quinta-feira, 5 de março de 2020

A crítica desleixada de Michael Shellenberger, da Forbes, conduz ao erro sobre os incêndios na Amazônia (comentário)

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A crítica desleixada de Michael Shellenberger, da Forbes, conduz ao erro sobre os incêndios na Amazônia (comentário)

  • O colunista da Forbes, Michael Shellenberger, faz algumas afirmações corretas sobre os incêndios na Amazônia, mas também divulga informações falsas que não têm base em fatos ou estudos científicos.
  • O que Shellenberger acerta: a Amazônia está sendo erroneamente descrita pela mídia como “os pulmões do planeta”; o número de incêndios foi maior no passado, e há uma necessidade de estimular fazendeiros e agricultores brasileiros para que eles ajudem a conter o desmatamento e as queimadas.
  • O que Shellenberger erra: Segundo os cientistas, a grande questão é que a Amazônia brasileira armazena uma enorme quantidade de carbono. O aumento do desmatamento, junto com as mudanças climáticas, está empurrando a Amazônia cada vez mais perto de um ponto de transformação da floresta em savana, o que provoca uma grande liberação de carbono e agrava o aquecimento global.
  • Também subestimado: o papel de Jair Bolsonaro na crise. Desde janeiro, ele desmantelou agências de fiscalização ambiental e usou linguagem incendiária para incitar fazendeiros e agricultores a derrubar ilegalmente a floresta. Este post é um comentário. As opiniões aqui expressas são do autor do texto e não necessariamente da Mongabay.
Eu entendo o desejo de corrigir informações errôneas que proliferam como resultado de notícias de última hora. E eu entendo a frustração das manchetes sensacionalistas que enganam os leitores. Mas a tentativa do colunista Michael Shellenberger, da revista Forbes, de corrigir o registro de incêndios na Amazônia brasileira foi, na melhor das hipóteses, descuidada, e enganosa, na pior das hipóteses.


Shellenberger está certo em vários pontos, incluindo a má escolha de “Pulmões da Terra” como um apelido para a floresta amazônica, o fato de tanto o desmatamento quanto os incêndios terem sido substancialmente em maior número no passado recente, o uso generalizado pela mídia dos velhos tempos ou fotos irrelevantes para ilustrar os incêndios atuais, a necessidade de envolver os fazendeiros e agricultores na preservação da Amazônia e a minimização do impacto dos incêndios nos sub-bosques.

No entanto, ele está errado sobre alguns outros pontos importantes, que são listados e refutados abaixo.
Cumulative fire hotspots in the Brazilian Amazon according to INPE. Note: August 2019 data is through August 24.
Focos cumulativos de incêndio na Amazônia brasileira, segundo o INPE. Nota: os dados são até o dia 24 de agosto.
Cumulative deforestation through July for each year from 2008 according to INPE's DETER system. Note that the chart switches from DETER to DETER-B in August 2016.
O desmatamento cumulativo ao longo do mês de julho a cada ano, desde 2008, segundo o sistema DETER do INPE. Repare que o gráfico muda de DETER para DETER-B em agosto de 2016.
E quanto ao The New York Times que afirma que “Se perdermos florestas tropicais o suficiente e elas não puderem ser restauradas, a área se tornará savana, logo, não armazenará tanto carbono, o que significa uma redução na capacidade “pulmonar do planeta”?

O declínio de oxigênio imaginado por Shellenberger engana e desorienta o leitor. Cientistas, incluindo Dan Nepstad, que é amplamente citado no artigo da Forbes, alertaram que a perda em larga escala de cobertura vegetal na floresta amazônica pode levar o ecossistema a um ecossistema mais seco, semelhante à savana, parecido com o Cerrado. Esse novo ecossistema armazenaria muito menos carbono do que uma floresta tropical, fazendo crescer as emissões e aumentando potencialmente a taxa global das mudanças climáticas.

“Como já escrevi extensivamente, a matança da floresta amazônica – a savanização, como às vezes é chamada – é a maior ameaça à floresta, na minha opinião”, disse Nepstad.

É importante ressaltar que alguns cientistas argumentam que uma transição de vegetação desta magnitude interromperia a transpiração local e poderia até mesmo deslocar a Zona de Convergência Intertropical, afetando os padrões regionais de precipitação e potencialmente impactando a produção de energia hidrelétrica, o abastecimento urbano de água e a produção agrícola em todo o Brasil – e até mesmo ameaçar a posição do país como potência global do agronegócio, provavelmente colocando em risco o suprimento de alimentos a milhões de pessoas na União Europeia e na China, que dependem do Brasil para o fornecimento de carne, soja e outras commodities essenciais.
Esta imagem, baseada em medições feitas pela Tropical Rainfall Measuring Mission (Missão de Medição da Precipitação Tropical, em português), mostra as áreas da bacia amazônica que foram afetadas pela grave seca de 2005. As áreas em amarelo, laranja e vermelho sofreram seca leve, moderada e severa, respectivamente. As áreas verdes não sofreram com a seca. Imagem cortesia da NASA / JPL-Caltech / Google
Um dos principais jornalistas ambientais do Brasil concorda que a cobertura da mídia sobre os incêndios tem sido enganosa. “Foi sob o governo de Lula e Marina Silva (2003-2008) que o Brasil teve a maior incidência de queimadas”, informou Leonardo Coutinho por e-mail. “Mas nem Lula nem Marina foram acusados de colocar a Amazônia em risco.”

