quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Valor Econômico – As pegadas de carbono dos ricos / Artigo / Adair Turner

Valor Econômico – As pegadas de carbono dos ricos / Artigo / Adair Turner

Países devem assumir por emissões que seu consumo gera em outros países

A ativista ambiental Greta Thunberg acusa as economias desenvolvidas de praticar “contabilidade criativa do carbono”, por causa dos meios que usam para medir as emissões de gases de efeito estufa (GHG), nas reduções planejadas e alcançadas, por não considerarem os gases emitidos quando produtos importados são fabricados em outros países. Como observam, com razão, as autoridades chinesas, cerca de 15% das emissões de seu país são produzidas quando produtos são feitos na China, mas consumidos em outras economias, geralmente mais ricas.

A China e outras economias em desenvolvimento também estão instintivamente desconfiadas das propostas dos países desenvolvidos de combinar os preços do carbono doméstico com “tarifas de carbono” sobre produtos importados. Mas essas políticas podem ser a única maneira de os consumidores do mundo rico assumirem responsabilidade por sua pegada de carbono em outros países.

    As receitas com os impostos sobre as emissões de carbono cobrados dos produtores domésticos deveriam ser usadas para apoiar os investimentos em tecnologias de baixas emissões de carbono ou como um dividendo de carbono

O encargo sobre a “contabilidade criativa” seria injusto se implicasse uma dissimulação deliberada; o Reino Unido, por exemplo, publica um relatório sobre a pegada de carbono de fácil acesso. Mas os números certamente apoiam o ponto de vista de Thunberg. Em 2016, o Reino Unido emitiu 784 milhões de toneladas de GHGs numa base de consumo, em comparação a 468 milhões de toneladas numa base de produção. E entre 1997 e 2016 as emissões do Reino Unido baseadas no consumo caíram apenas 10%, comparado a um decréscimo de 35% nas emissões relacionadas à produção.

Do mesmo modo, as emissões totais da União Europeia baseadas no consumo estão cerca de 19% maiores que às relacionadas à produção. E embora a diferença de 8% dos EUA seja menor em termos percentuais, numa base de toneladas per capita ela é tão grande quanto.

A China é facilmente a maior contraparte a essa lacuna das economias desenvolvidas, com as emissões relacionadas ao consumo chegando a 8,5 bilhões de toneladas, versus 10 bilhões de toneladas com base na produção. E embora as emissões per capita da China já tenham superado as do Reino Unido, numa base relacionada à produção, serão necessários vários anos até que a pegada do consumo per capita do país supere a do Reino Unido.

Portanto, se o mundo desenvolvido estiver falando sério sobre limitar as mudanças climáticas, ele precisa assumir responsabilidade pelas emissões que seu consumo gera em outros países.

Há apenas duas maneiras de fazer isso. Uma é o mundo desenvolvido consumir menos. Estilos de vida mais responsáveis - comprar menos roupas, carros e produtos eletrônicos ou comer menos carne vermelha - certamente teriam papel importante para tornar possíveis economias que não emitem carbono, mas essas mudanças sozinhas não nos colocarão mais próximos das emissões zero. E os países desenvolvidos importando menos significaria exportações menores para as economias mais pobres, criando desafios ao desenvolvimento.

A alternativa é assegurar que os produtos importados sejam produzidos com baixas emissões de carbono, e eventualmente até emissões zero. A política ideal para se conseguir isso seria um acordo global para o preço do carbono, que encorajaria fabricantes de todos os países a adotarem tecnologias de baixa emissão de carbono ou carbono zero. Sem esse acordo, há agora pedidos crescentes na Europa e nos EUA por uma segunda melhor solução - preços do carbono doméstico impostos em determinados países, mais “ajustes de carbono de fronteira”, significando tarifas relacionadas ao carbono sobre importações de países que não impõem um preço de carbono equivalente aos seus fabricantes.

A reação imediata dos formuladores de políticas na China, Índia e muitos outros países em desenvolvimento poderá ser condenar essas políticas como mais protecionismo num mundo já desestabilizado pelas guerras de tarifas do presidente dos EUA, Donald Trump.

Mas na maior parte dos setores, a combinação de preços de carbono doméstico e tarifas de carbono de fronteira não representa ameaça à competitividade e às perspectivas de crescimento dos exportadores nas economias em desenvolvimento. Imagine que produtores de aço da Europa fossem submetidos a um novo imposto sobre a emissão de carbono de €50 (US$ 54) por tonelada de CO2 dentro da Europa, que também fosse aplicada às importações de aço da China ou outro país.

