segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Mico-leão-dourado ganha viaduto vegetado para conectar populações



((o))ecoMico-leão-dourado ganha viaduto vegetado para conectar populações

Duda Menegassi
segunda-feira, 10 agosto 2020 21:23
O viaduto vegetado na BR-101. Foto: Wanderson Chan/AMLD
A fragmentação de áreas naturais é um dos principais obstáculos para conservação da biodiversidade.

O ameaçado e carismático mico-leão-dourado, endêmico do estado do Rio de Janeiro, é um dos exemplares da fauna brasileira “ilhado” em porções de floresta divididas por rodovias, pastos, plantações e cidades. Passagens dedicadas ao trânsito de animais silvestres têm se tornado bandeiras cada vez mais fortes para tentar minimizar os impactos dessa fragmentação de habitats. No início de agosto (2), foi inaugurado o primeiro viaduto vegetado em uma rodovia federal no Brasil. Localizado no km 218 da BR-101, no município de Silva Jardim, ele irá ajudar a conectar as populações de mico-leão da Reserva Biológica de Poço das Antas com seus vizinhos que vivem pros lados do Parque Estadual dos Três Picos.


Uma população de animais isolada num fragmento pode até não sofrer impactos visíveis no curto prazo, mas no longo prazo, a tendência é que os bichos comecem a reproduzir dentro das suas famílias, o que diminui a variabilidade genética deles e representa um risco para a conservação da espécie no longo prazo.

”O mico até chega a usar o chão em algumas circunstâncias, mas com a duplicação você forma uma barreira muito grande porque você tem duas pistas, canteiro central, acostamento dos dois lados, sem contar o movimento dos carros. Então a gente considera que vai consolidar uma barreira definitiva para fauna e pros micos acessarem a Reserva Biológica [Rebio] Poço das Antas”, explica o secretário-executivo da Associação Mico-Leão-Dourado, Luis Paulo Ferraz.

O viaduto foi feito pela concessionária Arteris Fluminense como condicionante para duplicação da via, já que a expansão torna ainda mais intransponível essa barreira para fauna. A obra teve um custo de R$ 9 milhões. Um segundo viaduto está previsto pelo licenciamento ambiental para este trecho da BR-101, na altura do km 240. A estrutura será construída depois que forem averiguados os resultados deste primeiro.


As mudas recém-plantadas no viaduto virarão uma pequena floresta com o tempo. Foto: Wanderson Chan/AMLD

De acordo com o secretário da Associação, a expectativa é que os micos se sintam confortáveis em percorrer a passarela na medida em que as mudas que foram plantadas cresçam e ofereçam ao mico um ambiente acolhedor, mas nem tanto. “Com o crescimento das árvores ele vai se sentir muito mais confortável para atravessar de um lado ao outro da rodovia. A princípio não pretendemos plantar nenhuma muda que fixe o bicho porque o objetivo é que ele atravesse”, comenta Luis.


Ele acrescenta que não dá para precisar quando esse trânsito pelo viaduto irá começar, mas reforça que é necessário ter cobertura arbórea, portanto, baseado no tempo estimado para o crescimento das mudas, isso deve levar de 2 a 4 anos. “É uma espécie arborícola, ela não anda nem no chão nem no topo das árvores, ele anda sempre no meio da floresta, por isso a gente precisa aguardar o desenvolvimento dessa floresta”.

A conservação dos micos
O mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) é uma espécie que ocorre apenas na Mata Atlântica fluminense, no estado do Rio. Considerada Em Perigo de extinção pela Lista Vermelha da Fauna Brasileira, o mico é alvo dos esforços de conservação desde os anos 60. O mais recente levantamento populacional da espécie, feito em 2017 pela Associação Mico-Leão-Dourado, indicou apenas 2.500 micos na natureza. O número representa uma queda com relação ao censo de 2014, quando foram contabilizados 3.700 indivíduos. A redução populacional tem nome e sobrenome: febre amarela.


O carismático mico-leão-dourado, espécie bandeira que ajuda na conservação de outras. Foto: Wikimedia
“Pela primeira vez a gente começa a ter uma perda. E na Reserva de Poço das Antas a perda foi muito grande, é uma área super afetada pela febre amarela. Nós já tivemos 450 micos ali, agora essa população está bem reduzida, nossa perspectiva atual ali é de menos de 40 animais”, lamenta.


Para garantir a sobrevivência da espécie no longo prazo, Luis reforça que a chave é mesmo a conexão. “Existe um plano que prevê que para salvar o mico-leão-dourado do risco de extinção, a gente precisa ter uma população razoável numa área suficientemente grande. Nossa meta de conservação é ter pelo menos 2 mil micos monitorados, numa área com pelo menos 25 mil hectares de florestas protegidas e conectadas. É nessa meta que a gente está trabalhando. Hoje a gente até tem mais de 2 mil micos, mas não temos 25 mil hectares protegidos e conectados na nossa região. Não adianta ter 10 mil micos em fragmentos pequenos e isolados. Estamos construindo essa conexão, com o viaduto, plantios de corredores e tudo mais, que vão nos ajudar a alcançar esse objetivo de ter essa região conectada”, explica.

“Nós estamos trabalhando para consolidar o que a gente chama de uma paisagem de conservação que envolve todos os remanescentes florestais que a gente tem na região. São 12 grandes blocos de florestas ainda existentes e nós vamos montando esse quebra-cabeça”, acrescenta. Com esse objetivo, a Associação investiu numa fazenda do outro lado da rodovia, onde estão fazendo a recuperação florestal de 90 hectares degradados, além da implementação de outros corredores vegetados em pontos-chave.

“Tem todo um projeto de conexão florestal, pensando no longo prazo para passagem do mico e de outras espécies. O mico-leão acaba virando uma espécie bandeira, mas [a conexão] é para manter todo equilíbrio ecológico da Reserva [Poço das Antas] e da região também, conclui.

Os portões do desmatamento

((o))eco


Os portões do desmatamento

Eduardo Pegurier
quarta-feira, 19 julho 2017 15:30
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Bois no curral de um frigorífico. Foto: Fabio Nascimento
Os satélites são cronistas mecânicos do processo de desmatamento da floresta Amazônica. Ao vasculhar e documentar através dos anos a degradação e os vazios criados pelo corte raso da mata, firmam um veredito: dois terços da área desmatada virou pasto. No chão, a contagem do gado mostra que a Amazônia é território mais de boi do que de gente. Em 2016, a quantidade de gado na região chegou a 85 milhões de cabeças, em comparação a uma população humana de 25 milhões de habitantes — mais de três bois por pessoa. No município de São Félix do Xingu, que contém o maior rebanho do país, essa proporção chega a 18 para 1.



