terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

As ocultas marcas deixadas pelo homem no leito mais profundo do oceano

 


As ocultas marcas deixadas pelo homem no leito mais profundo do oceano

Longe do continente, as tentativas de mineração em alto mar deixaram marcas que ainda perduram décadas depois – GEOMAR/MININGIMPACT PROJECT

No fundo do Oceano Pacífico, a centenas de quilômetros da terra, há algumas marcas curiosas em seu leito que nenhum animal poderia ter feito. Algumas parecem estreitos canais esculpidos no lodo claro. Outras se assemelham a marcas de garras, escavadas nos ecossistemas das profundezas marinhas por um monstro subaquático.

A humanidade deixou muitas marcas na superfície da Terra, mas esses traços de longa data no fundo do mar permanecem praticamente invisíveis. Ocasionalmente, eles são iluminados pelos refletores de veículos submersíveis operados remotamente, mas logo em seguida voltam à escuridão. Estão lá há décadas. Assim como as pegadas e rastros que os astronautas deixaram na Lua, ainda são visíveis agora, não há nada para apagá-los.

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A trilha que aparece na imagem do topo deste artigo tinha 37 anos quando foi fotografada há alguns anos, enquanto as marcas abaixo datam de 1989.

Essas marcas deliberadas no leito do oceano tinham 26 anos nesta foto tirada em 2015 – GEOMAR/MININGIMPACT PROJECT

Essas marcas, que remontam às décadas de 1970 e 1980, são as primeiras tentativas dos ensaios de mineração em alto mar, deixadas para trás por navios equipados com dragas e arados, que partiram há muito tempo.

Recentemente, cientistas voltaram com câmeras e sondas para ver o que aconteceu com os ecossistemas locais — e o que eles encontraram são cicatrizes que nunca foram totalmente curadas.

Logo, haverá muito mais trilhas como essas esculpidas em todas as planícies abissais do oceano, uma das últimas áreas selvagens intocadas do planeta. O que as futuras gerações podem fazer com elas, e o que vão dizer sobre a busca da humanidade por recursos naturais no início do século 21?

Para entender por que essas marcas estão lá — e por que são importantes — precisamos mergulhar em um mar pré-histórico.

Um dia, um tubarão perdeu um dente, que afundou centenas de metros até o leito do oceano. Gradualmente, conforme a precipitação de metais a partir da água do mar se acumula no sedimento, o dente é revestido de minerais. E assim começa um dos fenômenos geológicos mais lentos da Terra: o crescimento de um nódulo polimetálico.

Nem todos começam com um dente — outros contêm fragmentos de conchas, de ossos ou nada — mas o ritmo lento de crescimento é sempre o mesmo. Eles levam milhões de anos para crescer apenas alguns centímetros. Mas com o tempo, se tornaram tão abundantes que cobrem grandes áreas da planície abissal do oceano.

Os nódulos foram descobertos durante uma viagem do HMS Challenger, navio da Marinha Real Britânica, em 1873. Quando trouxeram os depósitos minerais à superfície, os marinheiros os teriam agarrado com as mãos, fazendo-os esfarelar nas bordas.

Ao toque, eles deviam parecer mais suaves na parte de cima, mas ásperos na parte inferior, como pedra-pomes, onde haviam crescido envolvendo grãos sedimentares. Se tivessem levado ao nariz, não teriam detectado nenhum cheiro.

O químico da expedição foi um dos primeiros a notar que os nódulos não eram insignificantes. Eles eram feitos de “peróxido de manganês”, escreveu ele, que é “uma das principais substâncias utilizadas na fabricação de alvejante”. Sua localização remota, no entanto, significava que “eles nunca poderiam se tornar uma fonte rentável de suprimento”.

Mal sabia aquele químico como eles seriam importantes — para os organismos das profundezas do oceano e, mais tarde, para os seres humanos.

Anos depois, os cientistas descobririam que esses nódulos são como ilhas para algumas formas de vida. A planície abissal em que se encontram representa 50% da superfície da Terra — uma dimensão sublime que pode ser difícil de imaginar.

Se os oceanos fossem removidos repentinamente, veríamos que metade do nosso planeta é um vasto deserto de sedimentos soltos.

