sexta-feira, 20 de agosto de 2021

A surpreendente maneira como os animais compreendem os números

 


A surpreendente maneira como os animais compreendem os números

A matemática e os números nasceram para resolver problemas reais – GETTY IMAGES

Uma das descobertas mais importantes das últimas décadas foi a de que a habilidade dos seres humanos de trabalhar com números está profundamente arraigada na ancestralidade biológica e não se baseia na nossa capacidade em usar a linguagem.

Considerando a variedade de situações em que nós humanos usamos informações numéricas, a vida sem números é inconcebível.

Mas como a competência numérica beneficiou nossos ancestrais, antes de eles virarem o Homo sapiens? E por que esses animais precisariam usar matemática?

Pois se descobriu que processar números oferece uma vantagem significativa para sobrevivência, que é o porquê dessa característica de comportamento estar presente em muitas populações de animais.

Muitos estudos examinando animais nos seus ambientes ecológicos sugerem que ter uma representação dos números melhora a habilidade de um animal de explorar recursos alimentares, caçar, evitar predadores, navegar pelo seu habitat e insistir em interações sociais.

Antes que animais com competências matemáticas evoluíssem no planeta, bactérias microscópicas — os organismos mais antigos da Terra — já exploraram informações quantitativas. As bactérias sobrevivem consumindo nutrientes do seu ambiente. Em geral, elas crescem e se dividem, para se multiplicarem.

Ursos conseguem contar peixes? – GETTY IMAGES

No entanto, nos últimos anos, microbiólogos descobriram que elas também têm uma vida social e conseguem sentir a presença ou ausência de outras bactérias. Em outras palavras, elas conseguem pressentir o número de bactérias.

Pegue, por exemplo, a bactéria marinha Vibrio fischeri. Ela possui uma propriedade especial que permite que ela produza luz através de um processo chamado de bioluminescência, parecido com a forma como os vagalumes se iluminam.

Se essas bactérias são diluídas em soluções de água (onde estão essencialmente sozinhas), elas não conseguem produzir luz. Mas quando crescem até atingir um certo número de células, todas produzem luzes simultaneamente. Portanto, as Vibrio fischeri conseguem distinguir entre estarem sozinhas e estarem juntas.

Os vagalumes do mar também emitem luz – GETTY IMAGES

Descobriu-se que elas fazem isso usando uma linguagem química. Elas fazem a secreção de moléculas de comunicação, e a concentração destas moléculas na água aumenta em proporção ao número de células.

E, quando essa molécula atinge uma certa quantidade, chamada de “quórum”, ela informa as demais bactérias quantas vizinhas existem, e todas passam a emitir luz.

Esse comportamento é chamado em inglês de “quorum sensing”— as bactérias “votam” emitindo moléculas, os votos são contados e, se um determinado quórum é atingido, todas as bactérias reagem.

Esse comportamento não é exclusivo das Vibrio fischeri — todas as bactérias usam esse método para comunicar o número de células de forma indireta, através da sinalização de moléculas.

E o “quorum sensing” não acontece apenas com bactérias — animais usam isso para se deslocar também.

Formigas japonesas (Myrmecina nipponica), por exemplo, decidem mudar suas colônias de lugar se elas sentem que há um quórum.

Nesta forma de decisão por consenso, as formigas começam a transportar juntas o seu ninho só se houver um determinado número de formigas presentes já no local de destino. Só depois disso que elas decidem que é seguro mudar seus ninhos de lugar.

A cognição numérica também desempenha um papel vital quando se trata de navegação e desenvolvimento de estratégias eficientes de busca por comida.

Em 2008, os biólogos Marie Dacke e Mandyam Srinivasan realizaram um experimento controlado no qual descobriram que as abelhas são capazes de estimar o número de pontos de referência em um túnel de voo para chegar a uma fonte de alimento — mesmo quando o layout espacial é alterado.

As abelhas usam pontos de referência para medir a distância de uma fonte de alimento até a colmeia. Fazer uma avaliação sobre números é vital para sua sobrevivência.

As formigas também contam quando decidem se devem ou não mover os ninhos – GETTY IMAGES

Quando se trata de procurar comida de forma eficiente, “buscar mais” é uma boa regra prática na maioria dos casos e parece algo óbvio, mas às vezes a estratégia oposta é melhor.

Os ratos adoram formigas vivas, mas as formigas são presas perigosas porque mordem quando estão sob ameaça. Quando um rato é colocado em uma arena junto com dois grupos de formigas de quantidades diferentes, ele surpreendentemente “busca menos”.

Em um estudo, os ratos que podiam escolher entre cinco contra 15, cinco contra 30 e 10 contra 30 formigas sempre preferiram a menor quantidade de formigas. Os ratos parecem escolher o grupo menor de formigas para garantir uma boa caçada, com menor risco de serem mordidos com frequência.

As dicas numéricas também desempenham um papel relevante na caça de presas em grupos.

A probabilidade, por exemplo, de que os lobos capturem alces ou bisões varia de acordo com o tamanho de um grupo de caça.