Shellenberger cita Leonardo Coutinho, mas certamente não é verdade que o mundo fechou os olhos ao desmatamento e às queimadas sob a presidência de Lula. Uma simples pesquisa em qualquer arquivo de notícias resultará em centenas de reportagens sobre o assunto, indignação pública sobre o desmatamento da Amazônia na época, bem como estudos de Nepstad alertando sobre os perigos da transformação da Amazônia em savana. E, de fato, Marina Silva renunciou publicamente seu cargo de Ministra do Meio Ambiente em maio de 2008, uma história que atraiu bastante atenção da imprensa. Shellenberger não tomou o devido cuidado aqui.

Entrevistado pela Mongabay, Nepstad acrescentou que foi a atenção internacional que levou o governo Lula a continuar com seu bem-sucedido programa de redução do desmatamento, que resultou em reduções massivas de emissões de carbono que não foram devidamente reconhecidas pelo resto do mundo.

“O motivo pelo qual o presidente Lula priorizou a Amazônia foi o nível muito alto de indignação internacional expresso pela cobertura da mídia sobre as altas taxas de desmatamento no período 2002-2004”, disse Nepstad à Mongabay.

Os incêndios florestais na Amazônia são ocultados pelo dossel das árvores e aumentam apenas durante os anos de seca.

Embora os incêndios nos sub-bosques sejam muito mais predominantes nos anos de seca, especialmente sob a influência do Niño, as queimadas na floresta amazônica não aumentam apenas nessas épocas, como demonstrado pelas queimadas de agora, em uma estação que não é historicamente seca.

A sobreposição de dados de satélite da NASA com a recente perda de cobertura vegetal detectada pelo sistema GLAD da Global Forest Watch mostra que os incêndios estão acontecendo nas proximidades das florestas tropicais da Amazônia. Dado que os incêndios são mais quentes que o normal este ano, é quase certo que os incêndios sub-bosques estão queimando em áreas agrícolas e em áreas abertas nas florestas tropicais. Saberemos com certeza quando a fumaça desaparecer e os cientistas conseguirem avaliar a situação in loco. Shellenberger errou aqui.
CANDEIRAS DO JAMARI, RONDÔNIA, BRAZIL: Aerial view of a large burned area in the city of Candeiras do Jamari in the state of Rondônia. (Photo: Victor Moriyama / Greenpeace)
CANDEIRAS DO JAMARI, RONDÔNIA, BRASIL: vista aérea de uma grande área em chamas na cidade de Candeiras do Jamari, no estado de Rondônia. Foto tirada em 23 de agosto de 2019. (Victor Moriyama / Greenpeace)
O que aumentou em 7% em 2019 foram as queimadas de arbustos secos e árvores derrubadas para a pecuária como estratégia para ganhar a posse da terra.
Não há evidências que apoiem a afirmação de Shellenberger de que os arbustos secos e as “árvores derrubadas para a pecuária” representam 100% do aumento de incêndios em 2019.

Metade da Amazônia é protegida contra o desmatamento, segundo a lei federal.
Invasões a áreas protegidas e territórios indígenas, bem como o enfraquecimento e o desrespeito generalizado ao Código Florestal, significa que enquanto metade da Amazônia pode ser protegida no papel, ela não é protegida na prática. Invasões a áreas conservadas, extração ilegal de madeira e o terrorismo feito por madeireiros, garimpeiros e grileiros de terras às populações rurais, sob governos passados, e especialmente sob o governo de Jair Bolsonaro têm sido relatados regularmente.
Temos como exemplo a Floresta Nacional de Jamanxim, que perdeu 3% de sua cobertura florestal, 44.800 hectares, somente em maio. Enquanto isso, o amplamente divulgado projeto indígena de compensação de carbono Suruí Paiter, em Rondônia, foi invadido por garimpeiros ilegais, forçando a tribo a suspender a iniciativa.

E apenas 3% da Amazônia são adequados para a produção de soja.
O maior causador do desmatamento na Amazônia brasileira é a pecuária, não a plantação de soja.
Mas, mesmo assim, Nepstad disse que “3% das florestas fora das áreas protegidas são adequadas para o cultivo de soja”. Isso é muito diferente de toda a Amazônia.
Legenda do gráfico: Causas do desmatamento na Amazônia brasileira entre 2000 e 2005: 65 a 70% pasto para o gado; 20 a 25% agricultura em pequena escala; 5 a 10% agricultura em larga escala; 2 a 3% grilagem de terra; 1 a 2% outros fatores. Porções de terra desmatada que foram convertidas para a agricultura extensiva: 80% nos anos 1980 e 60% nos anos 1990. 1) Outros fatores incluem incêndios, mineração, urbanização, construção de estradas, barragens. 2) Grilagem geralmente resulta em degradação em vez de desmatamento, mas geralmente essa é uma prática seguida pela limpeza da área para a agricultura. 3) Dados de Holly Gibbs, 2009.
Tanto Nepstad quanto Coutinho afirmam que a ameaça real é de incêndios florestais acidentais em anos de seca, o que as mudanças climáticas só ajudariam a piorar.
Shellenberger é confuso aqui. “Incêndio acidental” faz parecer que os incêndios não estão sendo causados intencionalmente, mas esse não é o caso.