Em meio a essa planície árida, os nódulos oferecem uma superfície rara e firme para a vida se agarrar. Algumas esponjas e moluscos são específicos deles, enquanto nematelmintos e larvas de crustáceos foram encontrados vivendo em suas fendas.

Nódulos polimetálicos encontrados no sudeste do Oceano Pacífico ao longo do Peru – GEOMAR/MININGIMPACT PROJECT

“Eles são como as áreas rochosas em um jardim — você vai ter mais espécies vivendo lá do que se tivesse apenas terra”, diz Daniel Jones, do National Oceanography Centre em Southampton, no Reino Unido, que estuda os efeitos das intervenções humanas na vida marinha.

Mas, recentemente, esses nódulos também chamaram a atenção de um mamífero terrestre voraz, que precisa deles para seus smartphones. O que aquele químico da expedição de 1873 não identificou é que os nódulos também contêm metais, como cobalto, níquel, cobre, titânio e elementos de terras-raras. E que estes um dia teriam um valor imenso para os seres humanos.

À medida que a tecnologia do século 21 avança, também aumenta a demanda por matéria-prima, como o cobalto, que é usado em baterias íon lítio de carros e eletrônicos. O problema é que, atualmente, grande parte do material é proveniente de fontes problemáticas.

A República Democrática do Congo extrai mais de 60% do suprimento mundial de cobalto de minas terrestres, mas a atividade no país foi associada a abusos de direitos humanos e trabalho infantil.

Isso torna os nódulos oceânicos um alvo cada vez mais atraente, apesar dos enormes desafios de engenharia para chegar até eles. Em uma região do Pacífico — a Clarion Clipperton Zone (CCZ) —, uma estimativa conservadora sugere que há cerca de 20 bilhões de toneladas, se os nódulos forem removidos e secos.

Embora por décadas sua exploração tenha sido considerada não rentável, várias organizações de mineração estão se mobilizando agora para removê-los, junto com outros tipos de depósitos minerais subaquáticos. Se for adiante, centenas de quilômetros quadrados serão dragados por ano.

Qual será o impacto disso? Nas décadas de 1970 e 1980, pesquisadores e empresas de mineração deram os primeiros passos na tentativa de avaliar a viabilidade e as consequências ambientais.

Em várias áreas dentro da CCZ, assim como em outro local próximo ao Peru chamado Discol (DIS-turbance and re-COL-onisation), navios arrastaram ancinhos e arados de metal especializados sobre o leito do Pacífico para recolher os nódulos e trazê-los para a superfície.

Embora não simule exatamente o maquinário de dragagem planejado para futuras minas, e a escala seja muito menor, seus efeitos oferecem algumas das melhores evidências que temos.

Os nódulos polimetálicos foram descobertos em 1800, mas até recentemente só haviam despertado interesse científico – ALAMY

Em alguns casos, os rastros foram deixados para trás por cientistas curiosos sobre o que aconteceria com um ecossistema intocado. Em outros, foram as próprias organizações de mineração emergentes, testando suas tecnologias de extração. Uma tentativa chegou a envolver, inclusive, a CIA, agência de inteligência americana.

A Ocean Minerals Company (OMCO), um consórcio de grupos da indústria liderado pelo que agora é a Lockheed Martin, realizou testes de extração no Hughes Glomar Explorer. Este navio mais tarde ganharia fama por outros motivos — ele também carregava uma garra gigante projetada para uma tentativa secreta de içar um submarino russo do fundo do mar.

Anos mais tarde, à medida que os planos para a mineração em alto mar se aceleravam e licenças exploratórias eram emitidas, os pesquisadores voltaram a esses locais no Pacífico para estudar os efeitos de longo prazo. O que eles descobriram é que, mesmo após décadas, a vida nessas trincheiras artificiais ainda não voltou ao normal.

Em terra, a vida tende a brotar nas cavidades aradas de um campo, mas nas profundezas do mar, as trincheiras são relativamente estéreis. As criaturas que dependiam dos nódulos, agora removidos, não podem recolonizar.