Os lobos frequentemente caçam presas grandes, como alces e bisões, mas presas grandes podem chutar, arranhar e pisar nos lobos até a morte. Portanto, há incentivo para “se segurar” e deixar que outros entrem em ação, principalmente em grupos de caça maiores.

Como consequência, os lobos têm um tamanho de grupo ideal para caçar presas diferentes. Para alces, o grupo ideal de caça deve ter de dois a seis lobos.

No entanto, para o bisão, é melhor que o grupo tenha de nove a 13 lobos. Portanto, para os lobos, prevalece a regra do “quanto mais melhor” durante a caça, mas apenas até um certo número, que depende da resistência de sua presa.

Às vezes, quando os predadores tentam determinar qual presa atacar, os números não batem – GETTY IMAGES

Animais que são mais ou menos indefesos frequentemente procuram abrigo entre grandes grupos de companheiros sociais — a estratégia de sobrevivência do “quanto mais melhor” dificilmente precisa de explicação.

Mas esconder-se em grandes grupos não é a única estratégia contra predadores que envolve competência numérica.

Em 2005, uma equipe de biólogos da Universidade de Washington descobriu que o chickadee preto-tampado (uma espécie de ave) na Europa desenvolveu uma maneira surpreendente de anunciar a presença e a periculosidade de um predador.

Como muitos outros animais, os chickadee emitem gritos de alarme quando detectam um predador potencial, como um falcão, para alertar seus companheiros.

Para predadores parados, esses pequenos pássaros cantam um som chamado de “chick-a-dee”. Foi demonstrado que o número de notas “dee” no final deste canto indica o nível de perigo de um predador.

Um grito como “chick-a-dee-dee” com apenas duas notas “dee” pode indicar a presença de uma coruja cinza bastante inofensiva.

As grandes corujas cinzentas são grandes demais para conseguir perseguir os chickadee na floresta, então elas não são vistas como uma ameaça séria.

Já a mesma manobra entre árvores não é problema para a pequena coruja do gênero Gaucidium, razão pela qual ela é um dos predadores mais perigosos para essas pequenas aves.

Quando os chickadees vêem uma coruja pigmeu, eles aumentam o número de notas “dee” e passam a gritar “chick-a-dee-dee-dee-dee”. Aqui, o número de sons serve como uma estratégia ativa contra predadores.

Os grupos e o tamanho dos grupos também são importantes se os recursos não podem ser defendidos apenas por indivíduos — e a capacidade de avaliar o número de indivíduos em seu próprio grupo em relação à parte rival tem valor adaptativo claro.

As leoas julgam quantos intrusos podem enfrentar antes de se aproximarem – GETTY IMAGES

Várias espécies de mamíferos foram investigadas na natureza, e todas têm em comum o fato de que a vantagem numérica determina o resultado dessas lutas.

Em um estudo pioneiro, a zoóloga Karen McComb e colegas da Universidade de Sussex investigaram o comportamento espontâneo de leoas no Parque Nacional do Serengeti quando estavam diante de intrusos.

Os autores exploraram o fato de que animais selvagens respondem a vocalizações tocadas por um alto-falante como se indivíduos reais estivessem presentes.

Quando o alto-falante tocava o som de um leão intruso, que representa uma ameaça, as leoas abordavam agressivamente o alto-falante, como se ele fosse o inimigo.

Neste estudo de reprodução acústica, os autores imitaram a intrusão hostil tocando o rugido de leoas desconhecidas para os residentes.

Duas condições foram apresentadas aos indivíduos: ou as gravações de leões “solteiros” rugindo ou de grupos de três fêmeas rugindo juntas.

Os pesquisadores estavam curiosos para ver se o número de atacantes e o número de defensores teriam impacto na estratégia do defensor.

Curiosamente, uma única mulher defensora estava muito hesitante em abordar as reproduções de um ou três intrusos. No entanto, três defensores prontamente se aproximaram do rugido de um único intruso, mas não do rugido de três intrusos juntos.

O número de atacantes e o número de defensores têm um impacto nas estratégias do mundo animal – GETTY IMAGES

Obviamente, o risco de se machucar ao travar uma luta com três oponentes era um prenúncio.

Somente se o número de residentes fosse cinco ou mais é que as leoas se aproximavam dos rugidos dos três intrusos. Em outras palavras, as leoas decidem abordar os intrusos de forma agressiva apenas se elas os superarem — outro exemplo claro da capacidade de um animal de levar em consideração informações quantitativas.

Nossos primos mais próximos no reino animal, os chimpanzés, apresentam um padrão de comportamento muito parecido.

Usando uma abordagem de reprodução semelhante, Michael Wilson e colegas da Universidade de Harvard descobriram que os chimpanzés se comportavam como estrategistas militares.

Eles seguem intuitivamente as equações usadas pelas forças militares para calcular as forças relativas dos seus oponentes.

Em particular, os chimpanzés seguem as previsões feitas no modelo de combate da Lei de Lanchester Quadrática. Este modelo prevê que, em competições com vários indivíduos de cada lado, os chimpanzés desta população devem estar dispostos a entrar em uma competição apenas se superarem o lado oposto por um fator de pelo menos 1,5. E é exatamente isso que os chimpanzés selvagens fazem.

