quarta-feira, 3 de agosto de 2022

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Presidente do Ibama ignora parecer técnico do próprio instituto e outros órgãos e libera licença para reconstrução de estrada que liga Manaus a Porto Velho

Presidente do Ibama ignora parecer de técnicos do próprio instituto e outros órgãos e libera licença para reconstrução de estrada que liga Manaus a Porto Velho

O presidente do Ibama, Eduardo Bim, ignorou recomendações técnicas de servidores do próprio Ibama, do Ministério do Meio Ambiente e de outros órgãos ambientais ao conceder, na última quinta-feira (28/7), licença prévia para reconstrução da BR-319, estrada que liga Manaus, no Amazonas, a Porto Velho, em Rondônia. A decisão ocorre a dois meses das eleições, e atende a uma das promessas do presidente e candidato Jair Bolsonaro para a região.

Aberta sem qualquer licença ambiental na década de 1970, durante a ditadura militar, a BR-319 ficou intransitável. Sua reconstrução virou prioridade no governo Bolsonaro, apesar dos alertas de pesquisadores que apontam a estrada como indutora do desmatamento no maior bloco de florestas preservadas da Amazônia.

Por esse motivo, em 2008, o então ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, estabeleceu “pré-condicionantes” para o licenciamento da BR-319. Por meio da Portaria MMA nº 295, o licenciamento da obra passou a ser acompanhado por um Grupo de Trabalho com representantes do Ibama, do MMA, do ICMBio e do órgão ambiental do Estado do Amazonas.

“A pré-condição mais importante (para emissão da licença) era a instalação de 16 Unidades de Conservação (UCs), de um lado e de outro da estrada, antes de qualquer coisa”, disse o ex-ministro ao OC. O objetivo, segundo Minc, era evitar a explosão do desmatamento que havia ocorrido após a construção de outras estradas na Amazônia, como a BR-163 (Cuiabá-Santarém). “Exatamente porque o distrito florestal estava previsto para depois (da obra), hoje a região da BR-163 é uma das que mais sofrem com o desmatamento. Então, isso (a licença prévia da BR-319) seguramente vai acabar no Ministério Público e na Justiça.”

Bolsonaro não criou nenhuma Unidade de Conservação em seu mandato. A licença prévia da BR-319 ignora as recomendações previstas no relatório final do Grupo de Trabalho criado em 2008. O documento assinado pelo presidente do Ibama apenas “sugere articulação junto ao ICMBio para avaliar a possibilidade” de criar uma UC para os povos Mura e Munduruku. Não se trata, portanto, de uma condicionante efetiva.

Das dez recomendações incluídas no relatório, oito são medidas que deveriam ter sido efetivadas antes da concessão da licença prévia. São elas:

1) Disponibilização prévia de recursos conforme apresentado no Plano de Proteção e Implementação das Unidades de Conservação da BR-319;

2) Implantação imediata de ações interinstitucionais (IBAMA, ICMBio, IPAAM, DPF) de proteção e vigilância para a área de influência da BR-319, visando impedir o desmatamento e a descaracterização da área;

3) Elaboração e execução de um Plano de Desenvolvimento e Regularização Fundiária pelo INCRA para as áreas ao longo da BR 319;

 4) Elaboração e execução, pelos órgãos ambientais estaduais, de um Plano de regularização ambiental das propriedades particulares identificadas, assim como dos Projetos de Assentamentos Rurais;

5) Levantamento, organização e disponibilização de informações geográficas relacionadas aos órgãos públicos com ações de desenvolvimento previstas ao longo do eixo da BR 319, visando a compatibilização de atividades.

6) Garantir, no processo de licenciamento ambiental de recuperação da rodovia, a manutenção de conectividade das áreas naturais relevantes, como as Unidades de Conservação e as Áreas de Preservação Permanentes definidas no Código Florestal, além de outras áreas definidas em estudos específicos, através do estabelecimento de modelos de engenharia apropriados;

7) Criação de vagas, autorização de concursos e alocação de recursos nas instituições, com disponibilização de pessoal de apoio (Exército, Policia Federal / Estadual, Bombeiros) até a Licença Prévia; e

8) Que seja previamente formado um Comitê Gestor para planejar, acompanhar e monitorar a implementação dessas e outras ações previstas para a região.