E outras, que requerem sedimentos moles para escavar e encontrar alimento, não podem viver nas superfícies compactadas artificialmente.

“As comunidades desses nódulos nas planícies abissais serão especialmente vulneráveis ​​ao risco de extinção causado pelos esforços para extraí-los”, concluiu Lara Macheriotou, da Ghent University, na Bélgica, e seus colegas em um artigo publicado no início de 2020.

E é possível, dizem os cientistas, que tais efeitos durem centenas ou até milhares de anos.

A socióloga Barbara Adam propôs certa vez que o mundo pode ser pensado em termos de “timescapes” adjacentes, que são caracterizados por seu ritmo.

Ela descreveu como as escalas de tempo industriais ou agrícolas se movem em um ritmo muito mais rápido do que as naturais e ecológicas. Todos esses regimes temporais estão interligados, mas quando um é forçado a se mover no ritmo do outro, o dano ambiental de longo prazo se torna um risco.

Uma anêmona do mar e uma esponja agarrada a um nódulo polimetálico – GEOMAR/MININGIMPACT PROJECT

timescape das profundezas do oceano é lento e paciente. Portanto, quando a humanidade envia seu maquinário para lá para remover recursos naturais submarinos, há dois regimes diferentes de tempo colidindo: o ritmo de uma planície abissal versus uma ânsia desenfreada e de curto prazo por novas tecnologias.

A profundeza dos oceanos não poderia estar mais distante dos ecossistemas verdejantes e das sociedades apressadas que povoam os continentes. As temperaturas na planície abissal oscilam perto de zero, a pressão é esmagadora e quase não há luz.

Os organismos que se agarram à vida sobrevivem com uma dieta de “neve marinha”. Essa tempestade contínua de detritos orgânicos, geralmente digeridos três ou quatro vezes, cai da parte mais próxima da superfície do mar.

“É um ambiente com baixa temperatura, pouca comida e pouca energia, e isso tende a definir o ritmo de vida”, diz Jones.

“Os animais não estão sujeitos às mudanças físicas extremas que você tem em águas rasas. Esta é provavelmente uma área onde qualquer distúrbio é duradouro.”

Mas, embora essas regiões possam parecer desertos do mar — certamente em comparação com os vibrantes corais de águas rasas tropicais —, elas são grandes reservatórios de biodiversidade e desempenham um papel vital no ciclo do carbono por meio do sequestro natural.

“Muitos dos animais que vemos são novos para a ciência… e alguns organismos têm compostos ativos farmaceuticamente”, diz Jones.

No longo prazo, também há potencial para interação com a atividade pesqueira mais acima na coluna de água.

“Há funções desempenhadas por essas comunidades que podem não se tornar valiosas por séculos em alguns casos.”

Ao contrário de outros residentes, os pepinos-do-mar podem se mover pela superfície dos sedimentos – GEOMAR/MININGIMPACT PROJECT

Muitas vezes não conseguimos ver a vida dentro deste vasto espaço, porque é muito pequena e dispersa demais para se capturar sua dimensão com uma fotografia. Não há megafauna carismática para exibir em cartazes. Mas a vida existe em uma diversidade impressionante e cobre metade do nosso planeta.

Alguns podem argumentar que danificar a vida nas profundezas do oceano é um sacrifício que vale a pena ser feito, se comparado aos abusos de direitos humanos cometidos em minas na África.

No entanto, é improvável que um tipo de mineração simplesmente substitua o outro, diz David Santillo, do Greenpeace Research Laboratories da Universidade de Exeter, no Reino Unido, que recentemente foi coautor de uma análise sobre mineração no fundo do mar e seus potenciais impactos publicada na revista científica Frontiers in Marine Science.

“Há diferentes empresas envolvidas, diferentes mercados de certa forma, diferentes pressões por parte da demanda e incentivos… então, se a mineração no fundo do mar decolar, é mais provável que se torne simplesmente uma fonte adicional de minerais.”

Embora a importância da vida nas profundezas do oceano possa ser difícil de quantificar em termos morais ou econômicos, ela tem um valor intrínseco. E o fato de suas escalas de tempo lentas e de longo prazo serem interrompidas tão rápido deveria ser motivo para cautela, de acordo com os cientistas com quem conversei.