Sobreviver — do ponto de vista biológico — é um meio para se chegar a um fim, e o objetivo é a transmissão de genes.

Nos besouros da larva-da-farinha (Tenebrio molitor), muitos machos acasalam com muitas fêmeas e a competição é intensa.

Portanto, um besouro macho sempre irá atrás de mais fêmeas para maximizar suas oportunidades de acasalamento.

Após o acasalamento, os machos até guardam as fêmeas por algum tempo para evitar futuros atos de acasalamento de outros machos. Quanto mais rivais um macho encontrar antes do acasalamento, mais tempo ele guardará a fêmea após o acasalamento.

Como os humanos, os chimpanzés formam alianças dentro de uma comunidade – GETTY IMAGES

É óbvio que tal comportamento desempenha um papel importante na reprodução e, portanto, tem um alto valor adaptativo.

Ser capaz de estimar quantidade melhorou a competitividade sexual dos machos. Isso pode, por sua vez, ser uma força motriz para uma estimativa de quantidade cognitiva mais sofisticada ao longo da evolução.

Pode-se pensar que tudo se ganha com uma cópula bem-sucedida.

Mas isso está longe de ser verdade para alguns animais, para os quais o verdadeiro prêmio é fertilizar um ovo. Uma vez que os parceiros de acasalamento individuais cumpram sua parte na peça, o esperma continua a competir pela fertilização do óvulo.

Já que a reprodução é de suma importância na biologia, a competição de espermas causa uma variedade de adaptações no nível comportamental.

Tanto em insetos quanto em vertebrados, a capacidade dos machos de estimar a magnitude da competição determina o tamanho e a composição da ejaculação.

No pseudoescorpião Cordylochernes scorpioides, por exemplo, é comum que vários machos copulem com uma única fêmea.

Obviamente, o primeiro macho tem as melhores chances de fertilizar o óvulo dessa fêmea, enquanto os machos a seguir têm chances cada vez menores de gerar filhos. No entanto, a produção de espermatozoides é cara, então a alocação de espermatozoides é pesada considerando as chances de fertilizar um óvulo.

No pseudoescorpião Cordylochernes scorpioides, por exemplo, é comum que vários machos copulem com uma única fêmea – GETTY IMAGES

Os machos cheiram o número de machos competidores que copularam com uma fêmea e se ajustam diminuindo progressivamente a alocação de esperma à medida que o número de diferentes pistas olfativas masculinas aumenta de zero para três.

Enquanto isso, algumas espécies de pássaros inventaram todo um arsenal de truques para se livrar do fardo da paternidade e permitir que outros façam esse trabalho.

Criar uma ninhada e criar filhotes são empreendimentos caros, afinal.

Eles se tornam parasitas de crias ao colocar seus ovos em ninhos de outras aves e deixar o hospedeiro fazer todo o trabalho duro de incubar os ovos e alimentar os filhotes.

Naturalmente, os potenciais anfitriões não estão satisfeitos e fazem de tudo para evitar serem explorados. E uma das estratégias de defesa que o hospedeiro potencial tem à sua disposição é o uso de pistas numéricas.

Os galeirões-americanos, por exemplo, enfiam ovos nos ninhos de seus vizinhos e esperam enganá-los para que eles criem os filhotes.

Claro, seus vizinhos tentam evitar serem explorados.

Um estudo no habitat natural dos galeirões sugere que potenciais hospedeiros galeirões podem contar seus próprios ovos, o que os ajuda a rejeitar ovos parasitas. Eles normalmente colocam uma ninhada de tamanho médio de seus próprios ovos e, posteriormente, rejeitam qualquer excesso de ovo parasita.

Portanto, os galeirões parecem avaliar o número de seus próprios ovos e ignorar quaisquer outros.

Um tipo ainda mais sofisticado de parasitismo de ninhada é encontrado em chupins (aves do gênero Molothrus), uma espécie de pássaro canoro que vive na América do Norte.

Nesta espécie, as fêmeas também depositam seus ovos nos ninhos de uma variedade de espécies hospedeiras, desde pássaros pequenos até os maiores, e elas precisam ser espertas para garantir que seus futuros filhotes tenham um futuro brilhante.

Ovos de chupim se abrem após exatamente 12 dias de incubação; se a incubação for de apenas 11 dias, os pintinhos não nascem. Portanto, não é por acaso que os tempos de incubação dos ovos dos hospedeiros mais comuns variam de 11 a 16 dias, com média de 12 dias.

As aves hospedeiras geralmente colocam um ovo por dia — uma vez que um dia se passa sem que nenhum ovo seja adicionado pelo hospedeiro ao ninho, o hospedeiro começa a incubação.

Isso significa que os pintinhos começam a se desenvolver nos ovos e o período começa a contar. Para uma fêmea de chupim, portanto, não é apenas importante encontrar um hospedeiro adequado, mas também determinar o momento exato para colocar o ovo.