Nepstad: “Praticamente todos os incêndios na Amazônia são iniciados pelas pessoas. Eles muitas vezes escapam dos seus limites pré-estabelecidos para as florestas vizinhas”. Não há nada acidental sobre o desmatamento da Amazônia por meio do uso do fogo como ferramenta. É importante ressaltar que os especuladores de terra também provocam queimadas regularmente, e intencionalmente, na Amazônia brasileira como uma ferramenta inicial de desmatamento ilegal, como forma de preparação para vendas ilícitas de terras, a preços altamente inflacionados, para pecuaristas e agricultores.


Hoje, de 18 a 20% da floresta amazônica ainda corre o risco de ser desmatada.
Não há absolutamente nenhuma prova para apoiar a afirmação da Shellenberger sobre isso.
Nepstad disse que Shellenberger poderia estar fazendo referência a terras na Amazônia brasileira que ainda não foram demarcadas.

“Cerca de um quinto da floresta amazônica ainda não é demarcada – está em disputa, terra devoluta”, disse ele. “Esta certamente não é a única floresta que está sob ameaça de desmatamento ou fogo.”
CANDEIRAS DO JAMARI, RONDÔNIA, BRAZIL: Aerial view of a large burned area in the city of Candeiras do Jamari in the state of Rondônia. (Photo: Victor Moriyama / Greenpeace)
CANDEIRAS DO JAMARI, RONDÔNIA, BRASIL: vista aérea de uma grande área consumida pelo fogo na cidade de Candeiras do Jamari, no estado de Rondônia. Foto tirada em 23 de agosto de 2019. “Victor Moriyama / Greenpeace)

Desvio da visão geral

Em sua ânsia de criticar a mídia e censurar as celebridades, Shellenberger descarta as maiores preocupações sobre desenvolvimentos recentes na Amazônia. O temor é que o progresso passado do Brasil na redução do desmatamento e dos incêndios esteja sendo revertido como resultado da redução do quadro regulatório do governo Bolsonaro, das instituições, dos grupos da sociedade civil e da ciência, que permitiram ao país alcançar esses resultados.

Essa inversão também ocorre no momento em que um planeta em aquecimento torna a maior floresta tropical do mundo mais vulnerável à seca e ao fogo. Um retorno ao pico do desmatamento de meados dos anos 90 até meados dos anos 2000 seria ainda mais prejudicial hoje, dada a maior frequência de secas e temperaturas elevadas na Amazônia, bem como as maiores concentrações de CO2 na atmosfera, o que nos dá ainda menos tempo para reduzir as emissões.

E, embora os comentários de Nepstad sobre o artigo de Shellenberger pareçam também desconsiderar a atenção global atualmente dedicada à situação no Brasil, o cientista reiterou que agora é um momento muito importante para a Amazônia. Em suas próprias palavras:

“O fogo é um problema enorme na região amazônica. Incêndios em grande escala em florestas ainda em pé durante períodos de seca extrema são a maior ameaça para essas florestas em um mundo em aquecimento. Depois de queimadas, as florestas se tornam mais vulneráveis a novos incêndios. E como o desmatamento e os incêndios reincidentes reduzem a cobertura florestal, as chuvas ficam mais escassas”.
A deforestation and forest loss scenario for 2030 developed by Dan Nepstad and colleagues at the Woods Hole Research Institute in 2008.
Um cenário de desmatamento e perda de floresta projetado para 2030, desenvolvido por Dan Nepstad e seus colegas do Instituto de Pesquisa Woods Hole, em 2008.
“Em 2019, esse problema está recebendo a atenção que merece. O número de incêndios e a quantidade de fumaça que eles estão produzindo aumentou, provavelmente devido ao grande número de florestas derrubadas que ficaram secas e agora estão queimando. A boa notícia é que não há evidências de que a área de florestas em pé pegando fogo seja significativamente maior do que a área de floresta que normalmente queima nesta época do ano. Ainda é cedo, no entanto. A má notícia é que as previsões meteorológicas indicam que a estação seca em que a Amazônia está atualmente pode se tornar bastante severa. As florestas podem começar a queimar em grandes áreas.

“O Brasil tem uma rara oportunidade de se concentrar nos incêndios agora e projetar algumas soluções sistêmicas para as queimadas, incluindo propostas de curto e longo prazos, conforme descrito no blog. Essas soluções começam no solo – há uma enorme expertise em prevenção de incêndios e controle de incêndios entre os agricultores, comunidades, brigadas de incêndio e governos locais da Amazônia. No longo prazo, uma mudança para mais plantações de árvores, sistemas agroflorestais, aquicultura e produção pecuária mais intensiva poderiam reduzir bastante o uso de fogo e aumentar os investimentos em controle de incêndios”.