Quanto às trilhas dragadas, se as futuras gerações um dia as encontrarem no fundo do oceano, elas terão perdurado por muito tempo além da vida útil do smartphone, laptop ou carro elétrico que ajudou a esculpi-las.

Nas palavras de David Farrier, autor do livro Footprints, esses vestígios acabam por se tornar os “futuros fósseis”. Na era do Antropoceno, Farrier argumenta que estamos deixando para trás ​​heranças industriais, químicas e geológicas indesejáveis que persistirão por séculos.

“Os futuros fósseis são nosso legado e, portanto, nossa oportunidade de escolher como seremos lembrados”, escreve ele.

Criaturas maiores são raras nesses ambientes – DANIEL JONES

“Eles vão registrar se continuamos imprudentes, apesar dos perigos que sabíamos que estavam à frente, ou se nos importamos o suficiente para mudar nosso rumo. Nossas pegadas vão revelar como vivemos para quem ainda estiver por aqui para descobri-las, sugerindo as coisas que estimamos ou negligenciamos, as jornadas que fizemos e a direção que escolhemos seguir.”

É possível que essas marcas possam ser interpretadas como um sinal contundente de nossos hábitos de consumo no início do século 21.

“Se vamos ficar sem certos minerais, a menos que destruamos uma grande área do leito oceânico, então certamente este é o sinal para repensar o quão esbanjadores estamos sendo com os minerais que temos”, diz Santillo.

“Se o que acabamos fazendo com a mineração no fundo do mar é simplesmente estender os padrões de consumo insustentáveis ​​por mais 30 anos, ou até mesmo acelerá-los trazendo ainda mais produtos para o mercado… não teremos mudado nada.”

Sentado em Londres enquanto escrevo este artigo, meu mundo é pequeno e de curto prazo, circunscrito às restrições do lockdown no Reino Unido e do home office.

No entanto, minha mente vagou nas últimas semanas de volta às planícies abissais. Em uma época em que muitos dos mapas que vejo traçam a propagação do coronavírus, eis uma região do planeta que não poderia estar mais distante da pandemia.

Talvez parte do que me atrai seja o extremo absoluto deste deserto oceânico. Provavelmente nunca vou conseguir ver com meus próprios olhos. Até mesmo os cientistas que o estudam agora usam câmeras operadas remotamente, em vez de descerem eles próprios até o leito do oceano.

O fundo do mar, e a vida dentro dele, tem uma escala que desafia a imaginação, tanto espacial quanto temporalmente. Não é afetado pelo o que está acontecendo em terra — e isso é verdade há milênios.

Outro tipo de rastro — uma espiral curiosa deixada por uma minhoca do mar, observada acima por uma água-viva – GEOMAR/MININGIMPACT PROJECT

No entanto, este pode ser o século em que isso vai mudar; onde deixaremos muito mais do que um ou dois fragmentos no fundo do oceano.

Quando os pesquisadores falam sobre intervenções humanas no fundo do mar, uma palavra que costumam usar é “distúrbio”. Na linguagem científica, se refere à suspensão e dispersão de pluma de sedimentos e os efeitos nas comunidades submarinas. Mas a palavra distúrbio tem outro significado — também é um transtorno irracional.

Fonte: BBC

A poluição sonora “afoga a paisagem sonora do oceano”

 


A poluição sonora “afoga a paisagem sonora do oceano”

O ruído colocado no oceano afeta os mamíferos marinhos, como as baleias jubarte, que se comunicam a longas distâncias com canções complexas. Fonte: WEGNER INSTITUTE.
O ruído colocado no oceano afeta os mamíferos marinhos, como as baleias jubarte, que se comunicam a longas distâncias com canções complexas. Fonte: WEGNER INSTITUTE.

O ruído do transporte, construção, sonar e pesquisas sísmicas está “abafando” a paisagem sonora saudável do oceano, dizem os cientistas.

E um “corpo avassalador de evidências” revelou o dano causado pelo ruído humano à vida marinha.

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“Degradamos habitats e esgotamos as espécies marinhas”, disse o professor Carlos Duarte, que liderou o estudo.