Neste caso, a posição competitiva relativa dos produtores europeus e estrangeiros de aço interessados em atender clientes europeus, não seria alterada em comparação ao ponto de partida sem a cobrança do imposto. E as siderúrgicas chinesas ou indianas, ou empresas de outros setores de emissões elevadas, estão tão bem posicionadas quanto suas contrapartes europeias ou americanas para adotar novas tecnologias que reduzam o conteúdo de carbono de suas exportações (e assim seus encargos com os impostos de carbono de fronteira).

De fato, os preços do carbono doméstico mais os ajustes de fronteira são uma rota alternativa para se chegar à igualdade de condições internacionais que, em condições ideais, seria garantida por meio de um preço de carbono global aplicado a todos os países. Mas há uma diferença fundamental: se as taxas sobre o carbono forem impostas na fronteira do país importador, em vez de dentro do país exportador, então o país importador precisa ficar com a receita tributária.

Este fato aumenta os incentivos para os países exportadores imporem impostos sobre carbono doméstico equivalentes, em vez de eles deixarem suas empresas pagar impostos nas fronteiras do país importador. Como resultado, os impostos sobre o carbono doméstico com ajustes de fronteira poderiam muito bem se mostrar um ponto de partida efetivo em direção aos preços globais de carbono, mesmo que um acordo internacional explícito sobre um regime global não seja firmado.

Além do mais, tal abordagem sugere uma maneira potencialmente atraente de encorajar uma aceitação mais ampla das tarifas de fronteira como legítimas, necessárias e não ameaçadoras. Certamente as receitas com os impostos sobre a emissão de carbono cobrados dos produtores domésticos deveriam ser usadas dentro da economia doméstica - seja para apoiar os investimentos em tecnologias de baixas emissões de carbono, seja como um “dividendo de carbono” devolvido aos cidadãos. Mas há um bom argumento a favor da canalização das receitas das tarifas sobre o carbono para programas de ajuda internacional elaborados para auxiliar economias em desenvolvimento a financiar sua transição para uma economia de emissão zero de carbono.

Negociadores dos países em desenvolvimento deverão defender essas transferências de receita, em vez de se oporem a uma política que os países desenvolvidos terão de implementar. Afinal, as economias mais ricas precisam não só reduzir suas emissões industriais, como também assumir a responsabilidade pelas emissões que o seu consumo está gerando em outras partes do mundo. (Tradução de Mário Zamarian)

Adair Turner, presidente da Energy Transitions Commission, foi presidente da Financial Services Authority do Reino Unido de 2008 a 2012. Copyright: Project Syndicate, 2020.

O Globo – Convenção quer 30% do planeta protegido em 10 anos

O Globo – Convenção quer 30% do planeta protegido em 10 anos

Países começaram a discutir ontem, em Roma, texto de tratado a ser assinado em outubro com metas para a biodiversidade

25 Feb 2020
RAFAEL GARCIA
SÃO PAULO

O primeiro esboço do tratado internacional sobre biodiversidade que será assinado em outubro propõe que a extensão de áreas protegidas terrestres e marinhas seja aumentada de 15% para 30% do planeta em 2030.

O chamado “esboço-zero” do tratado, que ainda deve sofrer muitas modificações até outubro, foi distribuído ontem a representantes dos 196 países da CDB (Convenção da Diversidade Biológica) que se encontram nesta semana em Roma, na Itália.

O texto provisório, que começa agora a ser modificado por diplomatas, foi construído em grande medida por cientistas com os quais a presidência da CDB se consultou.

Além de metas para aumentar as áreas protegidas, o documento preliminar propõe que os ecossistemas naturais da Terra não percam nem um hectare até 2030, quando computadas a remoção e a recuperação dessas superfícies.

Para 2050, a meta proposta é que as áreas naturais aumentem em um quinto. Isso significaria elevar de 47% para 56% a quantidade de ecossistemas naturais remanescentes no mundo.

Abrigando o bojo da maior floresta tropical do mundo e, também, país mais biodiverso, o Brasil é um dos atores cruciais nas negociações da CDB.

Os diplomatas que representam o Brasil na convenção neste ano terão, porém, o desafiode amorteceras pressões internacionais que o país vem sofrendo pela política ambiental no governo Bolsonaro.

