sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Viadutos para animais silvestres: novidade que chegou para ficar no Brasil

Viadutos para animais silvestres: novidade que chegou para ficar no Brasil


Por Dimas Marques*, Fauna News – 

Viadutos projetados para animais silvestres. Não são simples passarelas, mas estruturas de concreto, largas e com vegetação. A ideia é reduzir o impacto da fragmentação do habitat e o risco de atropelamentos, fatores responsáveis por extinção de espécies e alta mortandade da fauna.

O recém-inaugurado viaduto vegetado (em inglês, overpass) sobre a BR-101, na área de ocorrência do ameaçado mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) no estado do Rio de Janeiro, chamou a atenção para a possibilidade do aumento da implantação dessas estruturas no Brasil. Somente outros três desses viadutos, sendo dois em uma mesma linha férrea, existem em território nacional. “A função primária dos viadutos vegetados é restabelecer a conexão entre os ambientes dos dois lados da rodovia ou ferrovia e aumentar a possibilidade de travessias seguras, sobretudo para animais que de outra forma evitariam cruzar a via”, explica o biólogo e coordenador do Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NERF-UFRGS), Andreas Kindel.

Viaduto vegetado concluído em agosto na BR-101, na região de ocorrência do mico-leão-dourado
 (RJ) – Foto: Wanderson Chan/AMLD

Uma das principais consequências da construção de rodovias e ferrovias para a fauna é a fragmentação de seu habitat, gerando o chamado “efeito barreira”. Para algumas espécies, a clareira gerada pela estrada, o ruído, a poluição e o movimento de veículos inibem e até impedem a circulação dos animais por um ambiente que já foi uma paisagem única, não dividida. É o que acontece com algumas espécies de aves que vivem no sub-bosque de florestas (região logo abaixo das copas das árvores maiores), anfíbios que habitam solo forrado com folhas e alguns pequenos mamíferos que frequentam as copas das árvores (dossel), como roedores e marsupiais. “Esses animais evitam as estradas. Raríssimos são os registros de atropelamentos desses grupos”, explica Kindel.

Essa barreira pode isolar populações de espécies, gerando cruzamentos entre animais aparentados (consanguinidade) e uma consequente dificuldade de adaptação às mudanças ambientais. O chamado fluxo gênico que possibilita haver variação genética dentro da população de uma espécie é fundamental para sua sobrevivência.

Outro problema é a possibilidade de separar os animais de fontes de água e alimento, bem como causar problemas para processos migratórios. Populações de determinadas espécies também podem ficar restritas em áreas que não têm a capacidade de sustentá-las, gerando uma disputa interna entre os animais.

Evitar atropelamentos, que segundo o Centro Brasileiro de Ecologia de Estradas (CBEE) são responsáveis pela morte de 475 milhões de animais silvestres no Brasil todos os anos, é uma função secundária dos viadutos vegetados. Kindel afirma que as cercas são ferramentas mais efetivas, pois impedem a interação entre veículos e animais. “Viadutos vegetados e outros tipos de passagens de fauna, sozinhos, não reduzem a mortalidade ou reduzem muito pouco”, salienta o pesquisador.

De acordo com Kindel, os viadutos são construídos em contextos bastante específicos, em geral quando a implantação da rodovia ou ferrovia envolve corte do relevo, como os morros. O projeto dessas estruturas deve levar em consideração a sua proximidade das formações vegetais remanescentes a serem conectadas, a garantia da manutenção dessa cobertura vegetal nativa das áreas ligadas, evitando o risco da expansão agrícola, da urbanização ou de outras infraestruturas inviabilizarem o ganho das áreas religadas, além de preferencialmente desfragmentar corredores de vegetação de abrangência regional e não somente local.

Mas para que os viadutos vegetados realmente funcionem, é necessária a instalação de um sistema com cercas para guiarem os animais até a estrutura. Elas impedem o acesso da fauna à rodovia ou aos trilhos e direcionam o deslocamento até o ponto de travessia. Se o trecho superior do viaduto tiver uma cobertura vegetal com as mesmas características de vegetação do entorno, há grande chance de ele ser utilizado.

Ajudando os micos-leões-dourados

O viaduto vegetado construído na altura do km 218 da BR-101, em Silva Jardim (RJ), foi concluído no início de agosto. Ele é resultado de intensa mobilização da Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), que a partir de 2012 se empenhou para conseguir a implantação de medidas que reduzissem os impactos da duplicação da rodovia ao ameaçado mico-leão-dourado e demais espécies da fauna da região.

Operário plantando as árvores no viaduto vegetado concluído em agosto na BR-101 
– Foto: Arteris Fluminense

A construção da BR-101 na década de 1950 ajudou no processo de fragmentação do habitat dos micos-leões-dourados. Atualmente, na altura de Silva Jardim, por exemplo, de um lado da pista está a Reserva Biológica de Poço das Antas e do outro vários fragmentos de Mata Atlântica conservados em fazendas, reservas particulares do patrimônio natural (RPPNs) e o Parque Estadual dos Três Picos. Se para os micos, primatas que preferencialmente se deslocam pelas árvores, já era difícil atravessar a rodovia estreita, imagine após a duplicação.

O secretário-executivo da AMLD, Luis Paulo Ferraz, lembra que o contrato de concessão para a iniciativa privada do trecho da rodovia onde foi construído o viaduto, que incluía a duplicação da via, não incorporou os custos ambientais da obra. Ainda segundo o ambientalista, os estudos de impacto ambiental não levaram em consideração a realidade local e sequer citaram o mico-leão-dourado, espécie símbolo da Mata Atlântica que só existe naquela região.

A proposta de construção de um viaduto vegetado surgiu em 2014, quando a AMLD organizou um encontro técnico com pesquisadores, gestores das unidades de conservação da região e da Arteris Fluminense, concessionária responsável pela rodovia. A duplicação terminou antes mesmo que qualquer estrutura para a fauna fosse construída.

“O principal problema foi a resistência da concessionária à ideia do viaduto face aos custos envolvidos”, afirma Ferraz. A Arteris Fluminense teria contratado consultorias para pesquisar alternativas e questionar a eficiência de um viaduto vegetado para aquele contexto. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) teria sido outro foco de resistência pois, segundo o ambientalista, demonstrou preocupação com a possiblidade de que esse tipo de estrutura, considerada cara, passe a ser exigida com mais frequências pelos órgãos ambientais.

O viaduto vegetado saiu do campo das ideias somente após o Ministério Público Federal ingressar, em 2016, com uma ação civil pública para exigir que as condicionantes ambientais do processo de licenciamento da duplicação da rodovia fossem efetivamente executadas. A obra começou em 2018 e, de acordo com a Arteris Fluminense, nela foram investidos R$ 9 milhões. Um outro viaduto, na altura do km 240, está previsto para ser construído após serem feitos monitoramentos para verificar os resultados do primeiro.

Além do viaduto, a Arteris Fluminense construiu em um trecho de 72 quilômetros da BR-101, entre Rio Bonito e Casimiro de Abreu, 15 passagens de fauna subterrâneas (que passam por baixo da rodovia), 10 estruturas que ligam copas de árvores situadas em lados opostos da estrada, nove passagens sob pontes, mais de 30 quilômetros de cercas e um sistema de sinalização para motoristas indicando a presença de animais silvestres na região. Ou seja, todas as estruturas fazem parte de um planejamento maior que busca minimizar os impactos da rodovia duplicada e do tráfego diário de cerca de 20 mil veículos.

O viaduto possui 54 metros de comprimento e 20 metros de largura. Nele foram plantadas mudas de árvores nativas da região, que ainda têm de crescer para criar o ambiente propício às travessias. Além do mico-leão-dourado, a preguiça-de-coleira (Bradypus torquatus), a onça-parda (Puma concolor), tatus, cachorros-do-mato e tamanduás-mirins (Tamandua tetradactyla) estão entre as espécies que deverão ser beneficiadas pela obra.

Atualmente, a população estimada de micos-leões-dourados é de 2.500 animais. A AMLD defende que para a espécie deixar de correr risco de extinção, sua população deve ser de pelo menos dois mil animais vivendo livremente em 25 mil hectares de florestas protegidas e conectadas. O viaduto vegetado é parte da estratégia de conexão de fragmentos de matas. “A consolidação da conexão florestal em Poço das Antas era fundamental”, afirma Ferraz.

O viaduto é essencial para evitar o isolamento de grupos de micos-leõs-dourados 
– Foto: Andreia Martins/AMLD

Na Serra do Mar paulista

O outro viaduto vegetado em rodovia existente no Brasil foi construído na altura do quilômetro 25,8 da SP-99 (rodovia dos Tamoios), que liga São José dos Campos a Caraguatatuba, no estado de São Paulo. A estrutura, concluída em junho de 2018, foi erguida durante a duplicação da estrada, em um local chamado Serrinha, exatamente onde houve o corte de um morro.

