Mudanças climáticas terão impacto na produção global de alimentos e na saúde
Estudo pede uma ação urgente contra as mudanças climáticas para garantir o abastecimento global de alimentos
A pesquisa conduzida pela New Curtin University descobriu que a
mudança climática terá um impacto substancial na produção global de
alimentos e na saúde se nenhuma ação for tomada por consumidores,
indústrias alimentícias, governo e organismos internacionais.
Publicado em uma das revistas de saúde pública de maior
classificação, a Annual Review of Public Health , os pesquisadores
concluíram uma revisão abrangente de 12 meses da literatura publicada
sobre mudança climática, dieta saudável e ações necessárias para melhorar a nutrição e a saúde em todo o mundo.
O pesquisador principal John Curtin Emérito Emérito Professor Colin
Binns, da Curtin School of Population Health da Curtin University, disse
que a mudança climática teve um impacto prejudicial na saúde e na
produção de alimentos nos últimos 50 anos e muito mais precisa ser feito
para superar seus efeitos adversos efeitos.
“A combinação das mudanças climáticas com a qualidade da nutrição é o
grande desafio para a saúde pública desta década e, certamente, deste
século. Apesar dos avanços positivos nas taxas de nutrição mundiais,
ainda enfrentamos a ameaça contínua da mudança climática para o nosso
abastecimento global de alimentos, com a África Subsaariana e parte da
Ásia em maior risco ”, disse o professor Binns.
“Por enquanto, será possível produzir alimentos suficientes para
manter a ingestão adequada, usando melhores práticas agrícolas e
tecnologia e mais equidade na distribuição, mas estimamos que até 2050 a
produção mundial de alimentos precisará aumentar em 50 por cento para
superar apresentar carências e atender às necessidades da crescente
população.
“Nossa revisão recomenda que, ao seguir as orientações dietéticas
necessárias e escolher alimentos com baixo impacto ambiental, como
peixes, cereais integrais, frutas, vegetais, legumes, nozes, frutas
vermelhas e azeite de oliva, melhoraria a saúde, ajudaria a reduzir os
gases de efeito estufa e cumprir os Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável das Nações Unidas , o que, por sua vez, melhoraria os níveis
de produção de alimentos no futuro ”.
O professor Binns disse que, embora as mudanças climáticas tenham um
efeito significativo sobre o abastecimento de alimentos, o compromisso
político e os investimentos substanciais podem contribuir para reduzir
os efeitos e fornecer os alimentos necessários para atingir os Objetivos
de Desenvolvimento Sustentável.
“Algumas mudanças precisarão ser feitas na produção de alimentos, o
conteúdo de nutrientes precisará ser monitorado e uma distribuição mais
equitativa será necessária para atender às diretrizes dietéticas
propostas. Também era importante aumentar as taxas de amamentação para
melhorar a saúde infantil e adulta, ao mesmo tempo que ajudava a reduzir
os gases de efeito estufa e beneficiava o meio ambiente ”, disse o
professor Binns.
“A pesquisa em andamento será vital para avaliar os impactos de longo
prazo das mudanças climáticas sobre o abastecimento de alimentos e a
saúde, a fim de se preparar adequadamente para o futuro.”
Este estudo foi um esforço colaborativo envolvendo pesquisadores da
Curtin School of Population Health, da Murdoch University, da University
of Exeter, da University of Malaya, da Oslo Metropolitan University, da
University of Tokyo e da Hanoi University of Public Health.
Referência:
Climate Change, Food Supply, and Dietary Guidelines
Annual Review of Public Health
Vol. 42:233-255 (Volume publication date April 2021)
First published as a Review in Advance on January 26, 2021 https://doi.org/10.1146/annurev-publhealth-012420-105044
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
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Deter/Inpe registra 36 mil hectares desmatados na Amazônia em março
Área com alerta de desmatamento na Amazônia já é a maior da série histórica para março
Dados do sistema DETER, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe),
divulgados hoje, revelam que a área com alertas de desmatamento para
março de 2021 na Amazônia é a maior da série histórica. Ao menos 36 mil
hectares de floresta foram perdidos.
Apesar de uma cobertura de nuvens superior, houve um aumento de 12,5% em relação a março de 2020.
“O que já é ruim pode piorar, com Ricardo Salles trabalhando contra o
meio ambiente e o Congresso Nacional trabalhando para legalizar
grilagem, flexibilizar o licenciamento ambiental e abrir terras
indígenas para mineração, o desmatamento tende a continuar em alta”,
comenta Cristiane Mazzetti, Gestora Ambiental do Greenpeace.