Chart showing deforestation in the Brazilian Amazon, 1988-2018
Gráfico que mostra o desmatamento na Amazônia brasileira entre 1988 e 2018
Chart showing deforestation alerts in the Brazilian Amazon since 2010
Gráfico que mostra os alertas de desmatamento na Amazônia Brasileira desde 2010.
Andrew Revkin, ex-repórter do The New York Times e atual diretor fundador da Iniciativa de Comunicação e Sustentabilidade do The Earth Institute, na Universidade de Columbia, que também foi citado na coluna de Shellenberger, concordou que as reportagens atuais sobre os incêndios na Amazônia feitas pela mídia tradicional são problemáticas, que falham ao não mencionarem aspectos importantes. Mas ele informou à Mongabay que não ficou muito feliz com a perspectiva de Shellenberger.

“Eu não endosso a visão do artigo e não concordo, absolutamente, com a referência caricaturada da situação”, escreveu Revkin por e-mail. “As ameaças e soluções para a Amazônia são tão variadas e difundidas quanto a própria bacia. Caracterizações simples da catástrofe, como são feitas em muitas coberturas da mídia, perdem oportunidades substanciais para reduzir a perda e até mesmo virar a maré rumo à restauração e à sustentabilidade”.

“Assim como o pessimismo em torno das mudanças climáticas, eles podem provocar paralisia e desencorajamento quando o oposto é necessário. Mas interpretações simplistas dos motivos daqueles que desafiam a atual liderança do Brasil são inúteis”.
PORTO VELHO, RONDÔNIA, BRAZIL. Aerial view of burned areas in the Amazon rainforest, in the city of Porto Velho, Rondônia state. (Photo: Victor Moriyama / Greenpeace)
PORTO VELHO, RONDÔNIA, BRASIL. Vista aérea de áreas em chamadas na floresta amazônica, na cidade de Porto Velho, estado de Rondônia. Foto tirada em 23 de agosto de 2019. (Victor Moriyama / Greenpeace)
Imagem da capa: Vista aérea de áreas em chamadas na floresta amazônica, na cidade de Porto Velho, estado de Rondônia. Foto tirada em 23 de agosto de 2019. (Victor Moriyama / Greenpeace)
Artigo original: https://news.mongabay.com/2019/08/michael-shellenbergers-sloppy-forbes-diatribe-on-amazon-fires-commentary/

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Setor privado poderia desempenhar um papel importante na conservação do Cerrado, aponta estudo

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Setor privado poderia desempenhar um papel importante na conservação do Cerrado, aponta estudo

  • Um estudo recente avalia os impactos da implementação de uma moratória da soja no Cerrado, o segundo maior bioma do Brasil, que já perdeu metade de sua vegetação nativa para o agronegócio, em grande parte devido à expansão da soja e do gado.

  • A Moratória da Soja da Amazônia, vista como um dos acordos de conservação corporativos voluntários mais bem-sucedidos de todos os tempos, foi implantada em 2006 e ajudou a reduzir de forma significativa o desmatamento provocado pela soja no local.

  • Agora, ONGs ambientais e varejistas internacionais pedem por uma moratória semelhante no Cerrado.

  • Pesquisadores avaliaram que a participação do setor privado em uma possível moratória da soja no Cerrado – incluindo empresas relutantes como a Cargill – poderia impedir que 3,6 milhões de hectares de vegetação nativa fossem perdidos para a expansão da leguminosa, uma área próxima à do estado do Rio de Janeiro.
O Cerrado brasileiro está sendo rapidamente convertido em soja e outras culturas. Muitos ambientalistas pensam que uma solução seria uma moratória da soja, como a que foi implementada na Amazônia em 2006. Foto: Visualhunt.com
Em 2006, o desmatamento provocado pela expansão da produção de soja na Amazônia brasileira estava causando grande consternação na população e em grupos ambientalistas. Lideradas pelo Greenpeace, ONGs então se uniram a varejistas como McDonald’s e produtores de soja como Cargill e Bunge, além de agricultores e Governo Federal, para criar a Moratória da Soja. Nela, os comerciantes concordaram em não comprar de nenhum produtor que estivesse desmatando terras para o cultivo da leguminosa. O acordo resultante é considerado por muitos como uma das iniciativas corporativas de conservação voluntária de maior sucesso de todos os tempos.

O avanço da soja está de volta ao debate, mas desta vez aplicado ao Cerrado, bioma onde é cultivada metade da produção brasileirada leguminosa. Esse fato levou ONGs ambientais e varejistas internacionais como Walmart e McDonald’s a propor, em 2017, o Manifesto do Cerrado, inspirado na bem-sucedida Moratória da Soja amazônica. Mas a implementação deste novo acordo depende da cooperação de comerciantes transnacionais como a Cargill, que demonstraram relutância em assinar o manifesto, mesmo reconhecendo a situação precária em que o Cerrado se encontra.