Se a chupim botar seu ovo muito cedo no ninho hospedeiro, ela corre o risco de seu ovo ser descoberto e destruído. Mas se ela botar o ovo muito tarde, o tempo de incubação terá expirado antes que seu filhote de chupim possa chocar.

Os chapins de cabeça preta emitem um certo número de notas em suas canções para transmitir o tipo de predador que espreita – GETTY IMAGES

Experimentos de David J White e Grace Freed-Brown, da Universidade da Pensilvânia, sugerem que as fêmeas do chupim monitoram cuidadosamente a ninhada do hospedeiro para sincronizar seu parasitismo com a incubação de um hospedeiro em potencial.

As fêmeas do chupim ficam atentas aos ninhos hospedeiros nos quais o número de ovos aumentou desde sua primeira visita. Isso garante que o hospedeiro ainda está em processo de colocação de ovo e a incubação ainda não começou.

Além disso, a chupim está procurando ninhos que contenham exatamente um ovo adicional por número de dias decorridos desde sua visita inicial.

Por exemplo, se a fêmea do chupim visitou um ninho no primeiro dia e encontrou um ovo hospedeiro no ninho, ela só depositará seu próprio ovo se o ninho hospedeiro contiver três ovos no terceiro dia.

Se o ninho contiver menos ovos adicionais do que o número de dias decorridos desde a última visita, ela sabe que a incubação já começou e é inútil para ela botar seu próprio ovo.

Isso é extremamente exigente do ponto de vista cognitivo, já que a fêmea do chupim precisa visitar um ninho ao longo de vários dias, lembrar-se do tamanho da ninhada de um dia para o outro, avaliar a mudança no número de ovos no ninho de uma visita anterior ao presente, avaliar o número de dias que se passaram e, em seguida, comparar esses valores para tomar a decisão de botar o ovo ou não.

Aves fêmeas realizam uma aritmética mental incrível para descobrir quando colocar os ovos na próxima ave hospedeira – GETTY IMAGES

Mas não é só isso. As mães-chupim também têm estratégias de reforço sinistras. Elas vigiam os ninhos onde colocam seus ovos.

Na tentativa de proteger seu ovo, elas agem como gangsters na máfia. Se a chupim descobre que seu ovo foi destruído ou removido do ninho do hospedeiro, ela revida destruindo os ovos do pássaro hospedeiro, bicando-os ou levando-os para fora do ninho e jogando-os no chão.

É melhor que os pássaros hospedeiros criem o filhote de chupim, ou então terão que pagar caro. Para os pais anfitriões, pode valer a pena passar por todo o trabalho de criar um filhote adotivo de um ponto de vista adaptativo.

O chupim é um exemplo surpreendente de como a evolução levou algumas espécies a permanecer no negócio de transmitir seus genes. As pressões de seleção existentes, sejam impostas pelo ambiente inanimado ou por outros animais, forçam as populações de espécies a manter ou aumentar as características adaptativas causadas por genes específicos.

Se avaliar os números ajuda nessa luta para sobreviver e reproduzir, certamente isso é apreciado e confiável.

Comportamento da mafioso entre pássaros? – GETTY IMAGES

Isso explica por que a competência numérica é tão difundida no reino animal: ela evoluiu porque foi descoberta por um ancestral comum anterior e passada a todos os descendentes, ou porque foi inventada em diferentes ramos da árvore da vida animal.

Independentemente de sua origem evolutiva, uma coisa é certa — a competência numérica é certamente um traço adaptativo.

Fonte: BBC

 


Existe um molusco que lembra o que, quando e onde comeu – até na velhice

Você se lembra do que jantou ontem? E do que pediu pelo iFood na sexta-feira da semana retrasada? Ou ainda qual foi o almoço do quinto dia útil de quatro meses atrás? Bom, o choco, um tipo de molusco cefalópode e parente de polvos e lulas, se lembra de tudo isso e muito mais, incluindo até mesmo as primeiras refeições que fizeram.

Segundo um novo paper publicado no Proceedings of the Royal Society B, os chocos (ou cuttlefish, no inglês, apesar de não serem peixes) apresentam uma forma de registro episódico de memória, assim como os seres humanos. Entretanto, diferente de nós, suas memórias não se degradam com o tempo, fazendo com que um deles, mesmo na extrema velhice, ainda se lembre daquele camarão que ele “mandou para dentro” há um ano e meio.

“Os chocos podem se lembrar do que comeram, além de onde e quando comeram, e usam essas informações para guiar suas decisões alimentícias no futuro”, disse Alexandra Schnell da Universidade de Cambridge, co-autora do paper. “O que é mais surpreendente é que eles não perdem essa capacidade com a idade, ainda que outros sinais do passar do tempo apareçam normalmente, como perda de função muscular ou redução de apetite”.

Cefalópodes em geral são considerados extremamente inteligentes, capazes de distinção motora e capacidade rápida de aprendizado: não por menos, uma busca rápida mostra vários vídeos de polvos fazendo coisas “humanizadas” no YouTube, como manipular utensílios, por exemplo.