“Portanto, silenciamos a trilha sonora do oceano saudável e a substituímos pelo som que criamos.”

Escrevendo na revista Science, Prof. Duarte, da Universidade King Abdullah, Arábia Saudita, e seus colegas apontam que as ondas sonoras podem viajar milhares de quilômetros através do oceano.

Os pesquisadores afirmam que as evidências do dano que a poluição sonora do oceano pode causar vêm crescendo há décadas. Fonte: ALAMY.
Os pesquisadores afirmam que as evidências do dano que a poluição sonora do oceano pode causar vêm crescendo há décadas. Fonte: ALAMY.

“O som é uma pista fundamental para alimentação, navegação, comunicação e interação social no oceano”, disse ele à BBC News.

Grande parte das décadas de pesquisa sobre o som do oceano se concentrou em mamíferos marinhos, como as baleias jubarte, que se comunicam através de grandes distâncias com canções complexas e misteriosas.

Mas o professor Duarte disse que há evidências de que até larvas de peixes recém-eclodidas agora são incapazes de ouvir “o chamado de casa” quando flutuam no vasto oceano.

“Agora sabemos que [essas minúsculas larvas] ouvem o chamado de seu habitat e o seguem”, disse ele.

“E esse chamado não está mais sendo ouvido.”

A cientista marinha Dra. Heather Koldewey, da Sociedade Zoológica de Londres, disse que o reino subaquático era uma “cacofonia de sons quando os animais se encontram, cumprimentam, se reproduzem e usam o ruído de várias maneiras”.

“É um aspecto importante, mas esquecido, do que constitui um oceano saudável”, acrescentou ela.

A paisagem sonora mesmo dos ambientes oceânicos mais primitivos foi alterada pela atividade humana. Fonte: VICTORIA GILL.
A paisagem sonora mesmo dos ambientes oceânicos mais primitivos foi alterada pela atividade humana. Fonte: VICTORIA GILL.

Mas os cientistas apontaram que o isolamento global revelou a rapidez e a facilidade com que o problema da poluição sonora poderia ser resolvido.

“No ano passado, quando 60% de todos os humanos estavam em isolamento social, o nível de ruído humano [no oceano] diminuiu cerca de 20%”, disse o prof. Duarte.

“Essa redução relativamente modesta foi o suficiente para uma onda de observações.”

“Grandes mamíferos marinhos – os mais fáceis de observar – foram vistos perto da costa e em cursos d’água onde não eram vistos há gerações.”

Um mergulhador grava a paisagem sonora do oceano. Fonte: MICHELLE HAVLIK.
Um mergulhador grava a paisagem sonora do oceano. Fonte: MICHELLE HAVLIK.

E isso mostrou que lidar com essa “antrofonia” marinha era o “fruto mais fácil” para a saúde dos oceanos.

“Se olharmos para a mudança climática e a poluição por plástico, é um caminho longo e doloroso para a recuperação”, disse o professor Duarte.

“Mas no momento em que abaixamos o volume, a resposta da vida marinha é instantânea e surpreendente.”

Fonte: BBC News / Victoria Gill
Tradução: Redação Ambientebrasil / Maria Beatriz Ayello Leite
Para ler a reportagem original em inglês acesse:
 https://www.bbc.com/news/science-environment-55939344

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Aviso de água: a ameaça crescente das represas que envelhecem no mundo

 Aviso de água: a ameaça crescente das represas que envelhecem no mundo


Dezenas de milhares de grandes represas em todo o mundo estão chegando ao fim de sua expectativa de vida, levando a um aumento dramático de falhas e colapsos, descobriu um novo estudo da ONU. Essas estruturas em deterioração representam uma séria ameaça para centenas de milhões de pessoas que vivem a jusante.


POR FRED PEARCE • 3 DE FEVEREIRO DE 2021






Quem gostaria de viver a jusante da represa Mullaperiyar de 125 anos, situada em uma zona sísmica das montanhas Gates Ocidentais na Índia? A relíquia de 50 metros de altura da engenharia imperial britânica rachou durante pequenos terremotos em 1979 e 2011. De acordo com um estudo de 2009 por engenheiros sísmicos do Instituto Indiano de Tecnologia, ela pode não resistir a um forte terremoto maior que 6,5 na escala Richter.