De acordo com a empresa do governo paulista Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A), responsável pelo projeto de duplicação da estrada, o viaduto vegetado, sete passagens de fauna inferiores (que passam por baixo da pista) e uma passagem feita com cabos entre copas de árvores foram projetados para reduzir atropelamentos após a realização de campanhas de monitoramento de fauna na região.

Concluído em 2018, o viaduto da rodovia dos Tamoios, em São Paulo, 
foi o primeiro em estrada do Brasil – Foto: Concessionária Tamoios

A Concessionária Tamoios, que administra a rodovia, não informou dados sobre a utilização pelos animais da estrutura, que custou R$ 2,4 milhões.

Em Santa Catarina, ainda é projeto

Além do segundo viaduto vegetado planejado para a BR-101 na região do mico-leão-dourado, no Rio de Janeiro, outra estrutura dessa deverá ser construída em breve no Brasil. Com projeto pronto, mas sem contrato de execução, ele será implantado na altura do quilômetro 54,5 da rodovia BR-280, em Santa Catarina.

De acordo com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), o viaduto reconectará um fragmento de floresta atlântica de cerca de 10 km² junto à cidade de Guaramirim com outro bem maior que chega até as proximidades de São Bento do Sul e ao trecho paranaense da Serra do Mar. Ele terá 40 metros de comprimento e 11 metros de largura. No local, onde passará a nova pista duplicada da rodovia, hoje existe uma pequena rua.

O viaduto vegetado, que não tem data para início ou conclusão das obras, é parte do projeto de redução de impactos para a região que prevê também a construção de passagens de fauna subterrâneas com cercas para guiar os animais até elas. Nas matas próximas foram registrados animais vertebrados de 101 espécies, como gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus), cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), vários morcegos, corujas, tatus, pássaros, cobras e anfíbios.

Na ferrovia, os primeiros do Brasil

No Pará, dois viadutos vegetados foram implantados no ramal ferroviário de 101 quilômetros que liga uma das minas de minério de ferro da Vale, em Canaã dos Carajás, à estrada de ferro Carajás, em Parauapebas. Eles foram concluídos em 2017 por exigência do processo de licenciamento ambiental, sendo os primeiros instalados no país. As duas estruturas foram cobertas com gramíneas e receberam pequenos arbustos de espécies da região para reproduzir o ambiente do entorno, além de cercas direcionadoras.

Os dois viadutos integram um conjunto de estruturas que inclui também 30 passagens de fauna de outros tipos, como as subterrâneas. A Vale informou ter registrado 2.194 ocorrências de travessias de animais nesse sistema de passagens entre 2016 e 2019.

Um dos viadutos vegetados sobre linha férrea no Pará – Foto: Vale

O biólogo e pesquisador em impactos de ferrovias sobre a fauna, Rubem Dornas, lembra que as linhas férreas podem ter um efeito barreira ainda maior para animais de pequeno porte. Além da clareira ser um inibidor para animais de algumas espécies, os trilhos são obstáculos verticais que podem ser intransponíveis para cágados, jabutis e alguns anfíbios, por exemplo. “Os animais encontram os trilhos e, na tentativa de atravessar, podem ter que percorrer vários quilômetros até descobrirem um local com espaço entre a brita e trilho ou uma passagem de nível, que geralmente é para carros. Nesse trajeto, suspeita-se que um grande número deles morra por inanição ou superaquecimento”, explica.

Dornas, que faz parte da Rede Brasileira de Especialistas em Ecologia de Transportes (REET Brasil), afirma que a malha ferroviária brasileira é antiga, sendo raras as linhas com sistema de redução de impactos como o efeito barreira e os atropelamentos.

No Exterior

Novidades no Brasil, os viadutos vegetados já são construídos há décadas em diversos países da Europa, nos Estados Unidos, Canadá e Austrália. Na América Latina, a primeira experiência com esse tipo de estrutura é da Argentina.

Viaduto na Motorway 9, perto de Niemegk, Alemanha – Foto: Igor Pfeifer Coelho

O viaduto vegetado argentino foi construído entre 2008 e 2010 sobre a rodovia RN-101, na província de Missiones – Estado onde situa-se as cataratas do Iguaçu, na divisa com o Brasil. A estrada localiza-se ao lado de um grande bloco de mata atlântica bem conservada que inclui o Parque Nacional Iguazú e o Parque Provincial Urugua-í. “Os motivos que motivaram a sua construção foi a localização em um corredor biológico no qual, desde 2002, trabalhamos na sua restauração e na criação de reservas naturais privadas”, explica o pesquisador do Instituto de Biologia Subtropical da Universidade Nacional de Misiones (IBS/CONICE) e da ONG Centro de Investigaciones del Bosque Atlántico (CeIBA), Diego Varela.

A iniciativa tem resultado positivo. Varela, que avalia a eficiência do viaduto desde 2011, afirma que ano após ano o número de espécies utilizando a estrutura tem aumentado, sendo 24 de mamíferos de médio e grande porte já foram registradas nela. Na região há onças-pintadas (Panthera onca), onças-pardas (Puma concolor), jaguatiricas (Leopardus pardalis), antas (Tapirus terrestres), queixadas (Tayassu pecari), catetos (Tayassu tajacu), veados-mão-curta (Mazama nana) e veados-mateiros (Mazama americana).

Dois novos viadutos estão em construção na rodovia RP-19, que corta ao meio o Parque Provincial Urugua-í.

O viaduto vegetado da Argentina foi o primeiro da América Latina – Foto: Diego Varela

Em unidades de conservação e envolvendo uma única rodovia, a experiência canadense no Parque Nacional Banff é considerada uma referência. São 44 passagens de fauna selvagem, sendo seis viadutos vegetados e 38 passagens subterrâneas, e 82 quilômetros de cercas na rodovia Trans-Canada que corta a área protegida. Esse conjunto de medidas começou a ser planejado em 1981, quando o governo canadense resolveu duplicar a estrada, e foi pensado principalmente para atender animais de grande porte, como alces, cervos e ursos. Pesquisas indicaram ter ocorrido uma redução de mais de 80% de atropelamentos de fauna quando consideradas todas as espécies afetadas.

Viaduto vegetado no Parque Nacional Banff, no Canadá – Foto: Igor Pfeifer Coelho

Na Holanda, um grande programa de reconexão de fragmentos de áreas com vegetação nativa, que inclui viadutos vegetados, foi iniciado em 1990. O trabalho identificou 1.126 pontos de desfragmentação em rodovias, ferrovias e canais hidroviários. Entre 2005 e 2018, 175 desses locais foram alvo de intervenções várias. Atualmente, há 30 viadutos vegetados e outros 20 planejados.

Em artigo publicado em julho na revista científica Landscape Ecology, pesquisadores holandeses afirmam que a redução do tamanho dos fragmentos com vegetação nativa, bem como a diminuição da qualidade desses habitat, aumenta as extinções locais de pequenas populações de animais. Outro problema causado pelo isolamento dessas áreas é a dificuldade dessas espécies colonizarem novos fragmentos.

Esse problema motivou a implantação do programa de desfragmentação holandês. Por outro lado, os autores do artigo citam pesquisas que destacam uma ausência de análises de custo-benefício das medidas de desfragmentação de estradas, bem como dos efeitos delas sobre as populações de animais silvestres.

Kindel afirma que os viadutos vegetados associados a cercas são adequados para minimizar danos de rodovias em operação, mas não devem ser utilizados para viabilizar estradas em planejamento. “Se a estrada não se justifica, e isso tem de ser avaliado com indicadores sólidos, ela nem deveria ser cogitada. Essa virada de mesa ainda não foi feita no Brasil, embora vários mecanismos, inclusive de financiamento, já demandem essas informações”, explica o coordenador do NERF. O ideal é evitar a fragmentação e quando for necessária a implantação de estruturas que reduzam os impactos negativos sobre a fauna, que sejam parte de um planejamento amplo para toda uma região e não intervenções pontuais.

*Dimas Marques – Editor-chefe do Fauna News

dimasmarques@faunanews.com.br

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Efeitos das cinzas das queimadas sobre os ecossistemas aquáticos Notícia

 

Efeitos das cinzas das queimadas sobre os ecossistemas aquáticos

Queimada no Cerrado
Queimada no Cerrado. Foto: EBC

Efeitos das cinzas das queimadas sobre os ecossistemas aquáticos

Artigo de Eduardo Cyrino Oliveira-Filho

[EcoDebate] A presença do fogo é um evento frequente, particularmente no Cerrado brasileiro, onde faz parte, inclusive, da ecologia de várias espécies. Logicamente, o fogo provocado por queimadas descontroladas tem se tornado um problema, principalmente em função do aumento excessivo de ocorrências, em sua maioria, provocada pela ação humana.

Além das perdas de animais e vegetais terrestres, outras inúmeras consequências são verificadas após o término da queimada, quando a totalidade dos estragos podem ser melhor contabilizados. Todavia, nem todos os efeitos são facilmente visíveis. Quando o fogo acaba, ainda restam o calor, a fumaça, o vazio vegetal e as cinzas, que trazem vários problemas.

