segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Brumadinho: O crime da VALE exige justiça e não apenas medidas paliativas, artigo de Gilvander Moreira






Brumadinho
Sobrevoo da área atingida pelo rompimento da barragem em Brumadinho. 
Foto de Isac Nóbrega/PR

1 Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.gilvander.org.brwww.freigilvander.blogspot.com.brwww.twitter.com/gilvanderluis – Facebook: Gilvander Moreira III

Denúncia: Barragens de Rejeitos que Matam em Silêncio – CBMM, Araxá (MG)

Denúncia: Barragens de Rejeitos que Matam em Silêncio – CBMM, Araxá (MG)


denúncia

por Frei Rodrigo Péret, ofm

Há mais de 36 anos, uma contaminação por bário, metal pesado, continua adoecendo e matando pessoas, em Araxá, Minas Gerais. Fruto de uma infiltração ocorrida na Barragem B4 da CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração).

As barragens de rejeitos de mineração matam e destroem não só quando rompem. As empresas mineradoras, através das barragens, cometem um crime silencioso e constante. Vamos através de alguns artigos falar desse crime silencioso, Neste primeiro artigo tratamos o caso da CBMM, Araxá.

Em 1982, ficou constatada a contaminação das águas subterrâneas e superficiais por bário, proveniente das águas que se infiltraram depois de percolar rejeitos contendo cloreto de bário da Barragem B4, pertencente a CBMM.

Em 27 de agosto de 2018 lemos no site no Ministério Público de Minas Gerias (MNPMG) sobre Convenio firmado com a CBMM:

” A companhia é responsável pela contaminação de lençóis hídricos subterrâneos com substâncias químicas oriundas de fontes antrópicas, verificada em 1982, quando foi identificada a presença de bário solúvel acima das concentraçõesnaturais nos corpos hídricos dentro e a jusante da Barragem 4 da CBMM.

Desde então, a empresa vem implementando um conjunto de medidas mitigadoras, sem, no entanto, concluir o processo de remediação ambiental desenvolvido no âmbito do Convênio, Termo de Compromisso, Termo de Acordo e Termo de Aditamento de Acordo, firmados respectivamente com o Estado de Minas Gerais, com o município de Araxá e com o Ministério Público, no Inquérito Civil instaurado pela 1ª promotoria de Justiça de Araxá.”

Entenda a questão:
Na região do Barreiro, em Araxá,  “os elevados teores de bário começaram a ser detectados em 1982, após análises da água do lago da barragem B4 que recebia os efluentes do processo de beneficiamento do minério de nióbio. Para a concentração do minério, o pirocloro (BaNb2O6) era calcinado com cloreto de cálcio onde o bário é substituído pelo cálcio formando, como um dos produtos finais, cloreto de bário (BaCl2) que é um sal altamente solúvel. 

O cloreto de bário era então descartado e lançado na barragem de rejeito B4, juntamente com outros resíduos. A partir da massa de rejeito, o bário contaminou as águas superficiais e, principalmente, as subterrâneas.”  (AVALIAÇÃO E DIAGNÓSTICO HIDROGEOLÓGICO DOS AQÜÍFEROS DE ÁGUAS MINERAIS DO BARREIRO DO ARAXÁ, MG – BRASIL. Anais do1st Joint World Congress on Groundwater, ano 2000).

Em 16 de setembro de 2015, denunciávamos em artigo publicado aqui, no Fala Chico, “Complexo hidromineral de Araxá ameaçado”:

” De acordo com Nota Técnica número 1 da Fundação Estadual do Meio Ambiente -(FEAM) e do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM), de julho de 2015, a concentração de metais pesados está seis vezes acima do permitido. A causa da contaminação da água se encontra na exploração de nióbio pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração – CBMM, que não respeita normas e legislação”

Segundo a FEAM, nesta Nota Técnica,  a contaminação das águas vem ocorrendo desde a década de 80. Estudos apontam que a contaminação das águas do complexo do Barreiro, em Araxá ocorre pela liberação de bário no ambiente, decorrente da exploração do nióbio na região, atividade explorada pela CBMM. Por solicitação da FEAM, a empresa iniciou um monitoramento e atividades, em 1984, que não foram adequadas para conter a contaminação. O resultado é que a tentativa de solução levou a outras contaminações, com a elevação dos níveis de sódio, sulfato e cloreto. A contaminação afeta águas subterrâneas e superficiais, além do solo e subsolo.

