O K-159 é um dos muitos submarinos soviéticos que ainda estão presentes nas águas do Ártico – GETTY IMAGES
Por tradição, russos sempre levam uma quantidade ímpar de flores a
alguém vivo, e uma par a túmulos ou memoriais. Mas dia sim, dia não,
Raisa Lappa, de 83 anos, coloca três rosas ou gladíolas na placa em
homenagem a seu filho Sergei, como se ele não tivesse ido embora junto
com seu submarino numa trágica operação no oceano Ártico em 2003.
“Há momentos em que eu não estou normal, enlouqueço e parece que ele
está vivo, então levo um número ímpar de flores”, afirma ela. “Eles
deveriam resgatar a embarcação, para que as mães possam colocar os
restos mortais de seus filhos sob o chão, e possamos ter um pouco mais
de paz.”
Após 17 anos de promessas não cumpridas, Lappa pode finalmente
realizar seu desejo, embora isso seja por causa de preocupações do
governo com os restos mortais do capitão Sergei Lappa e seis membros de
sua tripulação.
Com um decreto publicado em março, o presidente Vladimir Putin deu
início a uma iniciativa para retirar dois submarinos nucleares
soviéticos e quatro compartimentos de reatores do fundo do mar,
reduzindo em 90% a quantidade de material radioativo no oceano Ártico.
O primeiro da lista é o K-159, onde está Lappa.
A mensagem, que antecede a presidência rotativa da Rússia no Conselho
do Ártico no próximo ano, aponta um país que não é apenas uma potência
comercial e militar proeminente no Ártico como também um gestor do meio
ambiente.
O K-159 fica próximo a Murmansk, no mar de Barents, a mais rica
região de bacalhau do mundo e também um importante habitat de hadoque,
caranguejo-rei vermelho, morsas, baleias, ursos polares e muitos outros
animais.
Ao mesmo tempo, a Rússia está à frente de outra “nuclearização” do
Ártico com embarcações e armamentos, e já causou dois acidentes.
Legado em decadência
Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética
construíram mais de 400 submarinos nucleares, um “serviço silencioso”
que deu aos adversários uma forma de retaliar, mesmo que suas
instalações de mísseis e bombardeiros estratégicos tivessem sido
destruídos em um primeiro ataque repentino.
O
custo de reflutuar submarinos afundados com material radioativo pode
chegar a centenas de milhões de dólares –
NUCELAR-SUBMARINE-DECOMMISSIONING.RU
A quase 100 km da fronteira com a Noruega, membro da Otan
(Organização do Tratado do Atlântico Norte), o porto ártico de Murmansk e
as bases militares vizinhas se tornaram o centro da marinha nuclear e
dos quebra-gelos da URSS, bem como de seu combustível altamente
radioativo.
Depois da queda da Cortina de Ferro, com o fim da URSS em 1989, as consequências da atividade vieram à tona.
Na baía de Andreyeva, por exemplo, onde 600 mil toneladas de água
tóxica vazaram para o mar de Barents de uma piscina de armazenamento
nuclear em 1982, o combustível irradiado de mais de 100 submarinos foi
mantido parcialmente em recipientes enferrujados a céu aberto.
Temendo contaminação, a Rússia e os países ocidentais, incluindo o
Reino Unido, iniciaram uma grande limpeza, gastando US$ 1,3 bilhão para
desativar e desmontar 197 submarinos nucleares soviéticos, descartar
baterias de estrôncio de mil faróis de navegação e começar a remover
combustível e resíduos da baía de Andreyeva e de três outros locais
costeiros perigosos.
Assim como em outros países, no entanto, o lixo nuclear soviético também era lançado no mar.
Um estudo de viabilidade de 2019 feito por um consórcio incluindo a
empresa britânica de segurança nuclear Nuvia encontrou 18 mil objetos
radioativos no oceano Ártico, entre eles 19 embarcações e 14 reatores.
Embora a radiação emitida pela maioria desses objetos tenha se
aproximado dos níveis mais baixos graças ao acúmulo de lodo, o estudo
descobriu que mil deles ainda têm níveis elevados de radiação gama
penetrante.
Em
2035, pode haver até 114 reatores nucleares no Ártico, relatou o
Barents Observer, incluindo a usina flutuante Akademik Lomonosov – GETTY
IMAGES
Do total, 90% estão concentrados em seis objetos que a estatal russa
Rosatom pretende reerguer nos próximos 12 anos, segundo Anatoly
Grigoriev, chefe de assistência técnica internacional da Rosatom: dois
submarinos nucleares e compartimentos de reator de três submarinos
nucleares e o quebra-gelo Lenin.
“Nós consideramos extremamente baixa a probabilidade de materiais
radioativos vazarem desses objetos, mas é um risco inaceitável para os
ecossistemas do Ártico”, disse Grigoriev em nota.
Nunca uma limpeza nuclear desse tipo foi realizada no mar. A
recuperação dos compartimentos do reator envolverá trabalhos de
salvamento em águas geladas que são seguras para tais operações apenas
durante três ou quatro meses por ano.
Os dois submarinos nucleares, que juntos contêm 1 milhão de curies de
radiação, ou cerca 25% do que foi liberado no primeiro mês do desastre
de Fukushima, no Japão, serão um desafio ainda maior.
Um deles é o K-27, outrora conhecido como o “peixe dourado” por causa
de seu alto custo. O submarino de ataque de 360 pés (118 m), projetado
para caçar outros submarinos, foi atormentado por problemas desde seu
lançamento em 1962 com seus reatores experimentais refrigerados a metal
líquido, um dos quais se rompeu seis anos depois e expôs nove
marinheiros a doses fatais de radiação.
Em 1981 e 1982, a marinha encheu o reator com asfalto e afundou-o a
leste da ilha Novaya Zemlya em apenas 108 pés (33 m) de água. Um
rebocador teve que bater na proa depois que um buraco aberto nos tanques
de lastro levou a afundar apenas a popa.
No
Mar de Barents, como em outras partes do Ártico, a pesca é muito ativa.
No entanto, eles estão muito próximos de submarinos nucleares em
decomposição no fundo do mar – GETTY IMAGES
O K-27 foi afundado após a instalação de algumas medidas de segurança
que devem manter os destroços seguros até 2032. Mas outro incidente é
mais alarmante. O K-159, um submarino de ataque de 350 pés (107 m) que
esteve em serviço de 1963 a 1989. O K-159 afundou sem nenhum aviso,
enviando 800 kg de combustível de urânio usado para o fundo do mar sob
áreas de pesca e rotas de transporte ao norte de Murmansk.
Thomas Nilsen, editor do jornal online The Barents Observer, descreve
os submarinos como um “Chernobyl em câmera lenta no fundo do mar”.
Ingar Amundsen, chefe da segurança nuclear internacional da
Autoridade Norueguesa de Radiação e Segurança Nuclear, concorda que é
uma questão de quando, e não se, os submarinos afundados contaminarão as
águas se forem deixados como estão.
“Eles contêm grande quantidade de combustível nuclear usado que com
certeza no futuro vazará para o meio ambiente, e sabemos por experiência
que apenas pequenas quantidades de contaminação no meio ambiente, ou
mesmo rumores, levariam a problemas e consequências econômicas para a
pesca. “
‘Agosto maldito’
Sergei Lappa nasceu em 1962 em Rubtsovsk, uma pequena cidade nas
montanhas Altai, perto da fronteira russa com o Cazaquistão. Embora
estivesse a milhares de quilômetros do oceano mais próximo, ele cultivou
o interesse pela navegação em um clube de construção naval local e,
depois da escola, foi aceito na academia de engenharia naval superior em
Sebastopol, na Crimeia.
Alto, atlético e um bom aluno, ele foi designado para o serviço de maior prestígio da marinha: a Frota de Submarinos do Norte.
Após o colapso da União Soviética, no entanto, os militares entraram
em um declínio que veio à tona para o mundo quando o submarino de ataque
Kursk afundou com 118 tripulantes a bordo em agosto de 2000.