Recentemente, um novo estudo, o primeiro do gênero, conduzido por um grupo internacional de pesquisadores liderado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e publicado na revista Science Advances, utilizou simulações para indicar exatamente quanto da conversão de vegetação nativa em área de cultivo poderia ser evitada por meio da aplicação de uma moratória da soja no Cerrado.
Conversão direta de vegetação nativa em cultivo de soja potencialmente evitada em A) um cenário em que apenas o Código Florestal Brasileiro é aplicado e B) com uma moratória da soja aplicada ao Cerrado. A região de Matopiba está demarcada em verde; os valores das barras de cores estão em milhares de hectares por célula. Republicado com permissão da revista Science Advances.

3,6 milhões de hectares a salvo da soja

“A Moratória da Soja foi eficaz na Amazônia. Com este estudo, queríamos avaliar quais seriam os impactos da expansão desse [acordo] para o Cerrado, um bioma que, além de um hotspot de biodiversidade e um importante produtor de alimentos, é uma área que também se encontra sob ameaça de extinção”, diz Aline Soterroni, uma das principais autoras do estudo.

A nova pesquisa simulou o impacto de uma possível extensão da moratória para o Cerrado, analisando a expansão da soja no Brasil em cenários com e sem a medida. Os pesquisadores também estimaram quais seriam, no futuro, os seis produtores com maior chance de transformar vegetação nativa em lavoura.

Nas simulações, a equipe descobriu que uma área equivalente à metade do estado de São Paulo pode ser transformada em soja no Brasil até 2050. Menos de 10% dessa conversão aconteceria na Amazônia; todo o restante avançaria sobre o Cerrado – em torno de 10,8 milhões de hectares de novos campos de soja.

No entanto, se uma moratória da soja fosse aplicada ao Cerrado ainda em 2021, os pesquisadores sugerem que ela poderia evitar que 3,6 milhões de hectares de vegetação sejam perdidos para a leguminosa – uma área quase do tamanho do estado do Rio de Janeiro.

Se alcançada, uma conquista dessa envergadura faria mais do que preservar um importante núcleo de biodiversidade: o Cerrado também abriga algumas das bacias hidrográficas mais importantes do Brasil e armazena uma quantidade significativa de carbono em seu complexo sistema de raízes subterrâneas, o que ajuda a conter as mudanças climáticas.

Expansão da soja pelo tipo de uso de solo. O cenário FC considera a implentação total do Código Florestal Brasileiro, enquanto o cenário SoyM considera a expansão da moratória da soja para o Cerrado. Republicado com permissão da revista Science Advances.

Matopiba em risco

Carlos Antonio da Silva Junior, professor de sensoriamento remoto da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), disse à Mongabay que os dados de desmatamento destacados pelo novo estudo abordam pontos críticos relacionados à conservação da biodiversidade no Cerrado.
Estimativas sugerem que cerca da metade do bioma já foi convertida em agropecuária. Do que resta da vegetação nativa, menos de 20% ainda está intacta – sua conversão para a soja poderia levar à extinção mais de 4.800 espécies de plantas e vertebrados.

Grande parte da vegetação nativa intacta restante está localizada em Matopiba, uma área composta por 337 municípios de quatro estados: Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (o nome é um acrônimo que resulta da união das siglas). Entre 2000 e 2014, a conversão de terras para lavouras de soja em Matopiba aumentou 253%. E, de acordo com o estudo, esse ritmo não deve diminuir tão cedo. Sem uma moratória da soja, 86% da expansão da leguminosa no Cerrado deve ocorrer na região de Matopiba.

Os pesquisadores também descobriram que, embora a China seja o maior mercado comprador de soja do mundo, o risco relativo de futura conversão de vegetação nativa impulsionada pela China ou pela União Europeia é praticamente o mesmo. “Isso ocorre porque a UE compra mais da região de Matopiba, enquanto a China compra de qualquer lugar”, diz Soterroni. “Com o acordo comercial entre a UE e o Mercosul em discussão, esse ponto se torna especialmente relevante.” Os níveis crescentes de desmatamento no Brasil poderiam emperrar a ratificação do acordo.
Tratores em ação no Cerrado. Imagem de Rhett A. Butler / Mongabay.

Moratória da soja é apenas parte da solução

Os autores do estudo apontam que, embora uma moratória da soja no Cerrado possa conservar uma quantidade significativa de vegetação nativa, ela sozinha não evitaria o desmatamento e a conversão da vegetação nativa em lavouras.

“A expansão da [moratória] para o Cerrado é necessária, mas não é, por si só, suficiente para proteger a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos desse bioma”, apontaram os cientistas. A conformidade com o Código Florestal brasileiro, que determina quanto da vegetação nativa deve ser legalmente conservada, juntamente com a implementação de outras políticas públicas que regem as lavouras e as pastagens, são extremamente relevantes para o sucesso da conservação. No entanto, sob a administração do presidente Jair Bolsonaro, amigo do agronegócio e hostil ao meio ambiente, a possibilidade de implantação de políticas ecologicamente corretas parece remota.

Especialistas como Silva concordam, e estudos anteriores mostraram que há pastos degradados suficientes no Brasil para absorver a demanda de ampliação da soja, sem prejudicar a vegetação nativa. “As áreas de produção de grãos no Brasil deveriam ser expandidas para áreas que já estão degradadas por pastagens”, ele diz, acrescentando que já existem técnicas inovadoras como a integração lavoura-pecuária-floresta – uma forma de produção sustentável e ao mesmo tempo lucrativa.