Os números amazônicos costumam ser imensos. A Amazônia Legal abrange 61% do território do Brasil e contém 40% do rebanho nacional. O gado é mantido em cerca de 400 mil fazendas espalhadas pela região, com tamanhos que variam de alguns poucos até dezenas de milhares de hectares.  Então, quando a  ONG Imazon terminou um novo e detalhado levantamento sobre os frigoríficos da região, a grande surpresa foi encontrar um número pequeno: apenas 128 instalações de frigoríficos ativos, pertencentes a 99 empresas, são responsáveis por 93% do abate anual, algo como 12 milhões de cabeças de gado.


“Se entre 2016 e 2018 a taxa de desmatamento recente se repetir, 90% das novas perdas de floresta estarão dentro da área de influência de compra de 128 frigoríficos”
Já era sabido que os frigoríficos são o gargalo da cadeia de criação do gado. Mas o levantamento do Imazon é inédito porque revelou a geografia da pecuária na Amazônia, vista pela zona de influência destes pouco mais de cem abatedouros. Para se ter uma ideia, ocupar a capacidade de abate anual de um único frigorífico de grande porte demanda uma área de pasto de quase 600 mil hectares, três vezes maior do que o município de São Paulo. O conjunto de frigoríficos analisados no estudo, operando a plena capacidade, demandaria uma área de pasto de 68 milhões de hectares (maior do que o estado de Minas Gerais). Essa quantidade supera a soma dos pastos hoje existentes na região, indicando que o futuro da atividade gerará mais desmatamento.


Esses resultados reforçam o acerto de um processo em curso. Desde 2009, com início no Pará, o Ministério Público Federal pressiona os frigoríficos da região a assinar o chamado TAC da Carne. TAC é abreviação de Termo de Ajuste de Conduta, uma espécie de contrato entre o MPF e cada frigorífico que o assina, o qual passa a ser obrigado a fiscalizar a origem do gado que compra para barrar o “boi de desmatamento”.

Paulo Barreto, pesquisador do Imazon que liderou o estudo, compara: “é como se para conversar sobre o problema, houvesse duas opções, reunir num auditório os representantes destas cem empresas frigoríficas ou, como alternativa, alugar cinco estádios como o Maracanã para colocar todos os fazendeiros envolvidos na criação do gado”.

Risco de desmatamento



Frigorífico JBS em Santana do Araguaia, Pará. Fonte: Google Earth
Imagem de satélite do Frigorífico JBS, em Santana do Araguaia, Pará. Fonte: Google Earth
 
A análise que detalhou a influência de tão poucos frigoríficos sobre quase todo o rebanho amazônico envolveu trabalho de detetive e tecnologia de geoprocessamento. A primeira etapa foi obter os endereços de todos os frigoríficos de maior porte e confirmá-los usando imagens de satélite de alta definição, para verificar se naqueles locais havia instalações típicas da atividade, como currais e tanques de tratamento de água.


A partir daí, os pesquisadores queriam responder a pergunta: qual era a zona potencial de compra de cada frigorífico? E dois, como essa zona potencial se relaciona com as áreas já desmatadas e as que estão sob maior risco de desmatamento no futuro próximo?


O primeiro passo era descobrir a distância máxima que cada frigorífico alcançava nas compras de gado. Isso foi feito através de entrevistas telefônicas com os gerentes de frigoríficos e cruzamentos de dados. Havia casos curiosos, como um frigorífico no Acre, que não adquiria boi mais longe do que a 20 km das suas portas, e, no extremo oposto, no Amazonas, havia outro que comprava a mais de 1.000 km de distância, indo até Roraima, para compensar a falta de gado na sua região na época da seca.


“O somatório das regiões de influência dos 128 frigoríficos analisados abrange a quase totalidade das áreas embargadas pelo Ibama e 88% do desmatamento ocorrido na Amazônia entre 2010 e 2015”
O estudo lidou com duas categorias de frigoríficos, aqueles que têm licença SIE (Sistema de Inspeção Estadual), que podem vender carne nos seus estados, e SIF (Sistema de Inspeção Federal), que podem vender no país todo e exportar. Em média, frigoríficos com licenças estaduais têm capacidade para abater 180 animais por dia e compram de fazendas que podem estar a até 153 km de distância. Os frigoríficos com licença nacional abatem 700 animais/dia e vão buscá-los a uma distância que chega a 360 km.


Baseado nas distâncias máximas, o segundo passo era estabelecer a área potencial de compra dos frigoríficos. Hora de voltar à tecnologia geoespacial. “O Imazon tem um mapeamento completo de estradas oficiais e informais na Amazônia, uma base que vem sendo atualizada desde 2008”, conta Amintas Brandão Jr., outro dos autores do estudo. “Rodamos uma análise espacial em que você insere no software as coordenadas do frigorífico e a distância máxima que ele compra, digamos, 100 km. Daí, o software sozinho percorre todas as estradas e rios navegáveis acessíveis àquele frigorífico até atingir os tais 100 km. Assim, conseguimos delinear uma zona potencial de compra”. Segundo Brandão, o diferencial do trabalho foi este, estabelecer a área de influência de cada frigorífico usando a rede de infraestrutura, a malha de estradas e rios navegáveis por onde o gado pode ser transportado.



O somatório das regiões de influência dos 128 frigoríficos analisados abrange a quase totalidade das áreas embargadas pelo Ibama e 88% do desmatamento ocorrido na Amazônia entre 2010 e 2015.
Desmatamento futuro
infografico-frigorificos-fazendas-gadoO estudo gerou uma previsão de onde estarão as próximas áreas desmatadas na Amazônia. De novo, os pesquisadores recorreram aos softwares de análise geoespacial. Eles dividiram a Amazônia Legal em quadrados com 1 km de lado. Para cada um deles, foi estimada a probabilidade de desmatamento baseada na presença de fatores que o estimulam, como disponibilidade de transporte por estrada ou rio, distância até mercados e potencial da terra.


Criaram, assim, um mapa de probabilidade de desmatamento para toda a Amazônia Legal. Usaram a área desmatada nos três anos anteriores, 1,7 milhão de hectares (17 mil km2), como estimativa do total de desmatamento que poderá ocorrer no triênio 2016 a 2018.  Em seguida, a partir do mapa de probabilidades, determinaram quais são as áreas com maior chance de ocorrência de novos desmatamentos. A última etapa foi sobrepôr as zonas de influência de compras dos frigoríficos. A coincidência entre as duas áreas foi de 90%.

Em outras palavras, se entre 2016 e 2018 a taxa de desmatamento recente se repetir, 90% das novas perdas de floresta estarão dentro da área de influência de compra de 128 frigoríficos.


Consequências
“Da perspectiva da fiscalização, o trabalho pode ajudar no controle do desmatamento mostrando onde estão os ‘hot spots’, os pontos onde há mais floresta e/ou chance de desmatamento”, diz Brandão.
Para Barreto, “chama atenção como um número pequeno de empresas está no fim da cadeia que envolve quase 400 mil pecuaristas”. Segundo ele, isso confirma que está certo o caminho de envolver os frigoríficos na fiscalização do desmatamento, como obrigam os acordos com o MPF.