É difícil imaginar uma solução para a Amazônia proposta por um
governo responsável por um aumento histórico do desmatamento (trazendo à
cena taxas anuais não observadas desde 2008, com 9% de aumento em 2020
comparado ao ano de 2019), e de um governo que represa (à exemplo do
Fundo Amazônia) e corta recursos para a proteção do meio ambiente
(conforme, Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) 2021).
Com impunidade forte no campo e na floresta, grandes polígonos de
desmatamento têm sido cada vez mais observados nas imagens de satélite,
com áreas de mil, 3 mil e até 5 mil hectares. Não será um rascunho
desconexo de plano (Plano Operativo 2020-2023) para o controle do
desmatamento, ou um acordo a portas fechadas com os Estados Unidos que
reverterá toda a avalanche de destruição na Amazônia.
“Voltamos à era dos grandes desmatamentos e em meio a medidas que
promovem o desmatamento na Amazônia e premiam os criminosos, o Deter de
março é mais um motivo para que o governo Biden não assine um “cheque em
branco” com o governo de Bolsonaro”, completa Cristiane.
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Mata secundária tem papel importante no sequestro de carbono
Mata secundária utilizada na pesquisa já passou por exploração madeireira e queimadas
Uma pesquisa realizada na Embrapa Agrossilvipastoril,
em Sinop (MT), reforçou a comprovação do papel que as matas secundárias
possuem de retirar carbono da atmosfera e estocá-lo em forma de
biomassa vegetal e no solo.
O trabalho monitorou as emissões durante um ano e levantou o estoque
de carbono na parte área das árvores, nas raízes, no solo e na
serrapilheira e galhos caídos no chão em uma área de floresta, com
histórico de extração de madeiras e de queimadas, mas que se encontra
intocada há, pelo menos, doze anos.
O resultado da caracterização dessa área é semelhante ao obtido em
outros locais da Amazônia, em latitude semelhante. De acordo com
Alexandre Nascimento, pesquisador da Embrapa e um dos autores do
estudo, os dados obtidos servem não só como referência para
acompanhamento do mesmo local ao longo do tempo, como também de
comparativo com sistemas produtivos agrícolas e pecuários na mesma
região.
“Quando avaliamos estoque de carbono e emissão de gases em um sistema
agropecuário, sempre comparamos com um fragmento florestal, que é a
referência de um sistema em maior equilíbrio. Sendo assim, um sistema
agrícola cujo comportamento mais se aproxima da floresta, seria um
sistema mais sustentável”, explica Alexandre Nascimento.
O estudo, que também contou com participação da UFMT, mostrou que as
emissões acumuladas de gases de efeito estufa do solo no fragmento
florestal foram de 13 toneladas de carbono equivalente por hectare em um
ano. Já a soma dos estoques de carbono nos compartimentos da floresta,
convertidos CO2, foram de aproximadamente 720 ton CO2.
Desse carbono estocado, 50% encontram-se no solo, 41% na parte área das
árvores, 4,2% nas raízes, 0,6% em galhos e troncos mortos e 2,7% na
serrapilheira.
Os pesquisadores ressaltam que os estoques são resultado de anos de
atividades biológicas daquele ecossistema e para saber a taxa de
sequestro anual será necessário um novo estudo, dentro de alguns anos,
para que as diferenças sejam percebidas. Pesquisas realizadas em outros
locais, contudo, demonstram que somente a parte aérea das plantas têm
capacidade de mitigar entre 4 e 11 toneladas de CO2 equivalente por hectare em um ano.
Pesquisador na área de restauração ecológica, Ingo Isernhagen lembra
que o papel exercido pela recomposição de áreas de reserva legal (RL) e
de preservação permanente (APP), bem como a conservação de matas com
manejo florestal, vai muito além da mitigação das emissões geradas pelo
uso da terra.
“As matas secundárias ou áreas recuperadas são importantes fontes não
só para essa questão de assimilação de carbono, mas também para outros
serviços ambientais, como abrigo para polinizadores, regulação
microclimática, estabilização do solo, conservação hídrica e preservação
de biodiversidade”, elenca o pesquisador.
De acordo com os pesquisadores responsáveis pelo trabalho, os
resultados da pesquisa reforçam a importância de iniciativas de redução
das emissões por desmatamento e conservação florestal (REDD+),
contribuindo para que o Brasil cumpra com as metas voluntárias assumidas
em acordos internacionais de redução das emissões de gases causadores
de efeito estufa.
Estoques de carbono e emissões de gases de efeito estufa de floresta secundária na transição Amazônia-Cerrado
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Foram desmatados 367, km² no mês passado, em comparação a 326,9 km² em março do ano anterior. Esta é a taxa mais alta para o período registrada desde 2015.