Para os autores do artigo, o maior argumento de seu estudo é o grande papel que o setor privado poderia desempenhar na proteção do que resta intacto do Cerrado, caso as empresas transnacionais de commodities se comprometam com uma moratória.

“Quando a governança é fraca, as cadeias de fornecimento e os acordos voluntários se tornam mais importantes”, diz Soterroni. “Temos uma moratória eficaz da soja na Amazônia que já está desenvolvida e em pleno funcionamento. Dada a situação política [atual], expandi-la é a ação mais indicada para conservar o Cerrado”.


Citação:
Soterroni, Aline C., et al. “Expanding the Soy Moratorium to Brazil’s Cerrado.” Science advances 5.7 (2019): eaav7336.
Vista aérea de uma área de Cerrado recém desmatada. Foto de Rhett A. Butler.
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Cientistas alertam: devastação da Amazônia está próxima de um ponto irreversível

“Nos tornamos muito desconectados do mundo natural”, diz Joaquin Phoenix, no Oscar, em mais um discurso inesquecível

“Nos tornamos muito desconectados do mundo natural”, diz Joaquin Phoenix, no Oscar, em mais um discurso inesquecível

"Nos tornamos muito desconectados do mundo natural", diz Joaquin Phoenix, no Oscar, em mais um discurso inesquecível
O ator americano Joaquin Phoenix ganhou todos os principais prêmios do cinema neste começo de ano por sua atuação como o personagem principal do filme Coringa. E em cada uma das celebrações, em que foi escolhido como Melhor Ator, como no Globo de Ouro e no Bafta, ele fez questão de usar a oportunidade para falar de questões sociais e ambientais. O mesmo aconteceu ontem (09/02), quando recebeu o Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.


Em mais um discurso memorável, Phoenix falou sobre racismo, direitos indígenas, igualdade de gêneros, entre outros temas.


Confira sua fala, na íntegra, abaixo:

“Temos que continuar usando nossa voz para os que não têm voz. Eu tenho pensado muito sobre alguns dos problemas angustiantes que estamos enfrentando coletivamente. Acho que às vezes sentimos, ou fomos feitos para sentir, que defendemos causas diferentes, mas, para mim, vejo um senso comum. Acredito que, se estamos falando de desigualdade de gênero, racismo ou direitos queer, direitos indígenas ou direitos dos animais, estamos falando sobre a luta contra a injustiça. Estamos falando da luta contra a crença de que uma nação, um povo, uma raça, um gênero ou uma espécie tem o direito de dominar, controlar e usar e explorar outra com impunidade.

Nos tornamos muito desconectados do mundo natural e muitos de nós somos culpados por termos uma visão de mundo egocêntrica – a crença de que somos o centro do universo. Entramos no mundo natural e o saqueamos por seus recursos. Temos o direito de inseminar artificialmente uma vaca e, quando ela dá à luz, roubamos seu bebê, mesmo que seus gritos de angústia sejam inconfundíveis. Depois, pegamos o leite dela, destinado ao bezerro, e o colocamos no café e no cereal. 

Tememos a ideia de mudança pessoal porque pensamos que temos que sacrificar algo. Mas os seres humanos, no nosso melhor, são tão inventivos, criativos e engenhosos, e acho que quando usamos o amor e a compaixão como nossos princípios orientadores, podemos criar, desenvolver e implementar sistemas de mudança que são benéficos para todos os seres sencientes e o ambiente.

Eu fui um canalha em diversos momentos da minha vida. Eu fui egoísta. Fui cruel às vezes, difícil de trabalhar e ingrato, mas muitos de vocês nesta sala me deram uma segunda chance. E acho que é quando estamos no nosso melhor, quando nos apoiamos, não quando nos anulamos por erros passados, mas quando nos ajudamos a crescer, quando nos educamos, quando nos orientamos para redenção. Esse é o melhor da comunidade.

Quando meu irmão tinha 17 anos, ele escreveu essa frase ‘Corra para o resgate com amor e a paz seguirá'”. 

O irmão a que ele se referiu é River Phoenix, que também foi ator e um defensor dos animais. Morto em 1993, aos 23 anos, era considerado um dos mais talentosos de sua geração.

Depois de anos tendo uma fama de “ator problema”, como Joaquin Phoenix tem admitido há algum tempo, ele tornou-se um ativista, assim como o irmão. É vegetariano e constantemente usa sua fama para falar sobre assuntos vitais, como a crise climática. Em janeiro, foi detido pela polícia, em Washington D.C., ao participar de um protesto, junto com Jane Fonda, contra as mudanças climáticas.

Diversos outros atores e apresentadores do Oscar 2020 também aproveitaram a festa para mostrar sua indignação pela falta de nomeações a mulheres e negros (leia mais aqui).

Leia também: Astros de Hollywood erguem a voz contra a crise climática e exigem mais ações

“Somos a última geração que pode fazer a diferença entre a vida e a morte do planeta”, diz Jane Fonda

Jane Fonda apoia a desobediência civil pelo clima – “mesmo com o risco de sermos presos” – e convida os brasileiros a aderir

Foto: divulgação Oscar 2020/reprodução oscar.go.com
 
Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora emWashington.