A nota técnica FEAM / IGAM ainda afirma que os relatórios da CBMM não são suficientes e carecem de detalhamento e cálculos, que demonstrem suas afirmações; que o monitoramento da CBMM é inadequado e não suficiente; que existem mapas elaborados de maneira inadequada; que se constatam dados faltantes nos relatórios apresentados pela CBMM; que existem pendencias da CBMM em relação à pedidos da FEAM; que a técnica de remediação da contaminação de bário é questionável pela sua baixa eficiência e a própria remediação está gerando problemas, subprodutos das reações, que são contaminantes (sulfato, sódio e cloreto); A Nota Técnica ainda ressalta que não são atendidas normas exigidas pela ABNT.

A empresa CBMM, não nega a contaminação e pode ser constatado tal fato no Parecer Único – Protocolo nº 615703/2007, dirigido a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável – Superintendência Regional de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, em que justifica a mudança no seu modo de operar, pelo seguinte: “… Com a mudança do processo, o efluente rico em cloretos (em média 50m3/h), que não favorecia a remediação da contaminação do bário, (….) As atividades de remediação da contaminação de bário solúvel a jusante da Barragem B-4 são desenvolvidas de acordo com definições acordadas em convênio com o Governo Estadual, assinado em 10 de julho de 1984. (…) Desde a década de 80 são encaminhados semestralmente a FEAM relatórios de acompanhamento das atividades”.

Drama dos moradores
Na Comarca de Araxá tramitam mais de 500 processos com pedidos de indenização por danos a saúde causado pela contaminação da água. Muitas famílias vêm sofrendo com diversos tipos de doenças, como câncer, doenças renais e cardiovasculares. Nos últimos seis anos, somente das famílias que entraram com ação judicial, 30 pessoas já morreram de câncer.


Cerca de 200 famílias que vivam na região do Complexo do Barreiro, no chamado Alto Paulista e adjacências, tiveram que sair de suas casas após a descoberta da contaminação. As famílias que lá moravam utilizavam água imprópria para o consumo humano há anos. Através da Associação dos Moradores do Barreiro, essas famílias conseguiram na Justiça que a Prefeitura da cidade fornecesse água mineral aos moradores que ainda residem lá.

Os danos à saúde das pessoas, nesses 36 anos são enormes e irreparáveis.

O Drama continua

Em maio de 2018, a Justiça julgou serem improcedentes as 517 ações propostas contra a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), Bunge e Vale Fertilizantes, em que os autores alegavam a contaminação das águas subterrâneas na região do Barreiro. Segundo as ações, essa contaminação teria sido feita pelas empresas e desencadeado diversos problemas de saúde nas pessoas que residiam no Barreiro. A sentença afirma que não houve a comprovação da contaminação das águas.

As famílias que entraram com a ação viviam na região do Complexo do Barreio e não só as da rua Alto Paulista, como versa na sentença, recorram dessa decisão do juiz da 3ª Vara Cível da Comarca de Araxá.

Não bastasse as notas técnicas de 2015, da FEAM e do IGAM e o novo Termo de Convênio entre Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) por meio do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente (Caoma) e da Promotoria de Defesa do Meio Ambiente de Araxá firmando com a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), em 27 de agosto de 2018, deixar claro que a contaminação existe, as famílias continuam numa luta sem tréguas para na justiça.
Frei Rodrigo Péret, ofm


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/02/2019

"Denúncia: Barragens de Rejeitos que Matam em Silêncio – CBMM, Araxá (MG)," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 1/02/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/02/01/denuncia-barragens-de-rejeitos-que-matam-em-silencio-cbmm-araxa-mg/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

ANP, não venda a Amazônia para as petrolíferas

Fomos com nossos ativistas até a agência do governo pedir que a Amazônia não caia nas mãos de empresas que podem ameaça-la.

Os funcionários da Agência Nacional de Petróleo (ANP) tiveram uma visita inesperada nesta quinta-feira de manhã. Nosso time de ativistas foi até a sede do órgão do governo defender a Amazônia. E fomos dizer que não aceitamos a venda de 80 áreas para empresas explorarem petróleo e gás natural no meio da floresta e no litoral dos estados do Norte.