No caso dos chocos, Schnell acredita que essa capacidade de memória tem a ver com outra habilidade demonstrada pela espécie: a compreensão do conceito de “gratificação”. Em outras palavras: esse animal entende o sentido de esperar por uma comida mais saborosa do que simplesmente saciar a fome com a primeira refeição que lhe aparecer – muito parecido com você no quinto dia útil do mês, no horário de almoço do seu trabalho. Você (e o choco) não quer só comer, mas comer bem.

Evidentemente, existem proporções a serem guardadas: ao passo em que um ser humano está disposto a esperar por um tempo maior se a comida realmente valer a pena, o molusco choco só “entende” a espera por algo entre um ou dois minutos. Depois disso, como diz a expressão, “o que vier é lucro”.

A cientista Alexandra Schnell, com um choco dentro de um tanque de água: estudo assinado por ela determinou que o molusco tem capacidade episódica de memória, algo que pensava-se ser exclusivo de humanos. Imagem: GRASS Foundation/Divulgação

O nosso entendimento de memória se divide em dois pilares específicos: a “memória semântica” é aquela que remete ao aprendizado, onde somos capazes de lembrar do que somos ensinados independente do contexto ou necessidade. Já a “memória episódica” remete a ações que tomamos, inerentemente ligadas a aspectos situacionais: o que você comeu naquele dia em que choveu forte e você não conseguiu sair de casa, por exemplo.

A memória episódica aparece em humanos a partir dos quatro anos de idade, em média, mas se degrada com o tempo. Especificamente, essa memória funciona com amplo apoio do hipocampo, uma parte do cérebro encaixada profundamente no lobo temporal (lateral) – e à medida que envelhecemos, ele também perde suas capacidades. Não se sabe, porém, se isso é diferente no molusco.

A descoberta abre mais espaços para questões voltadas à capacidade de “pensar” dos animais: por décadas, pensava-se que a memória episódica era um trato exclusivamente humano, já que seu uso está associado ao emprego de consciência e racionalização. Porém, a presença dela em animais supostamente irracionais demonstra que ela é bem mais presente do que pensamos.

Não é a primeira vez que tratos associados a humanos aparecem em animais: os gaios-azuis, um tipo de pássaro colorido (e relativamente agressivo) da América do Norte, se lembram perfeitamente de onde armazenaram comida, mesmo depois de meses. Corvos, por outro lado, são conhecidos por “marcar rostos” de pessoas de quem gostam (ou desgostam) e ainda comunicam essa memória para outros pássaros como um “alerta”. Em exemplos mais mortais, o búfalo africano é conhecido localmente como “Morte Negra”, por supostamente entender o conceito de “vingança” e perseguir a quem ele considera uma ameaça – como caçadores – mesmo dias depois após o encontro.

Inclusive, o bovino acima é forte o suficiente para ser considerado parte essencial dos “Cinco Grandes da África”, um termo usado por especialistas de safari para designar animais extremamente perigosos – um grupo onde também estão inseridos leões, elefantes, leopardos e rinocerontes. E todos nós, ao menos uma vez na vida, já ouvimos a expressão “memória de elefante”, que também é cientificamente comprovada.

O experimento de Schell envolveu 24 chocos – metade jovem (entre 10 e 12 meses) e metade idosa (acima de 20 meses, ou “90 anos humanos”). Ambos os lados foram treinados para o reconhecimento de estímulos visuais – o movimento de bandeiras brancas e pretas -, associando-os a localizações específicas dentro de seus tanques.

Assim como o estudo de “gratificação”, os chocos tiveram liberdade de escolher suas refeições: um pedaço de carne cortada de camarão em conserva, ou um camarão vivo. Durante quatro semanas, os chocos foram ensinados (pelo movimento e cor das bandeiras) que essas comidas estavam disponíveis em locais específicos de seus tanques, com diferença de uma hora (para a carne crua morta) e três horas (para as presas vivas). A cada dia, a localização das refeições mudava, para garantir que os chocos não estivessem apenas “decorando” um padrão.

Eventualmente, a cientista e sua equipe descobriram que todos os chocos – jovens e velhos – perceberam qual refeição apareceria de acordo com a cor e movimento da bandeira, usando essa informação para determinar onde encontrariam a sua comida favorita na próxima vez em que fossem alimentados.

Em outras palavras: se há uma hora, um pedaço de camarão morto apareceu no tanque, e há três horas, um camarão vivo, os chocos marcavam esse processo todo para determinar se comeriam a próxima carne em conserva (que viria dali a uma hora) ou se esperavam pela presa viva(que chegaria em três horas).

É possível, segundo a cientista, que essa função de memória tenha se desenvolvido com o tempo, como se, por exemplo, os chocos se lembrassem de relações sexuais passadas a fim de não repetirem parceiros. Como esse animal tem maturidade sexual tardia, é possível que eles usem isso para maximizar relações e assim gerarem mais e mais filhos.

Agora, Alexandra Schnell e sua equipe querem ter a oportunidade de investigar de forma aprofundada a anatomia neurológica dos chocos, no intuito de determinar quando a capacidade para a memória episódica aparece.

