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Segundo os dados apresentados no novo
Relatório sobre a Lacuna Circular,
a proporção de materiais e recursos que se reusam e reciclam a nível
global diminuiu de 9,1% do total a 8,6%, enquanto que a humanidade usou
mais materiais do que nunca, chegando às 100 bilhões de toneladas de
recursos em apenas um ano.
O artigo é de
Eugenio Fernández Vázquez, consultor ambiental do Centro de Especialistas e Gestão Ambiental no México, publicado por
CPAL Social, 03-02-2020. A tradução é de
Wagner Fernandes de Azevedo.
Se o mundo retroceder nas medidas para reduzir a
crise climática e ambiental que
vivemos as coisas irão ainda pior, apesar de como já arderam em chamas a
Austrália, Amazônia e Califórnia. Assim mostra o novo
Relatório sobre a Lacuna Circular que acaba de ser publicado (disponível em inglês,
neste link).
Segundo os dados apresentados, a proporção de materiais e recursos
que se reusam e reciclam a nível global diminuiu de 9,1% do total a
8,6%, enquanto que a humanidade usou mais materiais do que
nunca, chegando às 100 bilhões de toneladas de recursos em apenas um
ano.
Princípios da Economia Circular
O novo relatório é elaborado pela
Plataforma para Acelerar a Economia Circular, uma iniciativa abrigada pelo
Instituto de Recursos Mundiais (WRI, em inglês) e liderada por
Royal Philips e o
Fundo para o Meio Ambiente Mundial.
O que mostra essa nova publicação é um mundo que não tomou medidas de
contundência necessária para reduzir os impactos da economia em dois
flancos fundamentais: a extração de recursos e seu descarte.
Pelo lado da extração, esse relatório encontrou que entre 2015 e 2017
os recursos extraídos passaram de 84,4 bilhões de toneladas de
materiais para 92 bilhões de toneladas, um aumento de 9%.
Ademais, o total de desperdícios no mundo passou no mesmo período de
algo abaixo de 20 bilhões de toneladas para quase 33 bilhões de
toneladas. Ainda que o relatório demonstre que grande parte do aumento
pode ser um artifício da mudança de metodologia, o crescimento está aí,
ainda que seja um pouco menor que o aparente, e isso segue sendo uma
notícia muito ruim.
Enquanto isso, os
recursos reutilizados, a duras
penas, alcanças as 9 bilhões de toneladas, e ainda que neste item o
relatório registre um aumento de quase 1,5 bilhões de toneladas, essa
melhora é enfraquecida diante dos retrocessos que ocorreram.
A economia se fez menos
sustentável, apesar dos esforços de muitos e da enorme quantidade de promessas e salivas gastas pelos líderes do mundo.
Apesar de o relatório em si mesmo ser um avanço, porque põe o tema
da economia circular sobre a mesa e permite entender o que ocorre na
matéria, tem um problema visível: que seus autores seguem esperando que
o crescimento econômico possa ser feito sem destruir o mundo.
Assim é aparente, na forma em que catalogam os países, usando entre
outros indicadores esse. O uso desse índice não é ruim em si – é um dos
mais compreensivos dos que dispomos a nível global – porém o informe
destaca como algo positivo que um país tenha uma economia “poderosa e em
crescimento”, e isso é como pedir a alguém que perca peso ao mesmo
tempo que lhe receitamos mais açúcar.
O problema em pedir às
economias que cresçam – em
lugar de, por exemplo, gerar maior igualdade e prosperidade para todos,
independentemente de seu tamanho – é que para conseguir necessita-se
ganhar em escala, concentrar a riqueza e explorar os de baixo para ter
maiores excedentes a investir e aumentar o que se faz.
Uma
economia que cresce, ainda, necessariamente
necessita consumir mais materiais, com poucos incentivos para busca-los
entre o reusáveis ou reciclados.
A alternativa, ainda, está em imaginar um novo caminho e um novo destino para as economias do planeta.
Mais que pensar em crescer, há de se pensar em redistribuir; mais que
aplaudir uma enorme corporação global se compromete a não usar sacolas
plásticas ou a comprar este ou outro material orgânico, há que se
fortalecer as
economias locais, as pequenas empresas ou as cadeias curtas.
Fazer isso é, sem dúvida, difícil. Levará tempo e um
trabalho descentralizado e muito plural para construir novos laços, apesar das investidas de governos e transnacionais.
No entanto, já se registraram alguns avanços como os das iniciativas
de comércio justo e das cooperativas de consumo. Esses triunfos, ainda
que tímidos, mostram que outro mundo é possível. O
Relatório sobre a Lacuna Circular mostra que, ainda, é necessário.
(EcoDebate, 10/02/2020) publicado pela
IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da
Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]