Alguns submarinos soviéticos, como o K-159, semelhante a este da imagem, estão apodrecendo no fundo do mar – GETTY IMAGES
Nessa época, Lappa comandava o K-159, que enferrujava desde 1989 em
um píer na isolada cidade naval de Gremikha, apelidada de “ilha dos cães
voadores” por seus fortes ventos. Na manhã de 29 de agosto de 2003, a
esperada ordem chegou para rebocar o decrépito K-159, que havia sido
anexado a quatro pontões de 11 toneladas com cabos para mantê-lo
flutuando durante a operação, até uma base perto de Murmansk para
desmontagem. A operação seguiria, apesar de uma previsão de tempo com
bastante vento.
Com os reatores desligados, Lappa e sua tripulação de nove
engenheiros operaram o barco com uma lanterna. O submarino era rebocado
perto da ilha Kildin por volta da meia-noite e meia quando os cabos para
os pontões da proa quebraram em mar agitado, e meia hora depois foi
descoberta água invadindo o oitavo compartimento.
Enquanto o quartel-general lutava contra a decisão de usar um caro
helicóptero de resgate, a tripulação continuou tentando manter o
submarino flutuando. Às 02h45, Mikhail Gurov enviou uma última
transmissão de rádio: “Estamos inundando, faça alguma coisa!” Quando os
barcos de resgate do rebocador chegaram, o K-159 estava no fundo, perto
da ilha Kildin. Dos três marinheiros que conseguiram escapar, o único
sobrevivente foi o tenente-chefe Maxim Tsibulsky, cuja jaqueta de couro
se encheu de ar e o manteve na superfície.
Mais um submarino nuclear afundou durante o “maldito” mês de agosto,
como descreveram jornais russos, mas esse incidente causou pouco furor
em comparação com o Kursk. A Marinha prometeu aos parentes que tiraria o
K-159 do fundo do mar no ano seguinte, mas o plano foi adiado diversas
vezes.
Mesmo depois de 17 anos de deterioração e corrosão, os ossos da
tripulação provavelmente devem estar preservados no submarino, de acordo
com Lynne Bell, antropóloga forense da Universidade de Simon Fraser, no
Canadá.
Mas as famílias há muito perderam a esperança de recuperar os restos mortais deles.
“Para todos os parentes, seria um alívio se seus pais e maridos
fossem enterrados, e ficassem não apenas abandonados no fundo do mar em
um casco de aço”, diz Dmitry, filho de Gurov. “Mas ninguém acredita que
isso vai acontecer.”
A operação de reboque do K-159 foi afetada pelo mau tempo e o submarino acabou afundado – NUCELAR-SUBMARINE-DECOMMISSIONING.RU
A situação agora mudou, no entanto, à medida que o interesse da
Rússia renasce no Ártico e em seus portos soviéticos e cidades militares
em ruínas. Desde 2013, sete bases militares árticas e dois terminais de
navios-tanque foram construídos como parte da Rota do Mar do Norte, uma
rota mais curta para a China que Putin prometeu ter 80 milhões de
toneladas de tráfego até 2025.
O K-159 está localizado perto do fim da rota.
Redução de riscos
Rússia, Noruega e outros países cujos barcos de pesca navegam nas
abundantes águas do mar de Barents agora se encontram com uma espada de
Dâmocles pairando sobre suas cabeças.
Embora uma expedição russo-norueguesa de 2014 ao naufrágio K-159 que
examinou a água, o fundo do mar e os animais não tenha encontrado
radiação acima dos níveis de fundo (como o registrado em fontes
naturais), um especialista do Instituto Kurchatov de Moscou disse à
época que uma falha de contenção do reator “poderia acontecer dentro de
30 anos após o naufrágio na melhor das hipóteses e dentro de 10 anos na
pior das hipóteses”.
Se isso acontecer, liberaria césio-137 e estrôncio-90 radioativos, entre outros isótopos.
Por um lado, o vasto tamanho dos oceanos dilui rapidamente a
radiação, mas por outro mesmo níveis muito pequenos podem se concentrar
em animais no topo da cadeia alimentar por meio da “bioacumulação” — e
então ser ingeridos por humanos.
As consequências econômicas para a indústria pesqueira do mar de
Barents, que fornece a vasta maioria do bacalhau e da arinca para os
vendedores britânicos de fish and chips (peixe e batatas fritas), “podem
ser piores do que as consequências ambientais”, diz Hilde Elise Heldal,
cientista do Instituto de Pesquisa Marinha da Noruega.
Os
parentes dos que estavam a bordo do K-159 receberam poucas respostas
sobre como e quando o submarino poderia voltar a flutuar – GETTY IMAGES
Segundo seus estudos, se todo o material radioativo dos reatores do
K-159 fosse liberado em uma única “descarga de pulso”, aumentaria os
níveis de Césio-137 nos músculos do bacalhau no mar de Barents pelo
menos 100 vezes.
Isso ainda estaria abaixo dos limites estabelecidos pelo governo
norueguês após o acidente de
Chernobyl, mas pode ser o suficiente para
assustar os consumidores. Mais de 20 países continuam a proibir frutos
do mar japoneses, por exemplo, embora os estudos não tenham conseguido
encontrar concentrações perigosas de isótopos radioativos em peixes
predadores do Pacífico após o acidente na usina nuclear de Fukushima, em
2011. Qualquer proibição de pesca nos mares de Barents e Kara poderia
custar às economias russa e norueguesa o equivalente a US$ 140 milhões
por mês, de acordo com um estudo de viabilidade da Comissão Europeia
sobre o projeto de elevação.
Mas um acidente durante o içamento do submarino, por outro lado,
poderia sacudir o reator de repente, potencialmente misturando elementos
de combustível e iniciando uma reação em cadeia descontrolada e
explosão. Isso poderia aumentar os níveis de radiação em peixes em
níveis mil vezes acima do normal ou, se ocorresse na superfície,
irradiar para animais terrestres e humanos, aponta outro estudo
norueguês.
A Noruega seria forçada então a interromper a vendas de produtos do
Ártico, como peixes e carne de rena, por um ano ou mais. O estudo
estimou que poderia ser liberada mais radiação do que no incidente da
baía de Chazhma em 1985, quando uma reação em cadeia descontrolada
durante o reabastecimento de um submarino soviético perto de Vladivostok
matou 10 marinheiros.
Amundsen, da Autoridade Norueguesa de Radiação e Segurança Nuclear,
argumenta que o risco de tais operações com o K-159 ou o K-27 são baixos
e poderiam ser minimizado com um planejamento adequado, como ocorreu
durante a remoção do combustível na Baía de Andreyev.
“Nesse caso, não deixamos o problema para as gerações futuras
resolverem, quando o conhecimento de como lidar com esses resíduos
legados pode se tornar muito limitado.”
A segurança e a transparência da indústria nuclear da Rússia têm sido
frequentemente questionadas. Recentemente, as autoridades holandesas
concluíram que o iodo-131 radioativo detectado no norte da Europa em
junho tinha vindo da direção da Rússia ocidental, embora não houvesse
prova definitiva de que os radionuclídeos se originaram no país.
A instalação de reprocessamento Mayak, que recebeu o combustível
irradiado da Baía de Andreyev de trem, tem uma história conturbada que
remonta ao então pior desastre nuclear do mundo em 1957. A Rosatom
continua a negar as descobertas de especialistas internacionais de que a
instalação era a fonte de uma nuvem radioativa de rutênio-106
registrado na Europa em 2017.
Enquanto o K-159 e o K-27 precisam ser içados, Rashid Alimov, do
Greenpeace na Rússia, tem suas reservas sobre os planos. “Estamos
preocupados com o andamento dessa obra, a participação da população e o
transporte do combustível radioativo até Mayak.”
O
desmantelamento de submarinos nucleares da era soviética tem sido
lento, enquanto o ritmo de construção de novos navios nucleares acelera –
GETTY IMAGES
Missão personalizada
Içar um submarino é um feito raro de engenharia. Os Estados Unidos
gastaram US$ 800 milhões em uma tentativa de içar outro submarino
soviético, o K-129 movido a diesel que transportava vários mísseis
nucleares, de 5.000 m no oceano Pacífico. No final, eles conseguiram
apenas trazer um terço do submarino para a superfície, deixando a CIA
com pouca informação útil disponível.