Com a incidência das chuvas nas áreas queimadas, grande quantidade dos elementos químicos presentes nas cinzas são transportados para rios e águas subterrâneas, causando alterações nas características naturais desses ecossistemas. Sobre esse tema, tanto na Europa como no Brasil, poucas pesquisas têm investigado os impactos decorrentes das queimadas sobre os recursos hídricos.

Os estudos sobre as queimadas no Cerrado, em sua maioria, abordam os efeitos sobre a vegetação e, em menor proporção, sobre o solo. No entanto, para o completo entendimento do funcionamento dos ecossistemas após as queimadas, assim como as possíveis recomendações para o manejo, são necessárias investigações nos diferentes compartimentos ambientais, incluindo os ambientes aquáticos.

Para entendimento do problema causado pelas cinzas sobre os recursos hídricos, primeiramente é importante saber o que são as cinzas e de que são formadas.

As cinzas são remanescentes da vegetação presente na área queimada e, desse modo, são formadas por elementos químicos componentes tanto desses vegetais como do respectivo solo queimado.

A composição química das cinzas tem fundamental importância nos efeitos ambientais que elas podem provocar. Por isso é importante conhecer a vegetação e o solo do local onde ocorreu a queimada, já que esses têm um papel preponderante nessa composição. Nossos estudos mostram que há pequena diferença qualitativa nas cinzas de diferentes áreas em relação ao tipo de vegetação. Já o quantitativo desses elementos e compostos presentes nas cinzas parecem ser o aspecto de maior relevância para caracterizar essas diferenças.

Ao se comparar a composição das cinzas com a do solo, é possível observar quantidades bem maiores de alguns elementos nas cinzas, entre eles alguns não existentes naquele solo. Esse dado ressalta a capacidade acumuladora das plantas, que mantêm em sua composição não só elementos necessários à sua sobrevivência, como também alguns que estão disponíveis em quantidades mínimas ou mesmo transitórias no solo.

Também são encontrados diversos micronutrientes (metais), além de macronutrientes, como potássio, fósforo e nitrogênio. Essa caracterização traz resultados relevantes para o contexto do impacto sobre os ecossistemas aquáticos. Ao entrarem na água, parte desses elementos se dissolve, ocasionando transformações em vários parâmetros físico-químicos.

Durante a pesquisa, observamos que a presença de grande quantidade de potássio (K) em cinzas de determinados tipos de vegetação de Cerrado pode ocasionar efeitos tóxicos sobre algumas espécies aquáticas. O mesmo ocorre com os compostos nitrogenados, mais especificamente o amônio existente nos solos hidromórficos da região de veredas, assim como a grande quantidade de matéria orgânica, característica desse tipo de solo.

Esses compostos ocasionam alterações químicas nos ambientes aquáticos, sobretudo nos parâmetros de pH e oxigênio dissolvido, fatores que são limitantes para a sobrevivência de espécies aquáticas. Com a interferência causada pelas cinzas, o pH da água tende a aumentar, chegando a patamares não suportáveis por algumas espécies. Ao contrário do oxigênio dissolvido, que é drasticamente reduzido, e causa a mortalidade de organismos dependentes da sua concentração na água.

A partir desses resultados, também é possível inferir que ambientes com baixa vazão ou fluxo de água, como no caso dos ambientes lênticos (lagos, lagoas, reservatórios ou charcos), por exemplo, poderão ser atingidos de forma bem mais acentuada à entrada de resíduos de queimadas em seu meio.

Mas não são só as águas superficiais são atingidas pelas cinzas. Nosso estudo também observou a contaminação de águas subterrâneas na área queimada. Os compostos nitrogenados, principalmente o nitrato, bem como os elementos potássio, fósforo, cálcio e magnésio, foram encontrados na água subterrânea em patamares acima dos normais, quando comparados a uma área controle. Essa elevação se manteve pelo período de doze meses após a ocorrência da queimada, quando finalmente retornou aos quantitativos iniciais.

A contaminação observada, tanto na água superficial quanto na subterrânea, pode sem dúvidas trazer prejuízos ao próprio ser humano. Além da utilização dos recursos hídricos para irrigação, os indivíduos também estarão sob o risco de consumirem água contaminada. O nitrato, se ingerido em grandes quantidades, pode causar toxicidade aguda em mamíferos. Mas o produto que surge a partir da sua degradação e transformação, o nitrito, é ainda mais tóxico. O cálcio e o magnésio em excesso na água, além de prejudicar os processos de irrigação, principalmente pelo entupimento dos bicos de equipamentos, podem causar problemas digestivos em mamíferos. Todas essas informações evidenciam que há potencial risco quanto ao uso de águas superficiais e subterrâneas contaminadas com cinzas de queimadas.

As causas das queimadas são em muitos casos objeto de dúvidas e investigação. Dados de nossas pesquisas mostram que, em parte, elas podem ser derivadas a partir de um descontrolado uso do fogo. O que muitas vezes teria finalidade doméstica pode ser disseminado e se tornar um problema público. Todavia, os resultados indicam que o uso errôneo do fogo pode ser minimizado, principalmente se houver maior envolvimento dos órgãos públicos, sobretudo com a oferta de atividades informativas, instrucionais e de educação ambiental junto às comunidades rurais.

Todas as informações produzidas a partir de nossas pesquisas nos levam a concluir que os recursos hídricos também são atingidos pelas queimadas e, desse modo, todos os seres vivos que fazem uso ou vivem integrados aos ambientes aquáticos também tendem a sofrer com as queimadas, particularmente pelas consequências da contaminação pelas cinzas derivadas.

* Eduardo Cyrino Oliveira-Filho é pesquisador da Embrapa Cerrados.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/10/2020

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Ministro Ricardo Salles diz que seca rigorosa está entre causas das queimadas no Pantanal. Será? Não teria sido consequência do capim e do esterco de gado, ambos materiais extremamente inflamáveis, introduzidos no Pantanal pelas fazendas de gado?

 

Meio Ambiente

Ministro Ricardo Salles diz que seca rigorosa está entre causas das queimadas no Pantanal

Aumento no número de brigadistas para conter as chamas e do emprego de aeronaves estão entre ações para o combate ao fogo no bioma
 
Publicado em 13/10/2020 14h04
Ministro Ricardo Salles diz que seca rigorosa está entre causas das queimadas no Pantanal

Entre as ações citadas pelo ministro do Meio Ambiente para combater o fogo no Pantanal está o aumento no número de brigadistas e aeronaves de lançamento de água - Foto: José Cruz/Agência Brasil

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse, nesta terça-feira (13), que a estiagem e o excesso de calor neste ano estão entre os principais responsáveis pelas queimadas que ocorrem na região do Pantanal. Salles detalhou as medidas tomadas pelo Governo Federal para prevenir e combater os incêndios no bioma ao falar na Comissão Temporária Externa do Senado que acompanhas as ações no Pantanal.

“A grande causa das queimadas é a estiagem, o excesso de calor, o tempo seco, ventos fortes, que trouxeram essas queimadas no patamar que nós assistimos esse ano e que, infelizmente, trouxe por sua vez os danos ambientais a fauna e a flora que vêm sendo testemunhados”, disse Ricardo Salles.

“Temos que ter em conta que grande parte desses incêndios não decorre de más ações dos produtores rurais, ao contrário, os produtores rurais são aqueles que têm interesse que suas propriedades continuem saudáveis, não haja dano ambiental, porque vivem da sanidade da sua propriedade. Ao reconhecer isso, sabemos que a principal causa é a questão do clima quente, seco, ventos fortes”, completou o ministro.

Medidas

Entre as ações citadas pelo ministro do Meio Ambiente para combater o fogo no Pantanal está o aumento no número de brigadistas e aeronaves de lançamento de água. Segundo Salles, em 2020, o Governo Federal ampliou para 3 mil o número de brigadistas, quase o dobrou de 2019.

“As aeronaves que fazem o combate aéreo de lançamento de água também foram aumentadas para 10 aviões que cobrem todo o território nacional”, disse Salles.

Ele relatou que há cerca de dois meses esteve no Pantanal já acompanhando o trabalho de brigadistas do Ibama e do ICMBio que ajudavam no combate aos incêndios.

O lançamento do Programa Floresta+ foi citado pelo ministro como uma política importante para auxiliar o combate ao problema na região. A iniciativa tem o objetivo de valorizar as ações de preservação da floresta nativa brasileira. O projeto inicial vai ser realizado na Amazônia Legal e serão destinados mais de R$ 500 milhões para atividades que melhorem, conservem e recuperem a natureza.

O uso do fogo preventivo para controlar queimadas foi outro tema abordado por Ricardo Salles. “Algumas constatações, a primeira de que é preciso seguir com a política de uso preventivo do fogo, o chamado fogo frio, que é um instrumento importante de combate às queimadas uma vez que diminui o volume de massa orgânica depositado, feito no momento adequado, de forma adequada”, disse.

Salles ainda tratou do uso de produto retardante de chamas que, segundo ele, é usado por países como Estados Unidos, Japão e Canadá. “Por fim, a utilização do componente retardante de fogo que também foi uma discussão muito grande do porque não se utilizar uma vez que ele aumenta em 5 vezes a capacidade de resposta das aeronaves que lançam água”, detalhou.