Três milhões de pessoas vivem rio abaixo da barragem. Mas suas demandas para que seja esvaziado são retidas por um longo processo legal na Suprema Corte do país entre Kerala, o estado sob ameaça, e Tamil Nadu, o estado rio acima que opera a barragem para obter água de irrigação e energia hidrelétrica.


Ou que tal viver abaixo da Barragem de Kariba, construída pelos britânicos no Rio Zambeze na África Austral há 62 anos? Naquela época, era visto como o equivalente africano da Represa Hoover. Mas, em 2015, os engenheiros descobriram que a água liberada pelas comportas abriu um buraco com mais de 260 pés de profundidade no leito do rio, causando rachaduras e ameaçando derrubar a barragem de concreto, que tem 420 pés de altura e retém o maior lago artificial do mundo.


A jusante estão cerca de 3,5 milhões de pessoas, bem como outra barragem gigante, a Cahora Bassa em Moçambique, que os engenheiros temem que provavelmente romperia se atingida pelas cheias de uma falha de Kariba. Apesar da urgência, o trabalho de reparo de $ 300 milhões não será concluído até 2023, no mínimo.


O Banco Mundial estimou que já existem 19.000 grandes barragens com mais de 50 anos.

Ambas as barragens exemplificam a mistura potencialmente perigosa de deterioração estrutural, risco crescente e inércia burocrática destacada em um novo estudo pioneiro sobre os riscos crescentes do envelhecimento das barragens no mundo, publicado em janeiro pela Universidade das Nações Unidas (UNU), o braço acadêmico e de pesquisa da ONU. Ele adverte que um legado crescente de barragens em ruínas após sua vida útil está causando um aumento dramático em quebras de barragens, vazamentos e vazamentos de água de emergência que ameaçam centenas de milhões de pessoas que vivem rio abaixo. Enquanto isso, os inspetores de segurança não conseguem acompanhar a carga de trabalho.


O século 20 foi um período de expansão para os construtores de barragens. O pico, principalmente na Ásia, foi de meados da década de 1950 a meados da década de 1980, quando as barragens estavam em voga para gerar hidroeletricidade e armazenar água para irrigar as plantações e manter o fluxo das torneiras, bem como para suavizar o fluxo dos rios para evitar enchentes e melhorar navegação.


Mas o boom acabou. “Algumas décadas atrás, mil grandes barragens eram construídas a cada ano; agora caiu para cerca de cem ”, disse o co-autor do relatório Vladimir Smakhtin, do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da UNU em Hamilton, Canadá, à Yale Environment 360. A maioria dos locais procurados por engenheiros de barragens, como em vales estreitos, foram conectados. As represas agora protegem a maioria dos rios do mundo e podem armazenar o equivalente a um sexto de seu fluxo anual total. Enquanto isso, aumentam as preocupações ambientais e sociais com a inundação de terras e a destruição dos ecossistemas de rios, e há muitas alternativas para gerar energia de baixo carbono, diz Smakhtin.


Um helicóptero joga sacos de areia na barragem Toddbrook, de 188 anos, na Inglaterra, depois que o colapso de um vertedouro forçou uma cidade próxima a evacuar em 2019.

Um helicóptero joga sacos de areia na Barragem Toddbrook de 188 anos, na Inglaterra, depois que um vertedouro forçou uma cidade próxima a evacuar em 2019. LEON NEAL / GETTY IMAGES


Portanto, o estoque mundial de grandes barragens, definidas como aquelas com mais de 15 metros (49 pés), está envelhecendo rapidamente. O Banco Mundial estimou no ano passado que já existem 19.000 grandes barragens com mais de 50 anos, o que o estudo da UNU conclui ser a vida útil típica antes de precisar de grandes reparos ou remoção.