O país deve argumentar, como fez em outras cúpulas da CDB, que não é justo o esforço de preservação recair majoritariamente sobre países tropicais, onde resta a maior parte da biodiversidade do planeta. O GLOBO apurou com diplomatas brasileiros que uma das principais restrições do país ao texto é que faltam referências claras a “meios de implementação”, incluindo recursos financeiros, para as metas a serem acordadas.

Se essa questão for endereçada, a balança de negociação pode ser equilibrada caso países desenvolvidos aceitem também a proposta brasileira para “repartição de benefícios” da biodiversidade, e “fim da biopirataria”. Isso significa, por exemplo, que medicamentos criados a partir de extratos naturais teriam de pagar royalties a países que preservam a biodiversidade de onde se originou o produto.

Essa é uma demanda histórica que nunca avançou, em grande medida por culpa dos Estados Unidos, que nunca ratificaram a CDB. Sem os EUA no tratado, a maior economia do mundo ficaria de fora da repartição de benefícios financeiros da biodiversidade. Ainda assim, o Brasil vê espaço para atendimento de parte de sua demanda.

O grupo de trabalho que elaborou o esboço-zero, ao entregá-lo para a presidência da CDB, pediu expressamente que a convenção busque um tratado “ambicioso” em outubro. Os tópicos mais importantes, porém, ainda estão em aberto, e dificilmente serão definidos já em Roma, o segundo de três encontros preliminares antes da cúpula da CDB em Kunming, na China.

O Globo – Metade dos povos indígenas isolados é alvo de religiosos

O Globo – Metade dos povos indígenas isolados é alvo de religiosos

24 Feb 2020
DANIEL BIASETTO

A nomeação de um ex-missionário evangélico para a coordenação da área de indígenas isolados da Funai reacendeu uma polêmica que vinha adormecida desde os anos 1990, quando o órgão suspendeu a entrada em terras indígenas de missões religiosas que ameaçavam pôr em risco a política de não contato, sustentada pela Constituição de 1988. Trinta anos depois, a investida de evangelizadores continua e já atinge 13 dos 28 povos reconhecidos em situação de total isolamento. A diferença é que, agora, esses missionários, se sentem respaldados pelo discurso do atual governo.

Levantamento feito pelo GLOBO de denúncias da entrada de missionários evangélicos em terras indígenas feitas ao Ministério Público Federal (MPF), dados da Funai e do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI) mostra que a maioria das ocorrências está no Vale do Javari (AM), região com a maior concentração de nativos isolados do mundo. Além do Javari, com o registro de ameaça a dez povos, há ainda ocorrências nas terras indígenas Mamoadate (AC) e Hi-Merimã (AM).

A lei brasileira determina que iniciativas de contato com os grupos isolados devem partir deles próprios, cabendo ao governo federal proteger e demarcar suas terras. Além do proselitismo religioso, os isolados sofrem a ameaça de madeireiros, garimpeiros, narcotraficantes e caçadores ilegais, além dos desmatamentos e incêndios.

CRIME FEDERAL

As mais recentes ocorrências de invasão de territórios indígenas por missionários, segundo a Funai, se deram no Vale do Javari. Uma delas denunciada por indígenas da etnia Matis e a outra na terra indígena Hi-Merimã, onde um missionário realizava uma expedição exploratória.

A Funai afirma que os casos foram encaminhados ao (MPF) e à Polícia Federal (PF) para providências cabíveis, mas não informou se houve alguma conclusão.

“A Funai informa que desde o ano de 2018 houve duas ocorrências de entrada irregular de missionários em territórios indígenas onde há povos isolados ou de recente contato. Invasão de Terra Indígena configura crime federal e são investigadas pela Polícia Federal”, diz a nota.

O GLOBO confirmou com o MPF que os dois casos foram investigados e as ações chegaram à 6ª Câmara da Procuradoria-Geral da República, responsável por populações indígenas e comunidades tradicionais, com o apoio da Secretaria de Cooperação Jurídica Internacional. Um deles foi arquivado.

O MPF apura ao menos 21 denúncias envolvendo missões religiosas em terras indígenas, entre elas casos envolvendo a Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), onde atuou o ex-missionário e hoje coordenador da área de indígenas isolados da Funai, Ricardo Lopes Dias.

A MNTB atua na evangelização de índios na Amazônia desde os anos 1950 e foi expulsa após dois casais norte-americanos e outros missionários brasileiros estabeleceram contato com índios da etnia Zoé, no Pará. Investigada pela suposta responsabilidade na morte de indígenas que teriam contraído doenças como gripe e pneumonia, teve seu processo arquivado.

