistemas de transporte, desenhar as cidades de modo que seja mais fácil andar a pé e de bicicleta, e deixar que os cidadãos liderem a mudança. Há 15 anos havia duas cidades na China com sistemas de metrô, Pequim e Xangai, com apenas duas linhas. Agora o metrô de Pequim é o maior do mundo e o de Xangai, o segundo maior. Há 35 cidades neste caminho na China, e o mesmo acontece na Índia. Vemos também a revolução do compartilhamento de bicicletas na China ou em Paris.

Valor: Onde mais o senhor observa as mudanças?

Solheim: Em energia. Pela primeira vez na história, no ano passado, a energia solar gerou mais energia ao mundo do que o carvão. O aeroporto de Cochin, na Índia, é o primeiro do mundo a funcionar com 100% de energia solar. E sob os painéis eles ainda plantam legumes. A China lidera a transição, seguida pela Índia, mas que acontece em muitas partes do mundo. Nos EUA há mais empregos na indústria solar do que no carvão.

Valor: A agricultura vem mudando também ou não?

Solheim: A agricultura é um setor-chave da mudança do clima. Em muitas partes começamos a ver agricultura verde, o que não significa voltar ao passado, mas produzir melhor, com melhores produtos, de forma mais econômica para o fazendeiro e ao mesmo tempo, baseando-se em princípios ecológicos. Reduzindo fertilizantes e evitando pesticidas, porque usam plantas que são repelentes naturais de insetos como parte do mix. Plantam de maneira científica de modo a conseguir mais eficiência do que na agricultura tradicional. Pode-se cultivar arroz de maneira ambientalmente melhor e com custos menores. Aqui também há uma revolução chegando.

Valor: Como nos cigarros, vamos ter que esperar 14 anos para reduzir o uso de plásticos descartáveis?

Solheim: No uso de plásticos acho que podemos ir mais rápido ainda. Não precisamos de canudinhos, podemos usar copos de vidro, não temos que usar 10 sacolas plásticas toda vez que vamos ao mercado. Mas precisamos de plásticos em outros lugares. Eles tornam os carros mais leves, por exemplo, e há vários outros casos. Estes plásticos podemos reciclar e usar de novo dezenas de vezes.

Valor: Na Tailândia, agricultores argumentam que mudar para práticas orgânicas leva tempo e eles não podem ficar sem receita.

Solheim: Não há como convencer alguém a mudar e perder dinheiro. No Vietnã tem 150 mil pessoas usando práticas de agricultura verde e se funciona aqui, funcionará na Tailândia também. A maior fonte de poluição em Nova Déli vem da queima de resíduos da agricultura da região. Se isso puder ser transformado em fertilizantes e energia, a perspectiva é muito melhor para o agricultor e reduz o enorme nível de poluição. Se a mudança forçar pessoas a serem pobres, nunca irá funcionar.

Valor: A ex-presidente chilena Michelle Bachelet diz que é preciso mudar padrões de consumo e produção. Como começar?

Solheim: O tema da próxima assembleia ambiental da ONU (Unea) é justamente consumo e produção. É assunto central. Temos que priorizar temas próximos às pessoas. Falhamos como ambientalistas quando levantamos tópicos teóricos que parecem sair do espaço sideral. Precisamos fazer a conexão entre a vida privada e o quadro maior. Quando faz sentido para as pessoas, inicia-se um movimento de pressão a líderes políticos e de negócios. É nessa combinação poderosa que se dão as grandes mudanças.

Valor: Acha viável a agricultura orgânica para um país produtor de commodities como o Brasil?

Solheim: Não sou especialista em agricultura. As plantas são diferentes e é preciso adaptar. Mas acredito que os princípios básicos podem valer em qualquer lugar.

Valor: Onde imagina mudanças rápidas em cidades asiáticas?

Solheim: Para que as mudanças ocorram rápido, é preciso ter cidadãos mobilizados, regular o mercado e ter soluções tecnológicas. Na Ásia há um enorme uso de motonetas para ir e voltar ao trabalho, com velocidade baixa. Pode-se ir exatamente na mesma velocidade com bicicletas elétricas, que são mais baratas. Se se derem incentivos, a mudança pode ser rápida. Carros elétricos estão ficando mais baratos. Na Índia, o governo está liderando ao comprar carros elétricos para a frota oficial. Na China espera-se a introdução de um milhão de veículos elétricos em 2020.

Valor: Como tornar produtos ecológicos acessíveis em países que têm ainda muita pobreza?