Esse foi a operação do tipo mais profunda da história. A mais pesada
foi que envolve o Kursk. Para trazer o submarino de mísseis de 17 mil
toneladas de 108 m abaixo do mar de Barents, as empresas holandesas
Mammoet e Smit International instalaram 26 macacos de elevação
hidraulicamente amortecidos em uma barcaça gigante e fizeram 26 furos no
casco de aço revestido de borracha do submarino com um jato de água
operado por mergulhadores.
Em 8 de outubro de 2001, correndo para vencer a temporada de
tempestades de inverno após quatro meses de trabalho estressante e
diversos atrasos, garras de aço instaladas em 26 buracos levantaram o
Kursk do fundo do mar em 14 horas. Depois, a barcaça foi rebocada para
um dique seco em Murmansk.
Com menos de 5 mil toneladas, o K-159 é menor do que o Kursk, mas
mesmo antes de afundar seu casco externo estava “fraco como folha de
alumínio”. Desde então, foi cercado em lodo de 17 anos. Um buraco na
proa indicava que deveria ser descartada a ideia de enchê-lo de ar e
erguê-lo com balões, como foi sugerido à época.
Em uma conferência do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento
em dezembro, um representante da Rosatom disse que não havia nenhum
navio no mundo capaz de içá-lo, e por isso um navio de salvamento
especial teria que ser construído.
Isso aumentará o custo estimado de US$ 330 milhões para resgatar os
seis objetos mais radioativos. Os doadores estão discutindo o pedido da
Rússia para ajudar a financiar o projeto, disse Balthasar Lindauer,
diretor de segurança nuclear do banco.
O dia de 20 de agosto de 2020 marcou o 20º aniversário do acidente do submarino nuclear Kursk – GETTY IMAGES
“Há consenso de que algo precisa ser feito lá”, diz ele.
Qualquer embarcação customizada provavelmente precisaria de diversas
tecnologias especializadas, como propulsores de proa e popa, para
mantê-la posicionada com precisão sobre os destroços.
Em agosto, Grigoriev, chefe de assistência técnica internacional da
Rosatom, disse a um site financiado pela empresa que estudavam um plano
que envolveria um par de barcaças equipadas com macacos de cabos
hidráulicos e presas a ancoradouros em alto mar. Em vez de pinças de aço
como as inseridas nos orifícios do submarino Kursk, agora pinças curvas
gigantes agarrariam o casco inteiro e o levantariam entre as barcaças.
Uma estrutura parcialmente submersível seria posicionada embaixo e
trazida à superfície junto com o submarino. O K-27 e o K-159 podem ser
recuperados dessa forma, disse Grigoriev.
Uma das três firmas de engenharia trabalhando em propostas para a
Rosatom é a agência de design militar Malachite, que elaborou um projeto
para elevar o K-159 em 2007 que “nunca foi realizado por falta de
dinheiro”, de acordo com seu designer-chefe.
Pelo
menos mais oito submarinos nucleares serão adicionados à Frota do
Norte, enquanto os restos da frota nuclear soviética estão no fundo do
mar – GETTY IMAGES
Este ano, a agência começou a atualizar este plano, disse um
funcionário ao BBC Future Planet no saguão da sede de Malachite em São
Petersburgo. Muitas questões permanecem, no entanto. “Em que condições
está o casco? Quanta força pode aguentar? Quanto lodo foi acumulado?
Precisamos pesquisar as condições lá “, diz o funcionário, pouco antes
que o chefe da segurança chegasse para interromper a entrevista.
Paradoxo nuclear
Remover seis objetos radioativos se encaixa com a imagem que Putin
tem construído como defensor do frágil meio-ambiente do Ártico. Em 2017,
ele inspecionou os resultados de uma operação para remover 42 mil
toneladas de sucata do arquipélago da Terra de Francisco José, como
parte de uma grande faxina no Ártico.
Ele falou sobre preservação ambiental em uma conferência anual para
as nações do Ártico. E no mesmo dia em março de 2020 em que emitiu seu
projeto de decreto sobre os objetos afundados, Putin assinou políticas
para o Ártico que listam “proteger o meio ambiente ártico e as terras
nativas e a subsistência tradicional dos povos indígenas” como 1 dos 6
interesses nacionais no região.
Mas enquanto busca um Ártico “limpo”, o Kremlin também impulsiona o
desenvolvimento da exploração de óleo e gás na região, que respondem
pela maioria do transporte na Rota do Mar do Norte, que passa pelo
Estreito de Bering.
Após 17 anos, Vladimir Putin lançou uma iniciativa para resgatar dois submarinos nucleares soviéticos – GETTY IMAGES
A estatal Gazprom construiu um dos dois polos de petróleo e gás na
península de Yamal e, neste ano, o governo reduziu os impostos sobre os
novos projetos de gás natural liquefeito do Ártico para 0% para
aproveitar alguns dos trilhões de dólares de combustível fóssil e
riqueza mineral localizados na região.
E se Putin limpa o legado nuclear soviético no extremo norte, ele
próprio está construindo seu legado nuclear. Além de novos quebra-gelos
nucleares, a única usina nuclear flutuante do mundo em 2019 tornou
novamente o Ártico as águas mais nucleares do planeta.
Enquanto isso, a Frota do Norte está construindo pelo menos oito
submarinos e tem planos para construir vários outros, bem como oito
destruidores de mísseis e um porta-aviões, todos eles movidos a energia
nuclear. Também está testando um drone subaquatico com propulsão nuclear
e um míssil de cruzeiro. No total, poderia haver até 114 reatores
nucleares em operação no Ártico até 2035, quase o dobro de hoje, apontou
um estudo de 2019 do site jornalístico Barents Observer.
Essa expansão não se deu sem intercorrências. Em julho de 2019, um
incêndio em um submersível nuclear perto de Murmansk quase causou uma
“catástrofe em escala global”, disse um oficial no funeral dos 14
marinheiros mortos.
No mês seguinte, um “sistema de propulsão reativa de combustível
líquido” explodiu durante um teste em uma plataforma flutuante no Mar
Branco, matando dois dos envolvidos e aumentando brevemente os níveis de
radiação na cidade vizinha de Severodvinsk.
“Hoje há cada vez mais políticos na Noruega e na Europa que pensam
que é um paradoxo realmente grande que a comunidade internacional esteja
dando ajuda para proteger o legado da Guerra Fria, enquanto parece que a
Rússia está dando prioridade à construção de uma nova Guerra Fria”,
afirmou Nilsen, do The Barents Observer
Dessa forma, a atual limpeza nuclear a passos lentos pode ser a maior
de seu tipo na história, mas pode acabar sendo apenas um prelúdio do
que será necessário para lidar com a próxima onda de energia nuclear no
Ártico.
Ainda não se sabe quantos animais foram ou podem ser afetados pelo fogo que avança pelo Pantanal – EPA
O Pantanal está enfrentando sua pior crise das últimas décadas. Sob
uma seca severa, o bioma sofre com queimadas provocadas pelo homem e já
teve cerca de 15% de sua área devastada pelas chamas, segundo dados do
Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais
(Prevfogo).
Mesmo assim, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) diminuiu
o ritmo das operações de fiscalização no Mato Grosso do Sul em 2020.
A queda se reflete nas multas aplicadas: autuações relacionadas à
vegetação (como desmatamento e queimadas ilegais) caíram 22% em 2020, em
comparação com o mesmo período do ano passado.
De 1º de janeiro de 2020 até a segunda-feira (14/09), o Ibama aplicou
50 multas contra infratores do Mato Grosso do Sul, por violações
envolvendo a vegetação. No mesmo período de 2019, foram registrados 64
autos de infração. A maior parte (65%) do bioma do Pantanal fica no
território sul-mato-grossense.
O restante da área do bioma (cerca de 35%) está no Estado do Mato
Grosso. Ali, a queda nas multas foi ainda maior: em 2020, foram 173
infrações relacionadas à flora, ante 361 em 2019. Uma redução de 52%.
Juntando os dados das infrações nos dois Estados que abrigam o Pantanal,
a queda é 48%.
Dados consolidados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(Inpe), divulgados na segunda-feira (14), mostram que os incêndios na
região do Pantanal cresceram 210% em 2020, em comparação com o mesmo
período do ano passado. A região registrou 14.489 focos de calor este
ano, contra 4.660 em 2019.