Desde 1o de novembro, a ANP iniciou um tipo de leilão chamado Oferta Permanente e está oferecendo 80 blocos na Amazônia, a maioria no estado do Amazonas. Quarenta deles estão próximos áreas protegidas, como a Área de Proteção Ambiental Tarumã e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uatumã.

E existem blocos sobrepostos a territórios indígenas não demarcados, caso dos Maraguá. O Amazonas é habitat de centenas de espécies endêmicas, entre elas algumas ameaçadas de extinção como o sauim-de-coleira e o tucano-de-bico-preto.

Só a operação e infraestrutura para explorar petróleo já impactaria a floresta e o modo de vida de comunidades locais. Mas a maior ameaça é de um derramamento de óleo – que pode acontecer nesse tipo de atividade. As consequências seriam enormes e até irreversíveis: na floresta, a contaminação de igapós, de plantas, árvores, animais, ameaçando inclusive a cadeia alimentar da qual fazemos parte. Para piorar, a limpeza do petróleo derramado na floresta é extremamente complexa e envolve desmatamento.

Blocos ameaçando os Corais da Amazônia

Há também 40 blocos na bacia do Pará-Maranhão, no litoral desses estados. Esses blocos estão próximos ao recife dos Corais da Amazônia, um ecossistema único que estamos defendendo do petróleo há 2 anos.

Na semana passada, mais de 2 milhões de pessoas que defendem os Corais tiveram uma grande vitória: O Ibama negou a licença para a petrolífera Total considerando os riscos que a exploração traria ao bem estar do ecossistema. Depois dessa grande vitória, não podemos aceitar que a ANP coloque mais blocos à venda e ameace a Amazônia.


Pela proteção da floresta e dos Corais, dizemos: Petróleo na Amazônia, não!




Greenpeace descobre descarte ilegal de resíduo de petrolíferas

 

Grandes companhias estão operando no norte da Patagônia argentina e despejando sem controle materiais tóxicos. O ambiente, animais e pessoas estão em risco.


Uma investigação do Greenpeace Andino revelou que grandes empresas petrolíferas, como a Total, Shell Chevron e Exxon, estão descartando ilegalmente resíduos de processos industriais no norte da Patagônia, na Argentina. Isso está colocando em risco o meio ambiente, espécies de animais e pessoas.

Caminhão despeja resíduos químicos, restos do processo de fracking, sem qualquer tratamento 
ou cuidado. A operação está colocando em risco o meio ambiente, as espécies e as comunidades 
locais. (Foto: © Greenpeace)

O depósito é feito pela empresa Treater S.A., que opera para as petrolíferas. Os resíduos químicos são restos do processo de fraturamento hidráulico (fracking) e estão sendo despejados sem qualquer tratamento ou proteção em aterros a céu aberto.


Tudo isso está acontecendo a menos de 5 quilômetros do rio Neuquén e da cidade de Añelo, na Argentina, onde há campos agrícolas e fontes de água potável das quais a população depende. Em menos de dois anos, um dos depósitos de lixo alcançou o tamanho de 15 campos de futebol. 


Pesquisadores do Greenpeace coletaram amostras de solo ao redor das cidades de Añelo e Neuquén, incluindo a instalação de resíduos da Treater e descobriram quantidades acima do aceitável  de produtos químicos tóxicos. Essa poluição representa um risco para a saúde das comunidades. “O modo como essas petrolíferas operam é puro vandalismo ambiental e demonstra o pouco controle que as autoridades locais realmente têm”, disse Paul Horsman, porta-voz da campanha de Clima e Energia do Greenpeace Andino. 


A população já registrou uma queixa criminal em outubro pedindo ao Ministério Público para investigar possíveis responsabilidades criminais. Representantes do Greenpeace Andino escreveram aos CEOs da Treater e das seis petrolíferas implicadas.


A Treater respondeu que sua operação é legal e a Shell reconheceu um relacionamento com a Treater, mas alegou que as autoridades são responsáveis ​​pela supervisão de suas operações. A Total solicitou uma reunião com o Greenpeace, mas não comentou as conclusões da investigação. As outras empresas nem responderam.