Salles informou que o Mato Grosso começou utilizar o produto e o Governo Federal aplicou o retardante no combate ao fogo na Chapada dos Veadeiros. “Essa visão de que o emprego de tecnologia não é salutar é uma visão equivocada”, avaliou.

Ações coordenadas

Aos senadores, o ministro do Meio Ambiente afirmou ser importante os governos federal, estaduais e municipais estarem alinhados para a atuação no combate aos incêndios no Pantanal. O que segundo, ele, vem ocorrendo.

“A área relativa à competência fiscalizatória dos órgãos federais no Pantanal corresponde a 6% do território do bioma. Estamos falando de áreas que compreendem florestas destinadas, unidades de conservação, terras indígenas e assentamentos”, disse. “Portanto, é importante que tenhamos os estados realmente envolvidos nisso”, explicou.

 COMENTÁRIO

 

A seca rigorosa será a causa ou a consequência das quiemadas no Pantanal?. O calor sufocante que atingiu Brasília e as nuvens de fumaça que cobriram o céu antes tão azul daquela capital foram consequências das queimadas, consequências das fazendas de gado que introduziram capim no Pantanal, capim que durante a seca fica extremamente inflamável, além de esterco que é um material tão inflamável que é usado como combustivel nos países em desenvolvimento.

Da Wikipédia, a enciclopédia livre Stirling-Motor alimentado com esterco de vaca na coleção Hochhut Técnico em Frankfurt on Main Combustível estrume seco (ou combustível estrume seco ) é de origem animal fezes que foi secado a fim de ser utilizado como uma fonte de combustível. Ele é usado como combustível em muitos países ao redor do mundo. Usando seco esterco como fonte de combustível é um exemplo de reutilização de excreções . Uma desvantagem da utilização deste tipo de combustível é aumentada a poluição do ar. Na Índia, este tipo de fonte de combustível é conhecido como "bolos de esterco". Dry esterco de combustível - https://pt.qaz.wiki/wiki/Dry_dung_fuel
Da Wikipédia, a enciclopédia livre Stirling-Motor alimentado com esterco de vaca na coleção Hochhut Técnico em Frankfurt on Main Combustível estrume seco (ou combustível estrume seco ) é de origem animal fezes que foi secado a fim de ser utilizado como uma fonte de combustível. Ele é usado como combustível em muitos países ao redor do mundo. Usando seco esterco como fonte de combustível é um exemplo de reutilização de excreções . Uma desvantagem da utilização deste tipo de combustível é aumentada a poluição do ar. Na Índia, este tipo de fonte de combustível é conhecido como "bolos de esterco". Dry esterco de combustível - https://pt.qaz.wiki/wiki/Dry_dung_fuel

Anônimo

Regularização fundiária dará ao proprietário o dever de preservar o meio ambiente, diz Mourão ( Alguém acredita?).

 

Amazônia

Regularização fundiária dará ao proprietário o dever de preservar o meio ambiente, diz Mourão

O título da terra garante acesso a políticas de crédito e de apoio à produção, aumentando a renda dos produtores
 
Publicado em 26/10/2020 18h04
Regularização fundiária dará ao proprietário o dever de preservar o meio ambiente, diz Mourão

A expectativa é que a regularização alcance mais de 700 mil famílias de assentados na região. - Foto: Valter Campanato/ Agência Brasil

O processo de regularização fundiária na Amazônia deve ser acelerado a partir de dezembro deste ano. A expectativa é que a regularização alcance mais de 700 mil famílias de assentados e cerca de 200 mil famílias que vivem em posses precárias na região.

As informações são do presidente do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Geraldo Melo Filho, que, nesta segunda-feira (26), foi o convidado do vice-presidente Hamilton Mourão, no Programa Por Dentro da Amazônia, que vai ao ar semanalmente na Rádio Nacional.

“Já fim do ano agora, nossas ações de regularização fundiária estão sendo aceleradas e, ainda antes do final do ano, as primeiras ações de campo estarão acontecendo na Amazônia com força tarefa de trabalho em Rondônia e no Pará já com as primeiras emissões de títulos acontecendo”, disse o presidente do Incra.

Com o título da terra em mãos, as famílias passam a ter acesso a políticas públicas com o crédito e assistência técnica. “É uma ação indutora de geração de riqueza para essas famílias. Estamos tratando da região mais rica do país que, na prática, tem as pessoas com o menor IDH [Índice de Desenvolvimento Humano]. Não é condizente. Você tem uma riqueza natural enorme, mas as pessoas não conseguem usufruir essas riquezas”, avaliou Geraldo Melo.

O vice-presidente Hamilton Mourão, que também preside o Conselho Nacional da Amazônia Legal, lembrou que a regularização fundiária traz benefícios, mas também deveres quanto a preservação ambiental nas propriedades e responsabilização por ilegalidades.

“A turma que desmatou ilegalmente não vai receber título de terra, não. Então, tratem de replantar o que derrubaram. A titulação da terra é um casamento, você vai receber um papel que faz a união permanente com aquela terra que você está habitando e passa a ser responsável por tudo que acontece nela. Não é só o benefício, também tem aquilo que cada um de nós tem que fazer para a preservação do meio ambiente”, disse Hamilton Mourão.

“A partir daí, chega financiamento e assistência técnica, aí, ao invés de só ter menos de uma cabeça de gado por hectare, a gente vai colocar cinco, seis, e a produtividade vai aumentar, e a renda do nosso produtor rural também”, completou Mourão.

Para obter o registro da terra, é preciso cumprir o Código Florestal, que exige 80% de preservação nas propriedades rurais localizadas na região da Amazônia Legal. Com a área regularizada, os proprietários terão de responder por eventuais irregularidades, como queimadas ou desmatamento ilegal, que venham a ocorrer nos terrenos.

Conselho da Amazônia

Está marcada para o dia 3 de novembro a próxima reunião do Conselho Nacional da Amazônia Legal com a participação de ministros para discutir temas relativos à preservação da região.

Segundo Hamilton Mourão, a Operação Verde Brasil 2 deverá ser prorrogada até abril de 2021. A operação foi iniciada em maio com o objetivo de prevenir e reprimir delitos ambientais na Amazônia Legal e seria encerrada em novembro

“Estamos com o recurso e o recurso é suficiente para chegar até abril”, disse Mourão em entrevista a jornalistas na manhã desta segunda-feira. “Precisamos prosseguir porque queremos entrar em um ciclo virtuoso de queda do desmatamento. É nosso compromisso derrubar isso. E para derrubar tem que ter gente em campo, fiscalizando”, completou.

COMENTÁRIO

Até parece que essa determinação de "preservar o meio ambiente"  vai impedir os invasores e grileiros que foram incentivados a se instalarem na Amazónia pelos governos anteriores a respeitarem a natureza. Se não respeitam leis é claro que não vão respeitar .. arvoes. E nem animais. Vão caçar, desmatar , fraccionar e vender os lotes. Como eu sei disso? Por que é isso que todo grileiro e invaor faz e tem feito Brasil afora.
 
E quem achar que na Amazonia será o contrario ou está de brincadeira ou gosta de ser enganado.
 
Anónimo.

Triturados vivos: o terrível destino de pintinhos machos na indústria

 

Triturados vivos: o terrível destino de pintinhos machos na indústria

Pintinho

Quando um pintinho sai do ovo, tem coração, sistema nervoso, pulmões. Logo depois do nascimento já é capaz de comer sozinho e sair andando atrás da mãe.

No entanto, se ele for um pintinho macho da linhagem de avicultura de postura, ou seja, o tipo de ave usado na indústria para botar ovos e não para ser vendida por sua carne, provavelmente será jogado numa espécie de triturador assim que nascer e seu sexo for identificado.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) diz que no Brasil esse é o destino de em torno de 6-7 milhões de pintinhos por mês, considerando que aproximadamente 50-52% dos ovos férteis incubados darão origem a pintos machos.

Na criação comercial de aves poedeiras, os machos, que não botam ovos, não servem. A indústria cria dois tipos de animais: de postura, que botam ovos, e a de frangos de corte, criados para serem mortos e comidos.

Os machos da linhagem de postura não botam ovos e ao mesmo tempo são considerados inadequados para corte porque demoram mais a ganhar peso e não ficam do tamanho de um frango do tipo usado para abate.

A morte e o descarte de pintos machos logo após o nascimento é prática comum na produção de alimentos em todo o mundo. No Brasil, não há um método estabelecido e obrigatório por normas do Ministério da Agricultura. No entanto, a maceração mecânica, espécie de trituração, é o mais adotado em todo o mundo.

Também se usa o método de asfixia por gás, mas esse é menos comum, dizem especialistas. Mesmo empresas que vendem ovos de galinhas criadas livres e têm perfil de maior preocupação com bem-estar animal compram animais de incubatórios onde o descarte dos machos é praxe.