Em janeiro de 2009, o MMA determinou por meio de ofício que o Ibama “verificasse o atendimento de todas as ações contidas no Relatório Final do GT, de modo que essas fossem incorporadas ao processo de licenciamento ambiental”. Parecer técnico do Ibama de julho de 2022 também relacionou a fiscalização e a criação de Unidades de Conservação à viabilidade do empreendimento no processo encaminhado ao presidente do Ibama. Nenhuma das recomendações foi cumprida integralmente, e mesmo assim a licença foi concedida.

O principal objetivo das medidas era impedir o desmatamento ao longo da estrada. Em relação à fiscalização, a licença prévia assinada por Eduardo Bim estabelece apenas que, “conforme evoluírem as tratativas para fortalecimento da governança territorial na região de influência da BR-319, fica aprovada a instalação de três postos de monitoramento/segurança, a serem instalados antes ou concomitantemente à implantação do empreendimento, localizados no entroncamento com a BR 230, entroncamento de Manicoré e Careiro Castanho, de forma a se implementar/ampliar a fiscalização da área”.

 Ou seja: a licença sequer torna obrigatória a instalação de postos de fiscalização. Para Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e especialista em Políticas Públicas do Observatório do Clima, mesmo se for efetivada a medida é irrisória frente ao desafio de evitar que a estrada se torne indutora do desmatamento.

 “A licença sequer impõe a instalação dos postos de fiscalização. Mesmo se forem instalados, três ao longo da estrada estão longe de assegurar fiscalização adequada. Portanto, não há garantia de que haverá controle do desmatamento na região a partir da construção da estrada. Como o desmatamento é o principal impacto negativo associado ao asfaltamento, a declaração de viabilidade da obra, que é inerente a toda licença prévia, não está devidamente fundamentada. É uma licença que deve ser anulada pela Justiça”, diz Araújo.

Estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aponta que a pavimentação vai estimular fluxos migratórios, expansão de atividades agrícolas, ocupação e valorização de terras, aumentando em pelo menos quatro vezes o desmatamento até 2050 – o trabalho avaliou taxas de desmatamento nos 12 municípios amazonenses sob influência direta da BR-319. As emissões de gases de efeito estufa decorrentes dessa devastação chegariam a 8 bilhões de toneladas, o equivalente a 22 anos de emissões por desmatamento às taxas atuais.

Só a especulação provocada pela atual gestão em relação à estrada já resultou em aumento do desmatamento na região. Dados de alertas de desmatamento do sistema Deter-B, do Inpe, mostram que, sob Bolsonaro, pela primeira vez o estado do Amazonas ultrapassou Mato Grosso como segundo que mais desmata na Amazônia, depois do Pará. Em 2022, dois municípios do Sul do Amazonas, Apuí e Lábrea, região de influência da BR-319, são os campeões de alertas de desmatamento.

Antes de obter a licença prévia para reconstrução do chamado trecho do meio da estrada, de 405 km, o mais problemático do ponto de vista ambiental, a atual gestão já havia autorizado, em 2020, a pavimentação de um trecho de 52 km com base em um Termo de Acordo e Compromisso assinado em 2007.

Na ocasião, o então ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, atual candidato de Bolsonaro ao governo de São Paulo, afirmou que o asfaltamento da rodovia BR-319 “vai ajudar a preservar o meio ambiente”, o que é falso. “Iniciamos nossa missão de recuperar uma rodovia já asfaltada na década de 70 com o compromisso de torná-la a maior referência em governança ambiental do Brasil”, disse Freitas em dezembro de 2020, após a assinatura do contrato para pavimentação dos 52 km.

Um dos autores do estudo da UFMG, o pesquisador Raoni Rajão acredita que haverá “grande corrida do ouro de empreendedores ilegais interessados em expandir a pecuária, tomar terras e até ocupar Unidades de Conservação”. “Essas pessoas vão fazer isso de maneira mais acelerada com a pavimentação”, afirmou à DW.

A autorização do presidente do Ibama ocorreu sem consulta aos povos indígenas que vivem na região, apesar de a legislação brasileira e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho exigirem a consulta prévia aos povos indígenas afetados por obras de infraestrutura.