Fonte: Olhar Digital

Investir na natureza é crucial para evitar nova pandemia, alerta documento

 


Investir na natureza é crucial para evitar nova pandemia, alerta documento

CONSERVAÇÃO FLORESTAL ESTÁ ENTRE AS MEDIDAS ELENCADAS EM RELATÓRIO PRODUZIDO POR CIENTISTAS DA UNIVERSIDADE HARVARD SOBRE COMO EVITAR SURTOS INFECCIOSOS FUTUROS

Investir na natureza é crucial para evitar a próxima pandemia, alertam cientistas (Foto: Kelly Lacy/Pexels)

O salto de vírus de animais selvagens para os humanos não é só uma das principais teorias sobre a origem do Sars-CoV-2 como também deverá ser a “causa-raiz” de futuros surtos infecciosos caso o mundo não fortaleça atividades de conservação florestal. Essa é uma das conclusões de um relatório publicado nesta quarta-feira (18) por uma força-tarefa internacional de cientistas que alerta para a associação entre o desmatamento e o risco de epidemias de doenças zoonóticas. 

A Força-Tarefa Científica sobre Prevenção de Pandemias, liderada pelo Instituto de Saúde Global da Universidade Harvard (HGHI) e o Centro para o Clima, Saúde e Meio Ambiente Global da Escola de Saúde Pública TH Chan, também de Harvard, reuniu as descobertas mais recentes sobre fatores capazes de contribuir para o transbordamento (spillover, em inglês) de agentes infecciosos para a espécie humana e quais ações são necessárias para evitar uma próxima pandemia.

O documento, produzido entre maio e agosto de 2021, afirma que as mudanças no uso da terra estão entre os principais riscos para a transmissão de possíveis patógenos pandêmicos. Duas delas têm destaque: a destruição de florestas tropicais e a expansão desenfreada de terras agrícolas, especialmente perto de assentamentos humanos. 

O desmatamento nas Américas foi associado a um aumento nos reservatórios de roedores para a Síndrome Pulmonar por Hantavírus (HPS, na sigla em inglês), doença viral transmitida por ratos selvagens ou por saliva humana. Além disso, locais com desflorestamento recente apresentaram maior probabilidade de surtos de ebola. “Durante o desmatamento, as espécies animais que sobrevivem ou prosperam tendem a ser menos sensíveis aos distúrbios humanos e, portanto, são as mais capazes de infectar pessoas ou a pecuária”, explica o relatório. “As atividades de conservação florestal podem reduzir o risco de propagação de doenças zoonóticas”, afirma os pesquisadores.

A caça e o comércio de animais selvagens e as mudanças climáticas também são citadas pelo texto como ações que estão reduzindo habitats e empurrando espécies terrestres e marítimas para novas localizações, o que cria mais oportunidades para que os patógenos “pulem” para hospedeiros humanos.

Como evitar uma pandemia?

Ao menos quatro recomendações para reduzir os riscos de futuros surtos zoonóticos são destacadas pelos cientistas: maiores investimentos em conservação florestal, especialmente nos trópicos; melhorias na biossegurança em torno de fazendas de gado e animais selvagens, sobretudo quando a criação ocorre perto de grandes populações humanas ou em rápido crescimento; expansão da agricultura sustentável; e fortalecimento dos sistemas de saúde de países de média e baixa rendas. 

O relatório sugere ainda o estabelecimento de um fórum estratégico intergovernamental com o objetivo de preparar o mundo para o risco de futuras epidemias e o mapeamento contínuo de vírus com potencial zoonótico. De acordo com os pesquisadores, apesar dos esforços recentes de iniciativas como o Projeto Viroma Global e o PREDICT, ainda há cerca de 1,67 milhão de espécies virais desconhecidas abrigadas em reservatórios animais. Desse total,  entre 631 mil e 827 mil devem ter potencial zoonótico, segundo o documento.

“Mais pesquisas podem ajudar a identificar onde as zoonoses virais com alto risco de pandemia têm maior probabilidade de surgir e como reduzir o risco de transbordamento no comércio de animais selvagens”, escrevem os autores. “A descoberta de vírus na vida selvagem pode ajudar a informar onde as atividades de prevenção de transbordamento devem ser focadas, ao mesmo tempo em que beneficia a conservação da vida selvagem”.

Investimentos insuficientes – e o mau exemplo do Brasil

Os investimentos feitos anualmente para conter um spillover, no entanto, ainda estão longe do ideal. Segundo o documento, eles não ultrapassam US$ 4 bilhões, ao passo que a pandemia de Covid-19 sozinha resultou em uma perda de Produto Interno Bruto (PIB) global estimada em US$ 4 trilhões. Se o valor aplicado em atividades de prevenção fosse de US$ 22 bilhões a US$ 31 bilhões por ano, o relatório sugere que o mundo poderia reduzir o risco de lidar com as perdas humanas e econômicas de uma epidemia zoonótica.