O assunto é tabu na indústria porque ainda não há solução que possa ser adotada em grande escala. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representa a avicultura e a suinocultura do Brasil, respondeu perguntas enviadas por e-mail, mas negou pedido de entrevista.

A veterinária Vania Plaza Nunes, diretora do Fórum Nacional de Defesa e Proteção Animal, considera o assunto uma questão ética urgente. “Você está condenando um animal à morte porque nasceu do sexo errado”, diz a veterinária. Além disso, diz, deve-se levar em conta o bem-estar do animal.

A ABPA, por sua vez, diz que o método é adotado em vários países e considerado “humano” e que “defende o debate racional e a apresentação de alternativas que permitam a preservação do status sanitário e a viabilidade econômica, que evitem impactos financeiros significativos ao preço para o consumidor”.

“Vale lembrar que o ovo é uma proteína acessível, estratégica para a garantia de segurança alimentar para a população”, escreveu a associação.

Um posicionamento do Diretor do Departamento de Saúde Animal do Ministério da Agricultura, Geraldo Marcos de Moraes, escrito em agosto de 2019 e obtido pela BBC News Brasil via Lei de Acesso à Informação, sugere um desejo de redução dessa prática, mas descreve obstáculos.

“Para a adoção das boas práticas na avicultura, incluindo a redução do descarte de pintos de um dia, é necessário mudança de cultura e conscientização dos produtores (…) A redução do descarte de pintos de um dia é um processo longo e gradual, que depende de vários fatores e envolve diversas instituições além do Ministério da Agricultura, como instituições de pesquisa, órgãos estaduais de fomento e extensão agrícola etc.”, escreveu o diretor.

Frangos
O frango que comemos é de uma linhagem diferente da dos pintinhos que são mortos ao nascer

‘Espécie de liquidificador’

Quando os filhotes saem dos ovos, uma pessoa treinada na técnica de sexagem, ou seja, a identificação do sexo da ave, separa machos e fêmeas. Os machos são descartados em seguida.

“Eles são jogados numa espécie de liquidificador”, diz a veterinária Vania Nunes. É o processo chamado na indústria de “maceração”.

Segundo o guia brasileiro de boas práticas para eutanásia em animais, do Conselho Federal de Medicina Veterinária, é o “método empregado com o uso de equipamento apropriado em que a velocidade das lâminas produz imediata destruição por laceração dos tecidos e induz rapidamente a morte de um grupo de pequenos animais”.

“A maceração pode ser considerada equivalente ao deslocamento cervical ou ao trauma sobre a cabeça. Suas vantagens são a morte instantânea e a possibilidade de ser aplicada a um grande número de animais”, diz o texto.

Depois, o que sobra — uma espécie de massa — é descartado, segundo o Ministério da Agricultura, e usado em compostagem ou depositado em aterros sanitários, dependendo da legislação ambiental de cada Estado.

Segundo a Embrapa, o material oriundo do descarte de pintos de um dia, cascas de ovos, ovos inférteis e não eclodidos pode servir, depois de tratado, de composto fertilizante para utilização em lavouras, áreas de hortifrúti ou para alimentação de peixes.

Pintinho
Segundo a Embrapa, no Brasil em torno de 6-7 milhões de pintinhos por mês são descartados no Brasil

‘Seres sencientes’

Uma resolução do Conselho Federal de Medicina Veterinária diz que os animais a serem mortos “são seres sencientes”, portanto, capazes de sentir ou ter sensações.

A veterinária Vania Nunes diz que os pintinhos sofrem de várias maneiras durante esse processo. “Ele vai sentir dor física porque o sistema nervoso central já está formado”, diz ela.

A veterinária acrescenta que o pintinho é capaz de perceber o que acontece no seu entorno e por isso sofre psicologicamente também. “Ele tem capacidade de percepção sensorial desenvolvida quando sai de dentro do ovo. Ele é capaz de entender o ambiente onde ele está”, diz ela.

Além disso, diz, ela, “aquele indivíduo já é um vencedor porque se ele nasceu direitinho, inteiro, do ponto de vista biológico, já é uma vitória. Você está condenando um animal à morte porque nasceu do sexo errado”.

Fabiana Ferreira, professora de zootecnia do campus de Montes Claros da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), diz que, se a máquina estiver bem ajustada e trabalhando na capacidade correta, o processo é rápido e não gera erros.

“O grande problema é quando a manutenção não está boa ou se sobrecarrega a máquina. Nesses casos, pode ser que algum animal passe sem ser macerado de forma imediata e demore alguns segundos para morrer”, diz a especialista. Segundo ela, a fiscalização dos estabelecimentos regularizados é eficaz.

No entanto, continua, “por mais éticos que tentamos ser, ainda é um processo que poderia ter alternativas, como a identificação do sexo enquanto ele ainda está no ovo em fase de desenvolvimento embrionário, a não realização da eliminação do animal (destinando esse à criação alternativa de aves). Toda vida que vem ao mundo tem que ter qualidade, mesmo que por um dia”, acrescenta.

Segundo a zootécnica, uma alternativa mais humanitária seria a morte do animal por deslocamento cervical, “que é um método de eutanásia ainda aceito quando ave tem pouco peso, como o caso dos pintinhos”, mas esse método é mais trabalhoso por causa do grande número de animais a serem submetidos a ele, um por um.

A Embrapa considera a prática “admissível”. Citando norma do Conselho de Veterinária, diz que os métodos aplicados devem assumir “princípios básicos norteadores dos métodos de eutanásia: elevado grau de respeito e ausência ou redução máxima de desconforto e dor nos animais; busca da inconsciência imediata seguida de morte; ausência ou redução máxima do medo e da ansiedade; segurança e irreversibilidade”. Segundo a organização, a maceração se encaixa na categoria.

O Ministério da Agricultura diz que o método “é considerado pela Organização Mundial de Saúde Animal como adequado, do ponto de vista do bem estar animal (…) e tem como uma de suas vantagens a morte imediata dos animais. (…) Esse método também está previsto no Guia Brasileiro de Boas Práticas para a Eutanásia de Animais, do Conselho Federal de Medicina Veterinária”, diz a pasta, em resposta enviada por e-mail à BBC News Brasil.

No posicionamento obtido via Lei de Acesso à Informação pela BBC, o diretor do Departamento de Saúde Animal do Ministério da Agricultura, Geraldo Marcos de Moraes diz que a proibição do descarte desses animais geraria “outro problema grave, decorrente da falta de destinação a esses animais, incluindo, por exemplo, abandono, alimentação inadequada e consequente problemas sanitários”, escreve ele.

“Atribuir ao produtor o ônus de manter estes animais sem que haja mercado para os mesmos também geraria problemas, uma vez que o custo da produção aumentaria significativamente, tornando a atividade inviável e resultando no abandono da produção.”

Busca por alternativas

Alguns países estão tentando mudar essa prática; no Brasil há menos sinais de esforços nesse sentido.

A França prometeu proibir a prática de abater filhotes machos indesejados até o final de 2021, como parte das reformas do bem-estar animal, mas as alternativas ainda estão em discussão. Na Alemanha, um tribunal decidiu que a prática pode continuar temporariamente até que uma alternativa seja encontrada. No ano passado, a Suíça proibiu a maceração.

Equipes de pesquisa na Alemanha e na Holanda desenvolveram uma tecnologia que permite identificar o sexo de um pintinho nas primeiras fases da incubação, que dura 21 dias. Assim, machos podem ser descartados antes da eclosão. Uma empresa alemã, a Selectegg, vende ovos usando essa tecnologia em redes de supermercados na França e na Alemanha; eles foram batizados de “respecteggs”.

Outra estratégia, esta adotada por pequenos produtores de ovos, é criar aves de “dupla finalidade”, ou seja, raças nas quais os galos são robustos o suficiente para que possam ser criados para corte, em vez de descartados. Segundo a Embrapa, “o foco são nichos de mercado, cujo produto assemelha-se a galetos/conformação de aves menores”.

O Diretor do Departamento de Saúde Animal do Ministério da Agricultura comenta sobre o tema em texto obtido pela BBC via Lei de Acesso à Informação em agosto de 2019.

Ovos
Equipes de pesquisa na Europa desenvolveram tecnologia que permite identificar o sexo de um pintinho nas primeiras fases da incubação, que dura 21 dias

“O desenvolvimento de aves de dupla aptidão permitirá que os animais tenham algum rendimento em qualquer uma das finalidades, reduzindo o descarte dos machos de aves de postura. É preciso destacar, no entanto, que as aves de dupla aptidão sempre terão um rendimento inferior ao das aves geneticamente selecionadas para uma finalidade específica, aumentando o custo de sua produção e reduzindo os ganhos com o produto, sendo necessários programas de incentivo ao produtor para criação de aves de dupla aptidão. Adicionalmente, a seleção genética para o desenvolvimento de linhagem de dupla aptidão comercialmente viável é um processo de longo prazo.”