Solheim: Mudar o equilíbrio das taxas de modo que o carro elétrico fique mais barato comparado aos movidos a gasolina. Permitir que circulem nas linhas de ônibus para que o usuário chegue mais rápido. Não seriam medidas para sempre, mas ofertas importantes introdutórias. Não é diferente de um produto novo, no supermercado, que recebe um preço de oferta.

Valor: Na Nigéria, há poucos dias, 86 pessoas morreram por conflitos entre fazendeiros e criadores de gado. Como vê este drama?

Solheim: Pelo o que sei, a base são conflitos por água, então, providenciar mais água é a primeira resposta para o conflito. Energia solar pode ser uma solução para trazer água. As autoridades nigerianas estão muito preocupadas. Me disseram temer que mais gente morra na região por causa da água do que pelo Boko Haram [grupo terrorista islâmico].

A jornalista viajou ao Vietnã a convite de Internews Earth Journalism Network

Valor Econômico – Ambiente deve ser agenda central no debate eleitoral/ Artigo/ Marcia Hirota e Mario Mantovani


O que os pré-candidatos pensam sobre meio ambiente? Quais são as propostas daqueles que este ano tentam uma vaga nas casas legislativas e concorrem aos cargos executivos? Conhecemos a trajetória de cada um deles nesta agenda e seus compromissos? Qual será o papel dessa pauta no debate eleitoral deste ano?

Essas são perguntas que deveriam ser centrais nesse momento de pré-campanha que vivemos no Brasil, nesta que será uma das corridas eleitorais mais disputadas e polarizadas desde a redemocratização. Nossa rica biodiversidade, a oferta de água limpa e de solos férteis, os atrativos naturais para lazer e turismo e o equilíbrio do clima fazem da floresta preservada e dos ambientes costeiros e marinhos aliados indispensáveis ao nosso desenvolvimento - sobretudo da indústria e da agropecuária, atividades base de inúmeras economias. Tudo isso ganha ainda maior relevância quando pensamos na Mata Atlântica, bioma que é lar de sete em cada dez brasileiros e está presente em 17 estados do país.

Atualmente, seguimos dilapidando as fontes desses benefícios, o que inevitavelmente ampliará os impactos negativos na vida das populações urbanas e rurais. E as principais ameaças não estão no campo, onde monoculturas continuam a exaurir nossos solos, poluir nossas águas, avançar sobre nossas florestas e ameaçar os territórios de comunidades tradicionais. Tampouco no ambiente urbano, cada vez mais populoso e adensado. Os riscos estão no Congresso. É de lá que parte a maior ofensiva contra o meio ambiente, com inúmeros projetos de lei que desmontam a legislação ambiental e criam regras permissivas à destruição e ao uso insustentável dos nossos patrimônios naturais.

O exemplo mais claro é a recente aprovação na Câmara dos Deputados do projeto de lei 6299/02, que flexibiliza as regras para liberação de agrotóxicos. Conhecido como "PL do Veneno", o projeto esvazia a atuação dos órgãos de saúde e do meio ambiente no controle e na regulação do uso de substâncias nocivas, delegando ao Ministério da Agricultura uma série de ações que são, hoje, exercidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelo Ibama. Na prática, o projeto elimina a avaliação prévia de impactos negativos que esses produtos podem provocar à saúde e ao meio ambiente.

Mesmo com uma grande mobilização popular contra o projeto, e pareceres contrários de diversos órgãos, como Fiocruz, Anvisa, ONU e Ministério Público Federal, o PL foi aprovado no dia 26 de junho por uma comissão especial formada majoritariamente por deputados da bancada ruralista, o que evidencia o abismo entre o que a sociedade quer e o que se faz em política.

E as ameaças não param por aí. Há ainda a tentativa de flexibilização da Lei do licenciamento ambiental e outras dezenas de projetos que diminuem a proteção daquilo que - por lei - deveria ser preservado ou recuperado.

É do Congresso que parte a maior ameaça ao meio ambiente, com projetos de lei que desmontam a legislação ambiental

Se o problema é político, também é com política que precisamos buscar as soluções - mobilizando a sociedade, articulando com diferentes atores e ocupando os espaços institucionais. E, sobretudo, inovando num novo fazer político, no qual a sustentabilidade seja princípio central e o desenvolvimento seja para sempre.

Onde estão os candidatos com pauta ambiental? Meio ambiente deveria ser uma agenda central no debate eleitoral, já que é direito humano e essencial para a qualidade de vida de todos.