O fogo já destruiu uma área de 2,3 milhões de hectares no Pantanal —
pouco mais que o território do Estado de Sergipe, ou quase quatro vezes a
área do Distrito Federal. Os números são do Prevfogo.
O fogo já destruiu uma área de 2,3 milhões de hectares no Pantanal — pouco mais que o território do Estado de Sergipe – EPA
O Pantanal é a maior área úmida continental do mundo, e é também lar
de uma imensa biodiversidade. São cerca de 2 mil espécies de plantas;
582 espécies de aves; 132 de mamíferos; 113 de répteis e 41 de anfíbios.
Imagens recentes da região mostram como a destruição provocada pelo
fogo coloca em risco estas formas de vida.
Menos fiscais, mais burocracia
Segundo servidores do Ibama ouvidos pela BBC News Brasil, há vários
fatores por detrás da queda no número de autuações do órgão: desde a
redução no contingente de fiscais até a criação de novas rotinas
administrativas.
“O número de autuações lavradas é um dado importante que pode
traduzir o esforço do governo em punir realmente aqueles que cometem
crimes ambientais. Quanto menor a presença da fiscalização em campo,
fazendo o seu trabalho de responsabilizar os infratores, maior a
sensação de impunidade”, disse um servidor do órgão à BBC News Brasil,
sob condição de anonimato.
O Pantanal é a maior área úmida continental do mundo, e é também lar de uma imensa biodiversidade – EPA
Segundo ele, a redução de efetivo do Ibama é uma das principais causas da piora na fiscalização.
“O Ibama perdeu metade do seu efetivo de fiscalização nos últimos
anos. Atualmente são menos de 600 agentes de fiscalização para atuar em
todo o território nacional, incluindo a Amazônia Azul (a zona econômica
exclusiva do Brasil no Oceano Atlântico). Para se ter uma ideia do quão
irrisório é isso, só Polícia Militar do Estado de São Paulo tem hoje
quase 83 mil policiais na ativa”, compara o servidor.
“Outro fator que prejudicou bastante o andamento, não só das ações de
fiscalização ambiental, mas também o próprio planejamento e a execução
das ações de prevenção e combate aos incêndios florestais no país, foi
decisão do governo pela nomeação e ocupação dos cargos de gestão do
Ibama por pessoas sem qualquer experiência na área”, disse ele à BBC
News Brasil, por meio de mensagens de texto.
“Hoje no Ibama temos PM reformado da Rota responsável por todas as
ações de prevenção e combate aos incêndios florestais em áreas da união.
O resultado disso foi o atraso de três meses na contratação dos
brigadistas que não tiveram o tempo necessário para fazer os trabalhos
de prevenção”, diz o servidor. Ele se refere ao coronel da PM de São
Paulo Olímpio Ferreira Magalhães, nomeado em abril deste ano para o
cargo de diretor de proteção ambiental do Ibama.
Segundo um ex-dirigente do Ibama ouvido pela BBC News, há também
outros fatores que estão contribuindo para minar a capacidade de
fiscalização do órgão. Entre eles, um novo aplicativo usado pelos
fiscais e a necessidade de realizar reuniões prévias com as pessoas
multadas.
“Em outubro do ano passado, o Ibama criou um novo sistema de
autuação. Com a desculpa de estar modernizando a fiscalização, criaram
um novo app (aplicativo) para as autuações, e criaram mais uma instância
no processo do auto de infração, que são as audiências de conciliação.
Ao invés de aumentar a quantidade de analistas para julgar os autos de
infração e resolver mais rápido (os casos), que era o gargalo do Ibama,
eles criaram mais uma instância”, diz.
O governo federal reconheceu oficialmente nesta segunda-feira (14) a situação de emergência – REUTERS
Criadas no ano passado, as audiências de conciliação não saíram do
papel. Dados obtidos pela organização Observatório do Clima (OC) mostram
que, até meados de agosto deste ano, apenas cinco audiências deste tipo
foram realizadas em todo o país.
“E em não sendo feitas (as audiências), os autos de infração não
estão subindo (para a fase de cobrança). Então o cara faz o auto, mas o
processo não anda (…). O sistema de autuação do Ibama estava, até a
última informação que eu tenho, paralisado. Travado nas audiências de
conciliação e travado em um aplicativo cheio de bugs (erros) e de
problemas”, diz o ex-dirigente.
Bolsonaro e Salles deslegitimam fiscais, diz ex-chefe do Ibama
Suely Araújo é especialista sênior em políticas públicas do
Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama. Segundo ela, as
operações do instituto foram atrapalhadas por vários fatores — inclusive
a pandemia do novo coronavírus, que reduziu ainda mais o contingente de
fiscais aptos a irem a campo.
“Acredito que a redução do número de autuações é gerada por um
conjunto de problemas, associados a equívocos graves do atual governo”,
diz ela.
Incêndios na região do Pantanal cresceram 210% em 2020, em comparação com o mesmo período do ano passado – EPA
“Diretor e coordenadores sem experiência com fiscalização ambiental
em escala nacional e em condições especiais como a Amazônia; troca de
coordenadores exatamente porque seu trabalho estava tendo resultado;
interferência dos militares na organização das operações no âmbito da
Operação Verde Brasil 2; inobservância do planejamento de operações
realizado com a participação dos líderes da fiscalização, como ocorria
historicamente”, enumera a especialista.
Além de tudo isso, diz Suely, o trabalho dos fiscais passou a ser
questionado em discursos do próprio presidente Jair Bolsonaro; do
ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente); e de outras autoridades do
governo, o que cria um incentivo a mais para quem quer cometer crimes
ambientais.
Desde a campanha eleitoral de 2018, o presidente da República tem
defendido a ideia de que agentes do Ibama, do ICMBio e de outros órgãos
públicos agem com rigor excessivo nas ações de fiscalização, cometendo
injustiças contra agricultores, garimpeiros e madeireiros, entre outros.
Em abril de 2019, o presidente da república desautorizou o trabalho
de fiscais e proibiu a queima de veículos usados no corte ilegal de
madeira em Rondônia — a medida é autorizada pela lei ambiental.
O que diz o governo?
A reportagem da BBC News Brasil procurou o Ibama e o Ministério do
Meio Ambiente para comentários sobre a queda no número de multas
aplicadas nos dois Estados, mas não obteve resposta até o fechamento
deste texto.
Recentemente, Ricardo Salles e Bolsonaro visitaram a região. Em seu
perfil no Twitter, o ministro destacou o fato de que Ibama e ICMBio
dispõe, desde agosto, de aeronaves extras para ajudar no combate aos
incêndios.
Nos últimos dias, tanto Salles quanto Bolsonaro reconheceram a
gravidade das queimadas. Ambos disseram, porém, que a ausência da queima
planejada nos últimos anos, usada para abrir pastagens, contribuiu para
o aumento dos incêndios.
“Tem muito fogo lá realmente, no Pantanal. É verdade. E por que tomou
essa proporção? É importante a sociedade entender. Existe uma medida
chamada fogo frio, ou contra-fogo. Que é você colocar fogo
propositalmente no período que não é o período seco, que é o período de
chuvas. Você queima de maneira controlada determinadas regiões para
diminuir a quantidade de massa orgânica”, disse Salles em entrevista ao
deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).
“Porque quando vem a queimada no período seco realmente, como agora,
se você tiver menos massa orgânica, o fogo se propaga menos. O que
aconteceu com o Pantanal? Eles estão há dois anos sem fazer o fogo frio,
que eles chamam lá. Que é esse fogo preventivo. Por questões
ideológicas, não se permitiu que eles fizessem o manejo adequado do fogo
no momento correto. Então juntou muito material orgânico”, disse
Salles.
O ministro também afirmou que há uma “perseguição” à criação de gado
solto no Pantanal — ao comer o capim, os animais ajudariam a diminuir a
quantidade de matéria orgânica disponível, ajudando portanto a controlar
as queimadas.
Ação criminosa
Nos últimos meses, surgiram indícios de que as queimadas que atingem o
Pantanal são, em sua maioria, provocadas pela ação humana.