No Brasil, segundo escreveu a ABPA por e-mail, empresas de genética e de avicultura de ponta no Brasil “participam ativamente” em buscas por alternativas como a identificação do sexo dentro do ovo e estudos de utilização comercial dos machos. “Porém as alternativas ainda não estão completamente aprovadas e/ou disseminadas. Em uma cadeia produtiva longa e de dimensões continentais — como é a brasileira — são processos que demandam tempo para viabilização da implantação”, diz a associação.

A empresa brasileira Korin, a primeira do país a ter um certificado dado pelo Certified Humane, instituto de certificação de granjas que garantem bem-estar animal, diz que o assunto é uma de suas principais preocupações.

“Não temos como evitar isso (descarte), não somos nós (que criamos as galinhas) que fazemos”, diz Luiz Carlos Demattê Filho, Diretor de Agricultura e Meio Ambiente da empresa.

Demattê explica que compra fêmeas de casas genéticas, que comercializam o material genético que vai para granjas para se transformar em fêmeas produtoras de ovos.

“Há algum tempo estamos falando que precisamos de uma resposta melhor para isso. A empresas respondem dizendo que estão desenvolvendo a tecnologia de sexagem de ovos. Estão surgindo soluções”, diz ele.

Segundo o diretor, a pressão para isso vem da base de consumo.

Demattê diz que a Korin também compra machos, que são criados juntos com as fêmeas. A empresa faz isso porque as galinhas “gostam de ter alguns machos com elas. O sistema fica todo mais harmonizado, há menos conflitos”, diz ele. Depois, quando chegam no fim da vida (cerca de dois anos), essas aves, tanto machos quanto fêmeas, são vendidas para corte. É uma forma, diz ele, de resolver o problema em pelo menos uma parte da produção.

Fonte BBC

Mortes recentes de aves por pesticida permitido por lei levantam polêmica

 

Mortes recentes de aves por pesticida permitido por lei levantam polêmica

“Essa é uma maneira horrível de morrer”, diz conservacionista sobre o veneno para aves Avitrol. Algumas cidades já o proibiram.

Avitrol, pesticida utilizado no controle de aves e registrado na Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), muitas vezes leva as aves a caírem ao chão, terem convulsões e morrerem — reações assustadoras para quem assiste à cena. O produto já é proibido em muitos lugares, inclusive na cidade de Nova York.
FOTO DE GEORGE MCKENZIE JR.

“Está tudo bem”, sussurrou Bonnie Siegfried, tentando confortar um pombo em convulsão envolto em um cobertor de lã. O corpo da ave se contorcia violentamente e emitia sons enquanto ela a segurava em seus braços. O pombo morreu cerca de meia hora depois, enquanto Siegfried, que mora em Londres, na província canadense de Ontário, esperava um agente do centro de controle de animais chegar. Mais tarde, ela publicou um vídeo do pombo no Facebook.

Nas semanas após esse incidente, no fim de agosto de 2020, diversos moradores de Londres, Ontário, e de cidades vizinhas relataram ter visto inúmeros pombos em sofrimento — caindo de árvores, batendo as asas, convulsionando, tentando respirar e, por fim, morrendo. Uma autópsia posteriormente concluiu que os pombos foram envenenados com Avitrol, um veneno utilizado em aves. A substância tem seu uso aprovado nos Estados Unidos pela Agência de Proteção Ambiental desde 1972 e foi registrada novamente para uso no Canadá em 2016 — embora tenha sido proibida em Londres e outras partes do Canadá, e em várias cidades dos Estados Unidos. A EPA lista Avitrol como um avicida, palavra que significa “que causa a morte de aves”.

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Utilizado principalmente nos Estados Unidos e no Canadá, Avitrol é o único avicida disponível no mercado aprovado pela EPA, de acordo com a organização não-governamental National Audubon Society. (Outro avicida, o DRC-1339, é aprovado pela EPA, mas somente o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos pode utilizá-lo.) Avitrol é tóxico para todos os vertebrados que o ingerem e é classificado, nos Estados Unidos, como pesticida de uso restrito. Portanto, apenas profissionais com licença de controle de pestes podem empregá-lo.

A empresa Avitrol Corporation descreve o produto como um agente que “exerce o controle do número de aves de forma não cruel” e diz que o objetivo não é matar aves, embora reconheça que algumas morram após ingeri-lo. Em vez disso, a empresa descreve Avitrol como um “agente químico amedrontador”, pois atua sem causar dor nos sistemas nervoso central e motor dos animais, levando-as apresentar “comportamentos semelhantes aos observados em uma crise epiléptica” — como “voar sem rumo, emitir sons, tremer, ter as pupilas dilatadas, entre outros sintomas”. A intenção dessas reações é assustar outras aves.

No entanto, defensores do bem-estar animal, após verem vídeos como o de Siegfried e lerem pesquisas da organização Humane Society dos Estados Unidos sobre a substância ativa do produto, a 4-aminopiridina, argumentam que Avitrol causa dor e sofrimento desnecessários. Além disso, diversos incidentes que terminaram em mortes generalizadas de aves, como o que ocorreu em Londres, indicam que o produto é frequentemente utilizado para exterminar esses animais, e não somente afastá-los. Os defensores também temem que o veneno possa matar acidentalmente animais selvagens que atacam pombos, como os falcões-peregrinos do Canadá, ameaçados de extinção e que os quais os governos locais têm tentado proteger restringindo o uso do produto químico.

O site da Avitrol Corporation afirma “nunca ter recebido relatos” de envenenamentos secundários em 50 anos de operação. Mas um estudo de 2013 publicado na revista científica Journal of Toxicology analisou 29 envenenamentos por Avitrol de espécies secundárias — 25 cães, três gatos e um bovino. Um cão morreu e cinco foram tratados e se recuperaram. Não se sabe o que aconteceu com os outros animais.

A Avitrol Corporation não respondeu a várias solicitações de entrevista.

Pessoas e empresas possuem diferentes razões para quererem se livrar de aves — normalmente, de pombos, mas também de pardais-domésticos, melros-pretos, aves da espécie quiscalus e corvos. Muitas vezes, são consideradas um problema devido às suas fezes, além de sua capacidade de transmitir doenças, incluindo a histoplasmose, infecção  que pode causar febre, calafrios, dores de cabeça e outros sintomas. Os agricultores, por sua vez, podem querer se livrar delas por se alimentarem da ração de seus animais. Contudo, muitos países abandonaram o uso do veneno para controlar aves consideradas “pragas”, segundo a Audubon Society, e os avicidas estão proibidos em grande parte da Europa e no Reino Unido.

Não há nenhuma organização que rastreie o uso de avicidas em nível global, por isso não se sabe exatamente quantos países permitem seu uso ou em que intensidade ele é aplicado.

A EPA rastreia o uso de pesticidas nos Estados Unidos, mas se recusou a compartilhar dados sobre a quantidade utilizada por ano, apesar de vários pedidos de comentários.

‘Uma maneira horrível de morrer’

Um avicida como Avitrol é “extremamente cruel”, alega Stephanie Boyles Griffin, cientista sênior do departamento de proteção da vida selvagem da Humane Society dos Estados Unidos, com sede em Washington, D.C. Por ser uma neurotoxina, veneno que ataca o sistema nervoso, ela explica que Avitrol pode superestimular os sentidos e desencadear convulsões. “Qualquer pessoa que já teve uma convulsão severa… sabe como o evento é traumático.”

A declaração da Avitrol Corporation de que seu produto não é cruel é “uma alegação absurda”, disse Travis Longcore, diretor de ciências do Urban Wildlands Group, uma organização conservacionista sem fins lucrativos com sede em Los Angeles.
FOTO DE CHARLIE HAMILTON JAMES, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

Os habitantes que testemunham aves morrendo nas ruas relatam o ocorrido às autoridades responsáveis pela preservação da vida selvagem. As autópsias muitas vezes revelaram Avitrol como a causa da morte, e alguns governos locais — incluindo os de Nova York, São Francisco, Boulder, Colorado e Portland, no Oregon — proibiram o uso de Avitrol e outros avicidas.

Moradores de Portland ficaram abalados após dois incidentes, em 2014 e 2018, quando corvos “literalmente choviam do céu”, caíam na calçada, e gritavam e batiam as asas, com os olhos revirados, relembra Bob Sallinger, diretor conservacionista na Audubon Society de Portland. “Eles ficavam deitados de lado e se debatiam, tinham convulsões e, depois, morriam”, conta ele. Suas carcaças foram vistas em 30 ou 40 quarteirões da cidade. “Tanto física quanto psicologicamente, essa é uma maneira horrível de morrer.”

Sallinger e alguns colegas da Audubon de Portland coletaram dezenas de aves para análise, e a causa definida foi Avitrol, embora o distribuidor do veneno nunca tenha sido identificado. “O que importava para a nossa comunidade era se a população considerava esse produto aceitável”, explica.

Em uma reunião da câmara municipal em 5 de junho de 2019, a comunidade de Portland respondeu com um “sonoro não”, disse Sallinger. A votação proibiu o uso de Avitrol em áreas de propriedade da cidade. Até mesmo membros da comunidade empresarial local — muitos dos quais recebem incentivos para se livrarem das aves inconvenientes — votaram contra o veneno.