Para Fernanda Meirelles, secretária executiva do Observatório da BR-319, trata-se de uma licença que “claramente possui motivação política”, porque etapas importantes do processo foram ignoradas. “O direito dos povos indígenas foi violado”, afirmou, em nota.

A licença prévia atesta a viabilidade ambiental da obra, mas o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) ainda precisa obter do Ibama as licenças de instalação e de operação para iniciar a reconstrução da BR-319.

Foto de abertura: Desam/Creative Commons/Flickr

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Filhote de tartaruga resgatado em praia na Austrália defecou plástico durante seis dias

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Filhote de tartaruga resgatado em praia na Austrália defecou plástico durante seis dias

Filhote de tartaruga resgatado em praia na Austrália defecou plástico durante seis dias seguidos

O pequeno filhote de tartaruga-verde (Chelonia mydas) foi encontrado numa pequena piscina de água perto de pedras, na praia de Tamarama, em Sidney, capital da Austrália. Ela estava de cabeça para baixo, não tinha uma de suas quatro nadadeiras, perdido um pedacinho de outra e no casco havia um buraco. Apesar de tudo isso, ela parecia bem de saúde.

Mas levada para o Taronga Wildlife Hospital, durante os seis dias seguintes, a tartaruga só defecou plástico. Seu estômago estava cheio de resíduos.

“Surpreendentemente o filhote sobreviveu e agora está bem. Alguns dos fragmentos eram muito afiados e poderiam ter causado sérios danos internos, então a tartaruga tem sorte de estar viva”, compartilhou a instituição em suas redes sociais.

O hospital veterinário australiano afirma que atende cerca de 80 tartarugas marinhas por ano, muitas das quais são internadas com ferimentos graves causados ​​por enredamento em linhas de pesca e cestos de caranguejo, além de ingestão de anzol e plástico.

A esperança agora é que uma nova legislação que entra em vigor, gradualmente, possa minimizar o impacto desse dejetos sobre os animais marinhos. A partir de 1º de junho, todas as sacolas plásticas de uso único estão proibidas. E a partir de novembro, outros itens descartáveis, incluindo canudos de plástico, agitadores, talheres, pratos, tigelas e cotonetes.

Apesar dos ferimentos e da falta de uma das nadadeiras, a veterinária do Taronga Wildlife Hospital garante que o filhote poderá ter uma vida normal no futuro, quando se tornar adulto e puder ser devolvido à natureza.

Há algumas semanas, escrevi sobre outro caso praticamente igual aqui no Brasil. Tartaruga resgatada em Santa Catarina é retrato do descaso do ser humano com oceano: uma tartaruga resgatada em Santa Catarina também tinha o estômago cheio de plástico. Durante o tratamento de reabilitação, ela expeliu fios de nylon, barbantes e até uma parte plástica de uma tampa de garrafa.

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Foto: Taronga Wildlife Hospital

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Pesquisadores de Fernando de Noronha fazem campanha para ‘batizar’ golfinho-nariz-de-garrafa, que apareceu sozinho no arquipélago

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Pesquisadores de Fernando de Noronha fazem campanha para ‘batizar’ golfinho-nariz-de-garrafa, que apareceu sozinho no arquipélago

Pesquisadores de Fernando de Noronha fazem campanha para 'batizar' golfinho-nariz-de-garrafa, que apareceu sozinho no arquipélago

Em outubro de 2021, este golfinho-nariz-de-garrafa apareceu sozinho no arquipélago de Fernando de Noronha e ficou. E, desde então, os pesquisadores do Projeto Golfinho Rotador o acompanham. Agora, querem batizá-lo com um lindo nome e resolveram fazer uma campanha para pedir a ajuda da população.

As sugestões podem ser feitas até 1º de agosto no perfil da organização no Instagram. No dia 2 será realizada uma votação online. 

Mas tem um detalhe: como os pesquisadores ainda desconhecem seu sexo, podem ser indicados nomes femininos, masculinos e unissex. Eis alguns dos indicados por seguidores do projeto: Botija, Kaiki, Nando/a, Mahalo, Juma, Guin, Alone, Narizinho, Ravi, Maré.

Para te inspirar ainda mais, eis algumas características do animal: ele é grande, solitário (como já contei) e possui cicatrizes no dorso. 