É o que indicam, por exemplo, perícias conduzidas pelo Centro
Integrado Multiagências de Coordenação Operacional (Ciman), um órgão do
governo do Estado do Mato Grosso. Os levantamentos usam imagens de
satélite para tentar identificar a origem dos incêndios.
No caso do incêndio na Reserva Particular do Patrimônio Natural Sesc
Pantanal, em Barão de Melgaço (MT), por exemplo, a fiscalização
descobriu se tratar de uma queimada intencional, com o objetivo de abrir
pasto para a criação de gado.
Na manhã desta segunda-feira (14), a Polícia Federal deflagrou a
operação Matáá, com o objetivo de identificar os responsáveis pelas
queimadas em áreas de preservação na região da Serra Amolar, no Pantanal
sul-mato-grossense.
Segundo a Polícia Federal, um incêndio que destruiu 25 mil hectares
na região teria sido intencional — o objetivo, novamente, seria abrir
espaço para pastagens.
A operação da PF cumpriu oito mandados de busca e apreensão no
município de Corumbá (MS) e na capital, Campo Grande. Um fazendeiro
também foi levado para prestar depoimento.
Situação de emergência
Diante da piora na situação no Mato Grosso do Sul, o governo federal
reconheceu oficialmente na segunda-feira (14) a situação de emergência
no Estado. A medida permite que a União faça repasses adicionais de
recursos para o governo do Estado, de modo a reforçar o combate ao fogo.
Um
incêndio que destruiu 25 mil hectares na região teria sido intencional —
o objetivo seria abrir espaço para pastagem – REUTERS
Além disso, equipes das Forças Armadas estão na região desde o fim de julho para ajudar no combate aos incêndios.
O Ministério da Defesa informou que há atualmente 14 aeronaves, entre
helicópteros e aviões, atuando no combate ao fogo no Pantanal.
A pasta afirma ainda que também são utilizadas diariamente 40 viaturas e duas embarcações para enfrentar os incêndios.
“Em média, estão engajados nas atividades 200 militares e 230 agentes
de órgãos como Corpo de Bombeiros Militar de MT e MS, Secretaria de
Estado de Segurança Pública, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto Chico Mendes de
Conservação da Biodiversidade (ICMBio)”, disse o Ministério da Defesa em
nota.
As linhas de transmissão, que devem ser instaladas pela multinacional francesa Engie, na Área de Proteção Ambiental (APA) da Escarpa Devoniana,
nos Campos Gerais do Paraná, cruzariam um total de 25 municípios, em
uma extensão de mil quilômetros, passando por mais de duas mil
propriedades rurais. As torres teriam mais de 60 metros de altura,
dimensões que ainda não existem no Brasil para as estruturas.
Um dos trechos vai de Ponta Grossa, nos Campos Gerais, até Campo
Largo, na Região Metropolitana de Curitiba, passando, exatamente, na
área da Escarpa Devoniana – uma Unidade de Conservação
de uso sustentável (quando a conservação deve conviver em harmonia com
atividades produtivas) rica em tesouros arqueológicos, fauna e flora – e
que é protegida por lei.
A Escarpa Devoniana é chamada dessa forma devido às rochas de
sustentação, que possuem idade Devoniana: 400 milhões de anos. O próprio
Estudo de Impactos Ambientais elaborado pela Engie aponta 22 pontos de impacto provocados pelo empreendimento, sendo que só quatro são considerados positivos.
Para ajudar, o processo que debateu o tema em reunião do final do ano
passado no Conselho Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico do
Paraná (Cepha) feriu o processo democrático de debate, transparência e
troca de ideias e informações. Os conselheiros que participaram da
reunião sequer souberam com antecedência que, naquele dia, seria votado o
projeto das linhas de transmissão. Não houve qualquer informativo ou
anúncio anterior sobre o tema.
A imprensa foi impedida de permanecer na sala onde estava sendo feita
a reunião. Para piorar, a Engie não apresentou aos membros do conselho
qualquer estudo que indicasse alternativas diferentes e menos danosas ao
ambiente natural para instalação do traçado das linhas de transmissão.
Os Campos Naturais, ecossistema associado o bioma Mata Atlântica, apesar de em extinção, ainda predominam na região associado a porções de Floresta com Araucária.
Ao fim, depois de quatro horas de reunião e repetidos pedidos de
integrantes do conselho sobre a necessidade de terem mais tempo para
acordarem com um parecer sobre a aprovação ou não do Conselho para o
pedido, o secretário da Comunicação e Cultura.
Do Paraná, Hudson José decretou a aprovação por parte do Conselho
para a intenção de instalação das linhas de transmissão sob a Escarpa
Devoniana. Parte dos membros do grupo revelou-se completamente perdida
em relação a decisão final que havia sido tomada após horas de
conversas.
Diante deste cenário, o geógrafo e pesquisador Henrique Pontes,
integrante do Grupo Universitário de Pesquisas Espeleológicas (GUPE), da
Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), relata os problemas
relacionados ao Estudo de Impactos Ambientais e diz como as linhas de
transmissão podem afetar uma área histórica de preservação ambiental e
arqueológica.
A sociedade civil foi ouvida de alguma maneira nesse trâmite das instalações das linhas de transmissão da Engie?
Tive a oportunidade de participar de audiência pública em Ponta
Grossa. É sempre importante destacar que essas audiências são feitas de
maneira engessada, pela própria forma de organização. Gasta-se muito
tempo com os empreendedores, os relacionados e os interessados ao
empreendimento falando.
A abertura de debates para a comunidade acaba sendo extremamente
escassa. E, ainda, geralmente quando você tem um pouco de tempo para
debate com a comunidade, isso não é feito no formato ‘palavra aberta’.
São perguntas feitas por escrito e isso acaba deixando a desejar com
relação a abertura para a participação popular. Foram realizadas duas
audiências públicas na cidade, mas sempre com esses problemas que acabam
afetando diretamente a participação civil na discussão.
Por que essas linhas de transmissão são problemáticas para a Escarpa Devoniana? Bens tombados historicamente correm risco?
Primeiro, é importante deixar claro que esse não é um empreendimento
sem nenhum retorno para a sociedade. Ele tem sua importância por ser uma
obra de infraestrutura. Em nenhum momento se questiona a importância do
empreendimento. Contudo, o que se questiona é o processo de
licenciamento: como foram feitos os estudos e o que eles apresentam.
Esses estudos, por exemplo, são insuficientes com relação ao patrimônio
espeleológico da região (estudos de cavernas e cavidades subterrâneas),
que é um bem natural e cultural da Escarpa Devoniana.
Não existem análises detalhadas sobre as cavernas do entorno da área
onde vão passar as linhas de transmissão. Isso fragiliza o processo de
licenciamento ambiental e abre questionamento da efetiva análise dos
impactos que esse empreendimento possa causar. Outro aspecto relacionado
ao patrimônio espeleológico é o patrimônio
arqueológico. Nós temos muitos sítios com pinturas rupestres, com
artefatos líticos, como pontas de flecha e cerâmicas nessa área por onde
a linha vai passar na Escarpa Devoniana.
Os estudos de licenciamento ambiental
também deixam a desejar sobre essa área. Até onde tive acesso aos
documentos que estão no antigo IAP (Instituto Ambiental do Paraná) –
atual Instituto Água e Terra (IAT) – ainda faltam muitos estudos
relacionados a essa área de conhecimento. Outro aspecto importante é que
as linhas vão cortar a área de tombamento da Escarpa Devoniana.
Nós sabemos que há alguns anos o Conselho Estadual de Patrimônio
Histórico e Artístico do Paraná (Cepha) foi desestruturado e quem deve
avaliar esses empreendimentos na área de tombamento é o próprio
Conselho. Isso acaba mostrando outra fragilidade que é da própria
estrutura do Estado, que se mostra prejudicial para a avaliação desse
empreendimento.
É possível dimensionar o tamanho desse impacto?
A linha gera impacto grande por conta da área ocupada pelo
empreendimento, que é linear. Contudo, a instalação em si não é um
impacto tão severo. São pontos específicos que serão alterados para a
construção das torres. Mas se você tem um estudo impacto ambiental
fragilizado, mesmo que o impacto seja pontual, se você não tem uma
avaliação correta da área que está sendo implantada o empreendimento
pode gerar um impacto grande. Esse é o grande “X” da questão desse
empreendimento.