“Não é comum ver ações locais sendo realmente tomadas em relação a pesticidas, mas o veneno em questão sofreu oposição em vários lugares, onde as comunidades se sentiram compelidas a intervir e fazer o que a EPA não se dispôs a fazer”, explica Sallinger. “Acredito que isso represente como o produto é danoso e como é irresponsável utilizá-lo.”

Uso indevido na maior parte do tempo

O rótulo de Avitrol descreve as exigências da EPA para uso correto do produto: distribuição limitada e dispersa em áreas que ofereçam oportunidades de alimentação apenas para o número necessário de aves-alvo.

No entanto especialistas constatam que Avitrol é raramente utilizado da forma correta e Sallinger diz que é difícil, senão impossível, limitar a ingestão de veneno pelas aves.

A EPA relata que apenas profissionais licenciados que passaram por treinamento da agência reguladora de seu estado podem distribuir Avitrol e que o programa de certificação de cada estado é aprovado em nível federal pela agência.Em 2013, a EPA atualizou o rótulo de Avitrol para incluir os locais permitidos de aplicação, a necessidade de monitoramento após a aplicação e a eliminação das aves mortas.

A EPA explica que o “rótulo de um pesticida é considerado lei”. Se um pesticida registrado estiver sendo utilizado “de maneira inconsistente com seu rótulo”, a EPA pode interromper a venda do produto.

Mesmo que os efeitos do avicida sejam “visualmente revoltantes”, conforme apresentado em um estudo publicado no site da Avitrol, a empresa afirma que a distribuição cuidadosa do veneno para assustar bandos de aves pode resultar em “pouca ou nenhuma mortalidade”. A EPA está de acordo: “Dada a baixa mortalidade esperada de aves por meio do uso de Avitrol em comparação com alternativas (por exemplo, matá-las a tiros)”, o produto é considerado “não cruel”.

Porém, Sallinger acrescenta que Portland oferece um exemplo de como as recomendações do rótulo de Avitrol nem sempre são seguidas. O rótulo da EPA exige que os usuários coletem e enterrem ou incinerem as carcaças, mas isso não foi feito com os corvos que morreram em Portland. Sallinger diz que após a carnificina, passou dias recolhendo carcaças e colocando-as em sacos de lixo. “Acredito que a EPA seja negligente ao licenciar o produto porque não há como garantir que as exigências do rótulo sejam cumpridas.”

Bob Sallinger, da Audubon Society de Portland, relata que ele e seus colegas passaram dias reunindo corpos de corvos após mortes generalizadas em 2014 e 2018.
FOTO DE BOB SALLINGER

‘Uma alegação absurda’

Seja Avitrol empregado corretamente ou não, a declaração da empresa sobre o produto ser considerado não cruel é “uma alegação absurda”, contesta Travis Longcore, diretor de ciências do Urban Wildlands Group, uma organização conservacionista sem fins lucrativos com sede em Los Angeles. “Isso causa, no mínimo, extremo desconforto às aves, muito provavelmente dor e, ocasionalmente, sua morte, para ‘assustar’ o restante delas”, conclui ele. “Está claro que é algo desumano”.

Em 2007, a Humane Society dos Estados Unidos contratou Longcore para elaborar um relatório sobre a 4-aminopiridina, a substância ativa de Avitrol. Ao contrário da alegação da Avitrol de que as aves ficam em um “estado deprimido” e “não sentem dor” antes do início das convulsões, Longcore descobriu que a exposição a 4-aminopiridina na verdade “potencializa o que é sentido pelos nervos”, causando uma sensação de formigamento e dor abdominal.

Avitrol aumenta os níveis de acetilcolina, um neurotransmissor que controla as contrações musculares. As pessoas que sofrem de esclerose múltipla às vezes recebem prescrições de medicamentos que contêm a substância 4-aminopiridina. Pacientes que, acidentalmente, tomam uma dose adicional “relatam queimação na garganta e desconforto abdominal seguido de náusea, irritabilidade, fraqueza, tontura, ‘sensação de morte iminente’, sede e falta de ar”, de acordo com o relatório de Longcore. Concentrações suficientemente altas da substância também podem causar convulsões, conforme observado em aves envenenadas com Avitrol.

Em um estudo publicado em seu site, a Avitrol afirma que durante as convulsões, “o animal não sente dor porque não consegue se lembrar do incidente”. O estudo também afirma que essa “observação também se aplica aos seres humanos”. Mas Longcore notou uma escassez de evidências para afirmar que as aves não ficam conscientes durante as convulsões, e agora se sabe que os humanos às vezes permanecem conscientes durante as convulsões focais que se iniciam em uma parte do cérebro.

Por fim, no que concerne à dor, “não podemos perguntar às aves se elas a sentem ou não”, declara Longcore. Mas “não há dúvida de que sentem dor, seja durante a convulsão ou posteriormente, quando se debatem contra o chão”.

Em vez de utilizar veneno contra aves, Portland optou por métodos não cruéis: limpar as fezes desses animais nas calçadas com uma lavadora de alta pressão e soltar aves predadoras para espantar os corvos inconvenientes.
FOTO DE BOB SALLINGER

Alternativas não cruéis

Stephanie Boyles Griffin, da Humane Society, afirma que as pessoas utilizam Avitrol porque acreditam que seja uma “solução rápida”. Porém, “isso claramente não é verdade”, acrescenta. As aves que veem outros membros de sua espécie em perigo podem até ficar assustadas por um tempo, mas elas sempre voltam.

Boyles Griffin, que se descreve como uma “grande fã de pombos”, está segura de que a maioria das pessoas não quer causar sofrimento aos animais silvestres. “As pessoas geralmente são tolerantes com nossos vizinhos selvagens, como os pombos, e quando precisam resolver um problema envolvendo essas aves, preferem uma abordagem não letal e não cruel.”

A boa notícia, segundo Boyles Griffin, é que existem muitas alternativas que “funcionam melhor do que as abordagens cruéis e letais”. Algumas delas requerem uma mudança do comportamento humano — como simplesmente parar de alimentar as aves para que elas não se aglomerem. Instalar redes e espinhos artificiais também pode impedir que pousem em árvores e edifícios próximos a calçadas movimentadas e estátuas, onde seus dejetos costumam ser considerados um problema.

Outra opção é “o controle planejado de pombos”, explica Erick Wolf, CEO da OvoControl, a única empresa que produz rações contraceptivas. Seu produto bloqueia os receptores de esperma nos óvulos das pombas. Se a ração for disponibilizada em comedouros, as aves retornarão todos os dias para se alimentar. Em três meses, o bando e suas fezes começarão a diminuir, esclarece Wolf.

Outra abordagem de limpeza de calçadas, utilizada por Portland durante a carnificina dos corvos, é um equipamento de limpeza que mais se parece um carrinho no qual você pode subir, popularmente conhecido como “Poopmaster 6000” (a palavra poop em inglês significa ‘cocô’). A cidade também contratou falcoeiros para soltar águias-de-harris e afugentar os corvos para outros locais que possam servir de poleiro. Tudo faz parte da “responsabilidade da humanidade de conviver” com a vida selvagem, reitera Sallinger, da Audubon de Portland.

Considerando as diferentes alternativas e a crescente oposição a Avitrol, ele reitera que é chegada a hora de a EPA revogar o registro do veneno. “Há um número crescente de municípios que defendem: ‘Na nossa comunidade não’. Acredito que isso seja muito significativo e que a EPA deva prestar mais atenção no assunto em algum momento.”

De acordo com a EPA, o registro de Avitrol está passando por uma revisão de rotina, que ocorre a cada 15 anos. Provavelmente até o fim deste mês, a agência afirma que irá concluir uma avaliação preliminar dos riscos do avicida, em que caracteriza a natureza e escala dos riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Essas avaliações de risco do produto são feitas regularmente e disponibilizadas para que as pessoas possam analisá-las e comentar. “A EPA avaliará cuidadosamente todos os comentários recebidos durante o período disponibilizado para tal.” Posteriormente, a EPA chegará a uma decisão final sobre a renovação ou não do registro do produto.

Fonte: National Geographic Brasil


Pantanal em chamas e a inércia do Sistema de Gestão Ambiental estatal

 

Pantanal em chamas e a inércia do Sistema de Gestão Ambiental estatal

Pantanal em chamas

Pantanal em chamas e a inércia do Sistema de Gestão Ambiental estatal

O Sistema de Gestão Ambiental estatal revelou-se débil

“E a fumaça nos consumiu como uma nuvem, que aparentemente parecia de chuva, mas era o resultado do fogo” (desabafo de uma ribeirinha na região de Corumbá-MS)

Artigo de Rodrigo Berté

[EcoDebate]

O tradicional sistema de regulação estatal na gestão ambiental brasileira, por leis, regulações e fiscalização, revelou-se incapaz de proteger o meio ambiente e preservar os recursos naturais.

Esse foi o cenário de caos vivido pelas queimadas no Pantanal mato-grossense e, a inércia do poder público em criar programas mais eficazes de monitoramento de emergências ambientais, quando da materialização do risco ambiental.