Um dado bastante preocupante é que não apenas a devastação está aumentando na maior floresta tropical do mundo, mas o tamanho das áreas destruídas, conforme revelado por uma análise feita recentemente, conforme mostramos na reportagem “Mudança no padrão do desmatamento na Amazônia comprova certeza de impunidade pelos criminosos. Ela revela que a destruição sob o governo Bolsonaro não só deu um salto, mas houve ainda um crescimento na média do tamanho dos chamados “polígonos” do desmatamento em 61%.
Nos próximos dias 22 e 23 de abril, os Estados Unidos sediará um encontro virtual sobre o clima. Biden convidou representantes de 40 países para participarem do “Leaders Summit on Climate”, entre eles, o Brasil (leia mais aqui).
2020 teve aumento recorde no desmatamento da Amazônia
Também de acordo com o Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), um instituto nacional de pesquisa, sem fins lucrativos, composto por pesquisadores brasileiros, 2020 apresentou um recorde no desmatamento. Entre janeiro e dezembro do ano passado, a floresta perdeu 8.058 km² de área verde. É a maior perda dos últimos dez anos. Houve um aumento de 30% em comparação com 2019, quando foram derrubados 6.200 km².
No ranking dos estados que mais desmataram a Amazônia no ano passado, o Pará aparece em primeiro lugar (42%), seguido pelo Amazonas (17,2%), Mato Grosso (13,4%), Rondônia (12,9%), Acre (8.5%), Maranhão (2,9%), Roraima (2,5%) e, por último, Amapá (0,3%) e Tocantins (0,3%). Seis dos dez municípios responsáveis pelos mais altos índices de destruição estão localizados no Pará: Altamira (575 km²) e São Félix do Xingu (447 km²) encabeçam a lista.
O aumento do ritmo da destruição da maior floresta tropical do mundo nos últimos dois anos é fato. Desde 2019, quando Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil, houve um crescimento gradual na devastação da Amazônia. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que monitora a região há 60 anos, a taxa anual de desmatamento em 2020 foi de 11.088 km2, um aumento de mais de 70% em comparação à média dos dez anos anteriores ao governo atual (2009 a 2018): 6.493 km2.
Agora, uma nova análise revela que não apenas a destruição deu um salto, mas seu padrão também foi alterado: os chamados “polígonos” do desmatamento estão muito maiores.
“Pense na taxa de desmatamento anual como um bolo, que pode ser dividido de diversas formas, de acordo com a fome dos convidados – neste caso, os desmatadores. As porções individuais do bolo estão muito maiores agora, pois os criminosos estão famintos, impulsionados pelas políticas ambientais atuais”, diz Ralph Trancoso, engenheiro florestal brasileiro que trabalha como pesquisador na Universidade de Queensland, na Austrália, e acaba de publicar um artigo científico sobre o assunto na Environmental Research Letters.
Em “Changing Amazon deforestation patterns: urgent need to restore command and control policies and market interventions” (“Mudança nos padrões do desmatamento na Amazônia: a necessidade urgente de restabelecer as políticas de comando e controle e intervenções de mercado”, na tradução para o português), ele relata, com base nos dados do Inpe, que nos últimos cinco anos a área média dos desmatamentos individuais na região aumentou de 10 para 24 hectares.
“A média de tamanho do desmatamento no governo Bolsonaro aumentou 61% quando comparada à década anterior (2009-2018), quando as políticas foram, de certa forma, mantidas. Acontece que agora o desmatamento anual está dominado por polígonos acima de 100 hectares, ou seja, áreas enormes equivalentes a mais de 90 campos de futebol juntos”, alerta.
O gráfico mostra o crescimento da média de tamanho das áreas desmatadas de 15.1 hectares (entre 2009 e 2018) para 24.4 hectares entre 2019 e 2020, durante o governo Bolsonaro. As barras revelam a taxa anual de devastação – com destaque para o aumento nos dois anos sob a atual gestão
Trancoso, que é especializado em monitoramento e análises de impacto de desmatamento e mudanças climáticas para políticas públicas, passou sete anos na Amazônia, onde fez um mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Também trabalhou no governo federal com políticas de combate ao desmatamento e, por isso, sabe bem a importância delas para conter a derrubada da floresta.
Foi o caso, por exemplo, do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), criado em 2004, com o qual o Brasil tornou-se referência mundial graças à redução drástica da área desmatada anualmente. Com o PPCDAm, houve uma queda de 83% no desmatamento da Amazônia entre 2004 e 2012, de 27.772 km² para 4.571 km².