A petrolífera Total: conhecida de longa data

Além de operar na Argentina, a petrolífera francesa Total também está de olho no petróleo do Brasil. Ela é uma das empresas interessadas em explorar a foz do rio Amazonas, perto dos Corais da Amazônia. Em 7 de dezembro, o Ibama negou a licença para a empresa, barrando seu projeto


O envolvimento da Total em mais esse escândalo coloca em dúvida a maneira como a empresa lidaria com sua responsabilidade socioambiental no caso de um impacto. Só mostra mais uma vez que a atividade petrolífera é arriscada e envolve problemas ambientais inaceitáveis. 
 
 

O que os Corais da Amazônia podem ensinar sobre Brumadinho?


Este 28 de janeiro é celebrado como o Dia Mundial dos Corais da Amazônia, data em que o mundo conheceu as primeiras imagens deste ecossistema recifal único


Há dois anos, usamos um mini submarino em nossa primeira expedição à bacia da foz do Rio Amazonas, a mais de 100 km da costa do Amapá e mais de 100 metros de profundidade, para registrar uma grande diversidade de vidas, cores e texturas que encantou os cientistas e o mundo. A humanidade se deparava com um novo cantinho do planeta até então desconhecido.

Por dois anos, promovemos uma intensa mobilização em defesa do recife dos Corais da Amazônia, no qual mais de 2 milhões de pessoas ao redor do mundo assinaram uma petição se declarando contra a exploração de petróleo na região, que ameaçava esse tesouro natural que só existe ali. A vitória veio no final do ano passado, com a rejeição definitiva pelo Ibama da licença ambiental que autorizaria a exploração para a petrolífera Total.

Exemplo para o país
Este é um importante alerta e exemplo sobre a importância de se respeitar o processo de licenciamento ambiental. Os técnicos do Ibama avaliaram o Estudo de Impacto Ambiental da empresa por cinco vezes e constataram que ela não tinha um plano de emergência adequado para lidar com um derramamento de petróleo. Se isso acontecesse, poderíamos ter outro grande impacto ambiental como vimos agora com o rompimento da barragem em Brumadinho (MG).

É bom lembrar, além da riqueza dos próprios Corais da Amazônia, na costa do Amapá  está uma das maiores faixas de manguezais do mundo, sendo um berçário e área de alimentação sensível para diversas espécies de peixes, crustáceos, aves e mamíferos. Além disso, diversas comunidades de pescadores dependem dos mares limpos e saudáveis para se manter. Uma operação petrolífera teria fortes perturbações aos animais e, com as fortes correntezas que são comuns nestas águas, um vazamento de óleo causado por qualquer motivo poderia se espalhar rapidamente, chegando mesmo até o Caribe. Levaria anos para que tudo fosse limpo.


Graças à avaliação exigida pelo licenciamento ambiental, um crime ambiental que
poderia destruir esse ecossistema pode ter sido evitado; agora é preciso exigir
 “blindagem política” dos órgãos técnicos © Greenpeace

Por isso, é importante que a mesma seriedade concedida para a petrolífera Total em relação aos Corais da Amazônia seja aplicada na avaliação de todos os empreendimentos no Brasil para evitar que novas tragédias como Mariana e Brumadinho continuem acontecendo. Não podemos continuar permitindo interferências políticas e afrouxamentos das regras, como foi o caso da barragem em Minas Gerais, no qual a licença ambiental foi concedida de forma expressa, apesar dos riscos e avaliações técnicas apontados pela comunidade local, os ambientalistas e técnicos do Ibama.
Mariana Disaster: One Year after the Collapse of the Dam. © Yuri Barichivich
Manifestação por justiça nas ruínas da escola de Bento Rodrigues um ano após o
rompimento da barragem de Mariana: falha no rigor do licenciamento ambiental
e da fiscalização
© Yuri Barichivich


Grupos com forte lobby no Congresso, grupos ligados ao agronegócio, da indústria e da mineração continuam pressionando para mudar a lei. Sob o argumento de que há muita burocracia, querem flexibilizar o licenciamento ambiental, sem considerar que ele é um importante mecanismo de prevenção. Em caso de desastres, os mais atingidos são as pessoas mais vulneráveis e o meio ambiente, e não as empresas. O novo desastre em Brumadinho, três anos após Mariana, mostra que os ambientalistas estão certos em criticar esse “jeitinho”.