Aliás, foi por causa dessas marcas que os pesquisadores verificaram que se tratava do mesmo golfinho e decidiram que estava na hora de ele ganhar um nome, e não ser mais conhecido por um número.

“Já que identificamos que se trata do mesmo animal, pelas marcas características, nada mais justo que ele ou ela tenha um nome ao invés de um número. […] Muitos registros desse animal na ilha foram enviados por barqueiros e mergulhadores, colaborando com o que é chamado de Ciência Cidadã”, contou Cynthia Gerling. a coordenadora do Projeto Golfinho Rotador, ao G1. 

Segundo ela, a campanha para batizar o golfinho foi uma estratégia para conscientizar sobre a espécie. Muito bacana!

Foto: Projeto Golfinho Rotador/divulgação

Após acidente com embarcação há dez anos, a baleia-franca Guerreira reaparece no litoral brasileiro com um novo filhote

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Após acidente com embarcação há dez anos, a baleia-franca Guerreira reaparece no litoral brasileiro com um novo filhote

Após acidente com embarcação há dez anos, a baleia-franca Guerreira reaparece no litoral brasileiro com um novo filhote

Há 20 anos, em 2002, aconteceu o primeiro registro de Guerreira no litoral brasileiro. Ele foi feito pelo Projeto ProFranca, e na época, a fêmea da espécie baleia-franca-austral (Eubalaena australis) ainda não tinha sido batizada com esse nome. Na verdade, ela já recebeu dois apelidos desde então.

Em 2012, a baleia foi avistada novamente na praia de Mariscal, em Bombinhas (SC), junto com um filhote – os biólogos conseguem identificar os diferentes indivíduos através das calosidades em cima da cabeça.

Todavia, naquele ano, a fêmea apresentava uma cicatriz com cortes lineares, sinal de que tinha sido vítima de um acidente com uma embarcação. Houve muita preocupação entre especialistas sobre sua saúde e se ela resistiria. Foi quando ela começou a ser chamada tanto de Mariscal como Guerreira, devido à sua força para sobreviver aos ferimentos profundos.

E na última quarta-feira, 27/07, Guerreira surpreendeu a todos novamente. Ela foi observada, mais uma vez, em águas brasileiras. E dessa vez, acompanhada de um novo filhote. A equipe da R3 Animal a fotografou na Praia do Moçambique, em Florianópolis.

“Agora ela parece estar ótima e, pelos nossos cálculos, deve estar junto ao seu quarto filhote, o terceiro após sua visita que nos preocupou em 2012″, afirma revela Karina Groch, bióloga e diretora do projeto ProFRANCA.

Apesar da boa notícia, a história do acidente sofrido por Guerreira no passado continua sendo um alerta sobre a ameaça enfrentada não só pelas baleais-francas, mas tantos outros animais marinhos.

“Quem navega pela região costeira nesta época deve redobrar o cuidado com as baleias. Existem procedimentos que devem ser seguidos, como manter a distância de 300 metros, não perseguir, interromper ou tentar alterar o curso de deslocamento desses animais”, ressalta o oceanólogo Emanuel Ferreira, gerente da R3 Animal.

Após acidente com embarcação há dez anos, a baleia-franca Guerreira reaparece no litoral brasileiro com um novo filhote

Guerreira nadando ao lado de seu novo filhote

A baleia-franca-austral no litoral brasileiro

A baleia-franca-austral pode ser encontrada em oceanos do Hemisfério Sul e durante o inverno e a primavera é avistada na costa do Brasil, especialmente em Santa Catarina. Em geral, são feitos registros de nascimentos e fêmeas cuidados de seus filhotes.

Esses cetáceos podem atingir mais de 17 metros de comprimento e 60 toneladas. As fêmeas costumam ser maiores do que os machos. O corpo é negro e arredondado, sem nadadeira dorsal e a cabeça ocupa quase um quarto do comprimento total. A boca possui uma grande curvatura, que abriga 250 pares de cerdas da barbatana.

Outra característica marcante da espécie é o som do seu borrifo, que pode ser ouvido a metros de distância e a água expelida por ela atingir até 8 metros de altura.

A temporada reprodutiva das baleias-franca vai de julho a novembro, sendo setembro o mês de maior ocorrência desses animais em águas catarinenses.