Com audição ruim e movimentos lentos, tamanduá-bandeira é uma das principais vítimas de atropelamentos no Cerrado

Com audição ruim e movimentos lentos, tamanduá-bandeira é uma das principais vítimas de atropelamentos no Cerrado

Com audição ruim e movimentos lentos, tamanduá-bandeira é uma das principais vítimas de atropelamentos no Cerrado
*Por Clarissa Beretz
“Se tem uma coisa que acaba com meu dia é atropelar um animal. É triste demais, uma das piores coisas da profissão. Porque não tem o que fazer se o bicho aparece na frente. Frear ou desviar com um caminhão desse tamanho, cheio de carga, é perigoso para mim e para os outros. Aí, o bicho é quem paga.”
A declaração acima foi extraída de uma pesquisa feita com mais de 300 caminhoneiros em quatro rodovias federais que atravessam Mato Grosso do Sul, as BRs 262, 040, 267 e 163. A BR-262, cujos 2.295 km de extensão conectam Vitória (ES) a Corumbá (MS), são recordistas em colisões de veículos e animais no Brasil.
A enquete, feita de forma anônima, é parte do Bandeiras e Rodovias, um projeto do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas) que há três anos investiga o impacto das colisões rodoviárias na saúde e na população do maior mamífero insetívoro do mundo, o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla).
O último relatório acaba de ser concluído e traz importantes indícios sobre as causas das colisões, que só tendem a crescer com a fragmentação do ambiente onde vivem esses animais. Um estudo preliminar já havia sido publicado em outubro de 2019, com dados de 2013/2014.
Com audição ruim e movimentos lentos, tamanduá-bandeira é uma das principais vítimas de atropelamentos no Cerrado
O biólogo Arnaud Desbiez e um dos tamanduás monitorados pela pesquisa
Segundo dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), a frota de caminhões no Brasil cresceu a uma taxa média de 2,8% ao ano entre 2011 e 2017, alcançando quase 2 milhões de veículos em circulação. Embora a frota tenha permanecido estável desde então, a década terminou com 20% a mais de caminhões nas estradas brasileiras.
Se levarmos em conta que o Cerrado é o maior produtor de grãos no Brasil (mais da metade da soja brasileira vem dali), não é difícil constatar porque esta é uma das áreas mais perigosas para a fauna silvestre. Além do alto tráfego de veículos de carga, há também a perda de habitat impulsionada pela monocultura, particularmente por meio de desmatamento e queimadas.
De acordo com o Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), da Universidade de Lavras (MG), o Cerrado é o segundo bioma com mais registros de mortes por atropelamento, atrás apenas da Mata Atlântica – o que é esperado, já que se trata do bioma com maior densidade populacional do país.
Com audição ruim e movimentos lentos, tamanduá-bandeira é uma das principais vítimas de atropelamentos no Cerrado
Tamanduá-bandeira e filhote atropelados na MS-040,
em Mato Grosso do Sul

O impacto humano

Entre os mamíferos de grande porte, o tamanduá-bandeira é um dos que mais sofre atropelamentos: seus olhos, além de muito pequenos, não refletem a luz do farol do carro. O animal ainda ouve mal, tem movimentos lentos, pelagem escura e transita à noite. Tudo isso aumenta as chances de colisão ao atravessar uma rodovia.

Além disso, há riscos também para o motorista, conforme explica o biólogo Arnaud Desbiez, que encabeça o projeto Bandeiras e Rodovias: “Antes de tudo, este é um trabalho de segurança pública, porque quando um veículo colide com um animal de grande porte, como um tamanduá, que tem cerca de 35 quilos, as pessoas se machucam. Muitos morrem colidindo com um bicho ou tentando desviar dele”.

É daí que veio a ideia de incluir a dimensão humano no estudo, como forma de identificar os fatores psicológicos que afetam a decisão do motorista quando um animal aparece na pista.

A partir de entrevistas com caminhoneiros, conforme citado no início da matéria, foi possível constatar, por exemplo, que é raro um motorista atropelar um animal silvestre de propósito, conforme sugere a crença popular. “A maior parte acaba colidindo com os animais porque não tem muita escolha, já que frear ou desviar acaba sendo muito perigoso”, diz Mariana Catapani, a pesquisadora do Icas responsável pelas entrevistas.

“Sem contar que a colisão também causa danos ao caminhão, e isso é perda de tempo e prejuízo financeiro”, acrescenta a bióloga. “Os motoristas dizem que atropelar um bandeira, por exemplo, além do dano psicológico, pode lhe custar cerca de R$ 3 mil”.
Com audição ruim e movimentos lentos, tamanduá-bandeira é uma das principais vítimas de atropelamentos no Cerrado
O tamanduá-bandeira é o maior mamífero insetívoro do mundo:
pode comer até 30 mil formigas e cupins por dia

11.199 animais atropelados

Além das entrevistas com os caminhoneiros, a equipe liderada por Arnaud Desbiez monitorou 92.364 km de rodovias, com o intuito de registrar acidentes com as principais espécies de tatus e tamanduás.