Quais os bens históricos e naturais que essa região da Escarpa abriga e que merecem maior cuidado?
As cavidades subterrâneas e os sítios arqueológicos. Mas, é claro,
também, que nós temos uma variedade de ambientes dentro dessa área que é
a APA da Escarpa Devoniana, que constituiu um patrimônio natural
cênico, com um valor de beleza de paisagem, de apreciação da paisagem,
muito grande.
A partir do momento que você tem um sítio natural, com uma cachoeira,
por exemplo, e você implanta uma linha de transmissão que passa próximo
desse sítio ou no sítio natural isso pode modificar a dinâmica desse
atrativo cênico. Isso também é um ponto a ser avaliado por conta do
potencial turístico que a APA da Escarpa Devoniana oferece. Desconheço
se o estudo de impacto ambiental avaliou se a linha vai afetar áreas de
visitação turística. Isso pode ser um grande problema em relação a esse
empreendimento.
Como estão os trâmites para que essa instalação seja efetivada?
Por ser um empreendimento muito grande que envolve, pelo menos, duas
regiões do Paraná, é provável que será implantada. Agora, a forma como
esse assunto vem sendo conduzido é que nós questionamos. Se vai seguir
os ritos, se vai escutar mais a sociedade civil organizada ou se vai
fazer um “tratoraço” e aprovar do jeito que for é o que esperamos saber.
Essa é nossa preocupação diante desse empreendimento. Nós, do GUPE,
encaminhamos ao Ministério Público Estadual orientações em relação ao
Estudos de Impactos Ambientais, sobre a falta de estudos relacionados à
cavidades subterrâneas e patrimônio arqueológico. Nossa preocupação é
para que sejam cumpridas etapas legais do empreendimento.
*Este artigo foi publicado originalmente no jornal online e
gratuito do Observatório de Justiça e Conservação. Para acessar as
demais reportagens clique aqui.
O
Observatório de Justiça e Conservação (OJC) é uma iniciativa
apartidária e colaborativa que trabalha fiscalizando ações e inações do
poder público no que se refere à prática da corrupção e de incoerências
legais em assuntos relativos à conservação da biodiversidade,
prioritariamente no Sul do Brasil, dentre os quais se destacam, a
Floresta com Araucária
Não é de hoje que o Google investe em fontes limpas
de energia e tem se comprometido com metas para se tornar mais
sustentável. Em setembro do ano passado, a empresa anunciou um investimento bilionário em compra e financiamento de novos projetos de energia renovável.
O aporte total era US$ 2 bilhões e incluía compras de longo prazo e
financiamento de iniciativas, como a construção de fazendas solares no
Texas até a instalação de turbinas eólicas na Suécia.
Esta semana, Sundar Pichai, CEO do Google, veio à público anunciar novas ações. O executivo, nascido e criado na Índia, citou os extremos climáticos enfrentados em seu país natal e também, na Califórnia, sede da companhia, Austrália e Brasil.
“Há alguns anos, uma enchente devastou Chennai, onde cresci. Ver as
imagens da cidade, que sofreu uma seca extrema por tantos anos da minha
vida, coberta pelas águas das enchentes, realmente fez com que os
impactos das mudanças climáticas parecessem muito mais próximos de casa.
Na semana passada, muitos de nós acordamos com o céu laranja no norte da Califórnia, enquanto os incêndios florestais
continuam a devastar na costa oeste. Eu sei que outras pessoas na
Austrália e no Brasil passaram recentemente por eventos semelhantes e,
infelizmente, eles não serão os últimos”, escreveu Pichai. “A ciência é clara: o mundo deve agir agora se quiser evitar as piores consequências das mudanças climáticas”.
Em seguida, o presidente do Google destacou quais são os próximos passos a serem adotados pela companhia:
– Eliminação de todo o “legado de carbono” (incluindo emissões
operacionais antes da empresa ser carbono neutra em 2007) por meio da
compra de compensações de carbono de alta qualidade;
– Consumir apenas energia de fontes renováveis, em todos os braços do negócio, a partir de 2030.
“Somos a primeira grande empresa a assumir o compromisso de operar
com energia livre de carbono 24 horas por dia, sete dias por semana, em
todos os nossos centros de dados e campi em todo o mundo”, afirmou
Pichai.
Além disso, a multinacional irá expandir o uso da ferramenta Environmental Insights Explorer para
mais 3 mil cidades. Com ela, administradores conseguem rastrear e
reduzir emissões de carbono das áreas de construção civil e transporte e
maximizar o uso de energias renováveis.
Por último, o empresa irá lançar um desafio, na Europa, o Google.org
Impact Challenge, que premiará com 10 milhões de euros soluções e
iniciativas na área de sustentabilidade.
Jornalista,
já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo
da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e
2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras,
entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta
Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas,
energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em
Londres, vive agora em Washington D.C.
Segundo governo de Mato Grosso, perícias indicam que queimadas não têm causas naturais; polícia busca responsáveis
O governo de Mato Grosso informou que cinco perícias realizadas no Pantanal apontam ação humana como causa das queimadas na região.
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que
os incêndios aumentam mais de 220% este ano. O total de focos
registrados este ano é superior a 7 mil, resultado recorde para a área.
Agora, a Delegacia de Meio Ambiente (Dema) trabalha para chegar
aos responsáveis pelos incêndios. A previsão inicial é de que
o inquérito seja concluído em 30 dias, mas pode haver pedido de mais
tempo. Segundo a delegada Alessandra Saturnino de Souza Cozzolino, ainda
não é possível concluir se as queimadas foram propositais.
“Podemos ter outro crime conectado, como é o caso do possível
desmatamento que antecedeu o incêndio, eventualmente provocado pelo
homem. Pode ter sido intencional, ou pode ter sido causado por uma
situação involuntária”, afirma Cozzolino. Ela ressalta que o trabalho de
é altamente capacitado para atuar na emergência ambiental e na
identificação das causas e origens do fogo.
A geógrafa Ane Alencar, diretora de ciências do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) afirma
que os incêndios que estão ocorrendo no Pantanal e no resto do Brasil
são muito preocupantes. “A gente está vendo um aumento alarmante no
número de de focos de fogo.”
Ela explica que as queimadas dependem de três elementos: material
combustível, condições climáticas e fonte de ignição que dê início ao
fogo. No Pantanal, ela considera que dois elementos estão contribuindo
para a piora do cenário. Um deles é o clima seco, provavelmente ligado
ao aquecimento das águas do Atlântico.
Um fogo iniciado em um campo do Pantanal, se você não acabar com ele em uma hora, ele vai se espalhar de uma forma muito voraz.
“Esse fenômeno acaba impactando a quantidade de água que passa pela
Amazônia. Quanto menos água entra no sistema vindo do Atlântico, menos a
região do sudoeste do Amazônia, indo também para o Pantanal, recebe
água. Aconteceu em 2005 e, quando você olha os dados de 2005, foi o ano
que mais queimou. Este ano estamos batendo esse recorde.”
A
dead alligator is seen at the wetland of Pantanal at the Transpantaneira park road at the Mato Grosso state, Brazil, on September
12, 2020. – Pantanal is suffering its worst fires in more than 47
years, destroying vast areas of vegetation and causing death of animals
caught in the fire or smoke. (Photo by MAURO PIMENTEL / AFP)
A pesquisadora, no entanto, afirma que o efeito climático não explica
sozinho o desastre atual. “É importante a gente entender que, mesmo o
Pantanal sendo um bioma onde o fogo faz parte do bioma, ele não ocorre
naturalmente nessa época do ano. O aumento das fontes de ignição, esse
fogo sendo iniciado pelo ser humano, é uma coisa muito visível no
Pantanal e em outras regiões do Brasil.”
Fundamentalmente, as pessoas têm que parar de queimar.
Segundo ela, as características do bioma exigem combate imediato das
queimadas. “Se não houver fonte de ignição, o fogo não acontece. É
justamente neste ponto que é importante frisar o papel das autoridades
em coibir o uso do fogo na região, principalmente em um ano muito seco
(…) Um fogo iniciado em um campo do Pantanal, se você não acabar com ele
em uma hora, ele vai se espalhar de uma forma muito voraz.”