O GLOBO apurou que por trás dessas missões sob investigação figura um grupo de religiosos norte-americanos ligados a igrejas evangélicas, acusados pelos indígenas de tentarem, recorrentemente, invadir as terras indígenas na região do Javari para obter contato com os isolados. Três deles são suspeitos de organizarem expedições com esse objetivo: os pastores Andrew Tonkin, Steve Campbell e Wilson Kannenberg.

Campbell, ligado à Igreja Batista, foi denunciado após ingressar no território dos Hi-Merimã no início de 2019, guiado por um índio Jamamadi, da qual é próximo.

Recentemente, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) denunciou às autoridades que Tonkin entrou sem autorização na região onde vivem os isolados perto do rio Itacoaí, oeste do Amazonas.

—Ele pretendia fazer contato com os isolados Korubo e foi visto em meados de setembro acompanhado de um pastor indígena Mayouruna —afirmou o presidente da Univaja, Paulo Marubo.

HIDROAVIÃO

Tonkin usaria um hidroavião monomotor para chegar à área dos indígenas isolados. O avião pertenceria a Kannenberg, segundo afirmaram ao GLOBO moradores de Atalaia do Norte e Benjamim Constant, no sudoeste do Amazonas, onde vivem os americanos. O GLOBO não obteve retorno do contato feito com Kannenberg.

O GLOBO falou com Tonkin na última sexta-feira à noite e o questionou sobre as acusações de invadir terra indígena. O missionário pediu que as perguntas fossem enviadas por e-mail e não deu mais retorno.

No site Frontier International Mission que se intitula “um ministério batista de livre arbítrio”, Tonkin aparece como líder missionário. A página traz ainda a colaboração de dois casais, também norte-americanos, Doug e Lydia Caudill e Ezra and Joanna Brainard.

Procurado, Ezra afirmou que eles nunca estiveram em terras de índios isolados.

— Nosso objetivo é trazer para o povo de qualquer cultura a paz, alegria, amizade e o amor de Deus através de Jesus Cristo —disse ele, por e-mail.

A Embaixada dos Estados Unidos disse que é responsabilidade das autoridades locais “qualquer atividade que possa contrariar as leis do Brasil”.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Plataforma auxilia na adequação ambiental de propriedades rurais

Produtores rurais de todo o Brasil podem contar com a plataforma WebAmbiente, um sistema de informação interativo e gratuito que auxilia na adequação ambiental da paisagem rural e apoia a implementação de políticas públicas relacionadas ao meio ambiente, como o Programa de Regularização Ambiental (PRA).

Lançado em 2018 pela Embrapa, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e o Ministério do Meio Ambiente, a plataforma envolve o trabalho de oito unidades de pesquisa, além de universidades e órgãos ambientais, que levantaram informações sobre espécies que ocorrem em cada bioma brasileiro e estratégias de recuperação ambiental.


Reprodução | WebAmbiente

Espécies nativas e orientações de preparo

No sistema, o usuário tem à disposição o Simulador de Recomposição Ambiental que oferece sugestões de estratégias de recomposição e uma lista de espécies para adequação ambiental da propriedade.

Para utilizar o simulador, é necessário apenas fazer um simples cadastro da área. Em seguida, o sistema faz algumas perguntas relacionadas às áreas que deverão ser recompostas (se área de preservação permanente, reserva legal, uso restrito, ou área de uso alternativo do solo), suas características e as de seus solos, e os riscos associados àquela recomposição.

A plataforma fornece uma lista de espécies nativas apropriadas para o plantio, estratégias de recomposição mais adequadas às condições da área e orientações relativas ao preparo inicial do local. Após usar o simulador, é possível baixar ou imprimir o relatório com as sugestões para recomposição.

“As recomendações fornecidas por meio da ferramenta podem ser usadas não apenas como subsídio para a elaboração de projetos visando a recuperação ambiental, mas para beneficiar a adequação das propriedades rurais às determinações do Código Florestal brasileiro”, afirma José Felipe Ribeiro, pesquisador da Embrapa Cerrados.

O sistema fornece um extenso glossário, não só com definições, mas também com explicações aprofundadas sobre diversos assuntos envolvidos, incluindo ilustrações e links para outras fontes. Há também uma seção multimídia na qual o usuário pode buscar por vídeos e publicações.


Reprodução | WebAmbiente

Novas funcionalidades

Além de abrigar o maior banco de dados já produzido no País sobre espécies vegetais nativas (cerca de 780) e de apresentar estratégias de plantio para recomposição ambiental, a plataforma agora conta com a Biblioteca Digital. A nova seção reúne informações sobre experiências, manuais e guias, além de conteúdos multimídia e outras publicações sobre ações de recuperação ambiental já disponíveis.