Uma tragédia evitada!
Neste 28 de janeiro, vamos celebrar os Corais da Amazônia com o sentimento de dever cumprido. Todos nós que fomos às ruas, que assinamos as petições, que fizemos doações para viabilizar essas importantes expedições, ajudamos a proteger um ecossistema único, e podemos ter evitado também uma tragédia imensurável em uma das regiões mais belas e exuberantes do planeta. Mas precisamos continuar vigilantes. Afinal, aqueles que defendem o desenvolvimento a qualquer custo, em busca do lucro rápido e fácil, não perdem uma oportunidade. Outras empresas estão de olho no petróleo da bacia da foz do Rio Amazonas e podem querer explorar a região.
 

“A terra está vomitando”



Aldeia indígena Naô Xohã não pode mais pescar e tomar banho em rio devastado por lama tóxica, após rompimento da barragem da Vale


Werymerry Hã-hã-hãe, Vice-Cacique da aldeia Pataxó Hã-hã-hãe Naô Xohã, com amostras de 
água antes e depois da lama tóxica chegar ao rio Paraopeba. 

© Nilmar Lage / Greenpeace


O povo indígena Pataxó Hã-hã-hãe está entre as comunidades atingidas pelo rompimento da barragem em Brumadinho. Quatro dias após mais esse crime cometido pela mineradora Vale, seguimos em direção à aldeia Naô Xohã, localizada a 22 quilômetros da barragem.

Fomos recebidos pelo Cacique Hayô Pataxó Hã-hã-hãe e pela Vice-Cacique Werymerry Pataxó Hã-hã-hãe. O semblante das duas lideranças revelava que a situação das 12 famílias que moram ali é preocupante.

O trecho do Rio Paraopeba que passa ao lado da aldeia está contaminado com rejeitos da Vale e por isso os indígenas não podem usá-lo para pescar e tomar banho.

“O primeiro momento foi de desespero porque já aconteceu outra tragédia desse nível antes e todos nós podemos ver as consequências disso”, conta a vice-cacique. “Então nós pegamos as pessoas mais frágeis da nossa aldeia e levamos pro topo mais alto até entender qual era a real situação. Eu me senti impotente, porque as vidas que estão na aldeia dependem da gente, então como liderança fiquei meio perdida”. Há sete grávidas, dois idosos e 19 crianças na aldeia atualmente.

Antônia Remunganha, com 88 anos, é a indígena mais velha da comunidade. Sentada em um banquinho de madeira na entrada de sua oca, ela lamentava os últimos acontecimentos. “Isso foi uma tragédia muito dolorosa. Só o tanto de gente que morreu, os peixinhos que a gente pegava pra comer… Hoje ninguém pode pegar um peixe pra comer. O rio virou uma lama. O que será de nós?”.

Na margem do rio Paraopeba, o cheiro de peixe morto me causou náusea. Para amenizar o forte odor e evitar a proliferação de mosquitos, os indígenas estão enterrando os peixes. Sem sua principal fonte de alimento e abastecimento hídrico, eles passaram a depender de doações. Jorge Luiz de Paula, coordenador regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) que chegou na aldeia um pouco depois da equipe do Greenpeace, ainda buscava formas de prestar assistência imediata aos Hã-hã-hãe.

“Estamos aqui buscando encontrar alternativas. Inicialmente, pelo voluntariado, que é onde já existe disponibilidade de recursos”, ele disse. Até o dia da nossa visita, a Vale ainda não havia entrado em contato com a comunidade.

Werrymery me mostrou duas garrafas com amostras da água do rio. Uma coletada logo que souberam do rompimento, quando a lama tóxica ainda não havia chegado à aldeia, e a outra, dois dias depois, quando os rejeitos atingiram esse ponto do rio. O contraste de cor é grande, variando de um quase cristalino a um marrom terroso.

Antônia Remunganha, indígena mais velha da aldeia Naô Xohã, pergunta: “O que será de nós?”
 © Nilmar Lage / Greenpeace


“A terra está vomitando, então ela não está bem. Tudo que destrói a natureza destrói a si mesmo”, ela disse, ressaltando a importância daquele corpo d’água para a comunidade. “A nossa relação com o rio é muito especial porque os pataxós surgiram de uma gota de água que caiu na terra”.
 

Dor de cabeça antiga

Os problemas causados pela Vale começaram bem antes da tragédia de sexta-feira. Seis meses atrás, os Hã-hã-hãe já haviam percebido que rejeitos estavam contaminando o rio, porque notaram uma pequena mortandade de peixes. Na época, procuraram a Vale, que prometeu que não lavaria mais os caminhões que carregam minérios próximo ao rio.