Mas a eficácia das iniciativas para lidar com o desmatamento, o comércio de animais selvagens e outras causas de transmissão de zoonoses também depende muito da continuidade dos esforços para alcançá-los. “Fluxos de financiamento instáveis, convulsões políticas, prioridades em mudança concorrentes e práticas culturais podem prejudicar o progresso na redução dos impulsionadores do risco de transbordamento”, afirma o texto.

Novos estudos alertam para aumento de queimadas e desmatamento na Amazônia (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

O grupo cita a Amazônia como um exemplo de como a ausência da manutenção desses esforços pode interromper o progresso da conservação. “As taxas de desmatamento na Amazônia brasileira caíram aproximadamente 70% entre 2005-2012 devido a políticas públicas combinadas com ações públicas e privadas. Uma mudança no governo resultou em rápida aceleração do desmatamento, de tal forma que as taxas de desmatamento atingiram recordes decadais em 2020″, destaca o estudo.

“Devemos tomar medidas que evitem que as pandemias comecem, interrompendo a propagação de doenças de animais para humanos. Quando o fizermos, também podemos ajudar a estabilizar o clima do planeta e revitalizar sua biosfera, cada uma das quais é essencial para nossa saúde e bem-estar econômico”, avalia Aaron Bernstein, líder da força-tarefa, em comunicado.

Fonte: Galileu

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Queimada ligada a desmatamento continua a ameaçar a Amazônia

 






Queimada ligada a desmatamento continua a ameaçar a Amazônia

14.08.2021 • Notícias
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Fogo atinge área de desmatamento em Apiacás (MT), na Amazônia. Foto: Ivan Canabrava/Illuminati Filmes/IPAM

Um grupo de pesquisadoras do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e do Woodwell Climate Research Center, dos Estados Unidos, encerrou nesta sexta-feira (13) uma expedição de campo sobre fogo no município de Apiacás (MT), onde encontraram bombeiros lutando para controlar a queimada de uma área desmatada.

O trabalho foi dificultado pela ignição em locais diferentes do terreno. Esse tipo de fogo acaba com as árvores derrubadas e prepara a área para uso agropecuário. É frequente na Amazônia especialmente nesta época do ano, quando há menos chuvas na região.

“A área desmatada vai se tornar um pasto, com características climáticas muito diferentes do que seria com a floresta em pé”, explica a pesquisadora do IPAM e do Woodwell Climate, Ludmila Rattis. “Um dos efeitos do desmatamento é o aumento da temperatura no microclima local, subindo em até cinco graus Celsius e afetando a produtividade da terra. No final das contas, desmatar não compensa nem no aspecto climático, nem no econômico.”

Com o tempo quente e seco, o risco de uma queimada desse tipo escapar para uma floresta vizinha e virar um incêndio é grande. “O fogo relacionado ao desmatamento aumenta o desafio do controle, uma vez que é desejado e oferece riscos até mesmo para quem está atuando para combatê-lo”, diz a pesquisadora Manoela Machado, do Woodwell Climate.

Ciência e prática

Apiacás foi a última parada da expedição iniciada uma semana antes. O grupo percorreu os três biomas de Mato Grosso – Cerrado, Pantanal e Amazônia – acompanhando o trabalho do Corpo de Bombeiros Militares do estado, para melhorar o uso de dados científicos na prevenção e no combate a queimadas e incêndios florestais.

“Esse é um projeto que nasceu da conversa entre pesquisadores e bombeiros. Desde o início, a ideia é de colaboração mútua entre a ciência aplicada e o trabalho de detecção, prevenção e combate a incêndios ambientais”, afirma Machado, que coordena a iniciativa.

Durante a expedição, foi possível identificar sinergias entre as estratégias usadas pelos bombeiros ambientais e as predições feitas pelos pesquisadores do fogo. “Passar o diálogo da sala fechada para o campo enriquece o trabalho.”

A equipe também teve a oportunidade de testemunhar os impactos do fogo. No Cerrado, as pesquisadoras viram a destruição de uma área de plantio de agricultores familiares, depois que uma queimada escapou e atingiu outras áreas da propriedade, além de vegetação nativa. No Pantanal, um fogo acidental espalhou-se rapidamente nos pastos secos, formando o primeiro grande incêndio deste ano na região. Na Amazônia, tendo como combustível o desmatamento, uma área antes florestada transformou-se rapidamente em cinzas.

Um diário da viagem foi compartilhado no Instagram do IPAM.




Quase 20% do Brasil queimou ao menos uma vez entre 1985 e 2020

 


Quase 20% do Brasil queimou ao menos uma vez entre 1985 e 2020

16.08.2021 • Notícias IPAM/Illuminati Filmes

Uma casa que pega fogo todos os anos: esse é o retrato do Brasil obtido pelo MapBiomas após analisar imagens de satélite entre 1985 e 2020 para entender o impacto do fogo sobre o território nacional. Na média, em cada um desses 36 anos, o Brasil queimou uma área maior que a Inglaterra: foram 150.957 km² por ano, ou 1,8% do país. O acumulado do período chega a praticamente um quinto do território nacional: 1.672.142 km², ou 19,6% do Brasil.