Mas destaca que 30% do abate é feito por frigoríficos que não assinaram acordos. Isso significa que não fiscalizam a origem dos seus bois. Pior, esses frigoríficos estão na mesma área de atuação daqueles que assinaram os acordos e, assim, se tornam alternativas para a venda de gado criado em pastos abertos ilegalmente.

O estudo do Imazon criou um panorama detalhado da influência que os frigoríficos podem ter sobre o desmatamento. “Já temos um mapa, as tecnologias estão disponíveis para rastrear o gado da sua origem até o local de abate”, diz Barreto. “Falta agora uma pressão consistente e punições para criadores e frigoríficos que compactuam com crimes ambientais”. Ele diz que isso aconteceu no caso da febre aftosa, quando o setor percebeu que perderia os mercados mundiais se não fosse feito um programa efetivo de vacinação. A pressão do mercado funcionou para os fazendeiros se organizarem e firmarem parcerias com o governo. Para Barreto, um bom começo seria uma nova rodada de aperto sobre o setor liderada pelo MPF e pelo Ibama.

O Brasil alcançou um bom controle de febre aftosa, um feito e tanto. Se quiser, pode fazer o mesmo para acabar com a pecuária que derruba floresta. Será um enorme passo rumo ao desmatamento zero na Amazônia.

O que é grilagem e o que ela tem a ver com o desmatamento na Amazônia

((o))ecoO que é grilagem e o que ela tem a ver com o desmatamento na Amazônia

Observatório do Clima
domingo, 6 agosto 2017 22:25


 
A grilagem de terra, o ato de ocupar ilegalmente terras públicas, está intimamente ligada com o desmatamento na Amazônia. Após a sanção, sem vetos, da Medida Provisória 759 (atual Lei 13.365), no começo de julho, o governo Temer ampliou a anistia à grilagem em sete anos e elevou de 1.500 para 2.500 hectares o tamanho das propriedades passíveis de regularização, o que permite legalizar a posse de grandes propriedades, em especial na Amazônia.

 https://youtu.be/Jx7Vq3Scld8

Como funciona a grilagem de terras, porque ela está relacionada com crimes que vão de desmatamento ilegal ao trabalho escravo e o que essa história tem a ver com a recente tentativa de reduzir a proteção da Floresta Nacional do Jamanxim é o que o Observatório do Clima explica, nesse vídeo de quase 3 minutos. Assista.


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Grileiros já tomaram quase 12 milhões de hectares de florestas públicas na Amazônia

((o))eco

Grileiros já tomaram quase 12 milhões de hectares de florestas públicas na Amazônia

Duda Menegassi
domingo, 28 junho 2020 19:44
23% dos quase 50 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas 
 já foi tomada por grileiros. Foto: Marcio Isensee e Sá.
Enquanto o desmatamento avança na Amazônia, quase 50 milhões de hectares de florestas públicas permanecem numa espécie de limbo, enquanto esperam o governo – federal ou estadual – decidir o que são e a quem pertencem. Essa indefinição de uso e governança deixa essas áreas de floresta não destinadas mais vulneráveis à invasão e, de acordo com um estudo publicado recentemente, grileiros já tomaram 11.6 milhões dessas florestas, o equivalente a 23% do total. Os números foram levantados por uma equipe de pesquisadores do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

O artigo foi publicado no periódico Elsevier sob o título “Terra sem lei na terra de ninguém: as florestas públicas não destinadas na Amazônia brasileira” e destaca o avanço da grilagem e do desmatamento nesses territórios. “A falta de segurança da posse da terra é uma fonte de desmatamento, exploração predatória de recursos naturais, atividades econômicas insustentáveis ​​e violência no campo”, descreve o artigo. De acordo com o levantamento, até 2018 já haviam sido desmatados 2.6 milhões de hectares em áreas não destinadas.
“Esse é um processo histórico, de grilagem de terra, mas que agora está se intensificando justamente dentro das florestas não destinadas. Existe um processo de privatização dessas áreas que passa a ser facilitado, inclusive, com essas flexibilizações que a gente vem acompanhando na legislação, como a Medida Provisória 910, a MP da Grilagem, que agora se transformou no Projeto de Lei 2.633.

 Essas flexibilizações vão dando margem para que essas pessoas mal-intencionadas comecem de fato a lucrar com esse ato. Porque elas acabam conseguindo o título da terra, ou mesmo quando não conseguem o título da terra, elas conseguem vender essa terra a terceiros por um preço que é muito maior do que elas tiveram que colocar para conseguir aquela terra”, explica a professora-titular do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA, Claudia Azevedo-Ramos, uma das autoras do estudo, em entrevista a ((o))eco.


Ela conta que o estudo foi feito através de bases de dados públicos como o Cadastro Nacional de Florestas Públicas (CNFP) e o Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (SISCAR), feitos pelo Serviço Florestal Brasileiro, e informações do Incra, do Inpe e do Ministério do Meio Ambiente. “Todos os dados que a gente utilizou nesse estudo são dados públicos e isso também é muito importante porque indica que os governos têm noção do que está acontecendo, porque a maioria da informação veio justamente dos dados que estão dentro dessas instituições”, esclarece Claudia.


A grilagem vem associada ao desmatamento para consolidar a ocupação da área. 
Foto: Marcio Isensee e Sá.
“Nós tiramos as sobreposições e sobraram 49.8 milhões de hectares de florestas que ainda não foram destinadas, é mais ou menos o tamanho da Espanha. O que são essas florestas não destinadas? São florestas que são públicas, pertencem ao governo federal ou estadual, mas ainda não foram alocadas para nenhuma categoria de uso. Elas não são unidade de conservação, não são Terra Indígena, território quilombola, não são assentamento, não são nada. E elas não têm um gestor específico ali cuidando.

E quando nós demos um zoom para ver o que estava acontecendo dentro dessa área, nós vimos que uma área equivalente a dois estados do Rio de Janeiro, 11.6 milhões de hectares, estavam sendo griladas. E isso já acendeu todas as luzes vermelhas porque imagina você ter um patrimônio desse tamanho em plena Floresta Amazônica, que está sendo perdido porque esses grileiros estão entrando nessas áreas públicas e registrando pedaços dessa floresta pública no CAR [Cadastro Ambiental Rural].

Como o Cadastro é auto declaratório, você registra o que você quiser e só depois você precisa validar essa informação, e o CAR ainda não chegou nesse estágio de verificação. Nesse meio-tempo, essas pessoas mal-intencionadas entram e começam a derrubar a floresta para tomar posse. Nós avaliamos o desmatamento dentro dessas áreas e até 2018 foram 2.6 milhões de hectares desmatados, um território mais ou menos do tamanho do Sergipe. Ou seja, dentro daquela Espanha de florestas não destinadas, tinha um Sergipe desmatado”, diz a pesquisadora.