A Grã-Bretanha e o Japão têm as barragens mais antigas, com média de 106 e 111 anos, respectivamente. As barragens dos EUA têm uma média de 65 anos. Mas a China e a Índia, os epicentros da mania de construção de barragens de meados do século 20, não estão muito atrás, com idade média de suas 28.000 grandes barragens agora 46 e 42 anos, respectivamente. “Em 2050, a maior parte da humanidade viverá a jusante de grandes barragens construídas no século 20” que estão “sob risco crescente de falha”, diz o relatório da UNU.


Esse legado crescente de barragens antigas apresenta riscos de segurança cada vez maiores, à medida que suas estruturas se tornam mais frágeis e a mudança climática aumenta o estresse sobre elas, aumentando os fluxos extremos dos rios, diz Smakhtin. O relatório constata um aumento acentuado na taxa de rompimento de barragens desde 2005. Não há banco de dados global, diz a coautora Duminda Perera, também da UNU. Mas ele encontrou relatórios de mais de 170 falhas entre 2015 e 2019, enquanto antes de 2005 a média estava abaixo de quatro por ano.


No mês passado, a barragem de Kandesha na Zâmbia, construída na década de 1950, desabou devido a fortes chuvas, deslocando milhares de pessoas. Em junho passado, uma barragem de irrigação de 55 anos na região de Guangxi, na China, cedeu, depois que sua parede de 492 pés foi inundada por fortes chuvas. Um mês antes, duas velhas represas em Michigan desabaram durante uma forte chuva - a represa Edenville de 96 anos no rio Tittabawassee desencadeou uma enchente que demoliu a represa Sanford de 94 anos rio abaixo.


Os engenheiros de barragens dizem que as maiores ameaças nas próximas décadas provavelmente estarão na China e na Índia.

Em agosto de 2019, uma das barragens mais antigas da Grã-Bretanha quase falhou. Cerca de 1.500 habitantes da cidade de Whaley Bridge foram expulsos de suas casas após a inundação do vertedouro Toddbrook Dam, de 188 anos, construída para fornecer água a um canal, que desabou em fortes chuvas, derramando água que começou a consumir a própria represa, aumentando o temor de que a estrutura desabasse e engolisse a cidade.


Em 2017, um vertedouro desabou na represa Oroville, de 50 anos, no sopé da Serra Nevada da Califórnia. Isso causou a evacuação de cerca de 180.000 pessoas. A barragem de 770 pés é a mais alta dos EUA e, após reparos no vertedouro, permanece crítica para o abastecimento de água do estado.


Os engenheiros de barragens dizem que as maiores ameaças nas próximas décadas provavelmente estarão na China e na Índia. Ambos os países sofreram no passado rompimentos de barragens que mataram dezenas de milhares. Em 1979, a desintegração da barragem de Machchhu em Gujarat, Índia, durante uma enchente, matou até 25.000 pessoas.


Quatro anos antes, a barragem de Banqiao em Henan, China, explodiu, enviando uma onda de água com 7 milhas de largura e 6 metros de altura rio abaixo a 30 milhas por hora. Ele matou cerca de 26.000 pessoas diretamente, incluindo toda a população da cidade de Daowencheng. Cerca de 170.000 morreram durante a fome e as epidemias que se seguiram. O desastre foi considerado a falha estrutural mais mortal da história. Foi mantido em segredo de estado por muitos anos.


A água é liberada da barragem Sanmenxia na província de Henan, China, em 2019, para evitar o transbordamento da barragem.

A água é liberada da barragem Sanmenxia na província de Henan, China, em 2019, para evitar o transbordamento da barragem. SUN MENG / VCG VIA GETTY IMAGES


Ambos os desastres envolveram jovens barragens, com 20 e 23 anos, respectivamente. Ainda assim, sua morte sugere que pode haver muito mais bombas temporais daquela época.


A China tem cerca de 24.000 grandes barragens. Muitos datam dos dias da Revolução Cultural, quando a ideologia maoísta superou as proezas da engenharia na corrida para o desenvolvimento econômico. Um terço das barragens do país foram "consideradas de alto risco por causa da obsolescência estrutural e / ou falta de manutenção adequada", concluiu uma análise de 2011 por Meng Yang, agora da Universidade Huazhong de Ciência e Tecnologia.