Háyô Hã-hã-hãe, Cacique da aldeia Pataxó Hã-hã-hãe Naô Xohã, observa o rio Paraobeba com lama 
tóxica. © Nilmar Lage / Greenpeace

“Não demorou nada, veio a barragem para destruir de novo”, lamenta o cacique.


Ele vê com preocupação a proposta do novo governo de permitir a mineração em Terras Indígenas, especialmente quando fica clara a falta de transparência e cumprimento de regras de segurança por parte das mineradoras. “Temos que ter respeito à natureza e dizer ‘não’ à mineradora”, ele defende.

Na língua pataxó, Naô Xohã significa “Espírito guerreiro”. Ao partirmos da aldeia, tive a certeza de que os pataxó lutarão até o fim pela preservação de seu povo e seu território. Porque, como me disse o cacique Hayô, “Sendo um povo pataxó, sem a natureza nós não somos um povo pataxó”.


Nossa visita à aldeia Naô Xohã contou com o apoio do Cimi.

Chega de impunidade! Precisamos parar com os crimes da Vale

Chega de impunidade! Precisamos parar com os crimes da Vale

 por Greenpeace Brasil


31 de janeiro de 2019 |  7 Comments



O Greenpeace lançou nesta terça-feira (29) uma petição pública pedindo a suspensão imediata da operação das 167 barragens de contenção de rejeitos de mineração controladas pela Vale S/A e suas subsidiárias em cinco estados brasileiros (GO, MG, PA, SE, SP). Isso até que a segurança de operação seja garantida por órgãos competentes desvinculados da empresa, conforme previsto em lei. Entendemos que as ações e promessas que estão sendo tomadas pela Vale nos últimos três anos, desde o desastre do Rio Doce, não garantem a segurança do meio ambiente e da população nas regiões onde estão instaladas estas barragens.
ASSINE A PETIÇÃO
A Vale é a companhia privada que mais possui barragens no Brasil. São 175 no total, sendo 167 de contenção de rejeitos de mineração. Tanto o Ministério Público quanto a Agência Nacional de Águas vêm relatando que cerca de um terço das barragens da Vale estão em situação de alto risco de colapso. Cabe ressaltar que Brumadinho teve sua categoria rebaixada a baixo risco, de forma a acelerar e facilitar seu licenciamento. Este rompimento é criminoso e é mais um episódio decorrente do modelo predatório de mineração adotado pelo Estado brasileiro em conivência com as empresas que atuam no setor. As tentativas de se melhorar a legislação sobre segurança das barragens foram rejeitadas devido ao forte lobby das próprias mineradoras, que dominam a economia da região.
Quando assumiu a presidência da Vale, Fabio Schvartsman declarou que seu lema seria “Mariana nunca mais”. No dia 29 de janeiro, após mais um crime, ele anunciou que existem outras 19 barragens à semelhança de Brumadinho e Mariana. Segundo ele, destas, nove já foram descomissionadas, ou seja, desativadas e reintegradas à paisagem, enquanto as outras dez seguirão o mesmo caminho ao longo dos próximos três anos. Entretanto, eliminar essas 19 barragens não é suficiente para impedir que crimes como o de Brumadinho se repitam. O processo de “descomissionar” uma barragem leva anos e, enquanto ela não é totalmente reintegrada ao meio ambiente, ainda apresenta riscos. Além disso, quem pode garantir que apenas essas 19 barragens têm problemas? Em Brumadinho, ficou evidente que a avaliação sobre as análises de riscos pode demonstrar falhas.
Por isso, exigimos que o governo suspenda a operação de todas as 167 barragens da Vale em todo o Brasil até que sejam fiscalizadas de maneira independente e que a população brasileira tenha informações transparentes da situação de risco de cada barragem.
Em apenas três anos, a Vale foi a responsável pelas duas maiores tragédias socioambientais do Brasil: Mariana e Brumadinho. E comprovou sua incapacidade de mitigar riscos e lidar com as consequências dos desastres por ela causados. Depois de dois casos de rompimento de barragens com imensos impactos humanos e ambientais, ela mostrou que não podemos confiar em dados e promessas de uma mineradora que não ressarciu erros passados. Precisamos começar pelo mais grave. Se a Vale, que é uma gigante do setor muda, outras empresas podem seguir o mesmo caminho.