O artigo destaca que vários especialistas já alertaram que esse é um cenário que pode piorar nos próximos anos em função das recentes mudanças políticas no Brasil como o atual enfraquecimento governamental das agências ambientais e dos direitos à terra indígena; congelamento da designação de novas áreas públicas; legalização de armas nas áreas rurais; expansão do agronegócio, que resultam na intensificação de conflitos de terra, violência rural e exploração ilegal de recursos naturais.

O texto cita ainda que 30% do desmatamento e das queimadas na Amazônia em 2019 ocorreram dentro de florestas públicas não destinadas, de acordo com dados divulgados pelo IPAM.
A professora da UFPA ressalta ainda que o primeiro passo para lidar com os crimes ambientais cometidos nessas florestas não destinadas é, justamente, destiná-las e fazer o ordenamento deste território. “Ao destinar essas terras a gente está entregando elas à gestão de alguma instituição que vai fazer o monitoramento e o manejo daquela área. Hoje, se existe invasão em floresta pública não destinada, quem que a gente chama? Fica muito fácil de um empurrar pro outro e ninguém fazer nada. A destinação é a primeira coisa, inclusive para propriedades privadas, o que também é previsto”, completa.

Além disso, ela aponta que é preciso ter vontade política e uma ação efetiva do governo no combate aos crimes ambientais, tanto em campo, com fiscalização e aplicação da lei, quanto no discurso dos governantes.

“Quando você está na ponta, lá no campo, você está atento ao discurso das lideranças, do governo, e você se move de acordo. Se lá na ponta chega um discurso que diz que agora vale tudo, é só o sinal que basta para você começar a distribuir motosserra. Porque se o próprio governo, que deveria estar fiscalizando essas áreas que são públicas, está passando a mensagem de que nada vai acontecer, o seu trator não vai ser queimado ou confiscado, a Polícia Federal não vai chegar até você, você pode entrar na Terra dos Indígenas que está tudo bem, pode fazer mineração à vontade… É terra sem lei, mesmo”, conclui.


Mapa das Florestas Públicas não destinadas na Amazônia. Fonte: IPAM

Polícia Federal deflagra operação contra desmatamento ilegal

CALDEIRÃO POLíTICO

OPERAÇÃO CARRANCA

Polícia Federal deflagra operação contra desmatamento ilegal

Redação

Polícia Federal/PA
A Polícia Federal deflagrou hoje (29/7) a Operação Carranca, para reprimir a exploração ilegal de madeira na região de Brasil Novo, Medicilândia e Uruará, no estado do Pará.

Estão sendo cumpridas, ao todo, 60 medidas cautelares, sendo 14 mandados de medidas cautelares diversas da prisão, 7 mandados de afastamento do emprego ou função pública, 4 mandados de suspensão da atividade de natureza econômica, 7 mandados de sequestro de bens e 28 mandados de busca e apreensão.

A investigação policial teve início no primeiro semestre de 2016, a partir de denúncias da extração ilegal de madeira no município de Brasil Novo/PA. Com o avanço da investigação, foi possível identificar grupos que atuavam em todas as etapas da cadeia produtiva da madeira: extração, serragem, falsificação de documentos, fiscalização, transporte e compra da madeira ilegal.

Esses grupos criminosos foram divididos em 4 núcleos, conforme sua atuação no esquema criminoso. O primeiro núcleo se refere aos madeireiros de pouco poder econômico, que atuam na linha de frente da extração ilegal de madeira nos municípios mencionados. O segundo núcleo é dos madeireiros de grande poder econômico, que financiam uma grande cadeia de extração, serragem e distribuição de madeira ilegal, inclusive realizando a manipulação de créditos florestais e falsificação de documentos.

Já, o terceiro núcleo está ligado aos servidores públicos das Secretarias municipais de Meio Ambiente, advogados, engenheiros florestais e outros ligados a esses, que utilizam sua função pública para favorecer e acobertar os crimes ambientais, além de, em alguns casos, participarem do comércio de madeira ilegal.

O quarto núcleo, cuja identificação foi feita com o apoio da Polícia Rodoviária Federal, é composto por servidores policiais que realizavam fiscalização ilegal na rodovia Transamazônica, cobrando vantagem indevida dos caminhoneiros como condição para prosseguirem viagem ou passando informações de fiscalização rodoviária. Dentre eles há um servidor público federal e outros do estado do Pará, além de batedores caminhoneiros que repassavam informações.

Os tipos penais investigados são:

- exploração econômica de floresta nativa em terra de domínio público (Lei nº 9605/1998);
- fornecimento de nota fiscal em desacordo com a legislação (Lei nº 8137/1990);
- integrar ou financiar organização criminosa (Lei nº 12850/2013);
- recebimento de madeira para fins comerciais sem exigir a exibição da licença (Lei nº 9605/1998);
- falsidade ideológica, associação criminosa, corrupção passiva, prevaricação, peculato, violação de sigilo funcional e concussão (todos do Código Penal Brasileiro).

Cinco são presos em garimpo ilegal em Apiacás; maquinário é apreendido

CALDEIRÃO POLÍTICO 

APIACÁS

Cinco são presos em garimpo ilegal em Apiacás; maquinário é apreendido

Redação

Divulgação/PJC
Garimpo ilegal em Apiacás

Cinco homens foram detidos na tarde desta quinta-feira (30), na zona rural de Apiacás (1.010 km ao norte de Cuiabá), durante ação integrada da Polícia Civil do município e da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) de combate a crimes ambientais na região.

Os suspeitos de 51, 52, 55, 58 e 65 anos foram autuados em flagrante por usurpação (produzir bens ou explorar matéria prima pertencente à União sem autorização legal) e por poluição (construir ou fazer funcionar, estabelecimentos, obras ou serviços potencialmente poluidores, sem licença).
O trabalho foi deflagrado em apoio à equipe da Sema para fiscalização de um garimpo situado em uma propriedade rural situada na estrada W3. Chegando nas proximidades, as equipes avistaram uma escavadeira e barulho de motores em funcionamento. Os policiais e fiscais foram recebidos por um homem que se apresentou com o proprietário do local e foi solicitado que o mesmo desligasse o motor que estava na beira do córrego e chamasse as outras pessoas que estavam garimpando dentro de uma escavação.

No local foram encontrados três motores, sendo dois em funcionamento de uma s draga de seis polegadas. Foi constatada a existência de um córrego, que passa ao lado do garimpo, um braço do rio Das Primas, cujas águas estavam sendo utilizadas para a garimpagem. Também foi localizada uma máquina escavadeira, que não estava em funcionamento, porém, utilizada no garimpo. As equipes constataram quatro garimpeiros trabalhando dentro de um buraco.