As consequências de queimadas extensas e frequentes na região podem
ser irreversíveis. “O intervalo natural de fogo não é a cada ano e se a
gente começar a ter queimadas no nível que a gente teve ano passado, que
estão ampliando este ano, o Pantanal vai demorar mais se recuperar e
isso vai deixando o bioma mais inflamável. Fundamentalmente, as pessoas
têm que parar de queimar.”
A pena para quem for condenado pelo crime varia de dois a 4 anos. Há
possibilidade também de multas que variam R$ 1 mil a R$ 7,5 mil por
hectare, com teto de R$ 50 milhões. Podem ser responsabilizadas tanto
pessoas físicas quanto jurídicas.
Segundo as perícias já realizadas no Pantanal, foram identificados
focos a partir de queima intencional para criação de pastos, incêndios
causados por acidentes na rodovia, problemas técnicos em máquinas
agrícolas e fogueiras usadas para extração de mel silvestre.
Atenção: esta reportagem contém imagens que podem ser consideradas perturbadoras.
O cenário do Pantanal é descrito
como desolador. Para aqueles que acompanham de perto a atual situação
do bioma, a sensação é de profunda tristeza. Enquanto o fogo avança de
forma nunca vista nas últimas décadas, animais mortos e árvores
destruídas se tornam situações cada vez mais comuns.
As chamas já atingiram 2,3 milhões
de hectares do Pantanal, segundo dados do Centro Nacional de Prevenção e
Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). O número representa mais
de 15% de toda a extensão do bioma no Brasil, conforme levantamento do
Instituto SOS Pantanal. A área queimada corresponde, por exemplo, a
quase três vezes a região metropolitana de São Paulo, que abriga 39
municípios, ou 15 vezes a área da capital paulista.
De janeiro ao início de setembro,
foram registrados 12,1 mil focos de calor no Pantanal, segundo o
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É o maior número no
período desde 1998, quando o instituto iniciou um monitoramento que se
tornou referência para acompanhar as queimadas no país.
Em meio ao avanço do fogo, os animais lutam para sobreviver, enquanto
a vegetação é devastada. Pessoas que moram na região enfrentam
problemas de saúde em meio à fumaça intensa, que piora problemas
respiratórios diante do duro cenário da pandemia do coronavírus.
Imagens feitas por fotógrafos e
voluntários, entre agosto e os primeiros dias de setembro, ilustram a
tragédia enfrentada pelo Pantanal. Ao longo desta reportagem, 25
fotografias cedidas à BBC News Brasil mostram a atual situação do bioma.
O fotógrafo José Medeiros
classifica a atual paisagem do Pantanal como um “cenário de guerra”. Ele
relata que avistou diversos animais, como jacarés e cobras,
carbonizados. “Dei o título de ‘O grito’ a uma foto de um jacaré morto
com a boca aberta. Parece um grito de socorro. As pessoas não estão
entendendo o que está acontecendo ali. É uma situação muito séria”, diz
Medeiros.
A jornalista e fotógrafa Bruna
Obadowski define a situação do Pantanal como assustadora. “É um cenário
apocalíptico. Quando você se aproxima (do bioma), a fumaça toma
proporção inexplicável. O cheiro de queimada é muito forte. É uma coisa
frustrante”, relata à BBC News Brasil. “É desolador ver o Pantanal
agonizar daquela maneira”, lamenta o fotógrafo Ahmad Jarrah.
Fogo no Pantanal já consumiu o equivalente a quase três vezes a região metropolitana de São Paulo (Foto:ANDRE ZUMAK – IHP )
Fumaça se tornou parte do cenário do Pantanal nos últimos meses (Foto: REINALDO NOGALES/ECOA)
Fogo
toma conta do Pantanal, localizado em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso —
além de áreas na Bolívia e no Paraguai (Foto: REINALDO NOGALES/ECOA)
O fogo no Pantanal
O Pantanal, maior área úmida
continental do planeta, enfrenta uma série de problemas que, segundo
especialistas, favoreceram o rápido avanço do fogo neste ano.
Entre outubro e março — considerada
época chuvosa —, o bioma, localizado na Bacia Hidrográfica do Alto
Paraguai (BAP), teve volume de chuva 40% menor que a média do mesmo
período em anos anteriores, conforme dados da Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A situação fez com que o rio
Paraguai, principal formador do Pantanal, registrasse o menor nível das
últimas décadas. Em junho, quando o rio costuma registrar o seu pico ao
longo do ano, o nível da água chegou a 2,10 metros. Trata-se da menor
marca dos últimos 47 anos, segundo a Embrapa. A média, nesse período, é
de 5,6 metros.
Pesquisadores ainda avaliam as
causas da pouca quantidade de chuva no bioma desde o começo de 2020. Mas
acreditam que possa estar relacionado a fenômenos climáticos.
Alguns estudiosos acreditam que uma
das explicações para a baixa quantidade de chuva no Pantanal é o
fenômeno conhecido como “rios voadores”, no qual a corrente de umidade
que surge na Amazônia origina uma grande coluna de água, que é
transportada pelo ar a vastas regiões da América do Sul. Diante do
desmatamento da Floresta Amazônica, que também sofre duramente com as
queimadas, esse fenômeno perde parte da capacidade de levar água a
outras regiões.
“Não são apenas questões climáticas
que culminaram na atual situação das queimadas no Pantanal. É uma
combinação de fatores”, ressalta o engenheiro florestal Júlio Sampaio,
líder da Iniciativa Pantanal do WWF.
Sem chuva, incêndio no Pantanal tem se propagado com facilidade (Foto: JOSÉ MEDEIROS)
Foto: JOSÉ MEDEIROS
Foto: MAYKE TOSCANO/SECOMMT
Um dos fatores que colabora para a propagação das queimadas é o
crescente desmatamento — ação que tem o fogo como forte aliado. De
acordo com o Inpe, 24.915 km² do Pantanal foram desmatados até o ano
passado. O número equivale, por exemplo, a pouco mais de quatro vezes a
área de Brasília.
Um levantamento do Ministério
Público de Mato Grosso do Sul apontou que cerca de 40% do desmatamento
na área do Pantanal do Estado podem ter ocorrido de forma ilegal, pois
não foram identificadas autorizações ambientais.
Uma perícia feita recentemente pelo
Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional (Ciman-MT)
apontou que o fogo que atinge o bioma em Mato Grosso é causado por ações
humanas, em situações como queima de pasto, fogo em raízes de árvores
para a retirada de mel e incêndios em equipamentos agrícolas. A
Delegacia de Meio Ambiente (Dema-MT) apura a situação.
A imensa maioria dos incêndios,
segundo especialistas, começa em propriedades privadas — mais de 95% das
áreas do bioma são particulares. “O fogo no Pantanal não surge
naturalmente, principalmente em um período sem raios. Esse incêndio
precisa ser provocado pela ação humana”, relata Sampaio.
“O fogo está presente nas práticas
de manejo dos pantaneiros e ribeirinhos, para a limpeza e preservação de
área. Mas quando acontece queimada em uma situação como a atual, de
extrema seca, o fogo, que antes era controlado, pode fugir do controle e
avançar para diversas regiões, como tem acontecido”, pontua o
engenheiro florestal.
O especialista salienta que, por
haver muita vegetação, um pequeno incêndio no Pantanal logo atinge
grandes proporções em um cenário de seca. “No ano passado, já havia sido
uma situação bastante difícil. Mas em 2020 foi muito pior”, declara
Sampaio.
Em 2019, segundo o Inpe, foram
registrados 3.165 focos de calor entre janeiro e agosto. No mesmo
período deste ano, os registros foram mais que o triplo: 10,1 mil focos.