Por isso, precisamos eleger uma bancada ambientalista forte para o Congresso, o que passa, inevitavelmente, pelos movimentos de renovação política que têm surgido na sociedade brasileira. E renovação aqui não é de nomes ou caras, mas de conteúdo e propostas. Uma renovação que tem como premissa o aumento da representatividade socioambiental no legislativo e no executivo. Políticos eleitos com o compromisso de enfrentar a exploração ambiental e tantos problemas diretamente relacionados a ela, como a disputa por terras e a violência no campo. E com a missão de liderar agendas positivas, o que inclui a implantação de mecanismos financeiros e tributários de apoio à a quem preserva áreas nativas e para restauração florestal, o aperfeiçoamento e a aplicação irrestrita da legislação socioambiental, o fortalecimento da gestão e das instituições públicas ambientais, o reforço do sistema de Unidades de Conservação e, especialmente, a eliminação do desmatamento ilegal.

Há mais de uma década, a Lei da Mata Atlântica trouxe segurança jurídica para a manutenção e recuperação deste bioma, especialmente com o protagonismo dos estados e da sociedade em sua implantação. Não seria diferente para uma legislação construída de forma equilibrada, participativa e com respeito à ciência. São iniciativas como essa que precisamos ver replicadas e aperfeiçoadas nos espaços de debate e construção política.

Estamos seguros de que um desenvolvimento permanente e duradouro precisa ser sustentável e, para tanto, devemos seguir construindo e fortalecendo políticas públicas alinhadas com as necessidades presentes e futuras, contribuindo para a saúde e bem-estar da população. Por isso, apresentamos como contribuição às candidatas e aos candidatos aos executivo e legislativo nas eleições de 2018 uma série de propostas com foco no desmatamento ilegal zero, restauração florestal, valorização dos parques e reservas, água limpa e proteção do mar.

Tais compromissos podem ser plenamente atendidos até 2022, ainda mais se forem executados com transparência, participação e por meio de parcerias qualificadas com governos, sociedade civil, academia e setor privado. As propostas estão colocadas. Agora é hora de debatê-las.

Marcia Hirota e Mario Mantovani são, respectivamente, diretora executiva e diretor de políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica. Saiba como apoiar as ações da Fundação.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

O lucro ou as pessoas? O progresso ou a preservação do meio ambiente?

O custo de fazer negócio e os mitos do progresso

 

Por Amelia Gonzalez
 


“As pessoas vão morrer protestando contra o oleoduto da Trans Mountain”. A expressão contundente de David Dodge, ex-diretor do Banco do Canadá David Dodge, dita semana passada durante uma das muitas manifestações da sociedade civil contra a expansão da tubulação que servirá para transportar gás natural para a costa do Pacífico e conseguir novos mercados no exterior, põe o dedo na ferida de uma das questões mais sensíveis de nossa era, da qual não me canso de mencionar. O lucro ou as pessoas? O progresso ou a preservação do meio ambiente?

O governo do Canadá, mesmo sob pressão intensa dos cidadãos que levam a sério os alertas dos cientistas que mostram os impactos causados no meio ambiente pelo uso abusivo dos combustíveis fósseis, decidiu enfrentar. Comprou o gasoduto já existente e o projeto de expansão da Kinder Morgan por US $ 4,5 bilhões depois que a empresa suspendeu os trabalhos diante da incerteza da sustentabilidade de seu negócio. E Dodge, num evento realizado quarta-feira passada num escritório de advocacia, justificou a atitude do primeiro-ministro Justin Trudeau.

Para Dodge, a expansão do gasoduto vai ajudar a economia do país, já que o “impacto dos gargalos de transporte nos preços do petróleo canadense custa cerca de US $ 10 bilhões por ano”. Portanto, diz o executivo, não se justificam os atos da sociedade civil, também por que o empreendimento estaria atendendo aos padrões mundiais do ambiente. Dodge considera as manifestações como “o equivalente ao zelo religioso que leva ao desrespeito à lei de uma forma radical, que poderia levar à morte ... ”

“Somos, coletivamente, uma sociedade disposta a permitir que os fanáticos obstruam a vontade geral da população? Isso acaba sendo um teste real para saber se realmente acreditamos no estado de direito”, disse ele.

Sem considerar todo o drama vivido pelos indígenas que estão no caminho desse progresso que chegará para outros por um cano que atravessará seu território, há, no cerne desse discurso, uma negação de diversos estudos. Dodge não menciona os riscos ambientais que já existem e já estão transtornando a vida de 18 milhões de pessoas no mundo todo, deslocadas por terem que enfrentar os efeitos das mudanças climáticas causadas pelo uso dos combustíveis fósseis. E deixa, também, de lado, o impacto à saúde humana, já registrado em diversos relatórios. Apenas para citar um, e bem aqui perto: o Laboratório de Poluição Atmosférica da Universidade de São Paulo fez um estudo em 2005 onde concluiu que o paulistano perde, em média, dois anos de vida em função da poluição ambiental.