Diante dos fatos, as cinco pessoas foram conduzidas para a Delegacia de Apiacás para as providências cabíveis. Todos os materiais utilizados no garimpo foram apreendidos pela Sema.
Os conduzidos foram interrogados e responderão pelos crimes de usurpação (produzir bens ou explorar matéria prima pertencente à União sem autorização legal) e por poluição (construir ou fazer funcionar, estabelecimentos, obras ou serviços potencialmente poluidores, sem licença).

Sema flagra garimpo de ouro ilegal e aplica multa de R$ 400 mil

MEIO AMBIENTE

Sema flagra garimpo de ouro ilegal e aplica multa de R$ 400 mil

Foram identificados aproximadamente 22,5 hectares de desmate entre áreas de preservação permanente e de mata nativa.

Redação

Sema/MT
A Secretaria de Meio Ambiente (Sema-MT) realizou fiscalização contra garimpo de ouro sem autorização de operação na região de Carlinda e Alta Floresta. Fiscais da Unidade Descentralizada de Alta Floresta e da Coordenadoria de Fiscalização de Empreendimentos aplicaram multa de R$400 mil por supressão vegetal e operação ilegal na atividade e embargo.

A operação ocorreu em parceria com a Polícia Judiciária Civil e incluiu a zona de amortização do Parque Estadual Cristalino e foi resultado de denúncias e de análise de imagens de satélite monitoradas pela regional de Alta Floresta. A fiscalização flagrou atividade implantada de extração mineral com sinais recentes de desmate e perfurações no solo trazendo significativo impacto nas florestas e corpos hídricos.

Foram feitos o levantamento em campo, por meio de uso de veículo aéreo não tripulado, da extensão do dano e também identificação de outros focos de desmatamento realizados pela atividade. Foram identificados aproximadamente 22,5 hectares de desmate entre áreas de preservação permanente e de mata nativa.

Os responsáveis responderão administrativamente o embargo e também pelas infrações cometidas.

Atividade essencial

As atividades de fiscalização ambiental, que incluem as ações de monitoramento e controle de crimes ambientas como desmatamento e exploração florestal ilegais, pesca predatória, caça ilegal, poluição causara por empreendimentos, dentre outros, seguem em pleno funcionamento durante a pandemia do Covid-19.

De acordo com artigo 8° do decreto Estadual 432/2020, a fiscalização ambiental é considerada atividade essencial no Estado. Ao se deparar com crimes ambientais, o cidadão pode fazer denúncias pelo 0800 65 3838 ou via aplicativo MT Cidadão (disponível para IOS e Android).

Monitoramento Diário

Desde 2019, por meio da Sema, o Estado de Mato Grosso é beneficiário da Plataforma de Monitoramento da Cobertura Vegetal (ferramenta) adquirida pelo Programa REM, por meio do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), com recursos da Alemanha e Reino Unido.
Além das imagens diárias de alta resolução espacial, são disponibilizados alertas semanais de desmatamento e degradação da vegetação em toda a área do Estado. Os alertas permitem detectar desmates a partir de um hectare e acompanhar a alteração da cobertura vegetal de forma rápida e precisa.

Denúncias

O cidadão pode denunciar crimes ambientais à Ouvidoria Setorial da Sema: 0800-65-3838 ou via WhatsApp no (65) 99281- 4144, nas regionais da Sema ou pelo aplicativo MT Cidadão.

Ação integrada apreende helicóptero que jogava agrotóxico na Floresta Amazônica

COLNIZA

Ação integrada apreende helicóptero que jogava agrotóxico na Floresta Amazônica

Piloto conseguiu fugir e duas pessoas foram conduzidas para a delegacia após flagrante de desmatamento ilegal e outros crimes ambientais

Juliana Carvalho

Sema-MT
Operação integrada da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), polícias Civil e Militar e Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer) na segunda-feira (15.06) flagrou a pulverização de agrotóxico em floresta nativa, áreas de regeneração e pasto, ocasionando danos visíveis à flora.
Esta é a primeira vez que Mato Grosso apreende um helicóptero sendo utilizado para realizar desmatamento ilegal. A equipe considerou o crime um atentado contra a saúde pública e o meio ambiente.

Na ação realizada a 63 quilômetros do município de Colniza (Noroeste de Cuiabá), duas pessoas foram conduzidas para a delegacia de polícia. O piloto do helicóptero não foi localizado. A aeronave apreendida será periciada e removida, enquanto os produtos utilizados na pulverização serão periciados no local.

A operação teve origem em denúncia anônima que relatou o uso de agrotóxico por diversas propriedades no entorno da Vila Maguila, distrito de Colniza.

Após um trabalho pelo Núcleo de Inteligência e Operações Integradas (NIOC) da Sema, a área foi identificada e o Ciopaer foi acionado para sobrevoar a área. Os agentes identificaram a vegetação amarelada e localizaram a aeronave com os pulverizadores acoplados.

Aequipe também encontrou os tanques utilizados no armazenamento de agrotóxicos, nas margens de um lago que aparenta ser uma nascente hídrica represada. As investigações iniciais apontam para a contaminação da lagoa.  De acordo com o relato de um dos conduzidos, foram pulverizados 83 galões de 20 litros de agrotóxicos em duas propriedades, em uma área aproximada de 850 hectares e estavam preparando para realizar o trabalho na terceira propriedade.

O suspeito relatou ainda que todo material era manipulado às margens da nascente. Demais sanções administrativas estão sendo calculadas e a Polícia Civil conduz o inquérito criminal.

Desmatamento ilegal zero

A ação realizada em Nova Bandeirantes integra Operação Amazônia Arco Norte do Governo de Mato Grosso em parceria com a Operação Verde Brasil do Governo Federal, visando zerar o desmatamento ilegal em Mato Grosso.

Desde o início da Operação, em maio, foram aplicados R$ 101 milhões em multas por crimes contra a flora, como desmatamento, exploração florestal e queimadas ilegais, dentre outros. Foram embargados mais de 21 mil hectares e apreendidos 44 tratores.

Desde janeiro, Mato Grosso aplicou R$ 555 milhões por crimes contra a flora e embargados 78 mil hectares. As ações conduzidas resultaram na apreensão de 116 tratores e 27 caminhões.

Atividade essencial

As atividades de fiscalização ambiental, que incluem as ações de monitoramento e controle de crimes ambientas como desmatamento e exploração florestal ilegais, pesca predatória, caça ilegal, poluição causara por empreendimentos, dentre outros, seguem em pleno funcionamento durante a pandemia do Covid-19.

De acordo com artigo 8° do decreto Estadual 432/2020, a fiscalização ambiental é considerada atividade essencial no Estado. Ao se deparar com crimes ambientais, o cidadão pode fazer denúncias pelo 0800 65 3838 ou via aplicativo MT Cidadão (disponível para IOS e Android).