“Analisar as cicatrizes do fogo ao longo do tempo permite entender as mudanças no regime de fogo e seu avanço sobre o território brasileiro”, destaca Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e coordenadora do MapBiomas Fogo.

Quase dois terços (65%) do fogo ocorreram em áreas de vegetação nativa, sendo que os biomas Cerrado e Amazônia concentram 85% de toda a área queimada pelo menos uma vez no país. No caso do Cerrado, a área queimada por ano desde 1985 equivale a 45 vezes a área do município de São Paulo.

“Um dado preocupante é que cerca de 61% das áreas afetadas pelo fogo entre 1985 e 2020 foram queimadas duas vezes ou mais, ou seja, não estamos falando de eventos isolados. No caso da Amazônia, 69% do bioma queimou mais de uma vez no período, sendo que 48% queimou mais de três vezes”, afirma.

Os estados com maior ocorrência de fogo foram Mato Grosso, Pará e Tocantins. Formações savânicas foram o tipo de vegetação nativa com mais ocorrência de fogo; pastagens foram o tipo de uso antrópico com mais ocorrência de fogo.

Embora os grandes picos de área queimada no Brasil tenham ocorrido principalmente em anos impactados por eventos de seca extrema (1987, 1988, 1993, 1998, 1999, 2007, 2010, 2017), altas taxas de desmatamento principalmente na Amazônia e antes de 2005 e depois de 2019 tiveram um grande impacto no aumento da área queimada nesses períodos. A estação seca, entre julho e outubro, concentra 83% da ocorrência de queimadas e incêndios florestais.

A análise por bioma mostra que o Pantanal é o que mais queimou nos últimos 36 anos: 57% de seu território foi queimado pelo menos uma vez no período, ou 86.403 km². Ele é seguido pelo Cerrado (733.851 km², 36%) e pela Amazônia (690.028 km², 16,4%). ”O caso da Amazônia é preocupante. Os dados do MapBiomas Fogo revelam que as florestas do bioma têm queimado em grandes proporções e alta frequência, o que não é esperado em um bioma que não é naturalmente adaptado ao fogo”, diz Alencar.

Na média anual, o bioma Cerrado assume a liderança, com 67.833 km²/ano – mais que a Amazônia, cuja média ficou em 64.955 km²/ano. “O Cerrado é um bioma com vegetação o nativa onde o fogo faz parte de sua ecologia”, explica Vera Arruda, pesquisadora no IPAM e integrante da equipe do MapBiomas Fogo responsável pelo mapeamento do Cerrado. “Entretanto a extensão e frequência da área queimada no bioma nas últimas quase quatro décadas revela que algo está errado com o regime de fogo no bioma”, ressalta.

No bioma Pantanal é possível identificar os anos de 1999 e 2020 com os recordes de áreas queimadas. Foram anos secos e de grande acúmulo de biomassa. “O Pantanal tem uma vegetação adaptada ao fogo, mas em regime de frequência muito grande, ele torna-se prejudicial à biodiversidade de flora e fauna. O combate ao fogo no Pantanal é especialmente desafiador, portanto, ações de manejo integrado e preventivo do fogo, devem ser discutidas para proteção do bioma”, explica Eduardo Rosa, do MapBiomas.

No caso da Mata Atlântica, os meses de agosto, setembro e outubro constituem o período em que mais ocorrem queimadas, sendo que mais de 80% das queimadas ocorreram em áreas agropecuárias ou campestres, “É possível observar uma queda após 2004, quando começam a entrar em vigor leis para regulamentar a queimada em lavouras”, analisa Marcos Rosa, coordenador da equipe do MapBiomas Fogo responsável pelo mapeamento da Mata Atlântica.

Para chegar a esses números, inéditos, a equipe do MapBiomas processou mais de 150 mil imagens geradas pelos satélites Landsat 5, 7 e 8 de 1985 a 2020. Com a ajuda de inteligência artificial, foi analisada a área queimada em cada pixel de 30 m X 30 m dos mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro ao longo dos 36 anos entre 1985 e 2020, em todos os tipos de uso e cobertura da terra. Ao todo, foram 108 terabytes de imagens processadas, revelando áreas, anos e meses de maior e menor incidência do fogo. O método também permite identificar a área queimada em cada mês em todo o período, bem como o tipo de uso e cobertura do solo que queimou.

Os dados de áreas queimadas e incêndios florestais estão disponibilizados em mapas e estatísticas anual, mensal e acumulada em para qualquer período entre 1985 e 2020 na plataforma mapbiomas.org, aberta a todos. Ela também inclui dados de frequência de fogo, indicando as áreas mais afetadas nos últimos 36 anos. A resolução é de 30 m, com indicação do tipo de cobertura e uso do solo que queimou, permitindo recortes territoriais e fundiários por bioma, estado, município, bacia hidrográfica, unidade de conservação, terra indígena, assentamentos e áreas com CAR.

Assista à apresentação Brasil Revelado 1985-2020: As cicatrizes deixadas pelo fogo no território brasileiro, lançamento do relatório nesta segunda-feira (16).

Sobre MapBiomas

Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, método e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa: mapbiomas.org.

Acesse os destaques do relatório.