Na Biblioteca Digital, as experiências se referem a publicações de estudos específicos sobre recuperação de áreas degradadas. Ao fazer uma consulta, o usuário pode realizar a busca de experiências utilizando filtros por bioma, por tipo de área a ser recuperada de acordo com a legislação, por estratégia e por técnica de plantio. No momento, mais de 230 experiências estão disponíveis e podem ser baixadas gratuitamente em arquivos no formato pdf, assim como os manuais e guias técnicos.

A plataforma fornece as espécies vegetais, as estratégias e, agora, acrescentamos um acervo de informações de experiências de grupos de pesquisa que já fizeram plantios usando essas espécies e estratégias”, explica Ribeiro.

A analista da Embrapa Meio Ambiente (SP), Maria de Cléofas Alencar, ressalta que a equipe que trabalha diretamente na alimentação e no planejamento da plataforma convive com grande expectativa sobre a possibilidade de expansão do sistema. “Somente para exemplificar a amplitude, atualmente trabalhamos com 238 experiências de recuperação de áreas degradadas, em diversas estratégias de recomposição florestal, mas há centenas de testes e dissertações que ainda são passíveis de serem inseridas, uma vez que também são experiências”, diz.

Para Cléofas Alencar, ampliar a plataforma aumenta a possibilidade de orientação e sugestão ao produtor quanto aos caminhos a serem seguidos no planejamento da execução da recuperação ambiental das propriedades.



Natasha Olsen
Apaixonada pelo mar e pelo mato (apesar da relação difícil com insetos). Jornalista, com especialização em Comunicação Corporativa, descobriu na Sustentabilidade seu propósito. Estuda Gestão Ambiental e procura descobrir diariamente como nossas escolhas podem construir um mundo melhor para todos.

Técnica permite cultivar jardim urbano sem irrigação

No clima desértico de Sharjah, foi criado um novo modelo de jardim ornamental, urbano e sem água.


Como lidar com a aridez das grandes cidades? É certo que precisa de mais verde, porém como driblar a escassez de água? Quem se responsabiliza pelo cuidado? A falta de manutenção dos jardins verticais no Minhocão, na capital paulista, por exemplo, levaram alguns moradores a pedirem a retirada na Justiça. Um experimento que está sendo realizado em Sharjah, cidade dos Emirados Árabes Unidos, pode servir de inspiração: adaptar técnicas e espécies às condições climáticas.


O clima em Sharjah é desértico quente e seco. A temperatura ultrapassa facilmente os 40°, a mínima não cai mais de 10° e as chuvas são raridade. Em tais condições, como árvores podem sobreviver? A resposta está no próprio deserto. Ao lado de uma escola desativada da cidade, um projeto experimental plantou espécies típicas do deserto. Os cultivos são cercados por bacias de areia de diferentes formas e tamanhos, construídas com solo local e entulhos da escola.

Técnica

Cada bacia forma um microclima perfeito, que otimiza a umidade do ar e a umidade extraída do lençol freático. É uma técnica antiga que garante a não necessidade de irrigação, segundo os idealizadores do projeto – o escritório de arquitetura Cooking Sections, com sede em Londres, e a empresa de engenharia AKT II, também inglesa.
Sharjah
“Ao usar montes de terra ou construções de pedra seca, essas tipologias controlam as variações de vento, umidade e calor para reduzir o estresse hídrico das plantações ou fazer a água condensar naturalmente, afirmaram os co-fundadores da Cooking Sections, Daniel Fernández Pascual e Alon Schwabe, à Dezeen.

Experimento em Sharjah

Batizada de Becoming Xerophile, a instalação usa plantas xerófilas, ou seja, adaptadas aos ambientes muito secos. Para a dupla de arquitetos, o projeto explora maneiras de apreciar as paisagens desérticas, uma vez que consideram as representações ocidentais de tais regiões muito estereotipadas. Geralmente, segundo a descrição do projeto, elas são retratadas como “paisagens mortas ou vazias” e a ideia foi justamente usá-las para trazer vida para a cidade desenvolvendo um novo modelo de jardim ornamental, urbano e sem água.