Militares cercados pelo fogo são resgatados por helicóptero em Poconé

Domingo, 16 de Agosto de 2020. CALDEIRÃO POLITICO
INCÊNDIOS EM MT

Militares cercados pelo fogo são resgatados por helicóptero em Poconé

Redação

Corpo de Bombeiros - MT
Seis militares bombeiros que combatiam incêndio no Pantanal, no muncípio de Poconé, viram-se cercados pelo fogo na última sexta-feira (14).


Eles conseguiram se comunicar com a base e foram localizados por uma aeronave que também auxilia o trabalho dos bombeiros na região. Em seguida um helicóptero da Força Aérea Brasileira conseguiu pousar e resgatá-los.

Segundo informado pelo bombeiros, o vento forte fez as linhas de fogo avançarem rapidamente em direção ao setor norte do hotel Sesc Porto Cercado.

Cerca de 200 mil hectares foram consumidos pelo fogo desde o início do incêndio que começou há três semanas no Pantanal mato-grossense.

As ações para defesa da maior planície alagável do mundo, contam mais 134 pessoas atuando no combate aos incêndios. São 38 bombeiros militares de Mato Grosso e 12 de Mato Grosso do Sul. Do Governo Federal, atuam oito militares da FAB e 23 da Marinha, além de 14 brigadistas do ICMBio. O Sesc Pantanal disponibilizou 39 funcionários, sendo quatro em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso.

Para ação, estão sendo empregados duas aeronaves de combate a incêndio do CBMMT e outas duas do ICMBio. Um helicóptero da Força Aérea Brasileira e outro da marinha atuam na operação para deslocamento de equipes e identificação das éreas atingidas. Na sexta-feira (14), mais um helicóptero do Ibama começou atuar na região do Porto Jofre, em Poconé.

Por terra, as equipes recebem o apoio de duas camionetes, uma van, um caminhão, um ônibus e dois quadriciclos também do Corpo de Bombeiros Militar e três máquinas oriundas de apreensão cedidas pela Sema. De recursos privados, estão em campo uma aeronave e três camionetes do Sesc Pantanal, três caminhões pipa, três tratores pipa, um microônibus, um quadriciclo e uma van. Máquinas de diversos produtores rurais estão sendo empregadas na construção das linhas de defesa. As estimativas apontam que uma área de 204 mil hectares foi atingida pelo fogo nos municípios de Barão de Melgaço e Poconé

 Duas aeronaves do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso (CBMMT) utilizaram cerca de 45 mil litros de a?gua para impedir que o fogo atingisse uma casa de pau-a-pique (foto acima) do seu Dito Verde (Benedito Alves da Silva), morador mais antigo da reserva RPPM Sesc Porto Cercado. Além das aeronaves, combatentes, dois barcos e um helicoóptero da Marinha foram empenhamos para impedir que casa de seu Dito Verde fosse destruída pelas chamas. O incidente aconteceu na quarta-feira (12/08).

A incrível história de Heidi Mosbacher, mãe das preguiças da Amazônia


CONEXÃO PLANETA

A incrível história de Heidi Mosbacher, mãe das preguiças da Amazônia



Da série ‘Roteiros da Amazônia’, com o cineasta Jorge Bodanzky*
Preguiças são bichos que vivem espalhados pelas Américas, especificamente em sua porção Central, na Amazônia e na Mata Atlântica, que volta e meia viralizam em redes sociais e causam certo debate sobre a quantidade de horas que passam dormindo.

As que vivem na Amazônia alimentam-se basicamente de folhas de embaúba, mas há notícias sobre a criação de preguiças com uma dieta diferente, repleta de vegetais que existem na Alemanha.
A administradora desse regime peculiar foi Heidi Mosbacher, alemã que viveu por cerca de duas décadas às margens do rio Cuieiras e criou dezenas desses bichos para um estudo que dizia montar.
Como na maioria das situações atípicas, foi o mero acaso que fez o diretor Jorge Bodanzky conhecer a jovem, com quem manteve contato por mais de uma década.

Era o final dos anos 80, quando ele estava em Manaus (AM) com o colega Gernot Schley, fazendo uma matéria sobre a exportação de madeira amazônica para a Alemanha. Enquanto entrevistava um empresário do ramo madeireiro, em um pequeno escritório abafado atrás do Teatro Amazonas, foi surpreendido por uma mulher loira, alta e muito magra que entrou esbaforida no local, solicitando sua correspondência e falando alemão.

O homem — que dividia as funções de madeireiro com as de cônsul-honorário da Alemanha na cidade — deu a ordem e a secretária entregou quatro ou cinco cartas à visitante, que logo saiu correndo por onde entrara. Curioso, Bodanzky perguntou ao paisano quem era aquela moça. Ele respondeu que era “uma alemã maluca que morava sozinha no mato com as preguiças”.
O diretor interrompeu a entrevista e correu atrás da jovem, que seguiu em direção ao cais de Manaus, perto dali. “Perguntei a ela quem era e para onde ia, mas ela só me disse que não poderia falar, que tinha pressa para alimentar as preguiças que estavam famintas”, conta.

Ele a acompanhou até o porto e foi surpreendido por uma pequena canoa telada, contendo nada menos que 20 bichos-preguiça. Sem dar explicações, a mulher embarcou e subiu pelo rio Negro em rumo desconhecido até então. Quando voltou ao cônsul, não acrescentou muito mais à sua primeira e impactante impressão: apenas que ela se chamava Heidi Mosbacher, alemã de Munique, de poucos conhecidos e que só aparecia no escritório para buscar suas cartas a cada dois ou três meses. Depois voltava para o isolamento, no meio da floresta.


Investigando, Jorge soube que um barqueiro conhecido seu, apelidado Bigode, mantinha contato e às vezes ia até onde Heidi morava, próximo ao rio Cuieiras, na Reserva Florestal Adolpho Ducke, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus.

Avessa à socialização humana, ela fugia para o mato quando alguém tentava chegar ao local onde cuidava dos animais.

Mesmo visitando a cidade por várias vezes, aquela tinha sido a primeira vez que Bodanzky soube da estrangeira. Até aquele momento o que ele sabia é que Heidi aparentemente fazia pesquisas sobre as preguiças. Mas para qual instituição? Onde? Como? Gernot, que acompanhava o diretor na cidade, não se interessou pelo assunto.

Quando voltou à cidade, em outro momento, o diretor convenceu o cônsul a quebrar o protocolo e pediu para pegar e levar ele próprio a correspondência de Heidi, como um carteiro informal (mero pretexto para conhecê-la). A ideia era fazer a viagem com Bigode, que já sabia o caminho, mas quando Heidi escutou o barulho do motor naturalmente se escondeu, conforme imaginavam. Ele chamou-a pelo nome e falou em alemão. Em algumas horas ela apareceu, ainda desconfiada e falando pouco. Nenhuma câmera foi levada.