Desde 2019, porém, o PPCDAm deixou de ser executado pelo Ministério do Meio Ambiente. Em novembro do ano passado, sete partidos políticos, além de dez entidades e organizações não-governamentais, protocolaram no Supremo Tribunal Federal (STF) uma ação para exigir a retomada efetiva do plano pelo governo federal e seus órgãos, entre eles Ibama, ICMBio e Funai.
Certeza da impunidade
Sempre houve uma flutuação no tamanho dos polígonos do desmatamento. Em meados da década passada, o que mais se percebia era uma pulverização deles. Com a efetividade do controle governamental à derrubada da floresta, os desmatadores optavam por destruir áreas menores e espaçadas, dificultando a detecção pelas imagens de satélite do Inpe. Mas agora, com o desmonte dos órgãos de proteção ambiental e a redução da fiscalização, processos que foram exacerbados durante a pandemia da Covid-19 no país, o que se nota é que a Amazônia virou uma terra sem lei.
“O interesse atual é desmatar muito. Antes os desmatadores sabiam que podiam ser vistos, mas agora o que parece ter mudado foi a postura deles, que não temem mais os esforços de monitoramento e fiscalização do governo, pelo contrário, sentem-se estimulados a continuar avançando sobre a floresta diante da certeza da impunidade”, diz Trancoso.
O pesquisador garante que o Brasil tem expertise para controlar a destruição. Sabe-se, por exemplo, que pequenas áreas desmatadas em beiras de rio geralmente são feitas por agricultores familiares. Já os enormes polígonos são sinônimo de grandes desmatadores. “Ninguém desmata 100 hectares na motossera. Existe grande estrutura mecanizada, com certeza”.
Há uma associação clara entre as atribuições do formato do desmatamento e a condição socioeconômica de quem faz a limpeza do solo. “Com o conhecimento do padrão, fica mais fácil controlar e definir políticas de combate”, afirma.
Madeira derrubada ilegalmente na Amazônia
Quanto maior a área destruída, mais lenta a regeneração
Diferentemente de outros países, a maior parte das emissões de carbono do Brasil é proveniente do desmatamento e das mudanças no uso da terra. Estima-se que 60% delas sejam provocadas pela atividade pecuária. E, por esta razão, com o aumento crescente da degradação da Floresta Amazônica, enquanto muitos lugares do mundo registraram uma diminuição nas emissões de gases de efeito estufa em 2020, devido à recessão global provocada pela pandemia, um levantamento preliminar do Observatório do Clima (OC) aponta que haverá um salto de 10 a 20% por aqui.
Ainda segundo o relatório do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), lançado no começo de março, dos dez municípios brasileiros campeões de gases de efeito estufa, sete ficam na Amazônia. São Félix do Xingu, no Pará, aparece no topo do ranking. Ao comparar o município brasileiro com outros países, o sistema revela que ele estaria na na 111a posição no mundo em emissões, à frente de Uruguai, Noruega, Chile, Croácia, Costa Rica e Panamá.
Um dos fatos preocupantes com o aumento das áreas desmatadas é o impacto que isso tem na biodiversidade. “Quanto maior a área destruída, mais difícil fica para ela se regenerar. Animais deixam de percorrer estas áreas e o banco de sementes do solo é exaurido. A regeneração natural fica seriamente comprometida”, ressalta Trancoso.
Ele lembra que a Amazônia é considerada um ativo global, que assegura o clima no planeta como um todo, mas também, no Brasil. “A região tem um importante papel sobre o padrão de chuvas no país e consequentemente, a produção nacional de alimentos, assim como a geração de energia”.
Estima-se que 60% das emissões de carbono no Brasil sejam provenientes da pecuária
É necessária pressão internacional
O artigo publicado pelo especialista na Environmental Research Letter também faz recomendações e indica caminhos para reverter o ritmo atual do desmatamento. Para ele, é preciso que se retome urgentemente a articulação entre órgãos como Ibama, Funai, ICMBio e Polícia Federal. Além disso, ele destaca iniciativas passadas que deram excelentes resultados, como é o caso da moratória da soja na Amazônia e o Termo de Ajuste de Conduta (TAC) da pecuária.
“As cadeias produtivas também precisam de maior transparência, com um completo processo de rastreamento, principalmente nas indústrias da carne e da soja”, diz. Trancoso lembra que os países europeus têm demonstrado grande interesse em reduzir suas emissões indiretas no mercado de commodities e isso pode afetar, muito em breve, as exportações brasileiras.