O modelo foi construído ao lado da Escola Al-Qasimiyah, que serviu como sede principal da primeira edição da Trienal de Arquitetura de Sharjah realizado entre novembro de 2019 a fevereiro de 2020.
Os nove microambientes criados estão equipados com sensores que medem chuva, radiação solar, velocidade e direção do vento, temperatura do ar, umidade relativa, umidade do solo e umidade das folhas. Cada um será monitorado até a próxima trienal em 2022 e o que apresentar melhor desempenho poderá ser replicado em outros locais. “Embora nem todos os experimentos levem a resultados perfeitos, eles sempre fornecem informações valiosas para aplicativos futuros e mais desenvolvidos”, afirmou Adiam Sertzu, do AKT II, à Dezeen.
Fotos: Cooking Sections

Urgência na adoção dos princípios de Ecologia Urbana

, artigo de Carlos Favoreto

Enchente em São Paulo
Enchente em São Paulo (Luiz Paulo Marques de Souza/Creative Commons)
Nos últimos 50 anos, os centros urbanos passaram por um processo de urbanização acelerada e desordenada. Planejamento urbano inadequado e insuficiente e a falta de cuidados mínimos com os impactos ambientais trouxeram problemas severos, que se agravam a cada dia.

Ainda pouco conhecida e menos ainda aplicada, a Ecologia Urbana é a resposta para que os impactos sejam mitigados e, na medida do possível, compensados. Derivada da ecologia tradicional, ela compartilha os mesmos conceitos e visão, apenas que aplicados ao ambiente urbano.

A maior parte da população mundial vive em áreas urbanas e, no Brasil, de acordo com o PNAD 2015, 84,72% dos habitantes moram em áreas urbanas. 

Ecologia urbana é uma área que abrange diversos e importantes temas, como poluição do ar, do solo e da água, drenagem urbana, arborização, mobilidade, uso e ocupação do solo, gerenciamento e redução de riscos ambientais, desastres climáticos, etc
.
Os casos recentes das inundações em BH e SP, demonstram que a expansão territorial destas capitais, não observou os cuidados necessários na preservação das áreas alagáveis e na instalação de sistemas de drenagem eficazes.

Cada vez mais impermeáveis, as cidades não conseguem lidar com chuvas intensas, que sem absorção pelo solo, sobrecarregam as galerias pluviais, terminando por forçar os rios para suas áreas de várzea, que estão impermeabilizadas e ocupadas.

Nas últimas décadas, SP e RJ investiram em piscinões, bombeamento e polderes, visando retardar o escoamento do excesso de água no sistema de drenagem. São sistemas funcionais, mas sua construção, operação e manutenção são caras e complicadas, ao mesmo tempo que as novas obras não conseguem acompanhar o ritmo, velocidade e intensidade das tempestades agravadas pelas mudanças climáticas.

No entanto, ao lado das grandes obras, existem alternativas e técnicas de microdrenagem que podem e devem ser aplicadas em larga escala, contando com o esforço coordenado dos governos, empreendimentos e da própria sociedade.

A substituição do asfalto atualmente utilizado, pelo asfalto drenante e pelo concreto poroso já traria um gigantesco aumento na capacidade de drenagem das bacias em áreas urbanas. No caso da pavimentação, asfalto e concreto poroso, basta imaginar a sua aplicação nos imensos e impermeáveis estacionamentos do shoppings.

O mesmo para as calçadas, que além do concreto poroso, também poderiam utilizar de calçadas verdes, trincheiras e valas drenantes

Aliás, trincheiras drenantes podem ser instaladas, sem grande dificuldade em casas e prédios. Sarjetas drenantes, de acumulação e infiltração, também são soluções relativamente simples e baratas, ao alcance da grande maioria das cidades.

O poder público deve oferecer incentivos para que os edifícios adotem cisternas para captação de água de chuva, para uso onde a água não precisa ser tratada e de telhados verdes. No caso de novos empreendimentos, pelo menos, as cisternas de água de chuva deveriam ser obrigatórias.

A arborização urbana ou, em versão ampliada, o reflorestamento urbano também é relevante, não apenas na redução da poluição do ar e na redução das ilhas de calor, mas também na manutenção da biodiversidade e na drenagem urbana.

Carlos Favoreto – Eng Agrônomo – Diretor Executivo da ECP Environmental Solutions. Pós-graduado em Ciências Ambientais. Prof. dos Cursos de Pós-Graduação em Ciências Ambientais, Gestão Ambiental e Auditoria e Perícia Ambiental

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/02/2020

Urgência na adoção dos princípios de Ecologia Urbana, artigo de Carlos Favoreto, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/02/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/02/20/urgencia-na-adocao-dos-principios-de-ecologia-urbana-artigo-de-carlos-favoreto/.