“A história da Heidi era muito interessante porque, a cada vez que ela ou outra pessoa a contava, mudava alguma coisa. Quer dizer, até hoje não se sabe exatamente qual é a história verdadeira, até onde vão os fatos e a imaginação de cada um”, lembra Bodanzky.

Após longa conversa, o cineasta entendeu que a pesquisadora registrava os hábitos dos bichos-preguiça. Mesmo com as respostas, as dúvidas e a curiosidade foram aumentando. Ele voltou ao lugar com uma equipe, depois de convencer Heidi a participar de uma reportagem para uma emissora brasileira.

Ela relatou que era de Munique, na Alemanha, onde também havia estudado Química. Trabalhou no Quênia como analista de solos, voltou para a cidade natal e depois foi para Manaus com alguns pesquisadores. Em 1973, quando andava pela capital amazonense, viu uma criança vendendo um filhote de preguiça. Apaixonou-se pelo bicho, comprou-o e ficou tão preocupada que decidiu salvar a espécie local, tomando-a como um símbolo da preservação da floresta.

Daí, após dois anos na capital do Amazonas, foi parar num barraco de propriedade do INPA no rio Cuieiras, em área de preservação ambiental. Por algum motivo o órgão tolerou sua presença no local, que ela usava como morada e dividia com os mamíferos.

Guardava de 20 a 30 bichos-preguiça na precária casa de palafitas. Ela dormia no local com os animais e, quando viajava a Manaus, precisava trazê-las consigo, porque elas precisam ser alimentadas com muita frequência.

Essa era uma grande aflição de Heidi e tornava a situação muito limitadora, porque a preguiça come basicamente a folha da embaúba, uma árvore típica da Amazônia. O mamífero também não bebe água, mas a retém do que come, e por isso, a folhagem precisa ser sempre fresca.

Como sempre dizia, inclusive em entrevistas, Heidi acreditava que as pessoas tinham que aprender que as preguiças eram dignas de proteção e não eram lentas como a maioria achava. “Elas não são estúpidas. Podem se comunicar, são afetuosas, cuidam umas das outras e são limpas”, disse ao jornal americano Washington Post em 1994, que a chamou de “dama das preguiças”, sloth lady na ocasião.


A pesquisa e o realismo mágico

Bodanzky ainda precisava entender os detalhes sobre a estada da pesquisadora naquele lugar, praticamente isolada havia mais de dez anos (ela tinha chegado no Amazonas em 1973 e foi para o Cuieiras em 1975). A partir daí, as visitas aconteceram com certa frequência, de uma a duas vezes por ano, sempre quando o diretor passava por Manaus. Apesar da curiosidade e o registro de alguns encontros, ele sentia uma simpatia genuína por Heidi.

Ela chamava os ribeirinhos de canibais porque eles comiam preguiças como carne de caça. Estes, em contrapartida, ficavam ofendidos com a comparação, e isso gerava uma certa animosidade. Heidi piorava tudo quando dizia que seria morta pelos caboclos da região que, ela acreditava, a odiavam por proteger os mamíferos.

“Ela tinha desejo de morrer lá e realmente acreditava que seria morta pelos caboclos”, afirma Bodanzky. Mas acontecia justamente o contrário: não havia hostilidade.

Alguns vizinhos, compadecidos de Heidi, até levavam comida para a alemã — peixe e farinha de mandioca. Antes existia uma família na região que lhe dava verduras e frutas, mas se mudaram, o que a deixou ainda mais solitária naquele lugar. Mesmo nas agruras e intempéries da selva tropical, ela dizia, inclusive, que a única coisa que realmente sentia falta da civilização era do bom e velho pão europeu.

O cineasta soube posteriormente que Heidi de fato conseguira uma bolsa pelo Instituto Max-Planck da Alemanha para estudar as preguiças, em 1979. Mas acabou ficando sem o recurso porque, depois que foi morar na reserva, desapareceu e nunca mais se manifestou à entidade.

Ela dizia que trabalhava muito e que existiam poucas informações sobre o animal, como vive, se reproduz e tempo de gestação. Por isso, as colocou na construção, que foi telada. Heidi tinha uma favorita, que chamava de Monalisa —por ter um aparente sorriso amarelo no rosto— e que era como uma filha, como as outras. Mas sempre preferia posar para as fotos e vídeos com o bicho. Ela também admirava a primatóloga britânica Jane Goodall, especialista em chimpanzés.

Quando questionada sobre o que já havia pesquisado, a alemã não apresentava nenhum tipo de registro. A justificativa evocava o realismo mágico, como lembra Jorge Bodanzky:

“Eu perguntava pela pesquisa e ela dizia que anotava tudo em cadernos. Eu retrucava: ‘E onde estão? Posso vê-los?’. Ela apontava para uma bagagem acomodada no forro da casa. Quando eu pedia para me mostrar, ela dizia que não havia nada ali porque, de tempos em tempos, a casa era invadida por formigas que sempre comiam os cadernos com as anotações e ela era obrigada a sair do lugar. Então dizia que todo ano precisava reescrever o trabalho”, explica.

Algumas pessoas a achavam ‘totalmente maluca’, outros acreditavam que ela fazia estudos sérios. O fato é que a pesquisa em si, de acordo com Bodanzky, era ficção. Nunca foram encontrados registros escritos de Heidi Mosbacher sobre as preguiças, até o momento.

Este fato reforça a tese de que o trabalho de Heidi na região era a observação. Talvez um pretexto para ficar ali à vontade, longe dos estressantes centros urbanos. Algo que, para o cineasta, é a realização de uma vontade que muitas pessoas expressam.

A peleja de Heidi também significa preocupação com a espécie, um tipo de ecologia fora do padrão, que convida para um olhar mais atento. De fato, houve algumas reportagens publicadas na revista People, em 1988, além do artigo no Washington Post e dos trabalhos de Bodanzky para o Globo Repórter, da Rede Globo, veiculados em 1990.


Preguiças germânicas

O desejo de Heidi era voltar para seu país natal, sem abandonar suas queridas preguiças. Ela queria levar algumas para Munique, para continuar a pesquisa. A ideia era acostumá-las desde pequenas à dieta de cenouras, batatas e outros vegetais que pudessem ser encontrados facilmente na Alemanha. Mas como levá-las?

Já no começo dos anos 90, Bodanzky trabalhava para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e relatou ao gestor da época sobre o projeto de Heidi. Mas apenas a boa vontade da alemã não bastava para a operação: o presidente disse que a transferência seria impossível, por faltar uma instituição de pesquisa oficial que recebesse os animais no país europeu. A negativa foi reiterada em uma ocasião posterior, inclusive em troca de cartas e ofícios transportados por Jorge.