Entre janeiro de 2017 e dezembro de 2019, os pesquisadores detectaram 11.199 mortes por atropelamento, incluindo 1.812 tatupebas, 750 tatus-galinha, 725 tamanduás-bandeira, 586 tamanduás-mirim, 65 tatus-de-rabo-mole e 9 tatus-canastra.

O estudo também acompanhou a movimentação de 44 tamanduás-bandeira por meio de GPS contido em um colete acoplado no corpo dos bichos. Como o sistema indicava a localização de cada animal a cada 20 minutos, foi possível entender quando e como os tamanduás interagiam com as rodovias. Os coletes também eram refletores, para sinalizar uma travessia noturna.

Batizados com nomes como Chester, Yoki, Rodolfo e Pequi, esses animais foram acompanhados por três anos. Além do monitoramento por GPS, os tamanduás também eram capturados com regularidade para ter amostras de pelo, sangue e carrapatos coletadas e, assim, identificar possíveis doenças. Todos os coletes já foram removidos, e o projeto agora avança para a fase de análise desses dados.

Segundo Arnaud, o cruzamento de informações colhidas na pesquisa permitiu identificar um dado interessante: a taxa de crescimento da população de tamanduás – cerca de 5% ao ano – diminui pela metade (2,5%) quando se considera o impacto das rodovias.

“Isso significa que as estradas não levam à extinção pelos acidentes, mas diminuem a taxa de crescimento dos tamanduás, porque outras ameaças – como doença, fogo, perda de habitat, ataques de cães ferozes – terão impacto mais forte para chegar ao nível próximo da extinção. A combinação das mortes nas rodovias torna a população de tamanduás-bandeira mais frágil às outras ameaças”, diz o biólogo.

Arnaud chama a atenção também para o fato de que o risco de extinção do tamanduá-bandeira pode causar impactos na própria agricultura, desencandeando um estado de desequilíbrio ambiental. O animal cumpre importante função no controle de insetos e pragas: calcula-se que um indivíduo chegue a comer cerca de 30 mil cupins e formigas por dia com sua língua imensa, que pode medir até 40 centímetros de comprimento.

“Seu papel é muito valioso. Evita, inclusive, que os agricultores tenham de gastar em produtos para o controle de pragas, que além de tudo, contaminam o solo”, explica Desbiez.
A equipe do Bandeiras e Rodovias em campo

Ações de conservação em prol do tamanduá-bandeira

Os resultados obtidos até agora estão sendo usados para elaborar as normativas do Plano Nacional de Ação para a Conservação de Tamanduás-bandeira e Tatus-canastra, aprovado em julho de 2019.
O Icas contribuiu com 26 das 31 estratégias definidas como prioritárias para a conservação de animais próximos à extinção. Elas incluem a implantação de radares nas estradas, placas de limite de velocidade, campanhas de conscientização, construção de túneis subterrâneos para a travessia animal e a instalação de cercas, para evitar que entrem na pista.

O trabalho do Bandeiras e Rodovias abrange ainda uma atuação multidisciplinar para a conscientização no âmbito educacional, médico, ecológico e social. O Icas proporciona educação ambiental para cerca de 2.500 alunos de 50 escolas em Mato Grosso do Sul, incluindo sete escolas rurais, capacitação de 20 educadores da Secretaria Municipal de Educação de Campo Grande e a distribuição de mais de 3 mil livros didáticos em municípios de Minas Gerais cujas fazendas aderiram ao projeto ASAS (Área de Soltura de Animais Silvestres), para onde alguns filhotes de tamanduá foram transferidos depois que a mãe morreu.

O Bandeiras e Rodovias ainda tem o apoio de concessionárias de estradas, como a CCR MS. Em junho de 2019, a veterinária Debora Yogui treinou 223 funcionários da rodovia BR-163, que atravessa verticalmente todo o estado ao longo de 850 km. Além de receber informações sobre a fauna brasileira, cuidados com animais peçonhentos e leis ambientais, eles também aprenderam como registrar um atropelamento e como lidar com animais vivos ou feridos na estrada.

Outro aliado que tem ajudado a quantificar o número de atropelamentos e a mapear os pontos mais vulneráveis é o aplicativo Sistema Urubu, criado em 2014 pelo CBEE.  A ferramenta conta com o envio de fotos e informações dos viajantes. A localização de onde foi feita a imagem de um animal morto ou ferido é identificada pelo GPS do celular e assim é possível mapear e chamar ajuda, caso o animal ainda esteja vivo.

“Em um momento de polarização política, onde os interesses das bancadas ruralistas e ambientalistas divergem, o trabalho em equipe, envolvendo todos esses agentes, é fundamental”, atesta o pesquisador.

*Texto publicado originalmente em 06/02/20 no site Mongabay Brasil

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Fotos: Miguel Ranger Jr./Creative Commons/Flickr (abertura), Gregoire Dubois (banner e tamanduá com cupinzeiro ao fundo), Aurélio Gomes (biólogo e tamanduá), Bandeiras e Rodovias (tamanduás atropelados)