Brigadistas tentam conter as chamas no Pantanal (Foto:JOSÉ MEDEIROS)
Foto: BRUNA OBADOWSKI/A LENTE
Uma
das particularidades do Pantanal é que a biomassa, por cima ou por
baixo do solo, ajuda a propagar o fogo com rapidez (Foto: AHMAD JARRAH/A
LENTE)
As consequências do fogo
O fogo deve causar grande
desequilíbrio à fauna e à flora do Pantanal, considerado santuário de
biodiversidade. O bioma possui, segundo levantamentos de pesquisadores
da região, 2 mil tipos de plantas e abriga diversas espécies de aves
(582), mamíferos (132), répteis (113) e anfíbios (41).
“Esses incêndios vão causar, por
exemplo, perda de bancos de sementes e mortalidades de árvores da
região. Deverá haver regeneração em algum tempo, mas os prejuízos serão
sentidos nos próximos anos”, pontua Júlio Sampaio.
“É uma situação terrível. Nunca
vivi um período assim. É uma sensação de que não temos controle de
nada”, diz o consultor ambiental Laércio Machado, que vive no Pantanal
há quase três décadas. “O bioma é resiliente. Toda essa flora pode ser
recomposta daqui a 10 anos, por exemplo. Mas é uma perda muito grande
neste momento. Todo o trabalho de preservação feito nos últimos anos
está sendo perdido”, diz à BBC News Brasil.
Enquanto a fauna é atingida, os animais buscam formas de fugir do habitat tomado pelo fogo.
Espécies como as araras-azuis foram
duramente afetadas. Elas têm seus ninhos naturais em cavidades
existentes do tronco do manduvi (Sterculia apetala),
árvore que pode alcançar 35 metros de altura. O avanço do fogo colocou
em risco um dos maiores abrigos da espécie no país, a fazenda São
Francisco de Perigara, no município de Barão de Melgaço, em Mato Grosso —
a propriedade teve mais da metade de sua área atingida pelas chamas.
Muitos animais têm sido vítimas do fogo no Pantanal (Foto: JOSÉ MEDEIROS)
Foto: AHMAD JARRAH/A LENTE
Nem todos os animais conseguem fugir a tempo das chamas que atingem o bioma ( Foto: JORGE SALOMÃO JÚNIOR)
O Parque Estadual Encontro das
Águas, na região de Porto Jofre, na cidade de Poconé (MT), também foi
afetado pelas queimadas. A reserva possui a maior concentração de
onças-pintadas do mundo. Dos 108 mil hectares do local, 65 mil foram
atingidos pelas chamas até o momento.
No atual cenário de intensa
destruição do bioma, é comum avistar corpos de animais carbonizados. Há
registros de jacarés, cobras e outras espécies que foram vítimas do
fogo.
A situação também traz problemas às
pessoas que moram na região e nas proximidades, como em cidades de Mato
Grosso do Sul e Mato Grosso, Estados brasileiros nos quais o Pantanal
está localizado — também há parte do bioma na Bolívia e no Paraguai.
Há relatos de moradores da região
com dificuldades para respirar. Alguns tiveram de deixar suas casas, em
razão do avanço do fogo.
“A população mais afastada, que
mora no Pantanal, sofre muito com tudo isso. Não são raras as imagens de
pessoas afugentadas pelo fogo. É um fator crítico para a saúde,
principalmente no atual contexto da pandemia”, diz Júlio Sampaio.
A fuligem e a fumaça, oriundas dos
incêndios, são fatores que podem acarretar problemas respiratórios.
Cidades próximas ao Pantanal, como Corumbá (MS), Poconé (MT) e Cuiabá
(MT), tiveram as paisagens ofuscadas pelas fumaças oriundas do bioma.
Sampaio frisa que o fogo no bioma
colabora intensamente para o aquecimento global. “Esses incêndios
aumentam a emissão de gás carbônico na atmosfera. Isso é extremamente
prejudicial. Com a área do Pantanal que queimou neste ano, a quantidade
de CO2 lançada na atmosfera é enorme.”
Além do risco de serem alvos das chamas, animais também convivem com a perda de habitat (Foto: ANDRE ZUMAK – IHP)
Foto: JOSÉ MEDEIROS
Foto: JORGE SALOMÃO JUNIOR
Diante do avanço do fogo, criações de gado são prejudicadas no Pantanal (Foto: ANDRE ZUMAK – IHP)
Combate às chamas
Em meados de julho, o governo
federal publicou um decreto em que proibiu queimadas em todo o
território nacional por 120 dias. Especialistas apontam que a medida é
ineficaz, caso não haja intensa fiscalização.
Diante do avanço do fogo no bioma, o
Ministério da Defesa enviou, em 25 de julho, equipes das Forças Armadas
para auxiliar no combate aos incêndios.
Especialistas ouvidos pela
reportagem apontam que o Governo Federal demorou a tomar uma atitude
sobre o bioma, que desde os primeiros meses de 2020 sofre com a falta de
chuva e números elevados de incêndios.
“Quando se trata a questão
ambiental de forma tão irresponsável, como o governo federal tem feito, o
Brasil acaba passando uma imagem negativa para todo o mundo. Essa
questão precisa ser priorizada. Até o momento, não há senso de
responsabilidade sobre a gestão desses incêndios”, declara Júlio
Sampaio.
O Ministério da Defesa informou que
há, atualmente, 14 aeronaves, entre helicópteros e aviões, no combate
ao fogo no Pantanal. A pasta afirma ainda que também são utilizadas
diariamente 40 viaturas e duas embarcações para enfrentar o fogo.
“Em média, estão engajados nas
atividades 200 militares e 230 agentes de órgãos como Corpo de Bombeiros
Militar de MT e MS, Secretaria de Estado de Segurança Pública,
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
(ICMBio)”, diz comunicado do Ministério da Defesa.
A pasta estima que o fogo diminuiu em diversos pontos do Pantanal, diante do combate das últimas semanas.
Queimadas atingem diversas áreas do Pantanal e afetam duramente a fauna e a flora da região (Foto: FERNANDO TORTATO)
Seca histórica neste ano trouxe diversos prejuízos ao bioma (Foto: AHMAD JARRAH/A LENTE)
Foto: JORGE SALOMÃO JUNIOR
Queimadas de grandes proporções afetam cidades próximas ao Pantanal (Foto: AHMAD JARRAH/A LENTE)
Moradores da região também sofrem com as queimadas que atingem o bioma (Foto: BRUNA OBADOWSKI/A LENTE)
Para pesquisadores, um dos motivos
que levaram à atual situação do Pantanal é a conduta de entes públicos.
Um dos pontos mais prejudiciais, segundo especialistas, é o desmonte de
órgãos de fiscalização ambiental durante o governo Jair Bolsonaro.
Estudiosos apontam também que falta uma legislação referente ao Pantanal
— um Projeto de Lei que trata sobre o bioma está arquivado no Senado
Federal — que possa colaborar com o controle do bioma.
O biólogo André Luiz Siqueira,
diretor da ONG Ecoa – Ecologia & Ação, frisa que apesar das ações
feitas atualmente no combate aos incêndios, há diversas particularidades
que dificultam o controle do fogo no Pantanal.
“Em um território do tamanho do
Pantanal, dificilmente há equipamentos e pessoas suficientes para
combater o fogo. Existem características imprevisíveis, como mudanças,
em segundos, de ventos em grandes velocidades. Além disso, há áreas com
difícil acesso e existe muita vegetação acumulada (o que ajuda na rápida
propagação do fogo)” declara.
“Se não fossem as mínimas chuvas
atrasadas, como agora em agosto, a situação estaria ainda pior”, afirma.
Segundo o biólogo, o fogo no Pantanal somente deve amenizar após
intensas chuvas — que podem acontecer a partir do dia 20 de setembro,
conforme estimativa da Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso do
Sul.
Siqueira afirma que o atual período
deve ser usado como lição para que as autoridades entendam a
importância de conscientizar as pessoas da região sobre os impactos do
fogo. “É preciso moldar os hábitos e os comportamentos do uso do fogo no
Pantanal. Se não houver discussões sobre o assunto e uma melhor
fiscalização, terão de ficar apagando fogo durante a vida toda.”
Brigadistas atuam no combate ao fogo no Pantanal (Foto: AHMAD JARRAH/A LENTE)
Foto: AHMAD JARRAH/A LENTE
Segundo especialista, queimadas devem diminuir somente após intensas chuvas no bioma (Foto: CORPO DE BOMBEIROS – MT)