Até meados de 1998 e 1999, Bodanzky acreditava que não havia conteúdo suficiente para fazer um material mais extenso sobre Heidi. Pelo julgamento alheio, a história “não tinha pé nem cabeça” e por isso não despertava interesse, além do cineasta que a conhecia há uma década.

Somente David Meyer, marido da diretora Helena Solberg, ficou fascinado quando ouviu os relatos de Bodanzky. Ele sugeriu um documentário ao National Geographic, que topou o projeto. Jorge foi adiante, sondar Heidi sobre o assunto, mas recebeu uma notícia triste: descobriu que a alemã havia ficado muito doente e fora para a Alemanha se tratar.

Ouviu de um vizinho que ela tinha soltado os bichos no mato. “Foi quando eu pensei: ‘Ah, se ela soltou é porque não volta mais’”, diz. Ele estava certo. Heidi estava com câncer de estômago e fez uma operação no país natal. Acabou morrendo lá, longe de suas amadas preguiças e da Amazônia, onde viveu por mais de duas décadas.

A história permaneceu esquecida até o ano passado, quando uma documentarista suíça procurou Bodanzky para entrevistá-lo. O assunto era justamente Heidi.

No documentário de Mélanie Rounier, o jornalista Ron Arias, que entrevistou Heidi, diz que a química que sonhava ser bióloga era uma mulher muito solitária e que chegou, inclusive, a ter como vizinho um casal de conterrâneos alemães a 15 metros de distância.

Mas eles não se davam muito bem porque o homem trabalhava em uma empresa construtora de estradas, que tinha que limpar a vegetação para realizar o serviço, coisa que ela criticava muito. Os outros dois achavam que Mosbacher era louca.

Para Bodanzky, Heidi Mosbacher, assim como tantos personagens, representa um certo grau de ‘loucura’ lúcida recorrente nas pessoas que vão para a região e alimentam o “mistério amazônico”.

“Uns vão para procurar o El Dorado, vão fazer a Fordlândia, o Projeto Jari, Belo Monte. Quer dizer, é um espaço que ainda oferece o mistério, o imaginário. Talvez ainda seja o único lugar da Terra onde as coisas impossíveis ainda podem se realizar, ou pelo menos as pessoas acham isso”, frisa.

“Acho que a Heidi fugiu da civilização e criou a sua própria família em meio às preguiças. É uma loucura, até certo ponto, mas não muito diferente da fábrica de celulose de Daniel Ludwig, por exemplo. Creio que a Amazônia dá espaço para isso”.
O filme de Rounier, concluído em 2019, disponível abaixo, em francês e alemão, é “Heidi Mosbacher, au-delà d‘une vie”. “A coisa se inverteu, hoje ela sabe mais sobre a Heidi”, conclui Jorge.

*Roteiros da Amazônia é uma parceria entre o cineasta Jorge Bodanzky e a Amazônia Latitude. Confira todas as edições aqui. O texto foi publicado no site Amazônia Latitude em 14/8/2020
Foto: Jorge, Heidi e a preguiça Monalisa / arquivo pessoal

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Incêndios no Pantanal ameaçam maior refúgio de araras-azuis do Brasil


CONEXÃO PLANETA

 

Incêndios no Pantanal ameaçam maior refúgio de araras-azuis do Brasil



Incêndios no Pantanal ameaçam maior refúgio de araras-azuis do Brasil
Os incêndios no Pantanal que já entram na quarta semana, destruindo a vegetação da maior planície de água doce do mundo e matando seus animais, chegaram à Fazenda São Francisco do Perigara, no município de Barão do Melgaço, no Mato Grosso. O local é o maior refúgio natural de araras-azuis do país.

Na última sexta-feira (14/08), apesar das chamas estarem próximas à fazenda, relatos de pessoas que estavam no santuário traziam boas notícias: que as araras continuavam por lá.

Mas em post divulgado nas redes sociais neste domingo, acompanhado do vídeo abaixo, o Instituto Arara-Azul informou que, “… a área continua protegida, sem fogo. Mas, infelizmente, os relatos não são muito bons. Isso porque as aves, tanto as araras azuis quantos outros psitacídeos, que costumam ser contados em centenas, foram vistos em menor número. Com relação às araras azuis, foram apenas 30 indivíduos no dormitório. Antes disso, poucas vezes foram contadas menos de 100 – 150 araras”.

Incêndios no Pantanal ameaçam maior refúgio de araras-azuis do Brasil
Combate ao fogo no Pantanal
De acordo com a bióloga Luciana Ferreira, que trabalha no instituto e esteve no local, a fumaça, a falta de água e a secura do ambiente podem ter afetado as araras e impedido que a maioria delas se dirija ao dormitório.

“Torcemos para que a chuva chegue logo na região. E assim, diminua o perigo sobre essa área tão importante para todas as espécies que a utilizam há décadas para dormir, se alimentar, se proteger e se reproduzir!”, escreveu a equipe do Instituto Arara-Azul.

A arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) está ameaçada de extinção. Com 1 metro de comprimento, da ponta do bico até a ponta da cauda, ela é a maior espécie no mundo da família Psittacidae. Mas sem dúvida nenhuma, é sua plumagem de um azul cobalto intenso e o amarelo em volta dos olhos sua maior característica.

A espécie vive em grupo, em bandos de 10 a 30 indivíduos. Na região do Pantanal, 90% dos ninhos dessas aves são encontrados nas árvores de manduvi e são reutilizados de ano para ano.

Incêndios no Pantanal ameaçam maior refúgio de araras-azuis do Brasil
O Instituto Arara-Azul foi fundado há 30 anos pela bióloga Neiva Guedes, uma apaixonada pela espécie e uma referência mundial em conservação. Graças à sua determinação e do esforços do instituto, estudando a vida dessas aves, testando e produzindo ninhos artificiais, manejando ovos e filhotes e, acima de tudo, envolvendo a população e divulgando a importância de manter as araras livres na natureza -, a arara-azul, que ao final da década de 80 tinha uma população estimada em 1,5 mil indivíduos, hoje chega a 6,5 mil.

O número de queimadas nos primeiros dias de agosto já supera aquelas de julho inteiro no Pantanal do Mato Grosso. Ações integradas de equipes da Marinha, Exército, Força Aérea, Corpo de Bombeiros e brigadistas de organizações da sociedade civil não têm sido suficientes para controlar o fogo.

O Instituto Arara-Azul está promovendo uma campanha para arrecadar recursos com o objetivo de colaborar com as ações de proteção e prevenção contra os incêndios, e assim, proteger a área de dormitório das araras-azuis que ainda resta.
Para quem quiser ajudar, vale depositar qualquer valor na conta abaixo:

Banco Santander – 033
Agência 1313
Conta Corrente – 13000029-3
CNPJ: 05.910.537/0001-02


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Fotos: reprodução Facebook Instituto Arara-Azul
Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em