“Diferentemente do cigarro, a poluição do ar não pode ser evitada”, concluíram os pesquisadores do estudo.

Menosprezando tudo isso, o executivo do banco priorizou a economia do país. É parte de sua natureza, no fim das contas. E é esta reflexão que pode nos levar a tentar encontrar um caminho que não está na polarização, na dialética. Neste sentido, gosto da leitura de “O mito do progresso”, livro escrito por Gilberto Dupas dois anos antes de sua morte em 2008, e lançado pela Editora Unesp. 

Dupas lutou contra a ditadura militar nos anos 60, ocupou o cargo de presidente de uma empresa de papel e celulose, e quando o governo civil assumiu o poder, esteve como executivo na Caixa Econômica, no Banespa, além de ter sido Secretário de Agricultura e Abastecimento. É, portanto, um defensor do diálogo, cuja vida foi interrompida cedo demais por causa de um câncer.

No capítulo em que se dedica a escrever sobre o meio ambiente e o futuro da humanidade, Dupas estuda o modelo de desenvolvimento implantado pela civilização global que “conduz à prioridade do conforto aparente sobre a saúde e a preservação da vida e da natureza”. E esmiuça, à luz de uma vontade clara que leva à disposição para se obter algum consenso nessa dinâmica, o papel do empreendedor:

“A regra básica do empreeendedor dentro da lógica capitalista é a maximização do lucro. Regulação e restrições só são assimiladas quando definidas e punidas pelo setor público, ou quando a auto-regulação mostra vantagens mercadológicas significativas por melhorar a imagem do produto ou da empresa diante do mercado conumidor ou investidor. ... essa afirmação não inclui nenhum julgamento moral sobre as empresas, já que faz parte da natureza delas buscar continuamente estratégias para a maximização dos seus resultados. 

Portanto, a questão ambiental nunca será a prioridade maior de suas gestões, mas sim um problema a contornar ou utilizar para gerar melhores resultados econômicos a médio prazo. Resta à sociedade, por instrumentos que puder estruturar, fazer valer sua opinião sobre que riscos se dispõe a correr; e com que objetivos”, escreve Dupas.


O caminho, portanto, indicado pelo cientista social, é justamente aquele que Dodge enfrentou na quarta-feira passada. No site da organização 350.org (o nome da ONG corresponde ao número de partículas por milhão de dióxido de carbono que o planeta teria condições de absorver – já estamos em 470), esta resistência que está sendo levada à frente por pessoas a favor de manter os combustíveis fósseis no solo está bem explicada. No mundo todo, são sete frentes de luta que estão dando certo, fazendo barulho, embargando obras.

O Salve Lamu está contra a instalação da primeira usina a carvão do continente africano, fora a África do Sul e tem apoios nacionais e internacionais. Há um movimento também contra a instalação de outro oleoduto, da Ponte Bayou, ao sul da Louisiana: combinado com os efeitos das mudanças climáticas que já são sentidos, os pântanos da Louisiana – e as comunidades que prosperaram em seu entorno por gerações – estão ameaçados. 


Linha 3 é outra proposta de oleoduto que traria petróleo bruto das areias betuminosas de Alberta, no Canadá, até Superior, em Wisconsin, nos Estados Unidos, e há também uma organização maciça da sociedade civil contra ela. Aqui no Brasil, o movimento “No Fracking” vem resistindo, desde 2012, à prática de tirar gás de xisto com técnicas perigosas não só ao ambiente como à saúde humana.

Por fim, o Gasoduto Trans Adriático – ou TAP, na abreviação do inglês – faz parte do Corredor Sul de Gás, um mega gasoduto de mais de três mil quilômetros que permitiria que o gás, um combustível fóssil poluente composto principalmente de metano, fluísse do Azerbaijão para a Europa, também tem resistência forte. E o Pare Adani mobilizou dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo contra a instalação da usina de carvão Carmichael, proposta em Queensland, no extremo Nordeste da Austrália, pronta para ser a maior daquele país e uma das maiores do mundo.


Como se vê, há muita luta, pouco diálogo. As empresas ainda podem, dia a dia, se surpreender com as atividades organizadas que fogem do atual senso comum do “cada um por si”, impondo uma agenda de iniciativas coletivas bem potente. Pode ser o caminho para uma civilização menos egoísta e mais aberta a considerar o progresso dominante como um mito que, segundo Dupas, que deve ser desvelado, já que é sempre “renovado por um aparato ideológico interessado em nos convencer que a história tem um destino certo – e glorioso – que dependeria mais da omissão embevecida das multidões do que da sua vigorosa ação e da crítica de seus intelectuais”.