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Fotos: Emanuel Ferreira/R3 Animal

A natureza é a farmácia original do mundo – retornar às raízes da medicina pode ajudar a preencher as lacunas na descoberta de medicamentos



A natureza é a farmácia original do mundo – retornar às raízes da medicina pode ajudar a preencher as lacunas na descoberta de medicamentos

Enquanto os humanos evoluíram ao longo de um período de aproximadamente 6 milhões de anos, os avanços na medicina moderna como a conhecemos hoje só aconteceram nos séculos 19 e 20. Então, como os humanos sobreviveram com sucesso por milhões de anos de doenças e enfermidades sem medicamentos e tratamentos modernos?

Essa foi uma pergunta que me fez pensar quando a pandemia do COVID-19 atingiu minha família na Índia em abril de 2020, quando havia acesso muito limitado a vacinas e tratamentos. Todos os meus anos trabalhando como cientista biomédico, exigindo evidências empíricas e testes formais de segurança antes de usar um tratamento, ficaram em segundo plano enquanto procurava terapias em potencial de qualquer fonte que pudesse encontrar, sejam artigos científicos ou informais. Eu estava pronto para tentar qualquer medicina experimental ou tradicional que pudesse ter uma chance de ajudar meu pai.

Felizmente, meu pai se recuperou. Não posso dizer com certeza se algum dos medicamentos tradicionais que usamos realmente o ajudou a se recuperar. Mas como alguém cuja carreira científica inteira se concentrou na descoberta de novos medicamentos a partir de compostos químicos encontrados na natureza, me perguntei se havia uma molécula nos medicamentos tradicionais que usávamos que pudesse ser isolada e otimizada para tratar o COVID-19.

Cientistas como eu têm procurado novos medicamentos para várias doenças, purificando compostos existentes na natureza em vez de sintetizar novos em laboratório. Do COVID-19 à resistência aos antibióticos, acredito que os sucessos do passado e as novas tecnologias apontam para o tremendo potencial de desenvolvimento de novos medicamentos a partir de produtos naturais.

A vantagem do produto natural

Os humanos evoluíram com o resto da natureza ao longo do tempo, e obter remédios é talvez uma das interações mais importantes que as pessoas continuam a ter com o mundo natural. Análises de DNA mostraram que os primeiros humanos podem ter tratado abscessos dentários com álamo, contendo o ingrediente ativo da aspirina, e molde (bolor) de Penicillium, contendo o antibiótico penicilina.

Os pesquisadores chamam as moléculas como as que dão ao álamo e ao Penicillium seus efeitos biológicos de produtos naturais porque são produzidas por organismos vivos como micróbios, fungos, corais e plantas. Esses produtos naturais evoluíram para serem estruturalmente “otimizados” para servir a funções biológicas específicas, principalmente para deter predadores ou obter uma vantagem de sobrevivência em um ambiente específico e sobre outros concorrentes.

Como os produtos naturais já são feitos para funcionar em criaturas vivas, isso os torna especialmente atraentes como fonte para a descoberta de medicamentos. Embora as proteínas possam parecer diferentes nos variados organismos, muitas têm características e funções estruturais semelhantes entre as espécies. Isso pode ajudar a facilitar a busca por proteínas relacionadas que funcionam nas pessoas.

Corredor da fama de produtos naturais

Produtos naturais derivados de micróbios e plantas são o maior recurso para a descoberta de medicamentos para a medicina moderna. Caso em questão, a descoberta do antibiótico penicilina em 1940 a partir do fungo Penicillium permitiu que os médicos tratassem infecções anteriormente fatais e iniciou a era dos antibióticos.

Em setembro de 2019, mais de 50% dos medicamentos aprovados pela FDA (conhecido como Federal Drug Administration, o órgão governamental dos EUA que faz o controle dos alimentos) atualmente disponíveis são derivados direta ou indiretamente de produtos naturais. Um dos medicamentos mais vendidos das últimas duas décadas, a atorvastatina (Lipitor), um medicamento anti-colesterol, é derivado de um composto produzido pelo fungo Penicillium citrinum. De 1992 a 2017, as vendas de atorvastatina nos EUA totalizaram US$ 94,67 bilhões.