Porque dizemos materialização do risco ambiental?

No contexto de danos ambientais e prevenção, temos técnicas importantes para avaliar um risco ambiental e evitar que o mesmo se materialize. Parece até certo ponto fácil, mas não é. No caso da seca prolongada no Pantanal, que ocorre todos os anos, e na sequência vem a chuva para amenizar, as autoridades deveriam criar planos de contingência ou emergências socioambientais, e neste período, monitorar todas as áreas mais sensíveis com o objetivo de evitar a materialização do risco, ou seja, o caso de um indivíduo vir a atear fogo.

Era comum no passado, os fazendeiros neste período atearem fogo no pasto, porque com a chuva o solo rebrota e pode ser utilizado por mais alguns anos. Porém, não podemos mais admitir esse cenário. Há outras técnicas, orientadas pela engenharia agronômica que são eficazes para melhorar a pastagem.

Estudar o passado e entender o presente é antecipar o futuro. Neste artigo, podemos entender a ciência e a história em ação. Medidas adotadas no passado não servem mais. A atuação estatal nesta matéria deveria estar melhor preparada, o que não ocorre em nosso país.

Atribui-se a este século, um clima de pessimismo perturbante, as alterações climáticas são uma realidade, as fontes de água estão em processos de esgotamento, a terra arável e o petróleo cada vez mais escassos, ecossistemas inteiros estão por desaparecer. Confirmou-se ainda uma explosão demográfica e fenômenos econômicos de pequena e larga escala que estão por ser alterados com consequências ainda por apurar. Como podemos alterar esse cenário? Como tonar o sistema estatal de fiscalização ambiental mais eficiente? Qual o poder dos cidadãos, da sociedade civil e dos consumidores?

Essa tríade de perguntas, talvez, levássemos tempo para responder. Mas acredito que com o esforço do cidadão e uma responsabilidade maior de reparação de danos causados ao meio ambiente, se tornaria mais eficiente a ação do Estado, para garantir que as gerações vindouras tenham um futuro melhor.

Rodrigo Berté é diretor da Escola de Saúde, Biociências, Meio Ambiente e Humanidades do Centro Universitário Internacional Uninter.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/10/2020

Perda atual de espécies afeta diretamente a vida dos humanos

 

Perda atual de espécies afeta diretamente a vida dos humanos

 

biodiversidade

A perda atual de espécies afeta diretamente a vida dos humanos no que diz respeito à nutrição, abastecimento de água, materiais de construção e fontes de energia. 

Isso é confirmado pelo Jena Experiment, um dos maiores experimentos sobre biodiversidade em que cientistas do Karlsruhe Institute of Technology (KIT) estiveram envolvidos.

Karlsruhe Institute of Technology (KIT)

O consórcio Jena agora relata na Nature Ecology & Evolution que as funções do ecossistema não podem apenas ser previstas a partir das propriedades das plantas, mas que toda a complexidade das interações bióticas e abióticas deve ser considerada. (DOI: 10.1038 / s41559-020-01316-9)

A biodiversidade na Terra, incluindo a diversidade de espécies, a diversidade genética dentro das espécies e a diversidade dos ecossistemas, é a base da vida de todos os organismos, incluindo os humanos.

Os processos fundamentais dependem da biodiversidade, como o crescimento das plantas e a estabilidade dos ciclos materiais. No entanto, a diversidade biológica está diminuindo continuamente. Segundo os pesquisadores, essa perda atingiu, entretanto, uma extensão alarmante. Por esse motivo, inúmeros estudos e experimentos científicos abordam a importância da biodiversidade para o funcionamento dos ecossistemas e seu uso pelo homem.

A perda de espécies tem consequências diretas para os humanos

Um dos maiores e mais longos projetos sobre biodiversidade é o Experimento Jena, que foi financiado pela Fundação de Pesquisa Alemã de 2002 a 2019 (DFG; grupos de pesquisa FOR 456 e FOR 1451) e coordenado pela Universidade Jena. No experimento, pesquisadores de diferentes instituições científicas estudaram os efeitos da biodiversidade nas pastagens. Por meio da quantificação abrangente dos ciclos dos principais elementos químicos e da investigação dos processos acima do solo e subterrâneos, eles determinaram os mecanismos básicos. O professor Wolfgang Wilcke, chefe do Grupo de Geomorfologia e Ciência do Solo do Instituto de Geografia e Geoecologia do KIT (IFGG), e a Dra. Sophia Leimer, cientista e membro deste grupo, participaram do experimento e estudaram a relação entre a diversidade de plantas e o nitrogênio e ciclo do fósforo.

“As descobertas do Experimento Jena confirmam que a perda atual de espécies tem consequências diretas para a humanidade”, diz Wilcke. “Como resultado, funções da natureza que aparentemente podem ser consideradas óbvias são interrompidas.” Segundo o geoecólogo, exemplos são a produção de biomassa para alimentos, tecidos, materiais de construção e combustíveis, além dos ciclos de água e nutrientes. Suas mudanças têm impactos graves, como inundações, secas ou poluição das águas subterrâneas. “Para interromper esse desenvolvimento e proteger a diversidade de espécies, são necessárias mais pesquisas e medidas práticas em todos os níveis, desde o consumidor individual até governos nacionais e organismos internacionais”, continua Wilcke.

A importância da biodiversidade só pode ser determinada por pesquisa interdisciplinar

Em uma série de três publicações na Nature Ecology & Evolution, o consórcio Jena publicou os principais resultados entre 2018 e 2020: Quanto mais funções do ecossistema, como um ciclo fechado de nutrientes, e os serviços do ecossistema resultantes (por exemplo, produção de biomassa) forem alcançados, mais espécies de plantas são necessárias, dizem os cientistas.

Junto com o Experimento BioDIV nos EUA, o consórcio Jena descobriu que os resultados de experimentos artificiais, nos quais misturas de espécies de plantas eram geralmente compostas de forma aleatória, são estáveis ​​e podem ser transferidos para o mundo natural.

Em sua publicação mais recente, o Experimento Jena conclui que as funções e serviços do ecossistema não podem ser previstos apenas a partir das propriedades das plantas. É mais necessário considerar toda a complexidade das interações bióticas e abióticas de um ecossistema, ou seja, todas as interações na natureza viva e não viva.

Publicações

Meyer, S.T., R. Ptacnik, H. Hillebrand, H. Bessler, N. Buchmann, A. Ebeling, N. Eisenhauer, C. Engels, M. Fischer, S. Halle, A.-M. Klein, Y. Oelmann, C. Roscher, T. Rottstock, C. Scherber, S. Scheu, B. Schmid, E.-D. Schulze, V.M. Temperton, T. Tscharntke, W. Voigt, A. Weigelt, W. Wilcke, and W.W. Weisser (2018): Biodiversity-multifunctionality relationships depend on identity and number of measured functions. Nat Ecol Evol 2, 44-49, published online on November 27, 2017, DOI: 10.1038/s41559-017-0391-4

Jochum, M., M. Fischer, F. Isbell, C. Roscher, F. van der Plas, S. Boch, G. Boenisch, N. Buchmann, J.A. Catford, J. Cavender-Bares, A. Ebeling, N. Eisenhauer, G. Gleixner, N. Hölzel, J. Kattge, V.H. Klaus, T. Kleinebecker, M. Lange, G. Le Provost, S.T. Meyer, R. Molina-Venegas, L. Mommer, Y. Oelmann, C. Penone, D. Prati, P.B. Reich, A. Rindisbacher, D. Schäfer, S. Scheu, B. Schmid, D. Tilman, T. Tscharntke, A. Vogel, C. Wagg, A. Weigelt, W.W. Weisser, W. Wilcke, and P. Manning (2020): The results of biodiversity-ecosystem functioning experiments are realistic. Nat Ecol Evol, published online on August 24, 2020, DOI: 10.1038/s41559-020-1280-9

van der Plas, F., T. Schröder-Georgi, A. Weigelt, K. Barry, S.T.Meyer, A. Alzate, R.L. Barnard, N. Buchmann, H. de Kroon, A. Ebeling, N. Eisenhauer, C. Engels, M. Fischer, G. Gleixner, A. Hildebrandt, E. Koller-France, S. Leimer, A. Milcu, L. Mommer, P.A. Niklaus, Y. Oelmann, C. Roscher, C. Scherber, M. Scherer-Lorenzen, S. Scheu, B. Schmid, E.-D. Schulze, V. Temperton, T. Tscharntke, W. Voigt, W.W. Weisser, W. Wilcke, and C. Wirth (2020): Plant traits alone are poor predictors of ecosystem properties and long-term ecosystem functioning. Nat Ecol Evol, published online on October 05, 2020, DOI: 10.1038/s41559-020-01316-9

Para a última publicação:
https://www.nature.com/articles/s41559-020-01316-9

Mais informações sobre o Experimento Jena:
http://the-jena-experiment.de

Mais sobre o KIT Climate and Environment Center:
http://www.klima-umwelt.kit.edu/english

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/10/2020