Já foram feitas ameaças ao Brasil caso o governo Bolsonaro não demonstre maior empenho em combater o desmatamento. Neste momento, o possível acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul para reduzir barreiras sobre produtos industriais e agrícolas é alvo de críticas e países como a França anunciaram seu veto ao tratado.
“Tem que pressionar o Brasil pelo lado econômico. Só pela questão ambiental não é o suficiente para o governo atual”, acredita Trancoso. “Grandes polígonos de desmatamento são mais fáceis de serem detectados nas imagens de satélite e de concentrar os esforços de campo na fiscalização. É preciso retomar o que deu certo no passado”.
Animais deixam de percorrer áreas destruídas e o banco de sementes do solo é exaurido
Em uma portaria divulgada no Diário Oficial da União, no último dia 23 de março, a Secretaria de Inovação, Desenvolvimento Rural e Irrigação, órgão ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, submeteu à consulta pública uma Instrução Normativa que busca regulamentar a comercialização de pescados e de produtos artesanais derivados dos mesmos para que eles possam receber o Selo Arte.
O selo é uma certificação criada para “permitir que produtos como queijos, embutidos, pescados e mel possam ser vendidos livremente em qualquer parte do território nacional, eliminando entraves burocráticos”. Com o selo estampado nesses produtos, os consumidores teriam uma garantia de qualidade, da produção artesanal e do respeito às “boas práticas agropecuárias e sanitárias”.
Todavia, o que muitos especialistas questionam no texto da Instrução Normativa é que ela estabelece como pescados, “os peixes, os crustáceos, os moluscos, os anfíbios, os répteis, os equinodermos e outros animais aquáticos usados na alimentação humana“.
De acordo com a Lei de Crimes Ambientais vigente no Brasil, a única exceção contra os crimes contra a fauna é a pesca, ou seja, a atividade pesqueira. E nessa legislação, a definição para pesca é de “espécimes dos grupos dos peixes, crustáceos, moluscos e vegetais hidróbios”. Ou seja, não inclui espécies de anfíbios ou répteis.
Sem especificar exatamente o que seriam “outros animais aquáticos” e ao incluir anfíbios e répteis, especialistas temem que espécies de jacarés, quelônios e até botos, por exemplo, alguns ameaçados de extinção, corram ainda mais riscos.
“É um absurdo. Querem tirar a responsabilidade do impacto da pesca. Além do ponto de tratar animais aquáticos de forma ampla para favorecer o setor”, afirma Maurício Forlani, gerente de pesquisas da organização Ampara Silvestre.
Uma outra crítica ao texto é que o termo “pesca” está sendo usado no lugar de captura. “Não se pesca répteis ou anfíbios… Isso é caça!”, ressalta o biólogo José Sabino, professor da Universidade Anhanguera (Uniderp), no Mato Grosso do Sul.
Não há dúvida de que a criação do Selo Arte é uma medida positiva para beneficiar o mercado de produtos artesanais no país. É uma luta antiga de alguns setores para destravar a comercialização. “Mas uma coisa é vender queijos, geleias, mel e embutidos com o selo, outra é vender carne de jacaré”, ressalta Sabino.
“O mais preocupante é o que o texto deixa no ar, propositalmente genérico. Alguém vai lá, mata um boto e alega que existe uma Instrução Normativa que permite”, diz Maurício Varallo, diretor da ONG Olhar Animal.
O Conexão Planeta enviou um e-mail para a assessoria de imprensa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, questionando sobre a falta de clareza do texto da Instrução Normativa e o possível risco que isso coloca sobre espécies aquáticas já ameaçadas no país, mas até este momento não teve nenhuma resposta.
Participe da consulta pública
Qualquer um pode dar sua opinião na consulta pública sobre a Instrução Normativa sobre os “requisitos de Boas Práticas Agropecuárias e de Fabricação aplicáveis aos aquicultores, pescadores e produtores de produtos alimentícios derivados do pescado e classificados como artesanais”. Ela é aberta a órgãos, entidades, pessoas físicas e jurídicas.
Para participar, você deve enviar sua apresentação no formato de uma planilha editável (veja modelo indicado na Instrução Normativa), para o e-mail: artesanal.cgpa@agricultura.gov.br.
A consulta pública se encerra no dia 22/04!
Série de polêmicas
Esta não é a primeira vez que o governo federal está envolvido numa questão polêmica nessa área. A lista já é grande.
Em novembro do ano passado, houve a liberação da pesca da sardinha em Fernando de Noronha, arquipélago protegido por duas Unidades de Conservação (UCs) Federais: o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha e a Área de Proteção Ambiental de Fernando de Noronha-Rocas-São Pedro e São Paulo, tal sua importância para a preservação marinha.