Outros exemplos proeminentes de medicamentos derivados de produtos naturais atualmente utilizados incluem o antifúngico anfotericina B, isolado da bactéria do solo Streptomyces nodosus, o quimioterápico taxol, isolado da casca do teixo do Pacífico (conhecida como Yem do Pacífico), e o imunossupressor ciclosporina, isolado do fungo Tolypocladium inflatum.

Acredito que tratamentos não descobertos para uma ampla gama de doenças estão bem debaixo de nossos narizes em produtos naturais. Em janeiro de 2021, o FDA aprovou a voclosporina (Lupkynis), isolada do fungo Tolypocladium inflatum, para tratar o lúpus. Recentemente, os pesquisadores estão analisando o canabidiol (CBD) e outros compostos canabinoides como uma maneira potencial de prevenir ou tratar o COVID-19. A FDA ainda não autorizou nenhum medicamento contendo CBD para COVID-19.

Desafios na descoberta de produtos naturais

Os pesquisadores estão cada vez mais aptos a usar novas tecnologias e métodos de triagem para isolar produtos naturais não identificados anteriormente. A triagem de produtos naturais normalmente envolve a busca por uma grande biblioteca de extratos de fontes naturais. O Natural Product Drug Discovery Core (Núcleo de descoberta de medicamentos de produtos naturais), que eu fundei com meu colega David Sherman na Universidade de Michigan, por exemplo, procura por potenciais alvos de medicamentos em uma biblioteca contendo cerca de 50.000 extratos de produtos naturais, cada um contendo de 30 a 50 moléculas para testar.

No entanto, a descoberta de medicamentos à base de produtos naturais não é isenta de desafios. Desde a década de 1980, os produtos naturais caíram em desuso devido a uma série de desafios. Isso inclui dificuldade de acesso a métodos de triagem caros e limitações na tecnologia que não é capaz de analisar completamente a complexidade dos produtos naturais. Há também considerações ecológicas e legais, como acessar amostras de forma sustentável e manter a biodiversidade. As empresas farmacêuticas reduziram seus programas de descoberta de medicamentos baseados em produtos naturais, e o financiamento federal também está em falta devido à lucratividade limitada.

Encontrar novos medicamentos na natureza

Muitas vezes, novos medicamentos são necessários para emergências de saúde sem precedentes, como o COVID-19. Eles também são necessários para uma emergência de saúde que começou muito antes da pandemia – resistência a antibióticos.

Um relatório de setembro de 2017 da Organização Mundial da Saúde reafirmou que a resistência aos antibióticos é uma emergência de saúde global que comprometerá seriamente o progresso da medicina moderna. Se os antibióticos atuais perderem sua eficácia, intervenções médicas comuns, como cesarianas e tratamentos contra o câncer, podem se tornar incrivelmente arriscadas. O transplante pode tornar-se virtualmente impossível. Micróbios resistentes a antibióticos foram a causa direta de cerca de 1,27 milhão de mortes em 2019. Estima-se que tratar apenas seis dos 18 micróbios que representam uma ameaça à resistência a antibióticos custa mais de US$ 4,6 bilhões anualmente apenas nos EUA. A pandemia de COVID-19 reverteu o progresso anterior na abordagem desse problema, com um aumento de 15% nas infecções resistentes aos antimicrobianos de 2019 a 2020. Em contraste, as infecções resistentes aos antimicrobianos caíram 27% de 2012 a 2017. Entre as prováveis ​​causas de este retrocesso foram aumentos no uso de antibióticos, dificuldade em seguir as diretrizes de controle de infecção e internações hospitalares mais longas.

De acordo com estimativas recentes, cerca de 75% dos antibióticos aprovados são derivados de produtos naturais. Existem milhares de microrganismos no oceano para serem explorados como potenciais fontes de candidatos a medicamentos, para não mencionar todos os que estão em terra. Na busca por novos medicamentos para combater a resistência aos antibióticos, os produtos naturais ainda podem ser o caminho a percorrer.

Fonte: The Conversation / Ashu Tripathi
Tradução: Redação Ambientebrasil / Maria Beatriz Ayello Leite
Para ler a reportagem original em inglês acesse:
 https://theconversation.com/nature-is-the-worlds-original-pharmacy-returning-to-medicines-roots-could-help-fill-drug-discovery-gaps-176963