Na Índia, a diretora da Comissão Central de Água, Jade Harsha, alertou em 2019 que o país teria mais de 4.000 grandes barragens com mais de 50 anos até 2050. Mais de 600 já têm meio século. Barragens que o primeiro primeiro-ministro da Índia, Jawaharlal Nehru, em 1954, chamou de "os templos da Índia, onde eu adoro", agora são edifícios antigos cuja segurança Harsha agora vê como "pontos cegos nas políticas de água da Índia".


O Banco Mundial concorda. Em dezembro passado, ela anunciou um empréstimo de US $ 250 milhões para a Índia para um projeto em andamento para "fortalecer a segurança das barragens", com melhores inspeções e gestão das grandes barragens do país, que retêm 240 milhões de pés de água - começando com 120 dos frota de barragens envelhecida do país.


Martin Wieland, presidente do comitê de aspectos sísmicos do projeto de barragens da Comissão Internacional de Grandes Barragens, com sede em Paris, o principal órgão de profissionais de barragens, disse à Yale e360 que “muitas barragens podem durar muito mais do que 50 ou 100 anos se bem projetadas , bem construído e bem mantido e monitorado. A barragem de concreto mais antiga da Europa, a Barragem de Maigrauge [na Suíça] foi concluída em 1872 e deve chegar a 200 anos. ” Mas, disse ele, "a segurança de uma barragem pode se deteriorar muito rápido". Ele sugeriu que uma grande parte do risco crescente "não era o envelhecimento, mas o aumento do número de pessoas rio abaixo".


As barragens são feitas principalmente de terra, alvenaria ou concreto. Eles podem falhar devido ao concreto em decomposição, rachaduras, infiltração, fissuras ocultas nas rochas circundantes ou empenamento sob seu próprio peso. Eles podem sofrer falhas de revestimento, terremotos, sabotagem ou serem levados pela correnteza quando as enchentes violarem suas cristas. As inspeções regulares são vitais, diz Wieland.


Enquanto isso, a mudança climática, que está trazendo inundações mais extremas a muitos lugares, e o envelhecimento das represas ameaçam ser uma combinação letal. “Antigas barragens foram projetadas e construídas com base em registros hidrológicos em uma era pré-mudança climática”, diz Smakhtin. “Agora as coisas estão diferentes e isso é preocupante”.


O que deveria ser feito? Algumas barragens antigas permanecem seguras, mas todas exigirão uma inspeção muito mais rigorosa à medida que envelhecem, dizem os especialistas, geralmente seguida de reparos caros. Muitos mais precisarão ser reprojetados para lidar com fluxos extremos de rios, diferentes daqueles previstos quando foram construídos pela primeira vez.


Mas o relatório da UNU aponta para um legado crescente de barragens que deixam de servir a muitos propósitos - seja por causa do assoreamento ou porque existem fontes alternativas de eletricidade - e são retidas principalmente porque removê-las é caro e tecnicamente difícil. Isso é tanto uma ameaça à segurança quanto uma tragédia para os ecossistemas fluviais que poderiam ser restaurados com sua remoção.


Os EUA são os líderes mundiais em descomissionamento de barragens, com mais de mil barragens removidas nos últimos 30 anos. Mesmo assim, as represas removidas até agora eram em sua maioria pequenas, geralmente com menos de 5 metros de altura. Uma exceção foi a represa Glines Canyon de 87 anos em Olympic Park, Washington, removida em 2014. Com 210 pés, a represa foi a maior já derrubada. A tarefa levou duas décadas para ser planejada e executada. Mas é provável que milhares de remoções sejam necessárias para evitar um surto de desastres em barragens, diz Smakhtin.

"Algumas barragens são tão grandes que é difícil imaginar como abordar o problema”, diz ele. “Veja a barragem de Kariba. É absolutamente enorme e, em meados do século, terá cem anos. Esperançosamente, haverá tecnologia para desativá-lo. Mas agora não sabemos como fazer. ”



Fred Pearce is a freelance author and journalist based in the U.K. He is a contributing writer for Yale Environment 360 and is the author of numerous books, including The Land GrabbersEarth Then and Now: Amazing Images of Our Changing World, and The Climate Files: The Battle for the Truth About Global Warming. MOREABOUT FRED PEARCE →